🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro Decimo Oitavo Flávio Josefo

Capítulo 11 Flávio Josefo

123456789101112
,
"CAIO ORDENA A PETRÔNIO, GOVERNADOR DA SÍRIA, QUE OBRIGUE OS
JUDEUS, PELAS ARMAS, A RECEBER A SUA ESTÁTUA NO TEMPLO. PETRÔNIO,
COMOVIDO PELAS SÚPLICAS DOS JUDEUS, ESCREVE EM FAVOR DELES.",
"791. Esse soberbo príncipe, não podendo tolerar que os judeus fossem os
únicos a recusar obedecer-lhe, enviou Petrônio à Síria para ser governador em
lugar de Vitélio, com ordem de entrar com armas na Judéia e colocar a sua
estátua no Templo, em Jerusalém, se os judeus o consentissem, ou de fazer-
lhes guerra e obrigá-los a aceitá-la à força, caso a rejeitassem. Petrônio, logo
que chegou à Síria, reuniu o que pôde de tropas auxiliares para unir às duas
legiões romanas que o acompanhavam e estabeleceu quartéis de inverno em
Tolemaida, com a intenção de iniciar a guerra assim que chegasse a primavera.
Ele escreveu a Caio informando-o dessa decisão, e o imperador louvou a sua
diligência e ordenou-lhe que não deixasse de guerrear os judeus, se estes
permanecessem obstinados.
No entanto, vários dentre os de nossa nação foram procurar Petrônio em
Tolemaida para rogar-lhe que não os obrigasse a fazer uma coisa tão contrária
à sua religião. Declararam que, se ele estava absolutamente resolvido a colocar
a estátua do imperador no Templo, então devia começar por matá-los todos,
pois, enquanto vivessem, jamais permitiriam que se violassem as leis que
haviam recebido de seu admirável legislador, as quais eles e seus antepassados
observavam havia tantos séculos.
Petrônio respondeu-lhes: As vossas razões poderiam comover-me, se o
governador se orientasse pelos meus avisos, mas sou obrigado a obedecer-lhe, e
a isso não poderia eu faltar sem correr o risco de ser morto. Os judeus retruca-
ram: Se estais resolvido a executar a todo custo as ordens do imperador, tam-
bém nós estamos decididos a observar as nossas leis e a imitar a virtude de
nossos antepassados, pondo toda a nossa confiança no auxílio de Deus. Acaso
poderíamos, sem impiedade, preferir a conservação de nossa vida à obediência
que devemos a Ele ou não nos expor ao perigo a fim de permanecermos em
nossa santa religião? E, como Deus sabe que é somente para lhe prestarmos a
honra que lhe é devida que estamos prontos a nos arriscar, esperamos a sua
proteção. Tudo o que nos possa acontecer, mesmo a morte, ser-nos-á mais fácil
de suportar que a vergonha e a dor de uma obediência covarde e a violação de
nossas leis, que atrairia sobre nós a cólera de Deus, a qual, vós mesmo podeis
julgar, é muito mais temível que a do imperador.
Essas palavras convenceram Petrônio de que ele não poderia vencer a
obstinação dos judeus e que seria absolutamente necessário recorrer às armas
e derramar muito sangue antes que pudesse colocar a estátua no Templo.
Então ele partiu para Tiberíades, acompanhado somente pelos seus amigos e
domésticos, para julgar melhor do estado das coisas. E os judeus, que não
podiam ignorar o perigo que os ameaçava, embora temessem muito mais a
violação de suas leis, foram, em grandíssimo número, procurá-lo em Tiberíades
para pedir-lhe ainda que não os reduzisse ao desespero e nem insistisse em
colocar no Templo aquela estátua, que iria profanar-lhe a santidade.
Petrônio então inquiriu: Estais mesmo resolvidos a fazer guerra ao
imperador, sem considerar o seu poder nem a vossa fragilidade? Eles
responderam: Nós não tomaremos as armas, porém morreremos todos antes
de violar as nossas leis. Depois de assim falar, eles se lançaram por terra e,
apresentando a garganta, mostraram que estavam dispostos a sofrer até mesmo
a morte. Esse espetáculo tão comovente continuou por quarenta dias, e os
judeus, durante esse tempo, abandonaram a cultura de suas terras, embora
fosse a época de semear, tão firmes estavam na resolução de morrer a permitir
a consagração daquela estátua.
Estavam as coisas nesse pé, quando Aristóbulo, irmão do rei Agripa,
acompanhado por Elcias, cognominado o Grande, dos principais dessa família e
dos mais ilustres entre os judeus, foi procurar Petrônio para pedir-lhe que
considerasse, pois a resolução daquele povo era inflexível; que não os levasse ao
desespero, mas comunicasse ao imperador que eles não tinham intenção
alguma de se revoltar; que somente o temor de violar as suas leis fazia com que
eles preferissem morrer a receber aquela estátua; que eles haviam até mesmo
abandonado o cultivo de seus campos, e, não havendo semeadura,
aconteceriam muitos roubos e saques, e eles não teriam meios de pagar o
tributo ao imperador; que o príncipe se comovesse com tais razões e não se
deixasse levar a medidas extremas contra uma ação que não tinha nenhuma
característica de revolta; e que, se ele permanecesse firme em sua resolução,
nada impediria que se começasse a guerra.
Aristóbulo, depois de falar com muito entusiasmo, conseguiu comover
Petrônio, ante as considerações que fizera, bem como pela presença de tantas
outras pessoas da nobreza, pela importância do assunto, pela invencível
confiança dos judeus e pela convicção da injustiça que ele cometeria ao
sacrificar um tão grande número de homens só para satisfazer a loucura de
Caio, sem falar que, por ter ofendido a Deus, iria viver dali em diante na
expectativa de um castigo. Petrônio então achou melhor escrever ao imperador
e apresentar a dificuldade que encontrava na execução de suas ordens, embora
soubesse que isso iria provocar-lhe um grande acesso de ira, por não ver
imediatamente cumpridas as suas determinações, e que, além de tudo, corria
um grande perigo. Porém, ainda que não pudesse acalmá-lo e, em vez de fazê-lo
mudar de opinião, atraísse a cólera do imperador contra si, estava certo de que
era seu dever, como homem de bem, não temer expor a própria vida para salvar
a de um grande povo.
Depois de tomar essa resolução, ordenou que os judeus viessem a
Tiberíades. Eles acorreram em grande número, e ele assim lhes falou: Não foi
por minha própria iniciativa que reuni tantas tropas, mas a isso fui obrigado
para executar uma ordem do imperador, cujo poder é tão grande e absoluto que
corre grave perigo quem tarda em obedecer-lhe. E a isso sou tanto mais
obrigado quanto foi ele mesmo que me elevou a esta dignidade. No entanto,
como não poderia condenar o vosso zelo pela observância de vossas leis e nem
concordar que o príncipe tente profanar o Templo de Deus, prefiro a vossa
salvação à minha segurança e à minha sorte. Escreverei então ao imperador
para apresentar-lhe as vossas razões e os vossos sentimentos e nada
esquecerei, no que depender de mim, para tentar persuadi-lo a não os tomar
em mau sentido. Queira Deus, cujo poder está tão acima da força dos homens,
se for do seu agrado, ajudar-me em manter a vossa religião na sua integridade,
não castigando o imperador pelo pecado que a sua paixão por ser honrado o faz
cometer. Se ele se julgar ofendido com o que vou escrever, que volte a sua
cólera contra mim. Consolar-me-ei com tudo o que me fizer sofrer, ainda que
me venha a tirar a vida, contanto que eu não veja perecer uma tão grande
multidão de gente cujas ações são louváveis e justas. Assim, retornai todos a
vossas casas e recomeçai o cultivo das terras, pois me encarrego de escrever a
Roma e de vos ajudar com todas as minhas forças, tanto por mim mesmo
quanto por meio de meus amigos.
Deus não tardou a demonstrar o quanto aprovava o proceder desse sábio
governador e a dar a toda aquela assembléia um testemunho visível de seu
auxílio. Apenas Petrônio encerrou as suas palavras, exortando ainda os judeus
a criar ânimo e a cultivar as terras, o ar, que estava sereno e sem a menor
sombra de nuvem, transformou-se completamente, e caiu uma chuva
abundante, contra todas as expectativas, ante uma seca tão forte como a que
então se atravessava e que levava ao desespero os homens, até ali muitas vezes
enganados pela aparência carregada de alguns dias nublados, mas que não
lhes traziam água.
Assim, os judeus ficaram convencidos de que os serviços que o seu
governador lhes prometia prestar não seriam inúteis. O próprio Petrônio ficou
impressionado com aquele prodígio, tanto que não pôde duvidar de que Deus
cuidava daquele povo. Não deixou de escrever ao imperador e aconselhou-o a
não lançar no desespero uma nação, tentando destruí-la, nem obrigá-la por
uma luta sangrenta a abandonar a religião que professava. Havia também a
considerar as grandes rendas de que se privaria e a maldição que esse ato
atrairia sobre ele nos tempos futuros. A isso acrescentou que Deus havia
manifestado por meio de sinais sensíveis o seu poder e o quanto aquele povo
lhe era querido.
792. O rei Agripa, que então estava em Roma e era cada vez mais
estimado pelo imperador, deu-lhe um banquete, tão suntuoso que sobrepujou
em magnificência, em cortesia e em toda espécie de iguarias a todos os que
antes se lhe ofereceram, sem mesmo se excetuarem os do próprio imperador,
tal era o seu esforço para se manter agradável àquele príncipe. Caio, admirado
de tanta suntuosidade e comovido pelo fato de que Agripa, a fim de agradá-lo,
não temia fazer uma despesa que ia além de suas posses, não quis se mostrar
inferior em generosidade. Assim, no meio da alegria, quando o vinho começava
a deixá-lo excitado, disse a Agripa, que bebia à sua saúde: Não é de hoje que
reconheço a vossa afeição. Dela me destes provas, mesmo com perigo, vivendo
ainda Tibério, e vejo que continuais a tudo fazer para manifestar a vossa boa
vontade para comigo. Assim, como me seria vergonhoso deixar-me sobrepujar
por vós, quero reparar tudo o que deixei de vos fazer até agora e acrescentar
grande generosidade à minha liberalidade precedente, e que a vossa felicidade
futura sobrepuje em muito a que agora desfrutais.
Caio, assim falando, não duvidava de que Agripa lhe haveria de pedir
grandes extensões de terra ou os tributos de algumas cidades. Agripa, no
entanto, havia muito tempo estava preparado para pedir uma outra graça,
tomando aquela ocasião para obtê-la, sem manifestar, todavia, que era um
desígnio premeditado. E respondeu que, quando se havia unido a ele contra a
vontade de Tibério, não o fizera com o fim de se aproveitar disso, mas somente
pelo desejo de conquistar-lhe as boas graças. E os benefícios com que ele o
honrara haviam sobrepujado as suas maiores expectativas. E acrescentou:
Pois, ainda que me pudésseis conceder outras graças, já me satisfizestes
plenamente quanto ao que eu poderia desejar de vossa bondade.
Caio, admirado de tão grande moderação, insistiu que ele pedisse o que
desejava, se estivesse em seu poder concedê-lo. Então Agripa respondeu:
Senhor, uma vez que a vossa extrema bondade para comigo faz com que me
julgueis digno de vossos favores, far-vos-ei um pedido que não se refere ao
acréscimo de meus bens, pois a vossa liberalidade me pôs em condições de não
mais precisar disso. A graça que vos suplico granjeará para vós uma grande
fama de piedade, conquistará o favor de Deus em todos os vossos desígnios e
me será mais vantajosa que qualquer outra, dentre as tantas que já me
concedestes. O meu pedido é que revogueis a ordem que destes a Petrônio de
pôr a vossa estátua no Templo, em Jerusalém.
Agripa, após enunciar o seu pedido, não ignorava que arriscava nisso
nada menos que a própria vida, pois estava se contrapondo a uma ordem do
colérico imperador. Mas Caio, cujo espírito Agripa havia acalmado pelos
serviços que lhe prestara, teve vergonha de recusar-lhe uma graça que ele
próprio insistira em conceder diante de diversas testemunhas. Não poderia,
daquele modo, faltar à palavra que empenhara. Ele admirou-se da generosidade
de Agripa, que o fazia preferir a conservação das leis de seu país e do culto ao
Deus que ele adorava ao progresso de seu reino e ao acréscimo de suas rendas.
Assim, concedeu-lhe aquela graça e escreveu a Petrônio louvando-o por
haver reunido as tropas com tanta solicitude a fim de executar o que ele lhe
havia ordenado. E, caso já houvesse colocado a estátua no Templo, que
deixasse as coisas como estavam. Mas, se lá ela ainda não estava, que desse
descanso às tropas e regressasse à Síria sem nada mais fazer, porque estava
concedendo aquela dádiva aos judeus, a rogo de Agripa, a quem muito estimava
para lhe negar alguma coisa. Era isso que o dizia a carta. Porém, vindo a saber
que os judeus ameaçavam tomar as armas e considerando aquela ousadia uma
atitude atrevida e intolerável contra a sua autoridade, ficou muito encolerizado,
pois não sabia moderar-se, fossem quais fossem os motivos, antes, vangloriava-
se de se deixar levar pela paixão.
Assim, escreveu a Petrônio imediatamente, nestes termos: Uma vez que
preferistes os presentes dos judeus às minhas ordens e não tendes receio de me
desobedecer para agradá-los, é meu desejo que sejais vós mesmo o vosso juiz
quanto ao castigo que mereceis, pois atraístes sobre vós a minha cólera, e que o
vosso exemplo ensine ao século presente e aos futuros o respeito que é devido
às ordens dos imperadores. A viagem de navegação daqueles que levavam a
carta, que era mais uma sentença de morte que uma missiva, foi muito
demorada, e Petrônio, ao recebê-la, já havia sido informado da morte de Caio.
Nisso Deus mostrou que não havia esquecido o perigo ao qual Petrônio se havia
exposto, pela sua honra e para obsequiar o seu povo, e manifestou um sinal de
sua vingança sobre esse ímpio imperador, que ousava igualar-se a Ele.
Tão generosa ação de Petrônio não somente lhe granjeou a estima de
todas as províncias submetidas ao império como até mesmo a de todos os
romanos, particularmente dos senadores, ao quais esse mau imperador tinha
prazer em perseguir. Direi a seu tempo a causa da conspiração que se tramou
contra ele e a maneira como foi executada. Mas aqui devo acrescentar que
Petrônio, após receber a primeira carta, que lhe foi entregue por último, não se
cansava de admirar o proceder e a providência de Deus, que tão prontamente o
havia recompensado por seu respeito ao Templo e pelo auxílio que prestara aos
judeus.",