🏠 Home ← Anterior

Livro Decimo Primeiro Flávio Josefo

Capítulo 8 Flávio Josefo

12345678
,
"ALEXANDRE, O GRANDE, REI DA MACEDÔNIA, PASSA DA EUROPA PARA A
ÁSIA E DESTRÓI O IMPÉRIO DOS PERSAS. QUANDO SE JULGA QUE VAI DESTRUIR
JERUSALÉM, ELE PERDOA OS JUDEUS E TRATA-OS FAVORAVELMENTE.",
"449. Nesse mesmo tempo, Filipe, rei da Macedônia, foi morto à traição na
cidade de Egéia, por Pausânias, filho de Ceraste, que era da família dos
Orestes. Alexandre, o Grande, seu filho, sucedeu-o. E, passando o estreito do
Helesponto, entrou na Ásia e venceu, numa grande batalha perto do rio
Grânico, os que comandavam o exército de Dario. Conquistou em seguida a
Lídia e a Jônia, e atravessando a Caria, entrou na Panfília.
450. No entanto, os mais ilustres de Jerusalém não podiam tolerar que
Manasses, irmão de jado, sumo sacerdote, tivesse desposado uma estrangeira,
porque isso violava as leis referentes aos casamentos e estabelecia uma mistura
profana com nações idolatras. Além disso, fora exatamente essa a causa do
cativeiro e de tantos males que haviam sofrido. Assim, eles insistiam em que
Manasses ou despedisse a sua mulher ou não servisse mais no altar. Jado,
forçado pelas queixas dos outros, fez valer essa proibição.
Manasses então procurou Sanabalete, seu sogro, e disse-lhe que, ainda
que amasse extremamente a sua mulher, o sacerdócio era uma tão grande
honra entre os seus nacionais que ele não podia privar-se dela. Sanabalete
respondeu-lhe que, se ele conservasse consigo sua filha, não somente o faria
desfrutar aquela honra, mas obteria para ele o cargo de sumo sacerdote e
príncipe da Judéia e conseguiria do rei Dario o consentimento para construir
um templo semelhante ao de Jerusalém sobre o monte Gerizim, que é o mais
alto da região e situa-se em Samaria.
Sanabalete era então muito idoso, porém Manasses não deixou de sentir o
efeito de suas promessas, pelo favor de Dario. Assim, estabeleceu-se em
Samaria, e vários outros sacerdotes e judeus, que também haviam contraído
semelhantes matrimônios, uniram-se a ele. Sanabalete, secundando a ambição
do genro, deu-lhe dinheiro, casas e terras. Tudo isso veio causar grande
agitação em Jerusalém.
451. Dario, tendo sabido da vitória obtida por Alexandre sobre os seus
generais, reuniu todas as suas forças, para marchar contra ele antes que se
tornasse senhor de toda a Ásia. Depois de passar o Eufrates e o monte Tauro,
que está na Cilícia, resolveu dar-lhe combate. Quando Sanabalete viu que ele se
aproximava de Jerusalém, disse a Manasses que cumpriria a sua promessa
logo que Dario tivesse vencido Alexandre, pois tanto ele quanto os povos da Ásia
duvidavam que os macedônios, sendo em tão pequeno número, ousassem
combater o formidável exército dos persas. Os fatos, no entanto, mostraram o
contrário. A batalha travou-se, e Dario foi vencido, com graves perdas. Sua
mãe, sua mulher e seus filhos foram feitos prisioneiros, e ele foi obrigado a fugir
para a Pérsia.
Alexandre, depois da vitória, chegou à Síria. Tomou Damasco, apoderou-
se de Sidom e sitiou Tiro. Durante o tempo em que esteve empenhado nessa
empresa, escreveu a Jado, sumo sacerdote dos judeus, pedindo-lhe três coisas:
auxílio, comércio livre com o seu exército e a mesma assistência dispensada a
Dario. Se o fizesse, garantia-lhe que não teria motivo para se arrepender de ter
preferido a sua amizade à de Dario. O sumo sacerdote respondeu que os judeus
haviam prometido com juramento a Dario jamais tomar armas contra ele, e por
isso não podiam fazê-lo enquanto ele vivesse.
Alexandre ficou tão irritado com essa resposta que mandou dizer-lhe que,
logo que tivesse tomado Tiro, marcharia contra ele com todo o seu exército para
ensinar a ele e aos demais a quem se devia guardar um juramento. Em seguida,
atacou Tiro com tanta força que dela se apoderou. E, depois de haver
regularizado todas as coisas, foi sitiar Gaza, onde Baemes governava em nome
do rei da Pérsia.
452. Voltemos, porém, a Sanabalete. Enquanto Alexandre ainda estava
ocupado no cerco de Tiro, ele julgou que o tempo era próprio para realizar o seu
intento. Assim, abandonou o partido de Dario e levou oito mil homens a Alexan-
dre. O grande príncipe recebeu-o muito bem. Sanabalete disse-lhe então que
tinha um genro de nome Manasses, irmão do sumo sacerdote dos judeus, que
vários daquela nação se haviam juntado a ele pelo afeto que ele lhes tinha e que
desejava construir um templo próximo de Samaria, sendo que o rei poderia
disso tirar grande vantagem, porque assim dividiria as forças dos judeus e
impediria que aquela nação pudesse se revoltar por inteiro e causar-lhe
dificuldades, tal como fizeram os antepassados deles aos reis da Síria.
Alexandre consentiu nesse pedido, ordenou que se trabalhasse com
incrível diligência na construção do templo e constituiu Manasses sumo
sacerdote. Sanabalete sentiu grande alegria por ter granjeado tão grande honra
aos filhos que ele teria de sua filha. Ele morreu depois de passar sete meses
junto de Alexandre no cerco de Tiro e dois no de Gaza. O ilustre conquistador,
depois que tomou essa última cidade, avançou para Jerusalém, e o sumo
sacerdote Jado, que bem conhecia a sua cólera contra ele, vendo-se com todo o
povo em tão grave perigo, recorreu a Deus, ordenou orações públicas para
implorar o seu auxílio e ofereceu-lhe sacrifícios. Deus apareceu-lhe em sonhos
na noite seguinte e disse-lhe que espalhasse flores pela cidade, mandasse abrir
todas as portas e fosse ao encontro de Alexandre revestido de suas vestes
sacerdotais, acompanhado pelos demais, que deveriam estar vestidos de
branco, sem nada temer do soberano, porque ele os protegeria.
Jado comunicou com grande alegria a todo o povo a revelação que tivera,
e todos se prepararam para esperar a vinda do rei. Quando se soube que ele já
estava perto, o sumo sacerdote, acompanhado pelos outros sacerdotes e por
todo o povo, foi ao seu encontro com essa pompa tão santa e tão diferente da de
outras nações até o lugar denominado Safa, que em grego significa mirante,
porque de lá se pode ver a cidade de Jerusalém e o Templo. Os fenícios e os
caldeus que integravam o exército de Alexandre não duvidavam de ele, na
cólera em que se achava contra os judeus, lhes permitiria saquear Jerusalém e
daria um castigo exemplar ao sumo sacerdote.
Mas aconteceu justamente o contrário, pois o soberano, apenas viu
aquela grande multidão de homens vestidos de branco e os sacerdotes
revestidos com os seus paramentos de linho e o sumo sacerdote com o seu
éfode de cor azul adornado de ouro e com a tiara sobre a cabeça, que continha
uma lâmina de ouro sobre a qual estava escrito o nome de Deus, aproximou-se
sozinho dele, adorou aquele augusto nome e saudou o sumo sacerdote, ao qual
ninguém ainda havia saudado. Então os judeus reuniram-se em redor de
Alexandre e elevaram a voz para desejar-lhe toda sorte de felicidade e de
prosperidade. Porém os reis da Síria e os grandes que o acompanhavam ficaram
tão espantados que julgaram que ele havia perdido o juízo.
Parmênio, que desfrutava grande prestígio, perguntou-lhe como ele, que
era adorado em todo mundo, adorava o sumo sacerdote dos judeus. Respondeu
Alexandre: Não é a ele, ao sumo sacerdote, que adoro, mas ao Deus de quem
ele é o ministro, pois quando eu estava ainda na Macedônia e imaginava como
poderia conquistar a Ásia, ele me apareceu em sonhos com essas mesmas
vestes e exortou-me a nada temer. Disse-me que passasse corajosamente o
estreito do Helesponto e garantiu que Deus estaria à frente de meu exército e
me faria conquistar o império dos persas. Eis por que, jamais tendo visto antes
alguém revestido de trajes semelhantes a esses com que ele me apareceu em
sonho, não posso duvidar de que tenha sido por ordem de Deus que empreendi
esta guerra, e assim vencerei Dario, destruirei o império dos persas, e todas as
coisas suceder-me-ão segundo os meus desejos.
Alexandre, depois de assim responder a Parmênio, abraçou o sumo
sacerdote e os outros sacerdotes, caminhou no meio deles até Jerusalém, subiu
ao Templo e ofereceu sacrifícios a Deus da maneira como o sumo sacerdote lhe
disse para fazer. O sumo sacerdote mostrou-lhe em seguida o livro de Daniel,
no qual estava escrito que um príncipe grego destruiria o império dos persas e
disse-lhe que não duvidava de que era dele que a profecia fazia menção.
Alexandre ficou muito contente. No dia seguinte, mandou reunir o povo e
ordenou que dissessem que favores desejavam receber dele. O sumo sacerdote
respondeu que eles suplicavam permissão para viver segundo as suas leis e as
de seus antepassados e isenção, no sétimo ano, do tributo que lhe pagariam
nos outros anos. Ele concordou. E, tendo eles também pedido que os judeus
que moravam na Babilônia e na Média desfrutassem os mesmos favores, ele o
prometeu com grande bondade e disse que se alguém desejasse servir em seus
exércitos ele permitiria a tal pessoa viver segundo a sua religião e observar
todos os seus costumes. Vários então alistaram-se.
Esse grande príncipe, depois de agir desse modo em Jerusalém, passou às
cidades vizinhas, que lhe abriram as portas. Os samaritanos, cuja capital então
era Siquém, situada sobre o monte Gerizim e habitada por judeus desertores de
sua nação, vendo que o conquistador tratara com bondade os de Jerusalém,
resolveram dizer-lhe que também eram judeus. Pois, como dissemos há pouco,
eles não nos reconhecem por compatriotas quando as coisa vão mal para nós e
então falam a verdade. Mas quando a sorte nos é propícia eles procuram provar
que têm a mesma origem, que são do nosso sangue, como descendentes de José
por Manasses e Efraim, seus filhos.
Assim, logo que Alexandre saiu de Jerusalém, eles foram, acompanhados
pelos soldados que Sanabalete lhes havia mandado, à presença do soberano
com grande aparato e demonstrações de alegria para pedir-lhe que fosse à sua
cidade e honrasse o seu templo com a sua presença. Ele prometeu fazê-lo na
volta. Quanto a um pedido para que também lhes perdoasse no sétimo ano os
tributos, porque eles não semeavam a terra nessa ocasião, ele perguntou de que
nação eles eram. Responderam que eram hebreus, mas que os sidônios os cha-
mavam de siquemitas. Ele perguntou-lhes então se eram judeus. Eles
responderam que não, e então ele lhes disse: Eu concedi esse favor somente
aos judeus, mas vou me informar desse assunto quando voltar e, depois que
souber de tudo detalhadamente, farei o que for mais justo. Depois de assim
lhes falar, despediu-os, mas ordenou às tropas de Sanabalete que o seguissem
ao Egito, onde lhes daria terras, o que ele fez logo em seguida, e os aquartelou
como guarnições da Tebaida.
Depois da morte de Alexandre, o império foi dividido entre os seus
sucessores, e o templo construído no monte Gerizim permaneceu em seu
primitivo estado. Os judeus que moravam em Jerusalém e pecavam contra a fé,
quer comendo alimentos proibidos, quer não observando o sábado, ou coisa
semelhante, refugiavam-se entre os siquemitas, alegando que haviam sido
injustiçados. Jado, sumo sacerdote, morreu nessa época, e Onias, seu filho,
sucedeu-o.",
"