Livro Único 2 Flávio Josefo
Capítulo 6 Flávio Josefo
,
"CAIO QUER SER ADORADO COMO UM SEMIDEUS.",
"Ações tão criminosas, na mente de Caio, eram como outras tantas vitórias
que ele obtivera sobre o que havia de mais ilustre no império. Seu furor tinha
sufocado o brilho da família imperial no sangue do jovem Tibério, seu primo,
que ele devia, ao invés, ter associado ao soberano poder. Sua espantosa
desuma-nidade tinha ofendido a todo o Senado pela morte de Silano, seu sogro,
que lhe era um dos mais belos ornamentos. Sua horrível ingratidão tinha feito
perder a vida a Macrom, que ocupava a primeira linha na ordem dos cavaleiros
e ao qual ele era devedor da grandeza em que se encontrava e à qual fora
elevado.
Julgou, então, que não havendo mais ninguém que se ousasse opor à sua
vontade, ele não se devia somente contentar com as grande honras, que se
costumam dar aos homens, mas podia aspirar às que se devem somente a
Deus, e, diz-se, que para se persuadir a si mesmo de tão grande extravagância,
assim ele raciocinava: Como aqueles que conduzem manadas de bois,
rebanhos de carneiros ou de cabras não são nem bois, nem carneiros, nem
bodes, mas homens de uma natureza infinitamente mais digna e superior à dos
animais, assim, do mesmo modo, os que governam a todos os homens, a todas
as criaturas do mundo, merecem ser considerados como sendo muito mais que
simples homens, e devem ser tidos por deuses.
Depois de ter metido em sua cabeça tão ridícula idéia e de ter tido a
ousadia de assim se declarar, passou aos efeitos práticos, por gradações.
Começou por querer passar por semideus, como Baco, Hércules, Castor e
Pollux. Tritão, Anfiauro, Anfíloco e outros. Mas ele zombava de seus oráculos e
de suas cerimônias, e as tirava deles, para atribuí-las a si mesmo.
Assim, do mesmo modo que os comediantes mudam freqüentemente de
personagem, para representar Hércules, ele tomava uma pele de leão e uma
maçã, adornada de ouro; ora cobria-se com um chapéu semelhante ao de
Castor e de Pollux; ora, para imitar Baco, ele se revestia da pele de uma corça.
Não se parecia, porém, com as mencionadas divindades, porque elas se
contentavam com honras particulares que lhe eram prestadas, sem invejar as
dos outros, e ele queria que lhe prestassem todas juntamente para ter
vantagem sobre elas. Entretanto, o que lhe atraía a multidão de tantos
espectadores não era que ele tivesse três corpos como Geriom; era porque ele se
transformava em tantas figuras diferentes, como Proteu em Homero, mudava-se
em vários elementos, em diversos animais e em diversas plantas.
Mas, Caio! Não é essa vã semelhança com os semideuses que deveis
procurar imitar, mas deveis esforçar-vos para imitar suas ações e suas
virtudes. Hércules, com seus grandiosos feitos, purgava as terras e o mar dos
monstros que perturbavam o sossego dos homens. Baco, que foi o primeiro que
plantou a vinha, dela tirou um líquido tão agradável e tão útil ao corpo e ao
espírito, que os faz esquecer suas penas, os alegra e os fortalece e dele se notam
os efeitos nas danças e nos banquetes, não somente das nações civilizadas,
mas até mesmo entre os bárbaros. Quanto a Castor e a Pollux, dois filhos de
Júpiter, não se diz que um deles, tendo nascido imortal e o outro mortal, o que
tinha tão grande vantagem sobre o irmão, não podendo suportar a dor de ver
morrer uma pessoa que lhe era tão querida, quis igualá-lo e igualar-se a ele,
comunicando-lhe uma parte de sua imortalidade e tornando-lhe ele também
sujeito à morte? Esta é a maior ação de justiça que se possa imaginar. Esses
heróis que foram a admiração de seu século, e são ainda a do nosso, só
receberam honra como deuses, por causa dos benefícios que fizeram aos
homens. Mas, Caio! Que fizestes de semelhante que vos possa dar motivo de
tanto vos glorificardes? Começando, pelo que se refere a Castor e Pollux,
imitastes essa perfeita amizade fraterna, que os torna tão recomendáveis? Vós,
que, sem compaixão da juventude daquele que devia ocupar o lugar de vosso
irmão e com quem a justiça vos obrigava a dividir o império, tão cruelmente
manchastes vossas mãos em seu sangue e mandastes suas irmãs a um longín-
quo exílio, para reinar com mais segurança ainda? Imitastes a Baco,
espalhando como ele a alegria por toda a terra, com uma admirável invenção?
Vós, que só podeis ser considerado como uma peste pública, só encontrais
novas invenções para mudar a alegria em dor e tornar a vida odiosa, quando,
em recompensa de bens infinitos que tendes recebido de todos os lugares do
mundo, vossa insaciável avareza e ambição oprimem os povos sob o peso de
tantos e novos tributos e os obrigam a detestar vossa horrível desumanidade.
Imitais também seus feitos heróicos e as realizações esplêndidas de Hércules,
para restaurar a paz, fazer reinar a justiça, e restabelecer a abundância sobre a
terra e sobre o mar? Vós, que, sendo, ao contrário, tão covarde e o mais tímido
de todos os homens, banis de todas as cidades a ordem, a tranqüilidade e a
felicidade, para introduzir em seu lugar a desordem, a perturbação e todas as
outras misérias? É com essas ações que julgais poder passar por um semideus
e desejais ser imortal, a fim de continuar a praticá-las indefinidamente? Não
há, ao invés, motivo de se crer que, quando mesmo fósseis deus, um proceder
tão detestável vos incluiria nas fileiras dos homens, pois que, se a virtude os
toma imortais, os vícios os tornam mortais?
Deixai, pois, de vos comparardes a Castor e a Pollux, tão célebres por sua
amizade fraterna, depois que não tivestes temor de ser o assassino de vosso
próprio irmão e não pretendais ser honrado como Hércules ou Baco que se
distinguiram por seus benefícios, quando vossas maldades e crimes tornam
inúteis qualquer benemerência.",