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livro II Parte Flávio Josefo

Capítulo 3 Flávio Josefo

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,
"Prefácio de Josefo",
"De todas as guerras que se travaram, quer de cidade contra cidade, quer
de nações contra nações, nosso século ainda não viu outra tão grande, e nós
não sabemos que tenha havido outra semelhante, à que os judeus sustentaram
contra os romanos. Houve, no entanto, pessoas que se dispuseram a escrevê-la,
embora por si mesmos nada soubessem dela, baseando apenas seus
conhecimentos em relações vãs e falsas. Quanto aos que nela tomaram parte,
sua bajulação pelos romanos e seu ódio pelos judeus, fê-los relatar as coisas de
maneira muito diferente, da que de fato eram na realidade. Seus escritos estão
cheios de louvores de uns e de censuras dos outros, sem se preocupar com a
verdade. Foi isso que me fez decidir a escrever, em grego, para satisfação
daqueles que estão sujeitos ao Império Romano, o que escrevi há pouco em
minha língua, para informar as outras nações.
Meu pai chamava-se Matatias, meu nome é Josefo, sou hebreu de
nascimento, sacerdote em Jerusalém. No princípio combati contra os romanos e
a necessidade, por fim, obrigou-me a empreender a carreira das armas.
Quando essa grande guerra começou, o Império Romano era agitado por
questões internas; os mais jovens e os mais exaltados dos judeus, confiando em
suas riquezas e em sua coragem, suscitaram tão grande perturbação no Oriente
para aproveitar dessa ocasião, que povos inteiros tiveram receio de lhes ficar
sujeitos, porque eles tinham chamado em seu auxílio os outros judeus que
habitavam além do Eufrates, a fim de se revoltarem todos juntamente.
Foi depois da morte de Nero que se viu mudar a face do império. A Gália,
vizinha da Itália, sublevou-se. A Alemanha não estava tranqüila; muitos aspira-
vam ao soberano poder; os exércitos desejavam a revolução na esperança de
com isso serem beneficiados. Como todas estas coisas não poderiam deixar de
ser mais importantes, a tristeza que senti por ver que se desvirtuava a verdade
tinha-me já feito tomar cuidado de informar exatamente aos partos, aos
babilônios, mais afastados, entre os árabes, aos judeus que habitam além do
Eufrates e aos atenienses da causa desta guerra; de tudo o que se passou e de
que modo ela terminou; e não posso ainda agora tolerar que os gregos e os
romanos que ali não estavam presentes o ignorem e sejam enganados por esses
historiadores bajuladores que só lhes narram fábulas.
Confesso não poder compreender sua imprudência, quando, para fazer
passar os romanos pelos primeiros de todos os homens, eles queriam rebaixar
os judeus e ajam assim contra sua intenção. Será uma grande glória superar
inimigos pouco temíveis? Ignoram eles as forças poderosas empregadas pelos
romanos nessa guerra, durante o tempo que ela durou e as dificuldades que
suportaram? Não consideram eles que é diminuir a estima do mérito
extraordinário de seus generais diminuir a da resistência que o valor dos
judeus fê-los experimentar na execução de tão difícil empreendimento?
Evitarei bem imitá-los, relevando além da verdade os feitos dos de minha
nação, como eles fizeram com os dos romanos. Farei justiça a uns e a outros,
relatando-os sinceramente; nada afirmarei que não possa provar; não
procurarei outro alívio em minha dor, senão deplorar a ruína da minha pátria.
Mas, o que pode melhor, que o imperador Tito, que teve a direção de toda a
guerra, dela referiu como testemunha, dar a conhecer que nossas divisões
domésticas foram a causa da nossa derrota e que não foi voluntariamente, mas
por culpa daqueles que se tinham tornado nossos tiranos, que os romanos
incendiaram nosso Templo? Esse grande príncipe, não somente teve compaixão
desse pobre povo, vendo-o correr para sua ruína, pela violência daqueles
facciosos, mas ele mesmo, muitas vezes diferiu a tomada da praça, para lhe dar
tempo e ocasião de se arrepender.
Se alguém julgar que meu ressentimento pela infelicidade de meu país
leva-me, contra as leis da história, a acusar fortemente aqueles que lhe foram
autores, que acrescentaram ladroeira pública à sua tirania, devem perdoar-me
e atribuí-lo à minha extrema aflição. Poderia ela ser mais justa, pois entre
tantas cidades sujeitas ao Império Romano não se encontrará uma que como a
nossa, tendo sido elevada a tão alto grau de honra e de glória, tenha caído em
miséria tão espantosa, que não creio que desde a criação do mundo algo se
tenha visto de semelhante. A isso acrescente-se que não é a inimigos externos,
mas a nós mesmos, que devemos atribuir nossas desgraças; como me poderei
conter em tamanha dor? Se, no entanto, se encontrarem pessoas que não se
deixem comover por esta consideração, mas queiram ainda condenar com rigor
um sentimento que me parece tão razoável, poderão ater-se à minha história,
somente nas coisas que eu refiro, e não se incomodar com minhas queixas,
admitindo-as apenas como uma efusão da alma do historiador.
Confesso que muitas vezes censurei, com razão, parece-me, os mais
eloqüentes gregos, porque embora as coisas acontecidas no seu tempo sobre-
pujem de muito as dos séculos que os precederam, contentam-se em julgá-las
sem nada escrever e em censurar os que as escreveram, sem considerar que, se
eles lhe são inferiores em capacidade, têm sobre a vantagem de ter servido o
bem público, com seu trabalho; esses mesmos censores dos outros escrevem o
que se passa entre os sírios e os medas, como tendo sido mal narrado pelos
antigos escritores, embora não lhes sejam menos inferiores, na maneira de bem
escrever do que no intento que tiveram, escrevendo-as. Esses primeiros só refe-
riram e quiseram referir as coisas de que tinham conhecimento e teriam tido
vergonha de falsear a verdade diante daqueles que as tendo visto como eles,
poderiam desmenti-los. Assim, não poderíamos não louvá-los assaz por ter
dado à posteridade o conhecimento do que se passou no seu tempo, que ainda
não tinha aparecido em público; eles devem ser tidos como os mais hábeis, que
em vez de trabalhar sobre as obras de outros e em trocar somente a ordem,
escrevem coisas novas e compõem um corpo de história que somente a eles se
deve. Por mim, posso dizer que, sendo estrangeiro, não houve despesa que eu
não fizesse, nem cuidado que eu não tomasse, para informar os gregos e os
romanos de tudo o que se refere à nossa nação. Os gregos, ao contrário, falam
muito quando se trata de sustentar seus interesses, quer em particular, quer
perante os juizes, mas calam-se quando é preciso reunir com muita dificuldade
tudo o que é necessário para compor uma história verdadeira; e não acham
estranho que aqueles que nenhum conhecimento têm dos feitos dos príncipes e
dos grandes generais e são mui incapazes de os descrever, ousem fazê-lo. Isto
mostra que quanto procuramos a verdade da história tanto os gregos a despre-
zam e disso se descuidam.
Eu poderia dizer qual foi a origem dos judeus, de que maneira saíram do
Egito, por quais províncias vagaram durante longo tempo, as que ocuparam e
como passaram a outras. Mas, além de que isto não se refere a este tempo, eu o
julgaria inútil, pois vários da minha nação já o escreveram, com muito cuidado,
e os gregos traduziram-lhe as obras para sua língua sem se afastar muito da
verdade.
Assim, começarei minha história por onde seus autores e nossos profetas
terminaram as suas. Referirei particularmente, com toda a exatidão que me for
possível, a guerra que se travou no meu tempo e contentar-me-ei em tocar bre-
vemente o que se passou nos séculos precedentes.
Direi de que modo o rei Antíoco Epifânio, depois de ter tomado Jerusalém
e de tê-la possuído durante três anos e meio, de lá foi expulso pelos filhos de
Matatias, hasmoneu. Como a divisão suscitada entre seus sucessores, com
relação à posse do reino, atraiu os romanos sob o comando de Pompeu. Como
Herodes, filho de Antípatro, com o auxílio de Sósio, general do exército romano,
pôs fim à dominação desses príncipes hasmoneus. Como depois da morte de
Herodes, sob o reinado de Augusto, Quintílio Varo, governador da Judéia, o
povo se revoltou. Como no décimo segundo ano do reinado de Nero, começou a
guerra; o que se deu sob Céstio, que comandava as tropas romanas; os
primeiros feitos dos judeus e as praças que eles fortificaram. Como as perdas
sofridas em várias ocasiões por Céstio, fizeram Nero temer pelo êxito de suas
armas e ele as entregou a Vespasiano. Como esse general, acompanhado pelo
mais velho de seus filhos, entrou na Judéia com um grande exército romano;
como um grande número de suas tropas auxiliares foi desbaratada na Galiléia,
como ele tomou algumas cidades dessa província e outras se entregaram a ele.
Referirei também sinceramente, segundo o que vi e constatei com meus
próprios olhos, o proceder dos romanos nas suas guerras, sua ordem e sua
disciplina: a extensão e a natureza da alta e da baixa Galiléia, os limites e as
fronteiras da Judéia, a qualidade da terra, os lagos e as fontes, que aí se
encontram e os males suportados pelas cidades que foram tomadas. Não
deixarei de falar do mesmo modo daqueles que experimentei em minha vida e
que são bem conhecidos.
Direi também como a morte de Nero aconteceu quando Vespasiano se
apressava para marchar contra Jerusalém, os interesses dos judeus estavam já
em péssimo estado e os do império chamaram-no a Roma; os presságios que
teve da sua futura grandeza; as mudanças sucedidas nessa capital do império;
como foi contra sua vontade declarado imperador pelos soldados e como foi ao
Egito para dar as ordens necessárias; como a Judéia foi agitada por novas
perturbações e como surgiram tiranos, uns contra os outros; como Tito à sua
volta do Egito entrou duas vezes naquela província, de que maneira e em que
lugar ele reuniu seu exército, de que modo e quantas vezes ele viu mesmo em
sua presença sucederem-se as sedições em Jerusalém; suas aproximações e
todas as dificuldades que empreendeu para atacar essa praça; qual a torre dos
muros da cidade, sua fortificação e a do Templo; a descrição do mesmo Templo,
suas medidas e as do altar; nisso nada omitirei. Falarei das nossas festas
solenes, das cerimônias que nelas se observam, das sete espécies de
purificação; das funções dos sacerdotes, suas vestes e os do sumo sacerdote; da
santidade desse Templo, sem nada deturpar, sem nada acrescentar. Farei ver
também a crueldade de nossos tiranos contra os da própria nação e a
humanidade dos romanos conosco, que éramos estrangeiros com relação a eles;
quantas vezes Tito fez tudo o que pôde para salvar a cidade e o Templo e reunir
os que estavam tão obstinadamente divididos. Falarei dos muitos e diversos
males suportados pelo povo, que depois de ter sofrido todas as misérias que a
guerra, a carestia e as sedições podem causar, por fim se viu reduzido à
servidão, pela tomada dessa grande e poderosa cidade. Não me esquecerei
também de dizer em que desgraças caíram os desertores da sua nação, a
maneira como o Templo foi queimado, contra a vontade de Tito, a quantidade
de riquezas consagradas a Deus que o fogo destruiu; a destruição completa da
cidade, os prodígios que precederam essa extrema desolação, a escravidão de
nossos tiranos, o grande número daqueles que foram levados cativos e suas
diversas vicissitudes, de que maneira os romanos perseguiram os que
escaparam da guerra e depois de os ter vencido, destruíram completamente as
praças e os lugares para onde eles se haviam retirado. Por fim, falarei da visita
feita por Tito a toda a província para restabelecer a ordem; da sua volta à Itália
e do seu triunfo. Escreverei todas estas coisas em sete livros, divididos em
capítulos, para satisfação das pessoas que amam a verdade e não tenho motivo
de temer que aqueles que tiveram a direção dessa guerra ou que lá se
encontraram presentes, me acusem de ter faltado à sinceridade. Mas é tempo
de começarmos a executar o que prometi.",
"