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Livro Oitavo Flávio Josefo

Capítulo 3 Flávio Josefo

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,
"MORTE DE SALOMÃO. ROBOÃO, SEU FILHO, DESCONTENTA O POVO. DEZ
TRIBOS O ABANDONAM E TOMAM A JEROBOÃO POR REI. ESTE, PARA
IMPEDI-LOS DE IR AO TEMPLO, EM JERUSALÉM, LEVA-OS À IDOLATRIA E
QUER ELE MESMO EXERCER A FUNÇÃO DE SUMO SACERDOTE. O PROFETA
JADOM O REPREENDE E FAZ EM SEGUIDA UM GRANDE MILAGRE. UM FALSO
PROFETA ENGANA ESSE VERDADEIRO PROFETA E É CAUSA DE SUA MORTE.
ENGANA TAMBÉM A JEROBOÃO, QUE SE ENTREGA A TODA ESPÉCIE DE
IMPIEDADE. ROBOÃO TAMBÉM ABANDONA A DEUS.",
"344. Salomão morreu na idade de noventa e quatro anos, dos quais
reinou quarenta, e foi enterrado em Jerusalém. Fora o mais feliz, o mais rico e o
mais sábio de todos os reis até deixar-se dominar, no fim de sua vida, pela
paixão às mulheres, de tal sorte que violou a lei de Deus e foi causa dos muitos
males que os israelitas sofreram, como nos mostrará a continuação da história.
345. 1 Reis 12. Roboão, seu filho, cuja mãe, chamada Naamá, era
amonita, sucedeu-o. Logo depois, vários dos principais do reino mandaram
chamar Jeroboão, que estava no Egito. Ele dirigiu-se rapidamente para a cidade
de Siquém, onde Roboão também se encontrava, porque havia julgado
conveniente fazer o povo todo reunir-se ali, para ser coroado por consentimento
unânime. Os príncipes das tribos, e Jeroboão com eles, rogaram-lhe que os
aliviasse de parte das excessivas imposições com que Salomão os havia
sobrecarregado, dando-lhes meios de pagá-las e tornando assim o seu governo
mais sólido, e então eles lhe seriam submissos por amor, e não por temor.
Roboão pediu três dias para responder. Essa dilação causou-lhes desconfiança,
porque julgavam que um príncipe, particularmente daquela idade, deveria
sentir prazer em demonstrar boa vontade para com os súditos. No entanto
esperavam que, embora ele não lhes concedesse logo o que pediam, não
deixariam de o obter. Roboão reuniu os amigos do rei seu pai para deliberar
com eles sobre a resposta que devia dar.
Os velhos, tão experientes quanto sábios e conhecedores da natureza do
povo, aconselharam-no a falar com muita bondade e, para ganhar-lhes a
simpatia, não usar naquela ocasião da inseparável autoridade do poder real,
pois os súditos eram levados facilmente a sentir amor pelos seus reis quando
tratados com bondade, e estes a eles se nivelam, de algum modo, pela afeição
que lhes dedicam. Roboão não aprovou esse tão sensato conselho, que lhe seria
muito útil para aquela ocasião, pois se tratava de fazer-se declarar rei. Então
mandou chamar alguns moços que tinham sido educados com ele e
comunicou-lhes o parecer dos anciãos que ele havia consultado, pedindo
também o deles.
Os moços, aos quais a pouca idade — e Deus também — não permitia
escolher o melhor, aconselharam-no a responder ao povo que o menor de seus
dedos era maior que os rins de seu pai e que, se o seu pai os havia tratado
rudemente, ele os trataria de outro modo: em lugar de os fazer açoitar com
varas, como seu pai fazia, ele os faria vergastar com azorragues de várias
cordas. Esse parecer agradou a Roboão, como mais digno da majestade real.
Assim, no terceiro dia, ele mandou reunir o povo, que esperava uma resposta
favorável. Mas ele lhes falou nos termos que os moços haviam sugerido, tudo
isso, sem dúvida, pela vontade de Deus, para se cumprir o que Ele dissera por
intermédio do profeta Aías.
Essa resposta cruel causou tal impressão no Espírito de todo o povo, que
era como se já lhe sentissem o efeito. Eles gritaram com furor que renunciavam
para sempre a descendência inteira de Davi. Que ele guardasse para si, se
julgasse bem, o Templo, que seu pai tinha feito construir, porém jamais lhe
estariam sujeitos. Sua cólera foi tão obstinada que quando Adorão, que tinha a
intendência dos tributos, lhes foi enviado para pedir desculpas pelas palavras
rudes, as quais eles deviam atribuir mais à pouca experiência do príncipe que à
sua má vontade, eles o mataram a pedradas, sem querer escutá-lo. Roboão,
percebendo que não estava em segurança no meio daquela multidão tão
exaltada, subiu ao seu carro e fugiu para Jerusalém, onde as tribos de judá e
de Benjamim o reconheceram como rei.
As outras dez tribos separaram-se para sempre da obediência aos
sucessores de Davi e escolheram Jeroboão para seu governador. Roboão, que
não se podia resignar a tolerar isso, reuniu cento e oitenta mil homens das
duas tribos que lhe eram fiéis, a fim de obrigar as outras dez a voltar à sua
obediência pela força. Deus, no entanto, por meio de seu profeta, impediu-o de
iniciar essa guerra, tanto porque não era justa e nem era conveniente lutar
contra os da própria nação tanto porque fora por sua ordem que aquelas tribos
o haviam abandonado. Começarei por narrar os feitos de Jeroboão, rei de Israel,
e passarei em seguida aos de Roboão, rei de Judá, como a ordem da história o
exigir.
346. Jeroboão mandou construir um palácio em Siquém, onde
estabeleceu residência, e um outro na cidade de Fanuel. A festa dos
Tabernaculos aproximava-se, e ele pensou que, se permitisse aos seus súditos
ir celebrá-la em Jerusalém, a majestade das cerimônias e do culto que se
prestava a Deus no Templo os levaria a se arrepender de tê-lo escolhido para
seu rei. E, se eles o abandonassem para obedecer a Roboão, ele perderia não
somente a coroa, mas correria o risco de perder também a vida. Para remediar
esse mal que ele tanto motivo tinha para temer, mandou construir dois tem-
plos: um na cidade de Betei e outro na de Dã, que fica perto da nascente do
Pequeno Jordão, e mandou fazer dois vitelos de ouro, os quais colocou nos
templos.
Reuniu em seguida as dez tribos e falou-lhes: Meus amigos, creio que
não ignorais que Deus está presente em toda parte, e assim não há lugar onde
Ele não possa ouvir as orações e escutar os votos daqueles que o invocam. Por
isso não acho conveniente que, para adorá-lo, vos deis ao trabalho de ir a
Jerusalém, que está tão longe e que nos é inimiga. Aquele que construiu o
Templo era um homem como eu, e então mandei fazer e consagrar a Deus dois
bezerros de ouro, um dos quais foi colocado na cidade de Betei e outro na de
Dã, a fim de que, conforme estiverdes mais próximos de uma ou de outra
dessas duas cidades, possais ir até lá prestar as vossas homenagens a Deus.
Não vos faltarão sacerdotes e levitas. Eu os escolherei dentre vós mesmos, sem
que para isso tenhais de recorrer à tribo de Levi e à descendência de Arão. E
aqueles que desejarem ser recebidos para desempenhar essas funções só terão
de oferecer a Deus em sacrifício um vitelo e um carneiro, da mesma maneira
como se diz que Arão fez ao ser nomeado sacerdote.
Eis o modo como Jeroboão, nomeado sacerdote, enganou o povo que a ele
se havia submetido e o levou a abandonar a lei de Deus e a religião de seus
antepassados. Isso foi a causa dos males que os hebreus sofreram depois e da
escravidão a que se encontraram reduzidos após terem sido derrotados por na-
ções estrangeiras, como diremos a seu tempo.
347. 1 Reis 13. A festa do sétimo mês aproximava-se, e Jeroboão resolveu
celebrá-la em Betei, tal como as tribos de Judá e de Benjamim a celebravam em
Jerusalém. Mandou fazer um altar em frente ao bezerro de ouro, pretendendo
ele mesmo exercer o cargo de sumo sacerdote. Subiu ao altar acompanhado
pelos sacerdotes que ele mesmo havia escolhido. Porém quando ia oferecer víti-
mas em holocausto, na presença de todo o povo, um profeta enviado por Deus
de Jerusalém, chamado Jadom, lançou-se no meio da multidão e, voltado para
o altar, falou tão alto que o rei e todos os presentes puderam ouvir: Altar, altar,
eis o que diz o Senhor: Um príncipe virá da família de Davi, de nome Josias, e
imolará nesse mesmo altar todos os falsos sacerdotes que ainda estiverem vivos
e queimará os ossos dos que já tiverem morrido, pois eles enganam o povo e o
levam à impiedade. Para que ninguém duvide da veracidade de minha profecia,
vede o seu efeito neste mesmo instante: este altar ficará em pedaços, e a
gordura dos animais, de que está coberto, será espalhada por terra.
Tais palavras deixaram Jeroboão tão encolerizado, que ele ordenou que
prendessem o profeta. Estendeu a mão para dar a ordem, mas não a pôde
recolher porque naquele instante ela ficou seca, como morta. O altar quebrou-
se em vários pedaços, e os holocaustos que estavam sobre ele caíram por terra,
segundo anunciara o homem de Deus. Jeroboão, não podendo mais duvidar de
que Deus falara pelo profeta, rogou a este que pedisse a sua cura. Ele o fez, e a
mão recobrou o movimento, como antes. Jeroboão ficou tão contente que pediu
ao profeta que ficasse e assistisse ao banquete. Ele, porém, recusou o convite,
dizendo que Deus o havia proibido de pôr o pé no palácio, de comer o pão e
beber a água daquela cidade e que lhe ordenara expressamente que voltasse
por um caminho diferente daquele pelo qual tinha vindo. A recusa do profeta
aumentou ainda mais o respeito de jeroboão por ele.
Havia naquela mesma cidade um falso profeta, que, embora enganasse
Jeroboão, desfrutava a sua estima, porque só lhe predizia coisas agradáveis. E,
como era muito velho e doente, estava sempre de cama. Os filhos contaram-lhe
que um profeta vindo de Jerusalém curara a mão seca do rei, entre outros
milagres. Tal ação o fez temer que Jeroboão viesse a estimar mais esse profeta
que a ele. Com isso, perderia todo o seu prestígio. Assim, ordenou aos filhos
que preparassem imediatamente a sua cavalgadura, para ir ter com o profeta.
Encontrou-o descansando à sombra de um carvalho, saudou-o e queixou-se de
ele não ter ido à sua casa, onde o teria recebido com alegria. Jadom respondeu-
lhe que Deus o havia proibido de comer naquela cidade, na casa de quem quer
que fosse.
O falso profeta retorquiu: Essa predição não se deve estender a mim, pois
sou profeta como vós, adoro a Deus do mesmo modo e foi por sua ordem que
vos vim procurar, para levar-vos à minha casa e usar convosco de minha
hospitalidade. Jadom acreditou, deixando-se enganar, e o seguiu. Quando
estavam ambos à mesa, porém, Deus apareceu-lhe, dizendo que, por castigo
àquela desobediência, ele encontraria no seu regresso um leão, que o mataria, e
ele não seria enterrado no sepulcro de seus antepassados. Creio que Deus
permitiu isso para impedir jeroboão de prestar fé ao que Jadom havia predito.
O profeta sentiu bem depressa o efeito das palavras de Deus. Ao
regressar, ele encontrou um leão, que o derrubou do asno e o matou sem tocar
no animal. Depois ficou perto do corpo do profeta, para guardá-lo. Alguns
viajantes viram a cena e contaram ao falso profeta. Ele logo ordenou que os
filhos buscassem o corpo e o sepultou com grande cerimônias. Ordenou-lhes
que, depois de sua morte, pusessem o seu corpo junto ao de Jadom, pois parte
do que ele profetizara já se havia cumprido, e ele não duvidava que o resto em
breve também aconteceria. E assim, tal como o altar, que fora feito em pedaços,
os sacerdotes e os falsos profetas certamente seriam tratados do modo como ele
havia predito. Por isso, estando os seus ossos misturados aos de Jadom, eles
não seriam queimados, pensava ele.
Depois de haver esse homem ímpio dado tal ordem, foi ter com Jeroboão e
perguntou-lhe por que ficara tão perturbado pelas palavras de um estranho.
Jeroboão respondeu que o que acontecera ao altar e à sua mão fazia muito bem
ver que aquele era um homem cheio do Espírito de Deus e um verdadeiro
profeta. Depois disso, esse homem alegou ao rei razões bastante verossímeis,
porém falsas, a esse respeito, para tirar de seu Espírito aquela convicção e
obscurecer a verdade.
Ele disse ao rei que o que acontecera à sua mão era proveniente de
cansaço, depois de ter sacrificado tantas vítimas sobre o altar, pois fora curado
logo após um pouco de descanso. Quanto ao altar, não era de se admirar que
não tivesse suportado o peso de tantos animais imolados, pois fora construído
recentemente. Por fim, o fato de um leão ter matado aquele homem parecia
indicar claramente que nada do que ele havia falado era verdade. O rei,
persuadido por essas palavras, não somente se afastou de Deus, como chegou
ao cúmulo do orgulho e da loucura, ousando levantar-se contra Ele.
Abandonou-se a toda espécie de crimes, e procurava continuamente praticar
outros, ainda desconhecidos e maiores que os precedentes.
348. 1 Reis 14. Havendo falado desse soberano, devemos agora falar de
Roboão, filho de Salomão, que reinava, como dissemos, sobre duas tribos so-
mente. Ele mandou construir na tribo de Judá várias cidades grandes e fortes,
como Belém, Etã, Tecoa, Bete-Zur, Soco, Adulão, Ip, Maressa, Zife, Adoraim,
Laquis, Zorá, Aijalom e Hebrom. Mandou construir também outras grandes
cidades na tribo de Benjamim e colocou em todas governadores e fortes guar-
nições. Proveu-as de trigo, vinho e óleo e de tudo o que era necessário, incluin-
do armas em quantidade suficiente para equipar um bom número de soldados.
Os sacerdotes, os levitas e todas as pessoas piedosas das dez tribos
sujeitas a Jeroboão, não podendo tolerar que um príncipe os quisesse obrigar a
adorar dois vitelos de ouro que ele mesmo tinha feito, abandonaram as cidades
em que moravam para servir a Deus em Jerusalém. Essa demonstração de sua
piedade, que continuou durante três anos, aumentou em muito o número dos
súditos de Roboão.
O rei de judá desposou primeiramente uma de suas parentas, da qual
teve três filhos, e em seguida outra, de nome Maaca, filha mais velha de Tamar,
filha de Absalão, da qual teve um filho de nome Abião.* Embora tivesse ainda
outras dezoito mulheres legítimas e trinta concubinas, das quais teve vinte e
oito filhos e sessenta filhas, ele amou Maaca acima de todas as outras e
escolheu Abião, filho dela, para seu sucessor, confiando-lhe os seus tesouros e
as mais fortes de suas cidades.
Como acontece ordinariamente de a prosperidade produzir a corrupção
dos costumes, o aumento do poder de Roboão o fez esquecer-se de Deus. O
povo seguiu a sua impiedade, pois a vida desregrada de um rei quase sempre
causa o mesmo efeito nos súditos. Assim como o exemplo de sua virtude os
conserva no cumprimento do dever, a exposição de seus vícios leva-os à
desordem, porque julgam que não os imitar eqüivale a condená-los. Assim,
Roboão calcou aos pés o respeito e o temor a Deus, e os seus súditos caíram no
mesmo crime, como se temessem ofendê-lo, querendo ser mais justos que o rei.
* Ou Abias.",