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Livro Vigesimo Flávio Josefo

Capítulo 4 Flávio Josefo

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,
"HORRÍVEL INSOLÊNCIA DE UM SOLDADO DAS TROPAS ROMANAS CAUSA EM
JERUSALÉM A MORTE DE VINTE MIL JUDEUS.
INSOLÊNCIA DE OUTRO SOLDADO.",
"841. Aproximava-se a festa da Páscoa, na qual os judeus só comem pão
sem fermento, e uma grande multidão de povo acorria de todos os lados.
Cumano, para impedir que houvesse alguma desordem, colocou uma
companhia de soldados para montar guarda à porta do Templo, como sempre
fizeram os seus predecessores em semelhantes ocasiões. No quarto dia da festa,
porém, um soldado teve a insolência de pôr a descoberto, diante de todos, o que
o pudor e a educação obrigam a esconder. Tão horrível desfaçatez irritou de tal
modo o povo, que todos começaram a clamar que não era somente aos judeus
que ele injuriava, mas ao próprio Deus, e os mais exaltados começaram a
ofender Cumano, dizendo que fora ele quem mandara o soldado cometer
tamanha impiedade.
Cumano ficou muito ofendido com essas palavras: todavia, não deixou de
exortar o povo a conter a sua exaltação. No entanto, percebendo que eles, em
vez de obedecer, ainda lhe diziam mais injúrias, ordenou a todas as tropas que
se dirigissem com armas à fortaleza Antônia, que, como já dissemos, ficava
sobranceira ao Templo. O povo, então, espantado por ver aproximar-se um tão
grande número de soldados, pôs-se em fuga. Como as ruas eram muito
estreitas e eles, aterrorizados, imaginavam que os soldados os estavam
perseguindo, apertaram-se de tal modo que mais de vinte mil morreram
sufocados. Assim, a alegria dessa grande festa converteu-se em tristeza.
Cessaram as orações. Abandonaram-se os sacrifícios. Ouviam-se apenas
gemidos, lamentos. E a causa de toda essa desolação deveu-se ao impudor
sacrílego de um único homem.
842. Essa tragédia ainda era lamentada quando sobreveio outra
confusão. Alguns dos que haviam fugido, na ocasião do tumulto, encontraram a
cem estádios de Jerusalém um homem de nome Estêvão, que era doméstico do
imperador, assaltaram-no e apoderaram-se de tudo o que ele trazia consigo.
Cumano, logo que soube disso, enviou soldados com ordem de devastar as
aldeias vizinhas e trazer-lhe aprisionados os principais habitantes. Um soldado
encontrou numa dessas aldeias os livros de Moisés e rasgou-os na presença de
todos, proferindo ainda mil ofensas contra as nossas leis e contra a nossa
nação. Os judeus não puderam tolerar tal ofensa e foram em grande número
encontrar-se com Cumano, em Cesaréia, para rogar-lhe que castigasse tão
grande injúria, feita antes ao próprio Deus que a eles. O governador, vendo-os
tão exaltados e temendo uma revolta, a conselho de amigos mandou matar o
soldado que fizera semelhante ultraje às nossas leis e assim acalmou uma
grande perturbação.",