🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro Sexto Flávio Josefo

Capítulo 7 Flávio Josefo

123456789101112131415
,
"SAUL FAZ UM SACRIFÍCIO SEM ESPERAR SAMUEL E ATRAI SOBRE SI A CÓLERA
DE DEUS. MARCANTE VITÓRIA CONQUISTADA SOBRE OS FILISTEUS, POR MEIO
DE JÔNATAS. SAUL QUER FAZÊ-LO MORRER PARA CUMPRIR UM JURAMENTO E
TODO O POVO SE OPÕE. FILHOS DE SAUL E SEU GRANDE PODER.",
"227. 1 Samuel 13. Depois de voltar a Betei, Saul recrutou três mil homens
e conservou dois mil para a guarda. Enviou Jônatas, seu filho, com os mil
restantes a Geba, poisos interesses dos israelitas estavam em situação muito
difícil naquele país. Isso porque os filisteus, depois de os haver derrotado, não
se contentaram em desarmá-los e em colocar guarnições nas praças-fortes:
proibiram-lhes também o uso do ferro, de modo que os israelitas estavam
condicionados a pedir aos filisteus até mesmo as coisas mais necessárias para
o cultivo da terra.
Logo que Jônatas chegou, apoderou-se pela força de um castelo próximo
de Geba, deixando os filisteus muito irritados, os quais, para vingar-se,
puseram-se imediatamente em campo com trezentos mil soldados de infantaria,
trinta mil carros e seis mil cavaleiros e acamparam perto de Micmás. Quando
Saul o soube, saiu de Cilgal e mandou apregoar por todos os lados de seu reino
que, se quisessem conservar a liberdade, seria necessário tomar armas e
combater os filisteus. Todavia, em vez de mencionar o poder das forças
inimigas, dizia que elas não eram tão fortes que os pudessem atemorizar. O
povo, no entanto, soube da verdade e foi tomado de tal temor que alguns se
esconderam nas cavernas e outros passaram o Jordão para buscar segurança
nas tribos de Rúben e de Gade.
Saul, vendo-os tão espantados, mandou rogar a Samuel que viesse
encontrá-lo, para resolverem juntos o que fazer. O profeta mandou dizer-lhe
que o esperasse no lugar onde estava e que preparasse as vítimas. Ao sétimo
dia, iria ter com eles para oferecer os sacrifícios a Deus, num sábado, e depois
iniciariam a luta. Saul obedeceu-lhe, em parte, não em tudo. Ele permaneceu
ali os dias que o profeta havia ordenado. Vendo, porém, que o profeta se
demorava e que os soldados o abandonavam, ofereceu o sacrifício. Informado de
que o profeta se aproximava, foi ter com ele.
Samuel disse a Saul que este agira muito mal em oferecer o sacrifício sem
esperá-lo. A isso Saul respondeu, para desculpar-se, que esperara tantos dias
quantos Samuel dissera e que os soldados começavam a abandoná-lo ante a
notícia de que os inimigos haviam deixado Micmás para vir a Gilgal, por isso
fora obrigado a oferecê-lo. Respondeu o profeta: Se tivésseis feito o que vos
mandei e não mostrásseis tão pouco caso pelas ordens que vos dei da parte de
Deus, teríeis firmado durante vários anos a coroa sobre a vossa cabeça e sobre
a de vossos sucessores. Depois de ter assim falado, ele retornou muito
descontente por essa ação do soberano.
228. Saul, acompanhado por Jônatas e Aías, sumo sacerdote descendente
de Eli, e de apenas seiscentos homens — dos quais a maioria não estava
armada, porque os filisteus os haviam privado dos meios necessários para isso
—, rumou para Gibeá, de onde viu com incrível pena, do alto de uma colina, os
inimigos devastando inteiramente o país. Estes entraram ali por três lugares
diferentes, sem que se lhes pudessem opor, devido ao número exíguo de
habitantes.
229. 1 Samuel 14. Enquanto ele passava por tão sentido desprazer,
jônatas, num ímpeto de generosidade extraordinária, concebeu um dos mais
ousados empreendimentos imagináveis. Tomando somente o seu escudeiro,
depois de fazê-lo jurar que não o abandonaria, resolveu entrar secretamente no
acampamento dos inimigos e lá provocar desordem. Para isso, desceu a colina.
O campo era muito difícil de ser atingido, porque estava encerrado num
triângulo rodeado por rochedos, que lhe serviam de defesa. Assim, ninguém
podia lá subir ou mesmo dele se aproximar sem grande perigo. Tal situação,
porém, tornava os inimigos muito negligentes na vigilância.
Jônatas tudo fez para tranqüilizar o seu escudeiro e disse-lhe: Se os
inimigos, quando nos descobrirem, disserem para subirmos, isso servirá como
sinal de que o nosso intento será bem-sucedido. Mas se eles nada disserem,
voltaremos. Aproximaram-se do acampamento ao despontar do dia, e os
filisteus, vendo-os, disseram: Eis ali os israelitas, que saem de seus antros e de
suas cavernas. E gritaram imediatamente a Jônatas e ao escudeiro: Vinde
receber o castigo de vossa temeridade. Jônatas ouviu com alegria essas
palavras, considerando-as um presságio de que Deus favorecia o seu
empreendimento. Desceu então e passou por um outro caminho, onde os
rochedos eram tão pouco acessíveis que nem havia sentinelas.
Ele e o seu escudeiro subiram com incrível dificuldade. Encontraram os
inimigos adormecidos e mataram uns vinte deles. Ninguém podia imaginar que
dois homens somente tivessem realizado tão temerária empresa, e todo o
acampamento encheu-se de tal terror que alguns atiraram fora as armas, para
se salvar. Outros matavam-se reciprocamente, tomando-se por inimigos, pois
aquele exército era composto por homens de diversas nações. Outros ainda
empurravam-se e se chocavam de tal modo na fuga que caíam do alto dos
rochedos.
Saul, avisado pelos seus espiões de um estranho movimento no campo
dos filisteus, perguntou se alguns dos seus não se haviam afastado da tropa e,
sabendo que Jônatas e o seu escudeiro estavam ausentes, rogou ao sumo
sacerdote que se revestisse do éfode para saber de Deus o que iria acontecer.
Ele o fez e assegurou-lhe que Deus lhe daria a vitória. Saul partiu logo com os
poucos homens de que dispunha para atacar os inimigos durante aquela
desordem. Espalhando-se a notícia, vários dos israelitas que estavam
escondidos nas cavernas uniram-se a ele.
Assim, quase num momento, ele se viu seguido por uns doze mil homens,
com os quais perseguiu os filisteus, que estavam espalhados por toda parte.
Mas, por imprudência ou porque lhe era difícil moderar-se em tamanha e
tão surpreendente alegria, ele cometeu outra falta. Querendo vingar-se
plenamente de seus inimigos, amaldiçoou e condenou à morte todo aquele que
deixasse de os perseguir e matar ou se alimentasse antes de chegar a noite.
Pouco depois, ele e os seus chegaram a uma floresta da tribo de Efraim, onde
havia grande quantidade de abelhas, jônatas, que nada sabia da maldição
proferida pelo pai nem do apoio que lhe dera o povo, comeu um favo de mel.
Logo que o soube, porém, não o comeu mais e contentou-se em dizer que o rei
teria feito muito melhor não promulgando aquela proibição, porque teriam mais
força para perseguir os inimigos e poderiam matar muitos outros ainda.
Depois de enorme carnificina, voltaram à tarde para saquear o
acampamento, e os vencedores, tendo encontrado muitos animais entre os
despojos, mataram uma grande quantidade deles e comeram-lhes a carne com
sangue. Os escribas avisaram imediatamente o rei do pecado que o povo
cometia, comendo carne sanguinolenta, contra o mandamento de Deus. Ele
mandou então que rolassem para o meio do campo uma enorme pedra e
degolassem sobre ela os animais, para fazer correr o sangue, a fim de que não
se misturasse com a carne e ninguém mais ofendesse a Deus ao comê-la. Todos
obedeceram, e Saul mandou erguer um altar, sobre o qual ofereceram a Deus
alguns holocaustos. Esse foi o primeiro altar que mandou fazer.
Querendo então ir imediatamente saquear o acampamento dos inimigos,
sem esperar o raiar do dia, e querendo-o também os seus soldados com não
menor ardor, ele disse ao sacerdote Aquilobe que consultasse a Deus para
saber se lhe seria isso agradável. Aquilobe obedeceu e voltou dizendo que Deus
não respondia. Disse Saul: Esse silêncio procede sem dúvida de algum grande
motivo, pois Deus estava acostumado a nos dizer o que fazer antes mesmo de o
consultarmos. Algum pecado oculto deve tê-lo feito ficar em silêncio. Mas juro
por Ele mesmo que, ainda que ainda Jônatas o tenha cometido, não o pouparei,
como ao último do povo, para aplacar a cólera de Deus, nem que isso lhe custe
a vida.
Todos exclamaram que o rei deveria executar a sua resolução. Ele retirou-
se à parte, com Jônatas, e lançou a sorte para saber quem havia pecado, e ela
caiu sobre Jônatas. Saul, muito admirado, perguntou-lhe qual crime havia
cometido, e jônatas respondeu que não se achava culpado de nada, senão que,
desconhecendo a proibição, comera um pouco de mel enquanto perseguia os
inimigos. Saul então disse que o faria morrer, pois preferia a observância do
juramento ao seu próprio sangue e a todos os sentimentos naturais. Jônatas,
sem se admirar, respondeu-lhe, com uma firmeza digna de sua alma: Não vos
peço, senhor, que me conserveis a vida. Sofrerei a morte com alegria, para
poderdes cumprir o vosso juramento. Não me posso julgar infeliz depois de ter
visto o povo de Deus dominar o orgulho dos filisteus por uma tão brilhante e
gloriosa vitória.
O povo ficou tão comovido com essa extraordinária generosidade que,
contrariando o rei, jurou não permitir a morte daquele ao qual deviam o
sucesso de tão célebre jornada. Assim, arrancaram Jônatas das mãos do rei,
seu pai, e pediram a Deus que perdoasse a falta que ele cometera.
230. Depois de tão grande feito, no qual perto de mil homens dentre os
inimigos foram mortos, Saul reinou feliz e obteve grandes triunfos sobre os
amonitas, os moabitas, os filisteus, os idumeus, os amalequitas e o rei de Zobá.
Ele teve três filhos: Jônatas, Isvi e Malquisua, e duas filhas: Merabe e Mical.*
* A Bíblia menciona ainda outros três filhos de Saul: Isbosete (2 Sm 2.8),
Armoni e Mefibosete (2 Sm 21.8) (N do E).
Entregou o cargo de comandante do exército a Abner, filho de seu tio Ner,
o qual era irmão de Quis, sendo ambos filhos de Abiel.
Além do grande número de soldados de infantaria que mantinha, era
ainda bastante forte em cavalaria, tinha inúmeros carros e escolhia para
guardas os homens que sabia serem mais fortes e hábeis que os outros. A
vitória acompanhava-o em todos os seus empreendimentos, e ele levou os
interesses dos israelitas a tão alto grau de prosperidade e poder que eles se
tornaram temíveis a todos os vizinhos.",