Livro Sexto Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"A ARCA DA ALIANÇA CAUSA TÃO GRANDES MALES AOSFILISTEUS QUE ELES SÃO
OBRIGADOS A RESTITUÍ-LA.",
"218. 7 Samuel 5. Os filisteus, como vimos, tendo vencido os israelitas e
tomado a arca da aliança, levaram-na como troféu à cidade de Asdode e a
colocaram no Templo de Dagom, seu deus, com os outros despojos que lhe
ofereceram. No dia seguinte, pela manhã, quando vieram prestar as suas ho-
menagens a essa falsa divindade, viram com desprazer não menor que a sua
admiração a estátua caída de cima do pedestal que a sustentava. Ela estava no
chão, diante da arca. Recolocaram-na em seu lugar, e a mesma coisa aconteceu
diversas vezes: eles sempre encontravam a estátua aos pés da arca, como se
estivesse prostrada para adorá-la.
Deus, porém, não se contentou em vê-los apenas confusos e aflitos: man-
dou à cidade e a toda a região disenteria tão cruel que as vísceras lhes pareci-
am roídas, e eles morriam com dores insuportáveis. E todo o país, ao mesmo
tempo, foi assolado por ratos, que tudo estragavam e não poupavam nem o
trigo nem os outros frutos. Os habitantes de Asdode, vendo-se reduzidos a tal
miséria, imaginaram que fora a arca que tornara aquela vitória tão funesta.
Assim, para livrar-se dela, rogaram aos de Asquelom que permitissem enviá-la
para a sua cidade.
Eles concordaram de boa vontade, porém, mal ela chegou, o povo também
foi atingido por idênticos males, pois a arca levava consigo a toda parte a maldi-
ção de Deus contra os que não eram dignos de recebê-la. Os ascalonitas, para
se livrar de tanta calamidade, mandaram-na a outra cidade, mas lá igualmente
não ficou, porque causou-lhe os mesmos males que às outras. Passou assim
por cinco cidades da Palestina e exigiu de cada uma delas, como uma espécie
de tributo, o castigo que merecia o sacrilégio de se conservar coisa consagrada
a Deus.
1 Samuel 6. O exemplo desse povo cansado de sofrer fazia com que
também outros temessem os mesmos castigos. Deliberaram então, como melhor
conselho, que o mais sensato seria desfazer-se da arca, e os principais das
cidades de Gate, Acarom, Asquelom, Gaza e Asdode reuniram-se para resolver o
que deveriam fazer.
Uns propuseram restituí-la aos israelitas, pois Deus, para mostrar a sua
cólera por se terem apoderado dela e também para vingar-se, castigava com
muitos flagelos os que a recebiam em suas cidades. Outros foram de parecer
contrário, dizendo que não se deviam atribuir aqueles males à tomada da arca,
pois, se ela possuísse tão grande virtude ou fosse tão querida por Deus, Ele não
a teria deixado cair nas mãos deles, que eram de religião diferente. Era
necessário, isto sim, suportar aqueles sofrimentos com paciência e atribuí-los
unicamente à natureza, que na revolução dos tempos produz mudanças nos
corpos, na terra, nas plantas e em todas as coisas sobre as quais o seu poder se
estende.
Outros, porém, mais prudentes e hábeis, propuseram um terceiro alvitre:
não restituiriam nem conservariam a arca, mas ofereceriam a Deus, em nome
das cinco cidades, cinco estátuas de ouro, para agradecer-lhe o favor de tê-los
livrado daquela espantosa doença que os remédios humanos tinham sido
incapazes de curar, e também outros tantos ratos, também de ouro, seme-
lhantes aos que haviam devastado o país. Seria tudo colocado numa caixa, e a
caixa, na arca. Esta, por sua vez, seria posta num carro novo. Feito isso,
atrelar-se-iam ao carro duas vacas veladas, cujos bezerros seriam presos, a fim
de não as retardarem, e a impaciência que elas sentiriam para encontrá-los as
obrigaria a andar.
Depois de as atrelar ao carro, levá-las-iam a uma estrada, onde seriam
deixadas em plena liberdade, para seguir o caminho que quisessem. Se
escolhessem o que leva aos israelitas, ter-se-ia motivo para crer que a arca fora
a causa de todos os males, mas se tomassem outro, era porque não havia nela
virtude alguma. Todos aprovaram essa proposta e executaram-na
imediatamente. Preparadas todas as coisas, colocaram o carro, com as vacas
atreladas do modo mencionado, no meio de um caminho.",