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Livro Segundo Flávio Josefo

Capítulo 5 Flávio Josefo

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OS EGÍPCIOS TRATAM CRUELMENTE OS ISRAELITAS. PREDIÇÃO REALIZADA PELO
NASCIMENTO E MILAGROSA CONVERSÃO DE MOISÉS. AFILHA DO REI DO EGITO
FÃ-LO EDUCAR E O ADOTA POR FILHO. ELE COMANDA O EXÉRCITO DO EGITO
CONTRA OS ETÍOPES, OBTÉM A VITÓRIA E DESPOSA A PRINCESA DA ETIÓPIA.
OS EGÍPCIOS DESEJAM MATÁ-LO. ELE FOGE E DESPOSA AFILHA DE REUEL,
TAMBÉM CHAMADO JETRO. DEUS APARECE-LHE NUM ARBUSTO ARDENTE, NO
MONTE SINAI, E ORDENA-LHE QUE VÁ LIBERTAR O SEU POVO DA ESCRAVIDÃO.
ELE REALIZA VÁRIOS MILAGRES PERANTE FARAÓ, E DEUS FERE O EGITO COM
VÁRIAS PRAGAS. MOISÉS LIBERTA OS ISRAELITAS E GUIA-OS.",
"85. Êxodo 1. Como os egípcios são naturalmente preguiçosos e
voluptuosos e só pensam no que lhes pode proporcionar prazer e proveito, eles
olhavam com inveja a prosperidade dos hebreus e as riquezas que estes
conquistavam com o trabalho. Conceberam mesmo certo temor pelo aumento
do número deles. Tendo o tempo apagado a memória das obrigações que todo o
Egito devia a José e tendo o reino passado a outra família, eles começaram a
maltratar os israelitas e a oprimi-los com trabalhos. Empregaram-nos em cavar
vários diques para deter as águas do Nilo e diversos canais para conduzi-las.
Faziam-nos trabalhar na construção de muralhas para cercar as cidades e
levantar pirâmides de altura prodigiosa, obrigando-os até mesmo a aprender,
com dificuldade, artes e diversos ofícios. Quatrocentos anos* assim se
passaram, com os egípcios procurando sempre destruir a nossa nação, e os
hebreus, ao contrário, esforçando-se por vencer todos esses obstáculos.
* O artigo 96 fala de apenas 215 anos, que é a opinião dos rabinos.
86. Esse mal foi seguido por um outro, que aumentou ainda mais o desejo
que os egípcios tinham de nos perder. Um dos doutores da sua lei, ao qual eles
dão o nome de escribas das coisas santas e que passam entre eles por grandes
profetas, disse ao rei que naquele mesmo tempo deveria nascer um menino en-
tre os hebreus, cuja virtude seria admirada por todo o mundo, pois aumentaria
a glória de sua nação e humilharia o Egito, e cuja reputação seria imortal. O
rei, assustado com a predição e seguindo o conselho daquele que lhe fazia essa
advertência, publicou um edito pelo qual ordenava que se deveriam afogar
todas as crianças hebréias do sexo masculino e ordenou às parteiras do Egito
que observassem exatamente quando as mulheres fossem dar à luz, porque não
confiava nas parteiras de sua nação. Esse edito ordenava também que aqueles
que se atrevessem a salvar ou criar alguma dessas crianças seriam castigados
com a pena de morte, juntamente com toda a família.
Tão cruel determinação cumulou de dor os israelitas porque, ficando
obrigados a ser os assassinos dos próprios filhos e não podendo sobreviver a
eles senão apenas alguns anos, a extinção da raça parecia inevitável. Mas é em
vão que os homens empregam os seus esforços para resistir à vontade de Deus.
O menino que havia sido vaticinado veio ao mundo, foi criado ocultamente, não
obstante as ordens do rei, e todas as predições a seu respeito se realizaram.
87. Um hebreu de nome Anrão, muito estimado entre os seus, vendo que
a sua mulher estava grávida, ficou muito preocupado, por causa do edito que
iria exterminar a sua nação. Recorreu então a Deus, rogando-lhe que tivesse
compaixão de um povo que sempre o havia adorado e fizesse cessar a
perseguição que os ameaçava de ruína total.
Deus, tocado por aquela oração, apareceu-lhe em sonho e disse-lhe que
esperasse: que Ele se lembrava da piedade do povo e da de seus antepassados;
que os recompensaria agora, tal como havia recompensado aqueles; que era por
essa consideração que os fizera multiplicar-se, desde Abraão, quando este
partiu sozinho da Mesopotâmia para a terra de Canaã, a quem Ele cumulou de
bens e tornou a mulher fecunda, e os sucessores dele, aos quais outorgou pro-
víncias inteiras: a Arábia a Ismael, Troglodita aos filhos de Quetura e o país de
Canaã a Isaque; que eles não poderiam sem ingratidão e mesmo sem impieda-
de esquecer os felizes êxitos obtidos na guerra pela aliança com Ele; que o nome
de Jacó se tornara célebre, tanto pela felicidade na qual viveu quanto pela que
legou aos seus descendentes como um direito hereditário, e porque, havendo
chegado ao Egito com setenta pessoas somente, a sua posteridade multiplicou-
se, atingindo o número de seiscentos mil homens; que se tranqüilizassem, pois
teria cuidado de todos em geral e dele em particular; que o filho de que a sua
mulher estava grávida era o menino de quem os egípcios temiam tanto o
nascimento e por causa de quem faziam morrer todos os meninos dos israelitas;
que ele viria, contudo, felizmente ao mundo, sem ser descoberto pelos
encarregados daquela cruel devassa; que ele, contra todas as esperanças, seria
criado e educado e libertaria o seu povo da escravidão; que tão grande feito
eternizaria a sua memória, não somente entre os hebreus, mas entre todas as
nações da terra; que, por mérito dele, o seu irmão seria educado até tornar-se
um grande sacerdote, sendo que todos os descendentes deste seriam honrados
com a mesma dignidade.
Anrão narrou à sua esposa, de nome Joquebede, a visão que tivera, a
qual, embora lhe fosse muito favorável, não lhes diminuiu o temor, porque não
podiam deixar de se preocupar com a vida do filho. Além disso, parecia
inacreditável a grande felicidade a eles prometida.
Êxodo 2. Joquebede deu à luz, e viu-se que era verdadeira a predição do
oráculo. Foi um parto feliz e fácil, que as parteiras egípcias nem chegaram a
conhecer. Criaram secretamente a criança durante três meses. Então Anrão,
por causa da ordem do rei, temendo ser descoberto e sofrer juntamente com o
filho a pena de morte e com receio de que assim o que lhe fora predito não se
cumprisse, julgou conveniente abandonar à providência de Deus a conservação
de uma criança que lhe era tão cara. Pensou que poderia conservar o filho em
oculto, mas viveriam, ele e o menino, em perigo constante, ao passo que,
entregando-o nas mãos de Deus, acreditava firmemente que Ele teria meios de
confirmar a veracidade da promessa.
Após tomar essa resolução, ele e a mulher fizeram um berço de juncos do
tamanho da criança e, para impedir que a água nele penetrasse, revestiram-no
de betume. Puseram dentro o menino e colocaram o berço sobre as águas do
rio, abandonando-o à Providência. Miriã, irmã do menino, por ordem de sua
mãe, foi para o outro lado do Nilo ver o que aconteceria. Deus então mostrou
claramente que todas as coisas se realizariam, não segundo os planos da
sabedoria humana, mas conforme os sublimes desígnios de sua vontade.
Mostrou também que aqueles que pretendem fazer perecer os outros, para
proveito próprio ou para segurança particular, são muitas vezes desiludidos em
suas esperanças, por mais cuidados de que se cerquem. Os que confiam
somente nEle, entretanto, estarão a salvo de muitos perigos, mesmo contra
qualquer probabilidade de salvação, como aconteceu a esse menino.
Como o berço flutuasse ao sabor das águas, Termutis, filha do rei, que
passeava pela margem do rio, avistou-o e ordenou a alguns dos que a
acompanhavam que a nado fossem buscá-lo. Trouxeram-no, e ela ficou tão
encantada com a beleza da criança que não se cansava de contemplá-la.
Resolveu então tomar o menino aos seus cuidados e mandar educá-lo. De sorte
que, por um favor de Deus assaz extraordinário, ele foi criado no mesmo lugar
onde queriam a sua morte e a ruína de sua nação.
A princesa logo ordenou que fossem procurar uma ama. Veio uma, porém
a criança não quis mamar e recusou todas as outras que lhe trouxeram. Miriã,
então, fingindo lá encontrar-se por acaso, disse à princesa: É inútil, senhora,
que mandeis chamar outras amas, pois elas não são da mesma nação que esta
criança. Se tomardes uma ama hebréia, talvez ele não sinta aversão. Termutis
aprovou a idéia e disse-lhe que fosse procurar uma. Ela foi imediatamente para
casa e trouxe Joquebede, que ninguém conhecia, para ser a ama da criança, a
qual deu-lhe de mamar.
A princesa ordenou-lhe que criasse o menino com todo cuidado e
chamou-o Moisés, isto é, salvo das águas, como sinal de um estranho
acontecimento, pois mo, em língua egípcia, significa água, e isés, preservado.
A predição divina realizou-se inteiramente nele, pois Moisés tornou-se a maior
personagem que jamais existiu entre os hebreus. Era o sétimo desde Abraão,
porque Anrão, seu pai, era filho de Coate, Coate era filho de Levi, Levi era filho
de Jacó, jacó era filho de Isaque e Isaque era filho de Abraão.
À medida que Moisés crescia, demonstrava muito mais espírito e
inteligência que o permitido pela sua idade. Mesmo brincando, dava sinais de
que um dia seria alguém extraordinário. Quando completou três anos, Deus fez
brilhar em seu rosto uma tão grande beleza que as pessoas, mesmo as mais
austeras, ficavam arrebatadas. Ele atraía sobre si os olhares de todos os que o
encontravam e, por mais pressa que tivessem, eram obrigados a parar para
contemplá-lo.
Termutis, vendo-o cheio de tanta graça e não tendo filhos, resolveu adotá-
lo. Levou-o ao rei, seu pai, e, depois de falar-lhe da beleza do menino e da
inteligência que já se manifestava nele, disse: Foi um presente que o Nilo me
fez, de maneira admirável. Recebi-o em meus braços, resolvi adotá-lo e vo-lo
ofereço como sucessor, pois não tendes filhos. Com essas palavras, ela o
colocou entre os braços do rei, que o recebeu com prazer e, para obsequiar a
filha, estreitou-o nos braços, colocando-lhe o diadema sobre a cabeça. Moisés,
como uma criança, que se diverte, tirou-o e o jogou ao chão, pisando-lhe em
cima.
Essa ação foi considerada de péssimo augúrio, e o doutor da lei que
predissera o quanto seria funesto o nascimento daquele menino para o Egito
ficou tão nervoso que desejou matá-lo imediatamente. Eis aí, majestade, disse
ele, dirigindo-se ao rei, este menino, do qual Deus nos faz saber que a morte
deve garantir a vossa paz. Vede que o fato confirma a minha predição, pois
apenas nasceu e já despreza a vossa grandeza, calcando aos pés a vossa coroa.
Matando-o, todavia, fareis perder aos hebreus a esperança que nele depositam
e salvareis o vosso povo de um grande temor. Termutis, ouvindo-o falar desse
modo, levou o menino sem que o rei se opusesse, porque Deus afastava do
espírito de Faraó o pensamento de fazê-lo morrer. A princesa fê-lo educar com
grande desvelo, e quanto mais os hebreus se alegravam tanto mais os egípcios
se atemorizavam. Entretanto, como a ninguém viam que pudesse suceder o rei
no trono ou de quem pudessem esperar um governo mais feliz quando Moisés
não existisse mais, abandonaram a idéia; de fazê-lo morrer.
88. Logo que o menino, criado e educado dessa maneira, chegou à idade
de poder dar provas de sua coragem, praticou atos de bravura que não
permitiram mais dúvidas quanto à veracidade do que se havia sido predito, isto
é, que ele elevaria a glória de sua nação e humilharia os egípcios. Eis o motivo:
A fronteira do Egito foi devastada pelos etíopes, que lhe estão próximos.
Os egípcios marcharam com um exército contra eles, mas foram vencidos no
combate e retiraram-se com desonra. Os etíopes, orgulhosos de tamanha vi-
tória, julgaram que era covardia não aproveitar a boa sorte e começaram a se
vangloriar de poderem conquistar todo o Egito. E lá entraram, por diversos
lugares. A quantidade de despojos que arrebataram e o fato de não terem
encontrado resistência alguma aumentaram-lhes a esperança de conseguir um
feliz resultado na empresa. Assim, avançaram até Mênfis, chegando até o mar.
Os egípcios, reconhecendo-se muito fracos para resistir a tão grande força,
mandaram consultar um oráculo, e, por ordem secreta de Deus, a resposta que
receberam foi que somente um homem havia — um hebreu! — do qual podiam
esperar auxílio.
O rei não teve dificuldade em julgar, por essas palavras, que Moisés era o
hebreu em questão, ao qual o céu destinava salvar o Egito, e pediu à filha para
fazê-lo general de todo o exército. Ela consentiu e disse-lhe que julgava assim
prestar ao rei um grande serviço. Contudo obrigou-o ao mesmo tempo a prome-
ter, com juramento, que não lhe fariam mal algum. A princesa, não se conten-
tando em testemunhar assim a sua extrema afeição por Moisés, não pôde tam-
bém deixar de — com azedume — perguntar aos sacerdotes egípcios se eles não
se envergonhavam de o haverem tratado como inimigo e de desejarem tirar a
vida a um homem a quem eram agora obrigados a pedir auxílio.
Pode-se imaginar com que prazer Moisés obedeceu às ordens do rei e da
princesa, que lhe eram tão gloriosas. E os sacerdotes das duas nações tiveram
com isso, por motivos diferentes, idêntica alegria. Os egípcios esperavam que,
depois de vencerem os inimigos sob o comando de Moisés, encontrariam facil-
mente ocasião para matá-lo, à traição. E os hebreus ansiavam, por esse mesmo
motivo, sair do Egito e livrar-se da escravidão.
Esse excelente general, posto à frente do exército, logo se fez admirar pela
sua prudência. Em vez de marchar ao longo do Nilo, atravessou pelo meio das
terras, a fim de surpreender os inimigos, que jamais pensariam que ele os fosse
alcançar por um caminho tão perigoso, devido à quantidade de serpentes de
várias espécies que ali vivem: muitas delas não existem em nenhum outro lugar
e não somente são temíveis pelo seu veneno, mas são horríveis de se ver,
porque, tendo asas, atacam os homens elevando-se no ar, para se atirar sobre
eles. Moisés, para precaver-se contra elas, mandou colocar em gaiolas algumas
aves chamadas íbis, que são domesticadas, amigas do homem, e inimigas
mortais das serpentes, sendo que estas as temem não menos que aos cervos.
Nada mais direi sobre essas aves, porque não são desconhecidas aos gregos.
Quando Moisés chegou com o seu exército a essa tão perigosa região,
soltou os pássaros e passou assim sem perigo. Então surpreendeu os etíopes,
deu-lhes combate e os dispersou, fazendo-os perder a esperança de se tornarem
senhores do Egito. Mas tão grande vitória não reteve os seus intentos: entrou
no país deles, tomou várias cidades, saqueou-as e fez grande mortandade. Tão
gloriosos resultados reanimaram de tal modo a coragem dos egípcios que eles
seriam capazes de tudo empreender sob o comando de tão excelente general. Os
etíopes, ao contrário, só tinham diante dos olhos a imagem da escravidão e da
morte.
O ilustre general impeliu-os até Sabá, capital da Etiópia, que Cambises,
rei dos persas, chamou depois de Meroe, nome de sua irmã. Aí Moisés os sitiou,
embora a cidade fosse tida como inexpugnável, porque, além de suas grandes
fortificações, era rodeada por três rios: o Nilo, o Astape e o Astobora, cujo
percurso é muito difícil. Ficava, assim, situada numa ilha e não era menos
defendida pela água que a rodeava de todos os lados que pela força de suas
muralhas e de suas defesas. Os diques que a preservavam das inundações dos
rios serviam ainda de terceira defesa quando os inimigos passassem as outras.
Moisés ficou aborrecido ao constatar que tantas dificuldades juntas tornavam a
conquista da cidade quase impossível, e o seu exército começava a enfadar-se,
porque os etíopes não se atreviam mais a dar-lhes combate.
Tarlis, filha do rei da Etiópia, tendo-o visto do alto das muralhas praticar,
num assalto, atos de valor e de coragem extraordinários, ficou tão cheia de
admiração pela sua bravura, a qual reerguera o ânimo dos egípcios e fizera
tremer a Etiópia, antes vitoriosa, que sentiu o coração ferido de amor por ele.
Com a paixão sempre aumentando, mandou oferecer-lhe a mão em casamento.
Ele aceitou a honra, com a condição de que ela lhe entregasse a cidade. A
promessa foi confirmada com um juramento e, depois que o tratado foi feito, em
boa fé de parte a parte, ele deu graças a Deus por tantos favores e reconduziu
os egípcios vitoriosos de volta à sua pátria.
89. Mas esses ingratos, em vez de manifestar reconhecimento pela
salvação e pela honra que deviam a Moisés, aumentaram ainda mais o seu ódio
contra ele e procuraram, mais do que nunca, eliminá-lo. Temiam que a glória
que conquistara o enchesse de tal modo de orgulho que ele pensasse em se
tornar senhor de todo o Egito. Aconselharam o rei a mandá-lo matar, o qual
deu ouvidos a tais palavras, porque a grande fama de Moisés já lhe causava
inveja, e o monarca começava a temer que fosse também sobrepujado por ele.
Nisso era ajudado pelos sacerdotes, que, para incitá-lo ainda mais, recordavam
o rei continuamente do perigo em que se encontrava.
E assim, Faraó consentiu na morte de Moisés, e ela seria inevitável, se
este não houvesse descoberto a intenção dos egípcios e se ausentado no
momento oportuno. Moisés fugiu para o deserto e desse modo salvou-se,
porque os inimigos não podiam imaginar que ele tomaria tal caminho. Como
nada encontrasse para comer, viu-se atormentado por uma fome extrema, mas
a suportou com paciência e, depois de haver andado muito, chegou, pelo meio-
dia, próximo da cidade de Midiã — nome que lhe deu um dos filhos de Abraão e
Quetura —, à beira do mar Vermelho. Estando muito cansado, sentou-se à
beira de um poço, para repousar, e esse fato deu-lhe ocasião de mostrar a sua
coragem, abrindo o caminho para uma sorte melhor. Eis como tudo se passou:
Um sacerdote chamado Reuel, ou Jetro, muito estimado entre os seus,
tinha sete filhas, que, segundo o costume das mulheres de Troglodita,
cuidavam dos rebanhos do pai. Ora, como a água doce é muito rara naquelas
paragens, os pastores e pastoras iam solicitamente buscá-la, para dar de beber
aos animais. Assim, as irmãs vieram naquele dia por primeiro ao poço, tiraram
água e encheram as suas vasilhas para dar de beber aos carneiros e ovelhas.
Mas alguns pastores que ali chegaram maltrataram-nas e tomaram a água que
elas tinham tido o trabalho de tirar. Moisés, enraivecido por tal violência, julgou
que não devia absolutamente permiti-la. Espancou os insolentes e afugentou-
os, auxiliando as moças no que a justiça pedia dele. Elas contaram ao pai o que
ele havia feito em favor delas e rogaram-lhe que mostrasse o seu
reconhecimento para com o estrangeiro, pelo auxílio que lhes prestara. Reuel
louvou a gratidão das filhas e mandou chamar Moisés. E não se contentou em
agradecer uma ação tão generosa, mas lhe deu Zípora, uma de suas filhas, em
casamento e a superintendência de todos os seus rebanhos, no que consistia,
então, a riqueza dessa nação.
90. Êxodo 3 e 4. Moisés morava então com o sogro e cuidava dos rebanhos
deste. Um dia, levou-os a pastar no monte Sinai,* que é o mais alto de todos os
da província, muito rica em pastagens. Isso porque> aJém da fertilidade
natural, os outros pastores lá não iam por causa da santidade do lugar, onde,
dizia-se, Deus morava. E lá ele teve uma visão maravilhosa. Viu uma sarça
ardente, de tal modo rodeada pelas chamas que parecia dever queimar-se, e no
entanto nem as folhas, nem as flores e nem os ramos eram danificados.
Tal prodígio deixou-o atônito: nunca, porém, o medo foi maior do que
quando ouviu sair do meio da sarça uma voz, que o chamou pelo nome e
perguntou-lhe como se atrevera ir a um lugar santo, do qual nenhum outro
antes se aproximara. Mandou-lhe que se afastasse da chama, não se deixando
levar pela curiosidade, e se contentasse com o que merecera ver, sendo um
digno sucessor da virtude de seus antepassados. A voz predisse-lhe, em
seguida, a glória que ele deveria conquistar: com o auxílio que receberia de
Deus, tornar-se-ia célebre entre os homens. Ordenou-lhe que voltasse sem
temor para o Egito, a fim de libertar os hebreus de sua cruel escravidão. Pois,
acrescentou a mesma voz, eles tornar-se-ão senhores do mesmo país rico em
todas as espécies de bens que Abraão, o chefe de vossa raça, possuiu e serão
devedores de tão grande felicidade à vossa sábia direção. Mas, depois que os
tiverdes tirado do Egito, não deixeis de oferecer um sacrifício neste mesmo
lugar.
* Em diversas passagens da Bíblia, esse monte é chamado Horebe, onde
Moisés promulgou a Lei. Muitos o confundem com o Sinai. Uma tradição local
coloca o Horebe no pico Safsafe do maciço montanhoso e o Sinai em outro,
mais elevado, a meio dia de distância. Mas alguns estudiosos sustentam, ao
contrário, que Horebe é o verdadeiro nome de todo o maciço, enquanto o Sinai
seria apenas uma denominação derivada do deus lunar Sim, venerado talvez
nesse lugar. (N do E)
91. Moisés, ainda mais admirado pelo que acabava de ouvir do que pelo
que tinha visto, disse: Grande Deus, do qual adoro a onipotência, que tantas
vezes fizestes brilhar em favor de meus antepassados, eu não poderia, sem
extrema loucura, desobedecer às vossas ordens. Mas como sou um simples
homem, sem autoridade, temo não poder persuadir esse povo a abandonar um
país onde se estabeleceu há tão longo tempo para seguir-me aonde eu o quiser
levar. E, mesmo se os convencer, como poderei obrigar o rei a permitir que se
retirem, sendo que o Egito deve ao trabalho deles a felicidade que agora
desfruta?
Tendo Moisés assim falado, mandou-o Deus confiar na aliança,
garantindo-lhe que não o abandonaria na direção daquele empreendimento e
prometendo pôr-Ihe na boca as palavras, quando tivesse necessidade de
persuadir e fosse preciso revesti-las com poder, quando fosse o momento de
agir. Para dar-lhe uma prova, ordenou que ele lançasse na terra a vara que
trazia na mão. Moisés obedeceu, e ela no mesmo instante transformou-se numa
serpente, que se pôs a rastejar, movendo a cauda e levantando a cabeça, como
para se defender ou como se a quisessem atacar. De repente a cobra
desapareceu, e a vara voltou a ser o que era.
Em seguida, Deus ordenou a Moisés que pusesse a mão no seio. Ele o fez
e retirou-a branca como a cal, mas imediatamente ela também voltou ao
primitivo estado. Ordenou-lhe ainda que tirasse água de um lugar ali perto. Ele
o fez, e a água converteu-se em sangue. E Deus, vendo que tais prodígios o
deixavam atônito, disse-lhe que tomasse ânimo com a certeza de seu auxílio;
que lhe confirmaria a missão com milagres semelhantes; e que partisse
imediatamente, caminhando dia e noite, para ir libertar o seu povo, porque Ele
não podia mais suportar os gemidos deles, em tão dura servidão.
Moisés, não podendo, depois do que acabava de ver e ouvir, duvidar mais
do efeito das promessas divinas, rogou a Deus que, no Egito, lhe desse o
mesmo poder de fazer aqueles milagres com que o favorecia naquele momento e
acrescentasse à graça de ter-se dignado fazê-lo ouvir a sua voz a de lhe dizer o
seu nome, a fim de que ele pudesse melhor invocá-lo quando lhe oferecesse um
sacrifício. Deus concedeu-lhe esse favor, que jamais fizera a qualquer outro
neste mundo, mas não me é permitido repetir esse nome. [Esse nome é Jeová.]
92. Moisés, certo do auxílio de Deus e do poder que Ele lhe dava para
fazer milagres todas as vezes que julgasse necessário, concebeu grande
esperança de libertar os hebreus e humilhar os egípcios. Soube nesse mesmo
tempo da morte de Faraó, sob cujo reinado ele fugira do Egito. E assim, rogou a
Reuel, seu sogro, que lhe permitisse voltar para lá, para o bem de sua nação. E
não teve dificuldade em obter o consentimento.
Moisés pôs-se logo a caminho, com a sua mulher e com Gérson e Eliézer,
seus filhos, dos quais o nome do primeiro significa peregrino, e o do segundo,
auxílio de Deus, porque por meio daquele auxílio Deus o preservara das cila-
das dos egípcios. Arão, seu irmão, veio, por ordem de Deus, encontrá-lo na
fronteira do Egito, e Moisés narrou-lhe tudo o que acontecera no monte e as
ordens que de Deus recebera. Os principais israelitas vieram também ter com
ele e, para obrigá-los a crer em suas palavras, fez na presença deles, pelo poder
que havia recebido, vários prodígios. O espanto que deles se apoderou
certificou-os da verdade, e começaram a esperar tudo do auxílio de Deus.
93. Êxodo 5. Assim, vendo Moisés que o ardente desejo de se libertar da
escravidão levava os hebreus a render-lhe inteira obediência, foi ter com o novo
rei. Falou-lhe dos serviços que prestara ao seu antecessor contra os etíopes e de
como fora recompensado: somente com ingratidão. Contou-lhe o que Deus lhe
dissera no monte Sinai e os milagres que Ele havia feito para obrigá-lo a dar fé
às suas promessas. Suplicou-lhe que não resistisse com incredulidade à
vontade daquele soberano Senhor dos reis. Faraó, no entanto, zombou de suas
palavras, e então Moisés fez em sua presença os mesmos prodígios que havia
feito no monte Sinai.
Êxodo 7. O príncipe, em vez de ficar convencido, enfureceu-se. Disse que
Moisés era mau e que depois de ter fugido, para evitar a escravidão, se havia
feito iniciar na magia, a fim de enganá-lo por meio de artes diabólicas. Mas ele,
Faraó, tinha também sacerdotes de sua fé, que poderiam fazer os mesmos
prodígios. Assim, Moisés não devia se vangloriar de ser o único ao qual Deus
concedera aquela graça e nem iludir o povo simples, persuadindo-o de que
havia nele algo divino. E mandou buscar os seus sacerdotes. Eles lançaram as
suas varas ao chão, e estas se converteram em serpentes.
Moisés, sem se espantar, respondeu ao rei: Eu não desprezo, majestade,
a ciência dos egípcios, mas o que faço está tão acima dos conhecimentos deles e
de sua magia quanto a distância entre as coisas divinas e as humanas, e vou
mostrar claramente que os milagres que faço não têm, como os deles, uma vã
aparência de verdade, para enganar os simples e os crédulos, mas procedem da
virtude e do poder de Deus. Dizendo essas palavras, atirou a vara ao chão e
ordenou-lhe que se mudasse em serpente. Ela obedeceu à sua voz e devorou as
dos egípcios, que pareciam ser outras tantas serpentes. Voltou em seguida à
sua forma primitiva e Moisés a retomou na mão.
O rei, em vez de admirar tão grande maravilha, irritou-se ainda mais e,
depois de ter dito a Moisés que a sua ciência e os seus artifícios ser-lhe-iam
inúteis, ordenou ao que tinha a direção das obras confiadas aos israelitas que
as aumentasse ainda mais. Assim, esse indivíduo mandou retirar a palha que
costumava fornecer para os tijolos, de modo que, depois de ter labutado
durante todo o dia, tinham de ir procurá-la durante a noite, o que lhes dobrava
o trabalho [Êx 5].
Moisés, sem se incomodar com as ameaças do rei nem se comover com as
queixas contínuas dos hebreus, que diziam que todos os esforços dele só
estavam servindo para fazê-los sofrer ainda mais, continuou firme no
cumprimento de sua missão. E, como a havia empreendido por um ardente
desejo de libertá-los, deliberou consegui-la, contra a vontade do rei e contra a
opinião deles mesmos.
Voltou então a falar ao príncipe, para pedir que os hebreus fossem ao
monte Sinai oferecer um sacrifício a Deus, como Ele o havia ordenado. Disse
que Faraó não se devia opor à vontade do céu, mas que, enquanto Deus lhe era
ainda favorável, o seu próprio interesse o obrigava a conceder àquele povo a
liberdade que lhe pedia. Se ele se recusasse, só poderia depois acusar a si
mesmo de ser a causa da própria desgraça, pois atrairia sobre si, por sua
desobediência, toda sorte de castigos: ver-se-ia sem filhos; o ar, a terra e todos
os outros elementos ser-lhe-iam contrários e tornar-se-iam ministros da
vingança divina; e, por fim, os hebreus não deixariam de sair de seu reino,
ainda que ele não o quisesse consentir, e os egípcios não evitariam o castigo de
sua obstinação.
94. As palavras de Moisés não fizeram impressão no espírito do rei, e os
egípcios foram amargurados por toda espécie de males. Narrá-los-ei em
particular, tanto porque são extraordinários quanto para fazer conhecer a
verdade do que Moisés havia predito e também para manifestar aos homens
quanto lhes importa não irritar a Deus, que pode punir os pecados com tão
terríveis castigos.
Êxodo 7. A água do Nilo foi mudada em sangue, e, como o Egito não
possui fontes, o povo descobriu que a sede é o maior de todos os males. A água
do rio não somente adquirira a cor do sangue, mas o povo não conseguia bebê-
la sem sentir dores violentas. Os israelitas, ao contrário, a achavam tão potável
e boa quanto a comum. O rei, admirado por esse prodígio e temendo por seus
súditos, permitiu aos hebreus que se retirassem. Não havia, porém, o mal
cessado de todo, e ele retomou aos antigos sentimentos: revogou a ordem e a
licença. Deus, para castigá-lo por ter reconhecido tão mal a graça que fizera a
ele, livrando-o daquele flagelo, feriu o Egito com uma nova praga.
Êxodo 8e9. Um número incalculável de rãs cobriu a terra, e comiam tudo
o que ela produzia. O Nilo ficou também cheio delas, e uma parte, que morreu
nas águas do rio, tornou-o infecto, de tal sorte que não mais se podia beber da
sua água. Também o lodo dos campos produziu uma quantidade enorme desses
animais, que com a decomposição formaram outro pantanal, ainda mais
horrível que o primeiro. As rãs entravam até nas casas, nas vasilhas, nos
pratos, estragavam todos os alimentos, pulavam sobre as camas e
envenenavam o ar com o mau cheiro. O rei, vendo o seu país em tal miséria,
ordenou a Moisés que partisse para onde quisesse, com todos os de sua nação.
Imediatamente todas as rãs desapareceram, e as terras e os rios voltaram ao
seu estado primitivo. O rei então esqueceu o mal que tanto temor lhe havia
causado e, como se quisesse experimentar males ainda maiores, revogou a
licença que de mau grado concedera.
Deus então castigou-o por ter faltado à palavra, coisa indigna de um
príncipe, e os egípcios ficaram todos cheios de piolhos, em tal quantidade que
eram miseravelmente comidos por eles, sem que pudessem encontrar remédio
algum para isso. Esse tão grande e tão vergonhoso mal espantou o rei e ele
permitiu aos hebreus que partissem. Mas, apenas cessou o mal, ele determinou
que as mulheres e os filhos dos hebreus ficassem como reféns.
Percebendo Deus que o rei estava convencido de que era capaz de afastar
qualquer tempestade que desabasse para destruir o seu reino, como se fosse
Moisés, e não Ele, quem castigava a ele e ao seu povo por causa da cruel
perseguição movida contra os hebreus, enviou sobre o Egito uma imensa
multidão de diversas espécies de pequenos animais, até então desconhecidos. A
terra ficou totalmente coberta deles, e era impossível cultivá-la. Muitas pessoas
vieram a morrer. As que sobreviviam eram contaminadas pelo veneno deles,
que causava outros tantos males, doenças e até mesmo a morte. Mas nem isso
foi suficiente para levar o rei a uma inteira obediência à vontade de Deus. Ele
contentou-se em permitir às mulheres que fossem com os maridos, ordenando
que os filhos ficassem.
A grande obstinação desse príncipe em resistir às ordens de Deus atraiu
sobre os seus súditos, por causa dele, outros males ainda maiores que os
precedentes. Todos foram cobertos de chagas e úlceras, e muitos morreram
miseravelmente. Tão terrível flagelo, porém, não foi capaz de tocar o coração de
Faraó, e Deus feriu o Egito com uma praga de que nunca se havia falado. Fez
cair uma chuva de granizo tão forte e espessa e de tamanho tão grande que
nunca se vira semelhante, nem mesmo nos países que a isso estão sujeitos, e
estava-se, no entanto, muito antes da primavera. A chuva estragou todos os
frutos. Depois veio uma nuvem de gafanhotos, que destruiu o que restava, de
sorte que os egípcios perderam qualquer esperança de obter alguma colheita.
Se o rei tivesse apenas falta de inteligência, não teriam tantos males
juntos feito com que caísse em si mesmo, para dar-lhe remédio? Mas bem que
ele lhes compreendeu o motivo, e a sua malícia foi tão grande que continuou a
se opor à vontade de Deus, como se lhe pudesse resistir, e nem mesmo a
consideração de salvar o seu próprio povo, que ele via perecer diante de seus
olhos, foi capaz de contê-lo. Assim, ele contentou-se em permitira Moisés levar
os israelitas com as suas esposas e filhos, mas com a condição de deixarem
todos os seus bens aos egípcios, para compensar as perdas que haviam sofrido.
Moisés fez-lhe ver que aquela proposta não era justa, pois seria pôr os hebreus
na impossibilidade de oferecer sacrifícios.
Êxodo 10, 11 e 12. Enquanto o tempo se passava nessas altercações, os
egípcios foram envolvidos por trevas espessas, e, não tendo a menor claridade
para se guiar, muitos pereceram de diversas maneiras, enquanto outros temiam
semelhante infelicidade. As trevas duraram três dias e três noites, sem que
Faraó se decidisse deixar sair os israelitas. Depois que elas se dissiparam,
Moisés foi ter com ele e disse-lhe: Até quando, majestade, resistireis à vontade
de Deus? Ele vos ordena que deixeis sair os hebreus, e não tendes outro meio
de vos livrardes de tantos flagelos que vos atormentam. O rei, fora de si pela
cólera, ameaçou mandar cortar-lhe a cabeça se ousasse continuar a falar ao rei
daquele modo. Moisés então respondeu que, de fato, não lhe falaria novamente.
Estava certo de que o próprio rei e os principais de seu reino lhe pediriam que
se retirasse com os israelitas.
Deus, irritado pela resistência de Faraó, decidiu ferir os egípcios com mais
uma praga, que certamente os obrigaria a deixar sair o povo. Ele determinou
que Moisés preparasse os israelitas para oferecer-lhe um sacrifício no décimo
terceiro dia do mês que os egípcios chamam farmute, os hebreus, nisã, e os
macedônios, xântico, e que se conservassem prontos para a partida e levassem
consigo todos os bens que possuíam. Moisés obedeceu e reuniu-os,
distribuindo-os por grupos e companhias.
Ao raiar do décimo quarto dia, como Deus havia marcado, começaram a
oferecer o sacrifício: purificaram as suas casas, lançando-lhes sangue com um
ramalhete de hissopo, e depois de terem ceado queimaram tudo o que havia
restado do alimento, estando prontos para partir. Nós observamos ainda esse
costume e damos à festa o nome de Páscoa, isto é, passagem, porque foi nessa
noite que Deus, passando pelos israelitas sem lhes causar mal algum, feriu os
egípcios com esta grande praga: todos os primogênitos morreram. Tão grande e
geral aflição fez correr o povo em massa ao palácio do rei, para suplicar-lhe que
deixasse sair os hebreus.
95. Assim, não podendo mais resistir, o rei deu a permissão a Moisés, na
certeza de que apenas os hebreus tivessem partido terminariam os males que
atormentavam o Egito. Os próprios egípcios deram-lhes presentes, uns pelo de-
sejo de os ver bem longe, outros pelo costume da terra, testemunhando até com
lágrimas que estavam arrependidos dos maus-tratos que lhes haviam infligido.
Os israelitas partiram pela cidade de Leté, que então estava deserta e
onde Cambises, quando depois devastou o Egito, construiu outra cidade, a que
chamou Babilônia. Dali caminharam para Baal-Zefom, cidade que está à beira
do mar Vermelho. Como o lugar era muito deserto e nada tinham para comer,
misturaram farinha com água, amassaram como puderam e a puseram ao fogo,
alimentando-se assim durante trinta dias. No fim desse tempo, todavia, a
farinha lhes veio a faltar, embora tivessem economizado bastante. É em
memória dessa necessidade pela qual passaram que celebramos ainda hoje,
durante oito dias, uma festa que chamamos dos Asmos, isto é, de pão sem
fermento. A multidão do povo podia-se dizer inumerável, pois além das
mulheres e das crianças, havia seiscentos mil homens capazes de pegar em
armas.",