Livro Oitavo Flávio Josefo
Capítulo 2 Flávio Josefo
,
"SALOMÃO RECEBE DE DEUS O DOM DA SABEDORIA. JULGAMENTO QUE
PROFERE ENTRE DUAS MULHERES, A UMA DAS QUAIS MORRERA O FILHO.
NOMES DOS GOVERNADORES DE SUAS PROVÍNCIAS. CONSTRÓI O TEMPLO E
NELE COLOCA A ARCA DA ALIANÇA. DEUS PREDIZ A FELICIDADE OU A
DESGRAÇA QUE TOCARIA A ELE E AO POVO CONFORME OBSERVASSEM OU NÃO
OS SEUS MANDAMENTOS. SALOTNÃO CONSTRÓI UM SOBERBO PALÁCIO. FORTIFICA
JERUSALÉM E CONSTRÓI VÁRIAS CIDADES. RAZÃO PELA QUAL TODOS OS REIS DO EGITO
SE CHAMAM FARAÓ. SALOMÃO TORNA TRIBUTÁRIOS O QUE RESTOU DOS CANANEUS.
ORGANIZA GRANDE FROTA. A RAINHA DO EGITO E DA ETIÓPIA VEM VISITÁ-LO.
PRODIGIOSAS RIQUEZAS DESSE PRÍNCIPE. SEU AMOR DESORDENADO PELAS MULHERES
LEVA-O À IDOLATRIA. DEUS LHE DIZ DE QUE MODO O CASTIGARÁ. ÁDER LEVANTA-SE
CONTRA ELE. DEUS COMUNICA A
JEROBOÃO, POR UM PROFETA, QUE ELE REINARÁ SOBRE DEZ TRIBOS.",
"320. Um dos primeiros cuidados do rei Salomão foi ir a Hebrom oferecer
a Deus em holocausto mil vítimas sobre o altar de bronze que Moisés fizera
construir. Deus achou-o tão agradável que lhe apareceu à noite, em sonho,
para dizer que, como recompensa por sua piedade, lhe concederia o dom que
pedisse. Ainda que jovem, Salomão não se deixou levar pelo desejo das riquezas
ou de outras coisas que parecem agradáveis aos homens. Preferiu uma mais
útil, mais excelente e mais digna da bondade e da liberalidade de Deus. Assim,
respondeu ele: Senhor, já que o permitis, suplico-vos que me concedais o
Espírito da sabedoria e do proceder, a fim de que possa governar o meu reino
com prudência e justiça.
Deus ficou tão satisfeito com esse pedido que, após conceder-lhe uma
sabedoria extraordinária, como ninguém antes, príncipe ou particular,
possuíra, declarou que não concederia somente o que ele estava pedindo, mas
acrescentaria riquezas, glória, vitória sobre os inimigos e a posse do reino aos
seus descendentes, desde que confiasse nEle, perseverasse na justiça e
imitasse também as virtudes de Davi, seu pai. Salomão, a essas palavras,
ergueu-se do leito e adorou a Deus. Quando voltou a Jerusalém, ofereceu-lhe
diante do santo Tabernáculo um grande número de vítimas e deu um banquete
ao povo.
321. O jovem e admirável príncipe pronunciou nesse mesmo tempo uma
sentença numa questão muito difícil, que julguei dever narrar aqui, a fim de
que se possa, em casos semelhantes, aproveitar o seu exemplo para se
descobrir a verdade. Duas mulheres de má vida vieram procurá-lo. Uma delas
parecia muito aflita com a injustiça que lhe haviam feito. Ela falou: Esta
mulher e eu, majestade, moramos no mesmo quarto, e ambas demos à luz ao
mesmo tempo. Três dias depois, quando ela e o filho estavam no leito, ela o
sufocou, dormindo. Como eu também dormia, tomou o meu filho, que estava
em meus braços, e pôs o dela no lugar do meu. Quando acordei e quis dar de
mamar ao meu filho, que eu conhecia muito bem, encontrei em seu lugar o
menino morto. Pedi-lhe então o meu filho de volta, mas ela não o quis entregar,
obstinando-se em conservá-lo. E não tenho ninguém que possa me ajudar a
obrigá-la a isso. Foi por esse motivo que me vi forçada a recorrer a vossa
majestade.
Depois que a mulher se expressou nesses termos, o rei perguntou à outra
o que tinha a dizer. Ela afirmou ousadamente que o menino que vivia era o seu
filho e que o de sua companheira havia morrido. Nenhum dos presentes achou
que se poderia resolver a questão, tão difícil lhes parecia. Somente o rei
encontrou um meio de solucioná-la. Mandou buscar a criança viva e ordenou a
um dos guardas que a dividisse ao meio e desse igualmente a cada mulher uma
parte.
Tal sentença a princípio pareceu pueril, e todos criticavam o rei por tê-la
proferido. Mas bem depressa mudaram de opinião. A verdadeira mãe disse que,
em nome de Deus, não o fizessem, pois preferia entregar o filho àquela mulher
a vê-lo morto. Ainda que todos acreditassem ser a outra a verdadeira mãe, pelo
menos teria a consolação de saber que ele ainda estava vivo. A outra, ao
contrário, demonstrou aceitar de boa vontade a solução, encontrando um cruel
motivo de alegria na dor de sua companheira.
O rei não teve mais dificuldade em julgar, por essa diversidade de
sentimentos que somente a natureza pode inspirar, qual das duas era a
verdadeira mãe. Assim, ordenou que o menino vivo fosse dado àquela que se
opusera à sua morte e condenou a malícia da outra mulher, que, não se
contentando em ter perdido o filho, desejava que a sua companheira também
perdesse o dela. Essa prova de incrível sabedoria tornou o rei admirado por
todos, e desde aquele dia começaram a obedecê-lo como a um soberano pleno
do Espírito de Deus.
322. 1 Reis 4. Devo falar agora dos que tinham o governo das províncias.
Uri governava a região de Efraim.
Aminadabe, genro de Salomão, governava toda a região marítima, na qual
também Dor estava compreendida.
Benaia, filho de Achil, governava todo o Grande Campo e o país que se
estende até o Jordão.
Gabar governava todo o país de Gileade e de Gaulam, até o monte Líbano,
onde havia sessenta cidades grandes e fortes.
Abinadabe, que desposara outra filha do rei Salomão, chamada Bazima,
governava toda a Galiléia até Sidom.
Banachal governava a região marítima que está em torno do Arce.
Safate governava os dois montes de Itabarim e do Carmelo e toda a Baixa
Galiléia que se estende até o Jordão.
Suba governava todo o país da tribo de Benjamim.
Tabar governava todo o país que está além do Jordão. Salomão tinha além
disso um lugar-tenente-general, que governava todos esses governadores.
323. Não se pode descrever a felicidade que os israelitas, particularmente
os da tribo de judá, desfrutaram no reinado de Salomão, porque em tão
profunda paz, não perturbada por guerras estrangeiras nem internas, todos
pensavam somente em cultivar os seus campos e em aumentar as suas
riquezas.
O rei tinha oficiais para receber os tributos que os sírios e os outros
bárbaros de entre o Eufrates e o Egito eram obrigados a lhe pagar. Esses
oficiais forneciam cada dia, para a sua mesa, entre outras coisas, trinta
medidas de farinha, sessenta de outra farinha, inferior, dez bois gordos, vinte
bois de pasto, cem cordeiros gordos e grande quantidade de caça e de peixes.
Possuía um número tão grande de carros que eram necessários quarenta
mil cochos para os cavalos que os puxavam, atrelados dois a dois. Mantinha,
além disso, doze mil homens de cavalaria, sendo que metade montava guarda
em Jerusalém, junto de sua esposa, e metade estava distribuída pelas cidades.
O encarregado da despensa ordinária tinha também o cuidado de prover a
alimentação dos cavalos, em qualquer lugar onde eles estivessem.
324. Deus encheu esse príncipe de sabedoria e de inteligência tão
extraordinárias que nenhum outro em toda a Antigüidade pode a ele ser
comparado. Ele sobrepujava até mesmo, em muito, os mais ilustres dos
egípcios, que são tidos como os mais notáveis, como também os mais célebres
dentre os hebreus daquela época, cujos nomes creio dever citar aqui: Etã,
Hemã, Calcol e Darda, todos os quatro filhos de Maol.
Esse grande soberano compôs cinco mil livros de cânticos e de versos,
três mil livros de parábolas, a começar do hissopo até o cedro, passando por
todos os animais, pássaros, peixes e todos os que caminham sobre a terra.
Deus lhe concedeu perfeito conhecimento da natureza e de suas propriedades,
e ele escreveu um livro no qual empregou esse conhecimento em compor, para
utilidade dos homens, diversos remédios. Alguns deles tinham até mesmo força
para expulsar demônios, que não se atreviam a voltar.*
Essa prática está ainda em uso entre os de nossa nação. Vi um judeu,
chamado Eleazar, livrar diversos possessos, na presença do imperador
Vespasiano, de seus filhos e de vários oficiais e soldados. Ele prendia ao nariz
do possesso um anel no qual estava fincada uma raiz, a mesma de que Salomão
se servia para aquele fim. Loqo que o demônio a cheirava, arremessava o doente
por terra e o abandonava. Ele dizia então as mesmas palavras que Salomão
havia deixado por escrito e, fazendo menção desse príncipe, proibia ao demônio
voltar. Para fazer ver ainda melhor o efeito das conjurações, enchia uma tinha
de água e ordenava ao demônio que a lançasse por terra, como sinal de que
havia abandonado o possesso, e o demônio obedecia. Julguei bem relatar essa
história, a fim de que ninguém possa duvidar da ciência, assaz extraordinária,
que Deus concedeu a Salomão como graça particular.
* Esses estranhos procedimentos atribuídos a Salomão por Flávio Josefo
contrariam os ensinamentos bíblicos. O autor deve tê-los extraído de algum
conjunto de tradições dos judeus, as quais muitas vezes estavam sujeitas a
fantasias, para dar-lhes maior colorido. (N do E)
325. 1 Reis 5. Hirão, rei de Tiro, tinha sido muito amigo de Davi e soube
com grande prazer que aquele extraordinário príncipe sucedera no reino ao seu
pai. Enviou-lhe embaixadores para dar testemunho de sua alegria e desejar ao
novo rei toda sorte de prosperidade. Salomão escreveu-lhe nestes termos: O rei
Salomão ao rei Hirão: O rei, meu pai, tinha grande desejo de construir um
templo em honra a Deus, mas não pôde fazê-lo por causa das guerras
contínuas em que se achou empenhado e que não lhe permitiram deixar as
armas senão depois de vencidos e feitos tributários os seus inimigos. Agora, que
Deus me faz a graça de desfrutar grande paz, estou resolvido a empreender
essa obra, a qual Ele predisse a meu pai que eu teria a felicidade de começar e
de terminar. É o que me leva a rogar-vos enviar-me alguns de vossos operários
para cortar, com os meus, no monte Líbano, a madeira necessária para esse
fim, pois, segundo dizem, não há outros tão hábeis nisso como os sidônios, e eu
os pagarei como vos agradar.
O rei Hirão recebeu com alegria essa carta e respondeu: O rei Hirão ao rei
Salomão: Dou graças por terdes sucedido no trono ao rei vosso pai, que era
príncipe muito sensato e virtuoso, e farei com alegria o que desejais de mim.
Mandarei que cortem também, nas minhas florestas, muitos troncos de
ciprestes e de cedros, que mandarei levar por mar, ligados uns aos outros, até a
margem de vosso território, no lugar que julgardes o mais cômodo, para serem
depois levados a Jerusalém. Rogo-vos, em troca, que me mandeis uma partida
de trigo, de que temos falta nesta ilha,* como sabeis.
Podem-se ainda ver nos dias de hoje os originais dessas duas cartas, não
somente nos nossos arquivos mas também nos dos tírios. Se alguém quiser
consultá-los, terá apenas de pedir aos que têm o encargo de guardá-los e verá
que os reproduzi fielmente. Julguei necessário dizer isso para dar a conhecer
que nada acrescento à verdade e que o desejo de tornar a minha história mais
agradável não me faz misturá-la com coisas inverossímeis. Assim, rogo aos que
a lerem que lhe prestem fé e se convençam de que eu me julgaria um criminoso,
merecendo que a rejeitassem inteiramente, se não me esforçasse em tudo para
dizer a verdade com base em provas bem sólidas.
* Tiro era então uma ilha, mas Alexandre, o Grande, uniu-a à terra firme.
(N do E)
326. Salomão ficou muito satisfeito com o gesto do rei Hirão e permitiu-
lhe tirar de seus territórios duas mil medidas de trigo, duas mil de óleo e duas
mil de vinho, contendo cada medida setenta e duas pintas. A amizade desses
dois reis aumentou e durou para sempre.
Salomão nada tinha mais a peito que a construção do Templo. Ordenou
então aos seus súditos que lhe fornecessem trinta mil operários e distribuiu de
tal sorte a obra à qual se entregava que o trabalho não lhe podia ser difícil. Dez
mil cortavam madeira durante um mês no monte Líbano, depois voltavam para
as suas casas e lá passavam dois meses. Outros dez mil tomavam os lugares
deles e, depois de trabalhar durante um mês, retornavam também às suas
casas. Os dez mil restantes dos trinta mil os sucediam. Os dez mil primeiros
voltavam depois, prontos para continuar o trabalho do mesmo modo.
A superintendência dessa empresa foi dada a Adorão. Setenta mil desses
estrangeiros, moradores no reino de que falamos, traziam pedras e outros
materiais, segundo o que o rei Davi tinha determinado. Oitenta mil outros eram
pedreiros, e entre eles havia três mil e duzentos que eram como chefes dos
demais. Antes de trazer essas pedras, de tamanho enorme, destinadas para os
alicerces, eles as cortavam no monte, e os operários mandados pelo rei Hirão
faziam o mesmo no que se referia ao seu trabalho.
327. 1 Reis 6. Estando assim preparadas todas as coisas, o rei Salomão
começou a construir o Templo, no quarto ano de seu reinado e no segundo mês,
que os macedônios chamam de artemísio, e os hebreus, liar [que é o mês de
abril], quinhentos e noventa e dois anos depois da saída do Egito, mil e vinte
anos depois de Abraão ter saído da Mesopotâmia para vir à terra de Canaã, mil
quatrocentos e quarenta anos depois do dilúvio, três mil cento e dois anos
desde a criação do mundo. Tudo isso se passava no undécimo ano do reinado
de Hirão, cuja capital, chamada Tiro, fora construída duzentos e quarenta anos
antes.
Os alicerces do Templo foram feitos muito profundos. E, para que pudesse
resistir a todas as inclemências do tempo e sustentar sem balançar a grande
mole a ser construída por cima deles, as pedras com que o encheram eram tão
grandes que o trabalho não era menos digno de admiração que os soberbos
ornamentos e os maravilhosos enfeites aos quais serviriam de base. Todas as
pedras que nele se empregaram, desde os alicerces até a cobertura, eram muito
brancas.
O Templo tinha sessenta côvados de comprimento e outro tanto de altura.
A largura era de vinte côvados. Sobre esse edifício construiu-se outro do mesmo
tamanho, e assim a altura total do Templo era de cento e vinte côvados. Estava
voltado para o oriente, e o pórtico era da mesma altura, cento e vinte côvados,
por vinte de comprimento e dez de largura.
Havia em redor do Templo trinta quartos em forma de galeria, que
serviam de arcos para o sustentar. Passava-se de um para o outro, e cada um
tinha vinte e cinco côvados de comprimento por outros tantos de largura e vinte
de altura. Havia por cima desses quartos dois andares com igual número de
quartos, todos semelhantes. Assim, na altura de três andares juntamente,
medindo sessenta côvados, chegava-se justamente à altura da parte baixa do
edifício, e nada mais havia por cima. Todos esses quartos eram cobertos com
madeira de cedro e tinham cobertura à parte, em forma de pavilhão, mas
estavam unidos por traves longas e grossas, a fim de torná-la mais firme. E
assim, eram como um único corpo. O teto era de madeira de cedro bem polido,
enriquecido com folhagens douradas, talhadas na madeira.
O resto era também adornado com madeira de cedro, tão bem trabalhada
e reluzente de ouro que o seu brilho ofuscava a vista. Toda a estrutura desse
soberbo edifício era de pedras polidas e tão bem ajustadas que não se podia
nem mesmo perceber as junturas. Parecia que a natureza as formara num
único bloco, sem que a arte e os instrumentos de que se serviram excelentes
artífices para embelezar a obra para isso tivessem contribuído. Salomão
mandou fazer na largura do muro do lado do oriente, onde não havia nenhum
portal maior, mas somente duas portas, um degrau em frente, de sua invenção,
para se subir ao alto do Templo. Dentro e fora dele havia pranchas de cedro
ligadas com grandes e fortes cadeias, para garantir a sua estabilidade.
Quando o grande corpo do edifício ficou pronto, Salomão mandou dividi-lo
em duas partes, uma das quais, chamada o Santo dos Santos, ou Santuário,
tinha vinte côvados de comprimento. Era particularmente consagrada a Deus, e
não era permitido a ninguém lá entrar. A outra parte, que tinha quarenta
côvados de comprimento, era chamada Santo do Templo e destinada aos
sacerdotes. Essas duas partes estavam separadas por grandes portas de cedro
muito bem talhadas e douradas, sobre as quais pendiam véus de linho, cheios
de flores diversas nas cores púrpura, jacinto e escarlate.
Salomão mandou também fazer dois querubins de ouro maciço, de cinco
côvados de altura cada um. As suas asas eram do mesmo comprimento, e essas
duas figuras estavam colocadas de tal modo no Santo dos Santos que duas de
suas asas estendidas se uniam e cobriam toda a arca da aliança e as duas
outras tocavam, uma do lado norte e outra do lado sul, as paredes desse lugar
particularmente consagrado a Deus, que, como dissemos, tinha vinte côvados
de largura. Dificilmente se poderia imaginar a forma desses querubins. Todo o
pavimento do Templo estava coberto de lâminas de ouro, e as portas da grande
entrada, que tinha vinte côvados de largura e altura proporcionada, estavam
também cobertas com lâminas de ouro. Mandou colocar, sobre a porta do lugar
chamado o Santo do Templo um véu semelhante ao de que acabamos de falar,
mas a porta do vestíbulo não o tinha.
1 Reis 7. Para tudo o que acabamos de falar, mas principalmente para os
trabalhos em ouro, prata e cobre, Salomão serviu-se de um artista admirável,
chamado Hirão, que mandou buscar em Tiro. Seu pai chamava-se Ur. Embora
morasse naquela cidade, era descendente de israelitas, pois sua mãe era da
tribo de Naftali. Esse mesmo homem fez duas colunas de bronze, que tinham
quatro dedos de espessura, dezoito de altura e doze de circunferência, sobre as
quais estavam cornijas em forma de lírios, com cinco côvados de altura. Havia
em redor dessas colunas folhagens de ouro, que cobriam os lírios, e viam-se
pender em duas fileiras duzentas romãs, também fundidas. As colunas foram
colocadas na entrada do pórtico do Templo, sendo a da direita chamada
Jaquim, e a da esquerda, Boaz.
Esse admirável artífice fez também uma bacia de cobre em forma de
semicír-culo, à qual se deu o nome de mar, pelo seu enorme tamanho, pois a
distância de uma borda à outra era de doze côvados, e as suas bordas tinham
um palmo de espessura. Esse enorme vaso era sustentado por uma base feita à
moda de coluna, torcida de dez pregas, cujo diâmetro era de um côvado. Ao
redor dessa coluna estavam doze novilhos, opostos de três em três aos quatro
principais ventos, para os quais estavam dirigidos, de tal modo que a copa do
vaso se apoiava sobre o seu dorso. As bordas desse vaso eram recurvadas para
dentro, e continha ele duas mil medidas, das que se usam para medir os
líquidos.
Hirão fez outros dez vasos além desse, sustentados por bases de cobre
quadradas, cada uma com cinco côvados de comprimento, quatro de largura e
seis de altura. Todas eram compostas de diversas peças fundidas e fabricadas
separadamente. Estavam unidas deste modo: quatro colunas quadradas
dispostas em quadrado, na distância de que falei, recebiam em duas de suas
faces cavadas para esse fim os lados que encaixavam. Ora, embora tivesse
quatro lados em cada uma das bases, somente três eram visíveis: o quarto
estava unido ao muro. Em um deles, em baixo-relevo, estava a figura de um
leão; no outro, a de um touro; no terceiro, a de uma águia. As colunas eram
trabalhadas do mesmo modo. Essa obra, assim reunida, estava montada sobre
quatro rodas do mesmo metal e tinha um côvado e meio de diâmetro, desde o
centro delas até a extremidade dos raios. As juntas das rodas ajustavam-se
admiravelmente aos lados da base, e os raios encaixavam-se nela com a mesma
perfeição.
Os quatro lados dessa base, que deviam sustentar um vaso oval, tinham
pelo alto quatro braços em relevo, dos quais saíam mãos estendidas, e sobre
cada uma delas havia uma peça onde devia ser encaixado o vaso, que era
sustentado inteiramente por essas mãos. As faces ou lados sobre os quais
estavam os baixos-relevos de leão e de águia ajustavam-se tão perfeitamente
uns aos outros e às peças que formavam os cantos que toda a obra parecia
uma única peça. Assim eram construídas essas dez bases. Ele colocou em cima
dez vasos ou lavatórios redondos, fundidos como o resto, e cada um continha
quarenta medidas, pois tinham quatro côvados de altura, e o seu diâmetro
maior tinha também quatro côvados. Esses dez lavatórios foram colocados
sobre bases que se chamam Mechonote. Cinco do lado esquerdo do Templo, que
está voltado para o norte, e cinco do lado direito, voltado para o sul.
Puseram nesse mesmo lugar o grande vaso denominado mar, para servir
de lava-tório aos sacerdotes: eles lavariam nele as mãos e os pés quando
entrassem no Templo para fazer os sacrifícios, e as cubas serviam para nelas
lavarem as entranhas e os pés dos animais oferecidos em holocausto. Fez
também um altar fundido de vinte côvados de comprimento, outro tanto de
largura e dez de altura, sobre o qual seriam queimados os holocaustos. Fez do
mesmo modo todos os vasos e instrumentos necessários para o altar:
caldeirões, tenazes, bacias, ganchos e outros, tão polidos e de um cobre tão
belo que facilmente podia ser confundido com ouro.
O rei Salomão mandou fazer também um grande número de mesas,
dentre elas uma bastante grande, de ouro maciço, sobre a qual seriam
colocados os pães consagrados a Deus. As outras mesas, que não eram
inferiores a essa em beleza, eram feitas de diversas maneiras e serviriam para
que nelas se colocassem vinte mil vasos ou taças de ouro e quarenta mil de
prata.
Mandou fazer também, como Moisés havia determinado, dez mil candela-
bros, um dos quais ficaria aceso dia e noite no Templo, como a Lei o ordenava.
A mesa sobre a qual se poriam os pães oferecidos a Deus foi colocada no lado
norte do Templo, em frente ao grande candelabro, que estava na parte sul. O
altar de ouro ficou entre ambos. Tudo isso foi colocado na parte anterior do
Templo, de quarenta côvados de comprimento, separada por um véu do Santo
dos Santos, no qual a arca da aliança deveria ser colocada.
Salomão mandou fazer ainda oitenta mil taças para vinho e outras dez mil
de ouro e vinte mil de prata, oitenta mil pratos de ouro, para neles se pôr a
farinha preparada para o altar, cento e sessenta mil pratos de prata, sessenta
mil taças de ouro, para se molhar a farinha com óleo, cento e vinte mil taças de
prata, vinte mil vasos ou hins de ouro e quarenta mil de prata, vinte mil
turíbulos de ouro, para se queimar e oferecer os perfumes, e cinqüenta mil
outros, para neles se levar o fogo do grande altar até o pequeno, que estava no
Templo.
Esse grande rei mandou fazer também mil vestes sacerdotais, para os
sacerdotes, com túnicas que iam até os calcanhares, e cada qual com o seu
éfode e com pedras preciosas. A coroa em que Moisés havia escrito o nome de
Deus continuou a mesma. Ela ainda pode ser vista em nossos dias. Mandou
fazer também estolas de linho para os sacerdotes, com dez mil cintos de
púrpura, duzentas mil outras estolas de linho, para os levitas que cantavam os
hinos e os salmos, duzentas mil trompas, como Moisés havia determinado, e
quarenta mil instrumentos de música, como harpas, saltérios e outros, feitos de
metal composto de ouro e prata.
Eis com que suntuosidade Salomão fez construir e ornar o Templo. Ele
consagrou todas essas coisas a Deus. Em seguida, mandou erguer ao redor do
Templo um muro de cem côvados de altura, chamado gisom, em hebraico, a fim
de impedir a entrada aos leigos, sendo ela somente permitida aos levitas e
sacerdotes. Mandou construir fora desse muro outra espécie de templo, de
forma quadrangular, rodeado por grande galerias com quatro grandes pórticos
voltados para o levante, o ocidente, o norte e o sul, nos quais havia grandes
portas douradas, mas somente os que se haviam purificado segundo a Lei e
estavam resolvidos a observar os mandamentos de Deus podiam passar por
elas e entrar.
A construção desse outro templo era obra tão digna de admiração que
custa crer, pois, para que fosse construído no nível do alto do monte sobre o
qual estava edificado o Templo, foi preciso encher até a altura de quatrocentos
côvados um vale cuja profundidade era tal que não podia ser vista sem espanto.
Ele mandou rodear esse templo com uma galeria dupla, sustentada por dupla
série de colunas de pedra de um só bloco. Essas galerias, cujas portas eram de
prata, foram adornadas com madeira de cedro.
Salomão levou sete anos para realizar essas magníficas edificações, o que
não despertou menos admiração que a sua grandeza, riqueza e beleza, pois
ninguém podia imaginar que seria possível concluí-las em tão pouco tempo.
328. 1 Reis 8. Esse grande príncipe escreveu depois aos magistrados e aos
anciãos que ordenassem a todo o povo que se dirigisse a Jerusalém sete meses
depois, para ver o Templo e assistir à trasladação da arca da aliança. Esse
sétimo mês estava entre os que os hebreus chamam tisri, e os macedônios,
hiperbereteus. A festa dos Tabernáculos, tão solene entre nós, deveria ser
celebrada naquele mesmo tempo. Depois que todos vieram de todas as partes
do reino a essa cidade, que era a capital, no dia determinado, transportaram
para o Templo o Tabernaculo e a arca da aliança que Moisés construíra, com
todos os vasos de que se serviam para os sacrifícios.
Os caminhos estavam todos salpicados com o sangue das vítimas
oferecidas pelo rei, pelos levitas e por todo o povo. O ar estava tão saturado de
perfumes que de longe eram sentidos. Parecia mesmo que ninguém duvidava de
que Deus viria de novo honrá-los com a sua presença naquela nova casa que
lhe era consagrada, pois nenhum dos que assistiam à santa cerimônia se
cansava de dançar e de cantar incessantemente hinos em seu louvor até chegar
ao Templo.
Eis como se fez a trasladação da arca. Quando se teve de levá-la para o
Santuário, somente os sacerdotes a tomaram sobre os ombros. Eles entraram e
a colocaram entre os dois querubins, que, como já dissemos, tinham sido feitos
de tal modo que a cobriam com as suas asas inteiramente, como um dossel.
Dentro estavam as duas tábuas de pedra, sobre as quais se haviam gravado os
dez mandamentos que Deus pronunciara com a própria bocatro monte Sinai.
Puseram diante do Santuário o candelabro, a mesa e o altar de ouro, na
mesma disposição em que se encontravam no Tabernáculo quando se ofereciam
os sacrifícios ordinários. O altar de bronze foi colocado diante do pórtico, a fim
de que quando se abrissem as portas todos pudessem assistir à magnificência
dos sacrifícios. Mas aqueles vasos, em tão grande número, destinados ao sacri-
fício de Deus e do qual acabamos de falar foram todos postos no Templo.
329. Terminadas todas essas coisas, com todo o respeito e reverência que
se podia observar, já os sacerdotes haviam saído do santuário quando se viu
aparecer uma nuvem, não tão espessa quanto as que durante o inverno formam
tempestades, porém muito mais tênue. Ela cobriu todo o Templo e fez cair um
suave orvalho, do qual ficaram cobertos os sacerdotes, de tal modo que estavam
quase irreconhecíveis. Então ninguém mais duvidou de que Deus havia descido
àquela santa casa consagrada à sua honra para manifestar o quanto tudo
aquilo lhe era agradável.
Então Salomão levantou-se e fez esta oração, digna de sua soberana
grandeza: Embora nós saibamos, Senhor, que o palácio em que habitais é
eterno e que o céu, o ar, o mar e a terra que criastes e que encheis não são
capazes de vos conter, não deixamos de construir e de vos consagrar esta casa
a fim de vos oferecer sacrifícios e orações que se elevem até o trono de vossa
suprema majestade. Esperamos que queirais ficar aqui sem nunca mais nos
deixar. Pois, como vedes e sabeis todas as coisas, ainda que honreis com a
vossa presença esta santa casa, não deixareis de estar em toda parte, onde vos
dignardes habitar, vós que estais sempre perto de cada um de nós e
principalmente daqueles que anseiam dia e noite por vossa presença.
O grande rei dirigiu depois a palavra ao povo, falando do poder infinito de
Deus, de como é admirável a sua providência, de como Ele predissera a Davi,
seu pai, tudo o que aconteceria depois de sua morte e de como lhe aprouve,
antes mesmo de ele, Salomão, ter nascido, dar-lhe o nome que trazia e declarar
que ele sucederia ao rei seu pai e construiria o Templo. E assim, via-se que
Deus já havia cumprido grande parte do que os havia feito esperar, e eles
deviam dar-lhe graças por isso, julgar de sua felicidade futura pela presente e
jamais duvidar da realidade de suas promessas.
O sábio rei voltou depois os olhos para o Templo e, estendendo as mãos
para o povo, falou ainda a Deus, deste modo: Senhor, as palavras são os
únicos sinais de que os homens se podem servir para manifestar-vos a sua
gratidão pelos benefícios recebidos, porque a vossa grandeza infinita vos eleva
de tal modo acima deles que eles vos são inteiramente inúteis. Porém, como
estamos sobre a terra, obra-prima de vossas mãos, é justo que empreguemos
pelo menos a nossa voz para publicar os nossos louvores e que eu vos dê, por
toda a minha família e por todo este povo, infinitas graças por tantos favores de
que vos somos devedores. Agradeço-vos, Senhor, porque vos aprouve elevar
meu pai da humilde condição em que havia nascido a tão grande glória e
porque realizastes em mim até este dia todas as vossas promessas. Peço-vos, ó
Deus Todo-poderoso, a continuação de vossos favores. Tratai-me sempre, se vos
aprouver, como tendo a honra de ser sempre amado por vós. Firmai o cetro em
minhas mãos e nas de meus sucessores durante várias gerações, como
prometeste a meu pai. Dai-me, e aos meus, as virtudes que vos são mais
agradáveis. Difundi também, eu vos suplico, uma parte de vosso Espírito sobre
esta casa, para mostrar que habitais entre nós. E, ainda que ela não seja digna
de vos receber, sendo o próprio céu demasiado pequeno para servir de morada
eterna à vossa majestade, não deixeis de honrá-la com a vossa presença. Tomai
cuidado dela, Senhor, como de uma coisa que vos pertence, preservando-a
contra todos os esforços de nossos inimigos. Se o vosso povo tiver a infelicidade
de vos ofender e vos desagradar, contentai-vos, se vos apraz, em castigá-lo com
carestia, peste ou flagelos semelhantes, com que costumais castigar os que não
observam as vossas santas leis. Mas quando movidos pelo arrependimento
recorrerem a esta casa, à vossa misericórdia, não afasteis deles os vossos olhos
e ouvi as suas orações. Ouso mesmo, ó Deus Todo-poderoso, pedir-vos ainda
mais, pois não vos suplico que ouçais nesta casa consagrada à vossa honra
somente os votos daqueles que vos dignastes escolher para vosso povo, mas
também as orações daqueles que vierem de todas as partes do mundo implorar
o vosso auxílio, a fim de que todas as nações conheçam e saibam que foi para
vos obedecer que construímos esta casa. E, longe de ser tão injustos e
desumanos a ponto de invejar a felicidade dos outros, desejamos que eles
participem de vossos benefícios e que espalheis os vossos favores
generosamente entre todos os homens.
Depois de assim falar, Salomão prostrou-se em terra e, depois de
permanecer assim muito tempo, adorando a Deus numa fervorosa oração,
levantou-se e ofereceu sobre o altar um grande número de vítimas. Deus então
fez conhecer claramente como aquele sacrifício lhe era agradável, pois um fogo
descido do céu até o altar consumiu as vítimas inteiramente, à vista de todo o
povo. Tão grande milagre não lhes permitiu duvidar de que Deus não habitasse
o Templo, e pros-traram-se todos por terra, para adorá-lo e para dar-lhe graças.
Salomão continuou a entoar cada vez mais os seus louvores e, para levar
o povo a fazer a mesma coisa e a rogar a Deus com mais ardor ainda, disse-lhes
que, depois de sinais tão manifestos da extrema bondade de Deus para com
eles, podiam pedir a Ele com insistência que lhes fosse sempre favorável, que os
preservasse de todo pecado e que os fizesse viver na piedade e na justiça,
segundo os mandamentos dados por meio de Moisés, cuja observância podia
torná-los os mais felizes dos homens. Por fim, exortou-os a considerar que o
único meio de conservar os bens que desfrutavam ou de conseguir outros
maiores era servir a Deus com inteira pureza de coração e não pensar haver
mais honra em adquirir aquilo que não se tem que em conservar o que se
possui.
Esse bem-aventurado príncipe ofereceu a Deus em sacrifício, naquele
mesmo dia, tanto por ele quanto por todo o povo, doze mil novilhos e cento e
vinte mil cordeiros. Essas vítimas foram as primeiras cujo sangue se derramou
no Templo. Ofereceu em seguida um banquete a todo o povo, tanto aos homens
quanto às mulheres, com a carne dos muitos animais imolados e celebrou
diante do Templo, durante quatorze dias, a festa dos Tabernáculos, com
banquetes públicos e magnificência real.
Após terminar tudo e depois de ter feito o que podia para demonstrar o
seu zelo e a sua devoção para com Deus, Salomão deu ordem para regressarem
às suas casas. O povo não se cansava de elogiá-lo pela bondade com que o
governava nem de louvar a sua sabedoria, que lhe permitira empreender e
realizar aquelas grandes obras. Rogaram a Deus que o fizesse reinar por muitos
anos e partiram cantando hinos a Ele, tão satisfeitos e alegres que chegaram às
suas casas sem perceberem a extensão da estrada que haviam percorrido.
330. 1 Reis 9. Depois que a arca foi colocada no Templo e após todos
haverem admirado a majestade e a beleza do edifício e tantas vítimas serem
imoladas a Deus e tantos dias serem passados em festas e banquetes de
regozijo público, quando cada um já havia regressado à sua casa, Deus, em
sonhos, deu a conhecer a Salomão que ouvira a sua oração e conservaria o
Templo, não deixando de honrá-lo com a sua presença enquanto ele e o povo
observassem os seus mandamentos.
Quanto ao que se referia a ele em particular, cumulá-lo-ia de tanta
felicidade que nenhum outro que não fosse da sua descendência e da tribo de
Judá reinaria em Israel, contanto que ele se regulasse sempre pelas instruções
recebidas de seu pai. Se delas se esquecesse, porém, a ponto de renunciar à
piedade, e por uma mudança criminosa prestasse culto sacrílego aos falsos
deuses das outras nações, Ele o exterminaria completamente, com toda a sua
posteridade.
O povo também seria atingido pelo castigo. Seriam afligidos com guerras e
oprimidos por toda espécie de males. Seriam expulsos do país que Ele dera aos
seus antepassados e andariam errantes por terras estrangeiras. E o Templo que
permitira construir seria destruído e reduzido a cinzas pelas nações bárbaras.
As cidades também seriam arrasadas. Enfim, eles cairiam em tal extremo de
males que a notícia, espalhada por toda parte, pareceria incrível, e dir-se-ia
com espanto: Como é possível esses israelitas, que Deus havia elevado ao
cúmulo da felicidade e da glória, serem agora odiados e abandonados por Ele?
E a isso as tristes relíquias desse povo infeliz responderiam: Foram os nossos
pecados e a violação das leis outorgadas por Deus a nossos antepassados que
nos precipitaram neste abismo de misérias. As Escrituras narram desse modo
o que Deus manifestou em sonho a Salomão.
331. 1 Reis 7. O poderoso rei empregou, como dissemos, sete anos para
construir o Templo. Mas levou treze anos para edificar o palácio real, porque
não iniciou essa obra com o mesmo ardor, embora fosse tão majestosa que ele
teve necessidade do auxílio de Deus para terminá-la em tão pouco tempo. Por
mais admirável que fosse, no entanto, não se comparava à maravilha do
Templo, porque o material não foi preparado com tanto cuidado: era somente a
residência do rei, e não a de Deus. A magnificência desse soberano palácio,
porém, demonstrava em que mãos Deus colocara o cetro. Julgo oportuno, para
satisfação dos leitores, fazer aqui a sua descrição.
O palácio era sustentado por várias colunas e era tão espaçoso quanto
magnífico, porque Salomão o quisera capaz de conter a grande multidão que lá
se reuniria para a solução de problemas. Tinha cem côvados de comprimento,
cinqüenta de largura e trinta de altura. Dezesseis grandes colunas quadradas,
de estilo coríntio, o sustentavam, e portas muito bem trabalhadas contribuíam
tanto para a sua beleza quanto para a sua segurança. Um grande pavilhão de
trinta côvados quadrados, sustentado também por fortes colunas e colocado em
frente do Templo, elevava-se no meio desse soberbo edifício. Nesse pavilhão
havia um grande trono, onde o rei ministrava a justiça.
332. Perto desse palácio, Salomão construiu uma casa real para a rainha
e outros prédios, onde ele ia descansar após atender aos interesses do reino.
Tudo era enriquecido com madeira de cedro e feito com pedras de dez côvados
quadrados, das quais uma parte era incrustada com mármore muito precioso,
empregado apenas para ornamento dos templos e nas casas dos reis. Esses
diversos apartamentos eram revestidos com três ordens de tapetes riquíssimos,
sobre os quais havia em relevo diversas árvores e várias plantas, cujos ramos e
folhas eram feitos com tanta arte que enganavam a vista, parecendo mover-se.
O espaço restante até o teto era também enriquecido com diversas pinturas
sobre um fundo branco.
Tão magnífico príncipe mandou também construir, somente pela beleza,
vários outros edifícios, com grandes galerias e salas imensas, destinadas aos
festins e aos banquetes. Todos os objetos necessários ao seu serviço eram de
ouro. Seria difícil descrever a diversidade, a extensão e a majestade dos edifícios
— uns eram maiores, e outros, menores; uns estavam ocultos por baixo da
terra, outros, elevados bem alto no ar —, bem como a beleza dos bosques e
jardins que ele mandou plantar para recreio da vista e para se ter um recanto
ameno e sombre-ado durante os rigores do sol de verão. O mármore branco, a
madeira de cedro, o ouro e a prata foram os materiais com que se fizeram e
enriqueceram esse palácio. Via-se nele também uma grande quantidade de
pedras preciosas encastoadas no ouro e nos adornos, como no Templo.
Salomão ordenou também que se fizesse um grande trono de marfim
adornado com um excelente trabalho de escultura. A ele o rei subia por seis
degraus, e na extremidade de cada um deles estava a estátua de um leão. No
lugar onde se sentava, havia braços em relevo, que pareciam recebê-lo, e no
lugar onde podia encostar-se foi colocada a estátua de um novilho, para seu
apoio. Nada havia nesse augusto trono que não fosse revestido de ouro.
333. 1 Reis 5. Hirão, rei de Tiro, querendo demonstrar o seu afeto pelo rei
Salomão, contribuiu para essas obras com grande quantidade de ouro, de
prata, de madeira de cedro e de pinho. Salomão, em troca, enviava-lhe todos os
anos trigo, vinho e óleo em abundância e deu-lhe vinte cidades da Galiléia, que
estavam próximas de Tiro. O príncipe foi vê-las, e não lhe agradaram. Recusou-
as, e por esse motivo elas foram chamadas Chabelom, que em língua fenícia
significa desagradáveis. O mesmo soberano rogou a Salomão que lhe
explicasse alguns enigmas. Ele o fez, com penetração de Espírito e inteligência
admiráveis.
Menandro, que traduziu em grego os anais da Fenícia e de Tiro, fala
desses dois reis desta maneira: Depois da morte de Abibal, rei dos tírios, Hirão,
seu filho, sucedeu-o. Viveu cinqüenta e três anos, dos quais reinou trinta e
quatro.
Esse soberano aumentou a ilha de Tiro com quantidade de terra que para
lá fez levar. Esse aumento foi denominado Campo Grande. Consagrou também
uma coluna de ouro no templo de Júpiter e mandou cortar muita madeira no
monte Líbano, para com ela cobrir templos, pois mandara demolir os velhos e
construir novos, que consagrou a Hércules e a Astarote. Foi ele que por
primeiro ergueu uma estátua a Hércules, no mês que os macedônios
denominam perítio [que é o mês de fevereiro]. Fez guerra aos licienses, que
recusavam pagar o tributo que lhe deviam, e venceu-os. Viveu no seu tempo um
moço de nome Abdemom, que explicava os enigmas que Salomão, rei de
Jerusalém, lhe propunha.
Outro historiador, chamado Díon, fala deles deste modo: Depois da morte
de Abibal, Hirão, seu filho e sucessor, fortificou a cidade de Tiro do lado do
oriente. E, para uni-la ao templo de Júpiter Olímpico, mandou encher de terra
o espaço que dele a separava. Deu uma soma muito grande de ouro a esse
templo e mandou também cortar muita madeira no monte Líbano, para
empregá-la em edifícios semelhantes.
O historiador acrescenta ainda que esse príncipe, não conseguindo
explicar os enigmas que lhe haviam sido propostos por Salomão, rei de
Jerusalém, pagou-lhe uma soma muito grande. Porém depois que ele enviou a
Salomão um tírio chamado Abdemom, que lhe explicou todos os enigmas,
Salomão devolveu-lhe o dinheiro.
334. Salomão, vendo que os muros de Jerusalém não correspondiam à
grandeza e à fama de tão célebre cidade, mandou edificá-los de novo e, para
fortificá-los ainda mais, acrescentou grandes torres e bastiões. Construiu
também Hazor e Magedom,* duas cidades tão belas que podem figurar entre as
maiores, e reconstruiu por completo Gezer, na Palestina, a qual Faraó, rei do
Egito, depois de tomá-la à força e de passar a fio de espada todos os seus
habitantes, havia arrasado completamente, fazendo dela um presente à filha
que se casou com o rei Salomão. Ela foi reconstruída por causa da importância
de sua localização, porque era de grande valia em tempo de guerra e muito
própria para impedir as agitações que podem suceder em tempo de paz.
Construiu, ainda, bem perto dali, Betachor,** Baalate e algumas outras
cidades, próprias somente para prazeres e divertimentos, porque o ar era muito
puro, a terra abundante em excelentes frutos e as águas muito vivas e de boa
qualidade.
Esse bem-aventurado príncipe, depois de se tornar senhor do deserto que
está acima da Síria, lá fez construir também uma grande cidade, distante dois
dias de caminho da Síria superior, um dia do Eufrates e seis dias da Babilônia,
a grande. Embora esse lugar seja muito afastado da Síria habitada, julgou que
devia empreender essa obra, porque era o único lugar onde os que
atravessavam o deserto podiam encontrar fontes e poços. Mandou cercá-la com
fortes muralhas e a chamou Tadmor. Os sírios a chamam ainda assim, e os
gregos, Palmira.
* Ou Megido.
** Ou Bete-Horom.
335. Essas foram as obras que Salomão realizou durante o seu reinado.
E, como notei que muitos têm dificuldade em saber por que os reis do Egito,
durante mais de mil e trezentos anos, desde Minos, que construiu a cidade de
Mênfis e precedeu Abraão de vários anos, até os tempos de Salomão, sempre
usaram o nome de Faraó, que foi um de seus reis, penso que devo esclarecer-
lhe a razão.
Faraó, em egípcio, significa rei, e assim julgo que esses príncipes,
mesmo tendo outros nomes em sua juventude, adotavam aqueie logo que
subiam ao trono, porque, segundo a língua de seu país, designava a autoridade
soberana. Do mesmo modo, sabemos que todos os reis de Alexandria, depois de
haver usado outros nomes, tomavam o de Ptolomeu quando ascendiam ao
trono. Os imperadores romanos também deixavam o nome de suas famílias
para tomar o de César, para eles muito mais honroso.
É este o motivo, segundo a minha opinião, de Heródoto de Halicamasso
não mencionar os nomes dos trezentos e trinta reis do Egito, que diz haverem
reinado sucessivamente desde Minos: todos se chamavam Faraó. Mas quando
ele fala de uma mulher que reinou depois deles, não deixa de dizer que ela se
chamava Nicolis, porque só aos homens competia o título de Faraó. Acho
também em nossas crônicas que nenhum outro rei do Egito, depois do sogro do
rei Salomão, usou o nome de Faraó e que essa mesma princesa, Nicolis, foi a
que veio visitar Salomão, rei de Israel, como diremos em seguida. Digo isso para
fazer mostrar que a nossa história, em muitas coisas, está de acordo com a dos
egípcios.
336. Como ainda havia cananeus na terra, desde o monte Líbano até a
cidade de Hamate, os quais não queriam reconhecer os reis de Israel, Salomão
subjugou-os e os obrigou a dar-lhe todos os anos, como tributo, certo número
de escravos, para que servissem em diversos empregos, particularmente no
cultivo das terras, pois ninguém dentre os israelitas era obrigado a se dedicar a
esse mister, e não era justo que eles, tendo tantos povos submetidos ao seu
domínio por ação de Deus, fossem de condição inferior à dos vencidos. Assim,
dedicavam-se somente aos exercícios próprios da guerra e à provisão de armas,
cavalos e carros. Seiscentos homens foram escolhidos para dirigir os escravos
destinados àquele trabalho.
337. Salomão construiu também vários navios no golfo do Egito, próximo
do mar Vermelho, em um lugar chamado Eziom-Geber, hoje Berenice. Essa
cidade não fica longe de outra, de nome Elã, que então pertencia ao reino de
Israel. O rei Hirão mostrou-lhe muito afeto nessa ocasião, pois deu a Salomão
quantos pilotos este desejou, todos muito experimentados na arte da
navegação, para ir com os seus oficiais buscar ouro numa província da índia,
de nome Ofir, que hoje se chama Terra do Ouro, de onde trouxeram
quatrocentos talentos de ouro.
338. 1 Reis 7 0. Nicolis, rainha do Egito e da Etiópia, que era uma
excelente princesa, tendo ouvido falar das virtudes e da sabedoria de Salomão,
desejou ver com os próprios olhos se a fama dele era verdadeira ou se era
somente um daqueles boatos que se dissipam quando conhecidos e estudados a
fundo. Assim, não teve receio de empreender a viagem, para se informar e para
resolver com ele várias dificuldades. Veio a Jerusalém com equipagem digna da
grande rainha que era, trazendo camelos carregados com ouro, pedras
preciosas e custosos perfumes. Salomão recebeu-a com a devida honra e deu
solução a todas as suas dúvidas, com tanta facilidade que mal ela as propunha
ele logo as resolvia.
Capacidade tão extraordinária encheu-a de admiração. Ela confessou que
aquela sabedoria sobrepujava a fama que se havia espalhado por todo o
mundo. Não se cansava de admirar também o seu Espírito, a sua grandeza, a
magnificência de seus edifícios, a economia da casa e todo o resto de seu
proceder. Mas nada a surpreendeu tanto quanto a beleza de uma sala a que
chamavam Floresta do Líbano e a suntuosidade dos banquetes que ele oferecia
freqüentemente, nos quais tudo era servido com ordem admirável, por criados
tão ricamente vestidos que nada podia ser mais sublime. A grande quantidade
de sacrifícios que diariamente se ofereciam a Deus e o cuidado e a piedade dos
sacerdotes e levitas no exercício de seu ministério não a comoveram menos que
o resto.
Assim, a sua admiração crescia sempre, e ela não pôde deixar de
manifestá-la ao rei, nestes termos: Pode-se duvidar com razão das coisas
extraordinárias quando elas são conhecidas apenas pela fama. Mas, embora me
tivessem falado de todas as prerrogativas que possuis, tanto em vós mesmo,
pela vossa sabedoria e excelente proceder, como fora de vós, pela grandeza de
um reino tão poderoso e florescente, confesso que reconheço por mim mesma
que a vossa felicidade sobrepuja em muito tudo o que eu havia imaginado e que
é preciso ver para crer. Como são felizes os vossos súditos, por terem um rei tão
grande, e como são felizes os vossos amigos e servidores, por desfrutarem
continuamente a vossa presença! Certamente nem uns nem outros poderiam
agradecer o bastante a Deus essa tão grande graça.
Mas não foi somente com palavras que essa rainha manifestou ao rei a
sua maravilhosa estima. Ela acrescentou um presente de vinte talentos de
ouro, muitas pedras preciosas e uma grande quantidade de excelentes
perfumes. Diz-se também que o nosso país deve à sua liberalidade uma planta
de bálsa-mo, a qual multiplicou-se de tal modo que a Judéia hoje a possui em
grande quantidade. Salomão, por seu lado, não lhe foi inferior em magnificência
e nada lhe recusou de tudo o que ela dele podia desejar. Assim, a princesa
voltou sem que nada se pudesse acrescentar à satisfação que havia recebido e à
que havia causado.
339. Nesse mesmo tempo, trouxeram a Salomão, do país que se chama
Terra do Ouro, pedras preciosas e madeira de pinho, das mais belas que se
tinham visto. Desta ele mandou fazer as balaustradas do templo e do palácio
real e harpas e saltérios, para os levitas cantarem os hinos em louvor a Deus.
Essa madeira parecia-se com a da figueira, mas era muito mais branca e mais
brilhante, muito diferente da que os negociantes assim chamam para vender
mais. Julguei dever dizer isso a fim de que ninguém venha a se enganar.
Essa mesma frota trouxe ao príncipe seiscentos e setenta talentos de
ouro, sem se incluir o que os negociantes trouxeram para ele e o que os reis da
Arábia lhe enviaram como presente. Assim, mandou fazer duzentos escudos de
ouro maciço, pesando cada um seiscentos sidos, e trezentos outros, pesando
trezentas minas cada um, e colocou-os na sala chamada Floresta do Líbano.
Mandou fazer também grande quantidade de taças de ouro adornadas com
pedras preciosas e bacias de ouro, para delas se servir nos banquetes, nos
quais nada empregava que não fosse de ouro, pois a prata então era tida em
pouca conta. Isso porque o grande número de navios que Salomão tinha no mar
de Tarso e que empregava para levar toda sorte de mercadoria às nações
estrangeiras e afastadas traziam-lhe uma quantidade incrível de ouro, marfim,
escravos da Etiópia e macacos. As viagens eram de longo curso e não eram
feitas em menos de três anos.
340. A fama da virtude e da sabedoria desse poderoso monarca difundiu-
se de tal modo por toda a terra que vários reis, não podendo acreditar no que
diziam, desejavam certificar-se da verdade e manifestavam a estima extraordi-
nária que tinham por ele com os presentes que lhe traziam. Mandavam-lhe
vasos de ouro e de prata, vestidos de púrpura, toda espécie de especiarias,
cavalos, carros e mulas tão belas e fortes que não se podia duvidar de que não
lhe seriam agradáveis.
Assim, ele pôde acrescentar quatrocentos carros aos mil que já possuía e
aos vinte mil cavalos que mantinha ordinariamente. Os cavalos que lhe eram
mandados não somente eram perfeitamente belos, mas sobrepujavam a todos
os outros em velocidade. Os que os montavam ressaltavam-lhes ainda mais a
beleza, pois eram jovens de belo talhe, vestidos de púrpura tíria, armados de
aljavas e possuidores de longas cabeleiras cobertas de papelotes de ouro, que
faziam resplandecer as suas cabeças quando o sol os feria com os seus raios.
Essa tropa magnífica acompanhava o rei todas as manhãs, quando, segundo o
costume, ele saía da cidade vestido de branco, num carro soberbo, para ir a
uma casa de campo num lugar próximo de Jerusalém, de nome Etã, onde ele se
recreava, pois havia ali belos jardins, lindas fontes e uma terra extremamente
fértil.
341. Como a sabedoria que ele havia recebido de Deus estendia-se a
tudo, e assim nada podia escapar aos seus interesses, ele não descuidou nem
mesmo do que se referia às estradas. Mandou pavimentar com pedras negras
todas as que levavam a Jerusalém, quer para comodidade do povo, quer para
mostrar-lhes magnificência. Ficou com uns poucos carros e distribuiu os outros
pelas cidades que estavam obrigadas a manter um determinado número deles,
o que as fazia denominar-se cidades dos carros.
Reuniu em Jerusalém tão grande quantidade de prata, que esta tornou-se
tão comum quanto as pedras. Mandou plantar cedros nos campos da Judéia,
onde antes nada havia, mas que depois tornaram-se tão comuns como as
amoreiras. Mandava comprar no Egito cavalos dos quais o par, com o carro,
custava-lhe seiscentas dracmas de prata e os enviava ao rei da Síria e aos
outros soberanos que estavam além do Eufrates.
342. 1 Reis 11. Esse virtuoso soberano, o mais glorioso de todos os de
seu século, que sobrepujava tanto em prudência quanto em riqueza a todos os
que antes dele haviam reinado sobre o povo de Deus, não perseverou até o fim.
Abandonou as leis de seus antepassados, e as suas últimas ações
obscureceram todo o brilho e glória de sua vida, porque se deixou levar a tal
ponto pelo excesso de amor às mulheres que essa louca paixão perturbou-lhe o
juízo. Não se contentou com as mulheres de sua nação, mas tomou também
estrangeiras: sidônias, tírias, amonitas, iduméias. E, para agradá-las, não teve
vergonha de adorar os falsos deuses a quem elas serviam, desprezando os
mandamentos de Moisés, que proibiam expressamente tomar mulheres de
outras nações, para que elas não levassem o povo à idolatria e ao abandono do
culto ao único Deus eterno e verdadeiro.
A voluptuosidade brutal do soberano, porém, o fez esquecer todos os seus
deveres. Chegou a desposar setecentas mulheres, todas de muito boa condição,
entre as quais estava, como já vimos, a filha de Faraó, rei do Egito. Possuía,
além dessas, trezentas concubinas. Sua paixão tornou-o escravo delas, e ele
não pôde deixar de imitá-las em sua impiedade. Quanto mais ele alcançava em
anos, mais o seu Espírito, enfraquecendo-se, se afastava do serviço de Deus e
se entregava às cerimônias sacrílegas da falsa religião.
Tão horrível pecado era apenas conseqüência de um outro, pois ele
começara a desobedecer aos mandamentos de Deus quando mandou fazer
aqueles doze bois de bronze que sustentavam o grande vaso de cobre
denominado mar e os doze leões esculpidos nos degraus do trono. Assim, como
ele não caminhava mais nas pegadas de Davi, seu pai, ao qual a piedade
elevara a tão alto grau de glórias e a quem ele era obrigado a imitar tanto
quanto devia obedecer ao que Deus lhe havia ordenado diversas vezes em
sonhos, o seu fim foi tão infeliz quanto fora feliz e ilustre o início de seu
reinado.
Deus disse-lhe, por meio de seu profeta, que conhecia a sua impiedade e
que ele não teria o prazer de continuar a ofendê-lo impunemente. No entanto,
por causa da promessa que fizera a Davi, deixá-lo-ia reinar durante o resto de
sua vida. Depois de sua morte, porém, castigaria o seu filho por causa dele,
embora não o fosse privar inteiramente do reino: dez tribos separar-se-iam de
sua obediência e duas lhe ficariam submissas, quer por causa do afeto que
Deus tinha por Davi, quer por consideração à cidade de Jerusalém, onde lhe
aprouvera deixar erguer o Templo. Seria inútil dizer-se da aflição de Salomão ao
saber, com essas palavras, que tal mudança em sua sorte torná-lo-ia tão infeliz
quanto antes fora bem-aventurado. Algum tempo depois da ameaça do profeta,
Deus suscitou contra ele um inimigo de nome Áder,* por este motivo:
Quando Joabe, general do exército de Davi, submeteu a Iduméia, durante
o espaço de seis meses fez passar a fio de espada todos os que estavam em
idade de pegar em armas, Áder, que era da família real e ainda muito jovem,
fugiu e foi para a corte de Faraó, rei do Egito. Este não somente o recebeu
muito bem e o tratou favoravelmente, como teve por ele tal afeto que depois de
ele crescer o fez desposar a irmã da rainha sua mulher, de nome Táfis, da qual
teve um filho, que foi educado com os filhos de Faraó. Depois da morte de Davi
e de Joabe, Áder rogou ao rei que lhe permitisse voltar ao seu país. Por mais
que insistisse, porém, jamais conseguiu permissão. Faraó perguntava sempre o
motivo por que queria deixá-lo e se lhe faltava alguma coisa no Egito. Mas
Deus, que antes fazia Faraó dificultar a licença para Áder, resolveu fazer
Salomão sentir os efeitos de sua cólera. Já não lhe podia mais tolerar a
impiedade e pôs na mente de Faraó a idéia de consentir que Áder voltasse à
Iduméia.
Logo que lá chegou, Áder tudo fez para levar o povo a quebrar o jugo dos
israelitas. Mas não os pôde persuadir porque as fortes guarnições que Salomão
mantinha no país o impediram de tomar qualquer deliberação. Por isso foi à
Síria procurar Raazar,** que se havia revoltado contra Adrazar, rei dos
sofonianos, e que com um grande número de ladrões que havia reunido
roubava e devastava os campos. Áder fez aliança com ele e, com o seu auxílio,
apoderou-se de uma parte da Síria. Foi declarado rei e, vivendo ainda Salomão,
fazia a este freqüentes incursões, causando bastante prejuízo às terras
israelitas.
* Ou Hadade.
** Ou Rezom.
343. Mas não foram somente os estrangeiros que perturbaram a profunda
paz que Salomão desfrutava. Os seus próprios súditos fizeram-lhe guerra,
jeroboão, filho de Nebate, animado por antiga profecia, ergueu-se também
contra ele. Seu pai o havia deixado em tenra idade, e sua mãe não cuidara de
sua educação. Quando cresceu, Salomão, vendo que ele era muito promissor,
deu-lhe a superintendência das fortificações de Jerusalém. Desempenhou tão
bem o encargo que o rei lhe confiou em seguida o governo das tribos de José.
Quando ele partia para tomar posse, encontrou-se com o profeta Aías, que
era da cidade de Silo. Depois de o saudar, o profeta levou-o a um campo
afastado do caminho, onde ninguém os podia ver, rasgou o próprio manto em
doze pedaços e ordenou-lhe da parte de Deus que tomasse dez deles, como
sinal de que Ele desejava constituí-lo rei de dez tribos, a fim de castigar
Salomão por este se ter abandonado ao amor das mulheres e por prestar culto
aos falsos deuses, para ser agradável a elas. Quanto às outras duas tribos,
ficariam para o filho do rei, em consideração à promessa que Deus fizera a
Davi.
Acrescentou o profeta: Assim, vede o que obrigou Deus a retirar as
graças de Salomão e a rejeitá-lo. Observai, pois, religiosamente os seus
mandamentos. Amai a justiça e ficai certo de que, se prestardes a Deus sem
cessar a honra que lhe é devida, Ele recompensará a vossa piedade e vos
cumulará dos mesmos favores com que cumulou Davi. Como jeroboão era de
natureza muito ambiciosa e ardente, as palavras do profeta levantaram-lhe
tanto o ânimo e fizeram tão forte impressão em seu Espírito que ele não perdeu
tempo em persuadir o povo a se revoltar contra Salomão e fazê-lo rei em seu
lugar. Salomão foi disso avisado e mandou prendê-lo e matá-lo, mas ele fugiu
para a corte de Sisaque, rei do Egito, e lá ficou até a morte de Salomão,
esperando tempo mais favorável para a execução de seu intento.",