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Livro Decimo Primeiro Flávio Josefo

Capítulo 6 Flávio Josefo

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"ARTAXERXES, SUCEDE A XERXES, SEU PAI, NO REINO DA PÉRSIA. REPUDIA A RAINHA
VASTI, SUA MULHER, E DESPOSA ESTER, SOBRINHA DE MARDOQUEU.
HAMÃ PERSUADE ARTAXERXES A EXTERMINAR TODOS OS JUDEUS E
ENFORCAR MARDOQUEU, MAS ELE MESMO É ENFORCADO. MARDOQUEU É
POSTO EM SEU LUGAR COM GRANDE AUTORIDADE.",
"446. Ester 1. Depois da morte do rei Xerxes, Ciro, seu filho, que os gregos
chamam Artaxerxes,* sucedeu-o. Os judeus correram grande perigo de ser
inteiramente exterminados durante o seu reinado, conforme vamos narrar.
Antes, porém, falaremos do soberano, dizendo que ele desposou uma mulher
judia que era de família real e à qual toda a nossa nação reconhece dever,
abaixo de Deus, a sua salvação. Quando esse novo rei subiu ao trono de seu
pai e estabeleceu governadores nas cento e vinte e sete províncias sujeitas ao
império, desde as índias até a Etiópia, ele resolveu, no terceiro ano de seu
reinado, entreter a eles e aos amigos durante cento e oitenta dias na cidade de
Susã, capital da Pérsia, com uma suntuosidade extraordinária. Os
embaixadores de várias nações lá ficaram durante sete dias.
Os banquetes realizaram-se sob os pavilhões sustentados por colunas de
ouro e de prata e cobertos de ricos tapetes, tão espaçosos que podiam abrigar
um grande número de pessoas. Toda a baixela de que se serviam era de ouro e
enriquecida de pedras preciosas. Artaxerxes ordenou aos seus serventes que
não obrigassem ninguém a beber segundo o costume dos persas, mas
deixassem a cada qual a liberdade de fazer como quisesse. Mandou ao mesmo
tempo proclamar por toda parte de seu território que o povo deixasse de
trabalhar durante alguns dias e pensasse apenas em se regozijar e em desejar-
lhe um feliz reinado.
A rainha Vasti, ao mesmo tempo, cuidava das damas de seu palácio com
magnificência igual à que o rei dispensava aos grandes e aos príncipes.
Artaxerxes, querendo mostrar que ela sobrepujava a todas as outras mulheres
em beleza, mandou que comparecesse à grande assembléia. Mas como o
costume dos persas não permite às mulheres se apresentarem diante de
estrangeiros, ela decidiu não aparecer, embora o rei enviasse diversas vezes os
eunucos para buscá-la.
Essa teimosia o aborreceu. Ele saiu do banquete, reuniu os magos, que
entre os persas interpretam as leis, e queixou-se a eles de ter várias vezes
pedido à rainha que comparecesse ante a assembléia e que ela não queria
obedecer. Ordenou-lhes então que dissessem a que a lei se obrigava naquele
caso. Memucã, um deles, respondeu que aquela desobediência da rainha e a
injúria que ela fizera ao rei não somente atingia e ofendia o soberano, mas
também a todos os persas. Porque as suas mulheres, vendo que a rainha não
temia ofender tão poderoso príncipe com aquele insolente desprezo, seriam
também levadas a desprezar os maridos, para imitar-lhe o exemplo. E assim,
aconselhava-o a castigá-la severamente e a mandar publicar em todo o seu
território o que fosse determinado contra ela. Os outros magos, depois dessa
opinião, deram também cada qual o seu parecer e chegaram à conclusão de que
o rei deveria repudiar a rainha e desposar uma outra.
* A Bíblia chama-o Assuero.
447. Ester 2. Tal determinação deixou o príncipe muito aflito porque, de
um lado, ele não queria contrariar as leis e, de outro, nutria uma violenta
paixão pela rainha, por causa de sua extrema beleza. Seus amigos, vendo-o tão
agitado, aconselharam-no a afastar do coração aquele afeto que o atormentava
inutilmente, a mandar procurar em todas as províncias as mais belas jovens e a
despo-sar a que mais lhe agradasse. O amor que teria por ela diminuiria cada
vez mais a paixão por Vasti, até desaparecer por completo. O rei aprovou a
proposta e mandou imediatamente, para esse fim, que em todo o seu território
se escolhessem as mais belas jovens.
Trouxeram-lhes as moças mais formosas, dentre as quais distinguia-se
uma da Babilônia, de nome Ester, que não tinha nem pai nem mãe e fora
criada por seu tio, de nome Mardoqueu, da tribo de Benjamim, um dos mais
ilustres dentre os judeus. A beleza dessa moça, a sua modéstia e a sua graça
eram tão extraordinárias que atraíam os olhares e a admiração de todos.
Puseram-na entre quatrocentas outras que foram entregues ao cuidado dos
eunucos, e tudo se fez para que fossem cercadas de todos os bens. Durante seis
meses, foram alvo de todas as atenções. Eram bem alimentadas e cuidadas e
adornavam-se e perfumavam-se com requinte. Passado esse tempo, julgou-se
que já estavam em condições de agradar ao rei. Assim, eles lhe mandavam uma
por dia, a qual o príncipe devolvia no dia seguinte.
Quando chegou a vez de Ester, Artaxerxes agradou-se tanto dela que a
escolheu para esposa, e as bodas foram celebradas no sétimo ano de seu
reinado, no décimo segundo mês, de nome adar. Ele mandou em seguida aos
chamados agares que proclamassem por todo o seu território que o povo
deveria festejar o seu matrimônio e tratou magnificamente durante um mês os
principais cidadãos, tanto dos persas e dos medos quanto dos de outras nações
que lhe estavam sujeitas. Depois de instalar a nova rainha em seu palácio, pôs-
lhe a coroa na cabeça e amou-a sempre como sua esposa, sem lhe perguntar de
que nação ela era e sem que ela também nada dissesse a esse respeito.
Mardoqueu, que a amava como se fosse sua própria filha, deixou a Babilônia
para ir morar em Susã. E não se passava um dia sem que ele desse uma volta
ao redor do palácio, para ter notícias dela.
Nesse entretempo, o rei publicou uma ordem pela qual proibia a todos os
de sua casa, sob pena de morte, vir procurá-lo sem serem chamados quando
ele estivesse assentado no trono. Guardas armados junto de sua pessoa tinham
ordem para afastar qualquer um que ousasse se aproximar. Ele empunhava
uma vara de ouro e, quando queria conceder graça a alguém que se
apresentara sem ser chamado, ele o tocava com ela. A pessoa então deveria
beijá-la, e assim evitava a morte.
Algum tempo depois, dois eunucos, chamados Bigtã e Teres, fizeram uma
conspiração para matar o rei. Um judeu de nome Barnabas, que servia a um
deles, avisou Mardoqueu. Este comunicou-o imediatamente ao rei, por meio de
sua sobrinha, a rainha Ester. Eles foram presos e enforcados. Artaxerxes não
recompensou a Mardoqueu pelo serviço prestado, mandou apenas registrar o
fato em suas crônicas e permitiu-lhe entrar no palácio como se fosse um de
seus familiares.
Ester 3. Um amalequita chamado Hamã, filho de Hamedata, desfrutava
então tal prestígio que quando ele entrava no palácio os persas e os
estrangeiros eram obrigados, por ordem do rei, a se prostrar diante dele.
Mardoqueu era o único que não lhe prestava essa homenagem, porque a lei de
Deus o proibia. Hamã, tendo notado isso, perguntou-lhe de que nação ele era.
Sabendo que era judeu, ficou muito irritado e exclamou: Ora! Os persas, que
são livres, põem o joelho em terra diante de mim, e esse escravo não se digna
fazer o mesmo! Como ele era por natureza inimigo mortal dos judeus, porque
os amalequitas haviam sido outrora vencidos por eles, o seu furor cresceu tanto
que seria muito pouco, para a sua vingança, mandar matar Mardoqueu: seria
necessário exterminar toda a nação judaica.
Ele foi então falar com o rei e disse-lhe que existia espalhado por todo o
seu território um certo povo que era inimigo de todos os demais e cujas leis,
cerimônias e costumes eram totalmente estranhos, sendo odiosos aos outros
homens, e que o maior favor que podia fazer aos seus súditos era exterminá-lo.
Mas, para que as rendas do soberano não fossem diminuídas com isso, ele lhe
oferecia de boa mente quarenta mil talentos de prata, por prestar tão grande
serviço, ou seja, livrar o império de tal peste. O rei respondeu que, quanto ao
dinheiro, ele o restituiria de boa vontade. E, quanto ao que se referia àquela
classe de gente, deixava tudo ao critério de Hamã.
Hamã, depois de haver obtido o que desejava, mandou publicar, em nome
do rei, em todo o seu território um edito, cujas palavras eram estas: O grande
rei Artaxerxes, aos cento e vinte e sete governadores que constituímos desde as
índias até a Etiópia, saudação. Muitas e várias nações estão sujeitas ao nosso
império, e estendemos o nosso domínio sobre a terra o quanto quisemos,
porque, em vez de tratar os nossos súditos com rigor, não temos mais prazer
que lhes dar todas as demonstrações de nossa estima e bondade, fazendo-os
desfrutar muita paz. E, para isso, envidamos os maiores esforços para que a
sua felicidade seja eterna. Por isso, tendo sido avisados por Hamã, a quem
honramos mais que a qualquer outro com o nosso afeto, pela sua fidelidade,
probidade e sabedoria, de que há um povo espalhado por toda a terra o qual é
inimigo de todos os outros e possui leis e costumes próprios e tem por
inclinação natural um grande ódio aos reis, não tolerando dominação alguma,
nem a nossa, nem a prosperidade do nosso império, desejamos e ordenamos
que quando Hamã, a quem consideramos como pai, vos der a ordem,
extermineis inteiramente esse povo, com as suas mulheres e filhos, sem poupar
um sequer e sem que a compaixão seja mais forte sobre o vosso Espírito que a
obediência. O que entendemos seja feito no décimo terceiro dia do décimo
segundo mês do presente ano, a fim de que, sendo mortos num mesmo dia
esses inimigos públicos, possais passar em paz e tranqüilidade o resto de
vossas vidas.
Depois que essa carta em forma de edito foi publicada por toda parte,
todos se prepararam para exterminar os judeus no tempo determinado e se
dispuseram a fazer a mesma coisa na cidade de Susã, capital da Pérsia, que por
isso estava muito agitada. No entanto, o rei e Hamã passavam os dias em
banquetes.
Ester 4. Quando Mardoqueu soube do conteúdo daquele cruel edito,
rasgou as próprias vestes, cobriu-se com um saco, espalhou cinza sobre a
cabeça e saiu clamando por toda a cidade que era horrível querer destruir
daquele modo uma nação inocente. Mas ele foi obrigado a ficar à porta do
palácio, porque no estado em que se encontrava não lhe foi permitido entrar. A
aflição de todos os judeus não era menor em todas as outras cidades onde o
edito fora publicado, e, em tão geral desolação, o ar repercutia gritos e
lamentações. A rainha, perturbada por saber que Mardoqueu estava à porta do
palácio no deplorável estado em que o descrevi, mandou-lhe outras vestes, para
que as trocasse. Ele, porém, as recusou, porque a causa de seu penar subsistia
ainda e ele não podia se desfazer dos sinais.
A princesa, ante a recusa, mandou o eunuco Hataque perguntar o motivo
de tão grande aflição e de ele não querer deixar aqueles trajes tão tristes.
Mardoqueu mandou dizer-lhe pelo mesmo eunuco que Hamã oferecera ao rei
uma grande soma de dinheiro a fim de obter permissão para exterminar todos
os judeus e que sua majestade lhe concedera a licença. Assim, em Susã e em
todas as províncias do império fora publicado um edito, do qual lhe mandava
uma cópia. Tratava-se portanto da ruína de toda a nação judaica, na qual a
própria rainha tinha a sua origem. Ele suplicava que ela não temesse humilhar-
se a ponto de se prostrar aos pés do rei para suplicar-lhe graça, pois somente
ela o podia fazer. Além disso, Hamã, ao qual ninguém igualava em prestígio e
em autoridade, fazia continuamente crescer a irritação do rei contra eles. A
rainha respondeu que a menos que o rei solicitasse não podia ir ter com ele,
sob pena de perder a vida, caso ele não a tocasse com a vara de ouro que tinha
na mão.
Mardoqueu então rogou ao eunuco que dissesse à rainha que ela não
devia, em tal contingência, considerar tanto a sua vida quanto a de sua nação.
Se ela o fizesse, Deus não deixaria de ter cuidado dela, mas se ela fosse
insensível à ruína de seu próprio povo, Ele mesmo a castigaria, destruindo-a
com toda a nação. A rainha, comovida por essas palavras, mandou dizer-lhe
pelo mesmo eunuco que reunisse todos os judeus que estavam em Susã e
ordenasse um jejum de três dias e que fizessem orações a Deus em favor dela.
Ela faria o mesmo com as outras mulheres e iria em seguida falar com o rei sem
ser chamada, o que talvez lhe custasse a vida.
Mardoqueu executou a ordem e durante o jejum rogou a Deus que não
permitisse a destruição de seu povo, mas o ajudasse naquela ocasião, tal como
fizera tantas outras vezes, que lhes perdoasse os pecados e que os livrasse de
tão grave perigo, pois nele não se haviam metido por culpa própria. Disse ainda:
Vós sabeis, meu Deus, que a cólera de Hamã, que jurou a nossa ruína, provém
de eu não ter querido violar as vossas santas leis, prostrando-me diante dele
para lhe prestar uma homenagem que somente a vós é devida.
Essa fervorosa oração foi acompanhada por todo o povo, que pedia a Deus
com não menor ardor que os ajudasse naquela grave contingência. A rainha,
por seu lado, em vestes de luto, passou esses três dias prostrada por terra, sem
comer nem beber e sem cuidar de sua pessoa. Ela pedia a Deus, sem cessar,
que tivesse compaixão dela, pondo-lhe na boca o que devia dizer ao rei e
tornando-a mais agradável aos seus olhos do que nunca, a fim de que, em tal
perigo, pudesse não somente atrair a sua clemência sobre ela e sobre os de sua
nação, mas fazer ele voltar a sua cólera contra os inimigos, de modo que
caíssem na mesma desgraça em que os queriam precipitar.
Ester 5. Depois de assim orar durante três dias, ela tirou as vestes tristes
e revestiu-se de outras, magnificamente ricas, às quais ajuntou os ornamentos
com os quais se podem enfeitar uma grande rainha. Foi em seguida falar com o
rei, acompanhada somente por suas damas, sobre uma das quais se apoiava,
enquanto outra sustentava a cauda de suas vestes, cujas dobras pareciam
flutuar sobre o pavimento. Via-se um modesto rubor tingir as suas faces, e a
majestade e a beleza resplandeciam igualmente em seu temor. Quando ela viu o
soberano assentado no trono resplandecente de pedras e jóias a contemplá-la,
quem sabe, de maneira pouco favorável, ficou tomada de tanto medo que as
forças quase lhe faltaram, e ela teve de se apoiar na mulher que vinha ao seu
lado.
O rei, cujo coração Deus sem dúvida tocou naquele momento, temeu
tanto por ela que desceu apressadamente do trono e a tomou nos braços. E,
com palavras repassadas de amor e ternura, disse-lhe que nada temesse por ter
vindo sem ser chamada, porque aquela lei havia sido feita somente para os seus
súditos, e não para ela, que com ele partilhava a coroa e por isso estava acima
de todas as leis. Depois de assim falar, ele pôs-lhe o cetro na mão e, para
tranqüilizá-la completamente e não transgredir a lei, tocou-a docemente com a
vara de ouro.
Então a virtuosa rainha voltou a si, tomou ânimo e falou deste modo:
Não vos posso dar outra razão do desfalecimento que de mim se apoderou
senão a grande surpresa de ver-vos cheio de glória, de beleza e de majestade e
ao mesmo tempo tão temível. Não sei o que se passou comigo. Ela pronunciou
essas poucas palavras com uma voz tão fraca que a apreensão do rei
aumentou, e ele tudo fez para tranqüilizá-la, garantindo que concederia
qualquer favor que ela pedisse: ainda que fosse metade de seu reino, lhe daria
com prazer. Ela respondeu que o único favor que almejava era obter
consentimento para cear com ele no dia seguinte, e que ele levasse também
Hamã. Ele o concedeu de boa mente. E, quando se puseram à mesa, ele insistiu
em que ela dissesse o que desejava, asseverando-lhe ainda que nada havia que
ele não lhe concedesse com prazer, mesmo que fosse uma parte de seu reino.
Ela suplicou que o seu pedido fosse protelado até o dia seguinte e que ele lhe
concedesse ainda a honra de vir novamente cear com ela, trazendo Hamã em
sua companhia. Isso ela também obteve facilmente.
Hamã estava muito satisfeito ao sair do banquete, pela honra insigne que
a rainha lhe concedia, escolhendo a ele somente para ter a honra de comer com
ela à mesa do rei. Contudo, encontrando Mardoqueu no palácio, ficou fora de si
pela cólera, ao constatar que ele continuava a não se prostrar diante dele.
Quando voltou ao seu aposento, contou à sua mulher, de nome Zeres, e aos
seus amigos o favor singular que o rei e a rainha lhe haviam concedido,
convidando a ele somente para sentar-se à sua mesa e repetindo o convite
também para o dia seguinte. Porém ele acrescentou: Como poderia eu estar
plenamente satisfeito, tendo encontrado Mardoqueu, o judeu, no palácio, que
tem a ousadia de me desprezar? Sua mulher respondeu-lhe que, para livrar-se
dele, devia mandar erguer uma forca de cinqüenta côvados de altura e pedir ao
rei licença para nela pendurar Mardoqueu no dia seguinte. Ele aprovou o
conselho e mandou erguer a forca em sua casa, o que foi feito.
Ester 6. Deus, que via o que estava para acontecer, zombou de sua
detestável esperança. Para confundir os seus desígnios, fez com que na noite
seguinte o rei não pudesse dormir e que para empregar utilmente o tempo para
o bem de sua nação mandasse trazer alguns registros, nos quais ele e os seus
predecessores faziam escrever as coisas mais importantes, a fim de lhes
conservar a memória. Ele ordenou ao seu secretário que o lesse e lá encontrou
que se haviam dado muitas terras a um homem para recompensá-lo por uma
ação insigne. Um outro recebera grandes presentes por haver se mostrado fiel, e
Mardoqueu descobrira a conjuração feita pelos eunucos Bigtã e Teres.
O secretário queria continuar a ler, mas o rei o deteve, para saber se
havia menção de alguma recompensa a Mardoqueu por tão grande serviço. O
secretário respondeu que sobre isso nada havia escrito, e o soberano mandou-o
então suspender a leitura. Perguntou em seguida a um dos oficiais da guarda
que horas eram e mandou que fossem ver se havia à porta do palácio algum
daqueles aos quais ele mais estimava. Hamã lá estava, porque viera pedir a
morte de Mardoqueu. O rei mandou chamá-lo e, quando ele entrou, disse-lhe:
Como estou certo de que ninguém tem mais afeto por mim do que vós, rogo-
vos que me digais o que posso fazer para honrar de maneira digna de mim um
homem ao qual estimo muitíssimo.
Hamã, que sabia que nenhum outro era mais estimado pelo rei, julgou
logo que aquelas palavras se referiam a ele. Assim, persuadido de que as suas
sugestões seriam aceitas e ainda reverteriam em seu favor, respondeu: Se
vossa majestade quer cumular de favores aquele que merece toda a vossa
estima, ordenai que o façam montar sobre um de vossos cavalos vestido à
maneira dos reis e com uma cadeia de ouro e que um daqueles que vossa
majestade mais estima caminhe diante dele por toda a cidade, clamando como
um arauto: E assim que se deve honrar aquele a quem o rei concede os seus
favores.
O rei acolheu com alegria essa sugestão, que Hamã pensava estar dando
em favor de si mesmo, e disse-lhe: Tomai então um de meus cavalos e levai um
de meus mantos de púrpura e uma cadeia de ouro para pôr no judeu
Mardoqueu. E, estando ele assim revestido como acabais de descrever, ide
diante dele, clamando como um arauto o que julgastes conveniente dizer, pois
como não amo ninguém mais do que vós, é justo que sejais o executor do sábio
conselho que me destes para recompensar um homem ao qual sou devedor da
vida.
Hamã não ficou menos surpreendido com essas palavras do que teria
ficado se fosse atingido por um raio. Sendo, porém, obrigado a obedecer a uma
ordem tão clara, saiu do palácio com um cavalo, uma veste de púrpura e uma
cadeia de ouro e foi procurar Mardoqueu. Encontrou-o perto da porta e
ordenou-lhe que tomasse as vestes reais, a cadeia e montasse no cavalo.
Mardoqueu, que não tinha a menor idéia do que se passava e do que o levava a
falar daquele modo, pensou que Hamã estava zombando dele e respondeu:
Homem mau, o mais perverso de todos os homens! É assim que zombais de
nossa infelicidade? Mas, quando ele soube que o rei o honrava com aquele
favor em consideração ao serviço que lhe prestara, vestiu os trajes reais, pôs a
cadeia, montou no cavalo e assim percorreu a cidade, levado por Hamã, que
clamava diante dele: É assim que se deve fazer àquele a quem o rei deseja
honrar.
Mardoqueu saiu em seguida do palácio, e Hamã, coberto de confusão, foi
com lágrimas contar à mulher e aos amigos o que lhe havia acontecido. Eles
disseram que, como parecia visivelmente que Deus ajudava Mardoqueu, ele não
podia mais esperar vingar-se dele. Ainda falavam desse assunto quando dois
eunucos da rainha vieram dizer-lhe que se apressasse para ir ao banquete. Um
deles, de nome Harbona, vendo a forca levantada, perguntou o motivo e soube
que estava preparada para Mardoqueu e que Hamã queria pedir ao rei para o
executar ali.
Ester 7. O rei, no meio do banquete, disse à rainha que lhe pedisse o que
quisesse, pois podia estar certa de o obter. Ela respondeu que o perigo em que
ela e todos os de sua nação se encontravam não lhe permitia falar de outra
coisa e que não tomaria a liberdade de importuná-lo se se tratasse de condená-
los todos a uma dura escravidão, pois tal aflição, por maior que fosse, seria de
algum modo suportável. Tratava-se, porém, de sua inteira destruição e do
extermínio de todo o seu povo, por isso ela não podia, em tão extremo perigo,
deixar de recorrer à sua clemência.
O rei, surpreendido com essas palavras, perguntou-lhe quem havia
concebido aquela trama. Ela respondeu que fora Hamã, o qual, pelo ódio mortal
que tinha aos judeus, deliberara exterminá-los. A surpresa do rei foi tão grande
que ele se levantou da mesa e, muito perturbado, foi para o jardim. Então
Hamã não duvidou mais de que estava perdido. Suplicou à rainha que o
perdoasse e, como naquele momento se inclinava, caiu junto do assento onde
ela estava. O rei entrou e, vendo-o naquela posição, exclamou, ainda mais
irritado: Celerado! O mais pérfido de todos os homens! Quer ainda violar a
rainha?! Essas palavras infundiram tão grande terror no Espírito e no coração
de Hamã que ele nada pôde responder. O eunuco Harbona, que estava
presente, disse ao rei que quando estivera na casa de Hamã, para chamá-lo ao
banquete, vira uma forca de cinqüenta côvados erguida na sua casa e soubera
por um de seus servidores que era destinada a Mardoqueu.
O rei ordenou que Hamã nela fosse enforcado imediatamente, para
castigá-lo com justiça com o mesmo suplício que ele tão injustamente queria
infligir a outro. Nisso eu não saberia admirar suficientemente a sabedoria e o
proceder de Deus, que não somente castigou Hamã como ele merecia, mas
empregou para isso o mesmo expediente de que ele planejara servir-se para se
vingar de seu inimigo. Os maus deveriam aproveitar-se desse exemplo, pois
vemos o mal que eles desejam para os outros cair muitas vezes sobre a cabeça
deles próprios.
Hamã assim veio a perecer, por haver insolentemente abusado da
excessiva afeição com que Artaxerxes o honrava. O soberano deu à rainha o
confisco de todos os seus bens. Sabendo então que Mardoqueu era tio da
princesa, entregou-lhe o anel que antes Hamã usava. A rainha deu-lhe também
todos os bens de Hamã e suplicou ao rei que a tirasse da dúvida em que a
punham as cartas que aquele malvado escrevera em nome do rei a todas as
províncias do império para fazer massacrar todos os judeus num mesmo dia,
pois a morte ser-lhe-ia muito mais doce que sobreviver à ruína de seu povo. O
soberano não teve dificuldade em lhe conceder o que ela pedia. Prometeu
escrever outras cartas como ela o desejasse, selá-las com o seu sinete e enviá-
las a todas as províncias, a fim de que ninguém ousasse desobedecer. Mandou
depois escrever as cartas e endereçá-las aos governadores e magistrados das
cento e vinte e sete províncias do império.
As cartas estavam assim exaradas: O grande rei Artaxerxes, a todos os
governadores de nossas províncias e a todos os nossos oficiais, saudação.
Acontece muitas vezes que aqueles aos quais os reis, por um excesso de
bondade, cumulam de benefícios e de honras deles abusam, não somente
desprezando os seus inferiores, mas se elevando com insolência contra os seus
próprios benfeitores, como se tivessem deliberado abolir toda espécie de
gratidão entre os homens e julgassem poder enganar a Deus e esquivar-se à
justiça. Assim, eles, quando o favor de seus príncipes os constitui em
autoridade no governo de seus Estados, em vez de cuidar somente do bem
público, não temem surpreendê-los pelo excesso de suas inimizades
particulares e nem receiam em oprimir os inocentes com calúnias. E isso não é
apenas uma idéia ou simples suposição ou exemplos passados, mas um crime
que os nossos próprios olhos testemunharam e que nos obriga a no futuro não
prestar fé tão facilmente a qualquer acusação, mas cuidar antes de indagar da
verdade, a fim de castigar severamente os culpados e proteger os inocentes,
julgando de uns e de outros por suas ações, e não pelas palavras. Hamã, filho
de Hamedata, amalequita de nacionalidade e por isso estrangeiro, e não persa,
educado por nós com tal honra que o chamávamos nosso pai, razão pela qual
havíamos ordenado que todos se prostrassem diante dele, e considerado o
primeiro depois de nós, não pôde conservar-se em tanta honra nem guardar
moderação em tão grande prosperidade. Sua ambição levou-o a atentar contra o
nosso país, chegando mesmo a querer persuadir-nos de mandar matar
Mardoqueu, a quem devemos a vida, e a procurar, com os seus artifícios, fazer
a rainha Ester, nossa esposa, correr o mesmo perigo, a fim de que, privando-
nos das pessoas mais queridas, afeiçoadas e fiéis, ele pudesse apoderar-se da
coroa. Como, porém, reconhecemos que os judeus, cuja ruína ele nos fez
decretar, não são culpados, mas, ao contrário, observam uma disciplina muito
santa e adoram ao Deus que nos pôs o cetro nas mãos, tal como nas de nossos
predecessores, e que conserva este império, não nos contentamos em apenas
isentar esse povo do castigo que lhe seria infligido pelas cartas que Hamã nos
persuadiu a escrever, das quais não deveis fazer nenhuma conta, mas
ordenamos que os trateis com muita honra. Assim, para fazer-lhes justiça e
obedecer à vontade de Deus, que nos governa e nos manda castigar os crimes,
mandamos enforcar às portas de Susã esse pérfido homem. Ordenamos que
cópias destas cartas sejam levadas a todas as províncias, a fim de que todos
sejam informados de nossa vontade e deixem viver em paz os judeus na
observância de suas leis, e que eles sejam até mesmo auxiliados na vingança
que lhes permitimos tomar dos ultrajes que sofreram durante esse tempo de
amargura, escolhendo para esse fim o décimo terceiro dia do décimo segundo
mês, de nome adar, em que Deus quer torná-los felizes — o mesmo dia que fora
destinado à sua completa ruína. Quanto a nós, desejamos que esse dia traga
felicidade a todos os que nos são fiéis e seja para sempre um sinal do devido
castigo aos maus. Todas as nações e cidades saberão também que os que
deixarem de obedecer ao determinado nas presentes cartas serão destruídos
pelo ferro e pelo fogo. E, para que ninguém possa duvidar, queremos que elas
sejam publicadas em todas as terras de nosso domínio, a fim de que os judeus
se preparem para a vingança contra os seus inimigos, no dia que
determinamos.
Logo que essas cartas foram escritas, enviaram-se mensageiros a levá-las
por toda parte, com a maior rapidez possível. Mardoqueu, ao mesmo tempo,
saiu do palácio real vestido majestosamente, com uma coroa de ouro na cabeça
e uma cadeia de ouro. Os judeus que estavam em Susã, vendo o grande
prestígio que ele desfrutava, tomavam também parte na sua felicidade. Os
judeus das províncias, para onde as cartas do rei haviam sido levadas,
consideraram-nas, em transportes de alegria, uma luz favorável que lhes
anunciava a libertação, e os seus inimigos sentiram tanto medo do
ressentimento deles que vários se fizeram cir-cuncidar, a fim de não perecer. Os
correios do rei não deixaram de comunicar aos judeus que eles podiam, no
décimo terceiro dia do décimo segundo mês, ao qual chamamos adar, e os
macedônios, distro, vingar-se impunemente dos inimigos. Assim, não havia
príncipe, governador, grande ou magistrado que não prestasse honras aos
judeus, de tanto que eles temiam Mardoqueu.
Quando chegou o dia marcado para a vingança dos judeus, eles mataram,
em Susã, cerca de quinhentos homens. O rei disse-o à rainha e perguntou-lhe
se ela estava satisfeita, porque nada havia que ele não fizesse para contentá-la.
Ela rogou-lhe que prolongasse a vingança até o dia seguinte e mandasse
enforcar os dez filhos de Hamã. Ele a satisfez, e assim, no décimo quarto dia
daquele mesmo mês, os judeus mataram ainda em Susã cerca de trezentos
homens, sem tocar em coisa alguma de seus bens. O número dos que eles
mataram no dia precedente, em todas as outras cidades, foi de setenta e cinco
mil. Empregaram o dia seguinte em regozijar-se com banquetes, e, ainda hoje,
os judeus espalhados por todo o mundo solenizam esse dia e enviam uns aos
outros parte do que é servido nas festas e nos banquetes.
Mardoqueu escreveu a todos os judeus súditos do rei Artaxerxes que
soleni-zassem aqueles dois dias e ordenassem aos seus descendentes fazer o
mesmo, para que fosse conservada a memória daquele fato, pois era muito
justo que, tendo o ódio mortal de Hamã feito com que corressem o grande
perigo de serem exterminados, eles agradecessem a Deus para sempre, não
somente por tê-los salvo do furor de seus inimigos, mas por lhes providenciar
um meio de se vingarem deles. Os judeus deram àquele mesmo dia o nome de
Purim, isto é, dia de conservação, porque eles haviam sido milagrosamente
preservados. O prestígio de Mardoqueu crescia sempre, e o rei o elevou a tal
grau de autoridade que ele governava, sob dependência do soberano, todo o
reino e tinha também todo poder perante a rainha, de modo que a felicidade dos
judeus ia muito além do que eles podiam desejar.
O que acabo de narrar foi o que aconteceu de mais importante à nossa
nação durante o reinado de Artaxerxes.",