Relato de Filon Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
Relato de Fílon",
"Prefácio de Fílon",
"Até quando uniremos a velhice com a infância e seremos, de cabelos
brancos, tão imprudentes como as crianças? Que maior imprudência pode
haver do que considerar a fortuna como coisa certa, embora nada haja de mais
inconstante, e considerar esta natureza imutável, como se ela estivesse sujeita
a contínuas mudanças? Não seria inverter a ordem, como se se brincasse com
dados, encarando assim as coisas incertas como mais firmes e duradouras do
que as certas? A razão de tal erro vem de que os objetos presentes
impressionam muito mais os homens pouco experimentados do que os objetos
afastados, e eles prestam mais fé aos sentidos, ainda que enganadores, do que
às reflexões que seu espírito poderia fazer, porque nada é mais fácil do que se
deixar levar pelo que se apresenta aos nossos olhos; ao passo que é preciso
raciocínio para se compreender as coisas futuras e as invisíveis. Não é que a
alma tenha a vista mais penetrante que o corpo, mas alguns aguçam-na pela
sua intemperança no comer e no beber, e outros, por sua estupidez, que é o
maior de todos os defeitos.
Tantos fatos tão extraordinários, acontecidos em nosso século, obrigam-
nos a crer que há uma Providência, e que Deus cuida dos homens virtuosos que
a Ele recorrem em suas necessidades e, particularmente, daqueles que são
consagrados ao seu serviço. Eles são como uma herança desse supremo
soberano, cujo império não tem limites. Os caldeus dão-lhes o nome de Israel,
isto é, que vêem a Deus; o que é uma felicidade preferível a todos os tesouros da
terra, pois se a presença daqueles que a idade torna veneráveis, de nossos
preceptores, de nossos superiores, e de nossos parentes nos incute tal respeito,
que nos corrige de nossos defeitos e nos leva à virtude, que vantagem não é,
para nos fortalecer, elevarmos nossa alma acima de todas as coisas criadas,
para nos acostumarmos a considerar a Deus, que não somente é incriado, mas
infinitamente bom, infinitamente belo, infinitamente feliz, ou melhor, cuja
bondade sobrepuja a toda bondade; cuja beleza, a toda beleza e cuja felicidade,
a toda felicidade, o que explica apenas imperfeitamente a sua grandeza? Como
as palavras seriam capazes de o representar, se Ele é tão superior a tudo que
depois dos esforços do nosso espírito para se elevar a Ele, como por outros
tantos degraus, pelos atributos que lhe dá, é até obrigado a voltar atrás, sem
poder se aproximar dEle e sem poder conhecê-lo, porque Ele é de tal modo
incompreensível, que mesmo quando todas as criaturas se tivessem mudado
em tantas línguas, não poderiam exprimir o soberano poder, pelo qual Ele criou
todas as coisas, o proceder real digno de um monarca eterno, pelo qual
conserva o mundo, e a justa distribuição das recompensas e dos sofrimentos
que fazem, que se possam colocar mesmo seus castigos no número dos
benefícios, não somente como fazendo parte da justiça, mas porque eles servem
freqüentemente para converter os pecadores, ou pelo menos para impedir que
continuem em seus crimes, pelo temor dos castigos que vêem os outros sofrer.",
"