Livro 1 Flávio Josefo
Capítulo 11 Flávio Josefo
,
"CHEREMOM, OUTRO HISTORIADOR EGÍPCIO, É TAMBÉM REFUTADO.",
"Falemos agora de Cheremom, que também escreveu a história do Egito.
Ele supõe como Manetom, o rei Amenófis e censurou-lhe ter seu Templo sido
destruído pela guerra. Que um daqueles santos doutores, chamado Fritifante,
lhe havia dito que para livrá-lo do terror que o perturbava durante a noite era
preciso que ele expulsasse do Egito todos os que estavam atacados de lepra e de
outras doenças más; que em seguida ele expulsou duzentos e cinqüenta mil
desses, dentre os quais estavam também Moisés e José, que ele diz ter sido um
doutor sacro. Que o primeiro, em egípcio, chamava-se Ticita e o outro, Petesefe.
Que esses duzentos e cinqüenta mil homens, tendo chegado a Pelusa,
encontraram aí trezentos e oitenta mil homens, aos quais Amenófis tinha
recusado a entrada no Egito e que eles se reuniram e marcharam contra ele;
que o príncipe, não ousando enfrentá-los, tinha fugido para a Etiópia deixando
a mulher, grávida; que a princesa deu à luz numa caverna um filho, que foi
chamado Ramessés, o qual, depois de grande, expulsou os judeus, cujo número
era de duzentos mil homens, perseguiu-os até as fronteiras da Síria e mandou
voltar da Etiópia Amenófis, seu pai.
Que pode melhor mostrar a impostura desses dois autores, do que a
grande oposição que encontramos no que eles narram? Se houvesse o mínimo
de verdade, como explicar tão grande diversidade? Os que dizem mentiras não
têm a preocupação de ser coerentes com o que escrevem. Manetom atribui a
expulsão desses leprosos ao desejo que Amnenófis tinha de ver os deuses;
Cheremom o atribui a um sonho no qual ele diz que a deusa ísis lhe apareceu.
Um, diz que um sacerdote chamado Amenófis, como o príncipe, ordenou-lhe
que os expulsasse para purificar seu território, e o outro diz que foi Fritifante.
Se o nome desses dois sacerdotes concorda tão pouco, o número dos
exilados não concorda muito mais, pois um diz que eles eram oitenta mil
homens, e o outro, duzentos e cinqüenta mil. Manetom diz que esses leprosos
foram primeiramente mandados para as pedreiras, para cortar as pedras, e que
depois se lhes deu a cidade de Avaris, como residência, de onde, tendo
começado a guerra, eles chamaram os jerosolimitanos em seu auxílio.
Chemerom diz, ao contrário, que quando eles se viram obrigados a se retirar do
Egito, encontraram em Pelusa trezentos e oitenta mil homens abandonados
pelo rei Amenófis, e que se reuniram a eles e tornaram a entrar no Egito,
obrigando o soberano a fugir para a Etiópia. Mas o que há de raro é que esse
autor que inventou o belo sonho da deusa Isis esqueceu-se de dizer de onde
viera aquele grande exército de trezentos e oitenta mil homens, se eram egípcios
ou estrangeiros e porque Amenófis lhes havia negado a entrada em seu
território.
Não há menos motivo de admiração sobre o que ele acrescenta, que
Moisés e José foram expulsos ao mesmo tempo, embora José tenha morrido
cento e setenta anos antes de Moisés e haja quatro gerações entre um e outro.
Ramessés, filho de Amenófis, se acreditarmos em Manetom, fez, com o rei seu
pai, guerra aos leprosos e aos jerosolimitanos, e com ele fugiu para a Etiópia.
Segundo Cheremom, ele nasceu numa caverna, depois da fuga de seu pai
venceu seus súditos revoltados e os judeus que tinham vindo em seu auxílio em
número de duzentos mil e os perseguiu até as fronteiras da Síria. Devemos ser
muito crédulos para não se nos rirmos desses belos contos. Ele disse então que
esse exército, detendo-se em Pelusa, era de trezentos e oitenta mil homens; ele
não fala mais agora senão de duzentos mil e não diz o que foi feito dos outros
cento e oitenta mil, se morreram nalgum combate ou se passaram para o lado
de Ramessés. E o que é ainda mais estranho, não poderíamos saber se aqueles
aos quais ele chama de judeus são os duzentos e cinqüenta mil leprosos ou se
são esses trezentos e oitenta mil homens que haviam sido detidos em Pelusa.
Temo que me chamem de louco por procurar convencer de falsidade aqueles
que por si mesmos se convencem e que não passariam tão evidentemente por
impostores, se disso não tivessem sido acusados por outros.",