Livro Decimo Flávio Josefo
Capítulo 5 Flávio Josefo
,
"GRANDES VIRTUDES E INSIGNE PIEDADE DE JOSIAS, REI DEJUDÁ. ELE AFASTA
COMPLETAMENTE A IDOLATRIA DO REINO E RESTAURA O CULTO A DEUS.",
"416. 2 Reis 22. A mãe de Josias, rei de Judá, chamada Jedida, era da
cidade de Bozcate. Esse príncipe era tão bom e tão inclinado à virtude que
durante toda a sua vida se propôs imitar o rei Davi, tomando-o como modelo. E,
desde a idade de doze anos, deu prova ilustre de sua piedade e justiça, pois
exortou o povo a renunciar o culto aos falsos deuses e adorar ao Deus de seus
antepassados. Começou, a partir de então, a restaurar a antiga observância às
leis, com a prudência de quem já era de muito mais idade. Fazia observar
inviolavelmente o que piedosamente era determinado. Além dessa prova de
sabedoria natural, serviu-se do conselho dos mais velhos e experimentados
para restaurar o culto a Deus e restabelecer a ordem em suas terras. Assim,
não corria perigo de cair nas faltas que haviam provocado a ruína de alguns de
seus predecessores.
Ele mandou indagar de todos os lugares do reino e de Jerusalém onde se
adoravam falsas divindades. Ordenou que se cortassem as árvores e
derrubassem os altares que lhes eram consagrados e desfez-se com desprezo de
tudo o que os outros reis haviam feito para prestar honras e homenagens
sacrílegas. Assim, conseguiu tirar o povo de sua louca veneração e levou-o a
prestar ao verdadeiro Deus a adoração que lhe era devida. Mandou em seguida
oferecer os holocaustos e sacrifícios de costume e nomeou magistrados e
censores para a administração de uma exata justiça e para o extremo cuidado
em que cada qual cumprisse o seu dever. Ordenou que todas as cidades
submetidas ao seu domínio fizessem, por sua ordem, donativos de ouro e prata
para a restauração do Templo, como cada qual quisesse, sem se coagir quem
quer que fosse. Entregou a direção e a responsabilidade dessa obra a Amasa,
governador de Jerusalém, a Safa, secretário, a joatão, intendente dos registros,
e a Hilquias, sumo sacerdote. Eles trabalharam com tanta solicitude que logo o
Templo foi remodelado e restaurado, e todos comentavam com prazer aquela
ilustre demonstração da piedade do devoto rei.
No décimo oitavo ano de seu reinado, ele ordenou ao sumo sacerdote que
mandasse fazer taças e vasos para o serviço do Templo, não somente com o
restante do ouro e da prata doados para a preparação, mas também com tudo o
que estava no tesouro. Ao executar a ordem, o sumo sacerdote encontrou os
Livros Santos deixados por Moisés, que eram guardados no Templo. Entregou-
os a Safa, o secretário, que os leu e levou-os ao rei. E, depois de informá-lo que
tudo o que ele ordenara fora executado, leu-lhe os livros. O piedoso príncipe
ficou tão comovido que rasgou as próprias vestes e mandou Safa, o sumo sa-
cerdote, e alguns dos que lhe eram mais fiéis falar com a profetisa Hulda, mu-
lher de Salum, que era um homem ilustre e de família nobre. Eles pediram, em
nome do rei, que ela aplacasse a cólera de Deus, de modo que Ele lhe fosse
favorável (pois tinha motivo para temer o castigo pelos pecados cometidos pelos
reis seus predecessores, que transgrediram as leis de Moisés) e ele não fosse
expulso de seu país com todo o povo e levado a uma terra estrangeira, onde
terminaria miseravelmente a vida.
A profetisa respondeu que comunicassem ao rei que nenhuma prece seria
capaz de obter de Deus a revogação de sua sentença: eles seriam expulsos de
sua terra e despojados de todas as coisas, porque, tendo violado as santas leis,
não se arrependeram, embora tivessem tido tempo suficiente para fazer
penitência pelos seus pecados e os profetas os houvessem exortado a isso e
predito muitas vezes qual seria o castigo. Assim, Deus os faria cair em todas as
desgraças de que haviam sido ameaçados, para que reconhecessem que Deus e
os seus profetas nada lhes haviam anunciado de sua parte que não fosse
verdadeiro. No entanto, por causa da piedade do rei, Ele retardaria a execução
até depois de sua morte. E então não seria mais adiada.
2 Reis 23. Ante essa resposta, o rei ordenou a todos os sacerdotes, a todos
os levitas e aos demais súditos que fossem a Jerusalém. Lá reunidos, começou
por ler-lhes o que estava escrito nos Livros Santos. Depois colocou-se num
lugar elevado e obrigou-os a prometer, com juramento, servir a Deus de todo o
coração e observar as leis de Moisés. Eles prometeram e ofereceram sacrifícios
para implorar o auxílio divino. O rei, em seguida, ordenou ao sumo sacerdote
que verificasse se restava ainda no Templo algum vaso que os reis seus
predecessores houvessem oferecido para culto aos falsos deuses. Muitos foram
ainda encontrados, e ele os fez reduzir a pó, lançou a poeira ao vento e mandou
matar todos os sacerdotes dos ídolos, que não eram da descendência de Arão.
Depois de praticar em Jerusalém todos esses atos de piedade, foi ele
mesmo às províncias para destruir inteiramente tudo o que o rei Jeroboão
estabelecera em honra aos deuses estrangeiros. Mandou queimar os ossos dos
falsos profetas sobre o altar que aquele rei havia construído, cumprindo o que
predissera um profeta ao ímpio príncipe, quando este oferecia um sacrifício
naquele altar, na presença de todo o povo: que um sucessor do rei Davi, de
nome Josias, executaria todas essas coisas. Viu-se assim a sua realização,
trezentos e sessenta anos mais tarde.
A piedade de Josias foi ainda além. Ele mandou investigar
cuidadosamente todos os israelitas que se haviam salvado do cativeiro assírio e
persuadiu-os a abandonar o detestável culto aos ídolos e a adorar, como os
seus antepassados, o Deus Todo-poderoso. Não houve cidade, aldeia ou vila em
que ele não tivesse mandado fazer, em todas as casas, uma diligente eliminação
de tudo o que servira à idolatria. Mandou também queimar todos os carros que
os seus predecessores haviam consagrado ao Sol e nada deixou que pudesse
levar o povo a um culto sacrílego.
Quando terminou de purificar todo o território, mandou reunir o povo em
Jerusalém para lá celebrar a festa dos Pães Ázimos, que nós chamamos Páscoa,
e deu ao povo, para a celebração dos festins públicos, trinta mil cordeiros e
cabritos e três mil bois. Os principais sacerdotes deram também aos outros
sacerdotes dois mil e seiscentos cordeiros. Os principais levitas deram aos
outros levitas cinco mil cordeiros e quinhentos bois. Nenhum desses animais
deixou de ser imolado segundo a lei de Moisés, pelo cuidado que disso tiveram
os sacerdotes. Assim, não houve, desde os tempos do profeta Samuel, uma
festa celebrada com tanta solenidade, porque nelas se observaram todas as
cerimônias prescritas na Lei e segundo a antiga tradição. O rei Josias, depois
de ter vivido em grande paz, cumulado de riquezas e de glória, terminou os seus
dias do modo que vou dizer.",