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Livro Decimo Oitavo Flávio Josefo

Capítulo 2 Flávio Josefo

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,
"SOBRE AS QUATRO SEITAS QUE HAVIA ENTRE OS JUDEUS.",
"760. Entre os judeus, os que faziam profissão particular de sabedoria
estavam, há vários séculos, divididos em três seitas: os essênios, os saduceus e
os fariseus, das quais, embora eu já tenha falado no segundo livro da Guerra
dos judeus, penso que devo dizer aqui também alguma coisa.
A maneira de viver dos fariseus não é fácil nem cheia de delícias: é
simples. Eles se apegam obstinadamente ao que se convencem que devem
abraçar. Honram de tal modo os velhos que não ousam nem mesmo contradizê-
los. Atribuem ao destino tudo o que acontece, sem, todavia, tirar ao homem o
poder de consentir. De sorte que, sendo tudo feito por ordem de Deus, depende,
no entanto, da nossa vontade entregarmo-nos à virtude ou ao vício. Eles julgam
que as almas são imortais, julgadas em um outro mundo e recompensadas ou
castigadas segundo foram neste — virtuosas ou viciosas — e que umas são
eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida, e outras retornam a esta.
Eles granjearam, por essa crença, tão grande autoridade entre o povo que este
segue os seus sentimentos em tudo o que se refere ao culto de Deus e às
orações solenes que lhe são feitas. Assim, cidades inteiras dão testemunhos
valiosos de sua virtude, de sua maneira de viver e de seus discursos.
A opinião dos saduceus é que as almas morrem com os corpos e que a
única coisa que somos obrigados a fazer é observar a lei, sendo um ato de
virtude não tentar exceder em sabedoria os que a ensinam. Os adeptos dessa
seita são em pequeno número, mas ela é composta de pessoas da mais alta
condição. Quase sempre, nada se faz segundo o seu parecer, porque quando
eles são elevados aos cargos e às honras, muitas vezes contra a própria
vontade, são obrigados a se conformar com o proceder dos fariseus, pois o povo
não permitiria qualquer oposição a estes.
Os essênios, a terceira seita, atribuem e entregam todas as coisas, sem
exceção, à providência de Deus. Crêem que as almas são imortais, acham que
se deve fazer todo o possível para praticar a justiça e se contentam em enviar as
suas ofertas ao Templo, sem oferecer lá os sacrifícios, porque o fazem em
particular, com cerimônias ainda maiores. Os seus costumes são
irreprocháveis, e a sua única ocupação é cultivar a terra. Sua virtude é tão
admirável que supera em muito a dos gregos e de outras nações, porque eles
fazem disso todo o seu empenho e preocupação e a ela se aplicam
continuamente. Possuem todos os bens em comum, sem que os ricos tenham
maior parte que os pobres. O seu número é superior a quatro mil. Não têm
mulheres nem criados, porque estão convencidos de que as mulheres não
contribuem para o descanso da vida. Quanto aos criados, consideram uma
ofensa à natureza, que fez todos os homens iguais, querer sujeitá-los. Assim,
eles se servem uns dos outros e escolhem homens de bem da ordem dos
sacerdotes, que recebem tudo o que eles recolhem de seu trabalho e têm o
cuidado de fornecer alimento a todos. Essa maneira de viver é quase igual à dos
que chamamos plistes e vivem entre os dácios.
Judas, de quem acabamos de falar, foi o fundador da quarta seita. Está
em tudo de acordo com a dos fariseus, exceto que aqueles que fazem profissão
para adotá-la afirmam que há um só Deus, ao qual se deve reconhecer por
Senhor e Rei. Eles têm um amor tão ardente pela liberdade que não há tormen-
tos que não sofram ou que não deixem sofrer as pessoas mais caras antes de
atribuir a quem quer que seja o nome de senhor e mestre. A esse respeito não
me delongarei mais, porque é coisa conhecida de tantas pessoas que, em vez de
temer que não se preste fé ao que digo, tenho somente o receio de não poder
expressar até que ponto vai a sua incrível paciência e o seu desprezo pela dor.
Mas essa invencível firmeza aumentou ainda pela maneira ultrajosa como
Géssio Floro, governador da Judéia, tratou a nossa nação e a levou por fim a se
revoltar contra os romanos.",