Livro Único 1 Flávio Josefo
Capítulo 2 Flávio Josefo
,
"MARTÍRIO DO SANTO SUMO SACERDOTE ELEAZAR.",
"Para executar esse desígnio tão tirânico, o cruel príncipe subiu a um lugar
elevado, acompanhado pelos mais importantes da sua corte e por todos os
soldados, com armas. Em seguida, mandou reunir os judeus e ordenou-lhes
que comessem a carne dos porcos que ele tinha imolado aos seus ídolos, em
sacrifícios abomináveis, sob pena de morte nas rodas, caso recusassem a
obedecer-lhe. Eleazar foi um dos que se lhe apresentaram. Ele era de família
sacerdotal, muito instruído nas nossas leis e nos nossos costumes, venerável
por sua idade e conhecido de todos por suas virtudes. Antíoco, depois de o ter
observado, disse-lhe: Não espereis que os tormentos vos obriguem a fazer o
que eu ordeno, mas procureis salvar a vossa vida, obedecendo-me. A compaixão
que tenho de vossa idade, vendo que ainda não estais desiludido de vossa falsa
religião, faz-me dar-vos este conselho. Poder-se-á sem extravagância sentir
horror por uma carne que é muito boa e não desprezar somente por uma
ridícula superstição o favor que a natureza vos faz de vo-la dar, mas desprezar
a mim e correr assim voluntariamente ao suplício?
Desiludi-vos dessa vã sabedoria, obedecei ao que eu vos ordeno e dai-me
assim o meio de vos fazer sentir os efeitos de minha bondade. Quando mesmo
com isso viésseis a desobedecer a vossa lei, ela vo-lo perdoará, se é tão justa
como a julgais, pois que não o fazeis voluntariamente, mas à força.
Antíoco assim falou e permitiu a Eleazar que lhe respondesse deste modo:
Estando certo, majestade, como eu estou da veracidade de minha religião, não
há violência nem tormento que me levem a fazer algo que lhe seja contrário. Vós
estais persuadido de que ela está cheia de erros e eu creio firmemente no
contrário, isto é, que ela é santa e divina. Como ser-me-ia então permitido
renunciar a ela? Vossa majestade não deve imaginar que é pecado leve comer
carnes que entre nós são consideradas como impuras. Não devemos fazer
distinção entre coisas pequenas e grandes quando são proibidas, pois é
desprezar igualmente a lei, não observá-la tanto numa como nas outras. Vós
considerais uma loucura a sabedoria que temos em tão grande estima: é ela
que nos ensina a abraçar a temperança, a amar a justiça, a desprezar a
voluptuosidade e a vencer de tal modo as nossas paixões por uma generosa
resolução de agradar a Deus, que não há tormento que não soframos com
alegria para demonstrar-lhe a fidelidade que lhe devemos, como único Deus,
Eterno e Todo-poderoso. Como então poderíamos comer carnes que nós cremos
impuras, porque Ele nos proibiu, e sua vontade, sendo nossa lei suprema, não
devemos considerar os sentimentos da natureza, quando lhe são opostos? Ele
nos permite comer o que sabe que nos é próprio, proíbe-nos comer o que sabe
nos ser prejudicial, e não se pode, sem exercer sobre nós uma injusta violência,
obrigar-nos a desobedecer-lhe. Censurai, pois, majestade, o meu proceder
quanto quiserdes; eu não deixarei de observar as leis dadas por Deus a nossos
antepassados e a conservar inviolavelmente o nosso juramento. Quando me
arrancásseis os olhos, quando me rasgásseis as entranhas, minha velhice não
impedirá que, para cumprir o que eu devo a Deus, encontreis em mim todo o
entusiasmo da mais corajosa e da mais vigorosa juventude. Preparai, pois,
corajosamente as rodas, acendei os fogos e vereis se minha idade é capaz de
algo fazer de contrário ao que nossos pais tão religiosamente observaram.
Santas leis, de onde tirei a minha instrução, jamais eu vos hei de desobedecer.
Cara continência, que tornais pura a minha alma e meu corpo, casto, jamais
hei de renunciar a vós. Sábia resolução que fortificais meu coração, jamais me
envergonharei de vos haver tomado. Veneravel sacrificadura, que dais a
compreensão da lei, jamais deixarei de vos homenagear e reunir-me-ei aos
meus antepassados no céu, porque desprezarei até à morte todos os tormentos
com que me querem atemorizar.
Depois que Eleazar respondeu deste modo, Antíoco fez seus guardas
despojarem-no de suas vestes, atacarem-no e vergastá-lo até fazer sangue; um
arauto clamava ao mesmo tempo que ele obedecesse ao rei. Embora, porém,
seu sangue corresse de todos os lados e seus ossos estivessem a descoberto,
nada foi capaz de quebrar a sua constância e firmeza e ele estava tão tranqüilo
como se dormisse profundo sono. Ele somente levantava os olhos para o céu;
seu corpo não podia mais resistir à violência de tantas dores; caiu então por
terra, sem que sua alma se abatesse. Um daqueles cruéis soldados pisou-lhe o
ventre, para obrigá-lo a se levantar, mas o santo velho, desprezando tudo o que
lhe podiam fazer sofrer, venceu pela sua constância a crueldade daqueles
ímpios e os obrigou a admirar-lhe a resolução e coragem.
Sua velhice causou compaixão aos que acompanhavam o rei e alguns
gritaram-lhe: Que imprudência vos leva, Eleazar, a sofrer tantos tormentos,
quando poderíeis evitá-los? Só tendes, para vos salvardes, que comer a carne
que vos é apresentada. Então esse verdadeiro servo de Deus, que se havia
calado nas maiores dores, disse: Eu seria muito indigno de ser descendente de
Abraão, se quisesse seguir tão mau conselho, como o que vós me dais. Não
seria loucura ter vivido até agora no amor da verdade e ter posto toda a minha
glória em observar nossas santas leis, para abandoná-las na velhice, comendo
de uma iguaria que eu não poderia saborear, sem cometer um sacrilégio? Deus
me livre de comprar com um tão grande crime a prolongação desse pouco de
tempo que me resta de vida e de me expor, com essa covardia, à zombaria de
todo o mundo.
Depois de terem feito tudo para persuadir ao bom velho, viram que sua
constância era invencível; atiraram-no ao fogo, aproximando-lhe do nariz os
cheiros mais nauseabundos. Quando o fogo o queimou até os ossos, e ele
estava prestes a exalar o último suspiro, ainda dirigiu a Deus uma oração
nestes termos: Senhor, em quem ponho todas as minhas esperanças e toda a
minha salvação, e que vedes o que eu sofro, vós sabeis que eu padeço tantos
tormentos unicamente para não desobedecer à vossa santa lei. Tende
compaixão do vosso povo, contentai-vos de satisfazer sobre mim a vossa justiça,
purificai-o por meu sangue e salvei a vida a todos os outros, tomando a minha.
Terminando esta oração, ele morreu e mostrou como tudo o que dissemos é
verdadeiro, isto é, que a razão domina as paixões, pois se fosse por elas
vencida, com esse generoso ancião teria podido decidir-se a sofrer tantos
tormentos? Devemos, pois, confessar que é a razão que nos torna capazes de
desprezar as dores e de triunfar sobre a voluptuosidade.
No meio da tempestade que as ameaças do tirano e a crueldade de tantos
e tão diversos suplícios excitaram nos sentidos desse admirável mártir, sua
razão, como um excelente piloto, conservou sempre tão firmemente o leme, que
o furor dos ventos e das vagas não puderam afastá-lo da verdadeira rota e ele
levou, com rara felicidade, seu barco ao porto de uma vida gloriosa e imortal.
Essa mesma força invencível da razão pode-se ainda comparar a uma fortaleza,
cuja resistência vence todos os esforços e todas as máquinas, que o furor de um
grande rei empregou inutilmente para delas se apoderar. Oh! bem-aventurado
ancião, verdadeiramente digno de honra do sacerdócio, não manchastes vossos
lábios com essas carnes abomináveis de que não se poderia comer sem
impieda-de. Oh! verdadeiro observante da lei! Oh! espírito cheio daquela
sabedoria celeste, que só se conquista pela meditação contínua da Palavra de
Deus, é assim que aqueles que são chamados ao ministério do altar devem,
derramando seu sangue, dar testemunho da própria fé; é assim que eles devem
combater até a morte, para defendê-la. Vós nos ensinais, por vossa constância,
a tudo sofrer para merecer a mesma glória. Nada foi capaz de abalar vossa
santidade e confirmais com vossas ações a verdade das palavras que vos
inspirava uma sabedoria toda divina. Ilustre ancião, vós vos colocastes acima
dos tormentos mais temíveis, o fogo, assaz poderoso como é, foi obrigado a vos
ceder. Do mesmo modo que Aarão, correndo com o turíbulo na mão, deteve o
anjo que estava prestes a exterminar todo o povo, assim, esse digno sucessor
desse soberano sumo sacerdote, ainda que estivesse no meio das chamas, não
mudou de sentimentos; sua velhice nada diminuiu de sua energia e tendo seu
corpo já destruído, os nervos descobertos, ele elevou-se com o pensamento à
pátria celeste. Oh! velhice, como sois ilustre! Oh! cabelos brancos, como sois
venerados! Oh! vida, passada toda numa fiel observância da lei do Senhor,
como sois feliz de ter até o último suspiro tão generosamente desprezado todos
os males da terra e mostrado com vossa morte a pureza de vossa fé.",