Livro 2 Flávio Josefo
Capítulo 8 Flávio Josefo
,
"NADA É MAIS RIDÍCULO QUE ESSA PLURALIDADE DE DEUSES DOS PAGÃOS, NEM TÃO
HORRÍVEL COMO OS VÍCIOS DE QUE ELES ESTÃO DE ACORDO, ESSAS
PRETENSAS DIVINDADES SÃO CAPAZES. OS POETAS, OS ORADORES E OS
EXCELENTES ARTISTAS CONTRIBUÍRAM PRINCIPALMENTE PARA ESTABELECER
ESSA FALSA CRENÇA NO ESPÍRITO DOS POVOS;PORÉM OS MAIS SENSATOS E
SÁBIOS ENTRE OS FILÓSOFOS NÃO A TINHAM.",
"Não quero examinar as leis dos outros povos; nós nos contentamos em
observar as nossas, sem censurar as dos outros; e nem tampouco zombamos
delas, nem maldizemos aquilo que essas nações consideram como deuses,
porque nosso legislador no-lo proibiu, pelo respeito devido a tudo o que traz o
nome de Deus. Mas eu não poderia não responder às coisas de que nos acusam
tão falsamente, embora pareça que este escrito não seja necessário para refutá-
las, porque já o foram por tantas outras. Quem são os mais estimados entre os
gregos por sua sabedoria, que não tenham repreendido os poetas mais célebres
e particularmente os legisladores, por terem feito os povos crer nessa
pluralidade de deuses, nascidos uns dos outros, em tantas maneiras diferentes
e que faziam chegar a tal número como bem lhes parecia e lhes davam, como
aos animais, diversos lugares para morada, uns sobre a terra, outros no mar e
queriam que os mais antigos estivessem acorrentados no inferno. Quanto aos
que eles diziam habitar no céu davam-lhes um pai de nome, mas um tirano de
fato, contra o qual sua mulher, o irmão e a filha nascida do cérebro, tinham
conspirado para expulsá-lo do trono como ele tinha expulsado o pai. Assim os
gregos que sobrepujavam aos outros em sabedoria não podiam zombar dessas
extravagantes e de que os que as apregoavam tão ousadamente queriam fazer
crer que esses deuses, uns eram jovens, outros na flor da idade, e outros,
velhos; que havia toda a espécie de ofícios e profissões entre eles; um era
ferreiro, outro era tecelão, outro, guerreiro, que combatia contra os homens,
outro tocador de harpa, outro, que era hábil no manejo do arco, interessando-
se pelas questões dos homens, vinha combater com eles, recebia ferimentos,
que suportava com impaciência. Mas, o que é ainda horrível, eles atribuem a
esses pretensos deuses e deusas amores e licenciosidades, coisas ridículas de
se imaginar, de que as divindades sejam capazes. Admitem que aquele deus,
que eles representam, tão poderoso, senhor de todos os outros, depois de ter
abusado de mulheres, não teve o poder de impedir que elas ficassem
prisioneiras e que fossem afogadas com os filhos que tivera delas, embora sua
morte o fizesse derramar lágrimas, porque ele era obrigado a ceder às
imposições do destino. Eis ações certamente muito louváveis para deuses,
cometer com tanta imprudência adultérios no céu, que demonstravam invejar
eles os que eram surpreendidos em ações tão infames: e que não podiam fazer
os deuses menores, vendo que esse Júpiter que eles reverenciavam como rei era
tão arrebatado por essa brutal paixão? Que direi também do que eles
demonstravam crer, que alguns desses deuses conduziam os rebanhos dos
homens e os serviam com outras coisas, para disso tirar proveito; outros
estavam encerrados numa prisão como criminosos e amarrados com correntes
de ferro? Outros não têm receio de representar essas falsas divindades como
capazes de temor, de furor, de fraude e de todas as outras paixões mais
condenáveis. Embora representando-os tão imperfeitos, eles tinham persuadido
os povos a lhes oferecerem sacrifícios; julgavam a uns benfeitores, a outros,
malfeitores, e procediam para com eles como o fariam com os homens, pois
procuravam torná-los favoráveis por meio de presentes, na persuasão de que de
outro modo ter-lhes-iam feito muito mal.
Poderemos ser sensatos e não sentir indignação contra os que
envenenaram os espíritos com tão grande impiedade, e não nos admiramos da
loucura daqueles que foram tão simples deixando-se persuadir? Não posso
atribuir-lhes a causa senão ao afeto de legisladores terem tão grande ignorância
da natureza e da grandeza de Deus, que não podendo daí tirar alguma luz para
o governo das repúblicas, eles permitiam aos poetas fazer passar por deuses
sujeitos às paixões dos homens, todos os que eles queriam, e aos oradores
escreverem tratados referentes ao governo das repúblicas, apoiando suas idéias
com a autoridade dos deuses estrangeiros. Os pintores e os escultores muito
também contribuíram para isso entre os gregos, representando essas
divindades segundo seu capricho e, particularmente, os mais hábeis dos
artifícios que para isso empregavam o ouro e o marfim. Aconteceu mesmo que
deixaram de adorar as mais antigas dessas divindades para adorarem novas.
Restabeleceram em sua honra os antigos Templos, e construíram-se outros
novos, segundo a inclinação dos homens a isso os levavam; ao passo que o
culto do verdadeiro Deus deve ser perpétuo e imutável.
Podemos com razão colocar Molom no número desses insensatos, que se
perdem por seu orgulho no desgarramento de suas idéias, mas os verdadeiros
filósofos gregos não ignoravam o que eu disse sobre a essência e a natureza de
Deus. Eles estão de acordo conosco e zombaram dessas ridículas ficções. Por
isso Platão não admite poeta na sua república e exclui o mesmo Homero, com
quem depois reconcilia, presta-lhe honra, coroando-o de louros, aspergindo-o
com perfumes para que não destrua, por meio de suas fábulas, a idéia que se
deve ter de Deus e lhe não arrebate a glória que lhe é devida. Esse grande
personagem também imitou a Moisés, ordenando expressamente aos cidadãos
da república, dos quais formou a imagem, que aprendessem com grande
cuidado as leis que lhes dá, de medo que a elas se misture algo de estrangeiro,
que lhe corrompa a pureza e lhes impeça a duração.
Molom não considera nenhuma dessas razões. Ele nos acusa
ousadamente de não recebermos os que têm opinião e maneira de viver
completamente contrárias às nossas, embora nada façamos do que os gregos
fazem, e mais que nenhum outro dos que passam entre eles pelos mais
prudentes. Os lacedemônios não recebiam estrangeiros e proibiam aos seus
cidadãos viajar, de medo que suas relações com outros povos enfraquecessem
em seu espírito o vigor da disciplina. Nisso poderíamos com justiça acusá-los de
serem demasiado severos e podemos passar, parece-me, por mais bondosos e
humanos, pois ainda que não tenhamos motivo de invejar leis e costumes de
outras nações, não fazemos dificuldade em receber os que querem se instruir
nos nossos.
Mas, deixando os lacedemônios, Molom mostra ignorar os sentimentos
dos atenienses, que ao contrário dos lacedemônios, se vangloriam de que a
entrada em suas cidade está aberta a todos e castigam com a morte os que
ousam dizer, com relação aos deuses, a mínima palavra, a mais do que está
exarado em suas leis. Não foi por esse motivo que eles fizeram Sócrates morrer?
Tinha ele conspiração com os inimigos contra a pátria, ou querido profanar os
Templos? Seu único crime foi ter usado de um novo juramento e ter dito
iradamente ou por gracejo, que uma divindade lhe havia revelado o que ele
devia fazer. Julga-se que o acusaram também de ter corrompido o espírito da
juventude, inspirando-lhes o desprezo pelas leis e pelos costumes de seu país e
cidadão de Atenas, como ele era, uma dessas coisas ou todas as duas, ao
mesmo tempo, custaram-lhe a vida, sendo obrigado a beber cicuta.
Esses mesmos atenienses não condenaram também à morte Anaxágoras
de Clazomende, porque ele julgava que o sol era um deus, da forma de uma
pedra redonda, toda inflamada, que rodava sem cessar? Prometeram também
um talento a quem lhes trouxesse a cabeça de Diágoras Meliano, porque ele
fora acusado de ter zombado de seus mistérios; teriam feito morrer Pitágoras se
ele não tivesse fugido, porque julgava-se que ele era autor de um escrito em que
punha dúvidas sobre seus deuses. Mas admirar-nos-emos de que eles tenham
tratado tão cruelmente os homens, quando fizeram morrer uma sacerdotisa,
acusada de adorar deuses estrangeiros e ordenaram por meio de um édito a
mesma pena contra os que tentassem introduzir uma nova crença? Está claro
que eles não reconhecem por seus deuses os que as outras nações adoram, pois
que do contrário não teriam querido se privar do auxílio que deles teriam
podido esperar.
Os citas mesmos, tão cruéis que não sentem maior prazer do que
derramar sangue humano e não diferem quase nada dos animais selvagens, os
mais ferozes, não deixam de ser tão ciosos da observância de seus mistérios,
que mataram Anacárcis, tão admirado pelos gregos pela sua grande sabedoria,
porque ao seu regresso ele parecia compenetrado de respeito pelos deuses que
lá são adorados.
Não vemos também que entre os persas muitos sofreram grandes
tormentos pelo mesmo motivo? Ora, todos sabem que Molom aprecia muito as
leis dos persas e admira, como os gregos, a uniformidade de seus sentimentos
com relação aos deuses e a constância invencível que eles demonstraram
quando lhes queimaram os Templos. Mas ele não os estima somente, ele os
imita, ultrajando as mulheres dos outros e fazendo em pedaços seus filhos,
crimes que entre nós mereceriam a pena de morte, se os cometêssemos, ainda
mesmo contra os irracionais.",