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Livro Único 1 Flávio Josefo

Capítulo 3 Flávio Josefo

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,
LEVAM AANTÍOCO A MÃE DOS MACABEUS COM OS FILHOS. ELE FICA
COMOVIDO POR VER ESSES SETE IRMÃOS TÃO BELOS E APRESENTÁVEIS. FAZ TUDO
O QUE PODE PARA PERSUADI-LOS A COMER A CARNE DE PORCO, E MANDA
TRAZER, PARA ASSUSTÁ-LOS, TODOS OS INSTRUMENTOS DE SUPLÍCIO, OS MAIS
CRUÉIS. MARAVILHOSA GENEROSIDADE COM QUE TODOS LHE RESPONDEM.",
"Mas, para melhor ainda demonstrar como é verdade, que a razão, cheia
de piedade, domina as paixões, eu referirei também o exemplo de alguns jovens,
que a razão fez vitoriosos sobre os maiores tormentos que o mais bárbaro furor
poderia inventar.
Antíoco, levado pela cólera, por ver que a extrema constância de um
ancião tinha vencido sua crueldade, ordenou que lhe trouxessem alguns outros
judeus, com a deliberação de pô-los em liberdade, se eles comessem a carne de
porco e de mandar matá-los, se se recusassem.
Apresentaram-lhe uma senhora venerável por seu nascimento e por sua
idade, com seus sete filhos, tão belos e tão formosos, que ele ficou
surpreendido. Ordenou-lhe que se aproximasse e disse-lhe: Não somente vejo,
com prazer, mas admiro-me ainda, de que sejais em tão grande número e tão
formosos. Assim, não somente eu vos aconselho, mas rogo-vos a não imitar a
loucura daqueles que se perdem por sua imprudência. Procurai ser da minha
mesma opinião e sentimentos e tornai-vos dignos de meu afeto. Eu não estou
menos disposto a fazer o bem aos que me obedecem, como resolvido a castigar
severamente os que ousam resistir às minhas ordens. Confiai na minha palavra
e sentir-lhe-eis o efeito. Renunciai às superstições dos vossos antepassados,
comei da carne que os gregos comem e conservai assim vossa vida e vossa
juventude, por um sábio proceder. Do contrário, se não abandonardes àqueles
dos quais eu me declarei inimigo, mandarei matar a todos, ainda que sinta
compaixão da vossa idade e da vossa beleza. Não delibereis. Não há meio-termo
entre obedecer-me ou perder a vida no meio dos tormentos.
Depois de ter assim falado, ele mandou trazer todos os instrumentos de
suplícios, os mais horríveis, a fim de incutir o terror no espírito daqueles sete
irmãos, para que fizessem o que ele desejava. Vieram rodas, caldeiras, grelhas,
unhas de ferro, tenazes, açoites e todos os instrumentos que a crueldade mais
horrível pode inventar e que não se podia contemplar, sem estremecer. Então o
príncipe disse-lhes: Tremei, jovens! Se temeis fazer algo contrário à vossa
religião, quem vos poderá censurar, pois a isso fostes obrigados? Aqueles fiéis
servidores de Deus, porém, em vez de se deixarem persuadir por essas
palavras, e se acovardarem pelo terror de tantos tormentos, não somente não se
sentiram abatidos pelo temor, mas reafirmaram ainda mais a sua resolução de
resistir; só assim venceram a crueldade desse príncipe.
Se algum dentre os nossos tivesse perdido o ânimo, teria dito estas
palavras aos outros: Miseráveis que somos! Perdemos então o juízo? O rei nos
pede e nos promete recompensas se fizermos o que ele nos ordena e em vez de
obedecer-lhe, nós nos obstinamos por pensamentos vãos de generosidade,
numa resistência que nos custará a vida, como castigo de nossa ousadia? É
possível, meus irmãos, que tantos tormentos não nos assustem e não nos levem
dessa loucura? Não teremos compaixão de nós mesmos, quando em nossa
juventude, apenas começamos a gozar as doçuras da vida e não teremos
também piedade da velhice de nossa mãe? Deus é muito bom, para nos perdoar
o que o temor das ameaças do rei nos terá obrigado a fazer. Não sejamos, pois,
os assassinos de nós mesmos, não mostremos por vaidade não temer tão
horríveis sofrimentos, mas cedamos a uma necessidade inevitável. Pois que a lei
não nos permite darmos a morte, para nos isentarmos dos maiores tormentos,
que vantagem teremos de nos expormos a eles, quando nada a isso nos obriga,
e o rei nos exorta a conservar a vida?
Mas, embora esses jovens se vissem prestes a sofrer tais torturas, a razão
reinava de tal modo sobre seus sentidos e dava-lhes tal desprezo pelo
sofrimento, que bem longe estavam de pensar e de dizer algo de semelhante.
Antíoco apenas os tinha exortado a comer daquela carne, de que se não podiam
servir sem manchar a alma, e todos juntamente, como se tivessem uma só voz,
animados pelo mesmo espírito, responderam-lhe: É em vão que pretendeis nos
persuadir a vos obedecer. Estamos resolvidos a morrer antes que violar as leis
dadas por Moisés a nossos antepassados. Nós teríamos vergonha de ser
descendentes deles se não as observássemos. Deixai, pois, de nos aconselhar a
cometer tão grande crime; deixai de nos dar, sob pretexto de bondade, provas
de vosso ódio; a morte nos parece muito mais suave do que essa cruel
compaixão que nos quer salvar a vida à custa de nossa salvação. Julgais
assustar-nos com vossas ameaças, como se pudesse haver maiores tormentos
do que os que a vossa horrível desumanidade fez sofrer a Eleazar e que nos
prepara também para nós? Se não há torturas que a piedade desse santo
ancião não o tenha feito sofrer, com constância, nossa juventude nos torna
ainda mais capazes de as desprezar e de as sofrer, para obtermos, imitando-o,
uma coroa semelhante à sua. Experimentai então, se puderdes, fazer também
morrer nossas almas, porque elas querem permanecer fiéis a Deus, e não vos
vanglorieis da esperança de poder abater nossa coragem pelo que sofrerão
nossos corpos, pois que nossa paciência, unida a esses sofrimentos, nos fará
vitoriosos desse combate? Ao passo que a justiça de Deus vos castigará com
tormentos eternos, por ter tão injustamente manchado vossas mãos no nosso
sangue.",