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Livro Vigesimo Flávio Josefo

Capítulo 8 Flávio Josefo

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,
"ALBINO SUCEDE A FESTO NO GOVERNO DAJUDÉIA E O REIAGRIPA DÁ E TIRA
DIVERSAS VEZES O SUMO SACERDÓCIO. ANANO, SUMO SACERDOTE, MANDA
MATAR TIAGO. AGRIPA ENGRANDECE E EMBELEZA A CIDADE DE CESARÉIA
DE FILIPE E A CHAMA NERONIANA. GRAÇAS QUE ELE CONCEDE AOS LEVITAS.
RELAÇÃO DE TODOS OS SUMOS SACERDOTES DESDE AARÃO.",
"856. Morrendo Festo, Nero deu o governo da Judéia a Albino e o rei
Agripa tirou o sumo sacerdócio de José para dá-lo a Anano. Anano, o pai, foi
considerado como um dos homens mais felizes do mundo, pios gozou quanto
quis dessa grande dignidade e teve cinco filhos que a possuíram também depois
dele; o que jamais aconteceu a qualquer outro. Anano, um dos de que nós
falamos agora, era homem ousado e empreendedor, da seita dos saduceus, que,
como dissemos, são os mais severos de todos judeus e os mais rigorosos nos
julgamentos. Ele aproveitou o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não
tinha chegado, para reunir um conselho, diante do qual fez comparecer Tiago,
irmão de Jesus, chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem
desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento. Esse ato desagradou
muito a todos os habitantes de Jerusalém, que eram piedosos e tinham verda-
deiro amor pela observância de nossas leis. Mandaram secretamente pedir ao
rei Agripa que ordenasse a Anano, nada mais fazer de semelhante, pois o que
ele fizera, não se podia desculpar. Alguns deles foram à presença de Albino, que
então tinha partido de Alexandria, para informá-lo do que se havia passado e
dizer-lhe que Anano não podia nem devia ter reunido aquele conselho sem sua
licença. Ele aceitou estas desculpas e escreveu a Anano, encoleriza-do,
ameaçando mandar castigá-lo. Agripa, vendo-o tão irritado, tirou-lhe o sumo
sacerdócio, que exercera somente durante quatro meses, e a deu a Jesus, filho
de Daneu.
857. Quando Albino chegou a Jerusalém, empregou todo o seu cuidado
em restituir a calma à província pela morte de uma grande parte dos ladrões.
Nesse mesmo tempo, Ananias, que era um sacerdote de mérito, conquistava o
coração de todos. Não havia quem não o honrasse pela sua liberalidade; não se
passava um dia sem que ele não desse presentes a Albino e ao sumo sacerdote.
Mas ele tinha servos tão maus que iam pelas granjas com outros que não eram
melhores do que eles, tomar à força as décimas, que pertenciam aos sacerdotes
e batiam nos que se recusavam dá-las. Outros faziam também a mesma coisa;
assim, os sacerdotes, que não tinham outro meio de vida, achavam-se
reduzidos aos extremos, sem que ninguém se resolvesse dar um remédio a isso.
Durante uma festa, esses assassinos de que acabamos de falar, entraram
à noite na cidade e prenderam o secretário de um oficial do exército, que era
filho do sacerdote Ananias, amarraram-no, levaram-no e mandaram dizer ao
pai dele que o soltariam, desde que obtivesse de Albino a liberdade de dez dos
seus companheiros, que estavam presos. Esse plano deu resultado. Albino,
vendo a necessidade em que Ananias se encontrava de lhe fazer esse pedido,
concedeu-lho; isso foi causa de muitos males, porque os ladrões sempre
encontravam novos meios de apanhar parentes de Ananias e só os restituíam
com semelhantes trocas. Assim, seu número cresceu ainda mais, sua ousadia
aumentou também na mesma proporção e mil males eles causavam a toda a
província.
858. O rei Agripa aumentou a cidade de Cesaréia de Felipe e a chamou
de Neroniana, em homenagem a Nero. Mandou também construir em Berita um
magnífico teatro, onde dava todos os anos espetáculos ao povo; mandou
distribuir trigo e óleo aos habitantes, e, para embelezar a cidade, mandou levar
a maior parte de tudo o que havia de mais raro no resto de seu reino, para lá;
bem como uma grande quantidade de excelentes estátuas dos maiores
personagens da antigüidade. Tal magnificência tornou-o odioso aos seus
súditos, porque eles não podiam tolerar que ele despojasse suas cidades dos
seus mais belos ornamentos, para embelezar uma cidade estrangeira.
859. Ele tirou ainda o sumo sacerdócio de Jesus, filho de Daneu, para
dá-lo Jesus, filho de Gamaliel. Mas como ele não a deixou de boa vontade,
produziu-se entre eles uma grande divergência. Eles faziam-se acompanhar de
homens armados, chegavam freqüentemente às injúrias e das injúrias, aos
fatos.
860. Ananias continuava a ser o mais ilustre dos sacerdotes, quer por
suas grandes riquezas, quer pela sua liberalidade, que lhe granjeava, cada vez
mais, novos amigos.
Costobaro e Saul tinham conseguido um grande número de soldados e,
como eram de sangue real e parentes do rei, tornaram-se ilustres; mas eram
violentos e sempre prontos a oprimir os mais fracos. Foi então que começou a
ruína da nossa nação, pois as coisas iam de mal a pior.
861. Quando Albino soube que Géssio Floro vinha para substituí-lo,
pareceu querer obsequiar os habitantes de Jerusalém. Assim, mandou trazer
todos os prisioneiros, condenou à morte todos os que realmente eram culpados
de crime capital, mandou para a prisão os que lá tinham sido postos por faltas
leves e depois lhes deu a liberdade, a troco de dinheiro. Assim esvaziou as
prisões, e ao mesmo tempo todo o país ficou cheio de ladrões.
862. Os da tribo de Levi, cuja função era cantar hinos em louvor a Deus,
obtiveram do rei Agripa, que determinasse em seu conselho, que eles poderiam
usar a estola de linho, o que só era permitido aos sacerdotes. Disseram-lhe
para isso que, tendo jamais gozado daquela graça, ser-lhe-ia glorioso conceder-
lha. Mas ele permitiu ao mesmo tempo à outra parte da tribo, que era
empregada no serviço do Templo, que também entoasse, como os demais, hinos
e cânticos. Todas essas coisas eram contrárias às nossas leis e jamais foram
violadas sem que Deus lhes desse um severo castigo.
863. As obras do Templo, então, estavam terminadas; assim, dezoito mil
operários que ali eram empregados e pagos pontualmente, ficaram sem
trabalho; os habitantes de Jerusalém, quiseram dar-lhes uma ocupação e um
meio de vida; como eles nada desejavam conservar de todo o sagrado tesouro do
Templo, para que os romanos dele não se apoderassem, propuseram ao rei
Agripa reconstruir a galeria que está do lado do ocidente. Essa galeria estava
fora do Templo, num profundo vale, tão profundo que seus muros tinham
quatrocentas côvados de altura e eram construídos de pedra quadrada, muito
branca, de vinte côvados de comprimento e de seis de grossura sendo ainda
obra de Salomão, que, por primeiro, construíra o Templo. Mas Agripa, ao qual o
imperador Cláudio tinha encarregado de tudo o que se referia às reparações
desse edifício sagrado, considerando a magnitude da empresa, tanto pelo tempo
como pela quantidade de dinheiro que seria necessário empregar-se para isso e
que, as maiores obras se destróem facilmente, não quis dar-lhes
consentimento, mas permitiu-lhes, se o quisessem, mandar pavimentar sua
cidade, com pedras brancas. Tirou em seguida o sumo sacerdócio, a Jesus,
filho da Gamaliel e o deu a Matias, filho de TeóFílon, sob cujo sacerdócio, a
guerra dos judeus começou.
864. A este propósito, julgo conveniente aqui a série dos sumos
sacerdotes, elevados a esta honra até o fim desta a guerra. O primeiro foi Aarão,
irmão de Moisés. Seus filhos sucederam-no e essa grande dignidade sempre
permaneceu na sua família, sem que nenhum outro que não seus
descendentes, nem mesmo reis, tenham sido escolhidos para exercê-lo. Houve
oitenta e três, desde Aarão até Fanazo, que os sediciosos elevaram a esse cargo
e treze dentre eles o tiveram desde o tempo em que Moisés elevou um
Tabernáculo a Deus no deserto até que o povo entrou na Judéia, onde Salomão
construiu o Templo; no começo só se provia a essa dignidade depois da morte
daquele que a exercia; mas, em seguida, foram substituídos, mesmo antes de
morrer. Estes treze, eram todos descendentes dos filhos de Aarão e sucederam-
se uns aos outros. O governo de nossa nação era então, aristocrático. A
autoridade depois foi posta nas mãos de um só. Por fim, passou para a pessoa
dos reis; havia seiscentos e doze anos que nossa nação tinha deixado o Egito,
sob o comando de Moisés, quando Salomão construiu o Templo.
Dezoito outros grandes sacerdotes sucederam a estes treze, durante
quatrocentos e sessenta e seis anos, seis meses e dez dias, que se passaram
sob o reinado dos reis, desde Salomão, até que Nabucodonosor, rei de
Babilônia, depois de ter tomado Jerusalém e incendiado o Templo, levou o povo
escravo para Babilônia e com eles, Josedeque, sumo sacerdote.
Depois do cativeiro de setenta e dois anos, Ciro, rei da Pérsia, permitiu
aos judeus regressar ao seu país, reconstruir o Templo, sendo então Jesus,
filho de Josedeque, sumo sacerdote. Quinze dos seus descendentes, todos
sumos sacerdotes, como ele, durante quatrocentos e quatorze anos governaram
a República, até que o rei Antioco Eupator e Lísias, general de seu exército,
tendo feito morrer Onias, em Beroé, o qual era sumo sacerdote, deram esse
cargo a Jacim, da família de Aarão, não, porém, da mesma família, que o
possuíra antes e dele privaram o filho de Onias, que tinha o seu mesmo nome.
Esse jovem Onias foi para o Egito onde, tendo caído nas boas graças do rei
Ptolomeu e da rainha Cleópatra, sua mulher, permitiram-lhe construir em
Heliópolis, um Templo semelhante ao de Jerusalém, do qual ele foi feito sumo
sacerdote, como já dissemos. Jacim morreu no fim de três anos e o sumo
sacerdócio ficou vago durante sete anos. Quando nossa nação revoltou-se
contra os macedônios e escolheu para príncipe os da família dos asmoneus,*
Jônatas, um deles, foi escolhido com unânime consentimento, para exercer esse
grande cargo. Exerceu-o por sete anos; Trifom fê-lo morrer à traição e Simão,
seu irmão, sucedeu-o. Simão foi assassinado por seu genro num banquete e
Hircano, seu filho, foi elevado àquela honra. Dela ficou de posse, durante trinta
e um anos e morreu em idade muito avançada. Judas, seu filho, cognominado
Aristóbulo, sucedeu-o e foi o primeiro que teve o título de rei. Só reinou um ano
e Alexandre, seu irmão, sucedeu-o no reino e no sumo sacerdócio. Reinou vinte
e sete anos e deixou ao morrer, Alexandra, sua mulher, como regente, com o
poder de estabelecer no cargo de sumo sacerdote, aquele, dos filhos, que bem
quisesse. Ela deu-o a Hircano, que o exerceu durante os nove anos em que ela
reinou, mas depois que ela morreu, Aristóbulo, seu irmão, que era mais moço
do que ele, fez-lhe guerra, venceu-o, obrigou-o a viver vida privada e usurpou-
lhe ao mesmo tempo, o reino e o sumo sacerdócio. Gozou durante três anos de
um e de outro, mas Pompeu, depois de ter tomado Jerusalém, levou-o
prisioneiro a Roma, com seus filhos, e restabeleceu Hircano no cargo de sumo
sacerdote e de príncipe do judeus, sem, todavia, dar-lhe o título de rei. Dele
gozou durante vinte e três anos, além dos nove, de que falamos, mas, no fim
desse tempo, Pacoro e Barzafarnes, generais do exército dos partos, vieram de
além do Eufrates, fizeram-lhe guerra, levaram-no prisioneiro e constituíram rei
dos judeus a Antígono, filho de Aristóbulo. Três anos e três meses depois, esse
príncipe foi aprisionado em Jerusalém, por Herodes e por Sósio que o enviaram
a Antônio, o qual lhe mandou cortar a cabeça em Antioquia.
* Isto não está no grego, pois ali deve estar Judas, e não Jônatas, como se
vê no artigo 491. Mas o que se diz em seguida de Jônatas é verdade, como se vê
nos artigos 525 e529.
Herodes, feito rei pelos romanos, não escolheu mais, para sumos
sacerdotes os da família dos asmoneus, mas honrava indiferentemente com
esse cargo, os mesmos sacerdotes e até outros menos ilustres, exceto quando o
deu a Aristóbulo, neto de Hircano, aprisionado pelos partos e irmão de
Mariana, sua mulher, por causa do afeto que o povo tinha por ele e do respeito
que se conservava pela memória de Hircano. Mas ele via a simpatia que todos
tinham por esse jovem príncipe; começou a sentir medo e, então, fê-lo afogar
em Jerico, da maneira como descrevemos, e não quis mais elevar a essa honra
a nenhum da família dos asmoneus. Arqueiau, filho de Herodes, e os romanos,
que em seguida se tornaram senhores da Judéia, fizeram do mesmo modo.
Assim, durante os cento e sete anos que se passaram desde o começo do reino
de Herodes até o tempo em que Tito incendiou Jerusalém e o Templo, houve
vinte e oito sumos sacerdotes, alguns dos quais exerceram o cargo sob o
reinado de Herodes. Depois da morte deste e de Arqueiau, a maneira de
governar entre os de sua nação tornou-se aristocracia e eram os sumos
sacerdotes que tinham a principal autoridade.",