Livro 2 Flávio Josefo
Capítulo 7 Flávio Josefo
,
"CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO ANTERIOR, ONDE TAMBÉM FALAMOS DOS
SENTIMENTOS QUE OS JUDEUS TÊM DA GRANDEZA DE DEUS E DO QUE ELES
SOFRERAM PARA NÃO FALTAR À OBSERVÂNCIA DE SUAS LEIS.",
"Entre outros preceitos de nossa religião e que todos nós conhecemos, ela
nos obriga a crer que Deus compreende tudo em si; que nada falta à sua
perfeição, nem à sua felicidade, que Ele é bastante a si mesmo e a todas as
criaturas, que Ele é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas, que Ele opera
em todas as nossas ações e nossas boas obras, que nada é mais visível do que
seu poder, mas sua forma e sua grandeza são incompreensíveis; que tudo o que
há de mais rico, e de mais excelente no mundo é incapaz de o representar e é
desprezível em comparação à sua glória; que não somente nossos olhos nada
podem ver que lhe seja semelhante, mas nosso espírito nada pode imaginar que
se lhe aproxime e nós o conhecemos apenas por meio de suas obras, quando
consideramos a luz, o céu, o sol, a lua, a terra, o mar, os rios, os animais e as
plantas, que são obra de suas mãos, sem que Ele tenha tido necessidade para
criá-los, nem de trabalhar, nem de ser ajudado por quem quer que seja, sendo
sua única vontade suficiente para lhes dar o ser, no momento em que Ele assim
quis. É, pois, a Ele que todos os homens são obrigados a adorar e a servir,
praticando a virtude, que é o único meio de agradá-lo.
Como há somente um Deus e um mundo conhecido a todos os homens,
nós não temos senão um único templo e essa conformidade é-lhe agradável. E
nesse templo que nossos sacerdotes adoram sua Eterna Majestade. Aquele que
ocupa entre eles o primeiro lugar oferecer-lhe, antes de todos os outros,
sacrifícios, vigia pela observância de suas leis, castiga os que são culpados de
sua violação, julga as questões e todo aquele que desobedece é castigado como
se tivesse desobedecido ao mesmo Deus.
Comemos a carne das vítimas que imolamos, não para que nos façam
proveito e tenhamos prazer, o que atrairia sobre nós a cólera de Deus, que ama
a sobriedade e a temperança.
Começamos nossos sacrifícios por pedir o bem geral do mundo e depois,
por nós mesmos, como fazem parte desse todo, sabendo que nada agrada mais
a Deus que o liame de um afeto mútuo que nos une a todos.
Os votos e as orações que lhes oferecemos não têm por objetivo pedir-lhe
bens; Ele o faz voluntariamente a todos; e a terra está cheia de seus benefícios,
mas é para rogar-lhe a graça de bem usarmos de todos eles.
Antes de oferecermos os sacrifícios a lei nos obriga a nos purificarmos,
sepa-rando-nos por alguns dias da companhia de nossas esposas, e observando
outras coisas que seria mui longo enumerar.
Foi assim que Moisés ordenou vivermos para nos tornarmos agradáveis a
Deus, que é Ele mesmo a nossa lei. Quanto ao que se refere ao casamento, dele
podemos usar para ter filhos, mas todo comércio que viola as leis da natureza
nos é proibido, sob pena de morte.
A lei quer também que no casamento nossa intenção seja tão pura que
consideremos o bem e que longe de mantermos mulheres, não usemos do
menor artifício para persuadi-las a nos desposar. Devemos recebê-las das mãos
daqueles que têm o poder de no-las dar e com o consentimento dos pais. A
mulher deve estar sujeita, em todas as coisas, ao seu marido, embora ela seja
mais virtuosa do que ele, porque Deus lhe deu esse poder sobre ela, mas ele
disso não deve abusar. A mulher só deve ter relações com seu marido e se a
isso faltar, será castigada com a pena de morte.* A lei proíbe também, sob pena
de morte, fazer violência a uma jovem prometida a outro e cometer adultério
com uma mulher casada e com aquela que amamenta filhos, e proíbe às
mulheres, sob o mesmo castigo, suprimir os filhos, que traem ao mundo ou
fazê-los morrer em seu seio, porque é matar uma alma, sacrificando um corpo e
diminuir o número dos homens.
* O intérprete latino e Genebrad tomaram mal esta passagem, atribuindo
ao homem o que se diz da mulher.
Por menor que seja a impureza em que se tenha caído, não se poderia
oferecer o sacrifício e as mulheres são mesmo obrigadas a se lavar depois de
terem tido a companhia de seus maridos, por causa da comunicação que a
alma tem com o corpo.
A lei não permite mesmo no dia em que se soleniza o nascimento das
crianças fazer festas, de receio de se dar motivo a embriaguez e para ensiná-las
desde então a serem sóbrias. Ela quer que sejam instruídas, desde tenra idade,
nas letras e no conhecimento de nossas leis e que lhes ensinemos os grandes
feitos dos nossos antepassados, a fim de animá-los à sua imitação e tirar-lhes
todo pretexto de faltar, por ignorância.
A sabedoria dessa lei tão santa chega a se interessar até mesmo pelos
funerais dos defuntos; ela lhes modera a suntuosidade, como também a dos
sepulcros, mas ordena aos domésticos que cuidem das homenagens de seus
amos, com ordem de se purificarem depois de se terem aproximado de seus
corpos mortos e permite aos parentes dos falecidos chorá-los e lamentá-los,
porque isso é um dever de piedade, que não se poderia com justiça negar à
natureza.
Se alguém cometeu um assassínio, voluntária ou involuntariamente, a
mesma lei ordena-lhe o castigo.
Ela manda dar, depois de Deus, toda espécie de honra aos pais e às mães;
determina que aqueles que a isso faltarem sejam apedrejados; que os moços
respeitem os velhos, porque nada é tão antigo como Deus. Quer também que os
amigos, juntos, vivam com grande sinceridade de coração, porque não pode
haver amizade onde não há confiança. Mas se acontecer que sua amizade se
desfizer ela proíbe expressamente revelar os segredos que haviam sido
revelados durante a amizade. Se um árbitro recebe presentes, ela o condena à
morte, porque ele calcou aos pés a justiça.
Trata como culpados os que podendo ajudar o próximo não o fazem;
proíbe tomar o que pertence a outrem e emprestar com usura.
A sabedoria que reluz em todas essas leis e em outras semelhantes
conserva a união entre nós e creio dever também referir com que prudência
nosso excelente legislador nos ordena como proceder para com os estrangeiros,
para que se veja que nada se pode acrescentar às suas determinações, para nos
impedir de afrouxarmos na observância de nossas leis, pelas nossa relações
com eles ou de faltar à caridade, invejando-lhes a felicidade de segui-las se eles
o desejarem. Ele nos manda então que, no caso de eles desejarem aceitá-la, nós
os recebamos de braços abertos, porque a união entre os homens não consiste
tanto em ser de uma mesma nação, do que em haver conformidade nos
sentimentos e na maneira de viver. Quanto aos estrangeiros que estão somente,
Ele não permite comu-nicarmos-lhes algo de nossos costumes, mas quer que
nos contentemos em ajudá-los no que lhes é necessário. Acrescenta que não
devemos recusar a ninguém o fogo, a água, o alimento, a sepultura e o
conhecimento do caminho que ele deve seguir. Sua bondade estende-se até aos
inimigos, pois proíbe-nos de incendiar seu país, cortar-lhes as árvores
frutíferas, despojar os que morrem na luta e maltratar os prisioneiros,
particularmente as mulheres.
Ele teve tanto cuidado em nos inspirar a humanidade e a doçura, que
quer que a pratiquemos até mesmo com os irracionais. Permite-nos deles
usarmos de maneira legítima, mas proíbe-nos matar os que, sendo domésticos,
nascem em nossas casas, bem como matar os filhotes com as mães dos que nos
é permitido comer. Quer ainda que poupemos aos animais que nos são inimigos
e proíbe matar os que nos ajudam em nossos trabalhos.
Assim vemos que a tudo o que nos pode ser útil a sua sabedoria se
estende; Ele determinou penas contra os transgressores destas leis, mas penas
que em vários casos não são menores que a mesma morte. A elas condena os
que cometem adultério, os que violentam uma moça ou que caem, com uma
pessoa do mesmo sexo, num crime que causa vergonha à natureza, sem
exceção alguma, quer seja livre quer escravo.
Ele determinou também penas contra os que vendem com peso e medidas
falsas, os que usam de fraude de qualquer outro modo e essas penas são muito
maiores que nas outras nações.
Quanto aos que cometerem alguma impiedade para com Deus ou que
ofendem aos próprios genitores, fazem imediatamente. Porém aqueles que
observam religiosamente todas estas leis recebem como recompensa de sua
virtude não somente ouro, prata, ou coroas adornadas de pedrarias, mas
também o que é incomparavelmente mais precioso: o testemunho da própria
consciência e a felicidade de serem amados por Deus, que confirma o que
Moisés, seu servo, predisse, não poder deixar de acontecer; e de tal modo
fortifica-lhes tanto a fé que eles se expõem com alegria à morte para a defesa
dessas santas leis, com a firme esperança de gozar de uma felicidade eterna na
outra vida.
Eu não teria dito o que acabo de dizer se não fosse de todos sabido, que
muitos de nossa nação sofreram tantas e tão grandes perseguições, e com uma
coragem invencível toda sorte de tormentos e a mesma morte, antes que
proferir a mínima palavra contra nossa lei. Mas, quando mesmo isso não fosse
coisa de todos conhecida e que nunca se tivesse ouvido falar de nós, se alguém
dissesse ter lido numa história ou visto num país longínquo, afastado de todo
comércio, um povo que tinha sentimentos religiosos para com Deus e que
observava há muitos séculos tais leis, sem jamais delas se ter afastado, poderia
deixar de se admirar? Não seria o espanto ainda maior, se visse continuamente
em seu país mudanças na religião e nos costumes? Não sabemos que os gregos,
que deliberaram há pouco escrever sobre o governo da república foram tratados
de ridículos, por que propuseram coisas cuja prática é impossível? Não falamos
dos filósofos dessa nação que escreveram sobre esse assunto, antes de Platão,
que tanto eles admiram, como sobrepujando a todos os outros pela pureza dos
costumes pela eloqüência e pela força do raciocínio; não foi ele criticado mesmo
nas suas comédias, por aqueles que afirmavam que o que ele tinha escrito de
política não se podia praticar; entretanto, se considerarmos suas obras
encontraremos que há várias coisas que se referem aos costumes dos outros
povos e ele mesmo confessa que por causa da ignorância do vulgo, ele não se
atreveu a escrever tudo o que sabia da grandeza e da glória de Deus, porque
não o teria podido fazer sem perigo. Mas outros zombam dessas leis propostas
por Platão, como sendo novidades e feitas apenas por passatempo e julgam de
tal modo as de Licurgo, que têm os lacedemônios por felizes por observá-las há
tanto tempo. É, pois, por seu próprio testemunho um sinal de virtude perse-
verar na prática das mesmas leis; e se eles admiram nisso aos lacedemônios,
não deveriam muito mais nos admirar, comparando o pouco de tempo que esse
povo teve de observá-las, com os mais de dois mil anos que nós observamos as
nossas? Podemos ainda acrescentar que eles só praticaram quando se tomaram
livres e depois mesmo, as abandonaram quando a fortuna os abandonou. Nós,
ao contrário, embora ela nos tenha de tal modo perseguido nas diversas
vicissitudes dos dominadores da Ásia e embora oprimidos por males, jamais
delas nos afastamos sem que nos possam acusar de ter considerado nisso
nosso descanso ou prazer, e embora as dificuldades e trabalhos que nos
impuseram tenham sido muito maiores que os dos lacedemônios: pois eles
apenas trabalhavam a terra e desempenhavam diversos ofícios e viviam à
vontade nas aldeias e cidades, bem alimentados e bem vestidos, sem que outra
coisa deles se exigisse que ir à guerra contra os inimigos daqueles que os
haviam sujeitado. Não me detenho, porém, em fazer notar que eles não lhes
permaneceram fiéis, como suas leis os obrigavam, pois tomaram as armas e
passaram para os inimigos. Poder-se-á dizer a mesma coisa de nós? Sei apenas
de duas ou três pessoas que renunciaram às nossas leis, de medo da morte;
não falo da morte no campo da luta, que é fácil de se suportar, mas da morte
cruel, no meio dos tormentos, tão horrível que eu não poderia crer, seja por um
movimento de ódio, que aqueles aos quais estamos sujeitos tenham feito sofrer
a muitos de nossa nação. Estou persuadido de que a isso foram levados, para
ver se havia homens tão apegados à observância de suas leis, que
considerassem como o maior de todos os males fazer ou dizer a mínima coisa
que lhes fosse contrária.
Não há, entretanto, motivo de admiração de que nenhum outro povo se
exponha tão corajosamente como nós à morte, para a defesa de suas leis, pois
não se podem resolver a observar somente coisas que nos parecem leves, como
a simplicidade na bebida e na comida, nos hábitos, a continência e a
observância dos dias de descanso. Devemos perguntar-lhes se no ardor da
peleja, quando eles põem em fuga os inimigos, eles se poderiam resolver a
praticar aquela abstinência de certas carnes, que a lei determina, mas nós
sentimos prazer em prestar essa obediência às nossa leis com firmeza
invencível.
Que Lisímaco, Molom e esses outros filósofos que só escrevem calúnias e
enganam a juventude cessem de nos querer fazer passar pelos piores de todos
os homens.",