Livro Decimo Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"SENAQUERIBE, REI DA ASSÍRIA, ENTRA COM UM GRANDE EXÉRCITO NO
REINO DE JUDÁ, FALTANDO À PALAVRA AO REI EZEQUIAS, QUE LHE
ENTREGARA UMA GRANDE SOMA DE DINHEIRO PARA OBRIGÁ-LO A SE
RETIRAR. SENAQUERIBE VAI FAZER GUERRA NO EGITO E DEIXA RABSAQUÉ,
SEU LUGAR-TENENTE, SITIAR FERUSALÉM. O PROFETA ISAÍAS GARANTE A
EZEQUIAS O AUXÍLIO DE DEUS. SENAQUERIBE VOLTA DO EGITO SEM TER
FEITO LÁ PROGRESSO ALGUM.",
"411. 2 Reis 18. No décimo quarto ano do reinado de Ezequias, rei de
Judá, Senaqueribe, rei da Assíria, entrou no reino com um exército poderoso e,
após tomar todas as outras cidades das tribos de judá e de Benjamim, marchou
contra Jerusalém. Ezequias, por meio de embaixadores, ofereceu-se para
cumprir quaisquer condições que o rei da Assíria lhe impusesse e para lhe
servir como tributário. O soberano aceitou a oferta e prometeu com juramento
retirar-se para o seu país sem qualquer ato hostil, contanto que lhe fossem
pagos trinta talentos de ouro e trezentos talentos de prata. Ezequias, confiando
na palavra de Senaqueribe, esvaziou todos os seus tesouros, a fim de poder
enviar-lhe aquela soma, na esperança de ter paz.
Senaqueribe, todavia, depois de receber o dinheiro, não manteve a palavra
e, enquanto marchava em pessoa contra os egípcios e os etíopes, deixou
Rabsaqué, seu lugar-tenente e general, com numerosas tropas, auxiliado pelos
seus chefes principais, dois generais, de nome Tartã e Rabe-Saris, para
continuar na Judéia a guerra que lá havia começado. Esse general aproximou-
se de Jerusalém e mandou chamar Ezequias, a fim de conferenciarem. Mas o
príncipe, desconfiando dele, contentou-se em mandar-lhe três servidores da
maior confiança: Eliaquim, mordomo-mor do palácio, Sebna, secretário, e Joá,
intendente dos registros.
Disse Rabsaqué, em presença de todos os oficiais de seu exército: Voltai a
vosso amo e dizei-lhe que Senaqueribe, o grande rei, pergunta em quem ele
confia para recusar receber o seu exército em Jerusalém. Se for no auxílio dos
egípcios, é de se dizer que ele perdeu o juízo e que se parece com quem se apoia
num caniço, o qual, em vez de sustentá-lo, quebrar-se-á, ferindo-lhe as mãos.
Quanto ao mais, saiba ele que é por ordem de Deus que o rei empreendeu esta
guerra, e assim, o resultado será como o daquela que fez aos israelitas, e ele se
tornará do mesmo modo senhor desses dois reinos.
Rabsaqué falava em hebreu, que conhecia muito bem. Eliaquim, temendo
que os colegas se assustassem, pediu-lhe que falasse em siríaco. Rabsaqué,
porém, deduzindo facilmente com que fim era feito aquele pedido, continuou a
falar em hebreu: Agora que não podeis ignorar a vontade do rei e quanto vos
importa a ela vos submeterdes, por que demorais em nos receber em vossa
cidade? Por que continua o vosso senhor, e vós com ele, a enganar o povo com
vãs e loucas esperanças? Se vos julgais bastante fortes para nos poder resistir,
mostrai-no-lo, opondo dois mil de vossos cavaleiros ao mesmo número que eu
farei avançar de nosso exército. Mas como poderíeis fazê-lo, se não os tendes? E
por que vos demorais em vos submeterdes àqueles aos quais não podeis
resistir? Acaso ignorais a vantagem de fazer voluntariamente o que não é
possível evitar e o grande perigo que é esperar ser a isso obrigado pela força?
2 Reis 19, Essa resposta pôs o rei Ezequias em tal aflição que ele deixou
as vestes reais para se revestir de um saco, segundo o costume de nossos pais.
Prostrou-se com o rosto em terra e rogou a Deus que o ajudasse naquela
contingência, em que não podia esperar outro socorro senão o dEle. Mandou
alguns de seus principais oficiais e sacerdotes rogarem ao profeta Isaías que
oferecesse a Deus sacrifícios e lhe pedisse para ter compaixão de seu povo e
abater o orgulho que dava aos inimigos tão grandes esperanças. O profeta fez o
que ele desejava e logo depois, por uma revelação de Deus, disse-lhe que nada
temesse, garantindo que Deus confundiria de maneira estranha a ousadia
daqueles bárbaros, e eles se retirariam voluntariamente, sem combater. A isso
acrescentou que o rei dos assírios, até então temível, seria assassinado pelos
seus, em seu próprio país, ao regressar da guerra do Egito, cujo resultado lhe
seria desfavorável.
Nesse mesmo tempo, o rei Ezequias recebeu cartas daquele soberano,
pelas quais lhe dizia que ele, Ezequias, parecia ter perdido o juízo, para
persuadir-se de poder isentar-se da submissão ao vencedor de tão poderosas
nações, e ameaçava exterminá-lo com todo o seu povo se ele não abrisse às
suas tropas as portas de Jerusalém. A firme confiança que Ezequias tinha em
Deus levou-o a desprezar essa carta. Então dobrou-a, colocou-a no Templo e
continuou as suas orações a Deus. O profeta mandou dizer-lhe que elas haviam
sido ouvidas por Deus, que nada devia temer das armas assírias e que logo ele
e todos os seus súditos ver-se-iam em condições de poder cultivar em completa
paz as terras que a guerra os obrigara a abandonar.
Senaqueribe estava na ocasião ocupado com o cerco de Pelusa, no qual já
gastara muito tempo. E, no momento em que as plataformas se elevaram à
altura das muralhas e ele estava para dar o assalto, foi avisado de que Targise,*
rei da Etiópia, marchava com um poderoso exército em auxílio dos egípcios e
vinha pelo deserto, para surpreendê-lo. Ele então levantou o cerco e retirou-se.
Heródoto, falando de Senaqueribe, diz que ele fazia guerra ao sacerdote de
Vulcano (é assim que ele chama o rei do Egito, que era sacerdote dessa falsa
divindade). E acrescenta que o que o obrigou a levantar o cerco de Pelusa foi
que, tendo aquele rei e sacerdote implorado o auxílio de seu deus, veio à noite
uma tão grande quantidade de ratos ao exército do rei dos árabes (no que esse
historiador se engana, pois devia dizer dos assírios) que as cordas dos arcos
foram roídas e todas as outras armas ficaram inutilizadas. Isso o obrigou a
levantar o cerco. Berose, que escreveu a história dos caldeus, também faz
menção a Senaqueribe. Diz que ele era rei dos assírios e fez guerra em toda a
Ásia e no Egito. Assim ele fala.
* Ou Tiraca.",