Livro Vigesimo Flávio Josefo
Capítulo 6 Flávio Josefo
,
"FÉLIX, GOVERNADOR DAJUDÉIA, MANDA ASSASSINAR ELEAZAR, SUMO
SACERDOTE, E OS SEUS ASSASSINOS COMETEM OUTROS CRIMES, ATÉ
MESMO NO TEMPLO. LADRÕES E FALSOS PROFETAS CASTIGADOS. GRANDE
DIVERGÊNCIA ENTRE OS JUDEUS E OS OUTROS HABITANTES DE CESARÉIA.
O REI AGRIPA CONSTITUI ISMAEL SUMO SACERDOTE.
VIOLÊNCIAS DOS SUMOS SACERDOTES.",
"848. Os negócios na Judéia iam de mal a pior. Estava cheia de ladrões e
de magos que enganavam o povo, e não se passava um dia sem que Félix
mandasse castigar alguém. Um dos mais destacados entre os ladrões era
Eleazar, filho de Dineu, que era seguido por um numeroso bando de homens
semelhantes a ele. Félix intimou-o a vir procurá-lo, com promessa de não lhe
fazer mal algum, mas quando ele apareceu, prendeu-o e o enviou a Roma. O
governador odiava Jônatas, sumo sacerdote, porque este o repreendia pelo seu
mau proceder. Então, para que nenhuma censura recaísse sobre ele, porque
fora a seu pedido que o imperador lhe concedera aquele governo, resolveu
desfazer-se de Jônatas, pois nada é mais insuportável aos maus que as
advertências.
Para realizar o seu intento, prometeu uma grande quantia a um certo
Dora, de Jerusalém, a quem Jônatas considerava um amigo íntimo. Esse
homem perverso, para cumprir o acordo de matar Jônatas, assalariou alguns
ladrões. Eles vieram à cidade sob pretexto de devoção, mas com punhais
escondidos sob as vestes, e, misturados aos servidores de Jônatas, mataram-
no. Esses assassinos não foram castigados por esse crime e continuaram a
aparecer do mesmo modo nas festas que aconteceram depois. Misturando-se à
multidão, matavam também aqueles que odiavam ou os que haviam
determinado matar a troco de dinheiro.
Não se contentavam em cometer os assassinatos na cidade, mas
protagonizando uma das mais detestáveis impiedades e um dos mais horríveis
sacrilégios, matavam até no Templo. Quem, portanto, há de se admirar de que
Deus tenha olhado para Jerusalém com vistas de cólera? Sua Casa sagrada
perdera a pureza que a tornava venerável, e Ele então enviou os romanos para
castigar com ferro e fogo a miserável cidade e levar escravizados os seus
habitantes, com as suas mulheres e filhos, de modo que esse terrível castigo
nos faça refletir.
849. Enquanto os ladrões enchiam Jerusalém de crimes, os magos, por
seu lado, enganavam o povo e o levavam ao deserto, prometendo lhe mostrar
milagres e prodígios. Mas Félix castigou-os imediatamente, por sua loucura;
mandou prender e matar a vários. Por esse mesmo tempo veio um homem do
Egito a Jerusalém, que se vangloriava de ser profeta. Persuadiu a um grande
número de pessoas que o seguisse ao monte das Oliveiras, que estava muito
perto da cidade, apenas distante uns cinco estádios e garantiu-lhes que, depois
de ter ele proferido algumas palavras, veriam cair os muros de Jerusalém, sem
que mais fossem necessárias as portas para lá se entrar. Logo que Félix soube
disso, foi atacá-los com um grande número soldados; uns quatrocentos foram
mortos e duzentos feitos prisioneiros, mas o impostor egípcio salvou-se.
O castigo infligido aos ladrões não assustou os que ficaram; continuaram
a excitar o povo a se revoltar contra os romanos, dizendo que não era mais
possível tolerar um jugo tão insuportável, e pilhavam e incendiavam as aldeias
dos que não queriam segui-los.
850. Aconteceu, nesse mesmo tempo, uma grande perturbação em
Cesaréia, entre os judeus e seus habitantes, com relação à precedência. Os
judeus pretendiam-na, porque Herodes, um de seus reis, tinha construído a
cidade: os sírios afirmavam que deviam ser preferidos, porque ela subsistia
desde muito tempo sob o nome de Torre de Estratão, quando ali não havia um
só judeu. Os governadores das províncias tomaram conhecimento dessa
divergência e mandaram vergastar com várias os que nela haviam tomado
parte, de ambos os lados. Mas os judeus, que confiavam nas suas riquezas,
recomeçaram a desprezar e a maltratar com palavras, os sírios. Entre estes,
havia vários de Cesaréia e de Sebaste, que serviam nas tropas romanas, as
quais lhes respondiam insolentemente. Das palavras, passaram às pedradas e
vários foram mesmo mortos, muitos feridos, de parte a parte: os judeus levaram
a melhor. Félix, vendo que essa divergência já havia tomado um aspecto de
guerra, rogou aos judeus que se moderassem; mas, como não lhe obedeciam,
ele mandou soldados contra eles, os quais mataram a muitos e prenderam
também a vários, saquearam, sem que eles pudessem impedir, suas terras e
suas casas, onde encontraram grandes riquezas. Os mais ilustres e os mais
sensatos dos judeus, vendo tão grande desordem, temendo-lhe as
conseqüências, rogaram a Félix que ordenasse aos soldados que se retirassem,
para que os que se tinham deixado levar inconsideradamente pela paixão, refle-
tissem e não continuassem a lutar; e ele concordou.
851. Nesse mesmo tempo o rei Agripa deu o sumo sacerdócio a Ismael,
filho de Fabeu, e os supremos-sacerdotes iniciaram então uma luta com os
sacerdotes ordinários e os chefes de Jerusalém. Todos se faziam acompanhar
por soldados armados, que eram escolhidos entre os mais revoltosos e os mais
obstinados. Começavam por se injuriarem mutuamente, depois passavam às
pedradas, sem que nem se decide separá-los; parecia que não havia
magistrados da cidade que tivessem o poder de impedi-los fazer, com plena
liberdade, tudo o que lhes agradava. A imprudência e a ousadia dos sumos
sacerdotes foi tão longe, que eles mandavam seus homens às granjas, retirar as
décimas que pertenciam aos sacerdotes, alguns dos quais, sendo mui pobres,
morriam de fome; a injustiça era assim espezinhada pela violência desses
facciosos.",