Livro Segundo Flávio Josefo
Capítulo 6 Flávio Josefo
,
"OS EGÍPCIOS PERSEGUEM OS ISRAELITAS COM UM NUMEROSO EXÉRCITO E
OS ALCANÇAM ÀS MARGENS DO MAR VERMELHO. MOISÉS IMPLORA,
NESSE PERIGO, O AUXÍLIO DE DEUS.",
"96. Êxodo 12. Os israelitas saíram do Egito no mês xântico, ou nisã, a
dias quinze da lua, quatrocentos e trinta anos após Abraão, nosso pai, ter vindo
à terra de Canaã e duzentos e quinze anos* depois que Jacó ter chegado ao
Egito. Moisés tinha então oitenta anos, e Arão, seu irmão, oitenta e três. Eles
levaram consigo os ossos de José, como este havia determinado.
* O artigo 85 diz quatrocentos anos.
97. Êxodo 14. Nem bem haviam saído os hebreus, os egípcios arrepende-
ram-se de os ter deixado partir. O rei ficou mais arrependido que todos os
outros, porque considerava Moisés um mago e estava certo de que todas as
pragas que o Egito sofrerá eram efeitos de sua magia. Por isso ordenou que se
tomassem as armas, para persegui-los e obrigá-los a voltar, se ainda fosse pos-
sível alcançá-los. Agia assim porque pensava não estar com isso se opondo à
vontade de Deus, pois eles se haviam retirado sob a licença que ele mesmo
concedera. Imaginava ainda que não teria dificuldades para vencer homens
cansados e desarmados.
Assim, os egípcios os perseguiram, passando por caminhos difíceis e
ásperos, que Moisés escolhera de propósito, tanto para fazê-los sofrer o castigo
pela violação da palavra, se se arrependessem de os ter deixado partir e os
perseguissem, quanto para impedir que os filisteus, vizinhos dos egípcios e
inimigos dos hebreus, fossem avisados de sua saída. Quis também deixar o
caminho comum que leva à Palestina e tomar o do deserto, embora mais difícil,
para ir oferecer sacrifício a Deus sobre o monte Sinai, segundo a ordem que
dEle havia recebido, e então tomar posse da terra de Canaã.
98. Ao chegar às margens do mar Vermelho, os hebreus viram-se
rodeados de todos os lados pelo exército dos egípcios, composto de seiscentos
carros de guerra, cinqüenta mil cavaleiros e duzentos mil homens de infantaria
bem armados, não lhes sendo possível escapar, porque o mar os cercava de um
lado e uma montanha inacessível, com rochedos que se estendiam pela praia,
de outro. Eles tampouco podiam combater, porque não tinham armas, nem
resistir a um cerco, porque haviam consumido todos os víveres. Assim, nada
mais lhes restava para salvar a vida senão entregar-se nas mãos dos inimigos.
Esse tão grave perigo fê-los esquecer os muitos prodígios que Deus fizera
para colocá-los em liberdade. Acusaram Moisés pela sua infelicidade, e a sua
incredulidade cresceu tanto que, quando ele os quis certificar da proteção de
Deus, tentaram apedrejá-lo e voltar voluntariamente à antiga escravidão. Isso
porque, além da própria incerteza, os homens estavam atônitos com os gritos e
lágrimas de suas mulheres e filhos, e a dor de se encontrar em tal extremo
levava-os ao desespero.
99. Moisés, sem se admirar de ver a grande multidão acirrada contra ele,
permaneceu firme no propósito de levar a cabo a sua incumbência. Não podia
conceber que Deus, após ter realizado tantos milagres para lhes dar a
liberdade, fosse permitir que morressem ou que voltassem a cair nas mãos dos
inimigos. E, para dar-lhes coragem e despertar neles as esperanças, assim
falou: Embora seja a um homem que deveis o favor de vos ter conduzido até
aqui de maneira tão admirável, poderíeis duvidar da continuação do seu
auxílio? Se o mesmo Deus quis ser o vosso guia, é loucura não quererdes
confiar na sua proteção para o futuro depois de terdes visto a realização das
promessas que vos fiz de sua parte, quando mesmo não teríeis ousado esperá-
lo. Acaso não é nos maiores perigos que se faz necessário confiar no seu
auxílio? Ele permitiu, sem dúvida, que vos encontrásseis reduzidos a este
estado, a fim de que, julgando-vos perdidos, os inimigos se convençam de que
não podereis escapar. Assim, o, auxílio que Ele vos der fará conhecer a todos
não somente o seu poder, ao qual nada resiste, mas também o afeto que vos
dedica. Pois é principalmente nessas ocasiões que se compraz em fazer ver que
combate por aqueles que esperam somente nEle. Deixai, portanto, as dúvidas e
hesitações, pois Ele quer ser o vosso defensor e pode tornar grande o que é
pequeno e fortificar o que é fraco. Que esse formidável exército, por maior que
seja, não vos espante, e, embora rodeados de um lado por montanhas e de
outro pelo mar, não deveis perder a coragem, pois Deus pode, quando lhe
aprouver, secar o mar e abaixar as montanhas.",