Livro Decimo Primeiro Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"CIRO, REI DA PÉRSIA, PERMITE QUE OS JUDEUS VOLTEM AO SEU PAÍS E RECONSTRUAM
JERUSALÉM E O TEMPLO.",
"436. Esdras 1 e Neemias 3. No primeiro ano do reinado de Ciro, rei dos
persas, setenta anos depois que as tribos de Judá e de Benjamim foram levadas
escravas para a Babilônia, Deus, tocado de compaixão pelo sofrimento delas,
realizou o que havia predito pelo profeta Jeremias, antes mesmo da ruína de
Jerusalém: que, passados setenta anos em dura escravidão, sob
Nabucodonosor e seus descendentes, voltaríamos ao nosso país,
reconstruiríamos o Templo e desfrutaríamos a nossa primeira felicidade. Assim,
pôs Ele no coração de Ciro escrever uma carta e enviá-la por toda a Ásia. Eis o
que declara o rei Ciro: Cremos que o Deus Todo-poderoso, que nos constituiu
rei de toda a terra é o Deus que o povo de Israel adora, pois Ele predisse por
meio de seus profetas que nós traríamos o nome que trazemos e
reconstruiríamos o Templo em Jerusalém, na Judéia, consagrado à sua honra.
Esse soberano falava assim porque lera nas profecias de Isaías, escritas
duzentos e dez anos antes que ele tivesse nascido e cento e quarenta anos
antes da destruição do Templo, que Deus lhe tinha feito saber que constituiria
a Ciro rei sobre várias nações e inspirar-lhe-ia a resolução de fazer o povo voltar
a Jerusalém para reconstruir o Templo. Essa profecia causou-lhe tal admiração
que, desejando realizá-la, mandou reunir na Babilônia os principais dos judeus
e anunciou que lhes permitia voltar ao seu país e reconstruir a cidade de
Jerusalém e o Templo, que eles não deveriam duvidar de que Deus os auxiliaria
nesse desígnio e que escreveria aos príncipes e governadores de suas províncias
vizinhas da judéia para que lhes fornecessem o ouro e a prata de que iriam
precisar e as vítimas para os sacrifícios.
Depois desse favor, os chefes das tribos de Judá e de Benjamim dirigiram-
se imediatamente a Jerusalém com sacerdotes e levitas. Os que não quiseram
deixar os seus bens ficaram na Babilônia. Chegaram depois os nobres aos quais
o rei havia escrito e contribuíram com ouro e prata. Alguns deram-lhe animais,
como cavalos. Outros, que haviam feito votos, ofereciam sacrifícios solenes para
cumpri-los, tal como fariam se tivessem de começar a construir a cidade e
realizar pela primeira vez as cerimônias que nossos pais observavam.
Ciro restituiu nesse mesmo tempo os vasos sagrados tomados do Templo
no reinado de Nabucodonosor e que haviam sido levados para a Babilônia.
Encarregou disso Mitredate, seu tesoureiro-mor, com ordem de confiá-los aos
cuidados de Sesbazar, para os que guardasse até que o Templo fosse
reconstituído e os entregasse então aos sacerdotes e aos principais dos judeus,
para que fossem recolocados no Templo.
Escreveu também esta carta aos governadores da Síria: O rei Ciro, a
Sisina* e a Sarabazam, saudação. Nós permitimos a todos os judeus que
moram em nosso território e que quiserem voltar ao seu país que para lá se
retirem com toda liberdade e reconstruam a cidade de Jerusalém e o Templo de
Deus. Enviamos Zorobabel, seu príncipe, e Mitredate, nosso tesoureiro-mor,
para que lhe lancem os alicerces e o elevem à altura de sessenta côvados, com a
mesma largura, e três ordens de pedras polidas e uma da madeira que existe
naquela província. Queremos também que lá se erga um altar para se
oferecerem sacrifícios a Deus e entendemos que todas as despesas sejam feitas
por nossa conta. Restituímos também, por meio de Mitredate e de Zorobabel, os
vasos sagrados que o rei Nabucodonosor retirou do Templo, para que lá sejam
recolocados. Seu número é de cinqüenta bacias de ouro e quatrocentas de
prata; cinqüenta vasos de ouro e quatrocentos de prata; cinqüenta baldes de
ouro e quinhentos de prata; trinta grandes pratos de ouro e trezentos de prata;
trinta grandes taças de ouro e duas mil e quatrocentas de prata; e, além disso,
mil outros grandes vasos. Concedemos ainda aos judeus as mesmas rendas de
que seus predecessores desfrutavam e lhes damos como compensação animais,
vinho e óleo, duzentas e cinco mil e quinhentas medidas de trigo, que queremos
que sejam tomadas nas terras de .Samaria. Os sacerdotes oferecerão a Deus
todas as vítimas em Jerusalém, segundo a lei de Moisés, e rogarão pela nossa
prosperidade, pela de nossos descendentes e pelo império dos persas. E, se
alguns forem tão obstinados que não queiram obedecer às nossas ordens,
queremos que sejam crucificados e que os seus bens sejam confiscados em
nosso proveito. Era o que diziam as cartas de Ciro. O número de judeus que
voltaram a Jerusalém foi de quarenta e dois mil quatrocentos e sessenta e dois.
* Ou Tatenai.",