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Livro 1 Flávio Josefo

Capítulo 9 Flávio Josefo

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,
"CAUSA DO ÓDIO DOS EGÍPCIOS CONTRA OS JUDEUS. PROVAS PARA MOSTRAR
QUE MANETOM, HISTORIADOR EGÍPCIO, DISSE A VERDADE NO QUE SE REFERE
À ANTIGÜIDADE DA NAÇÃO DOS JUDEUS, E ESCREVEU SOMENTE FÁBULAS
EM TUDO O QUE DISSE CONTRA NÓS.",
"Resta-me ainda demonstrar a falsidade do que foi dito contra nós, contra
nossa nação e desmascarar tão grande impostura. Os que têm maior conheci-
mento da história sabem muito bem dos efeitos que o ódio é capaz de gerar em
tais assuntos e que muitos se esforçam por apagar o brilho e censurar o
proceder das nações e das cidades mais ilustres. Foi assim que Teopompo fez
com relação aos atenienses, Polícrates, com os lacedemônios e aquele que
escreveu o Tripolítico, do qual Teopompo não é o autor, como muitos pensam,
com os tebanos. Timeu, também, na sua história censurou muito injustamente
aqueles povos e ainda outros; a isso todos esses autores são levados a
particularmente atacarem as nações que mereciam louvores, uns por inveja,
outros por ódio e outros pelo desejo de se tornarem célebres, com suas palavras
extravagantes; isto surtiu bom resultado entre os loucos e fê-los serem
condenados pelos sábios.
Os egípcios foram os primeiros que nos caluniaram; outros, para lhes
serem agradáveis, torceram a verdade. Não quiseram dizer de que modo nossos
antepassados passaram para o Egito, nem como de lá saíram, porque não
podiam ver sem ódio e sem inveja que, depois de terem entrado em seu país,
eles se tornaram tão poderosos e foram tão felizes depois de terem saído. A
diversidade das religiões também contribuiu muito para a inveja que lhes
incitou no coração, de que não há menos diferença entre a pureza toda celeste
de uma e a brutalidade terrestre da outra do que entre a natureza de Deus e a
dos animais irracionais. Pois é uma coisa ordinária entre eles tomar animais
como deuses e adorá-los, como uma louca superstição, que lhes é infundida
desde a infância. Assim, jamais eles puderam compreender e ainda menos
deixar-se persuadir da excelência de nossa divina Teologia e toleraram com
tanta impaciência que outros a aprovassem e chegaram até a esquisitice de
contradizer os seus antigos autores. Um só que é muito considerado entre eles,
de que já citei um testemunho, para provar a antigüidade de nossa nação, será
suficiente para provar o que estou dizendo. É Manetom, que depois de ter
protestado que tiraria dos livros santos a história do Egito, que ele queria
escrever, diz que nossos antepassados, tendo ido para lá em grande número, se
haviam tornado senhores de tudo, mas que algum tempo depois foram expulsos
de lá e se estabeleceram na judéia e lá construíram um Templo. Nisto ele está
de acordo com os historiadores antigos. Mas depois, ele se deixa levar à
narração de fábulas, tão ridículas que não somente não têm a menor aparência
de verdade, confundin-do-nos com o baixo povo do Egito, que ele diz que a
lepra e outras doenças vergonhosas obrigaram-nos a fugir de lá. Fala depois do
rei Amenófis, que é um nome imaginário, e do qual, por essa razão, ele não
ousou enumerar os anos de reinado embora os tenha marcado particularmente
quando falou dos outros reis. Ele acrescenta a essas fábulas ainda outras, sem
se lembrar de que tinha dito antes que fazia quinhentos e dezoito anos que os
pastores tinham saído do Egito para ir a Jerusalém. Pois foi no quarto ano do
reinado de Temósis que eles de lá saíram e os seus sucessores reinaram
trezentos e noventa e três anos até os dois irmãos Setom e Hermeu, o primeiro
dos quais ele diz que era cognominado Egípcio, e o outro, Danus, que Setom
expulsou e reinou cinqüenta e nove anos, que Rampsés, filho mais velho de
Sernom, sucedeu-lhe e reinou sessenta e seis anos. Assim, depois de ter
reconhecido que havia muito tempo que nossos antepassados tinham saído do
Egito, ele põe no número desses outros reis esse fabuloso Amenófis; diz que
esse príncipe, do mesmo modo que Oro, um dos seus predecessores, tinha
desejado muito ver os deuses e que um sacerdote de sua lei chamado Amenófis,
como ele, filho de Pápio, cuja sabedoria e ciência de predizer eram tão
admiráveis, que ele parecia participar da natureza divina, lhe havia dito que ele
podia realizar seu desejo, se ele expulsasse de seu reino a todos os leprosos e os
que estavam contaminados por doenças semelhantes; e o príncipe, seguindo
seu conselho, reuniu quase oitenta mil desses infelizes, que ele mandou com os
egípcios para trabalhar nas pedrarias do lado do Nilo, que está ao oriente e que
entre eles havia sacerdotes também atacados de lepra. Manetom acrescenta que
esse sacerdote Amenófis, temendo que os deuses o castigassem por ter dado ao
rei um conselho tão violento e o príncipe, por tê-lo executado, e que tendo
conhecido por revelação que para recompensar aquela pobre gente pelos seus
sofrimentos, eles os tornariam senhores do Egito durante treze anos, não ousou
dizê-lo ao rei, mas deixou aquela revelação por escrito e em seguida matou-se, o
que causou extremo temor ao príncipe. Eis suas próprias palavras: Depois que
aquela pobre gente passou um longo tempo em tão penoso trabalho, eles
pediram ao rei que os aliviasse em seu sofrimento e lhes desse como refúgio a
cidade de Avaris, outrora chamada Trifom, e que tinha sido habitada pelos
pastores; o príncipe lhes concedeu o que pediam e depois que eles lá se
estabelecessem acharam aquele lugar próprio para se revoltar, escolheram para
chefe um sacerdote de Heliópolis, chamado Osarsifom, e obrigaram-se por
juramento a obedecer-lhe. Este começou por ordenar-lhes entre outras coisas a
não fazerem dificuldade em comer animais que são tidos como sagrados pelos
egípcios e a não se aliar senão com os dos seus mesmos sentimentos. Em
seguida, mandou cercar de muralhas e fortificar bem a cidade e preparou-se
para fazer guerra ao rei Amenofis; outros sacerdotes uniram-se a ele; mandou
embaixadores a Jerusalém, aos pastores, que o rei Temósis tinha expulsado,
para avisá-los do que se havia passado e exortá-los a se unirem a ele para todos
juntos fazerem guerra ao Egito. Ele os receberia em Avaris, que outrora fora de
seus antepassados, dar-lhes-ia todas as coisas necessárias para sua
subsistência e que sendo o tempo conveniente, eles poderiam facilmente
conquistar o Egito. Os habitantes de Jerusalém tinham recebido aquelas
mesmas propostas com alegria e se tinham dirigido a Avaris com duzentos mil
homens e então o rei Amenofis, lembrando-se do que o sacerdote tinha predito,
ficou de tal modo perturbado pelo temor, que depois de ter reunido um
conselho, com os maiores do país mandou na frente os animais que não são
tidos como sagrados, no Egito, ordenou aos sacerdotes que lhes escondessem
as imagens, entregou a um de seus amigos, Setom, seu filho mais velho, que
tinha então somente cinco anos, antes chamado de Remessés, nome do avô, e
partiu com um exército de trezentos mil homens contra os inimigos, mas na
persuasão de que os deuses lhe seriam contrários, não ousou travar combate,
voltou atrás, veio a Mênfis, onde depois de ter tomado a imagem do boi Ápis e
dos outros animais, que ele adorava como deuses, partiu para a Etiópia com
uma grande parte de seu povo e o rei desse país, que lhe era muito afeiçoado,
recebeu-o muito bem, com todos os seus, entregou-lhe cidades e aldeias onde
nada lhes faltou durante os treze anos do seu exílio, conservando sempre
tropas nas fronteiras de seu reino, para a segurança de Amenofis e, entretanto,
os pastores vindos de Jerusalém fizeram ainda muito mais mal do que aqueles
que os haviam chamado ao Egito e não havia impiedade e crueldade que eles
não cometessem, e não se contentando de incendiar as cidades e as aldeias,
acrescentavam-lhes ainda sacrilégios, partiam em pedaços as estátuas dos
deuses, matavam mesmo os animais sagrados, que aquelas estátuas
representavam, obrigavam os sacerdotes e os profetas egípcios a serem eles
mesmo os assassinos e os despediam depois completamente nus. Esse autor
acrescenta ainda que eles tiveram por legislador um sacerdote de Heliópolis,
chamado Osarsife, por causa de Osíris, que era o deus que naquela cidade se
adorava e que esse sacerdote, tendo mudado de religião, mudou também de
nome e tomou o de Moisés.
Eis o que os egípcios dizem dos judeus e várias outras coisas
semelhantes, que eu passo em silêncio, para não me tornar enfadonho.
Manetom diz também que Amenofis, acompanhado por Rampsés, seu filho, foi
da Etiópia para o Egito com um mui grande exército, venceu os jerosolimitanos
e os de Avaris e perseguiu o resto até as fronteiras da Síria.
Mostrarei claramente que todas estas palavras de Manetom são puras
fábulas e invencionices. Para isso precisamos primeiramente notar que esse
autor, no princípio, estava de acordo em que nossos antepassados não eram
originários do Egito e que tinham vindo de outro país e que depois de dele se
terem apoderado, haviam sido obrigados a sair de lá. Quanto ao que em
seguida ele diz, que depois misturaram-se com aqueles egípcios atacados de
lepra e de outras enfermidades infecciosas e que Moisés, guia desse povo, e que
o tirou do Egito, estava entre eles, demonstrarei por meio desse autor mesmo
que isso aconteceu muito tempo antes. A primeira coisa que ele diz a esse
respeito é ridícula. O rei Amenofis, diz ele, desejou ver os deuses. Que deuses
poderia ele desejar ver? Se eram os que ele adorava e que os egípcios também
adoravam, como um boi, um bode, um crocodilo e um cinocéfalo; não poderia
vê-los quando quisesse? Se eram celestes e que ele só desejava ver porque um
dos seus predecessores os tinha visto, ele podia então saber como eles eram e
como eram feitos sem ter que se dar a tal trabalho. Mas esse profeta, diz-se, por
meio do qual esse príncipe esperava ver os deuses, era muito sábio e muito
hábil. Se é assim, pergunto, como ele não viu que lhe era impossível satisfazer o
desejo desse príncipe e em que se baseava para crer que aqueles leprosos e
outros doentes impediam que os deuses se tornassem visíveis. Sabemos que
não são os defeitos corporais que os ofendem, mas as impiedades e os crimes,
vícios da alma. Como teria ele podido reunir quase num momento oitenta mil
homens, atacados por essas doenças contagiosas e cruéis? Como o rei em vez
de se contentar de os mandar para o exílio segundo a ordem desse pretenso
profeta, para purificar o país, os teria empregado em quebrar pedras; se esse
profeta, como diz o autor, prevendo a cólera dos deuses e os males de que o
Egito seria amargurado resolveu matar-se e deixar ao rei essa revelação por
escrito, eu pergunto, por que ele não resistiu ao desejo que o príncipe tinha de
ver os deuses e como males, que a ele não se referiam, pois não estaria mais
neste mundo, quando viessem a suceder, poder-lhe-iam ser mais temíveis que a
morte, que ele se deu voluntariamente? Mas, aqui está ainda a maior e a mais
ridícula de todas as tolices. Se ele tinha o conhecimento das coisas futuras e
elas lhe causavam tanto temor, como, em vez de mandar expulsar do Egito
todos os leprosos, lhes teria dado a cidade de Avaris, que outrora tinha sido
habitada pelos pastores, onde, tendo-se reunido, eles tinham escolhido como
chefe esse sacerdote de Heliópolis, que lhes proibiu adorar os deuses dos
egípcios, de fazer dificuldade em comer a carne dos animais que eles adoravam
como divindades e de contrair aliança com os que não fossem de suas mesmas
idéias e que os obrigou por juramento a observar inviolavelmente essas leis? O
autor acrescenta ainda que depois de ter fortificado essa cidade eles fizeram
guerra ao rei Amenofis, mandaram a Jerusalém pedir aos que lá moravam a se
reunir a eles nessa empresa e que para isso fossem a Avaris, que outrora fora
propriedade de seus antepassados, de onde atacando juntos o Egito eles
poderiam apoderar-se do mesmo: e que esses descendentes dos pastores vieram
em seguida com duzentos mil homens e eles fizeram guerra a Amenofis: que
esse príncipe, não ousando travar combate com eles de medo de resistir a Deus,
havia fugido para a Etiópia depois de ter confiado à guarda de seus sacerdotes
o boi Ápis e os outros animais sagrados que ele adorava como deuses; que
então os judeus de Jerusalém saquearam cidades do Egito, incendiaram seus
Templos e passaram a fio de espada toda a sua nobreza, com crueldade
inaudita; que esse sacerdote de Heliópolis, que os comandava, chamado
Osarfis, por causa do deus Osíris, adorado naquela cidade, mudou de nome e
se fez chamar Moisés: que Amenofis tendo-se retirado para a Etiópia, saiu de lá
com grandes forças, venceu os pastores e os que eles tinham chamado em seu
auxílio, matou um grande número deles e perseguiu o resto até as fronteiras da
Síria.
Será possível que Manetom não tenha visto que nada há de verdade ou de
verossímil em toda essa longa história? Quando aqueles leprosos e os outros
enfermos tivessem mesmo sido os mais irritados deste mundo contra o rei, por
tê-los tratado de tal modo, ante instância desse profeta, não teria ele mudado
de idéia, quando os dispensou de um trabalho tão penoso como o das pedreiras
e lhes deu uma cidade onde residir? Mas quando tivessem mesmo continuado
em sua ira contra ele, não teriam eles podido procurar vingar-se secretamente,
sem fazer guerra a todo o Egito, onde eles tinham tantos parentes? E quando
mesmo nada os tivesse podido impedir de fazer guerra aos homens, teriam eles
podido resolver-se a fazê-la aos seus deuses e esforçar-se por subverter as leis
de seus antepassados? Devemos, pois, agradecer a Manetom que ele não atribui
tão grande crime aos que tinham vindo a Jerusalém, mas aos egípcios mesmos
e particularmente aos seus sacerdotes, que a isso os haviam obrigado por
juramento. Que há de mais extravagante do que dizer que nenhum dos
parentes e dos amigos desses leprosos, não tendo querido juntar-se a eles
naquela guerra, eles haviam mandado a Jerusalém pedir socorro aos que não
lhes eram nem amigos nem aliados, mas que eles deviam antes considerar
como inimigos, tanto seus costumes e seus hábitos eram diferentes?
Entretanto, esse autor diz que os de Jerusalém consentiram, sem dificuldade,
em fazer o que eles desejavam, na esperança de se tornarem senhores do Egito,
como se não tivessem conhecido por própria experiência aquele país, de onde
haviam sido expulsos. Se eles então se tivessem encontrado em grande miséria,
teriam concordado com essa proposta, mas morando numa cidade tão grande e
tão bela, em um país abundante de toda espécie de bens e mais fértil do que o
Egito, que vantagem tinham de se arriscar a um perigo tão grande, para
contentar seus antigos inimigos? Mesmo quando tivessem sido seus
compatriotas, eles deveriam ter temido misturar-se com eles e ficar também
contaminados por aquelas enfermidades? Podiam eles prever que o rei fugiria,
pois esse autor diz que ele veio com trezentos mil homens até Pelusa, ao
encontro desses revoltosos. Quanto a acusar os jerosolimitanos de ter tomado
todo o trigo do Egito e de ter assim feito sofrer muito ao mesmo povo, esqueceu-
se ele de que, tendo suposto que eles tinham entrado como inimigos, não é uma
censura que se lhes pode fazer; que ele disse que antes da chegada deles os
leprosos tinham feito a mesma coisa e se tinham mesmo obrigado com
juramento e ele afirma que alguns anos depois Amenofis venceu os
jerosolimitanos e os leprosos e matou vários deles e os perseguiu até as
fronteiras da Síria, como se fosse fácil apoderar-se do Egito, que os que o
possuíam então, pelo direito de guerra, sabendo que Amenofis marchava contra
eles, não lhe teriam podido fechar o caminho com forças para lhe resistir?
Haverá também mais probabilidade ao que esse autor acrescenta, de que esse
príncipe não somente fez uma grande matança, mas os perseguiu com todo seu
exército através do deserto, até as fronteiras da Síria, pois que sabemos que
esse deserto é tão árido, que não havendo água é quase impossível que todo um
exército o atravesse, mesmo quando sua marcha fosse a mais pacífica do
mundo?
Parece, pelo que acabo de dizer, que segundo o mesmo Manetom não
temos nossa origem do Egito, nem jamais estivemos misturados com os
egípcios. Com relação aos leprosos há grande probabilidade de que muitos
tenham morrido nas pedreiras, muitos nos combates e outros na fuga.",