Livro 1 Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"AS HISTÓRIAS GREGAS SÃO AS QUE MENOS DEVEMOS ACREDITAR NO QUE SE
REFERE AO CONHECIMENTO DA ANTIGÜIDADE; OS GREGOS MUITO TARDE
INICIARAM-SE NAS LETRAS E NAS CIÊNCIAS.",
"Eu não poderia não me admirar de que ainda haja gente que pensa, que
se deve consultar os gregos, com relação à certeza das coisas mais antigas e
que não se deve prestar fé aos outros. É justamente o contrário; não há, para
bem julgarmos, como considerar as coisas em si mesmas sem nos determos em
opiniões que não têm fundamento algum.
Tudo o que vejo entre os gregos é novo; quer eu considere a fundação de
suas cidades, quer a invenção de suas cidades, quer a invenção das artes, de
que eles se vangloriam, quer o estabelecimento de suas leis, quer sua aplicação
à composição da história, com bastante cuidado. Sem falar de nós, eles são
mesmo obrigados a confessar que os egípcios, os caldeus e os fenícios a eles se
afei-çoaram desde todos os tempos sem que nada se tenha passado entre eles,
de que não tenham tido prazer em conservar a memória, mesmo com inscrições
públicas feitas pelos sábios e pelos mais hábeis entre eles. A isso poderemos
acrescentar que tantas e tão diversas mudanças entre os gregos fizeram perder-
se a lembrança do passado; quanto às coisas que eles descobriram, embora se
vangloriem de serem os mais hábeis de todos os homens, eles devem saber que,
com dificuldade, ainda adquiriram o verdadeiro conhecimento das letras. Eles
se gabam de as ter obtido dos fenícios e de Carmo; mas eles não saberiam
mostrar nem nos Templos, nem nos arquivos públicos, alguma inscrição feita
naquele tempo; e duvida-se mesmo de que, quando vários séculos depois, eles
sitiaram Tróia, tinham o uso da escrita; a opinião mais comum, porém, é que
ainda não o tinham. Não poderíamos contestar que o poema mais antigo não
seja o de Homero, que não pode ter sido feito senão depois dessa guerra tão
célebre. Muitos julgam mesmo que ele não tinha sido escrito e que não se tinha
conservado a não ser na memória dos que o haviam aprendido de cor, para
cantá-lo; depois escreveram-no, o que faz que se encontrem várias coisas
contraditórias. Quanto a Cadmo Müller, Argeu, Acusilas e outros gregos que
resolveram escrever a história, eles precederam de muito pouco à guerra
empreendida por sua nação contra os persas. Com respeito a Ferecida, o sírio,
Pitágoras e Talete, que são os primeiros dentre eles, os quais trataram das
coisas celestes e divinas, todos confessaram ter sido discípulos dos egípcios e
dos caldeus e eu duvido de que se tenha algo escrito a esse respeito, antes
desse pouco que eles deixaram.
Houve, então, jamais, vaidade mais mal fundada do que a dos gregos,
quando se vangloriam de serem os únicos que têm conhecimento da
antigüidade e que só dão a conhecer coisas mui verdadeiras? Ao invés, é
evidente, por seus escritos, que nada contém de certo; mas, cada qual refere
seus sentimentos, segundo deles está persuadido; assim, a maior parte de seus
livros combate e sustenta, nos mesmos motivos, coisas contrárias. Eu seria
demasiado longo se quisesse referir em quantos lugares Helânico é diferente de
Acusilas, no que diz respeito às genealogias; e Hesíodo, contrário a Acusilas; em
quantos outros Éforo acusa Helânico de não ter dito a verdade. Timeu trata
Éforo do mesmo modo; outros não poupam igualmente a Timeu e todos em
geral dizem a mesma coisa de Heródoto. Timeu também não está de acordo com
Antíoco, Filisto e Callias na história da Sicília, e os que escreveram a de Atenas
e de Argos não são menos diferentes uns dos outros. Que direi da diversidade
que encontramos entre os que escreveram sobre as cidades, a guerra contra os
persas e outras coisas, nas quais pessoas muito estimadas são totalmente
contrárias? Não se acusa também a Tucídides de não ter sido verídico em tudo,
embora nenhum outro tenha escrito a história do seu tempo com tanta
exatidão?
Os que quiserem indagar a razão dessa diferença que constatamos entre
os historiadores gregos talvez encontrem diversas causas disso. Eu as atribuo
principalmente a duas: mais importantes, segundo o meu parecer, é que os
gregos não se tendo antecipadamente proposto o fim de escrever a história,
quando, tendo depois resolvido falar dela e das coisas passadas, encontraram
plena liberdade de referi-las, como mais lhes agradava, porque, não tendo nada
escrito a esse respeito, não se poderia acusá-los de as terem falseado. Pois, não
somente os outros povos da Grécia tinham-se descuidado em escrever a
história, mas não se encontra mesmo antigüidade entre os atenienses, embora
eles se gloriem de não ter sua origem de outrem, nem de outra nação e de
cultivar as ciências. Estão mesmo de acordo em que tudo o que eles
escreveram, nada é antigo, menos as leis, que lhes foram dadas por Dracom,
com relação ao castigo dos crimes, um pouco antes que Pisístrato tivesse
usurpado o governo. Eu poderia citar também os arcádios, que se gloriam de
sua antigüidade. Não sabemos, porém, que eles foram instruídos nas letras, só
depois daqueles de que acabo de falar?
Assim, nada havendo de escrito entre os gregos, para instruir sobre a
verdade àqueles que desejariam sabê-la e acusar de mentira os que quisessem
desvirtuá-la, nos não devemos admirar das contradições que encontramos entre
esses diversos escritores, pios que seu objetivo não era indagar da verdade,
embora eles jamais deixem de testemunhar o contrário, mas somente
conquistar a reputação de bem escrever. Uns, em vez de referir coisas
verdadeiras, encheram seus escritores de contos feitos para divertir; outros, só
pensaram em louvar as cidades e os príncipes; outros, só quiseram repreender
e censurar os que haviam escrito antes deles, para firmar sua reputação sobre
a ruína da deles, coisas todas contrárias à história da qual nada demonstra
tanta verdade, como referir as coisas de uma mesma maneira, ao passo que
esses historiadores pretendiam parecer tanto mais verídicos quanto eles eram
menos conformes aos outros. Queremos então ceder aos gregos, no que se
refere à linguagem e à presunção de parecerem eloqüentes, mas não no que se
refere à verdade da história antiga e ao que se passou em cada país.",