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Livro Decimo Primeiro Flávio Josefo

Capítulo 4 Flávio Josefo

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"DARIO, REI DA PÉRSIA, PROPÕE A ZOROBABEL, PRÍNCIPE DOS JUDEUS, E A
DOIS OUTROS QUESTÕES PARA SEREM RESOLVIDAS. ZOROBABEL RESOLVE-AS E
RECEBE COMO RECOMPENSA A RESTAURAÇÃO DE JERUSALÉM E DO TEMPLO.
UM GRANDE NÚMERO DE JUDEUS VOLTA EM SEGUIDA PARA JERUSALÉM
SOB O COMANDO DE ZOROBABEL E TRABALHA NESSA OBRA.
OS SAMARITANOS E OUTROS POVOS PEDEM A DARIO QUE A IMPEÇA.
MAS ESSE PRÍNCIPE FAZ JUSTAMENTE O CONTRÁRIO.",
"439. Esdras 5 e 6. Dario era ainda um simples cidadão, mas fizera a Deus
um voto: se um dia subisse ao trono, restituiria ao Templo em Jerusalém tudo o
que estava ainda na Babilônia dos vasos sagrados. Quando ele foi proclamado
rei, aconteceu que Zorobabel, príncipe dos judeus, que era seu velho amigo,
estava próximo dele. E assim, confiou a ele e a dois outros dos principais a
direção de sua casa e de tudo o que mais de perto se referia à sua pessoa.
O grande rei, no primeiro ano de seu reinado, ofereceu um suntuoso
banquete aos seus principais auxiliares, aos maiorais dos medos e dos persas e
aos governadores das cento e vinte e sete províncias sobre as quais estendia o
seu domínio, que ia desde as índias até a Etiópia. Terminado o banquete, todos
se retiraram, e Dario dormiu um pouco, mas logo acordou. Não podendo
conciliar o sono novamente, pôs-se a conversar com aqueles três oficiais.
Ele prometeu conceder a quem melhor resolvesse o problema que iria
propor que se vestisse de púrpura, usasse um colar de ouro, bebesse em taça
de ouro, dormisse em um leito de ouro, passeasse num carro em que os arreios
dos cavalos eram de ouro, usasse uma tiara de fino linho, se sentasse perto
dele e fosse considerado seu parente. Perguntou então ao primeiro se a mais
forte de todas as coisas do mundo não era o vinho. Ao segundo, se não eram os
reis. Ao terceiro, se não eram as mulheres ou a verdade. Disse-lhes que
pensassem. No dia seguinte, pela manhã, mandou chamar os príncipes, os
grandes senhores da Pérsia e da Média, sentou-se no trono de onde costumava
distribuir a justiça e ordenou aos três oficiais que respondessem na presença
de toda a assembléia às perguntas que havia feito.
O primeiro, para mostrar a força do vinho, falou assim: Parece-me não
haver melhor prova para mostrar que tudo cede à força do vinho que vermos
como ele perturba a razão e põe os próprios reis em tal estado que eles se
tornam como crianças, as quais têm necessidade de serem guiadas; como dá
aos escravos a liberdade de falar, deles tirada pela escravidão, e torna os pobres
tão contentes quanto os ricos; como muda de tal sorte o Espírito dos homens
que, mesmo nas maiores misérias, afoga os sentimentos de sua desgraça; como
os faz esquecer a própria desdita e os persuade de que estão em tal abundância
que só falam de milhões; como lhes põe na boca as palavras que usam os que
se encontram no cume da glória e lhes tira o medo das pessoas mais temíveis e
dos maiorais monarcas; como os faz não conhecer e até odiar os seus melhores
amigos. Depois eles adormecem e, despertando, encontram-se com o Espírito
tranqüilo e nem se lembram mais do que disseram ou fizeram durante a
embriaguez. Assim, creio que o vinho deve passar pela coisa mais forte do
mundo.
Depois que o primeiro assim falou em favor do vinho, o outro, encarregado
de mostrar que nada iguala ao poder dos reis, procurou prová-lo com estas
palavras: Ninguém pode duvidar de que os homens são os senhores do
universo, pois dominam toda a terra e o mar e fazem uso dos elementos para o
que bem lhes parece. Mas os reis governam os homens e reinam sobre aqueles
que dominam todos os animais. Que há, pois, que se possa comparar ao seu
poder? Eles governam os seus súditos, e estes estão sempre prontos a obedecê-
lo. Ele os põe, quando lhe apraz, em todos os perigos da guerra, e, embora seja
necessário forçar muralhas ou combater em campo aberto ou atacar em montes
inacessíveis, eles não impõem dificuldade para se expor à morte e obedecê-lo.
Depois de vencerem as batalhas, obtendo vitórias à custa do próprio sangue,
toda a vantagem e toda a glória reverte em favor do rei, bem como o fruto dos
trabalhos e dos suores daqueles dentre o povo que, enquanto os demais pegam
em armas, cultivam a terra. Assim, os príncipes recolhem o que não tiveram o
trabalho de semear, desfrutam todas as espécies de prazer e dormem à vontade,
enquanto os seus guardas velam à porta sem dela se afastar, por maiores que
sejam as necessidades que os chamem a outros lugares. Pode-se, pois, duvidar
de que o poder dos reis não supere a todos os outros?
Zorobabel, que devia falar por último, para mostrar que o poder das
mulheres e da verdade é o mais forte, assim se expressou: Estou de acordo
com a força do vinho e o poder dos reis, mas ouso afirmar que o poder das
mulheres é ainda maior. Os homens e os reis têm nelas a sua origem, e, se elas
não tivessem posto no mundo os que cultivam as terras, a vinha não produziria
o fruto cujo suco é tão agradável. De tudo teríamos falta sem as mulheres.
Devemos ao seu trabalho as principais comodidades da vida: elas fiam a lã e o
tecido com que nos vestimos. Têm cuidado de nossas famílias, e não
poderíamos passar sem elas. A sua beleza tem tanto encanto que nos fazem
desprezar o ouro, a prata e tudo o que há de mais rico no mundo para
ganharmos o seu afeto. Para segui-las, abandonamos sem pesar mãe, pai,
parentes, amigos e a nossa própria pátria. Fazemo-las senhoras não somente
de tudo o que conquistamos com mil trabalhos na terra e no mar, mas de nós
mesmos. Acrescentarei que vi o rei, senhor de tantas nações, permitir que
Apaméia, sua senhora, filha de Rapsacés Temasim, lhe batesse no rosto e lhe
arrancasse a coroa para pô-la na própria cabeça e vi o grande príncipe rir-se
quando ela estava de bom humor, afligir-se quando ela estava triste, adulá-la,
unificar-se aos sentimentos dela e rebaixar-se até pedir-lhe desculpas quando
julgava tê-la desgostado em alguma coisa.
Todos os assistentes ficaram tão impressionados com essas palavras que
começaram a se entreolhar. Zorobabel então passou do louvor às mulheres ao
da verdade: Mostrei qual o poder das mulheres, mas nem as mulheres nem os
reis são comparáveis à verdade. Por maior que seja a terra, por mais alto que
seja o céu, por mais rápido que seja o curso do Sol, é Deus que os move e
governa. Deus é justo e verdadeiro, e assim é evidente que nada se iguala ao
poder da verdade. A injustiça nada pode contra ela. Enquanto todas as demais
coisas são perecíveis e passam como um relâmpago, ela é imortal e subsiste
eternamente. Além disso, as vantagens com que nos enriquece não duram
menos que ela mesma: a fortuna não poderia tirá-la de nós nem o tempo alterá-
la, porque está acima do alcance deles. E ela é tão pura que nada a pode
corromper.
Zorobabel assim falou, e muitos louvaram-no e confessaram que ele havia
provado muito bem que nada é mais poderoso que a verdade, a qual jamais
envelhece e não está sujeita a mudanças. O rei disse-lhe que declarasse o que
desejava daquilo que prometera ao que melhor respondesse às questões propos-
tas, e o concederia de boa vontade, reconhecendo-o como o mais sábio e mais
inteligente de todos. Disse ainda que desejava, no futuro, receber os seus
conselhos e ter tanta consideração por ele como a um parente.
Zorobabel respondeu-lhe que não lhe pedia outra graça senão que
cumprisse o voto que havia feito antes de ser elevado à dignidade da coroa:
mandar reconstruir Jerusalém, restaurar o Templo de Deus e restituir todos os
vasos sagrados que o rei Nabucodonosor mandara tirar e levar para a
Babilônia. O rei então levantou-se do trono com o rosto alegre, beijou Zorobabel
e ordenou que se escrevesse aos governadores de suas províncias, para que o
ajudassem a reconstruir o Templo, bem como aos que o acompanhassem na
viagem a Jerusalém. Deu também aos magistrados da Síria e da Fenícia ordem
para que mandassem cortar cedros sobre o monte Líbano e os fizessem levar a
Jerusalém e para que ajudassem os que iam reconstruir a cidade.
Essas mesmas cartas diziam que o rei desejava que todos os judeus que
fossem a Jerusalém de volta do cativeiro fossem libertados, proibiam a todos os
seus oficiais fazer-lhes imposições ou obrigá-los a pagar tributo e ordenavam
que lhes fosse permitido cultivar todas as terras aproveitáveis. O rei ordenava
aos idumeus, aos samaritanos e aos da Baixa Síria que lhes entregassem tudo
o que os seus pais haviam possuído e contribuíssem com cinqüenta talentos
para a construção do Templo. Permitia também aos judeus oferecer a Deus os
mesmos sacrifícios e observar as mesmas cerimônias que seus antepassados.
Podiam ainda tomar do fundo dos bens reais o que fosse necessário para as
vestes dos sumos sacerdotees e dos outros sacerdotes e para os instrumentos
de música com os quais os levitas cantavam louvores a Deus, e a cada ano se
daria aos guardas do Templo e da cidade terras e o dinheiro necessário à sua
manutenção. Por fim, Dario confirmou tudo o que Ciro havia determinado,
tanto para a restauração da nação judaica quanto para a restituição dos vasos
sagrados.
440. Depois que Zorobabel obteve do soberano tudo o que podia desejar, a
primeira coisa que fez ao sair do palácio foi elevar os olhos ao céu e agradecer a
Deus o favor que Ele lhe fizera, ou seja, torná-lo perante o príncipe o mais hábil
e inteligente de todos. Confessou que devia toda a sua felicidade ao auxílio dEle
e pediu que Ele continuasse a ajudá-lo. Quando chegou à Babilônia e deu essa
grata notícia aos de sua nação, eles também deram graças a Deus por Ele haver
permitido que se restabelecessem em sua pátria e passaram sete dias inteiros
em festas de regozijo. As famílias escolheram em seguida pessoas de sua tribo
para que fossem levadas a Jerusalém e procuraram cavalos e outros animais
para carregar as suas mulheres e filhos. Assim uma grande multidão de todas
as idades e ambos os sexos, guiadas por aqueles que Dario havia posto à frente,
fez toda a caminhada com incrível alegria, ao som de flautas e de timbales.
O temor de aborrecer o leitor e de interromper o fio de minha narração
não me deixará mencionar nomes em particular. Contentar-me-ei em dizer o
seu número. Havia nas tribos de Judá e de Benjamim, da idade de doze anos
para cima, quatro milhões seiscentas e vinte e oito mil pessoas. A multidão era
seguida por quatro mil e setenta levitas e quarenta mil setecentos e quarenta e
duas mulheres e crianças. Da estirpe dos levitas, havia cento e vinte e oito
cantores, cento e dez porteiros e trezentos e vinte e dois que serviam no
Santuário. Seis-centos e cinqüenta e dois se diziam israelitas, rrias, sem poder
prová-lo, não foram reconhecidos como tais. Quinhentos e vinte e cinco haviam
desposado mulheres que eles diziam ser da descendência dos sacerdotes e dos
levitas, mas os seus nomes não constavam das genealogias. Sete mil trezentos e
trinta e sete escravos caminhavam atrás deles, bem como duzentos e quarenta
cantores e cantoras. Havia ainda quatrocentos e trinta e cinco camelos e
quinhentos e vinte e cinco cavalos ou outros animais de carga no transporte
das bagagens.
Zorobabel, de que falamos há pouco, era filho de Sealtiel, da tribo de Judá
e da estirpe de Davi. Ele chefiava essa grande multidão, auxiliado por Jesua,
filho de Jozadaque, sumo sacerdote, Mardoqueu e Cerebeu, escolhidos pelas
outras duas tribos. Os dois últimos contribuíram, das próprias economias, com
cem peças de ouro e cinco mil de prata para as despesas dessa viagem. Os
sacerdotes, os levitas e uma parte do povo judeu que estava na Babilônia
voltaram para morar novamente em Jerusalém, e os que lá ficaram os
acompanharam durante uma parte do caminho e depois retornaram.
441. Sete meses depois, Jesua, sumo sacerdote, e o príncipe Zorobabel
enviaram a toda parte convites aos de sua nação, para que se dirigissem a
Jerusalém. Eles foram com grande alegria e, depois de construírem um altar no
mesmo local onde estivera o primeiro, ofereceram sacrifícios a Deus segundo o
que Moisés havia determinado. As nações vizinhas viram isso com grande
desprazer, por causa do ódio que lhe votavam. Os judeus celebraram também
nesse mesmo tempo a festa dos Tabernáculos, segundo fora instituída
anteriormente: fizeram as oblações e os sacrifícios que se deviam fazer todos os
dias, como também os dos sábados, das festas sagradas e das solenidades
ordinárias. Os que haviam feito votos cumpriram-nos, oferecendo sacrifícios
depois da lua nova do sétimo mês.
Começaram depois a trabalhar na construção do Templo, sem lastimar a
despesa necessária para o pagamento e a alimentação dos operários. Os
sidônios enviaram, com bastante agrado, grandes vigas de cedro, que haviam
cortado nas florestas do monte Líbano e ligado umas às outras, fazendo-as
flutuar nas águas do mar até o porto de Jope, como Ciro e Dario haviam
determinado.
Depois de no segundo mês do segundo ano lançarem os alicerces do Tem-
plo, começaram, no dia primeiro de dezembro, a construir a parte superior.
Todos os levitas com vinte anos ou mais, e Jesua, com os seus três filhos e seus
irmãos, e Cadmiel, irmão de Judá, filho de Aminadabe, com os seus filhos, que
haviam sido encarregados da direção dessa obra, nela trabalharam com tanto
empenho e solicitude que a concluíram muito antes do esperado. Então os
sacerdotes, revestidos de seus vestes sacerdotais, marcharam ao som de trom-
betas, enquanto os levitas e os descendentes de Asafe cantavam em louvor a
Deus hinos e salmos compostos pelo rei Davi. Os mais antigos do povo, que
haviam contemplado a magnificência e a riqueza do primeiro templo, conside-
rando o quanto esse estava longe de igualá-lo e julgando assim a grande dife-
rença entre a sua prosperidade no passado e a presente, sentiram tão profunda
dor que não puderam reter as lágrimas e soluços. O povo em geral, porém, ao
qual somente o presente podia impressionar, não fazia tal comparação. Estava
tão contente que as queixas de uns e os gritos de júbilo de outros impediam
que se ouvisse o som das trombetas.
442. Essa notícia chegou até Samaria, e os habitantes dessa cidade
vieram indagar o que se passava. Ao saber que os judeus, regressando do
cativeiro da Babilônia, haviam reconstruído o Templo, rogaram a Zorobabel, a
Jesua, sumo sacerdote, e aos principais das tribos que lhes permitissem
contribuir para aquelas despesas, dizendo que adoravam o mesmo Deus e que
não tinham outra religião desde que Salmaneser, rei da Assíria, os trouxera da
Chutéia e da Média para morar em Samaria. Todos de comum acordo
responderam que não podiam fazer o que desejavam, porque Ciro e Dario
haviam permitido que só eles, os judeus, reconstruíssem o Templo, mas que
isso não impediria que eles e todos os de sua nação viessem adorar a Deus, o
que podiam fazer com toda a liberdade.
Os chuteenses (pois é assim que chamamos os samaritanos) ficaram tão
ofendidos com essa resposta que persuadiram os sírios e seus governados a
empregar, para impedir a construção do Templo, os mesmos meios de que se
haviam servido outrora, nos tempos de Ciro e de Cambises, acrescentando que
não havia um momento a perder, por causa da pressa com que os judeus
trabalhavam naquela obra. Naquele mesmo tempo, Sisina, governador da Síria
e da Fenícia, acompanhado por Sarabazam e por alguns outros, veio a
Jerusalém e perguntou aos principais dos judeus quem lhes permitira
reconstruir o Templo, fazendo-o tão robustecido que mais parecia uma
fortaleza, e também cercar toda a cidade com muralhas tão espessas.
Zorobabel e o sumo sacerdote responderam que eram servidores do Deus
Todo-poderoso; que o Templo fora outrora construído em sua honra por um de
seus reis, que era um dos mais bem-aventurados príncipes do mundo, ao qual
nenhum outro jamais se igualara em sabedoria e em inteligência; que aquele
soberbo edifício fora conservado intacto durante vários séculos; que seus
antepassados, tendo desgostado a Deus com os seus pecados, haviam
permitido que Nabucodonosor, rei de Babilônia e da Caldéia, tomasse a cidade e
a destruísse e incendiasse, bem como ao Templo, depois de retirar dele tudo o
que existia de mais precioso, e levasse o povo escravo para a Babilônia; que
Ciro, depois rei da Pérsia e da Babilônia, ordenara expressamente, por cartas
escritas a esse respeito, que se reconstruísse o Templo e que depois de
terminado se levassem para lá os vasos sagrados que haviam sido dele retirados
e que os confiara a Zorobabel e a Mitredate, seu tesoureiro-mor; que antes,
para apressar a construção do Templo, havia mandado Abazar a Jerusalém, o
qual então já lhe lançara os alicerces; que desde então somente as nações
inimigas haviam feito esforços para impedir os trabalhos; e que, como prova
daquela afirmação, ele precisava apenas escrever ao rei, para que este lhe
mostrasse nos registros dos reis precedentes se tudo não se havia passado
como estavam dizendo.
Sisina e os que o acompanhavam ficaram satisfeitos com essas razões e
não impediram a continuação dos trabalhos, mas indagaram antes da vontade
do rei e para isso lhe escreveram. No entanto os judeus temiam que esse
príncipe se arrependesse da permissão concedida, porém os profetas Ageu e
Zacarias disseram-lhes que nada temessem, nem de Dario nem dos persas,
porque estavam informados da vontade de Deus sobre aquele assunto. Assim,
tranqüilizaram-se e continuaram a trabalhar com o mesmo ardor. Os
samaritanos ou chuteenses não deixaram, por sua vez, de escrever ao rei Dario,
contando que os judeus fortificavam a sua cidade e construíam um templo que
mais parecia uma fortaleza que um lugar destinado ao culto a Deus. E, para
testemunhar ao rei o quanto aquilo lhe seria prejudicial, mandaram-lhe as
cartas do rei Cambises pelas quais ele havia proibido a continuação daquelas
obras, pois não as julgava proveitosas para o seu serviço.
Quando Dario recebeu essas cartas e as de Sisina, mandou procurar os
registros dos reis. Encontraram um deles no castelo de Ecbátana, na Média,
onde estava escrito assim: O rei Ciro ordenou no primeiro ano de seu reinado
que se construísse em Jerusalém um templo de sessenta côvados de altura e
outros tantos de largura, com três ordens de pedras polidas e uma da madeira
que se encontra naquele país; que se edificasse um altar naquele templo; que
tudo seria feito às suas expensas; que os vasos sagrados retirados por
Nabucodonosor seriam levados para lá; e que Abazar, governador da Síria e da
Fenícia, e os oficiais da província tomariam o cuidado de mandar prosseguir a
obra sem no entanto ir a Jerusalém, porque os judeus, que eram servidores de
Deus, e seus príncipes deveriam assumir a direção. Seria suficiente ajudá-los
com o dinheiro que se obteria dos tributos das províncias e dar-lhes para os
seus sacrifícios touros, carneiros, cordeiros, cabritos, farinha, óleo, vinho e
todas as outras coisas que os sacerdotes lhes pedissem, a fim de que rogassem
pela prosperidade dos reis e pelo império dos persas. E, se alguém se atrevesse
a desobedecer a essa ordem, que fosse crucificado e tivesse todos os seus bens
confiscados. A isso acrescentou uma imprecação que atingiu a todos os que
quisessem impedir a construção do Templo. Ele rogava a Deus que fizesse
desencadear sobre eles a sua justa vingança, para castigá-los por tal
impiedade.
Dario, tendo visto os registros de Ciro, escreveu a Sisina e aos seus outros
oficiais o que segue: O rei Dario a Sisina, lugar-tenente-general de nossa
cavalaria, a Sarabazam e aos outros governadores, saudação. Mandamo-vos a
cópia das ordens do rei Ciro que encontramos nos seus registros e queremos
que o que elas contêm seja rigorosamente executado. Adeus! Sisina e os outros
aos quais era endereçada essa carta, tendo conhecido a intenção do rei, nada
esqueceram, no que dependia deles, para executá-la e ajudaram os judeus com
todas as suas forças para que pudessem continuar as obras do Templo.
Com esse auxílio, as obras progrediram e, pelo entusiasmo que as
profecias de Ageu e de Zacarias continuavam a dar ao povo, o Templo foi
terminado ao fim de sete anos, no nono ano do reinado de Dario e no vigésimo
terceiro dia do décimo primeiro mês a que chamamos adar, e os macedônios,
distro. Os sacerdotes, os levitas e o resto do povo deram graças a Deus por lhes
permitir recuperar a antiga felicidade depois de tão longo cativeiro e por lhes
dar o novo Templo. Ofereceram-lhe em sacrifício cem touros, duzentos
carneiros, quatrocentos cordeiros e doze bodes pelos pecados das doze tribos.
Os levitas escolheram entre eles alguns porteiros, para distribuí-los por todas
as portas do Templo, segundo ordenava a lei de Moisés.
A festa dos Pães Ázimos aproximava-se e devia ser celebrada no primeiro
mês, a que os macedônios denominam xântico, e nós, nisã. O povo das aldeias
e das cidades veio a Jerusalém com as suas mulheres e filhos e, depois de se
haverem purificado, ofereceram o cordeiro pascal no décimo quarto dia da lua
do mesmo mês, segundo o costume de nossos antepassados. Passaram sete
dias em banquetes de regozijo, sem deixar de oferecer a Deus os holocaustos e
de agradecer-lhe por haver tocado o coração do rei, que lhes permitira regressar
ao seu país.
Estabeleceram em seguida uma nova forma de governo aristocrático, no
qual os sumos sacerdotes tiveram sempre autoridade soberana, até que os
hasmoneus chegaram à realeza e assim os judeus tornaram a entrar no governo
monárquico, sob o qual tinham vivido durante quinhentos e trinta e dois anos,
seis meses e dez dias, desde Saul e Davi até o cativeiro. Antes também haviam
sido governados durante mais de quinhentos anos, desde Moisés e Josué, por
aqueles aos quais davam o nome de juizes.
No entanto os samaritanos, que além do ódio e da inveja que tinham de
nossa nação, não podiam tolerar a obrigação de contribuir com as coisas
necessárias para os nossos sacrifícios e além disso se vangloriavam de ser do
mesmo país que os persas, não deixavam do mesmo modo de nos fazer todo o
mal que podiam. E os governadores da Síria e da Fenícia não perdiam ocasião
alguma de secundá-los em seus desígnios. O senado e o povo de Jerusalém,
vendo-os tão animados contra si, resolveram enviar Zorobabel e quatro outros
dos mais ilustres a Dario para se queixar dos samaritanos.
Logo que esse príncipe escutou os deputados, mandou que lhes dessem
cartas endereçadas aos principais oficiais de Samaria, cujas palavras são estas:
O rei Dario a Tangar e Sembabe, que comandam a cavalaria em Samaria, e a
Sadrague, Bobelom e outros, que estão encarregados dos nossos negócios nesse
país, saudação. Zorobabel, Ananias e Mardoqueu, deputados pelos judeus
junto de nós, queixaram-se das dificuldades que lhes moveis na construção do
Templo e de que recusais contribuir para os sacrifícios com aquilo que
ordenamos. Escrevemo-vos esta carta a fim de que logo que a tenhais recebido
não deixeis de cumprir as vossas obrigações e de tomar para esse fim, no nosso
tesouro proveniente dos tributos da Samaria, tudo o que os sacerdotes de
Jerusalém tiverem necessidade, porque a nossa intenção é que não se deixe de
oferecer sacrifícios a Deus pela nossa prosperidade e pela do império dos
persas.",