Livro Sexto Flávio Josefo
Capítulo 15 Flávio Josefo
,
"SAUL, VENDO-SE ABANDONADO POR DEUS NA GUERRA CONTRA OS
FILISTEUS, CONSULTA POR MEIO DE UMA MÉDIUM A SOMBRA DE
SAMUEL, QUE LHE PREDIZ DERROTA NA BATALHA E A MORTE DELE E DE
SEUS FILHOS. AQUIS, UM DOS REIS DOS FILISTEUS, LEVA COM ELE DAVI
PARA O COMBATE, MAS OS OUTROS PRÍNCIPES O OBRIGAM A REENVIÁ-LO
A ZICLAGUE. DAVI DESCOBRE QUE OS AMALEQUITAS SAQUEARAM E
INCENDIARAM ZICLAGUE, PERSEGUE-OS E OS DIZIMA. SAUL PERDE A
BATALHA. JÔNATAS E DOIS OUTROS DE SEUS FILHOS SÃO MORTOS, E ELE
FICA MUITO FERIDO. OBRIGA UM ESCUDEIRO A MATÁ-LO. BELA AÇÃO DOS
HABITANTES DEJABES DE GILEADE PARA COM
OS CORPOS DESSES PRÍNCIPES.",
"253. Saul, informado de que os filisteus tinham avançado até Suném,
marchou contra eles e acampou em frente ao exército inimigo, próximo do
monte de Gilboa. Percebendo, porém, que eles eram incomparavelmente mais
fortes, sentiu a coragem diminuir e rogou aos profetas que consultassem a
Deus para saber qual seria o resultado daquela guerra. Deus não lhe
respondeu, e esse silêncio duplicou-lhe o temor, pois se julgou abandonado por
Ele. O seu ânimo abateu-se e ele resolveu, nessa dificuldade, recorrer à magia.
No entanto Saul havia expulsado do país todos os magos e adivinhos e toda
espécie de gente que costuma predizer o futuro, e assim, não sabendo onde
buscá-los, mandou indagar de onde se poderia encontrar alguém dentre os que
fazem voltar as almas dos mortos, para interrogá-las e saber coisas futuras.
Um dos seus disse-lhe que uma mulher na cidade de En-Dor poderia
satisfazer esses desejos. Imediatamente e sem falar com quem quer que fosse,
disfarçado e acompanhado por duas pessoas somente, foi procurar a mulher,
rogando-lhe que predissesse o que estava para lhe acontecer e que para esse
fim fizesse voltar a alma de um morto que ele ia nomear. Ela respondeu que
não podia fazê-lo porque o rei proibira, por um edito, que se fizesse essa espécie
de predição e rogou que, jamais tendo ela lhe feito mal, não lhe armasse cilada
para fazê-la cair numa falta que custaria a ela a própria vida. Saul jurou-lhe
que, acontecesse o que acontecesse, ele não o faria e que ela não corria risco
algum. Esse juramento tranqüilizou-a, e ele pediu que fizesse vir a alma de
Samuel.
Como ela não sabia quem era Samuel, obedeceu sem dificuldade.
Quando, porém, a sua presença se fez notar, algo de divino que ela percebeu
surpreendeu-a e a perturbou. Voltou-se então para Saul e disse-lhe: Não sois
vós o rei Saul? (Ela o soubera pela visão.) Ele respondeu-lhe que sim, e
ordenou-lhe que revelasse a causa da grande perturbação que notava nela. Ela
respondeu que via aproximar-se um homem que parecia todo divino. Saul
perguntou: Que idade tem ele e como está vestido? Ela respondeu: Ele parece
um velho muito venerável e está revestido de uma veste sacerdotal. Então Saul
não duvidou de que era mesmo Samuel* e prostrou-se diante dele até o chão.
A sombra perguntou-lhe por que o havia obrigado a voltar do outro
mundo. Respondeu Saul: A necessidade me obrigou a isso, porque, tendo sido
atacado por um exército muito poderoso, me encontro abandonado, sem o
auxílio de Deus, que nem pelos seus profetas nem por outro modo me informa
sobre o que está para acontecer. Assim, só me resta recorrer a vós, que sempre
me testemunhastes tanto afeto. Samuel, sabedor de que o tempo da morte de
Saul havia chegado, disse-lhe: Sei que de fato Deus vos abandonou e em vão
desejais que Ele diga o que vos deve suceder. Mas, visto que o quereis, sabei
que Davi reinará e terminará venturosamen-te esta guerra e que, pelo castigo
de não terdes executado as ordens que vos dei da parte de Deus, depois de
terdes vencido os amalequitas, o vosso exército amanhã será desbaratado e
perdereis a coroa, a vida e os vossos filhos nessa batalha.
Essas palavras gelaram o coração de Saul, e ele desmaiou, tanto pela dor
excessiva quanto porque havia dois dias não se alimentava. A mulher rogou-lhe
que tomasse algum alimento, para restaurar as forças e poder voltar ao
exército. Ele recusou-o, mas ela insistiu, dizendo que não Ihç pedia outra
recompensa por ter arriscado a vida para fazer o que ele desejava. Por fim, não
podendo mais resistir àquelas súplicas insistentes, Saul disse-lhe que comeria
alguma coisa. Logo ela matou um vitelo, que era tudo o que possuía, preparou-
o e o serviu a ele e aos seus. Saul voltou naquela mesma noite para o seu
exército.
Eu não poderia deixar de admirar a bondade dessa mulher, que, jamais
tendo visto o rei, em vez de se ressentir por ele a ter reduzido a tão grande
pobreza, proibindo-a de exercer a arte que era o seu meio de vida, teve tanta
compaixão de sua infelicidade que não se contentou em consolá-lo. Sabendo
que ele morreria no dia seguinte, deu-lhe tudo o que possuía, sem pretender re-
compensa alguma e sem dele nada esperar. Nisso ela é tanto mais louvável
quanto os homens são naturalmente levados a fazer o bem somente àqueles dos
quais podem também recebê-lo. E assim, ela nos dá um belo exemplo de como
ajudar sem interesse os que têm necessidade de nosso auxílio, pois é uma
generosidade tão agradável a Deus que nada pode levá-lo a nos tratar mais
favoravelmente.
Julgo oportuno acrescentar outra reflexão, que poderá ser útil a todos,
particularmente aos reis, aos príncipes, aos grandes, aos magistrados, às ou-
tras pessoas constituídas em dignidade e a todos os que, sob qualquer condi-
ção, têm a alma grande e nobre, a fim de inflamá-los de tal modo à virtude que
não haja penas nem tributações que não aceitem ou perigos que não
desprezem, até mesmo a morte, para conquistar uma reputação imortal, che-
gando a dar a própria vida pelo bem da pátria. Vimos o que fez Saul, pois, ainda
que Samuel o tivesse avisado de que seria morto com os filhos na batalha,
preferiu perder a vida a praticar um ato indigno de um rei, como, para
conservá-la, abandonar o exército, o que seria o mesmo que entregá-lo nas
mãos dos inimigos.
Assim, Saul não hesitou em expor-se com os filhos a uma morte certa,
julgando que seria melhor e muito mais satisfatório terminar com estes
gloriosamente os seus dias, em pleno combate pela salvação da pátria, e
merecendo assim viver perenemente na memória da posteridade do que
sobreviver à própria infelicidade e, além de não ter mais uma posição, ser pouco
considerado pela opinião pública. Não poderia, pois, deixar de considerar esse
soberano, nesse ponto, como muito justo, sensato e generoso. E, se algum
outro fez ou fizer a mesma coisa, não haverá elogios de que não seja digno.
Pois, ainda que quem faça guerra na esperança de obter a vitória mereça que os
historiadores elogiem os seus feitos grandiosos, parece-me que somente devem
ser considerados provectos na coragem os que, a exemplo de Saul, preferem a
honra à própria vida, desprezando perigos certos e inevitáveis.
Nada é mais comum que empreender aquilo cujo desfecho é duvidoso e
disso auferir grandes vantagens, se houver sorte favorável. Mas nada poder
prometer senão coisas funestas, estar certo de que perderá a vida no combate e
afrontar intrepidamente a morte é o que se pode chamar o cúmulo da
generosidade e da coragem. Foi isso o que admiravelmente fez Saul. Ele deu
exemplo a todos os que desejam eternizar a memória pela glória das ações, mas
principalmente aos reis, aos quais a nobreza dessa condição não somente
proíbe abandonar o cuidado dos súditos como os torna dignos de censura se
nutrirem por eles apenas uma medíocre afeição. Poderia eu falar ainda muito
mais em louvor de Saul, mas, para não ser demasiado longo, necessito retomar
o fio de meu discurso.
* Então Saul não duvidou de que era mesmo Samuel. E possível que
Flávio Josefo, para fazer tal asserção, se tenha baseado em targuns (paráfrases
do Antigo Testamento usadas pelos rabinos). No entanto esse entendimento não
pode ser aceito porque contraria o ensino da Bíblia a respeito do assunto. (N do
E)
254. 1 Samuel 29. Os reis e os príncipes dos filisteus, como vimos,
reuniram todas as suas forças. Aquis, rei de Gate, chegou por último com os
seus, acompanhado por Davi e os seiscentos homens de sua nação. Os outros
príncipes perguntaram a Aquis quem havia trazido aqueles israelitas. Ele
respondeu que fora Davi, o qual, para evitar a cólera de Saul, estabelecera-se
em suas terras e, como testemunho de sua gratidão por ser recebido em seu
território e ao mesmo tempo para vingar-se de Saul, oferecera-se para servi-lo
naquela guerra. Os príncipes não concordaram que ele confiasse num homem
cuja fidelidade era suspeita e que, para se reconciliar com Saul, poderia
naquela ocasião voltar as armas contra eles e fazer-Ihes ainda mais mal do que
já fizera no passado, pois era o mesmo Davi de quem as filhas dos hebreus
cantavam nas suas canções que havia matado um grande número de filisteus.
E assim, aconselharam-no a mandá-lo de volta.
Aquis consentiu e aceitou as razões deles. Mandou chamar Davi e disse-
lhe: O conhecimento que tenho do vosso valor e de vossa fidelidade tinha-me
feito desejar empregar-vos nesta guerra. Mas os outros príncipes e
comandantes do exército não o aprovam. Embora eu não desconfie de vós è vos
tenha sempre a mesma afeição, desejo que volteis para o lugar que vos concedi,
a fim de vos opordes às incursões que os inimigos possam fazer por aquele
lado. E nisso me prestareis não menor serviço do que se combatêsseis aqui
conosco.
1 Samuel 30. Davi obedeceu e constatou, na sua volta, que os
amalequitas, aproveitando-se da ausência do rei Aquis e de todas as suas
forças, haviam tomado Ziclague e a incendiado, além de levar todas as
mulheres e crianças com os despojos e de fazer o mesmo aos países dos
arredores. Essa grande desgraça, tão inesperada, feriu tão vivamente Davi que
ele rasgou as próprias vestes e entregou-se ao desespero e à dor. Os soldados,
por sua vez, ficaram tão exaltados por terem perdido as suas coisas, mulheres e
filhos que, atribuindo a ele a causa de sua infelicidade, estiveram prestes a
apedrejá-lo.
Quando voltaram a si, ele elevou o espírito a Deus e rogou a Abiatar,
sumo sacerdote, que se revestisse do éfode e perguntasse a Deus se,
perseguindo os amalequitas, poderia ainda alcançá-los e se o ajudaria a vingar-
se e a recuperar as mulheres e as crianças que eles haviam levado. Abiatar fez o
que ele desejava e ordenou-lhe, da parte de Deus, que os perseguisse. Davi não
perdeu tempo e, quando chegou à torrente de Besor, encontrou um egípcio, que
de tão fraco quase não resistia mais, pois havia três dias não se alimentava.
Davi deu-lhe comida e, quando o homem recobrou as forças, perguntou-lhe
quem era. Ele respondeu-lhe que era egípcio e que o seu senhor o havia
abandonado porque, estando doente, não podia prosseguir na retirada dos
amalequitas, depois de haverem saqueado e incendiado Ziclague.
Davi pediu ao homem que o guiasse e assim conseguiu alcançar os
inimigos. Como os amalequitas não desconfiavam de nada e estavam ainda
possuídos pela alegria da presa conquistada, Davi encontrou-os embriagados e
festivos. Muitos já estavam deitados, dormindo profundamente. Outros haviam
bebido tanto que estavam sonolen-tos. Outros ainda traziam o copo na mão.
Assim, não estavam em condições de se defender, e os que conseguiram pegar
em armas foram logo atacados pelos israelitas, os quais mataram um número
tão grande deles que apenas uns quatrocentos homens se puderam salvar, pois
a matança durou desde a tarde até a noite.
Depois de um êxito tão feliz, que permitiu a Davi e aos seus recuperar não
somente as suas mulheres e filhos, mas todos os despojos que os amalequitas
haviam levado, eles voltaram ao lugar em que haviam deixado duzentos dos
seus a guardar a bagagem. Os quatrocentos que haviam acompanhado Davi até
o fim da expedição recusaram dar-lhes a sua parte nos despojos. Queriam que
eles se contentassem em recuperar as mulheres e os filhos, alegando que a falta
de coragem os fizera ficar para trás. Davi condenou-lhes a injustiça e declarou
que fora Deus quem os fizera obter a vitória e que aqueles homens deviam ter
parte igual à deles, pois não haviam tomado parte no combate porque
receberam ordem para ficar e cuidar da bagagem. Esse juízo, tão eqüitativo,
passou a ser nosso costume por uma lei que sempre foi observada. Após o
regresso a Ziclague, Davi mandou aos parentes e amigos na tribo de judá uma
parte dos despojos dos amalequitas.
255. 1 Samuel 31. Travou-se, nesse ínterim, a batalha entre os filisteus e
os israelitas, e foi encarniçada de parte a parte. No entanto a vantagem pendeu
finalmente para os filisteus, e Saul e seus filhos, que estavam empenhados no
combate, não tendo mais esperança de obter a vitória, só pensavam em morrer
gloriosamente. Praticaram atos de bravura tão extraordinários que atraíam
sobre si todas as forças dos inimigos. E, depois de matarem um grande número
deles, acabaram perecendo esmagados pela multidão.
Jônatas e seus dois irmãos, Abinadabe e Malquisua, caíram ali mesmo, e
a morte deles fez os israelitas perderem totalmente o ânimo. Fugiram logo
depois, e os filisteus promoveram grande matança. Saul retirou-se, em boa
ordem, com o que pôde salvar. Os inimigos, porém, mandaram um grande
número de ar-queiros e besteiros em sua perseguição, que mataram quase
todos a golpes de dardos e de flechas. O próprio Saul, depois de ter feito o
possível, ficou tão crivado de golpes que, desejando morrer, não lhe restavam
mais forças para se matar. Então ordenou ao seu escudeiro que lhe
atravessasse o corpo com a espada, para impedir que caísse vivo em poder dos
inimigos. Vendo que o outro não se resolvia, colocou a ponta da espada sobre o
estômago e lançou-se sobre ela. Quando o escudeiro viu morto o seu senhor,
matou-se também. E todos os soldados de sua guarda foram mortos perto do
monte de Cilboa.
Os israelitas que habitavam o vale além do Jordão, ao saber da derrota e
da morte de Saul e de seus filhos, retiraram-se para lugares fortificados,
abandonando as cidades que possuíam na planície, das quais os filisteus se
apoderaram.
256. No dia seguinte, depois desse grande combate, os vencedores,
despojando os mortos, reconheceram o corpo de Saul e os de seus filhos.
Cortaram a cabeça de Saul, e depois de terem anunciado a morte dele por todo
o país e consagrado as almas no Templo de Astarote, seu falso deus,
penduraram os corpos em forcas, perto da cidade de Bete-Seã, que hoje se
chama Scitópolis.
Os habitantes de jabes-Gileade demonstraram nessa ocasião a grandeza
de sua coragem. Indignados por ver que não somente haviam privado tão
grandes príncipes da honra da sepultura como ainda os tratavam
ignominiosamente, os mais corajosos dentre eles foram de noite apoderar-se
dos corpos, à vista dos inimigos, e os levaram sem que estes se atrevessem a
protestar. Toda a cidade prestou-lhes homenagem, organizando um honroso
sepultamento. Passaram dias de lamentações em luto público, com as suas
mulheres e crianças, num jejum tão rigoroso que durante todo esse tempo não
beberam nem comeram, de tão sentidos e penetrados de dor que estavam pela
perda de seu rei e de seus príncipes.
Eis como o rei Saul, segundo a profecia de Samuel, terminou a sua vida,
tanto por haver desobedecido às ordens de Deus com relação aos amalequitas
quanto por ter feito morrer, com toda a casa sacerdotai, o sumo sacerdote
Aimeleque e reduzido a cinzas a cidade a eles destinada por Deus como
moradia. Reinou dezoito anos durante a vida desse profeta e vinte e dois anos
após a morte dele.",
"