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Livro Decimo Oitavo Flávio Josefo

Capítulo 3 Flávio Josefo

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,
"MORTE DE SALOMÉ, IRMÃ DO REI HERODES, O GRANDE. MORTE DE AUGUSTO.
TIBÉRIO SUCEDE-O NO GOVERNO DO IMPÉRIO. HERODES, O TETRARCA,
CONSTRÓI EM HONRA DE TIBÉRIO A CIDADE DE TIBERÍADES. AGITAÇÕES
ENTRE OS PARTOS E NA ARMÊNIA. OUTRAS PERTURBAÇÕES NO REINO DE
COMAGENA. GERMÂNICO É ENVIADO DE ROMA AO ORIENTE PARA
CONSOLIDAR ALI A AUTORIDADE DO IMPÉRIO, E É ENVENENADO POR PISÃO.",
"761. Depois que Cirênio vendeu os bens confiscados a Arquelau e
terminou o inventário, que se realizou trinta e sete anos depois da batalha de
Áccio, ganha por Augusto contra Antônio, os judeus se rebelaram contra
Joazar, sumo sacerdote, e ele tirou-lhe o cargo e deu-o Anano, filho de Sete.
762. Vimos como Herodes e Filipe foram mantidos por Augusto nas
tetrarquias que o rei Herodes, o Grande, seu pai, lhes deixou em seu testamen-
to. Esses dois príncipes tudo fizeram para se estabelecer o mais vantajosamente
possível. Herodes cercou Seforis com muralhas, tornou-a a principal e a mais
forte de todas as praças da Galileia. Fortificou também a cidade de Betaranfta e
a chamou de Julíada, em honra à imperatriz. Filipe, por sua vez, embelezou
muito Paneada, que está perto da nascente do Jordão, e a chamou Cesaréia.
Aumentou também de tal modo a aldeia de Betsaida, situada às margens do
lago de Genesaré, que se poderia tomá-la por uma cidade. Povoou-a, enrique-
ceu-a e a chamou Julíada, em honra a Júlia, filha de Augusto.
763. Copônio governava a Judéia, quando chegou o dia da festa dos Pães
Asmos, a que chamamos Páscoa. Os sacerdotes, segundo o costume, abriram
as portas do Templo à meia-noite. Então, alguns samaritanos entraram
secretamente em Jerusalém e espalharam ossos de homens mortos pelas
galerias e em todo o resto do Templo, o que fez os sacerdotes serem mais
cuidadosos para o futuro.
764. Pouco depois, Copônio voltou a Roma. Foi substituído por Marco
Ambívio no governo da Judéia. Ao mesmo tempo, morreu Salomé, irmã do rei
Herodes, o Grande. Ela deixou à Júlia,* além de sua toparquia, Jamnia,
Fazaélida, situada no campo, e Arquelaide, onde havia uma imensa plantação
de palmeiras que produziam excelentes frutos.
* Esposa de Augusto.
765. Anio Rufo sucedeu a Ambívio, e foi durante o seu governo que
morreu César Augusto, na idade de setenta e sete anos. Esse príncipe, que foi o
segundo imperador dos romanos, reinou cinqüenta e sete anos, seis meses e
dois dias, incluindo-se os quatorze anos que reinou com Antônio.
766. Tibério Nero, filho de Lívia, sua mulher, substituiu-o no império e
enviou Valério Grato à Judéia como sucessor de Rufo, tornando-se aquele o seu
quinto governador. Ele tirou o sumo sacerdócio a Anano e deu-o a Ismael, filho
de Fabo. Mas logo depois Ismael foi deposto, e em seu lugar foi colocado
Eleazar, filho de Anano. Um ano depois, depuseram também a este, que foi
substituído por Simão, filho de Camite. Ele também só ocupou o cargo durante
um ano, sendo obrigado a resigná-lo em favor de José, cognominado Caifás.
Grato, após ter durante onze anos governado a Judéia, voltou a Roma, e Pôncio
Pilatos sucedeu-o.
767. Herodes, o tetrarca, conquistara as boas graças do imperador
Tibério. Construiu uma cidade à qual, por causa dele, deu o nome de
Tiberíades. Escolheu para esse fim um dos territórios mais férteis de toda a
Galiléia, que está à beira do lago de Genesaré e muito próximo das águas
quentes de Emaús. Povoou essa nova cidade em parte com estrangeiros e em
parte com galileus, alguns dos quais foram obrigados a se estabelecer ali, mas
alguns nobres para ela se dirigiram de boa vontade.
Esse príncipe tinha tanto desejo de tornar a cidade bem povoada que
recebeu até mesmo pessoas de baixa condição, provenientes de todas as partes,
e dentre as quais algumas tinham a aparência de escravos. Concedeu-lhes
grandes privilégios e fez benefícios a muitos, dando terras a uns e casas a
outros, para obrigá-los a não se afastar dali, como de fato havia motivo para
temer, se não o fizesse, porque o lugar onde a cidade se situa está cheio de
sepulcros, o que é tão contrário às nossas leis que passa por impuro durante
sete dias aquele que tiver de permanecer em semelhante lugar.
768. Nesse mesmo tempo, Fraate, rei dos partos, foi morto à traição por
Fraatace, seu filho, do modo que vou narrar: Fraate tinha vários filhos
legítimos, mas ficou perdidamente enamorado de uma criada italiana, que o
imperador lhe havia mandado, entre outros presentes, e que era na verdade
muito formosa. Considerou-a de início uma concubina, mas a paixão crescia
sempre e, como já tivera com ela um filho — Fraatace —, desposou-a. Ela era
poderosa e tinha ascendência sobre o espírito dele, e por isso concebeu a idéia
de entregar o império dos partos nas mãos do filho. Mas os seus esforços só
teriam efeito se os filhos legítimos de Fraate fossem afastados. Ela então o
persuadiu a enviá-los como reféns a Roma. O soberano, que nada lhe podia
recusar, atendeu-a.
Assim, Fraatace ficou sozinho com ela. Esse detestável filho tinha grande
desejo de reinar e, não esperando nem mesmo a morte do pai, mandou matá-lo,
a conselho de sua mãe, com a qual, sabia-se, ele vivia de maneira abominável.
O horror causado por esse parricídio e pelo incesto atraiu sobre ele um ódio
geral, e ele foi expulso, morrendo antes de assumir a sua criminosa dominação.
A nobreza então julgava que o Estado só se poderia manter sob o governo
de um rei e que esse rei deveria ser da família dos arsácidas. Considerando a
família de Fraate conspurcada pela horrível impudicícia daquela italiana,
escolheram Herodes, que era de sangue real, para elevá-lo ao trono e enviou
embaixadores a ele. Mas esse príncipe era tão colérico, tão cruel e de tão difícil
acesso que o povo não pôde tolerá-lo. Conspiraram contra ele. Como os partos
tinham o costume de levar consigo espadas, ele foi morto num banquete ou,
como outros dizem, numa caçada.
Assim, os partos, não tendo mais reis, mandaram pedir em Roma que um
dos filhos de Fraate reinasse sobre eles. Os príncipe estavam então sob
custódia em Roma, e deram-lhe Vonono, que foi preferido aos irmão porque o
julgaram, por consentimento unânime dos dois grandes impérios, mais digno
que os outros de ser elevado àquele alto grau de honra. Mas como esses
bárbaros são naturalmente inconstantes e insolentes, os principais dentre eles
se arrependeram bem depressa de sua escolha e disseram que não queriam
mais obedecer a um escravo (chamavam assim o príncipe porque ele fora
entregue como refém aos romanos). Alegavam também que ele chegara à
condição de rei não pelo direito da guerra, mas em tempo de paz.
Depois dessa revolta, mandaram oferecer a coroa a Artabano, rei dos
medos, que também era da família dos arsácidas. Ele a aceitou com alegria e
veio com um grande exército. Mas como somente a nobreza tomava parte
nesses acontecimentos, Vonono, ao qual o povo continuava fiel, venceu
Artabano numa batalha e obrigou-o a fugir para os montes da Média. Artabano
reuniu depois novas forças e travou uma segunda batalha, na qual Vonono foi
vencido e fugiu com os seus homens para a Armênia. Artabano, após promover
grande carnificina entre os partos, avançou até Ctesifon e ficou assim senhor de
todo o reino.
Quanto a Vonono, logo que chegou à Armênia concebeu a idéia de se
tornar rei. Para esse fim, enviou embaixadores a Roma, porém Tibério, que o
desprezava e não queria ofender os partos, os quais ameaçavam declarar guerra
ao império, recusou-se a ajudá-lo. Assim, sem esperanças e sem nada
conseguir dos romanos, vendo que o mais poderoso povo da Armênia (que
habitava as cercanias de Nifate) abraçara o partido de Artabano, foi ter com
Silano, governador da Síria, que o recebeu em consideração por ele ter sido
outrora educado em Roma. Artabano, não encontrando mais resistência,
constituiu Orodé, seu filho, rei da Armênia.
769. Antíoco, rei de Comagena, morreu naquela mesma época. Surgiu
então uma grande divergência entre a nobreza e o povo. A nobreza queria que o
reino fosse reduzido a província, e o povo exigia o contrário, querendo ser
governado por um rei, como antes. Para resolver esse caso, Germânico, por um
decreto do senado, foi enviado ao Oriente. Parece que o destino preparou essa
ocasião para destruir o ilustre príncipe. Após organizar com habilidade todos os
negócios, como era de se desejar, ele foi envenenado por Pisão, como veremos
mais adiante.",