Livro Único 2 Flávio Josefo
Capítulo 7 Flávio Josefo
,
"A LOUCURA DE CAIO AUMENTA SEMPRE MAIS E ELE QUER SER HONRADO COMO UM DEUS;
IMITA MERCÚRIO, APOLO E MARTE.",
"Mas a loucura de Caio não se deteve. Era pouco para ele igualar-se aos
semideuses; ele queria mesmo igualar-se aos deuses. Começou por querer
passar por Mercúrio. Vestiu-se com roupas parecidas com as dele, tomou nas
mãos um caduceu e calçou botinas com asas. Outra vez, para se parecer com
Apoio, coroou a cabeça com uma auréola resplandecente, pôs uma aljava às
costas, e com flechas na mão esquerda, fazia gestos com a direita, para mostrar
que os favores são preferíveis aos trabalhos.
Instituiu depois danças sagradas nas quais se cantavam hinos em louvor
desse novo deus, que se contentava antes, quando representava Baco, de ser
chamado Evio Lieu e Liber. Muitas vezes, também, quando queria passar por
Marte, tomava um capacete, uma couraça, um escudo e se apresentava com
uma espada desembainhada na mão, acompanhado de homens dispostos a
matar, para acompanhar o furor daquela divindade, que só respira sangue e
crueldade.
Espetáculo tão estranho impressionava vivamente o espírito do povo, que
se não podia assaz admirar de que ele quisesse parecer com os deuses, aos
quais não possuía nenhuma virtude, nem boa qualidade e ousasse usar os
sinais dos bens que eles tinham proporcionado aos homens. Pois, que
representam aqueles sapatos alados de Mercúrio, senão que ele possui a
dignidade de embaixador dos deuses, intérprete de suas vontades, o que seu
nome em grego significa, sendo portador de boas notícias e levando-as com toda
a solicitude, pois que, não somente um deus, mas um homem sensato não se
pode resolver a levar más notícias? O caduceu não indica também que ele é
medianeiro da paz e dos tratados, pois os homens também os usam para os
mesmos fins e de outro modo jamais veríamos terminarem os males que
causam a guerra? Caio, pondo assaz os seus calçados, o fazia para espalhar
mais ainda em todas as províncias do império a fama de seus crimes, que
deveriam, ao invés, serem sepultados num esquecimento perpétuo? Por que
dar-se tanto trabalho, pois que, sem se afastar de seu lugar, ele cometia crimes
infinitos, que jorrando sem cessar daquela detestável fonte, inundavam toda a
terra? Tinha ele necessidade de um caduceu, pois que jamais se via algo em
suas palavras e em suas ações que tivesse a menor aparência de paz, mas, ao
contrário, não havia nem cidades nem províncias, gregas ou bárbaras, às quais
ele não causasse divisão e perturbação. Que esse falso Mercúrio deixe então tal
nome, que lhe é tão pouco conveniente.
Com relação a Apoio, em que se lhe pode ele assemelhar? Será por aquela
coroa resplandecente de raios, como se o sol e a lua fossem mais próprios para
se cometerem crimes, do que as noites mais horríveis e as trevas? Somente as
ações louváveis e virtuosas o dia deve aclarar: as vergonhosas e as infames
devem procurar a escuridão para se ocultarem, no mais profundo dos antros e
das cavernas. Esse fabuloso Apoio também subverteu a ordem da medicina,
pois, quando o verdadeiro Apoio tinha inventado remédios salutares para curar
as doenças, este só empregava venenos próprios para dar a morte. Sua
insaciável ambição animava-o principalmente contra as pessoas da mais alta
nobreza e as mais ricas da Itália, porque ali havia mais ouro e prata que em
todo o resto do mundo, e se Deus o não tivesse libertado desse inimigo do
gênero humano, não teria havido lugar no império que ele não tivesse também
saqueado, destruído e arruinado. Louva-se assim a Apoio, por ter ele não
somente se distinguido na ciência da medicina, mas predito o futuro para o
bem dos homens, que ele impedia, por seus oráculos, de cair nas desgraças de
que estavam ameaçados. Mas os oráculos que Caio proferia só se referiam às
pessoas de condição e às mais ilustres, predizendo confiscações, o exílio e a
morte, que eram únicos favores que se poderiam esperar de sua injustiça, de
sua crueldade e de sua tirania.
Que semelhança tinham então esses dois Apoios? Que vergonha ver que
se cantavam igualmente hinos em louvor de um e do outro, com se fosse um
crime menor dar a um homem vicioso as honras que só se devem a um deus,
como falsificar a moeda que traz a imagem do príncipe?
Nada, porém, é mais surpreendente do que se ver que um homem, cujo
espírito e corpo eram tão efeminados, quisesse atribuir-se a força e a coragem
de Marte e enganar os espectadores, mudando a todo momento de personagem,
como os atores no teatro. Pois, em que se poderia ele assemelhar, não digo a
esse Marte fabuloso, que é apenas um fantasma, mas ao que ele quis
representar, supondo que há um, isto é, uma força generosa e benéfica sempre
pronta a socorrer os oprimidos como a palavra grega Aris, significa, a uma força
que por guerras justas produz uma paz feliz. Esse Marte fabuloso tem dois
nomes, um dos quais significa que ele ama a paz e que restaura a tranqüilidade
pública, e o outro, que ama a guerra e que não poderia deixar de ser
acompanhado de confusão e de perturbação.",