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Livro 2 Flávio Josefo

Capítulo 4 Flávio Josefo

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,
"RESPOSTA AO QUE ÁPIO DIZ ANTE A AFIRMAÇÃO DE POSSIDÔNIO E DE APOLÔNIO
MOLOM, QUE OS JUDEUS TINHAM EM SEU TESOURO SAGRADO
UMA CABEÇA DE BURRO TODA DE OURO E A UMA FÁBULA, QUE ELE
INVENTOU, ISTO É, QUE SE ENGORDAVA TODOS OS ANOS NO TEMPLO UM
GREGO, PARA SER SACRIFICADO, AO QUE ELE ACRESCENTA
UMA OUTRA DE SACERDOTE DE APOIO.",
"Penso ter suficientemente respondido ao que Ápio diz contra nós,
referente a Alexandria e não saberia admirar assaz a esquisitice de Possidônio e
de Apolônio Molom, que lhe forneceram a matéria. Esses dois filósofos nos
acusam de não adorar os deuses que as outras nações adoram; dizem mil
mentiras sobre isso mesmo, e não se incomodam em falar de maneira ridícula
de nosso Templo, embora nada seja mais vergonhoso a pessoas livres do que
mentir de qualquer modo que seja, e ainda mais, quando se trata de um lugar
consagrado a Deus, cuja santidade o torna célebre por toda a terra.
Ápio atreveu-se, portanto, a dizer, sob sua afirmativa, que os judeus
tinham em seu tesouro sagrado uma cabeça de burro, toda de ouro e de grande
valor, que eles adoravam e que foi encontrada quando Antioco saqueou o
Templo. Respondo antes de tudo que, mesmo quando essa acusação fosse tão
verdadeira quanto é falsa, não lhe competiria, sendo egípcio, como ele é,
censurar-nos, porque um burro não é mais desprezível do que um bode, um
crocodilo ou um outro animal que os egípcios colocam no número dos seus
deuses. Será possível que ele seja tão cego, que não veja que jamais houve
mentira tão absurda e tão evidente? Todos sabem que nós sempre observamos
as mesmas leis, sem jamais lhes fazermos a menor modificação; entretanto,
quando Jerusalém sofreu as grandes desgraças, às quais todas as cidades do
mundo estão sujeitas, e foi tomada por Teos, por Pompeu, por Crasso e, final-
mente, por Tito, e eles se tornaram possessores do Templo, que encontraram
todos eles, senão uma grande piedade, sobre a qual, não é este o lugar de eu
me estender?
Quando Antioco, violando o direito das gentes, saqueou o Templo, de que
não se havia apoderado pelas leis da guerra, pois dizia ser nosso aliado e nosso
amigo, mas por um fato imprevisto e para satisfazer à sua ambição e avareza,
tudo o que ele encontrou era digno de respeito, como se vê, pela maneira de
como falam vários autores fidedignos, como Políbio Megalopolitano, Estrabão da
Capadócia, Nicolau de Damasco, Castor, o cronógrafo, e Apolodoro, que dizem
que Antioco, tendo necessidade de dinheiro, violou a aliança feita com os
judeus e saqueou o Templo, que estava cheio de riquezas.
Apio deveria ter considerado três coisas, se não fosse tão estúpido como
um asno impudente como um cão, que é um dos deuses de sua nação. Não
prestamos honra alguma aos asnos, nem lhes atribuímos poder algum, como os
egípcios aos crocodilos e às serpentes, que eles adoram, a ponto de acreditar
que os que são devorados por aqueles e picados por estas, devem ser colocados
no número dos bem-aventurados. Os asnos entre nós, como em qualquer outro
lugar civilizado onde se age com raciocínio, só servem para carregar fardos e
outros instrumentos, principalmente para a agricultura e damos-lhes pancadas
quando são preguiçosos ou vêm comer o trigo na eira.
É preciso que Ápio tenha sido bem pouco inteligente para inventar tais
fábulas ou então incapaz de escrever, pois que de tudo o que ele diz com
falsidade contra nós, nada há que nos possa prejudicar. Ele não se contenta
com tantas esquisitices e acrescenta outra fábula, a mais ridícula que se possa
imaginar, e que veio dos gregos — embora falem de piedade, devem saber que
por maior que seja o pecado de profanar um templo, é ainda mais grave supor-
se que os sacerdotes cometem impiedades, em que jamais pensaram. Assim,
para defender um rei sacrílego, ele não teme escrever coisas falsíssimas de nós
e de nosso Templo. Para justificar a perfídia que a necessidade de dinheiro fez
Antíoco cometer contra nossa nação, ele diz que esse soberano encontrou no
Templo um homem num leito, com uma mesa junto dele coberta de iguarias
saborosas tanto de carne como de peixe; que aquele homem, fora de si pelo
espanto, atirou-se aos seus pés e de joelhos rogou-lhe que o libertasse. Antíoco
mandou-o sentar-se e dizer-lhe quem ele era, quem o tinha trazido para ali e
porque era tratado com tanto cuidado e suntuosidade. O homem, então
suspirando e derramando lágrimas, dissera-lhe que era grego de nascimento e
que passando pela Judéia, fora aprisionado, e tinham-no levado para o Templo
e tratado daquele modo, sem se indagar quem ele era; a princípio ele ficara
muito contente, mas em seguida, começara a desconfiar e por fim, uma
estranha aflição invadira-lhe a alma, pois, tendo interrogado aos que o serviam,
soube que o alimentavam daquele modo para observar uma lei inviolável entre
os judeus, que os obrigava a reter todos os anos um grego, para, depois de tê-lo
engordado durante um ano, levá-lo a uma floresta para matá-lo e oferecer-lhe o
corpo em sacrifício, com certas cerimônias, comer sua carne, atirar o resto
numa fossa e protestar com juramento, conservar ódio mortal para com os
gregos; assim, não lhe restava mais que poucos dias de vida; ele rogava então,
pelo respeito que ele tinha para com os deuses dos gregos, que o livrasse do
perigo em que o colocava tão horrível desumanidade.
Esta narração, embora feita apenas por passatempo, com espantosa
desfaçatez, poderia desculpar a Antíoco do sacrilégio, como pretendem aqueles
que a inventaram, em seu favor, pois que não era, segundo eles mesmos, o fim
de livrar aquele grego, que o tinham feito entrar no Templo, mas ele o
encontrou, sem esperar e assim, tal mentira não justifica sua impiedade. Pois
não é somente com as leis dos gregos que as nossas não concordam; são ainda
mais contrárias às dos egípcios e às de outros povos. Haverá algum país, de
onde às vezes os habitantes não viajem para o nosso? Porque os gregos seriam
os únicos de que nós quiséramos todos os anos derramar o sangue, para
renovar tal juramento? Além disso, seria possível que todos os judeus se
reunissem para sacrificar uma vítima, e que a carne de um único homem fosse
suficiente para que todos comessem, como Ápio diz? Como Antíoco não teria
devolvido à Grécia com grande pompa aquele homem de quem não se diz o
nome, a fim de granjear, além da reputação de piedade o afeto dos gregos e
animar em seu favor os outros povos contra os judeus?
A esse respeito, porém, já falamos demais, pois é por meio de coisas
evidentes e não com palavras que devemos confundir os loucos. Todos os que
viram nosso Templo sabem que nós observamos inviolavelmente as leis, que lhe
conservavam a pureza. Tinha ele quatro pórticos, em cada um dos quais
montava-se guarda, como a lei o ordenava. A entrada ao primeiro era permitida
a todos, mesmo aos estrangeiros, exceto às mulheres durante seu incômodo
ordinário. Os judeus, e só eles entravam no segundo e suas mulheres também,
depois de purificadas. Os homens entravam também no terceiro, contanto que
estivessem purificados. Os sacerdotes, revestidos de seus paramentos
sacerdotais, entravam no quarto. E somente o sumo secerdote podia entrar no
Santuário, com aquele hábito tão santo e tão veneráve! que lhe era peculiar.
Todas estas coisas eram ordenadas com tanta piedade, que os sacerdotes só
entravam em determinadas horas. Pela manhã, quando o Templo se abria, os
que deviam sacrificar as vítimas entravam e eram obrigados a lá se encontrar
ao meio-dia, quando se fechava. Não era permitido levar vaso algum e dentro só
havia o altar, a mesa, o turíbulo e o candelabro, todas coisas determinadas pela
lei, e não havia mistérios secretos e jamais se comia ali. Sobre isso nada direi,
de que os olhos de todo o povo não tenham sido testemunhas irrefragáveis.
Embora houvesse quatro raças de sacerdotes, de mais de cinco mil homens
cada uma, todas elas desempenhavam sua função em determinados dias, vez
por vez, o seu ofício no ministério.*
* Há no latim, e não mais se encontra no texto grego, mediante die.
Ao meio-dia eles se reuniam no Templo e uns entregavam as chaves aos
outros, entregavam igualmente todos os vasos, depois de conferidos, sem que
houvesse um só para nele se comer ou beber e era mesmo proibido colocá-lo
sobre o altar, exceto os que serviam para o sacrifício.
Que diremos então de Ápio, que afirmou coisas incríveis e ridículas sem
tê-las examinado antes? Que há de mais vergonhoso a um homem do que nada
referir de verdadeiro? Embora conheça a santidade de nosso Templo, ele não
quis dizer uma palavra sobre isso. Não teve vergonha de fingir aquela aventura
do homem grego aprisionado no Templo, tratado suntuosamente, num lugar
onde não era nem mesmo permitido entrar aos mais ilustres dos judeus, se não
fossem sacerdotes. Como se pode isso chamar, senão de enorme impi-edade e
mentira voluntária, feita com o fim de enganar aos que não se querem dar ao
trabalho de aprofundar a verdade? É assim que se esforçam por nos prejudicar,
por meio de calúnias e Ápio, que se finge de homem de bem, não teme, para nos
tornar ainda mais odiosos, acrescentar a essa ridícula fábula, que aquele grego
tinha também dito que enquanto ele fora conservado prisioneiro no Templo e
tratado magnificamente, os judeus, estando empenhados numa longa guerra
contra os idumeus, um certo Zabida veio de uma cidade da Iduméia, onde era
sacerdote de Apoio, deus dos dórios, procurar os judeus e prometeu entregar-
lhes a estátua daquela divindade e vir ao Templo de Jerusalém contanto que
todos os judeus para lá se dirigissem; que aquele homem encerrou-se em
seguida numa máquina de guerra, em redor da qual havia três ordens de
tochas, que à medida que ele andava faziam-no parecer um astro que rolava por
cima da terra;* que tão surpreendente visão deixou atônitos os judeus, que o
viam vir de longe e que quando sem fazer rumor ele chegou ao Templo, tomou
aquela cabeça de burro, que era de ouro e regressou imediatamente a Dora.
* Aqui termina o latim sobre o qual o precedente foi traduzido, porque se
perdeu o texto grego.
Posso dizer, com verdade, que Ápio não poderia fazer um conto tão
impertinente, sem mostrar que é ele mesmo o maior burro e o mais
desavergonhado mentiroso que jamais existiu, pois aqueles lugares de que ele
fala são imaginários e sua ignorância é tão grande que ele não sabe que a
Iduméia confina com nosso país, perto de Gaza, e não tem nenhuma cidade
com o nome de Dora. Há, porém, um na Fenícia, perto do monte Carmelo, que
tem esse nome, mas não tem relação nenhuma com o que Ápio diz, tão fora de
propósito, estando distante quatro jornadas da Iduméia.
Em que se funda ele também para nos acusar de não reconhecermos
como deuses os que os estrangeiros adoram, pois que ele nos quer persuadir de
que nossos antepassados tinham acreditado facilmente que Apoio vinha a eles,
e que caminhava sobre a terra rodeado de estrelas? Não haviam eles jamais
visto lâmpadas e tochas, eles, que as tinham em tão grande quantidade? Esse
pretenso Apoio podia caminhar através de um país tão povoado sem encontrar
alguém que descobrisse sua esperteza? Teria ele, num tempo de guerra,
encontrado as aldeias e as vilas sem sentinelas? Não falo dos outros absurdos
que encontramos nessa história ridícula. Eu não saberia perguntar como é
possível que as portas do Templo que, tendo sete côvados de altura (4,5
metros), vinte de largura e estando todas cobertas de lâminas de ouro, eram tão
pesadas que se precisavam de duzentos homens para fechá-las, todos os dias,*
e seria um crime deixar abertas, tivessem sido por esse impostor tão facilmente
revestidas de luz e ele tivesse podido sozinho carregar aquela pesada cabeça de
burro de ouro maciço. Eu pergunto também se ele a levou ou se a deu a algum
Ápio, para levá-la a fim de que Antíoco a achasse para dar motivo a este
segundo Ápio de inventar a fábula.
* Deixaram em branco a altura dessas portas porque deve
necessariamente haver no texto grego uma lacuna que Genebrard seguiu,
havendo em um e no outro apenas sete côvados, o que é impossível, porque a
largura dessas portas era de vinte côvados (13 metros) e eram necessários 200
homens para fechá-las.",