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Livro 1 Flávio Josefo

Capítulo 8 Flávio Josefo

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,
"TESTEMUNHO DOS HISTORIADORES GREGOS COM RELAÇÃO À NAÇÃO DOS JUDEUS, QUE
TAMBÉM LHE DEMONSTRARAM A ANTIGÜIDADE.",
"A antigüidade de nossa raça é, pois, evidente, e o que referi basta para
obrigar àqueles que não têm espírito de contestação a estar de acordo conosco.
Mas, para convencer mesmo aos que tratam os outros povos de bárbaros e
querem que nós nos atenhamos somente aos gregos, apresentarei testemunhos
de seus próprios autores que disso tiveram conhecimento e escreveram sobre
coisas que se referem a nós. Pitágoras, de Samos, que viveu há muitos anos e
que sobrepujou a todos os outros filósofos pela sua admirável sabedoria e sua
eminente virtude, não somente conheceu nossas leis, mas as seguiu em várias
coisas. Pois embora nada encontremos escrito por ele, não deixamos de
conhecer os seus sentimentos, pelo que vários historiadores disseram, dos
quais Hermipo é o mais célebre, o qual era excelente e muito exato entre os
historiadores. Ele diz no seu primeiro livro, com relação a Pitágoras, que um
dos amigos desse grande personagem, de nome Califon, nativo de Crotona,
morrera e sua alma não o abandonava nem de dia nem de noite, e entre outras
coisas dizia-lhe que não passasse por um lugar onde um asno tivesse caído;
que não bebesse água que não fosse bem limpa e que jamais maldissesse a
ninguém: e nisso, ele era do mesmo parecer dos gregos e dos trácios e o que
esse autor diz é muito verdade, pois é certo que ele havia tirado das leis dos
judeus uma parte de sua Fílonsofia.
Nossos costumes foram tão apreciados e tão conhecidos por várias
nações, que muitos os abraçaram, como se vê, pelo que Teofrasto escreveu em
seu livro das leis, onde ele diz que as dos tírios proíbem jurar em nome de
qualquer deus estrangeiro, isto é, de outras nações, e põe no número desses
juramentos proibidos o de Corban, isto é, dom de Deus, e deste, sabemos,
somente os judeus é que usam.
Nossa nação foi conhecida também por Heródoto, de Halicarnasso, pois
dela ele faz menção, de algum modo, no segundo livro de sua história, onde,
falando dos de Colcos, diz: Somente esse povo e os egípcios observam há muito
tempo o costume de se circuncidarem. Os fenícios e os sírios da Palestina estão
de acordo, em que foi dos egípcios que eles o receberam. Quanto aos outros
sírios que moram ao longo do rio de Termodom e de Bartema, como também os
macrons que lhe são vizinhos, eles reconhecem que foi dos de Colcos que eles
receberam o costume da circuncisão. Esses povos são, portanto, os únicos que
o aceitaram, à imitação dos egípcios. Mas, quanto aos egípcios e aos etíopes eu
não saberia dizer qual desses dois povos o recebeu do outro. Vemos, com essa
passagem, que esse autor diz positivamente que os sírios da Palestina se fazem
circuncidar. Ora, de todos os povos da Palestina, somente os judeus se fazem
circuncidar e por conseguinte é deles que ele fala.
Choerílio, um antigo poeta, conta também nossa nação entre as que
seguiram a Xerxes, rei da Pérsia, na guerra que fez aos gregos, pois, como
poderemos duvidar de que não é de nós que esse poeta fala, se ele diz que essa
nação habita nos montes de Solima, isto é, de Jerusalém e ao longo do lago
Asfaltite, que é o maior de todos os que estão na Síria?
Não terei também dificuldade em provar que os mais célebres dos gregos
não somente conheceram nossa nação, mas também a estimaram muito.
Clearco, um dos discípulos de Aristóteles e que não era inferior a nenhum outro
de todos os filósofos peripatéticos, introduz num diálogo de seu primeiro livro
do sono, Aristóteles, seu mestre, que fala desta maneira, de um judeu que ele
havia conhecido: Eu seria demasiado longo se vos quisesse entreter com o
resto; con-tentar-me-ia de vos dizer o que vos fará admirar sua sabedoria. Vós
não podereis, disse então Hiperochide, nos obsequiar mais. Eu começarei
então, continuou Aristóteles, para não faltar aos preceitos da retórica, pelo que
se refere à sua raça. Ele era judeu de nascimento, oriundo da baixa Síria, da
qual aqueles que a habitam agora são descendentes desses filósofos e sábios
das índias que eram chamados de chalans e que os sírios chamam de judeus,
porque moram na Judéia, e o nome da sua capital é difícil de se pronunciar,
pois chama-se Jerusalém. Esse homem recebia em sua casa com muita
bondade os estrangeiros que vinham das províncias afastadas do mar, às
cidades que lhe estavam próximas. Ele não somente falava muito bem a nossa
língua, mas estimava muito a nossa nação. Quando eu viajava na Ásia com
alguns dos meus discípulos, ele nos veio visitar e nas conversas que por vezes
entabulamos, achamos que tínhamos muito que aprender das suas palavras.
Eis o que Clearco refere, que Aristóteles dizia desse judeu. A isso ele acrescenta
que sua temperança e seus costumes eram admiráveis. Aconselho que
consultem esse autor os que quiserem saber mais a esse respeito, porque eu
não quero me estender muito.
Hecateu Abderita, que não somente era um grande filósofo, mas muito
perito nos negócios de Estado e que tinha vivido junto de Alexandre, o Grande,
e de Ptolomeu, rei do Egito, filho de Lago, escreveu um livro inteiro sobre o que
se refere à nossa nação. Citarei brevemente alguma coisa, começando por
determinar-lhe o tempo. Ele fala da batalha entre Ptolomeu e Demétrio, perto
da cidade de Gaza, onze anos depois da morte de Alexandre, na Olimpíada
cento e dezessete, segundo o cômputo de Castor, na sua crônica, e diz: Nesse
mesmo tempo Ptolomeu, filho de Lago, venceu perto de Gaza, a Demétrio, filho
de Antígono, cognominado Poliorchetes, isto é, destruidor de cidades. Ora,
todos os historiadores estão de acordo em que Alexandre, o Grande, morreu na
Olimpíada cento e quatorze e assim não podemos duvidar de que no tempo
desse grande príncipe nossa nação não fosse florescente. Hecateu acrescenta
que depois dessa batalha Ptolomeu apoderou-se de todas as cidades fortes da
Síria e que sua bondade e doçura conquistaram de tal modo o coração daqueles
povos, que vários seguiram-no para o Egito, e particularmente um sacerdote
judeu, chamado Ezequias, com a idade de sessenta e seis anos, muito estimado
pelos seus compatriotas, muito eloqüente e tão hábil, que nenhum outro o
sobrepujava no conhecimento dos assuntos mais importantes. Esse mesmo
autor diz em seguida que o número dos sacerdotes que recebiam as décimas e
que governavam em comum era de mil e quinhentos; voltando a falar de
Ezequias, ele diz: Esse grande personagem, acompanhado de alguns dos seus,
muitas vezes conversava conosco, e nos explicava as coisas mais importantes
sobre a disciplina e o proceder dos seus conacionais, que estavam todas
escritas. Ele acrescenta que nós somos tão apegados à observância de nossas
leis, que nada há que não estejamos prontos a sofrer, antes que violá-las. Estas
são as suas palavras: Embora muitos fossem os males que eles haviam sofrido
de sues vizinhos e particularmente dos reis da Pérsia e de seus lugar-tenentes
generais, jamais pudemos fazê-los mudar de idéias. Nem a perda de seus bens,
nem os ultrajes, nem as feridas, nem mesmo a morte foram capazes de fazê-los
renunciar à religião de seus antepassados. Eles foram destemidos diante de
todos estes males e deram provas incríveis de sua firmeza e constância na
observância de suas leis. Um governador de Babilônia, chamado Alexandre,
querendo restaurar o Templo de Bel que tinha desabado, e obrigando mesmo a
todos os soldados a carregar os materiais para isso, a fim de encetar a obra, os
judeus, foram os únicos que se recusaram. Ele os castigou de diversas
maneiras sem poder jamais vencê-los em sua obstinação e por fim o rei os
dispensou daquele trabalho, que eles julgavam não poder fazer, em consciência.
Depois que regressaram ao seu país eles destruíram todos os Templos e altares
que tinham sido construídos por deuses e o governador da província fê-los
pagar, por esse motivo, grandes somas como multa. Esse historiador
acrescenta que não se poderia assaz admirar tão grande firmeza e demonstra
também que nossa nação foi tão poderosa, em número de habitantes, que os
persas levaram um grande número deles para a Babilônia e que depois da
morte de Alexandre, o Grande, vários foram também levados para o Egito e para
a Fenícia, por causa da revolução na Síria. Para mostrar a extensão, a
fertilidade e a beleza do país em que nós habitamos, ele diz: Contém três
milhões de arpentes, cuja terra é tão excelente que não há frutos que ela não
produza. Falando de Jerusalém e do Templo ele diz: Os judeus têm, de
diversas aldeias e vilas, muitas praças fortes e dentre outras, a cidade de
Jerusalém, que tem cinqüenta estádios de perímetro (cerca de dez mil
quilômetros), e cento e vinte mil habitantes. No meio dessa cidade há um muro
de pedras de quinhentos pés de comprimento (cento e sessenta e cinco metros)
e cem de largura com duas grandes portas e dentro desse recinto há um altar
de forma quadrangular, feito de pedras unidas sem que se tenha nisso dado um
só golpe de martelo. Cada um dos lados desse altar tem vinte côvados (treze
metros) e tem igualmente dez de altura. Bem perto dele há um edifício muito
grande no qual há um outro altar, todo de ouro e também um candelabro de
ouro, que pesa dois talentos, com lâmpadas, onde arde o fogo continuamente,
dia e noite. Mas não há figura nem bosques nos arredores como se vê perto dos
outros Templos dos bosques sagrados. Os sacerdotes lá passam o dia e a noite
em perfeita contingência e jamais bebem vinho.
Esse mesmo autor refere um fato que viu, de um dos judeus, que serviam
no exército de um dos sucessores de Alexandre. Eis suas mesmas palavras:
Quando eu me dirigia para o mar Vermelho, havia entre os cavaleiros de nossa
escolta um judeu de nome Mausolam, que era tido como um dos mais corajosos
e dos mais hábeis arqueiros entre os gregos e os estrangeiros; vários insistiam
com um adivinho que dissesse por meio do vôo das aves qual seria o resultado
de nossa viagem; este homem mandou que parassem; eles o fizeram e
Mausolam perguntou-lhe o porquê de tal insistência. Responderam-lhe que era
para observar um pássaro, que ele via, porque, se aquele pássaro não se
afastasse, eles não deviam passar além; mas se ele levantasse vôo diante deles,
eles deviam continuar a viagem: mas se dirigisse o vôo para trás deles eles
seriam obrigados a regressar. Mausolam, sem nada dizer, entesou o arco e
atirou uma flecha matando o pássaro no ar. O adivinho e alguns outros ficaram
tão ofendidos com isso que lhe disseram injúrias; ele, porém, lhes respondeu
somente isto: Perdeste o juízo por lamentar assim esse pássaro infeliz que
tendes nas mãos? Ele ignorava o que lhe seria da vida, como podia ele nos fazer
conhecer que nossa viagem seria feliz? E se ele tinha algum conhecimento do
futuro teria ele vindo aqui para receber a morte de uma das flechas do judeu
Mausolam?
Isto é suficiente, quanto ao testemunho de Hecateu. Os que quiserem
saber mais, leiam seu livro. Acrescentarei, porém, uma outra prova, tirada de
Abatarcida, o qual, embora não tenha falado com muitos elogios de nossa
nação, não o fez, sem dúvida, por mal. Ele conta de que modo a rainha
Estratônica, depois de ter abandonado o rei Demétrio, seu marido, veio da
Macedônia à Síria, na esperança de desposar o rei Seleuco e disse que essa
intenção, não lhe tendo sido possível, incitou em Antioquia uma revolta contra
ele, quando estava em Babilônia com o exército; e ao seu regresso, ele tomou
Antioquia; ela quis fugir para a Cilícia, mas um sonho que teve impediu-lhe de
continuar a viagem, sendo então feita prisioneira e vindo a morrer. A esse
respeito Agatarcida, para mostrar quantas superstições semelhantes são
condenáveis, cita por exemplo nossa nação, da qual fala nestes termos:
Aqueles que são chamados judeus moram numa cidade muito forte chamada
Jerusalém. Eles comemoraram tão festivamente o sétimo dia, que não somente
não usam armas nesse dia e não trabalham na terra, mas não fazem outra
coisa qualquer. Passam o dia inteiro orando a Deus no Templo. Assim, quando
Ptolomeu Lago veio com um exército, em vez de lhe resistir, como teriam podido
fazê-lo, aquela louca superstição fez que de medo de violar aquele dia, a que
chamam de sábado, eles o recebessem como senhor e um senhor mui cruel.
Viu-se então quanto aquela lei estava mal fundada: e tal exemplo deve ensinar
não somente a esse povo, mas também a todos os outros que não se pode sem
extravagância aceitar tais imposições, quando um perigo grave e urgente obriga
a delas nos afastarmos. Foi assim que Agatarcida achou nosso proceder digno
de riso, mas aqueles que julgarem com mais juízo e ponderação confessarão,
sem dúvida, que deveríamos ser por isso mui elogiados, porque preferimos por
um sentimento de religião e de piedade a observância de nossas leis e nossos
deveres para com Deus, à nossa conservação e à da nossa pátria.
Se outros escritores que viveram no mesmo século não falaram de nós em
suas histórias, será fácil conhecermos, pelo exemplo que vou referir, que sua
inveja contra nós ou alguma outra razão semelhante foi disso a causa,
jerônimo, que escreveu no mesmo tempo de Hecateu a história dos sucessores
de Alexandre e que sendo muito amado pelo rei Antígono, era governador da
Síria, não diz uma palavra sequer de nós, embora ele quase tenha sido educado
em nosso país e Hecateu tenha disso escrito um livro inteiro. Aqui parece que o
sentir dos homens é diferente: um porque julga que nós merecíamos que se
falassem muito detalhadamente de nós e o outro, porque não receia, para
obscurecer-lhe a memória, suprimir a verdade. Mas as histórias dos egípcios,
dos caldeus e dos fenícios são suficientes para fazer conhecer a antigüidade de
nossa raça, quando não lhes quiséssemos acrescentar a dos gregos, dentre os
quais além daqueles de que falei, podemos indicar TeóFílon, Teódoto, Mnazeas,
Aristófanes, Hermógenes, Eumero, Conom, Zopírio e talvez outros, pois eu não
li todos os livros que fazem particular menção de nós. A maior parte deles
ignoraram a verdade do que se passou nos primeiros séculos, porque eles não
leram nossos livros santos, mas todos prestam testemunho da antigüidade de
nossa nação, que é o assunto de que me propus tratar. Falero, Demétrio, Fílon,
o antigo, e Eupolemo não se afastaram muito da verdade e se faltaram a ela;
devem ser perdoados, porque eles não puderam ver todos os nossos livros, o
que seria para se desejar, a fim de ficarem bem informados.",