O que os manuscritos gregos revelam
O anjo que fortaleceu Jesus e o suor como gotas de sangue
Há uma questão relacionada ao texto do Evangelho de Lucas que costuma gerar muitas dúvidas entre estudantes da Bíblia:
Lucas 22:43-44 fazia parte originalmente do Evangelho de Lucas?
Os versículos descrevem um momento particularmente intenso da oração de Jesus no monte das Oliveiras. Segundo o texto tradicional, um anjo aparece para fortalecê-lo, e Jesus, estando em agonia, ora ainda mais intensamente, enquanto seu suor se torna como grandes gotas de sangue que caem sobre a terra.
A questão não é se esses versículos existem em grego. Eles existem em numerosos manuscritos gregos. A questão é outra:
Eles estavam no texto que Lucas originalmente escreveu?
Essa é uma questão de crítica textual, isto é, do estudo comparativo dos manuscritos antigos para verificar qual leitura possui maior probabilidade de representar o texto mais antigo.
1. O que dizem Lucas 22:43-44?
Na forma tradicional do texto, encontramos:
“E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. E, estando em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue que caíam sobre a terra.”
O grego apresenta:
καὶ ὤφθη αὐτῷ ἄγγελος ἀπ’ οὐρανοῦ ἐνισχύων αὐτόν.
E:
καὶ γενόμενος ἐν ἀγωνίᾳ ἐκτενέστερον προσηύχετο·
Seguido de:
καὶ ἐγένετο ὁ ἱδρὼς αὐτοῦ ὡσεὶ θρόμβοι αἵματος καταβαίνοντες ἐπὶ τὴν γῆν.
Portanto, não estamos diante de palavras que simplesmente “não existem no grego koiné”.
A passagem possui texto grego e foi transmitida por diversos manuscritos gregos.
O problema é determinar se essa leitura é original de Lucas ou se entrou na tradição manuscrita em algum momento posterior.
2. Por que algumas Bíblias colocam esses versículos entre colchetes?
Quando diferentes manuscritos antigos apresentam diferentes leituras, os tradutores precisam decidir como representar essa evidência.
Por isso, algumas traduções modernas apresentam Lucas 22:43-44 normalmente, mas acrescentam uma nota informando que alguns manuscritos antigos não possuem esses versículos.
Em outras edições, os versículos aparecem entre colchetes.
Isso não significa necessariamente que os tradutores estejam dizendo:
“Esses versículos são falsos.”
O objetivo é informar ao leitor que existe uma variante textual significativa.
A própria existência dessa variante é reconhecida por diferentes edições e traduções do Novo Testamento.
3. O testemunho do Papiro 75
Um dos testemunhos mais importantes nessa discussão é o Papiro 75 (P75).
O P75 é um manuscrito grego dos Evangelhos, geralmente datado do século III. O catálogo do Center for the Study of New Testament Manuscripts o identifica como um papiro do século III, contendo os Evangelhos e atualmente relacionado à Biblioteca do Vaticano.
O P75 é particularmente importante porque preserva uma parte extensa do Evangelho de Lucas.
E nele Lucas 22:43-44 não aparece.
Isso chama atenção porque se trata de um testemunho antigo do texto de Lucas.
4. O Códice Vaticano também não possui os versículos
Outro testemunho muito importante é o Códice Vaticano (B), geralmente datado do século IV.
Ele também não apresenta Lucas 22:43-44.
Assim, temos dois testemunhos gregos antigos importantes que não apresentam essa passagem:
- Papiro 75;
- Códice Vaticano.
Também existem outros manuscritos que não apresentam os versículos.
Entre os testemunhos que omitem a passagem estão P69, P75, א em uma determinada fase de correção, A, B, N, T, W e outros manuscritos.
5. E o Códice Sinaítico?
Aqui a questão fica ainda mais interessante.
O Códice Sinaítico (א) é um dos manuscritos gregos mais importantes e antigos do Novo Testamento.
Lucas 22:43-44 aparece no texto escrito pelo escriba original do manuscrito.
Porém, posteriormente, um corretor marcou essa passagem como problemática e ela foi retirada nessa revisão.
Mais tarde, outro corretor voltou a restaurar o texto.
Assim, o próprio Códice Sinaítico preserva uma espécie de “história” da discussão textual:
o escriba original incluiu → um corretor questionou/retirou → outro corretor restaurou.
Esse detalhe é extremamente importante porque demonstra que a dúvida sobre esses versículos é muito antiga.
Não é uma discussão inventada pelos tradutores modernos.
O próprio manuscrito antigo mostra que leitores e copistas antigos já estavam discutindo a presença desses versículos.
6. Existem manuscritos gregos que possuem Lucas 22:43-44?
Sim.
E isso precisa ser enfatizado.
Seria incorreto afirmar:
“Lucas 22:43-44 não está nos manuscritos gregos.”
Isso não corresponde à evidência.
Há vários manuscritos gregos que apresentam os versículos.
Entre eles estão testemunhos como:
- Códice Sinaítico, na leitura do primeiro escriba;
- Códice Bezae (D);
- Códice Regius (L);
- Códice Cyprius (K);
- manuscrito 0171;
- Família 1;
- diversos manuscritos posteriores;
- e a tradição manuscrita bizantina.
Há, portanto, evidência grega tanto para a inclusão quanto para a omissão.
7. O Códice Bezae também é importante
O Códice Bezae (D) apresenta Lucas 22:43-44.
Esse manuscrito é particularmente interessante porque é um testemunho antigo do texto dos Evangelhos.
Portanto, a evidência não pode ser resumida simplesmente da seguinte maneira:
“Os manuscritos antigos não possuem esses versículos.”
Isso seria exagerado.
A afirmação correta é:
Alguns dos mais antigos e importantes testemunhos manuscritos omitem Lucas 22:43-44, enquanto outros testemunhos antigos os preservam.
Essa é uma descrição muito mais fiel da situação.
8. O que exatamente significa “variante textual”?
Uma variante textual ocorre quando os manuscritos existentes apresentam diferenças entre si.
Isso é algo esperado quando estamos trabalhando com documentos copiados manualmente durante muitos séculos.
Por exemplo, um manuscrito pode apresentar determinada frase enquanto outro manuscrito pode:
- omitir a frase;
- acrescentar a frase;
- apresentar uma palavra diferente;
- apresentar uma ordem diferente;
- ou apresentar uma correção feita posteriormente.
O trabalho da crítica textual é comparar essas testemunhas.
Não se trata simplesmente de contar manuscritos.
Um manuscrito do século XV não necessariamente possui o mesmo peso histórico que um testemunho do século II ou III.
Por isso, os estudiosos consideram vários fatores:
- antiguidade do manuscrito;
- qualidade e características do manuscrito;
- distribuição geográfica da leitura;
- relação entre os manuscritos;
- características linguísticas;
- contexto literário;
- possibilidade de explicar como uma leitura poderia ter originado a outra.
9. Por que alguém teria acrescentado esses versículos?
Essa é uma das perguntas mais importantes.
Se os versículos não fossem originalmente de Lucas, como poderiam ter entrado no texto?
Uma possibilidade discutida na crítica textual é que os versículos tenham sido acrescentados muito cedo à tradição manuscrita.
Nesse caso, alguém teria transmitido uma tradição sobre a agonia de Jesus e ela teria sido incorporada ao texto de Lucas.
Há também uma questão interessante relacionada ao conteúdo.
Lucas enfatiza diversas vezes a oração de Jesus. Portanto, a descrição de Jesus orando intensamente em sua agonia se encaixa muito bem no estilo e nos temas do Evangelho.
Por outro lado, justamente por ser uma descrição tão forte da humanidade e do sofrimento físico de Jesus, alguns estudiosos também discutem a possibilidade de que tenha ocorrido o contrário:
o texto poderia ser original e posteriormente ter sido retirado por algum copista.
Essa possibilidade também precisa ser considerada.
10. Poderiam os versículos ter sido retirados?
Sim.
Essa é uma das principais possibilidades discutidas.
Se Lucas 22:43-44 fosse originalmente parte do Evangelho, seria possível que algum copista tivesse omitido a passagem.
Por que isso poderia acontecer?
Existem algumas hipóteses.
Uma delas está relacionada à teologia cristológica.
O texto mostra Jesus em intensa agonia, sendo fortalecido por um anjo e orando mais intensamente.
Alguns estudiosos levantaram a possibilidade de que determinados copistas tenham considerado essa descrição problemática ou inadequada para determinadas concepções sobre a natureza de Cristo.
Entretanto, é importante fazer uma distinção:
isso é uma explicação proposta para a origem da variante, não algo que possa ser apresentado como fato comprovado sobre a intenção de determinado copista.
Não temos como afirmar com certeza:
“O copista retirou os versículos porque não acreditava na divindade de Cristo.”
Isso seria ir além das evidências disponíveis.
11. Existe outro detalhe interessante: a passagem aparece em diferentes lugares
A tradição manuscrita apresenta ainda outra característica interessante.
Alguns manuscritos relacionados à Família 13 colocam Lucas 22:43-44 em outra posição, relacionada ao relato paralelo da oração de Jesus.
Isso mostra que a discussão não envolve apenas:
“tem ou não tem?”
Há também testemunhos que preservam a passagem, mas a colocam em uma posição diferente.
Essa movimentação textual é uma das razões pelas quais os estudiosos analisam cuidadosamente a transmissão da passagem.
12. E quanto ao suor “como gotas de sangue”?
A segunda parte da passagem é especialmente conhecida:
“e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue que caíam sobre a terra.”
Aqui também existe uma questão textual.
O grego utiliza a expressão:
ὡσεὶ θρόμβοι αἵματος
que pode ser entendida como:
“como gotas/coágulos de sangue”.
O termo ὡσεὶ (hōsei) significa “como”, “semelhante a” ou “como se fosse”.
Isso é importante.
O texto não precisa necessariamente significar que o suor de Jesus era literalmente sangue.
A construção grega apresenta uma comparação:
o suor tornou-se como gotas de sangue.
Portanto, é necessário ter cuidado para não transformar uma comparação textual em uma afirmação médica que o texto não faz.
13. Lucas 22:43-44 contradiz a divindade de Cristo?
Não.
Mesmo que alguém considere a passagem original, ela não precisa ser entendida como uma negação da divindade de Jesus.
O Novo Testamento apresenta simultaneamente a divindade e a humanidade de Cristo.
Por exemplo, Filipenses 2:6-8 apresenta Cristo em condição divina e, ao mesmo tempo, descreve sua humilhação e sua condição humana.
No próprio Evangelho de Lucas, Jesus é apresentado em profunda dependência de Deus em oração.
Portanto, a existência de Lucas 22:43-44 não precisa ser interpretada como uma oposição entre:
Jesus divino
e
Jesus humano.
A passagem pode ser entendida dentro da apresentação neotestamentária da encarnação e do sofrimento de Cristo.
14. Então os versículos são originais ou não?
Aqui precisamos ser honestos com a evidência.
Existe uma variante textual real.
Alguns dos mais antigos testemunhos gregos importantes omitem Lucas 22:43-44.
Ao mesmo tempo, outros manuscritos antigos preservam a passagem, inclusive o primeiro escriba do Códice Sinaítico e o Códice Bezae.
Portanto, não é correto afirmar simplesmente:
“A Bíblia moderna inventou Lucas 22:43-44.”
Também não é correto afirmar:
“Todos os manuscritos antigos possuem esses versículos.”
Nenhuma dessas afirmações representa adequadamente a evidência.
A questão é mais complexa.
15. O que podemos afirmar com segurança?
Podemos estabelecer alguns pontos:
1. Lucas 22:43-44 existe em grego
Os versículos possuem texto grego e foram transmitidos em numerosos manuscritos.
2. Há manuscritos gregos antigos que os omitem
Entre os testemunhos importantes estão P75 e o Códice Vaticano.
3. Há manuscritos antigos que os incluem
O primeiro escriba do Códice Sinaítico os incluiu, assim como o Códice Bezae e outros testemunhos.
4. A dúvida é muito antiga
A própria história de correções no Códice Sinaítico demonstra que a passagem já era objeto de dúvida na antiguidade.
5. Não devemos confundir crítica textual com rejeição da Bíblia
A crítica textual procura justamente estudar os manuscritos existentes para compreender como o texto foi transmitido.
16. Por que algumas Bíblias mantêm os versículos?
Porque diferentes tradições textuais e diferentes avaliações da evidência podem produzir decisões editoriais diferentes.
Algumas edições preferem manter os versículos no texto principal e informar a variante em nota.
Outras colocam a passagem entre colchetes ou fazem uma observação mais explícita.
Isso permite que o leitor saiba que existe uma diferença entre os testemunhos manuscritos.
A existência da nota de rodapé, portanto, não significa que a Bíblia esteja “perdendo” um texto.
Ela significa que o tradutor está sendo transparente sobre a evidência manuscrita.
17. O que podemos aprender espiritualmente com a passagem?
Mesmo quando estudamos uma questão de crítica textual, não precisamos ignorar o significado teológico da passagem.
Lucas apresenta Jesus no momento que antecede sua prisão.
Ele sabe o que está para acontecer.
Ele ora.
Ele se submete à vontade do Pai.
E o texto tradicional descreve um anjo fortalecendo-o em sua agonia.
Isso apresenta uma imagem extremamente profunda do sofrimento de Cristo.
Mas devemos separar duas perguntas:
Pergunta textual:
Lucas escreveu originalmente esses dois versículos?
Pergunta teológica:
O que a passagem ensina sobre Jesus, sua oração, seu sofrimento e sua submissão ao Pai?
As duas perguntas são relacionadas, mas não são exatamente a mesma pergunta.
18. Conclusão
Lucas 22:43-44 é uma das passagens mais interessantes para compreender como o texto do Novo Testamento foi transmitido.
Os versículos dizem:
“E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. E, estando em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue que caíam sobre a terra.”
A evidência manuscrita mostra uma situação complexa.
Alguns manuscritos gregos antigos não possuem os versículos, enquanto outros os possuem.
O Papiro 75 e o Códice Vaticano estão entre os importantes testemunhos que os omitem. Por outro lado, o primeiro escriba do Códice Sinaítico os incluiu, e outros manuscritos antigos também os preservam.
Por isso, a afirmação mais cuidadosa não é:
“Lucas 22:43-44 não existe no grego.”
A afirmação correta é:
“Lucas 22:43-44 existe na tradição manuscrita grega, mas sua presença no texto original de Lucas é uma questão de crítica textual, porque importantes manuscritos antigos apresentam a passagem de maneira diferente.”
Essa distinção é fundamental.
Estudar a história dos manuscritos não precisa enfraquecer a fé. Pelo contrário, pode nos ajudar a compreender com mais seriedade como o texto bíblico chegou até nós e por que algumas traduções apresentam determinadas passagens com notas, colchetes ou observações textuais.
Fontes e referências
- Center for the Study of New Testament Manuscripts (CSNTM) — informações sobre manuscritos gregos, incluindo o Papiro 75.
- Evidência manuscrita comparativa de Lucas 22:43-44, incluindo P69, P75, Sinaítico, Vaticano, Bezae e outros testemunhos.
- Texto de Lucas 22:40-44 e notas de tradução.