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O Martirio Dos Macabeus Flávio Josefo

Capítulo 1 Flávio Josefo

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O Martírio Dos Macabeus",
"Prefácio de Josefo",
"Tendo me determinado escrever, para mostrar que a razão, acom panhada
pela virtude e pela piedade, domina as paixões, peço a atenção de todos os que
lerem o que se segue. O assunto o merece, pois nos é muito importante
sabermos que a razão nos fornece armas para vencer, pela temperança, a gula e
a impureza; pela justiça, a injustiça e a malícia, e pela generosidade, a covardia
e o temor.
Mas, dir-se-á, se a razão domina as paixões, por que não se torna ela
também senhora da ignorância e do olvido? Esta questão é de pouca
importância. Pois o juízo não pode vencer os defeitos, que se encontram em si
mesmo, embora sobrepuje pela razão as paixões contrárias à temperança, à
justiça e à generosidade e a razão não as domina, destruindo-as, mas não se
conformando com elas.
Ser-me-ia fácil mostrar por meio de vários exemplos que é muito verdade
que ela domina as paixões. Mas nada pode provar mais claramente que a
constância invencível com que Eleazar, sete irmãos e sua virtuosa mãe, por
meio de ações heróicas de virtude, deram suas vidas pela defesa da própria fé e
mostram até o último respiro pelo desprezo dos tormentos mais horríveis, que a
razão, quando é acompanhada pela virtude e pela piedade, domina as paixões.
Contentar-me-ei, portanto, de relatar essa história, pois que a coragem e a
paciência desses generosos mártires não somente foram admirados por
testemunhas de seu suplício, mas por seus próprios algozes; e tendo vencido
por sua constância a crueldade de um príncipe tão cheio de furor, seu
sofrimento trouxe tranqüilidade para sua pátria.
Vou, porém, retomar meu primeiro discurso, para dar a glória que é
devida à sabedoria infinita de Deus. Trata-se então de saber: se a razão é
senhora das paixões; o que é a razão, o que são as paixões, qual a diferença
entre elas e se a razão domina a todas.
A razão outra coisa não é que a justeza do espírito unida a uma sabedoria
que nos serve de regra em nosso proceder e em nossas ações. A sabedoria
consiste no conhecimento das coisas divinas e humanas. Esse conhecimento
mesmo nos dá a compreensão de nossa lei, nos ensina a reverenciar a Deus,
nos instrui sobre o que é útil ao bem geral de todos os homens. A temperança,
a justiça, a prudência e a generosidade são efeitos dessa sabedoria, mas a
prudência eleva-se acima das outras e é por ela que a razão domina as paixões.
Entre essas paixões há duas que compreendem todas as demais: o prazer e a
dor; embora pertençam ao corpo, ele não as abriga, que por causa de sua
relação com a alma, que, por seu lado, também tem seu prazer e sua dor.
Outras paixões acompanham estas. O desejo precede o prazer e a alegria o
segue. O temor precede a dor e a tristeza a segue; a cólera é uma paixão que se
refere ao prazer e à dor. Ela nos leva a destruir o que nos priva de algum prazer
e nos irrita contra o que nos causa dor.
Quando a voluptuosidade chega a se tornar um mau hábito, causa
diversas paixões espirituais e corporais. O espírito deixa-se levar à vaidade, à
ambição, à inveja, à teimosia, e o corpo aos excessos da boca. Essas más
plantas produzem vários rebentos que a razão, como um sábio jardineiro
corrige e corta, como sendo guia das virtudes e senhora das paixões. Começa
por reprimir as que são contrárias à temperança, combate os maus desejos,
quer espirituais, quer corporais, e vence a uns e outros; é por ela que nos
abstemos de comer coisas que a lei proíbe e nos moderamos nas de que nos
permite o uso, por mais repugnância que o corpo sinta; tanto é verdade que
seus movimentos desregrados são reprimidos pela temperança, que a razão nos
torna amável.
Poderíamos nos admirar de que essa mesma razão tenha também o poder
de vencer as mais violentas paixões da alma, e apagar o fogo que o amor da
beleza acende? Quem, entretanto, pode duvidar de que ela não opere com esse
poder, pois, não louvaríamos tanto a castidade de José, se no ardor de sua
juventude ela não lhe tivesse feito dominar os atrativos da voluptuosidade?
A razão não apenas vence as paixões agradáveis, mas de todas ela sai
vencedora: Por isso a lei diz: Não desejareis a mulher do próximo nem algo que
lhe pertença. Como a lei nos proíbe desejar, não é claro que ela nos julga
capazes de vencer nossos desejos e as paixões que são contrárias à justiça? Do
mesmo modo, se a razão não dominasse as paixões, como os que são levados à
gula poder-se-iam corrigir desse vício? Como aqueles que naturalmente são
avarentos poder-se-iam resolver a emprestar sem juros? Mas lembrando-se de
que a lei proíbe a usura e todos os outros ganhos ilícitos, eles reprimem pela
razão o desejo do lucro. Podemos julgar do mesmo modo nas outras coisas que
a lei determina que a razão domina as paixões. Assim, por maior respeito que
tenhamos por nossos pais, a obrigação de obedecermos à lei impede-nos que
façamos algo para agradá-los, contrário à virtude; por maior amor que
tenhamos para nossas esposas não deixamos de repreendê-las por seus
defeitos; por maior ternura que sintamos por nossos filhos, ela não nos impede
castigá-los para corrigi-los de suas faltas; por mais amizade que tenhamos por
nossos amigos, não deixamos de censurá-los quando fazem o mal; e o que é
ainda mais difícil, não somente nos não vingamos de nossos inimigos, nem lhes
cortamos as árvores frutíferas, mas se encontramos o que eles perderam nós
lhes restituímos, e não lhes recusamos nosso auxílio em suas necessidades,
como por exemplo, ajudando-os a levantar os animais nalguma queda.
A razão torna-se assim senhora das paixões, até das mais violentas, como
a ambição, a vaidade, a inveja e o ódio. Por isso Jacó, nosso pai, cuja bondade e
sabedoria não podemos estimar assaz, repreendeu severamente a Simeão e Levi
pela matança que haviam feito entre os siquemitas, dizendo: Que vossa cólera
e furor, por que vos deixastes levar, sejam malditos. Como poderia ter ele
falado desse modo se a razão não tivesse sobrepujado em seu coração o
ressentimento pelo ultraje feito à sua filha?
Quando Deus, criando o homem, com uma só palavra, deu-lhe o livre-
arbí-trio, rodeou-o e o revestiu de diversas paixões, colocou seu espírito sobre
um trono, para dominá-las e deu-lhe depois leis, por meio das quais ele poderia
fazê-lo e outrossim reinar sobre elas a temperança, a bondade e a justiça. Como
então poder-se-ia dizer: se a razão é senhora das paixões, por que não é
também dominadora da ignorância e do olvido? Essa pergunta não é
extravagante, pois é evidente que o entendimento que forma nossa razão não
pode, como eu disse, ser vitorioso sobre si mesmo, mas somente sobre as
paixões? Podemos ter más inclinações, mas a razão nos dá força de vencê-las.
Nós não poderíamos não ter desejos, mas a razão pode nos impedir de segui-
los. Nós não poderíamos deixar de ser movidos pela cólera, mas a razão pode
nos conter, para não nos deixarmos levar por ela. Nós não poderíamos nos
despojar de nossas paixões, mas a razão pode resistir-lhes. Davi disso nos dá
um belo exemplo: Depois de ter, durante todo o dia perseguido os inimigos,
matou um grande número deles, voltou à noite para sua tenda, cansadíssimo e
com muita sede. Todos os seus puseram-se a comer e por mais ardente que
fosse a sede e embora houvesse ali fontes e nascentes, ele não quis beber
porque estava resolvido a matar a sede com a água de uma fonte que ainda
estava em poder dos inimigos. Três daqueles valorosos oficiais, que jamais o
abandonavam, comovidos por vê-lo sofrer tanto e sabendo do seu desejo,
tomaram as armas e um vaso, atravessaram as defesas do inimigo e sem que os
guardas percebessem, passaram pelo seu acampamento, chegaram à fonte,
encheram o vaso e o trouxeram ao seu rei. Então, embora o grande rei ardesse
de sede, julgou não poder, sem impiedade, beber de uma água que ele
considerava como sendo o mesmo sangue, porque aqueles que a tinham trazido
tinham se exposto para consegui-la, ao risco de perder a vida. Assim resistindo
pela razão ao seu desejo, ele a derramou e ofereceu a Deus. Vê-se, pois, por
estas palavras, que não há paixão que a razão não possa dominar, nenhum
ardor que ela não seja capaz de extinguir, nenhuma dor que ela não tenha a
força de superar e nenhuma luta de paixões de que não seja vitoriosa.",
"