Livro 2 Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"INÍCIO DA RESPOSTA DE ÁPIO. RESPOSTA AO QUE ELE DISSE, QUE MOISÉS ERA
EGÍPCIO E A FORMA COMO ELE FALA DA SAÍDA DOS JUDEUS DO EGITO.",
"Mostrei no primeiro livro, ó virtuoso Epafrodita, a antigüidade de nossa
nação, pelo testemunho dos fenícios, dos caldeus, dos egípcios e mesmo dos
gregos, respondendo ao que Manetom, Cheremom e outros escreveram com
tanta falsidade. Resta-me, somente, agora, convencer aqueles que me atacaram
em particular e responder a Ápio, embora eu duvide de que ele o mereça. Uma
parte do que ele disse assemelha-se às fábulas de que falei e o resto é tão
malicioso e tão frio, que não temos necessidade de grande discernimento para
vermos que é obra de um homem ao mesmo tempo ignorante, maldizente e sem
honra. Entretanto, como há muitos que têm também tão pouca inteligência que
se deixam, ao invés, levar mais por semelhantes palavras, do que pelas que
provêm de um grande estudo, e aos quais as maledicências são tão agradáveis
quanto os louvores que se dão à virtude são importunos, julguei-me obrigado a
examinar esse escritor, que me censura tão afoitamente, como seu eu estivesse
sujeito à sua jurisdição, além de que eu espero que muitos hão de gostar, de
ver a malícia dos impostores confundida por aqueles aos quais eles
injustamente ofendem.
As palavras desse escritor são tão confusas que é difícil compreender-se o
que ele quer dizer. Na balbúrdia em que o põem os contra-sensos das suas
mentiras, ora ele fala da saída de nossos antepassados do Egito sem
conformidade com aqueles dos quais eu mostrei a extravagância; ora ele
calunia os judeus que moram em Alexandria e ora censura nossas santas
cerimônias e as outras coisas que se referem à nossa religião.
Penso ter suficientemente demonstrado, no meu primeiro livro, que
nossos avós não eram originários do Egito, nem foram atacados por doenças,
que tenham dado motivo à sua saída desse reino; responderei o mais
brevemente possível ao que Ápio ainda acrescenta. Estas são as suas palavras
no terceiro livro da história dos egípcios: Moisés, como eu ouvi os mais antigos
egípcios narrarem, era de Heliópolis e ele foi causa de que, para se conformar
com a religião no qual tinha sido educado, se começassem a fazer na cidade,
em lugares fechados, as orações que antes se faziam ao ar livre, fora da cidade,
voltando-se sempre para o lado do sol levante; como também de que, em lugar
de pirâmides se fizessem colunas, por cima de certas formas de tanques, nos
quais a sombra caindo, ela girava como o sol.
É assim que fala esse raro gramático, em que as ações de Moisés
convencem de mentira, muito mais do que minhas palavras. Quando este
homem admirável ergueu um tabemáculo em honra de Deus, não lhe deu essa
forma, nem determinou que lhe fosse dado no futuro e Salomão, que mais tarde
construiu o Templo de Jerusalém, não fez também nada de semelhante a essa
imaginação fantástica de Ápio.
Quanto ao que ele acrescenta, que tinha sabido dos antigos, que Moisés
era de Heliópolis e que prestava fé às suas palavras, como se o soubessem
muito bem eu pergunto: jamais houve mentira maior do que essa? Como esses
anciãos que cita poderiam falar com tanta certeza de Moisés, que tinha morrido
muitos séculos antes, pois ele mesmo, embora se julgue tão hábil, não ousaria
falar afirmativamente da pátria de Homero e de Pitágoras, embora ainda há
pouco eles vivessem?
Mas, que relação tem o tempo em que ele diz que Moisés levou os
leprosos, os cegos, os coxos, com o de que falam os outros? Manetom diz que foi
sob o reinado de Temósis que os judeus saíram do Egito, trezentos e noventa e
três anos antes que Danaus fosse exilado para Argos. Lisímaco, ao contrário,
afirma que foi sob o reinado de Bochor, isto é, mil e seiscentos anos antes e
Molom e outros, falam disso, cada qual segundo sua fantasia. Mas Ápio, que se
julga mais digno de fé do que todos eles juntos, afirma ousada e precisamente
que aquela saída do Egito se deu no primeiro ano da sétima Olimpíada, quando
os fenícios fundaram Cartago, o que é uma circunstância que ele nota para que
se acredite no que ele diz, sem perceber que ele desse modo apresenta um meio
fácil de ser acusado de falsidade. Se for preciso referir-se, no que concerne a
essa colônia, ao que os autores fenícios escrevem, seremos obrigados a crer que
o rei Hirão viveu mais de cento e cinqüenta anos antes da fundação de Cartago
e, entretanto, eu demonstrei por meio de escritos dos mesmos fenícios que ele
era amigo de Salomão, que construiu o Templo de Jerusalém e o ajudou
naquele empreendimento, seiscentos e doze anos depois da saída dos judeus do
Egito.
Quanto ao número dos que foram expulsos, Ápio afirma tão falsamente
como Lisímaco que eram cento e dez mil e dá uma razão interessante e digna de
crédito do nome que se deu ao dia de sábado. Depois de ter caminhado — diz
ele -- durante seis dias, vieram-lhe umas úlceras nas virilhas, mas no sétimo
dia ele recobrou a saúde e tendo chegado à Judéia, chamaram-no de sábado,
porque os egípcios dão a essa doença o nome de sabatosim. Poder-se-ia, sem
vontade de rir, ou melhor, de sentir indignação, saber que um autor teve a
desfaçatez de escrever tais sandices? Que probabilidade há de que cento e dez
mil homens fossem todos atacados por esse mal? E se eles eram cegos, coxos e
atacados por outras doenças infecciosas, como ele antes havia afirmado, como
teriam eles podido caminhar somente durante um dia num deserto e como
teriam podido vencer os povos que lhes eram contrários? E possível que todos
tivessem contraído aquela doença? Isso pode acontecer naturalmente a uma tão
grande multidão? Podemos, sem incorrer em absurdo, atribuí-la ao acaso?
Ápio não é admirável quando diz que aqueles cento e dez mil homens
chegaram à Judéia e Moisés, tendo subido ao monte Sinai, que está entre o
Egito e a Arábia, lá ficou oculto durante quarenta dias e depois de ter descido,
deu aos judeus as leis que eles ainda observam? A esse respeito eu pergunto:
como é possível que um número tão grande de pessoas tenha atravessado em
seis dias um deserto tão extenso e tenha passado quarenta, num lugar tão
estéril e tão selvagem, onde não se encontra nem mesmo um pouco de água?
Quanto à razão impertinente que ele dá, com relação ao nome de sábado,
só pode ela proceder de ignorância ou loucura. Pois há uma diferença muito
grande entre as palavras Sabbo e Sabbatom. Sabbatom, em hebreu, significa
repouso, e Sabbo, segundo o que esse autor diz, significa, em egípcio, dor nas
virilhas.
Tais as novas fábulas que Ápio acrescentou às dos outros egípcios, com
relação a Moisés e à saída dos judeus do Egito. Mas devemo-nos admirar de
que ele tenha falado com tanta falsidade de nossos antepassados, dizendo que
eles tinham sua origem do Egito, se ele não tem receio de mentir, no que se
refere a ele, quando tendo nascido em Oásis, no Egito, ele renuncia à sua pátria
e quer passar por alexandrino? Assim, ele tem razão de dar o nome de egípcios
ao que ele odeia, pois que se ele não estivesse persuadido de que os egípcios são
os piores de todos os homens, ele não temeria que o julgassem daquela nação;
os que têm amor ao seu país julgam uma honra ter nele nascido e erguem-se
contra os que querem injustamente diminuir-lhes a reputação. Mas, de
qualquer maneira se considere o que disseram todos esses historiadores, os
egípcios seriam obrigados a ter afeto por nós, quer porque teríamos a mesma
origem que eles, quer porque o que se lhes censura, ser-lhes-ia comum
conosco; mas Ápio, que sabe do ódio que os de Alexandria têm dos judeus que
moram na sua cidade, quis reconhecer a obrigação que lhes devem por lhes ter
dado o direito de burguesia, assacando tantas calúnias contra aqueles aos
quais considera como inimigos, sem perceber que ele não ofende somente aos
que são objeto de sua animosidade, mas geralmente, a todos os judeus,
espalhados pelo mundo.",