Livro Decimo Oitavo Flávio Josefo
Capítulo 4 Flávio Josefo
,
"REVOLTA DOS JUDEUS CONTRA PILATOS, GOVERNADOR DAJUDÉIA,POR TER FEITO
ENTRAR EM JERUSALÉM AS BANDEIRAS, QUE TRAZIAM A IMAGEM DO IMPERADOR. ELE
AS RETIRA. LOUVORES DE JESUS CRISTO. HORRÍVEL OFENSA FEITA A UMA DAMA
ROMANA PELOS SACERDOTES DA DEUSA ÍSIS E CASTIGO QUE TIBÉRIO LHES INFLIGE.",
"770. Pilatos, governador da Judéia, enviou dos quartéis de inverno de
Cesaréia a Jerusalém tropas que traziam em seus estandartes a imagem do
imperador, o que é tão contrário às nossas leis que nenhum outro governador
antes dele o fizera. As tropas entraram de noite, e por isso apenas no dia
seguinte é que se percebeu. Imediatamente os judeus foram em grande número
procurar Pilatos em Cesaréia e durante vários dias rogaram-lhe que removesse
aqueles estandartes. Ele negou o pedido, dizendo que não o poderia fazer sem
ofender o imperador. Mas como eles continuavam a insistir, ordenou aos seus
soldados, no sétimo dia, que secretamente se conservassem em armas e subiu
em seguida ao tribunal que mandara erguer de propósito no local dos exercícios
públicos, porque era o lugar mais apropriado para escondê-los.
Os judeus, porém, insistiam no pedido. Ele então deu o sinal aos
soldados, que os envolveram imediatamente por todos os lados, e ameaçou
mandar matá-los se continuassem a insistir e não voltassem logo cada qual
para a sua casa. A essas palavras, eles lançaram-se todos por terra e
apresentaram-lhe a garganta descoberta, para mostrar que a observância de
suas leis lhes era muito mais cara que a própria vida. Aquela constância e zelo
tão ardentes pela religião causou tanto assombro a Pilatos que ele ordenou que
se levassem os estandarte de Jerusalém para Cesaréia.
771. Em seguida, Pilatos tentou retirar dinheiro do tesouro sagrado para
fazer vir a Jerusalém, pelos aquedutos, a água cujas nascentes distavam uns
duzentos estádios. O povo ficou de tal modo revoltado que veio em grupos
numerosos queixar-se e rogar-lhe que não continuasse aquele projeto. E, como
acontece ordinariamente no meio de uma população exaltada, alguns chegaram
de dizer-lhe palavras injuriosas. Ele ordenou então aos soldados que
escondessem cacetes debaixo da túnica e rodeassem a multidão. Quando
recomeçaram as injúrias, sinalizou aos soldados para que executassem o que
havia determinado. Eles não somente obedeceram, como fizeram mais do que
ele desejava, pois espancaram tanto os sediciosos quanto os indiferentes. Os
judeus não estavam armados, e por isso muitos morreram e vários foram
feridos. E a sedição terminou.
772. Nesse mesmo tempo, apareceu JESUS, que era um homem sábio, se
é que podemos considerá-lo simplesmente um homem, tão admiráveis eram as
suas obras. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e
foi seguido não somente por muito judeus, mas também por muitos gentios. Ele
era o CRISTO. Os mais ilustres dentre os de nossa nação acusaram-no perante
Pilatos, e este ordenou que o crucificassem. Os que o haviam amado durante a
sua vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e
vivo no terceiro dia, como os santos profetas haviam predito, dizendo também
que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, os quais vemos
ainda hoje, tiraram o seu nome.
773. Por esse mesmo tempo, aconteceu uma grande perturbação na
Judéia e um horrível escândalo em Roma, durante os sacrifícios de ísis.
Começarei a falar deste último e depois passarei ao que se refere aos judeus.
Havia em Roma uma jovem senhora, de nome Paulina, que não era menos
ilustre por sua virtude que por seu nascimento e era tão bela quanto rica. Havia
desposado Saturnino, a quem não poderíamos louvar suficientemente,
bastando dizer que era digno de ser o marido de semelhante mulher. Décio
Mundo, jovem que ocupava uma posição muito elevada na ordem dos
cavaleiros, concebeu por ela o amor mais ardente que se possa imaginar. E,
como ela era de tal virtude que não se deixava conquistar por presentes, a
impossibilidade de obter o seu desejo aumentou-lhe ainda mais a paixão. Ele
chegou a oferecer-lhe duzentas mil dracmas por uma noite, porém ela rejeitou a
proposta com desprezo.
A vida tornou-se tão insuportável para Mundo que ele resolveu matar-se
pela fome. No entanto, uma das libertas de seu pai, chamada Idé, que era muito
hábil em determinadas coisas, as quais convém mais ignorar que saber,
procurou-o para dizer-lhe que não perdesse a esperança. Ela prometeu obter o
que ele desejava, sem que lhe custasse mais de cinqüenta mil dracmas. Tal
proposta fez Mundo retomar alento, e ele deu-lhe a soma que ela pedia.
Como a tal liberta sabia que o dinheiro era inútil para tentar uma mulher
tão casta, resolveu servir-se de um outro meio. Sabendo que ela nutria uma
devoção muito particular pela deusa ísis, foi procurar alguns de seus
sacerdotes. Após comprar-lhes o segredo, informou-os do extremo amor de
Mundo para com Paulina. Se eles encontrassem um meio de satisfazer aquela
paixão, ela lhes daria no mesmo instante vinte e cinco mil dracmas e outro
tanto depois que houvessem cumprido a promessa. Na esperança de tão grande
recompensa, eles aceitaram a proposta, e o mais velho foi imediatamente dizer a
Paulina que o deus Anúbis tinha paixão por ela e lhe ordenava que fosse
procurá-lo.
A dama sentiu-se tão honrada com isso que se vangloriou perante as
amigas e disse o mesmo ao marido, o qual, conhecendo a sua extrema
castidade, consentiu de boa mente que ela fosse procurá-lo. Depois cear, ela foi
então ao Templo. Chegou a hora de se pôr ao leito, e aquele sacerdote fechou-a
num quarto onde não havia luz e onde Mundo, que ela julgava ser o deus
Anúbis, estava escondido. Ele passou toda a noite com ela, e no dia seguinte de
manhã, antes que aqueles detestáveis sacerdotes, cuja maldade a havia feito
cair naquela cilada, se tivessem levantado, ela foi procurar o marido e contou-
lhe o que se havia passado — e continuou a se vangloriar junto às amigas.
Tudo lhes pareceu tão incrível que não podiam acreditar no que ela dissera,
mas, por outro lado, não podiam desconfiar de sua virtude.
Três dias depois, Mundo encontrou-a por acaso e disse-lhe: Na verdade
devo agradecer-vos por terdes recusado as duzentas mil dracmas que vos
ofereci. No entanto fizestes o que eu desejava. Que me importa que tenhais
desprezado Mundo, pois obtive o que queria sob o nome de Anúbis. Dizendo
essas palavras, foi-se embora. Paulina percebeu então o horrível engano em que
havia caído. Rasgou os seus vestes, contou ao marido o que havia acontecido e
rogou-lhe que não deixasse impune tamanho crime. Ele foi em seguida falar
com o imperador, a quem relatou o fato. Tibério, depois de estar bem informado
de toda a verdade, mandou crucificar aqueles maus sacerdotes e com eles Idé,
que imaginara a trama. Mandou também destruir o Templo de ísis e lançar-lhe
a estátua no Tibre. Quanto a Mundo, contentou-se em mandá-lo ao exílio,
porque atribuía o seu crime à violência de seu amor. Retomemos, porém, o fio
de nossa narração, para dizermos o que aconteceu aos judeus que moravam em
Roma.",