Livro Único 2 Flávio Josefo
Capítulo 14 Flávio Josefo
,
"PETRÔNIO MANDA TRABALHAR NA EXECUÇÃO DA ESTÁTUA, MAS
LENTAMENTE; ESFORÇA-SE EM VÃO POR PERSUADIR OS PRINCIPAIS DOS
JUDEUS A RECEBÊ-LA. TODOS ABANDONAM AS CIDADES E OS CAMPOS PARA
IR PROCURÁ-LO E ROGAR-LHE QUE NÃO EXECUTASSE AQUELA ORDEM QUE LHES
ERA MAIS INSUPORTÁVEL QUE A MESMA MORTE, MAS LHE PERMITISSE
MANDAR EMBAIXADORES AO IMPERADOR.",
"Os oficiais romanos que tinham mais relações com Petrônio nos assuntos
da Síria inclinavam-se para a solução da guerra; conheciam o furor de Caio e
não duvidavam de que se se recusassem a cumprir suas ordens, ele
descarregaria imediatamente sobre eles toda a sua cólera, certo de que eles
também tinham tido parte na desobediência. Mas aconteceu, por felicidade, que
tiveram oportunidade de deliberar, enquanto preparavam a estátua, porque ela
não lhes seria mandada da Itália; creio que Deus o permitiu para salvar seu
povo, como também não havia ordem expedida, para tomar na Síria a mais bela
das que lá se encontravam. Sem isso, a guerra já se teria iniciado, antes que se
tivesse podido encontrar algum remédio para tão grave mal.
Petrônio, depois de ter deliberado mandar fazer a estátua, mandou buscar
os mais hábeis escultores da Fenícia, deu-lhes o material e escolheu Sidom
como o lugar mais próprio parta o trabalho. Mandou em seguida os mais
ilustres dos sacerdotes dos judeus e de seus magistrados comunicar-lhes a
vontade do imperador, exortou-os a obedecer, para não serem feridos pelas
desgraças que do contrário lhes seriam inevitáveis, pois as principais forças do
exército da Síria estavam prontas para atacá-los e obrigá-los, se eles se
recusassem a obedecer. Petrônio estava certo de poder persuadi-los e assim
eles persuadiriam o resto do povo, mas enganou-se. Aquelas palavras
impressionaram-nos profundamente e a princípio ficaram petrificados, mas
depois desataram em lágrimas; arrancaram a barba e os cabelos, e disseram
com uma voz intercalada de suspiros: Vivemos então até esta hora para ver o
que nenhum dos nossos antepassados jamais viu? Como poderíamos ver, se
perderemos os olhos com a vida, antes que sermos espectadores de tão horrível
impiedade?
Essa notícia espalhou-se em Jerusalém e em toda a Judéia e todos
deixaram imediatamente as cidades e os campos, como se agissem de comum
acordo, para ir à Fenícia encontrar-se com Petrônio. Aquela inumerável
multidão fez pensar aos que não sabiam como a Judéia era populosa, que era
um grande exército que vinha atacar Petrônio, e deram-lhe imediatamente
aviso; mas suas armas eram apenas gemidos e gritos que faziam reboar o
espaço com tão grande barulho, o qual não cessou nem mesmo quando eles os
retiveram, para se entregar aos rogos que o excesso da dor lhe trazia aos lábios.
Estavam distribuídos em seis grupos, três de um lado, em que estavam os
velhos, os moços e as crianças e três do outro, onde estavam as mulheres
idosas, as senhoras e as virgens.
Quando se aproximaram de Petrônio, que apareceu num lugar elevado,
todos se lançaram por terra soluçando tanto, que nada podia ser mais
comovente; embora ele lhes ordenasse que se levantassem e se aproximassem,
com dificuldade a isso se resolveram. Vieram por fim, com a cabeça coberta de
cinzas, os olhos marejados de lágrimas, e as mãos às costas como condenados
à morte: um dos Senadores falou em nome de todo o povo, a Petrônio, nestes
termos:
Para eliminar todo pretexto, senhor, de nos acusarem de ter alguma má
intenção, nós viemos sem armas, não somente, mas sem nem mesmo nos
querermos servir de nossas mãos, que são armas, dadas pela natureza aos
homens; nós nos apresentamos para que nos trateis como quiserdes. Deixamos
nossas casas desertas, para trazer conosco nossas esposas e filhos, a fim de
unirem suas preces às nossas e rogar ao imperador, por vosso intermédio, ou
que nos conserve a todos, ou que nos faça morrer a todos. Amamos
naturalmente a paz e a ela somos tanto mais inclinados, quanto nosso maior
prazer é educar nossos filhos no trabalho e para isso ela nos dá a oportunidade.
Quando Caio subiu ao trono e nós soubemos por suas cartas a Vitélio, que
então estava em Jerusalém, ao qual vós sucedestes, demonstramos-lhe nossa
alegria e foi por nosso meio que essa notícia se espalhou em todas as outras
cidades. Nosso Templo foi o primeiro onde por esse fim se ofereceram
sacrifícios, para desejar ao nosso soberano um feliz reinado. Seria justo que ele
fosse o único onde se aboliria a religião, que há tanto tempo ali é observada?
Nós abandonamos nossas casas, nossos bens e tudo o que possuímos. A única
coisa que pedimos é que nada se modifique no nosso Templo, mas que ele
permaneça no mesmo estado em que nossos pais no-lo deixaram. Se nos
recusardes esse favor, tirai-nos também, então, a vida; ser-nos-á muito mais
suave perdê-la, do que vermos violar nossas santas leis. Sabemos que se
preparam grandes forças para nos atacar, se nos opusermos a essa ordem, mas
nós não somos tão imprudentes em querer resistir ao nosso soberano.
Sofreremos antes a morte do que conceber tal idéia. Podem nos matar, fazer-
nos em pedaços sem correr perigo, porque não nos defenderemos. Faremos nós
mesmos o ofício de sacerdotes, imolando no Templo como vítimas, nossas
esposas, nossos filhos, nossos irmãos; e depois de termos derramado seu
sangue inocente, derramaremos também o nosso, para misturá-lo com o deles,
matando-nos com nossas próprias mãos; exalaremos nossos últimos suspiros
rogando a Deus que não no-lo impute o crime, pois o fizemos somente para não
faltar ao nosso dever para com o imperador e também à observância de nossas
leis. Mas, antes de chegarmos a esse extremo, nós vos pedimos, senhor, que
nos concedais um pouco de tempo para mandarmos uma embaixada ao
imperador. Talvez obtenhamos dele que não nos perturbe, na honra que
devemos a Deus e no exercício de nossa religião, e não nos reduza à condição
pior do que a das outras nações, a que ele deixa liberdade de viver, segundo
seus antigos costumes e confirme os decretos de Augusto e de Tibério, seus
predecessores, que bem longe de censurar nosso proceder e de encontrar algo
de prejudicial em nossos costumes, aprovaram-nos inteiramente. Talvez nossas
palavras e razões aplaquem sua cólera; a ira dos príncipes passa e sua vontade
nem sempre é a mesma. Foi por meio de calúnias que atraíram a ira do
imperador contra nós; permiti-nos, por favor, que nos justifiquemos,
mostrando-lhe toda a verdade; e que haveria de mais rude do que condenar-nos
sem nos ouvir antes? Se nada pudermos obter dele, quem lhe impedirá de fazer
então o que ele agora pretende? Mas não nos tireis, senhor, pela recusa, essa
permissão, a única esperança que nos resta e a tão grande multidão de pessoas
que só vos pedem esse favor, por um sentimento de piedade, que é verdade, que
nenhum outro interesse, pode ser tão grande como o que se refere à própria
salvação.",