Livro 1 Flávio Josefo
Capítulo 6 Flávio Josefo
,
"TESTEMUNHO DOS HISTORIADORES CALDEUS RELATIVAMENTE À ANTIGÜIDADE DA
NAÇÃO DOS JUDEUS.",
"Vamos agora ao que os caldeus escreveram a nosso respeito e que está
bem conforme com a minha história. Berose, que era dessa nação e que é tão
conhecido e estimado por todos os literatos pelos seus tratados de astronomia e
das outras ciências dos caldeus, que ele escreveu em grego, afirma, conforme as
mais antigas histórias e ao que Moisés disse, a destruição do gênero humano
pelo dilúvio, com exceção de Noé, autor da nossa raça, que por meio da arca
salvou-se, aportando ao cume dos montes da Armênia. Ele fala em seguida dos
descendentes de Noé, conta o tempo até Nabulazar, rei da Babilônia e da
Caldéia, narra seus feitos e diz como ele mandou Nabucodonosor, seu filho,
contra o Egito e a Judéia, que ele submeteu ao seu império, incendiou o Templo
de Jerusalém, levou escravo para Babilônia todo o nosso povo e assim tornou
Jerusalém um deserto durante setenta anos, até o reinado de Ciro, rei da
Pérsia. Ele diz ainda que esse príncipe tinha Babilônia sob seu domínio, bem
como o Egito, a Síria, a Fenícia, a Arábia e que ele sobrepujava pela grandeza
de seus feitos a todos os reis caldeus e babilônios, que o tinham precedido. Eis
como ele fala: Nabulazar, pai de Nabucodonosor, grande príncipe,* tendo
sabido que o governador que ele havia colocado no Egito, na Síria inferior e na
Fenícia se havia revoltado, não podendo por causa da idade tomar ele mesmo o
comando do exército mandou, entre outros, com grandes tropas,
Nabucodonosor, seu filho, que ainda estava no vigor da juventude. Este venceu
o rebelde e reduziu todas aquelas províncias ao domínio de seu pai. Soube,
porém, quase ao mesmo tempo que ele tinha morrido em Babilônia, depois de
ter reinado quase vinte e nove anos; após ter organizado, e posto em ordem,
todos os negócios e interesses das províncias do Egito e das demais, determinou
que aqueles, nos quais mais confiança depositava, reconduzissem seu exército
para Babilônia, com os prisioneiros, judeus, fenícios, sírios e egípcios; partiu
com um pequeno número dos seus e caminhando pelo deserto dirigiu-se a
Babilônia. Encontrou tudo nas condições em que poderia desejar, nada
havendo que os caldeus e os maiorais do reino não houvessem feito para
provar-lhe sua estima e fidelidade. Vendo-se assim em tão alta posição, com
grande poderio e tendo chegado todos os prisioneiros, deu-lhes excelentes
terras na província de Babilônia e determinou que construíssem para ali se
estabelecerem. Enriqueceu os Templos de Bel e de seus outros deuses com os
despojos que havia trazido da guerra; uniu uma nova cidade à antiga Babilônia
e depois de ter feito de modo que aqueles que tentassem cercá-lo não pudessem
desviar o curso do rio, sobre o qual ela estava situada, rodeou-a com uma
tríplice ordem de muralhas e de outra semelhante ao exterior, cujos muros
eram construídos de tijolos endurecidos com betume. Depois de a ter assim for-
tificado, construiu portas tão soberbas, que seriam facilmente tidas por portas
de um Templo. Construiu também perto do palácio do rei, seu pai, um outro
palácio muito maior e mais suntuoso; eu tornar-me-ia demasiado longo se
quisesse descrever-lhe todos os ornamentos e sua incrível beleza. O que
sobrepuja ainda a toda credulidade é que ele foi feito em somente quinze dias.
Como a rainha, sua mulher, que tinha sido educada na Média, gostava da vista
dos montes, ele o fez, com pedras, de tamanho colossal, encaixadas umas nas
outras uma construção que dava a idéia de um monte e mais um jardim
suspenso onde havia toda espécie de plantas.
* Na História dos Hebreus, n° 432, chama-se Nabucodonosor, o príncipe
que aqui é chamado de Nabulazar, que provavelmente era seu verdadeiro nome.
Assim fala Berose desse príncipe e diz ainda várias outras coisas, no seu
livro das Antigüidades Caldaicas, onde censura os autores gregos por terem
escrito erradamente que Semíramis, rainha da Assíria, tinha construído
Babilônia e feito muitas obras maravilhosas; essa história de Berose é tanto
mais digna de fé, quanto está de acordo com o que se vê ainda nos arquivos dos
fenícios, que esse rei de Babilônia, de que eu acabo de falar, tinha dominado
toda a Síria e a Fenícia. Filóstrato confirma também a mesma coisa na sua
história, onde ele faz menção do assédio de Tiro. Magastene, no seu quarto livro
da história dos indos, diz que esse príncipe sobrepujou a Hércules em coragem,
pela magnitude de seus feitos, e que levou suas conquistas até a África e a
Espanha.
Quanto ao que digo, que o Templo de Jerusalém fora incendiado pelos
babilônios, sendo iniciada a sua reconstruído sob o reinado de Ciro, que
dominava toda a Ásia, isso se vê claramente, pelo que o mesmo Berose refere
em seu terceiro livro, cujas palavras são estas: Nabucodonosor começou a
construir esse muro para cercar Babilônia, mas caiu enfermo e morreu, depois
de ter reinado quarenta e três anos. Evilmerodaque, seu filho, sucedeu-lhe e
suas crueldades e vícios tornaram-se tão odioso que só reinou dois anos e
Neriglissor, que tinha desposado sua irmã, matou-o à traição e reinou quatro
anos. Laborosarcote, que ainda era muito jovem, reinou somente nove meses,
pois aqueles mesmos que tinham sido amigos de seu pai reconheciam que ele
tinha muito más inclinações e encontraram meios de se desfazer dele e depois
de sua morte escolheram de comum acordo para reinar sobre eles a Nabonide,
que era de Babilônia e da mesma raça que ele. Foi sob seu reinado que se
construíram ao longo do rio, com tijolos endurecidos com betume, aqueles
grandes muros que cercam a cidade de Babilônia. No décimo sétimo ano do seu
reinado, Ciro, rei da Pérsia, depois de ter conquistado o resto da Ásia, marchou
com um grande exército para Babilônia. Nabonide escapou com alguns dos
seus, fugindo para a cidade de Borsipe. Ciro sitiou em seguida Babilônia, na
persuasão de que depois de ter tomado o primeiro muro poderia apoderar-se da
cidade, mas tendo-o encontrado muito mais forte do que esperava, mudou de
idéia e foi sitiar Nabonide em Borsipe. O príncipe, não estando em condições de
resistir ao cerco, recorreu à sua clemência e Ciro tratou-o muito humanamente.
Deu-lhe o necessário para viver tranqüilo na Caramânia, onde passou o resto
de seus dias como um homem particular.
Estas palavras de Berose estão de acordo com a história de nossa nação,
que diz que Nabucodonosor, no décimo oitavo ano de seu reinado, destruiu
nosso Templo, que ele ficou completamente destruído durante setenta anos e
que de novo lhe foram lançados os alicerces no segundo ano do reinado de Ciro,
e foi terminada sua restauração e reconstrução, no segundo ano do reinado de
Dario.",