Livro Decimo Flávio Josefo
Capítulo 12 Flávio Josefo
,
"MORTE DE NABUCODONOSOR, REI DA BABILÔNIA. EVIL-MERODAQUE, SEU
FILHO, SUCEDE-O E PÕE JECONIAS, REI DEJUDÁ, EM LIBERDADE. SÉRIE DOS
REIS DA BABILÔNIA ATÉ BELSAZAR. CIRO, REI DA PÉRSIA, E DARIO, REI DOS
MEDOS, CERCAM-NO NA BABILÔNIA. VISÃO QUE ELE TEM, EXPLICADA POR
DANIEL. CIRO TOMA A BABILÔNIA E APRISIONA O REI BELSAZAR. DARIO
LEVA DANIEL PARA A MÉDIA E O ELEVA A GRANDES HONRAS. A INVEJA DOS
NOBRES CONTRA ELE É CAUSA DE ELE SER LANÇADO NA COVA DOS LEÕES.
DEUS O SALVA, E ELE TORNA-SE MAIS PODEROSO DO QUE NUNCA.
SUAS PROFECIAS E SEU LOUVOR.",
"433. Depois da morte do rei Nabucodonosor, de que acabamos de falar,
Evil-Merodaque, seu filho, sucedeu-o e não somente pôs Jeconias (que antes se
chamava Joaquim), rei de Judá, em liberdade, como também deu-lhe ricos
presentes, tornou-o mordomo-mor de seu palácio e dedicou a ele um afeto
muito particular. E assim, tratou-o de uma maneira bem diferente da que
Nabucodonosor o havia tratado, quando o amor pelo bem de seu país, como
vimos, o fez entregar-se em boa fé nas mãos deste, com sua mulher, seus filhos
e todos os seus bens, para que fosse levantado o cerco de Jerusalém, sendo que
Nabucodonosor lhe faltou à palavra.
Evil-Merodaque reinou dezoito anos. Niglizar, seu filho, sucedeu-o e
reinou quarenta anos. Seu filho Labofordá, que o sucedeu, reinou somente nove
meses. Belsazar, filho deste, a quem os babilônios chamam Naboandel,
substituiu-o. Ciro, rei dos persas, e Dario, rei dos medos, fizeram-lhe guerra e o
sitiaram na Babilônia.
434. Daniel 5. Enquanto a cidade era cercada, esse soberano oferecia um
banquete aos nobres da corte e às suas concubinas numa sala onde havia um
armário riquíssimo, em que se conservavam os preciosos vasos de que os reis
se costumam servir. A isso ele quis acrescentar uma nova magnificência e
ordenou então que fossem trazidos os vasos sagrados do templo de Jerusalém,
os quais Nabucodonosor mandara colocar junto com os de seus deuses, porque
não se atrevera a servir-se deles. Como Belsazar estava turvado pelo vinho, teve
a ousadia de beber num daqueles vasos e de blasfemar contra Deus. No mesmo
instante, ele viu uma mão sair da parede e escrever nela algumas palavras.
A visão deixou-o atônito, e ele mandou buscar da Caldéia e de outras
nações alguns dos maiores sábios que sabiam interpretar os sonhos e ordenou-
lhes que dissessem o significado daquelas palavras. Eles responderam que era
impossível. O seu sofrimento aumentou de tal modo que ele mandou apregoar
que daria uma cadeia de ouro, uma túnica de púrpura, como as que usam os
reis da Caldéia, e a terça parte do reino a quem interpretasse aquelas palavras.
A promessa de tão grande recompensa fez chegar de todos os lados
candidatos que passavam pelos mais hábeis e peritos. Todavia, por maiores
esforços que todos fizessem, ninguém foi capaz de interpretá-las. A princesa
sua avó, vendo-o em tal aflição, disse-lhe para não perder a esperança de que
alguém lhe desse a explicação que desejava, porque havia entre os escravos que
Nabucodonosor trouxera para a Babilônia depois da ruína de Jerusalém um
certo Daniel, cuja ciência era extraordinária. Ele explicava coisas que somente
eram conhecidas por Deus e interpretara um sonho que nenhum outro
conseguira explicar. Precisava apenas mandar chamá-lo e dizer-lhe do seu
desejo de saber o significado daquelas palavras, pois talvez até fosse algo
inquietante que Deus quisesse comunicar.
Diante de tal conselho, Belsazar mandou imediatamente chamar Daniel,
disse-lhe o quanto se sentia feliz por saber que ele recebera de Deus o dom de
penetrar e conhecer o que os outros ignoravam e rogou que lhe dissesse o que
significavam as palavras escritas naquela parede, prometendo-lhe, se o fizesse,
dar-lhe uma túnica de púrpura, uma cadeia de ouro e a terça parte de seu
reino, para mostrar a todos, com aquelas demonstrações de honra, a sua
sabedoria, quando fosse conhecida a causa de ele merecê-las. Daniel, ciente de
que a sabedoria que vem de Deus deve sempre ter em vista fazer o bem sem
pretender outra recompensa, suplicou ao rei que o dispensasse de aceitá-las.
Disse-lhe em seguida que aquelas palavras significavam que o fim da vida
de Belsazar estava próximo, porque ele não havia aprendido com o castigo com
o qual Deus punira a impiedade de Nabucodonosor e nem aproveitara aquele
exemplo para evitar colocar-se acima da sua condição de simples homem, pois
não podia ignorar que aquele príncipe fora obrigado a viver durante sete anos à
maneira dos animais e que só depois de muitas preces Deus, movido pela com-
paixão, o reconduziu ao convívio dos homens e o restabeleceu no trono. E
Nabucodonosor foi tão grato que pelo resto de sua vida não deixou de dar a
Deus contínuas ações de graças e de admirar o seu poder onipotente. No
entanto Belsazar, em vez de se deixar levar por aquele exemplo, não tivera medo
de blasfemar contra Deus e de beber com as suas concubinas nos vasos
consagrados em honra dEle. Por isso Ele estava tão irritado que desejou
manifestar por meio daquelas palavras qual seria o fim de sua vida.
Daniel acrescentou ainda que esta era a explicação das palavras: Mene,
isto é, número, significava que o número que Deus marcara aos anos do
reinado de Belsazar iria se completar, e lhe restava muito pouco tempo de vida.
Tequel, isto é, peso, significava que Deus havia pesado na sua justa balança a
duração daquele reinado, e que ele tendia ao fim. Peres, que quer dizer
fragmento e divisão, significava que o reino seria dividido entre os medos e
os persas. Por maior que fosse a dor que sentia, o rei Belsazar, sabendo pela
explicação dessas palavras misteriosas as desgraças que o aguardavam, julgou
que Daniel agira como um homem de bem e lhe dissera somente a verdade, e
seria muito injusto maltratá-lo por essa razão. Por isso não deixou de o
recompensar, dando-lhe o que prometera.
435. Naquela mesma noite, Babilônia foi tomada e Belsazar, morto. Isso
aconteceu no dédicmo sétimo ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia. Dario, filho
de Astíages, ao qual os gregos dão outro nome, tinha sessenta e dois anos
quando, com o auxílio de Ciro, seu parente, destruiu o império da Babilônia.
Levou consigo para a Média o profeta Daniel e, para mostrar até que ponto o
estimava, nomeou-o um dos três governadores supremos, cujo poder se
estendia sobre outros trezentos e sessenta, pois o considerava um homem todo
divino e só se aconselhava com ele nos assuntos mais importantes.
Os outros ministros, como geralmente acontece na corte dos reis, não po-
dendo tolerar que ele fosse tão preferido, sentiram tal inveja que tudo fizeram
para encontrar um motivo de caluniá-lo. Mas isso lhes foi impossível, porque a
virtude de Daniel era tão grande e as suas mãos tão puras que ele julgava que
seriam manchadas se recebessem presentes e considerava coisa vergonhosa de-
sejar recompensa pelo bem que se faz. Eles, porém, não se arrependeram nem
desistiram. E, faltando-lhes outros meios, imaginaram um pelo qual, pensaram,
poderiam destruí-lo.
Tendo notado que três vezes por dia ele fazia as suas orações a Deus,
foram ter com o rei e disseram-lhe que todos os grandes e governadores do
império haviam julgado conveniente elaborar um edito pelo qual seria proibido
a todos os súditos, durante trinta dias, fazer orações a qualquer deus ou a
qualquer homem, senão a ele, o rei, devendo ser lançados na cova dos leões
todos os que desprezassem essa ordem. Dario, que não desconfiava de sua
malícia, aceitou a proposta e mandou publicar esse edito em todo o seu
território. Todos o observaram, exceto Daniel, que sem se impressionar
continuou a fazer as suas orações a Deus, como era seu costume.
Os seus inimigos não deixaram de ir imediatamente ao rei acusá-lo de ter
violado a ordem. Afirmaram que ele fora o único a ousar desobedecer, e era
tanto mais culpado porque não o fizera por um sentimento de piedade apenas,
mas por saber que aqueles que não o estimavam observavam as suas ações. E,
como esses nobres temiam que a grande afeição de Dario por Daniel o levasse a
perdoá-lo, insistiram tanto em que fosse inflexível em fazer observar o seu edito
e ordenasse que Daniel fosse atirado na cova dos leões que não lhe foi possível
defender-se. Mas ele esperava que Deus libertasse Daniel do furor daqueles
temíveis animais e exortou-o a suportar generosamente a sua desdita. E assim,
foi Daniel atirado àquele lugar, e fecharam a porta com uma grande pedra.
Dario mandou selá-la com o seu sinete e voltou para o palácio imerso em tão
grande aflição pelo que poderia acontecer a Daniel que não quis comer e passou
toda a noite sem dormir.
No dia seguinte, ao despontar do sol, o rei foi à cova dos leões e viu que o
seu selo estava intacto. Chamou Daniel por uma abertura que havia na entrada
e perguntou, gritando com todas as suas forças, se ele ainda estava vivo. Daniel
respondeu que não sofrerá mal algum, e o soberano no mesmo instante
mandou que o retirassem de lá. Os inimigos de Daniel, em vez de reconhecerem
que Deus o salvara por um milagre, disseram ousadamente ao rei que aquilo
acontecera porque antes se dera demasiado alimento aos leões, os quais, não
tendo mais fome, não o quiseram devorar. O rei ofendeu-se com a malícia deles
e ordenou que se desse grande quantidade de carne aos leões e que depois de
eles estarem fartos fossem atirados à cova os acusadores de Daniel, para ver se
os animais os poupariam, como diziam haverem poupado Daniel. A ordem foi
imediatamente executada, e ninguém mais pôde duvidar de que Deus salvara
Daniel, porque os leões devoraram os caluniadores com tanta avidez que
pareciam os mais esfomeados do mundo. Minha opinião, porém, é que foi o
crime desses malvados, e não a fome, o que irritou os leões contra eles, porque
Deus quis que esses animais irracionais fossem ministros de sua justiça e de
sua vingança.
Depois que os inimigos de Daniel foram assim punidos, Dario mandou
publicar em todo o seu território que o Deus que Daniel adorava era o único
verdadeiro e Todo-poderoso e elevou esse grande personagem a tão alto grau de
honras que ninguém duvidava que ele fosse o homem mais estimado pelo rei
em todo o império, e todos admiravam tão grande glória e tão extraordinário
favorecimento da parte de Deus.
Dario mandou construir em Ecbátana,* capital da Média, um soberbo
palácio, que ainda hoje se vê e que parece ter sido recém-concluído, pois
conserva o seu primitivo brilho, ao contrário do comum dos edifícios, aos quais
o tempo apaga a beleza, envelhecendo-os como aos homens. É nesse palácio
que está a sepultura dos reis dos medos, dos persas e dos partos. A sua guarda
ainda hoje está confiada a um sacerdote de nossa nação.
Nada encontro de mais admirável nesse grande profeta que esta felicidade
particular e quase incrível de que desfrutou, acima dos demais: ter sido durante
toda a sua vida honrado pelos reis e pelos povos e deixar depois de sua morte
uma memória imortal. Os livros que ele escreveu, lidos ainda hoje, comprovam
que Deus mesmo lhe falou e que ele não somente predisse em geral, como os
outros profetas, as coisas que deviam acontecer, mas também determinou o
tempo em que sucederiam. E, enquanto eles prediziam somente desgraças, o
que os tornava odiosos aos soberanos e aos súditos, ele predisse coisas favorá-
veis, que levaram os reis a amá-lo. E a veracidade de suas palavras, confirmada
depois pelos fatos, fez com que todos não somente prestassem fé às suas pala-
vras, mas cressem que havia nele algo de divino.
Narrarei uma de suas profecias, para mostrar como eram corretas. Ele
disse que, tendo saído com os seus companheiros da cidade de Susã, que é a
capital do reino da Pérsia, para tomar ar no campo, houve um tremor de terra,
que surpreendeu e espantou de tal modo os que estavam com ele que todos
fugiram e o deixaram sozinho. Ele lançou-se então com o rosto em terra e,
estando assim nesse estado, percebeu que alguém o tocava e lhe dizia para
levantar, a fim de ver as coisas que sucederiam muito tempo depois aos de sua
nação.
Depois que ele se ergueu, viu um carneiro que tinha vários chifres, sendo
o último maior que os outros. Voltando os olhos para o lado do ocidente, viu
aproximar-se um bode, que se chocou com o carneiro, derrubou-o e o pisou.
Viu depois sair da fronte desse bode um chifre bem grande, que foi quebrado, e
dele saíram outros quatro, voltados para os quatro ventos. Entre esses quatro
chifres, surgiu um menor. Deus lhe disse que esse chifre, quando crescesse,
faria guerra à sua nação, tomaria Jerusalém, aboliria todas as cerimônias do
Templo e durante mil e duzentos e noventa e seis dias proibiria que ali se ofere-
cessem sacrifícios.
Depois que Deus lhe manifestou essa visão, explicou-a deste modo: o
carneiro significava o império dos medos e dos persas, cujos reis eram
representados pelos chifres. O maior era o último deles, porque sobrepujava a
todos em riquezas e em poder. O bode significava que viria da Grécia um rei que
venceria os persas e se tornaria senhor daquele grande império — o chifre
grande significava esse rei. Os quatro chifres pequenos nascidos desse grande
chifre e que se dirigiam para as quatro partes do mundo representavam aqueles
que depois da morte desse soberano dividiriam entre si esse grande império,
embora não fossem nem seus filhos nem seus descendentes. Eles reinariam
durante vários anos, e de sua posteridade viria um rei que faria guerra aos
judeus, aboliria todas as suas leis e toda a forma de sua república, saquearia o
Templo e durante três anos proibiria que ali se oferecessem sacrifícios. Isso
tudo aconteceu sob o reinado de Antíoco Epifânio.
Esse grande profeta deu também notícia do império de Roma e da extrema
desolação a que reduziria o nosso país. Deus lhe tornou patentes todas essas
coisas, e ele as deixou por escrito para serem admiradas pelos que lhe vissem
os efeitos, para mostrar os favores que recebera dEle e para confundir os erros
dos epicureus, que, em vez de adorarem a Providência, dizem que Ele não se
importa com os interesses deste mundo e que a terra não é conservada nem
governada por essa suprema Essência, igualmente bem-aventurada,
incorruptível e onipotente, mas subsiste por si mesma. Se eles considerassem
verdade o que dizem, ver-se-iam logo perecendo como um navio que, não tendo
piloto, é batido pela tempestade ou como um carro sem condutor, que é
arrastado pelos cavalos. Não pode haver melhor prova que as profecias de
Daniel para nos fazer constatar a loucura de quem não aceita que Deus tenha
cuidado com o que se passa sobre a terra. Pois se tudo o que acontece no
mundo é por acaso, como explicar o cumprimento de todas essas profecias?
Julguei meu dever relatar tudo isso conforme o que encontrei nos Livros
Santos, mas deixo a cada qual liberdade para ter outras opiniões ou acreditar
no que quiser.
* Ou Acmetá.",
"