Livro Sexto Flávio Josefo
Capítulo 8 Flávio Josefo
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"SAUL, POR ORDEM DE DEUS, DESTRÓI OS AMALEQUITAS, MAS, CONTRA A
PROIBIÇÃO, LHES SALVA O REI. OS SOLDADOS QUEREM APROVEITAR-SE DOS
DESPOJOS. SAMUEL DECLARA-LHE QUE ELE ATRAIU SOBRE SI A CÓLERA DE DEUS.",
"231. 1 Samuel 15. Samuel veio ter com Saul e disse-lhe que, tendo-o Deus
preferido a todos os outros para fazê-lo rei, era obrigado a obedecer a Ele, pois
enquanto ele, Saul, fora colocado acima dos demais súditos, Deus estava acima
dele e de tudo o que há no céu e na terra, e que vinha dizer-lhe, da parte dEle:
Os amalequitas fizeram muito mal ao meu povo no deserto, quando este, após
sair do Egito, ia para o país que agora possuis. A justiça exige que sejam
castigados por tamanha desumanidade. Assim, ordeno-vos que lhes declareis
guerra e que os extermineis inteiramente depois de os vencerdes, sem poupar
idade ou sexo, a fim de castigá-los como merecem pela maneira como trataram
o meu povo no passado. Não quero, igualmente, que se poupe um animal
sequer nem que se conserve seja o que for nos despojos: tudo deve ser-me
oferecido em holocausto. Do mesmo modo, deve ser apagado de sobre a terra o
nome dos amalequitas, como Moisés o declarou, e que deles não fique o menor
vestígio.
Saul prometeu executar fielmente o que Deus ordenava e, para tornar a
sua obediência perfeita, por uma pronta execução, reuniu imediatamente todas
as suas tropas. Constatou, pela revista, que possuía quatrocentos mil homens,
sem incluir a tribo de Judá, que contribuía sozinha com trinta mil. Entrou com
esse exército no país dos amalequitas e, para unir astúcia à força, colocou
diversas emboscadas ao longo das torrentes, a fim de surpreendê-los e cercá-los
por todos os lados. Deu-lhes em seguida combate, venceu-os, colocou-os em
fuga e não deixou de os perseguir até derrotá-los completamente.
Tendo a empresa no início, segundo a ordem de Deus, obtido tão feliz êxi-
to, ele sitiou as cidades dos amalequitas e apoderou-se delas. Tomou algumas
com máquina, outras com ameaças, outras por terraços levantados do lado de
fora, outras pela carestia, outras por falta de água e outras ainda por diversos
meios. Não poupou as mulheres nem as crianças e nem por isso julgou passar
por desumano e cruel, pois além de estar lidando com inimigos, ele obedecia a
Deus, ao qual não se pode sem crime desobedecer. Conseguiu aprisionar o rei
Agague, mas a grandeza, a extraordinária beleza e o rosto formoso do príncipe
tocaram-no de tal modo que ele se convenceu de que deveria poupá-lo.
Assim, deixando-se levar por sentimentos em vez de cumprir a ordem de
Deus, usou infelizmente de uma clemência que não lhe era permitida, pois Ele
odiava de tal modo os amalequitas que não desejava que fossem poupadas nem
mesmo as crianças, embora por um sentimento natural a fragilidade as torne
dignas de compaixão. Esse rei, porém, não somente era um inimigo como
também causara grandes males ao povo de Deus. Os israelitas imitaram o seu
rei nesse pecado e como ele desprezaram a ordem de Deus: em vez de matar
todos os cavalos e os outros animais, preferiram conservá-los e apanharam o
que puderam de valor. Enfim, apoderaram-se em geral de tudo o que lhes
poderia ser útil. Assim, Saul devastou toda essa região, desde a cidade de
Peluzion até o mar Vermelho, menos os de Siquém, na província de Midiã,
porque, desejando salvá-los por causa de Jetro, sogro de Moisés, os avisou,
antes de começar a guerra, para não se meterem com os amalequitas.
232. Saul retornou em seguida, contente e gloriando-se da vitória, como
se tivesse cumprido cabalmente o que fora ordenado por Samuel. Deus, porém,
estava muito irritado, porque ele, contra a proibição, poupara a vida ao rei
Agague e porque os seus soldados, a exemplo dele, haviam desprezado as
mesmas ordens. Assim, eram tão indesculpáveis de seu crime quanto eram
devedores a Ele pela vitória. E, não há rei humano que tenha querido sofrer tão
grande ultraje como o que acabavam de fazer a Deus, o soberano Rei de todos
os reis.
Assim, Deus disse a Samuel que se arrependia de ter posto Saul no trono,
pois ele calcava aos pés as suas ordens para fazer somente a própria vontade.
Essa aversão de Deus por Saul feriu com uma dor tão forte e tão viva o profeta
que ele lhe rogou durante toda a noite que o perdoasse. Não obteve o perdão,
todavia, pois Deus não achou justo perdoar tão grande ofensa, tendo em vista
apenas o intercessor, porque quem, pela afetação da falsa glória de uma
clemência, deixa crimes impunes é causa de que estes se multipliquem.
Samuel, percebendo que não conseguia aplacar a Deus com as suas
orações, foi, ao despontar do dia, encontrar-se com Saul em Gilgal. O príncipe
correu à sua presença, abraçou-o e disse-lhe: Dou graças a Deus pela vitória
que lhe aprouve conceder-me, e fiz tudo o que Ele me mandou fazer. Retrucou-
lhe o profeta: Como então estou ouvindo nitridos de cavalos e balidos de
ovelhas no vosso campo? São rebanhos de carneiros que o povo trouxe e
reservou para sacrificar a Deus, respondeu Saul. Exterminei completamente a
raça dos amalequitas, como me havíeis determinado de sua parte, reservando
somente o rei. Faremos dele o que vos aprouver.
Samuel respondeu-lhe: Não são as vítimas que são agradáveis a Deus,
mas os homens justos que obedecem à sua vontade e só julgam bem feito o que
Ele ordena. Pode-se, pois, sem desprezá-lo, não lhe oferecer sacrifícios, mas não
se pode desobedecer a Deus sem desprezá-lo, e aqueles que o desobedecem não
lhe podem oferecer sacrifícios verdadeiros, que lhe sejam agradáveis. Por mais
gordas que sejam as vítimas a Ele apresentadas e por mais puras que sejam as
ofertas por si mesmas, Ele as rejeita. Tem-lhes aversão porque são mais efeito
de hipocrisia que sinais de piedade. Por outro lado, Ele olha com vistas favorá-
veis aqueles que não têm outro desejo senão agradá-lo e preferem morrer a
faltar ao menor de seus mandamentos. Não lhe pede vítimas e quando eles
mesmos as querem oferecer, por mais desprezíveis que sejam, recebe-as com
mais boa vontade que tudo o que os ricos lhe podem oferecer. Sabei, pois, que
atraístes sobre vós a indignação e a cólera de Deus pelo desprezo que votastes
às suas ordens. Como julgais que Ele olhará o sacrifício que lhe fareis das
coisas as quais Ele vos ordenou destruir? É possível que imagineis não haver
diferença entre exterminar e sacrificar? A diferença é tanta que, para vos
castigar por não terdes cumprido a sua ordem, deveis preparar-vos para perder
a coroa que Ele vos colocou sobre a cabeça.
Saul, atônito com essas palavras do profeta, respondeu-lhe que, embora
não tivesse podido conter os soldados, por demais ansiosos pelo saque,
confessava que era culpado. Rogava-lhe, porém, que o perdoasse e fosse o seu
intercessor junto a Deus, com a promessa de não mais cair em semelhante
falta. Pediu-lhe em seguida que ficasse um pouco com ele, para oferecer vítimas
a Deus e aplacar a sua cólera. Mas como o profeta sabia que Deus não o iria
atender, não quis se demorar mais.",