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Livro Decimo Flávio Josefo

Capítulo 10 Flávio Josefo

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,
"NABUCODONOSOR CONSTITUI ZECLEQUIAS REI DEJUDÁ NO LUGAR DE
JOAQUIM. ZEDEQUIAS FAZ ALIANÇA CONTRA ELE COM O REI DO EGITO.
NABUCODONOSOR CERCA-O EM JERUSALÉM. O REI DO EGITO VEM EM SEU
AUXÍLIO. NABUCODONOSOR LEVANTA O CERCO PARA COMBATER O REI DO
EGITO, DERROTA-O E VOLTA PARA CONTINUAR O CERCO. O PROFETA JEREMIAS
PREDIZ TODAS AS DESGRAÇAS QUE DEVERÃO ACONTECER. METEM-NO NUMA
PRISÃO E DEPOIS NUM POÇO, PARA FAZÊ-LO MORRER. ZEDEQUIAS MANDA
RETIRÁ-LO E PERGUNTA-LHE O QUE DEVE FAZER. O PROFETA ACONSELHA-O A
ENTREGAR JERUSALÉM. ZEDEQUIAS DIZ NÃO PODER TOMAR TAL DECISÃO.",
"422. 2 Reis 25. Nabucodonosor, rei da Babilônia, constituiu Zedequias*
rei de Judá no lugar de Joaquim, seu tio paterno, depois de fazê-lo prometer
com juramento que seria fiel e não faria nenhum entendimento com os egípcios.
O soberano tinha então somente vinte e um anos e era irmão de Jeoaquim —
ambos eram filhos do rei Josias. Como mantinha junto de si apenas jovens de
sua idade, que não eram homens de valor, mas ímpios, ele desprezava também
a virtude e a justiça. O povo, à sua imitação, entregava-se a toda sorte de
desordens.
O profeta Jeremias ordenou-lhe diversas vezes, da parte de Deus, que se
arrependesse, se corrigisse e não acreditasse mais nos homens de mau Espírito
que o rodeavam nem nos falsos profetas que o enganavam, afirmando que o rei
da Babilônia não sitiaria Jerusalém e que o rei do Egito far-lhe-ia guerra e o
venceria. As palavras do profeta fizeram impressão no Espírito do príncipe, e ele
queria mesmo seguir aqueles conselhos. Mas os seus favoritos, que o
manipulavam como queriam, faziam-no mudar de opinião.
Ezequiel, que estava então na Babilônia, como dissemos, predisse
também a destruição do Templo e mandou dar a notícia a Jerusalém. Mas
Zedequias não prestou fé às suas profecias porque, embora se assemelhassem
em todo o resto com as de Jeremias, e os dois profetas estivessem de acordo no
que se referia à ruína e ao cativeiro de Zedequias, parecia que eles não
combinavam nisto: Ezequiel afirmava que ele não veria a Babilônia, e Jeremias
sustentava que o rei da Babilônia o levaria prisioneiro para lá. Essa
discordância fazia com que o rei não prestasse fé às profecias. Mas os fatos lhe
mostraram a verdade, como diremos mais detalhadamente a seu tempo.
* Zedequias antes chamava-se Matanias.
423. Oito anos depois, Zedequias renunciou a aliança com o rei da
Babilônia para fazer outra, com o rei do Egito, na esperança de que unindo com
este as suas forças aquele não lhes pudesse resistir. Nabucodonosor, logo que
soube disso, pôs-se em campo com um poderoso exército. Ele devastou a
judéia, apoderou-se das maiores praças-fortes e sitiou Jerusalém. O rei do
Egito veio com grandes forças em auxílio de Zedequias, e então o rei da
Babilônia levantou o cerco para dar-lhe combate. Venceu-o numa grande
batalha e o expulsou da Síria. Os falsos profetas, contudo, depois que
Nabudonosor levantou o cerco, continuaram a enganar Zedequias, dizendo-lhe
que, em vez de ter motivo para temor de que ele fizesse guerra novamente, veria
logo o regresso dos seus súditos que estavam na Babilônia, com todos os vasos
sagrados que haviam sido roubados do Templo.
Jeremias, ao contrário, afirmou que aqueles homens o enganavam ao dar-
lhe tal confiança, pois ele nada deveria esperar do auxílio dos egípcios; que o rei
da Babilônia os venceria; que voltaria para continuar o cerco e tomaria
Jerusalém pela fome; que levaria escravizado para a Babilônia o que restasse
dos habitantes, depois de os despojar de todos os seus bens; que saquearia o
Templo e todos os seus tesouros e depois o incendiaria; que destruiria
completamente a cidade; e que esse cativeiro duraria setenta anos, mas os
persas e os medos destruiriam a Babilônia e seu império, e os hebreus, libertos
por eles da escravidão, voltariam a Jerusalém e reconstruiriam o Templo.
As palavras de Jeremias persuadiram a muitos, no entanto os príncipes e
os que como eles se vangloriavam de serem ímpios zombaram dele, como de um
insensato. Algum tempo depois, indo esse profeta a Anatote, que era o lugar de
seu nascimento, distante vinte estádios de Jerusalém, encontrou no caminho
um dos magistrados, o qual o deteve e o acusou de estar indo procurar o rei da
Babilônia. Jeremias respondeu-lhe que não tinha absolutamente aquela
intenção, ia somente fazer uma visita à sua terra natal. O magistrado, não
acreditando em suas palavras, levou-o perante o tribunal, para instaurar-se o
processo. Declararam-no culpado e meteram-no numa prisão, para fazê-lo
morrer.
424. No nono ano do reinado de Zedequias, no décimo dia do último mês,
o rei da Babilônia recomeçou o cerco de Jerusalém e durante dezoito meses em-
pregou todos os esforços para apoderar-se dela. E as armas não eram o único
meio de que esse soberano se servia para oprimir os seus habitantes. Eles eram
ao mesmo tempo atormentados por dois dos mais temíveis flagelos: a fome e a
peste, ambos violentos e graves. No entanto jeremias continuava a clamar e a
exortar o povo a abrir as portas ao rei da Babilônia, pois não lhes restava outro
meio de salvação, por maiores que fossem os males vindouros.
Os príncipes e os principais magistrados, em vez de se convencerem com
as palavras do profeta, irritaram-se de tal sorte que o acusaram perante o rei de
ser insensato e de procurar fazer com que eles e todo o povo perdessem a
coragem, predizendo-lhes tantas desgraças. Quanto a eles, estavam dispostos a
morrer pelo serviço do rei e pela sua pátria, ao passo que aquele sonhador, por
meio de ameaças, os exortava a fugir, dizendo que a cidade seria tomada e que
todos pereceriam.
O rei, por uma certa bondade natural e amor à justiça, não estava irritado
contra Jeremias. Porém, temendo em tal contingência descontentar os maiorais
do país, permitiu-lhes fazer o que quisessem. Foram eles então ao cárcere, tira-
ram de lá o profeta e o desceram por meio de cordas a um poço cheio de lama, a
fim de que morresse afogado. Ele ficou ali, mergulhado até o pescoço. Entre-
tanto um criado do rei, que era etíope e gozava de grande estima perante ele,
contou-lhe o que se havia passado, dizendo que aqueles homens agiam errado
ao tratar daquele modo o profeta e que seria muito melhor deixá-lo morrer na
prisão. O rei, comovido com essas palavras, arrependeu-se de o ter deixado à
discrição dos inimigos e ordenou ao etíope que tomasse trinta de seus oficiais e
fosse imediatamente tirá-lo do poço. Ele executou a ordem no mesmo instante e
colocou Jeremias em liberdade.
O rei, em segredo, mandou chamar Jeremias e perguntou se o profeta não
conhecia um meio de obter de Deus um livramento do perigo que os ameaçava.
Ele respondeu que sabia de um apenas, mas seria inútil dizê-lo, pois estava
certo de que aqueles em quem o rei mais confiava, em vez de acreditar, se
levantariam contra ele, como se estivesse cometendo um grande crime ao
declará-lo, e procurariam eliminá-lo. Continuou o profeta: Onde estão agora
aqueles que vos enganavam, dizendo com tanta certeza que o rei da Babilônia
não voltaria? E, não deverei eu ter medo de dizer-vos a verdade, sendo que
nisso vai a minha vida? O rei prometeu-lhe com juramento que ele não correria
perigo algum, nem de sua parte nem da parte dos nobres.
Jeremias, tranqüilizado por essas palavras, disse-lhe que o conselho que
lhe dava era por ordem de Deus. Ele deveria entregar a cidade aos babilônios,
nas mãos do próprio rei, pois era o único meio de se salvarem e de impedir que
a cidade fosse destruída e o Templo incendiado. Se não o fizesse, seria a causa
de todos esses males. O rei respondeu que gostaria de seguir o conselho, mas
temia que os seus, os quais se haviam passado para o lado do rei da Babilônia,
viessem prejudicá-lo perante ele e até o matassem. Diante disso, o profeta
garantiu-lhe que, se seguisse o seu conselho, nenhum mal sucederia a ele nem
às suas mulheres e filhos e nem ao Templo.
O rei proibiu-o de contar a quem quer que fosse o que se passara entre
ambos, particularmente aos nobres. Se lhe perguntassem o motivo da entre-
vista ou qualquer outra coisa, dissesse apenas que fora pedir para ser posto em
liberdade. Os grandes e os nobres não deixaram de perguntar ao profeta o que
se havia passado entre ele e o rei, e ele respondeu conforme o príncipe lhe havia
ordenado.",