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Livro Sexto Flávio Josefo

Capítulo 10 Flávio Josefo

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"OS FILISTEUS VÊM ATACAR OS ISRAELITAS. UM GIGANTE, DE NOME GOLIAS,
PROPÕE TERMINAR A GUERRA POR UM COMBATE SINGULAR, ENTRE ELE E UM
ISRAELITA. NINGUÉM RESPONDE AO DESAFIO, MAS DAVI O ACEITA.",
"236. 1 Samuel 17. Algum tempo depois, os filisteus vieram com um gran-
de exército atacar os israelitas e acamparam entre as cidades de Soco e Azeca.
Saul marchou logo contra eles e, tendo-se apoderado de uma colina, obrigou-os
a se retirar e acampar em outra que ficava em frente. Havia no exército um
gigante de nome Golias, que era de Gate e tinha seis côvados e um palmo de
altura. A sua força correspondia ao seu tamanho, e ele estava armado na
proporção de uma e de outro. A sua couraça pesava cinco mil sidos, o capacete
não era menos pesado e a perneiras, que eram de bronze, estavam em
conformidade com o resto. O seu dardo era tão pesado que, em vez de carregá-
lo na mão, ele o levava sobre os ombros, e somente o ferro pesava seiscentos
sidos.
Esse terrível gigante, seguido por uma grande tropa, apresentou-se com
esse equipamento no vale que separava os dois exércitos e gritou em voz alta, a
fim de que Saul e todos os seus o ouvissem: Para que travarmos batalha?
Escolhei dentre vós alguém com quem eu possa terminar esta questão. O
partido daquele que for vencido será obrigado a receber a lei do partido
vitorioso. Não é melhor expor somente um homem ao perigo que um exército
inteiro? Ele voltou no dia seguinte ao mesmo lugar, para dizer a mesma coisa.
E, durante quarenta dias, continuou a fazer o mesmo desafio. Saul e os seus
soldados, não sabendo o que responder, contentavam-se em se apresentar à
batalha, mas a luta não se travava.
Davi não se achava então no acampamento, porque Saul o restituíra ao
pai para retomar o seu ofício de pastor e tinha consigo somente três de seus
irmãos. Jessé, todavia, percebendo que a guerra se prolongava demais, enviou
Davi aos seus irmãos para levar-lhes diversas coisas e também notícias suas.
Golias voltou ao seu lugar de costume, agora mais insolente do que nunca,
fazendo mil injúrias aos israelitas, pois nenhum deles tinha coragem de
enfrentá-lo. Davi, que nessa hora estava junto de seus irmãos, cumprindo as
ordens de seu pai, ficou admirado ao vê-lo falar daquele modo e disse que
estava disposto a combater.
Eliabe, seu irmão mais velho, irritado, repreendeu-o fortemente e
mandou-o voltar para casa e reassumir a custodia dos rebanhos da família.
Davi nada respondeu ao irmão, devido ao respeito que nutria por ele, mas disse
a alguns dos soldados que não teria medo de aceitar o desafio daquele gigante.
Foram contá-lo a Saul, que o mandou chamar e perguntou-lhe se era verdade
que assim havia falado. Davi respondeu-lhe: Sim, majestade, pois não tenho
medo daquele filisteu que parece tão temível. Se vossa majestade me permite,
não somente destruirei a sua ousadia como ainda o tornarei tão desprezível
quanto ele agora parece terrível, e a glória que vossa majestade e o exército
terão será tanto maior, porque ele não foi vencido por um homem robusto e
experimentado na guerra, mas por um jovem soldado.
Saul admirou-lhe a coragem, mas não se atrevia a confiar uma ação tão
importante a alguém daquela idade, principalmente porque o combate era
contra um homem de força prodigiosa e de valor comprovado. Davi notou esses
sentimentos em sua fisionomia e disse-lhe: Ouso prometer-vos sem temor,
majestade, que serei vitorioso, com a ajuda de Deus, como já o experimentei em
outras ocasiões. Pois quando eu vigiava os rebanhos de meu pai, um leão levou
um de meus cordeirinhos, e corri atrás dele, arrancando-o de entre os seus
dentes. Isso de tal modo o enfureceu que ele se lançou contra mim. Então
agarrei-o pela cauda, derrubei-o por terra e o matei. Fiz o mesmo com um urso
que atacava os meus carneiros, e não creio que esse filisteu seja mais temível
que os leões e os ursos. O que me convence ainda mais, todavia, é que não
posso imaginar que Deus tolere por mais tempo as blasfêmias que esse gigante
vomita contra Ele e os ultrajes que faz a vossa majestade e a todo o vosso
exército. Assim, atrevo-me a garantir que Ele fará a graça de me deixar abater-
lhe o orgulho e vencê-lo.
Uma ousadia tão surpreendente fez Saul acreditar que o êxito seria de
fato real. Orou a Deus, permitiu a Davi combater e deu-lhe na mão o próprio
capacete, a couraça e a espada. Como Davi, porém, não estava acostumado a
usar armas, ficou atrapalhado e disse ao rei: Estas armas, majestade, são
próprias para vossa majestade, que sabe bem manejá-las, mas não para mim.
Isso me obriga, pois, a suplicar-vos muito humildemente a liberdade para
combater como quiser. Saul consentiu-o, e assim ele deixou as armas, tomou
somente um cajado, a sua funda e cinco pedras, que escolhera no regato e
colocara na sua sacola. Desse modo marchou contra Colias, que sentiu tanto
desprezo por ele que lhe perguntou, por zombaria, se o tomava por um cão,
para vir a ele armado apenas com pedras. Davi respondeu-lhe: Eu vos tomo
por menos ainda que um cão.
Essas palavras encolerizaram ainda mais o gigante, que jurou pelos seus
deuses esquartejá-lo em mil pedaços e dar a sua carne para os animais e os
pássaros devorarem. Davi retrucou: Vós confiais em vosso dardo, em vossa
couraça e em vossa espada, mas eu confio na força do Deus Todo-poderoso,
que deseja servir-se do meu braço para vos abater e para dizimar o vosso
exército. Cortarei hoje mesmo a vossa cabeça e darei o resto de vosso corpo
como pasto aos cães, aos quais a vossa raiva vos torna semelhante. Então todos
saberão que o Deus dos israelitas os protege, que a sua providência os governa,
que o seu socorro os torna invencíveis e que nenhuma força ou arma pode
impedir a destruição daqueles a quem Ele abandona. O altivo gigante, vendo-o
tão jovem e desarmado, escutou essas palavras com maior desprezo ainda e
marchou contra ele — a passo, porque o peso de suas armas não lhe permitia
andar mais depressa.",