Livro Segundo Flávio Josefo
Capítulo 7 Flávio Josefo
,
OS ISRAELITAS PASSAM O MAR VERMELHO A PÉ ENXUTO. O EXÉRCITO DOS EGÍPCIOS,
QUERENDO PERSEGUI-LOS, NELE PERECE COMPLETAMENTE.",
"100. Depois de assim falar, Moisés conduziu os israelitas pelo mar à vista
dos egípcios, que, por estarem cansados da viagem, haviam adiado o combate
para o dia seguinte. Quando chegou à beira do mar, tendo na mão a vara com a
qual fizera tantos milagres, implorou o socorro de Deus e fez esta ardentíssima
oração: Vós vedes, Senhor, que é humanamente impossível, quer pela força,
quer pela astúcia, escapar de um perigo tão grande como este em que agora nos
encontramos. Somente vós podereis salvar este povo, que saiu do Egito apenas
para vos obedecer. A nossa única esperança está em vosso auxílio. Somente vós
podeis ser o nosso refúgio em tão extrema conjuntura. E podeis, se quiserdes,
defender-nos contra o furor dos egípcios. Apressai-vos, pois, Deus Todo-podero-
so, em estender o vosso braço em nosso favor e erguei o ânimo e a esperança de
vosso povo, que se encontra em desalento e desespero. Este mar e estes roche-
dos que nos cercam e se opõem à nossa passagem são obra de vossas mãos.
Ordenai, apenas, Senhor, e obedecerão à vossa ordem, e podeis até mesmo, se
quiserdes, fazer-nos voar pelos ares.
Esse admirável guia do povo de Deus, depois de encerrar a sua oração,
tocou o mar com a sua maravilhosa vara, e no mesmo instante este se dividiu,
para deixar os hebreus passar livremente, atravessando-o a pé enxuto, como se
estivessem andando em terra firme. Moisés, ao ver essa manifestação do auxílio
divino, entrou por primeiro no espaço aberto e ordenou aos israelitas que o
seguissem por aquele caminho que o Todo-poderoso, contra a ordem da
natureza, lhes providenciara e que a Ele rendessem graças tanto mais
fervorosas quanto podia passar por incrível o meio de que se servia para livrá-
los.
Os hebreus, não podendo mais, no momento, duvidar da assistência de
Deus, tão visível, apressaram-se em seguir Moisés. Os egípcios, ao contrário,
julgaram primeiro que o medo lhes havia perturbado a inteligência, levando-os
a se precipitar daquele modo num perigo tão evidente e numa morte inevitável.
Mas quando os viram avançar sem obstáculo algum e que nenhum mal lhes
sucedia, perseguiram-nos com ardor, na certeza de que um caminho tão
estranho não seria menos seguro para eles do que para aqueles que nele viam
andar sem nenhum temor.
A cavalaria entrou por primeiro. Seguiu-a todo o resto do exército, e, como
haviam empregado muito tempo para se preparar e tomar as armas, os
israelitas chegaram ao outro lado do mar antes de serem alcançados. Isso deu
aos egípcios a inteira certeza de que também chegariam em segurança. Mas
estavam enganados, pois não sabiam que Deus havia preparado aquele
caminho somente para o seu povo, e não para os perseguidores. Assim, depois
de todos os egípcios haverem entrado no espaço aberto entre as águas do mar,
estas reuniram-se num instante e os sepultaram todos, envolvendo-os em suas
ondas.
O vento juntou-se às vagas para aumentar a tempestade: grande chuva
caiu dos céus. Os relâmpagos misturaram-se com o ribombo do trovão, os raios
seguiam-se aos trovões e, para que não faltasse nenhum sinal dos mais severos
castigos de Deus, na sua justa cólera para punir os homens, uma noite sombria
e tenebrosa cobriu a superfície do mar, de modo que de todo esse exército tão
temível não restou um único homem que pudesse levar ao Egito a notícia da
horrível catástrofe.
101. Ninguém poderia calcular a alegria dos israelitas, por se verem
salvos, contra toda esperança, pelo poderoso auxílio de Deus, e por terem
garantida a liberdade, depois da morte inesperada daqueles que pretendiam
submetê-los a nova escravidão. Passaram toda a noite em agradecimentos, e
Moisés compôs um cântico para dar a Deus graças infinitas por um favor tão
marcante.
Narrei aqui tudo em particular, segundo o que encontrei escrito nos Livros
Santos. Ninguém deve considerar como coisa impossível que homens que vivi-
am na inocência e na simplicidade desses primeiros tempos tivessem encontra-
do, para se salvar, uma passagem no mar, quer se tenha ela aberto por si
mesma, quer tenha acontecido pela vontade de Deus, pois a mesma coisa
aconteceu algum tempo depois aos macedônios, quando passaram o mar da
Panfília, sob o comando de Alexandre, e quando Deus se quis servir dessa
nação para destruir o império dos persas, como o narram os historiadores que
escreveram a vida desse príncipe. Deixo, no entanto, a cada qual que julgue
como quiser.
102. No dia seguinte a essa memorável jornada, os ventos e as ondas
impeliram as armas dos egípcios para a praia onde os israelitas estavam
acampados. Moisés atribuiu o fato a uma ação particular de Deus, que assim
lhes dava ocasião de se armar. Distribuiu-lhes todas as armas e, para obedecer
à ordem de Deus, levou-os para o monte Sinai, a fim de oferecer a Ele um
sacrifício e presentes, como sinal de gratidão pela milagrosa salvação que lhes
concedera.",
"