Apostila
13
CURA
INTERIOR
Parte
I
  1. HISTÓRICO

    A “vida abundante” que Jesus ofereceu aos seus seguidores tem
    sido o objetivo dos mais dedicados cristãos em todas as épocas. Esta
    prometida abundância tem sido usualmente entendida como harmonia interna e
    liberdade espiritual, mais do que abundância material – por razões óbvias.
    A busca por tal liberdade interior tem aparecido sob os mais diversos
    nomes.

    2. O QUE É CURA INTERIOR?

    O fenômeno conhecido como cura interior tem dois objetivos. O seu objetivo
    primário e espiritual é estender o senhorio e poder de cura de Cristo ao
    nosso passado, afetando mesmo a nossa experiência antes da conversão. O
    objetivo secundário e psicológico é portanto nos libertar de qualquer
    cativeiro emocional e psicológico que a nossa experiência passada possa
    ter produzido. Os teóricos da cura interior defendem que os bloqueios
    emocionais e os padrões habituais de comportamento (com os seus frutos
    negativos de frustração, derrota e fraca auto-imagem) nos impedem de
    atingir a vida abundante que Jesus prometeu. Portanto, eles concluem que,
    um esforço especial deve ser feito para curar estas feridas interiores, de
    forma que possamos ser libertos das diversas coisas que podem constringir
    e empobrecer as nossas vidas. Em resumo, o objetivo geral da cura interior
    pode ser descrito como uma espécie de “santificação retroativa”.

    O propósito geral do movimento de cura interior é claramente de natureza
    pastoral. Desta forma, ele defende que a “cura das memórias” normalmente
    ocorra num aconselhamento de base individual, ou em pequenos grupos.
    Considera-se essencial que os dons do Espírito Santo estejam em operação,
    particularmente os dons de discernimento e cura. Ao indivíduo que está
    buscando sua cura será pedido que reviva seu passado através da
    imaginação. Isto geralmente envolve um “retorno” ao
    ponto-problema – um encontro traumático ou assustador que moldou a
    auto-imagem e o comportamento da pessoa e também porque este ponto se
    alojou em camadas profundas de sua psique. À medida em que o
    “paciente” imaginativamente recria o ponto-problema, com toda
    sua intensidade emocional, eles dizem ao paciente para imaginar que Jesus
    está lá (naquela situação). Presume-se que a presença imaginativa de Jesus
    traga Seu amor e poder de cura para relacionamentos perturbados com os
    pais e companheiros, os quais são muito poderosos para que o indivíduo dê
    conta dos mesmos sozinho.

    O que devemos fazer com estes fundamentos, teorias e técnicas que os
    acompanham? Na verdade, o que devemos fazer com os “ministros e
    ministérios da cura interior”? A época em que vivemos, com sua
    orientação voltada para o experiencial, tende a gerar um entusiasmo
    desqualificado por experiências de cura interior dentro de alguns setores
    da comunidade cristã. Infelizmente, esta mesma tendência tem efeito oposto
    em outros cristãos, que vêem como muito suspeitas tais experiências e a
    fascinação acrítica despertada por elas. Na maioria dos casos, não existe
    uma única resposta simples. A época em que vivemos é caracterizada pela
    crescente complexidade da vida em todos os níveis – econômico, material,
    moral e intelectual. À medida em que novas e antigas idéias se proliferam,
    elas influenciam o pensamento cristão de várias formas. Algumas têm mais
    validade que outras; muitas são completamente inaceitáveis. Nós devemos
    estar preparados para encarar conceitos não-familiares e pacientemente e
    em oração desvendar tanto as suas fontes bem como a suas implicações. Este
    processo pode ser frustrante e cansativo, mas sua necessidade é cada vez
    mais crescente.

    Dentro disto, nós podemos comentar que a cura interior é um fenômeno
    complexo e altamente variável. Não é possível nem endossá-la, nem
    condená-la cegamente. É possível, entretanto, identificar e avaliar
    aqueles elementos que influenciam as teorias e as terapias dos que
    praticam a cura interior.
    “Nossa vida interior é uma parte crítica de nossa identidade pessoal,
    e portanto a necessidade para a cura das emoções e memórias sempre fez
    parte da nossa condição humana.”

    3. REDIMINDO A PESSOA INTEGRAL

    A queda da humanidade (Gn.3) introduziu o princípio da morte e decadência
    em todos os níveis da existência humana. O veneno do pecado perpassa cada
    poro do nosso ser. Em seu sofrimento e ressurreição, Cristo venceu a morte
    – não somente fisicamente, mas de todas as formas em que somos afetados
    por ela. Nossa vida interior é uma parte crítica de nossa identidade
    pessoal, e portanto a necessidade para a cura das emoções e memórias
    sempre fez parte da nossa condição humana. O ensinamento e ministério de
    Jesus reconheceram implicitamente esta necessidade, bem como o fez o
    alcance da igreja primitiva. Jesus mesmo falou freqüentemente sobre
    “o coração” (isto é, “a sede oculta da vida
    emocional”) como fonte de pensamento e ação. Ele também citou a
    profecia messiânica de Isaías 61, declarando seu propósito de
    “restaurar o coração partido” (Lc. 4:18). O apóstolo Paulo falou
    repetidamente sobre a renovação da mente no Espírito Santo (Rm. 12:2; Ef.
    4:23).

    O encontro na estrada de Emaús (Lc. 24) pode ser visto (entre outras
    coisas) como uma forma de “cura das memórias”. Se nós tomarmos
    este incidente como um protótipo para o exercício válido desta forma de
    ministério, vários critérios podem ser vistos. Se esta forma de cura tem
    sustentação bíblica, ela não se referirá primariamente às cicatrizes
    emocionais e traumas psicológicos da infância. Muito mais, ela tomará uma
    perspectiva mais ampla, lidando radicalmente com todas as forças da
    ansiedade, medo e incredulidade que produzem pensamento e comportamento
    anti-bíblico. O ponto central da cura interior nesta perspectiva mais
    ampla é a morte sacrificial de Jesus e sua vitória através da ressurreição
    sobre o pecado e a morte, exatamente como aconteceu na estrada de Emaús.
    Deste ponto-de-vista, a cura interior é muito menos um fim em si mesma e
    muito mais um passo preliminar que capacita o cristão a conseguir a
    libertação (Gl. 5:1) e a maturidade espiritual, deixando de lado a forma
    egoísta e infantil de viver (I Co. 13:11-12).

    Os discípulos, apóstolos e crentes do primeiro século conheciam o Cristo
    crucificado e ressurreto como Senhor de toda a história – cósmica (Cl.
    1:15-23), racial (Ef. 2:11-20) e pessoal (Hb. 9:14). À medida em que eles
    seguiam Seu exemplo e a promessa de Sua eterna presença, eles eram
    libertos (e libertavam outros) do pecado, da doença física e psicológica e
    dos problemas emocionais, bem como do medo da morte e da falta de
    esperança que ela produz. Foi-lhes dada radicalmente uma nova base para a
    auto-estima, a qual não está baseada na mentira, ira ou outras formas de
    auto-afirmação. Esta nova base desafiou tanto a religião farisaica como
    sensualidade desenfreada.

    4. A PSICOLOGIA DA PESSOA INTEGRAL

    Existe comunhão entre psicologia e o Cristianismo? Esta questão, em seu
    sentido mais amplo, escapa do objetivo da nossa aula. Entretanto, o
    assunto é pertinente, desde que muito da “cura interior” está
    baseada em visão secular de como a nossa personalidade é formada e
    influenciada.

    Muitos elementos da psicologia secular, entretanto, são mais ambíguos;
    alguns são frontalmente contrários ao pensamento bíblico. Sigmund Freud é
    a maior fonte de tendência a se enfatizar o trauma infantil. Carl Jung foi
    seu aluno e colega que se envolveu superficialmente com ocultismo. Sua
    abordagem sistemática à compreensão da natureza da mente inconsciente se
    tornou influente nos anos 60 e 70. Muito dos conceitos de Jung têm sido
    empregados num modelo “carismático” por pessoas como John
    Sanford e Morton Kelsey. Portanto, Freud e Jung (para não mencionar outros)
    indiretamente ajudaram a delinear muitas das pressuposições do movimento
    de cura interior. Além do mais, algumas das técnicas utilizadas para
    resgatar memórias têm sido tomadas de empréstimos de terapias seculares.
    “Alguns praticantes da cura interior…não somente têm adotado um
    sub-modelo da natureza humana; eles têm permitido que os próprios modelos
    se tornem parâmetros de interpretação da Bíblia.”

    5. ALGUNS PARÂMETROS PARA O DISCERNIMENTO

    À medida em que consideramos estes fundamentos, teorias e técnicas, e
    tentamos pesar suas implicações, nós devemos ter me mente alguns fatores
    críticos. A cura do “interior do homem” é uma premissa
    biblicamente demonstrável. Por esta razão, nós precisamos abordar alguma
    idéias e métodos sobre cura interior com cautela. A admoestação de Jesus a
    seus discípulos de que fossem “prudentes como as serpentes e
    símplices como as pombas” (Mt. 10:16) nos colocará numa posição bem
    firme para que sejamos capazes de identificar as influências sub-cristãs
    sem sermos influenciadas por elas.

    A ênfase exagerada numa certa técnica na vida espiritual facilmente se
    torna uma tentativa de manipulação psíquica, um esforço de produzir uma
    experiência ou um encontro com Deus. Não há nada de intrinsecamente errado
    em se utilizar a imaginação na oração, mas a dependência de invocação
    imaginativa de imagens religiosas pode se tornar insana. O uso do termo
    “visualização de fé” não batiza semanticamente tais práticas. Os
    produtos da imaginação podem também ser convenientemente trazidos para o campo
    do desejo e do ego, enquanto que o Cristo vivo não pode. Uma ênfase
    extremada na confissão verbalizada pelo crente no movimento da
    “palavra da fé” é outro ensino aberrante o qual, sutilmente, se
    torna uma espécie de ocultismo. Nestas formas exageradas, a visualização
    da fé cria um “video-interior de Jesus”, o qual pode ser
    manipulado para quase qualquer sentido.
    Da mesma forma, devemos estar atentos para os modelos psicológicos que se
    baseiam em visões anti-bíblicas da natureza humana. É também necessário
    identificar e rejeitar tecnologias terapêuticas que são utilizadas para
    sustentar tais modelos. Alguns praticantes de cura interior, infelizmente,
    não somente têm adotado um sub-modelo da natureza humana; eles têm
    permitido que os próprios modelos se tornem parâmetros de interpretação da
    Bíblia. Tais práticas se situam entre a aberração e a apostasia.

    Como já dissemos, existem ligações demonstráveis entre tais técnicas como
    a “visualização da fé” ou a “confissão positiva” e
    algumas formas de pensamento do ocultismo e da Nova Era. Os esforços de se
    voltar para o interior para encontrar a globalidade, pode levar-nos à
    “dimensão divina interna” do misticismo Neoplatônico ou aos
    “arquétipos” do inconsciente coletivo de Jung. Em ambos os
    casos, bem como num grande número de casos similares, o sujeito que busca
    termina ofuscado por um subjetivismo, o qual é racionalizado com termos
    originários da metafísica oriental e da psicologia humanística.

    Neste ponto, uma mudança da verdade bíblica para especulações humanas se
    torna base para uma séria confusão sobre a natureza da cura e, mais
    importante, sobre a natureza do praticante da cura. Neste novo papel,
    Jesus, o Messias, se torna em parte o terapeuta primal e em parte um xamã
    primevo. Nesta situação, uma tentativa de se fazer uma avaliação racional
    ou bíblica é negativamente rotulada como um “falta de fé”,
    “apagar o Espírito” ou “bloquear o fluxo”; pode mesmo
    ser desprezada como uma “viseira”.
    “A postura bíblica sobre a nossa natureza é, com certeza, uma avaliação
    verdadeira e mais confiável do que a feita por nossos medos, iras e
    memórias…”

    6. UMA QUESTÃO DE PRIORIDADES

    É razoável assumir que os problemas psicológicos e emocionais a que a
    igreja primitiva se referia eram tão complexos como os de hoje. Nós também
    vamos assumir que as soluções que ela aplicava são tão funcionais para
    hoje como eram no primeiro século. Não havia nenhuma necessidade de se
    renunciar à visão escriturística da condição humana ou de Jesus Cristo, a
    fim de fazerem estas soluções funcionarem. A imposição de mãos, a unção
    com óleo, a confissão mútua e a meditação direcionada eram alguns dos
    métodos empregados para produzir ambos, a cura interna e a cura externa.
    Os apóstolos foram estranhamente silenciosos, entretanto, sobre qualquer necessidade
    de reviver experiências relacionadas com a infância, ou sobre a prática de
    esfaquear o pai na imaginação, como alguns praticantes de cura interior
    têm aconselhado aos seus clientes.

    Com certeza, há abundantes benefícios psicológicos em se colocar Jesus
    como o centro radical de nossas vidas e afetos – mesmo acima e além de
    nossos laços familiares. Nós também somos chamados, entretanto, a meditar
    sobre coisas que estão acima e, de alguma forma é bom que se diga, que não
    estão nutrindo ressentimentos ou usando a nossa liberdade como desculpa
    para o mal (Ef. 4:26; I Pe. 2:16; Gl. 5:1). Existe uma considerável
    distância entre confessar a presença de um desejo negativo e
    dramaticamente realizá-lo – mesmo que na fantasia.

    Nós devemos evitar confundir o sagrado com a saúde. A cura da psique e
    emoções pode ser uma importante parte do nosso crescimento em direção à
    espiritualidade. Entretanto, ela não deve ser superestimada em detrimento
    de outros aspectos da santidade, nem deve se tornar um substituto deles .
    Nós devemos nos guardar da idéia de que os cristãos estão isentos de toda
    sorte de enfermidades, doenças e tentações e que, qualquer ocorrência
    deste tipo seja um ponto negativo em nossa condição espiritual. Por outro
    lado, é importante não perder de vista as variadas maneiras pelas quais
    Deus provê libertação de coisas que nos impediriam viver plenamente em
    Cristo.

    7. AS MARCAS DA INTEGRIDADE ESPIRITUAL

    Cura espiritual pode ser considerada como tendo base bíblica. Se assim
    for, ela deve ser reconhecida como uma parte integral de nossa vida
    cristã. Três principais pontos nos ajudarão a discernir a consonância
    bíblica de cada forma em particular, de cura interior. Todos os três
    pontos são vitais para um entendimento equilibrado e seria desaconselhável
    isolar ou superestimar qualquer um destes elementos.

    Primeiro: A cura espiritual deve tocar o problema na sua fonte. O
    indivíduo deve ser liberto da prisão de uma memória em particular e do
    falso significado atribuído a ela. As feridas emocionais causadas pelo
    incidente que forçou a repressão de sua memória deve ser curada. Paulo
    fala de Deus como o Pai da compaixão (I Co. 1:3-4) e também enfatiza que a
    provisão do sangue de Cristo é um aspecto da Sua perfeita sabedoria (Ef.
    1:7-8). De fato, é a “contínua aspersão do Seu sangue” que
    guarda o coração e a consciência das “palavras mortas” (Hb.
    9:14; 10:22) e nos liberta do cativeiro emocional destas palavras a fim de
    que possamos servir ao Deus vivo.

    Segundo: A cura interior deve quebrar padrões de respostas habituais e
    comportamentos que foram gerados em reação a um trauma inicial. A pessoa
    que está sendo curada deve cooperar ativamente neste processo, ao invés de
    reagir passivamente à instruções e manipulações do que ministra a cura
    interior. Toda redenção envolve o fazer escolhas e o exercício da nossa
    vontade. Uma vez que fomos convocados ao arrependimento e renovação, somos
    também chamados a abandonar velhas formas de responder às pessoas e
    circunstâncias (Cl. 3:12-17; I Pe 2:1-3). Nós devemos portanto aprender
    novas atitudes e formas de lidar com estas situações (Ef. 4:22-24; I Pe.
    1:5-9).

    Terceiro: A cura interior deve produzir mudanças pessoais que sejam
    compatíveis com a revelação das Escrituras, do nosso novo ego (eu) em
    Cristo. Isto deve estar combinado com uma ênfase na confiança do que Deus
    nos diz sobre nós mesmos, mais do que nossos sentimentos podem dizer. A
    postura bíblica sobre a nossa natureza é, com certeza, uma avaliação
    verdadeira e mais confiável do que a feita por nossos medos, iras e memórias,
    sem mencionar as acusações do Adversário (Rm. 8:1-2). A cura interior deve
    nos ajudar a sermos reeducados (através da palavra de Deus) acerca de quem
    somos em Cristo. Uma vez que entendemos como Deus nos vê, bem como a
    provisão que Ele fez para o nosso crescimento, nós começaremos a
    desenvolver uma auto-estima que corresponde precisamente à nossa confiança
    na justiça de Cristo, mais do que em nossa própria (Rm. 12:3).

    Nós não temos que abandonar o ponto-de-vista bíblico ou o compromisso com
    o senhorio de Cristo a fim de podermos nos beneficiar da cura interior. De
    fato, se tal necessidade for expressa ou se está implícita, é aconselhável
    reconsiderar a validade dos fundamentos que têm sido colocados.

    Jesus mesmo reconheceu o dilema fundamental da humanidade, bem como suas
    secundárias implicações emocionais e psicológicas. Ele reconheceu o
    problema de se atingir auto-estima diante em ambiente hostil e uma
    consciência igualmente hostil que foi imperfeitamente moldada por
    influências imperfeitas durante os anos de formação da pessoa. A
    consciência ainda não-redimida se torna um entrave na condição
    psicológica, o qual inevitavelmente produz sua própria dissolução (Rm.
    8:6). Jesus sugeriu ao homem que a vida entregue a Ele e o fato de
    seguirmos seu exemplo – mesmo a sua morte como mártir – é uma carga mais
    fácil de ser suportada do que se lutarmos com as nossas próprias forças.
    (Mt. 11:28-30).

Parte
II
PNEUMATOLOGIA
REFORMADA DE VERDADE!

DEFINIÇÕES E DESAFIOS NICODEMOS LOPES
O que é ser “reformado”?
A primeira questão com a qual nos defrontamos ao abordar o tema desse pequeno
ensaio é a de definir exatamente sobre o que estamos falando. O nosso assunto
gira em torno da compreensão reformada sobre a pessoa e a obra do Espírito
Santo. Mas, o que queremos dizer por “reformada”?

Não existe unanimidade entre os que se consideram herdeiros da Reforma
protestante quanto ao sentido do termo. Historicamente, o termo
“reformados” foi usado a princípio indistintamente para todos os
protestantes, calvinistas, luteranos e zwinglianos. Com as controvérsias entre
eles sobre a Ceia, “reformados” passou a designar zwinglianos e
calvinistas somente, em contraponto aos luteranos. E com o arrefecimento da
importância de Zwinglio no cenário protestante, “reformados” passou a
designar os calvinistas. Portanto, é historicamente correto afirmar que um
entendimento reformado sobre o Espírito Santo tem a ver primaria e basicamente
com a teologia calvinista sobre o Espírito Santo. Hoje em dia, muitas igrejas e
denominações se utilizam do nome “reformada”, mesmo que já tenham
abandonado em grande medida partes fundamentais da teologia calvinista,
inclusive a pneumatologia. O mesmo acontece com alguns pastores que
consideram-se reformados apesar do fato de que não são calvinistas em sua
doutrina. Assim, embora para alguns hoje ser reformado seja pertencer a uma
igreja que historicamente descende da reforma protestante, ou ainda manter o
espírito reformista que marcou os reformadores, é mais exato dizer que o
conceito está ligado às principais convicções doutrinárias dos reformadores,
particularmente às de João Calvino.

Consequentemente, uma pneumatologia reformada é necessariamente aquela adotada
pelas igrejas que são herdeiras do Cristianismo bíblico. É uma pneumatologia
originada nas Escrituras e defendida por Agostinho, Calvino, e os puritanos,
tendo sua expressão adequada nas confissões de fé reformadas. É uma
pneumatologia derivada de uma leitura das Escrituras a partir dos pressupostos
principais que guiaram esses homens, a começar com o alto apreço pelas
Escrituras como Palavra de Deus, inspirada e infalível, e única regra de fé e
prática da Igreja. À luz desta visão podemos definir pneumatologia reformada
como sendo aquela compreensão da pessoa e da obra do Espírito Santo que parte
da revelação divina grafada nas Escrituras, lida e interpretada da ótica da
hermenêutica reformada, tendo como alvo a glória de Deus e o avanço do seu
reino neste mundo.

Se considerarmos que apenas os que se mantém leais aos principais pontos da doutrina
calvinista podem ser realmente chamados de reformados, verificaremos que são
poucos os verdadeiros reformados. Escreve o ex-calvinista Clark Pinnock:

Tenho a forte impressão, confirmada até mesmo pelos que discordam dela, que o
pensamento de Agostinho está perdendo sua influência nos evangélicos de hoje.
Não são apenas os evangelistas que estão pregando um evangelho arminiano. É
difícil até mesmo achar um teólogo calvinista hoje que esteja disposto a
defender a teologia reformada em seus detalhes mais peculiares, em particular
as opiniões de Calvino e Lutero. Eu não estou sozinho, especialmente agora que
Gordon Clark faleceu e John Gerstner aposentou-se.

Numa época em que o número de “reformados” comprometidos com a
teologia calvinista é tão pequeno, não é de se estranhar que tendências
teológicas, filosóficas e hermenêuticas, trazidas no bojo do pós-modernismo e
do crescente movimento neopentecostal, se infiltrem nas igrejas historicamente
reformadas, e descaracterizem, onde aceitas, a compreensão correta acerca do
Espírito Santo. Tais ameaças já estão presentes, e que aparentemente vieram
para ficar por um longo tempo. Entende-las agora é essencial para a preservação
da identidade reformada quanto à obra do Espírito Santo no mundo e na Igreja.
No que se segue, procuro detectar e analisar alguns destes desafios

O Desafio Teológico: Pelagianismo

O que é o Pelagianismo
O primeiro desafio vem da área teológica, representado pelo pelagianismo,
heresia antiga e já condenada pela Igreja, mas jamais erradicada do seu meio. O
pelagianismo sustenta basicamente que todo homem nasce moralmente neutro, e que
é capaz, por si mesmo, sem qualquer influência externa, de converter-se a Deus
e obedecer à sua vontade, quando assim o deseje. Uma das grandes disputas durante
a Reforma protestante versou sobre a natureza e a extensão do pecado original.
Ele afetou Adão somente, ou todo o gênero humano? A vontade do homem decaído é
ainda livre ou escravizada ao pecado? No século V Pelágio havia debatido
ferozmente com Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que o pecado
original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo que o homem
caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e não
pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de Adão afetara
apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele
também dá a habilidade moral para que elas possam fazer assim. Ele reivindicou
mais adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, embora
facilitasse a obediência.

Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu. Várias
formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos. Lutero
escreveu um livro “A Escravidão da Vontade” em resposta a uma diatribe
de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que
Erasmo era “um inimigo de Deus e da religião Cristã” por causa do
ensino dele sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval,
sob a influência de Aquino, adotara um semi-pelagianismo, mesmo que na
antigüidade houvesse rejeitado o pelagianismo puro. Neste sistema,
acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação.

No século XVIII, uma forma nova e levemente modificada de pelagianismo, apareceu,
que foi o arminianismo. Existem algumas diferenças entre as duas posições, mas
ambas são sinergistas (o homem coopera para sua salvação) e mantém o mesmo
conceito de fé (uma decisão puramente humana de receber a Jesus Cristo, e não
como um dom misericordioso de Deus).

A influência de Charles Finney
No século XIX, o evangelista americano Charles Grandison Finney reavivou o puro
pelagianismo. Ele repudiou abertamente quase todas as principais doutrinas
calvinistas (mesmo que tenha sido ordenado na Igreja Presbiteriana), em
particular a doutrina de pecado original e da depravação total. É um grave erro
histórico e teológico considerar Finney como “reformado” (alguns,
exagerando, diga-se, nem desejam considerá-lo como evangélico). A metodologia
evangelística de Finney teve tanto êxito, que ele se tornou um modelo para os
evangelistas mais recentes. Embora o evangelicalismo americano não tivesse
aceitado integralmente o pelagianismo de Finney, abraçou, entretanto, sua
metodologia, uma forma de semi-pelagianismo que infectou a alma da sua teologia
até o dia de hoje. Vários movimentos nasceram conscientemente da teologia de
Finney, como a teoria do governo moral.

Ameaças à doutrina do Espírito Santo
O pelagianismo, em suas variadas formas contemporâneas, ameaça a doutrina
reformada do Espírito Santo especialmente nas áreas da regeneração e da chamada
eficaz, das seguintes maneiras:

a) Reduz a regeneração do pecador a uma decisão de sua própria vontade. Finney
rejeitou a idéia de que a regeneração fosse um milagre, uma transformação
sobrenatural produzida pela ação soberana do Espírito no coração dos eleitos.
Para ele, regeneração era a decisão do pecador em se voltar para Deus e
obedecê-lo. Não poderia haver nenhuma transformação miraculosa, pois não havia o
que transformar, já que o pecador é moralmente capaz de obedecer a Deus. Após a
negação de pecado original, foi somente um passo para que Finney negasse a
doutrina da regeneração sobrenatural. O sermão mais popular de Finney, pregado
na Igreja da Rua do Parque, em Boston, foi intitulado “Os Pecadores Devem
Mudar os Próprios Corações”. Para ele, não há nada na religião que
ultrapasse os poderes ordinários de natureza. “Religião é obra do
homem”, disse ele. “Consiste tão somente no emprego apropriado dos
poderes naturais. É somente isso e nada mais”

b) Reduz a chamada eficaz do Espírito Santo a uma mera persuasão moral. Para
Finney, a obra do Espírito limita-se ao exercício de influências morais no
pecador, mas “a conversão em si … é ato do próprio pecador”, afirma
ele em sua Teologia Sistemática (p. 236). O ensino calvinista é que o Espírito
de Deus, através do ministério da Palavra, chama irresistivelmente o eleito,
regenerando-o e assim habilitando-o a responder positivamente em fé à oferta
das boas novas do Evangelho. Essa chamada é irresistível, embora não se
constitua uma violação da vontade do pecador. No conceito pelagiano (ou
semi-pelagiano), o Espírito de Deus apenas se esforça para persuadir os
pecadores, cabendo a estes em última análise a decisão e a capacidade de
converter-se e tornar para Deus, exercendo fé em Cristo.

O desafio do pelagianismo em suas formas contemporâneas para a identidade
reformada é alarmante. O pentecostalismo, em seu crescimento assombroso na
América Latina e no Brasil, traz em seu bojo, além de várias outras ameaças e
desafios, os principais conceitos do antigo pelagianismo, e desafia as igrejas
reformadas a rever o conceito calvinista da atuação do Espírito Santo na
regeneração e salvação do pecador. Os pentecostais são hoje mais de 450 milhões
no mundo. Com o crescimento do pelagianismo no Brasil, a identidade reformada
das igrejas que assim se consideram fica ameaçada, no que respeita à obra do
Espírito Santo na conversão dos pecadores.

Mas o desafio maior vem de dentro das próprias igrejas históricas. Não são
muitos os “reformados” que aderem coerentemente à doutrina calvinista
da depravação total. Embora possam afirmá-la em princípio, acabam sendo
incoerentes por também acreditar que o pecador tem a “capacidade moral de
se voltar para Deus”. Praticamente ninguém hoje declararia, “eu sou
um pelagiano, ou semi-pelagiano”, primeiro, por que toda a Cristandade
condenou no passado essa heresia, e segundo, por que poucos que adotam esta
linha têm idéia do que o pelagianismo significa. Muitos ministros de igrejas
reformadas provavelmente ofereceriam as respostas corretas em um exame
teológico, entretanto, operam em seus ministério como se essas convicções não
tivessem absolutamente nenhuma conseqüência.

Os Desafios Filosóficos: Pluralismo e Pragmatismo

O pluralismo religioso
Um outro desafio de imensas proporções vem de duas filosofias características
do período pós-moderno em que vivemos. A primeira delas é o pluralismo. Como o
nome já indica, essa filosofia defende a pluralidade da verdade, ou seja, que
não existe uma verdade absoluta, mas sim verdades diferentes para cada pessoa.
Esse conceito é ambíguo, mas definitivamente já faz parte integrante da nossa
cultura presente. Ele defende o relacionamento de pessoas com ideologias
diferentes, sem que uma tenha de sujeitar suas convicções ao domínio da outra.
A idéia de converter alguém às suas próprias convicções é politicamente
incorreto. A chave está na valorização da negociação e da cooperação em lugar
de se tentar provar que se está certo ou errado.

O pluralismo religioso, por sua vez, prega o abandono da “arrogância”
teológica do cristianismo, nega que exista verdade religiosa absoluta, e exalta
a experiência religiosa individual como critério último para cada um. Por exemplo,
o padre católico Raimundo Panikkar, descendente de hindus, escreveu um artigo
onde defende que isolacionismo já não é mais possível na sociedade globalista
em que vivemos. Embora afirme que aceitar o pluralismo religioso não signifique
o mesmo que aceitar o relativismo, deixa claro que a experiência religiosa
individual é a chave para a convivência pluralista. Diz ele, “No momento
eu estou experimentando o amor de Deus por mim em Cristo Jesus, e por este
motivo eu sei com perfeita clareza que ele é o caminho, a verdade e a
vida”.

O pluralismo religioso defende uma nova teoria missiológica, onde não mais se
prega a necessidade de conversão de outras religiões ao cristianismo, e sim a
cooperação entre todas as religiões, naquilo que têm em comum. O pressuposto é
que o cristianismo não é o único caminho para Deus, embora seja o melhor, e que
Deus está agindo salvadoramente no âmbito de outras religiões, como as
religiões orientais.

O pragmatismo religioso
A outra filosofia é o pragmatismo. Seu popularizador, o psicólogo americano
William James, afirmou que idéias humanas eram verdadeiras se funcionassem ou
fossem úteis para resolver problemas. Já que o funcionamento e utilidade das
idéias variam de contexto para contexto, segue-se que a verdade é relativa. No
dizer de Francis Schaeffer, é um sistema de pensamento que faz das
conseqüências práticas de uma crença o critério supremo da sua verdade. O
pragmatismo dominou rapidamente a cultura americana e estendeu-se para além das
suas fronteiras. Adotar as coisas que realmente preservam a paz individual e
uma situação financeira confortável, sem qualquer preocupação com princípios
fixos de certo ou errado é evidentemente a idéia que controla procedimentos
internacionais, domésticos e individuais. Princípios absolutos tem pouco ou
nenhum lugar no pensamento ocidental moderno.

Não devemos, portanto, pensar que o pragmatismo é um fenômeno ocidental. Seu
princípio fundamental é inerente ao coração humano. Uma das 4 premissas básicas
do substrato filosófico e religioso da Ásia, por exemplo, pode ser resumida
neste parágrafo: “É direito de cada pessoa religiosa aceitar e praticar
qualquer maneira de viver que achar útil ao seu modo de pensar e às suas
circunstâncias sociais peculiares”.

Desafios do Pluralismo e do Pragmatismo para a doutrina do Espírito Santo
O pluralismo e o pragmatismo andam geralmente de mãos dadas. Onde o conceito de
verdade absoluta deixa de existir (pluralismo), as pessoas e as organizações
passam a orientar as suas decisões em termos daquilo que mais satisfaz as suas
necessidades (pragmatismo). A combinação destas duas filosofias aparece
claramente em vários movimentos presentes nas igrejas evangélicas, e
representam um novo desafio ao cristianismo em geral e aos calvinistas em
particular. A pergunta que as pessoas fazem com relação ao cristianismo não é
se ele é a verdade ou não, mas simplesmente se funciona. Elas querem saber se
vai mudar a vida delas para melhor, se Cristo realmente é poderoso para
transformá-las, e pode dar-lhes paz, alegria, esperança e propósito às suas
existências.

Ambas as filosofias trazem sérios desafios a alguns aspectos da pessoa e obra
do Espírito Santo:

1) Quanto à extensão da operação ou atividade salvadora do Espírito Santo. O
calvinismo ensina uma distinção nas operações do Espírito Santo, que está
relacionada com os conceitos de graça comum e de graça especial. A graça comum
refere-se à atuação do Espírito Santo no mundo em geral, preservando valores
morais e trazendo benefícios materiais, sobre todos os homens indistintamente
de suas crenças religiosas. A graça especial refere-se à operação salvadora do
Espírito, restrita apenas aos eleitos, regenerando-os, iluminando-os e
santificando-os pelo Evangelho de Cristo. O pluralismo religioso ameaça esse
conceito, pois ensina que o Espírito de Deus age salvadoramente em todos os
homens indistintamente de suas religiões, sem se restringir ao âmbito do
cristianismo. Um exemplo de pluralista cristão que defende esse ponto é o
ex-calvinista Clark Pinnock.

2) Quanto à relação entre a Palavra e o Espírito. O calvinismo ensina a relação
indissolúvel entre a atuação do Espírito Santo e a Palavra de Deus. O Espírito
atua graciosamente através da Palavra; por sua vez, a Palavra funciona como
critério para reconhecermos a atividade do Espírito, em contraste com a
atividade de espíritos malignos ou do espírito humano. O pluralismo e o
pragmatismo ameaçam este conceito. O primeiro, porque divorcia a atuação
salvadora do Espírito da verdade bíblica, como vimos no item anterior. E o segundo
por enfatizar a validade de experiências religiosas à parte de seus conteúdos
teológicos, ameaçando assim da mesma forma a relação entre o Espírito e a
Palavra.

3) Quanto à soberania do Espírito de Deus em converter pecadores e aumentar a
Igreja. Segundo o ensino calvinista, o aumento da Igreja através da conversão
de pecadores é uma obra soberana do Espírito Santo, através dos meios
secundários que Deus mesmo determinou. A Igreja deve evangelizar ardorosamente,
dependendo porém da operação soberana do Espírito Santo quanto aos resultados.
O pragmatismo representa um desafio para essa convicção calvinista, pois
enfatiza o emprego de métodos, estratégias e técnicas tiradas do marketing
secular e de ciências sociais como sociologia e psicologia, através das quais a
igreja poderá crescer. O sucesso ou fracasso de igrejas locais no aumentar o
número de seus membros é relacionado, não à soberania do Espírito de Deus, mas
ao uso desses métodos. Embora calvinistas defendam o planejamento das
atividades missionárias e evangelísticas da Igreja, têm entretanto sérias
reservas quanto ao planejamento de resultados, uma estratégia que faz parte do
pragmatismo do moderno movimento de crescimento de igrejas.

Influência generalizada do pluralismo e do pragmatismo entre os protestantes
O pluralismo e o pragmatismo têm infectado o cristianismo mundialmente. O tema
da salvação em outras religiões foi discutido recentemente na Assembléia Geral
do Concílio Mundial de Igrejas. O relatório apresentado trouxe debate considerável.
Uma consulta teológica na suíça patrocinada pelo CMI, composta por 25 teólogos,
trouxe as seguintes conclusões:

Através da história, pessoas tem encontrado a Deus no contexto de várias
religiões e culturas diferentes.
Todas as tradições religiosas são ambíguas, isto é, uma combinação do que é bom
e do que é ruim.
É necessário progredir além de uma teologia que confina a salvação a um
compromisso pessoal explícito com Jesus Cristo.
Em algumas denominações o pluralismo tem sido proposto como filosofia oficial,
como na Igreja Metodista Unida, dos Estados Unidos. Nas igrejas brasileiras que
se consideram reformadas, a ameaça vem por diversas avenidas, trazendo sérios
desafios à doutrina calvinista do Espírito Santo. Eis algumas dessas maneiras
pelas quais o pragmatismo e o pluralismo têm invadido as igrejas históricas:

a) A adoção de uma liturgia neopentecostal, particularmente a ênfase na
experiência. O culto hoje em igrejas evangélicas que adotaram esta ênfase, é
geralmente uma adaptação comunitária do pragmatismo americano, onde todos fazem
o que gostam, e todos gostam do que fazem.

b) O impacto do movimento de crescimento de igreja na área de missões e
evangelização das denominações, missões paraeclesiásticas, e das igrejas
locais. Mesmo as igrejas reformadas não tem escapado à penetração dessas
influências mencionadas acima. Embora o movimento tenha levado a Igreja a
repensar mais corretamente a sua metodologia missionária, por outro lado, tem
provocado reações por parte de calvinistas quanto à seus pressupostos
semi-pelagianos e sua metodologia claramente pragmatista.

A influência dessas filosofias pós-modernas pode ser percebida ainda de outra
maneira. Uma equipe de pesquisa composta de 60 estudiosos e mais de 100 sócios
completou um estudo sobre o presbiterianismo americano, no seminário
presbiteriano de Louisville, nos EUA. Uma das suas conclusões é que no século
XX a denominação sofreu de uma doença teológica, com muitos presbiterianos
evitando posições firmes e claras na área teológica porque diferenças
doutrinais tendem a produzir conflito ou divisão. Essa é a razão por que eles
tentaram em anos recentes resolver problemas potencialmente divisivos em termos
políticos e não teológicos.

A diversidade de perspectivas teológicas dentro das denominações presbiterianas
tem origem na escolha enfrentada em 1927 pela Igreja Presbiteriana nos Estados
Unidos de América (PCUSA). A denominação teve que decidir entre subscrever a um
conjunto fixo de doutrinas ou permitir uma diferença maior entre opiniões teológicas.
A Igreja decidiu por não delinear as doutrinas exatas que todos os
presbiterianos teriam que aceitar, uma decisão consistente com o
presbiterianismo histórico daquele país. Debates doutrinários haviam sido
freqüentes no passado, com divisões acontecendo sempre que as disparidades
ficavam intoleráveis. A pergunta agora é se o pluralismo teológico produziu
alguma teologia que tenha bastante substância. O pluralismo promete enriquecer
a teologia mas na realidade tende a dilui-la em opções múltiplas que não são
coerentes nem persuasivas. E a identidade reformada quanto à ação do Espírito
tende a desaparecer.

O Desafio Hermenêutico: Neopentecostalismo

O que é o neopentecostalismo
Por neopentecostalismo quero dizer aqueles movimentos surgidos em décadas
recentes, que são desdobramentos do pentecostalismo clássico do início do
século, mesmo que abandonaram algumas de suas ênfases características e
adquiriram marcas próprias, como ênfase em revelações diretas, curas, batalha
espiritual, e particularmente uma maneira sobrenaturalista de encarar a
realidade espiritual.

A hermenêutica destes movimentos é caracterizada por uma leitura das Escrituras
e da realidade sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido
somente em termos de sua ação extraordinária. Para o neopentecostal típico,
Deus o guia na vida diária através de impulsos, sonhos, visões, palavras
proféticas, e dá soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa, como
libertações, livramentos, exorcismos e curas. A doutrina que define, mais que
qualquer outra, as igrejas evangélicas no Brasil hoje, é a crença em milagres.
É claro que não estou dizendo que crer em milagres seja errado. O que estou
dizendo é que, na hora que a crença em milagres contemporâneos e diários passa
a ser a característica maior da igreja evangélica, algo está errado.

Desafios para a doutrina do Espírito Santo
A hermenêutica sobrenaturalista do neopentecostalismo representa um desafio
para a identidade reformada pois tende a menosprezar uma das doutrinas típicas
do calvinismo, que é a providência de Deus. Partindo das Escrituras, os
reformados usam o termo providência para se referir à ação de Deus, pelo seu
Espírito, agindo no mundo através de pessoas e circunstâncias da vida para
atingir seus propósitos. Esses meios não são intervenções miraculosas ou
extraordinárias de Deus na vida humana, mas simplesmente meios naturais
secundários. Os calvinistas reconhecem que Deus intervém miraculosamente neste
mundo, mas sempre em regime de exceção. Normalmente, ele age através dos meios
naturais.

O neopentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de Deus no
mundo (a qual não negamos, diga-se), acaba por negligenciar a importância da
operação do Espírito Santo através de meios secundários e naturais. Essa
negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que o Espírito
normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para salvar os
pecadores. Acredito não ser difícil de provar que a esmagadora maioria dos
cristãos foram salvos através de meios naturais – como o testemunho de alguém,
a leitura da Bíblia, a pregação da Palavra – e não através de intervenções
miraculosas e extraordinárias, como foi a conversão de Paulo.

Como resultado do sobrenaturalismo neopentecostal, as igrejas reformadas por
ele afetadas tendem a considerar os meios naturais como sendo espiritualmente
inferiores. Um bom exemplo é a tendência de não se tomar remédios, como sendo
falta de fé. Um outro resultado é a diminuição da pregação do Evangelho como
meio de salvação dos pecadores, e a ênfase nos milagres como meio
evangelístico. Assim, a obra do Espírito na Igreja e no mundo através dos meios
naturais secundários é negligenciada, com graves e perniciosos efeitos nas
vidas dos que abraçam a cosmovisão neopentecostal.

Conclusão
Esses desafios à identidade reformada quanto à ação do Espírito Santo já se
encontram presentes em nosso meio, e prometem persistir por ainda muito tempo.
Alguns dos movimentos contemporâneos que trazem no bojo de seus pressupostos e
de sua metodologia esses desafios, continuam a crescer no Brasil, e a
influenciar as igreja reformadas. Esses movimentos, como o reavivalismo,
crescimento de igrejas, batalha espiritual e ecumenismo forçam as igrejas
reformadas a reavaliar o que crêem quanto à ação do Espírito na Igreja e no
mundo. O desafio é que façamos isso procurando cada vez mais conformar essas
crenças com o ensino das Escrituras Sagradas, a Palavra de Deus, e com a nossa
tradição calvinista.

Parte
III
NÓS
TAMBÉM RESSUCITAREMOS
 1Coríntios
15

1. INTRODUÇÃO

Precisamos começar nosso estudo sobre a escatologia confessando nossa
ignorância. Nós sabemos muito pouco, mas sabemos o mais importante: nosso
futuro está guardado no Livro da Vida, escrito por Deus.

2. VIVENDO EM FUNÇÃO DA RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO

Os versos 3 e 4, complementados pelos versos 5 a 8, formam uma síntese do
Evangelho. Foi este o conteúdo que Paulo recebeu e transmitia. (Porque
primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos
pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao
terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze;
depois apareceu a mais de 500 irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior
parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os
apóstolos; e por derradeiro de todos apareceu também a mim, como a um abortivo.

2.1. A narrativa da ressurreição
Este é o Evangelho que nós recebemos e devemos transmitir. Por isto, precisamos
começar falando do fato da ressurreição de Jesus e o faremos primeiramente de
forma poética.

ELOGIO À MULHER

O teu olhar para dentro da noite
é o olhar de quem busca a vida
e não teme o sepulcro.

A tua lágrima que salta de dentro
é a lágrima de quem perdeu
toda a luz que da alegria nasce.

A tua visão de dois anjos na noite
é a visão de quem enxerga o mistério
e ouve a sua voz em meio ao silêncio triste.

Soluça, mulher, maria , madalena,
que no fundo dos teus olhos
dois anjos proclamarão a manhã.

Chora, mulher, maria, madalena,
que nos intervalos dos teus soluços
ouvirás a palavra de quem procuras.

Mulher, reclama o corpo que roubaram.
Ladrões, para onde o levaram?
Mulher, de quem é esta voz que te olha?
De quem é este olhar que te chama?
Olha, mulher, e vê que é rosto do homem que querias morto.

E agora tu o chamas pelo nome das flores.
E agora tu o vês pela imagem das águas
antes que ele Deus todo seja
e marche para o azul ao encontro deste Pai
que se fez filho conosco
e se deixou enterrar nas horas das pedras

Tu o viste, não entre a reclusão das lápides,
nem a respirar a quietude dos troncos tombados,
mas a caminhar por entre as pétalas,
a ouvir o teu lamento sem luz.

Tu o viste, não a anunciar a vitória da noite,
nem a chorar a dor por quem partiu para sempre,
Mas a proclamar o sorriso suave dos teus lábios,
tu que sorriste com ele
na mais feliz de todas as madrugadas:
quando a rocha se fendeu
e ele pôde enxugar da fronte o orvalho que anunciava a sua ressurreição.
(Israel Belo de Azevedo)

2.2. O fato da ressurreição (v. 11-11,20)
A morte de Jesus é um fato histórico não mais questionado e, junto com ele, o
seu sepultamento. No entanto, a sua ressurreição tem sido questionada em sua
veracidade histórica e isto não é de hoje. Também, e igualmente não de hoje,
tem sido questionada fortemente a possibilidade da ressurreição dos homens no
final dos tempos, especialmente pela dificuldade de elas (tanto a de Jesus
quanto a dos cristãos) fazerem sentido à luz da razão.

2.2.1. Contestações à ressurreição
Quanto à ressurreição de Jesus, os argumentos em contrário, são, entre outros:

A falta de documentos extrabíblicos que a registrem;
As contradições nas narrativas bíblicas sobre o mesmo fenômeno;
A impossibilidade da ressurreição à luz da razão;
A natureza não essencial da ressurreição para a fé cristã.
Quanto à ressurreição dos mortos em geral, argumenta-se que o fenômeno, tal
como aconteceu com a de Cristo, não tem amparo na razão, à qual devem estar
subordinados todos os fatos.

2.2.2. Respostas às contestações
De fato, não há narrativas extrabíblicas para o fato da ressurreição de Jesus.
Não o há também para o nascimento e para a morte de Jesus.

A ressurreição é apontada como um fato essencial para a fé. O apóstolo Paulo
várias vezes o afirma, deixando bem claro, em Romanos 10.9-10, que a salvação
vem pela confissão de Jesus Cristo como Senhor e pela crença de que o Pai
ressuscitou Jesus dentre os mortos.

Quanto às chamadas contradições, tratam-se antes de narrativas com focos
particulares. Cada testemunha narrou segundo a sua perspectiva e segundo o que
viu. Aliás, o teórico comunista Karl Kautsky começou a levantar estas
contradições para desmascarar o Cristianismo. Sua conclusão, que ajudou a
expulsá-lo do Partido Comunista foi outra: se a ressurreição de Jesus fosse uma
lenda, as versões seriam previamente combinadas; o fato de guardarem uma
subjetividade entre elas é uma evidência que nada foi inventado. Por isto tem
razão também outro não cristão, o historiador judeu Pinchas lapide, para quem a
ressurreição é a certidão de nascimento do Cristianismo.

Os símbolos cristãos são símbolos da Ressurreição. O que é o batismo? A imersão
simboliza a morte para o pecado e a ressurreição para uma nova vida. O que é a
Ceia, senão a afirmação da morte de Cristo e sua volta, que só é possível por
ter ressuscitado.

Não podemos esquecer ainda que parte das testemunhas do túmulo vazio era
formada por mulheres. Se a história fosse uma lenda, seus inventores não
colocariam essas narrativas nas bocas das mulheres, incapazes, na lógica da época,
da falar a verdade e, portanto, indignas de crédito. Que judeu iria crer numa
ressurreição testemunhada por mulheres.

Há outra evidência interessante. Quanto custou para os primeiros a fé na
ressurreição? Além do escárnio, muitos pagaram com a vida. Não seria razoável
morreriam por uma lenda. Eles pregaram o Evangelho da Ressurreição como
testemunhas.

Alguém dirá que Paulo não foi testemunha ocular e, de fato, não o foi. Ele pelo
se autodenomina de apóstolo (testemunha) nascido fora do tempo (v.8). Os
versículos 3 e 8, especialmente 3 e 4, não são da lavra do Paulo, que afirma
tê-los recebido. Quando ele começou a pregar, já pregava segundo as Escrituras,
isto é, segundo o que recebera de outras testemunhas. A fé na Ressurreição não
foi inventada por Paulo. A fé na Ressurreição não foi inventada por Paulo. Ele
creu nela depois que o próprio Jesus lhe apareceu e depois do que aprendeu com
os outros cristãos.

Se é difícil crer na Ressurreição de Jesus, e o é, porque fruto da fé, é mais
difícil ainda crer nas idéias, há muito esposadas, que o corpo dele foi, na
verdade, roubado.

Os antigos judeus não sustentaram esta farsa diante de José de Arimatéia. Mais
recentemente, muitos creram noutro delírio: que ele não ressuscitou, mas se
reincarnou. Há gente de provas documentais e racionais para a perspectivas
cristã leva pessoas a forjarem teses delirantes, sem qualquer apoio documental
contemporâneo e sem qualquer elemento de racionalidade.

O problema do crivo racional é tão sério que até mesmo cristãos, como Rudolf
Bultmann, no início do século 20, chegaram a considerar como não essencial a
ressurreição de Jesus. Ensinava aquele teólogo que o importante era ter a fé
que os primeiros cristãos tiveram, pouco importando a historicidade desta fé.

3. A FELICIDADE DA FÉ NA RESSURREIÇÃO

Paulo cria na Ressurreição como um fato histórico e deriva o fato da nossa
própria ressurreição daquela.

É como ele que devemos crer. Ele lembra que a crença na Ressurreição era parte
da pregaçào da Igreja. O autor de !Coríntios relaciona esta ressurreição com a
nossa. (Se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou. E se
Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé, e somos tidos
como falsas testemunhas de Deus. (…) Se a nossa esperança em Cristo se limita
apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. (v. 12-19)

Sem a fé na Ressurreição de Cristo e sem a esperança em nossa ressurreição no
fianl dos tempos, nós somos infelizes.

Por que somos infelizes sem a Ressurreição?

Somos infelizes porque cremos numa Bíblia que nos ensina uma farsa e nos faz
crer numa lenda ou numa alucinação coletiva, mas acontecia em blocos, porque
pessoas isoladas e grupos viram Jesus com o corpo glorificado.
Somos infelizes porque cremos num Cristianismo, que faz de uma lenda o pilar do
seu conteúdo existencial e teológico.
Somos infelizes porque abrimos mão da bênção regeneradora da ressurreição
(1Pedro 1.3). Sem a ressurreição, o evangelho está incompleto. Sem a
ressurreição não podemos ser salvos. Não há poder na mentira.
Somos infelizes porque abrimos mão da fé para ficar com a razão, razão que
matou Jesus Cristo, razão que foi insuficiente (junto com a Lei) para levar o
homem ao reencontro com Deus, razão que não faz nenhum de nós um salvo por Cristo
no presente e no futuro. Aliás, o século 20, o século da razão por excelência,
é a maior prova da falácia e da insuficiência da razão, pois foi o século com
maior número de guerras e de vítimas de toda a história da humanidade.
Nós temos esquecido que Cristo ressuscitou. Tem feito pouca diferença em nossas
vidas a esperança de que ressuscitaremos.

Como Paulo, precisamos crer na Ressurreição de Jesus, por se tratar de uma das
colunas da fé cristã.

Mais que crer, precisamos viver como se crêssemos na Ressurreição, porque somos
capazes de cantar e declarar que cremos em algo sem viver como se crêssemos.

Cristo ressuscitou para que nós pudéssemos ressuscitar — eis o fundamento de
nossa própria esperança.

4. UMA VIDA RADICALMENTE DIFERENTE

Na primeira parte do capítulo, o apóstolo Paulo põe todo o seu argumento na
certeza da ressurreição de Cristo e dela deriva a esperança da nossa.
Precisamos ficar com esta ênfase: se não vamos viver uma vida pós-humana, somos
lastimáveis humanos. A ressurreição de Jesus e a nossa não são temas apenas de
natureza especulativa, mas de ordem existencial.

O argumento da indispensabilidade da ressurreição é repetido nas partes
seguintes do mesmo capítulo. Conquanto o apóstolo não detalhe o chronos do que
há de vir, oferece-nos uma visão bastante ampla da existência pós-histórica.

4.1. Entre o fanatismo milenista e o fatalismo secularista
Os temas relacionados à escatologia têm sido tratados de duas maneiras
antitéticas: uma se aproxima da superstição e outra compõe a fila do paganismo.

Essas duas tendências são retratadas neste capítulo 15 de 2Coríntios,
especificamente nos versículos 29 e 32.

4.1.1. O milênio como superstição
No verso 29, o apóstolo Paulo menciona que em Corinto havia cristãos que se
batizavam por antepassados mortos. (De outra maneira, que farão os que se
batizam pelos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que então
se batizam por eles?) Esses cristãos estavam tão certos que Cristo voltaria
para aquela geração que, para salvar seus queridos já mortos, lançavam-se às
águas do batismo, achando que assim contribuiriam para a remissão dos pecados
deles e os preparariam para o juízo final próximo.

A propósito, os mórmons, com cujos representantes cruzamos a todo instante
pelas ruas da cidade, ensinam, a partir deste versículo, que os cristãos de
hoje devem se batizar pelos seus parentes não cristãos para que eles possam ser
salvos. É uma espécie de quebra de maldição ao contrário. Esses intérpretes
preferem ignorar o fato que, quando Paulo menciona batismo pelos mortos, ele
não a recomenda, mas apenas a sua para argumentar o seu absurdo… Além disso,
eles se esquecem da verdade bíblica essencial, segundo a qual nós somos
julgados quando, em vida, escolhemos aceitar ou recusar o sacrifício de Jesus
Cristo por nós. Como diz o evangelista João, quem crê [em Jesus] não é julgado;
mas quem não crê, já está julgado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho
de Deus (João 3.18).

O fanatismo coríntio, no entanto, encontrou entre os tessalonicenses outra
expressão. Muitos deixaram os seus empregos e suas escolas, certos que a volta
iminente de Cristo tornava inúteis o trabalho e o estudo. Ao longo da história,
este erro foi várias vezes cometido. Centenas de líderes fanáticos marcaram
datas e lugares para a parousia. Todos fracassaram, como fracassarão todos que
continuarem a fazê-lo e muitos ainda o farão. Há pessoas que querem saber mais
que Jesus, que garantiu que aquele dia e hora, porém, ninguém sabe, nem os
anjos do céu, nem o Filho, senão só o Pai (Mateus 24.36). Devemos, portanto,
tomar cuidado com as escatologias calendaristas, aquelas que, olhando os
inequívocos sinais da proximidade do fim da história, equivocam-se ao marcar,
com certeza, esquemas e datas.

4.1.2. O milênio distante
A segunda tendência Paulo a menciona de passagem no versículo 32, quando
transcreve um dos argumentos da filosofia epicurista, bastante aceita à época.
(Se, como homem, combati em Éfeso com as feras, que me aproveita isso? Se os
mortos não são ressuscitados, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.)

Contrariamente àqueles que vivem como se o mundo fosse explodir pelos ares
ainda hoje, os secularistas de Corinto e de nossa cidade vivem na perspectiva
que isto jamais acontecerá ou, se acontecer, está muito distante. Nesta visão,
a história não tem um sentido. Sartre, que embalou as duas gerações do
pós-guerra, ensinava que a vida não tem sentido; só o presente importa.
Epicuro, no passado remoto, e Sartre, no passado recente, têm corrompido a
nossa teologia prática. Em Corintio e em nossa cidade, as más companhias
corrompem os bons costumes (verso 33). Por isto, o apóstolo recomenda: Acordai
para a justiça e não pequeis mais; porque alguns ainda não têm conhecimento de
Deus; digo-o para vergonha vossa (verso 34). Em outras palavras, quem está
neste caminho secularizado deve acordar para a justiça, isto é, para a verdade
do Evangelho, e não pecar mais seguindo vergonhosamente teorias e perspectivas
contrárias à Palavra de Deus.

Para os existencialistas de ontem ou de hoje, Cristo voltará, mas não para esta
geração. Logo, o importante é viver o agora. Há cristãos para os quais a
parousia não significa nada; é como se não fosse algo relevante, embora haja
uma profusão de textos bíblicos a respeito e todo um livro para a descrever, o
Apocalipse.

O tema da escatologia afugenta a muita gente, por suas dificuldades e pelas
muitas discordâncias entre os estudiosos do assunto. Além disso, de tanto se
falar que a volta de Cristo está próxima, ela acaba vista como sendo algo
distante…

No século 19 houve também uma tendência explícita, a de que o homem construiria
uma sociedade com tal grau de perfeição, pela influência do Evangelho, que não
haveria necessidade de Cristo voltar. O progresso educacional, moral, científico
e tecnológico a nova terra. Nós reescreveríamos os apóstolos: Cristo não
precisaria voltar; nós é que iríamos ao seu encontro, ao realizarmos seu
projeto. Hoje não se enuncia esta teologia, mas se vivencia esta teologia
imanentista, o que é pior.

4.1.3. Uma visão bíblica
Diferentemente destas visões equivocadas, precisamos de uma visão bíblica
acerca do presente e do futuro. O nosso presente é possível porque no passado
Jesus Cristo morreu e ressuscitou por nós. O nosso presente é possível porque
no futuro Jesus Cristo voltará para nos fazer ressucitar e viver para sempre
com Ele num tipo de vida radicalmente diferente da que conhecemos e
experimentamos.

Nossa visão de Jesus Cristo deve ser tão forte que nos leve a viver como Paulo,
que perguntava: E por que nos expomos também nós a perigos a toda hora? Sua
resposta era veemente: Eu vos declaro, irmãos, pela glória que de vós tenho em
Cristo Jesus nosso Senhor, que morro todos os dias (versos 30 e 31). Nós
vivemos segundo o que cremos. Se cremos que Jesus Cristo veio, nós o oferecemos
a todos quantos podemos; se cremos que Ele voltará, queremos que outras pessoas
nos acampanhem nesta jornada sem fim pelo tempo sem relógio da eternidade.

5. A HISTÓRIA TEM SENTIDO

O estudo da escatologia, como ensinada pelo apóstolo Paulo, no capítulo 15 de
1Coríntios, nos mostra que a história tem um sentido.

Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver
destruído todo domínio e toda autoridade e todo poder.

Pois é necessário que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de
seus pés. (Ora, o último inimigo a ser destruído é a morte.) Pois se lê:
“Todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés”. Mas, quando diz:
“Todas as coisas lhe estão sujeitas”, claro está que se excetua
aquele que lhe sujeitou todas as coisas.

E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho
se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo
em todos (versos 24-28).

A história humana terá um fim quando o mal for aniquilado de modo terminal. O
presente geme pela atuação dos domínios, autoridades e poderes. Este é a
primeira utilidade de uma fé que contempla as dimensões escatológicas: nossa
vida hoje pode ser marcada pelo gemido, mas esta história terá um fim.

Não há inimigo que não seja derrotado. Aquele que derrotou o inimigo
definitivo, que é a morte, tornada relativa, derrotará qualquer outro tipo de
inimigo. A morte não venceu Jesus; graças a Ele, a morte não nos vencerá.

Todos aquele que aceitar esta morte não experimentará o poder da morte sobre
si. Toda a força da morte despencou sobre o corpo de Jesus, que afundou numa
tumba. Se a história tivesse acabado assim, estaríamos todos mortos também. No
entanto, todo o poder de Deus levantou Jesus de entre os mortos, para que nós
vivêssemos. Este é o resumo do Evangelho.

No final dos tempos, Jesus entregará o Reino de Deus ao Pai. Esta afirmação
deve ser compreendia no interior da economia divina da história, sob pena de
não entendermos a natureza da

Trindade. O que Paulo nos ensina é que o Filho tem uma missão e esta missão
terá um fim: chegará o tempo em que Ele não será mais o mediador entre os
homens e o Pai, porque não será mais necessária a presença de um mediador, já
que os homens e a Trindade estarão em contato direto e eterno, na grande festa
celestial. Ele, então, chegará perante o Pai e anunciará que sua obra terminou.

Quando isto acontecer, o Filho receberá toda honra, toda riqueza, toda
sabedoria, toda força, toda honra, toda glória e toda bênção (Apocalipse 5.12).
O contraste é claro: Ele derrota toda a autoridade e recebe por isto toda
honra. A glória do Filho é a mesma do Pai. No final dos tempos, o Cordeiro
reinará, submetendo sua obra ao Pai, que o exaltará sobre todo nome e toda a
pessoa, e fará com que todo joelho dobre diante dEle e toda a língua Lhe cante
louvores, porque estará completa a obra da salvação (Filipenses 2.9-11).

Esta obra, no entanto, começou na criação do mundo e continuou na Encarnação.
Desde então Cristo reina. Ele venceu a morte porque reinava. Nós, no entanto,
ainda não vencemos a morte. Venceremos quando Cristo nos ressuscitar dentre os
mortos. Todos os sofrimentos humanos encontram são recompensados com a
ressurreição, que os faz cessar e dá sentido a eles.

Por isto, as últimas coisas (escaton) são, na verdade, as primeiras. Cristo é o
princípio e o fim, o Alfa e Ômega, na linguagem apocalíptica. Quem está no
princípio e no fim governa o presente, o nosso presente.

É encorajador saber que Jesus Cristo é rei agora também. É animador saber que,
a apesar da aparência do Seu sumiço da história, Ele a controla. Ele nos
controla. Ele controla as pessoas ao nosso redor. Ele controla as
circunstâncias ao nosso redor. Ele controla a história, história que marcha
para reconhecer que Ele é o Senhor.

6. NÃO PODEMOS PREVER O TEMPO DA PAROUSIA

Sofremos porque não vemos com clareza o tempo da vinda de Jesus Cristo. Nós
gostaríamos de sabê-lo, embora isto fosse péssimo. Se a parousia fosse ocorrer
este ano, e nós o soubéssemos, nós ficaríamos paralisados, como ficaram alguns
da igreja de Tessalônica nos tempos apostólicos. Se a parousia fosse ocorrer em
gerações posteriores à nossa, e nós o soubéssemos, nós ficaríamos descansados e
não permitiríamos que ela afetasse o nosso presente.

É daí que advém a tendência de se calendarizar os acontecimentos escatológicos.

Sabemos o que vai acontecer, porque a Bíblia é clara quanto a esta descrição.
Sabemos porque vai acontecer, uma vez que é a forma pela qual Deus se torna
tudo em todos. A Bíblia, do Antigo ao Novo Testamento, garante-nos que, no
final dos tempos, Deus reconciliará a criação, inclusive a criação humana,
consigo. Os problemas estão no quando e no como.

6.1. A seqüência
Somos informados, em linhas gerais, a seqüência dos acontecimentos do fim.
Paulo a enumera nos versos 24 a 28 e 20 a 23:

Na realidade Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, sendo ele as primícias
dos que dormem. Porque, assim como por um homem veio a morte, também por um
homem veio a ressurreição dos mortos. Pois como em Adão todos morrem, do mesmo
modo em Cristo todos serão vivificados. Cada um, porém, na sua ordem: Cristo as
primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda (versos 20-23).

Os acontecimentos do fim estão no passado (encarnação e glorificação de Jesus),
no presente (nossa aceitação ou recusa do sacrifício de Cristo) e no futuro. No
caso dos salvos, o esquema é claramente o seguinte.

morte de Jesus Cristo » nossa morte (ou transformação, para quem estiver vivo)
ressurreição de Jesus Cristo » nossa ressurreição (ou transformação para quem
estiver vivo)
parousia » nosso arrebatamento
juízo final » nosso julgamento
consumação do Reino de Deus » vida celestial
Esta seqüência geral pode ser detalhada, mas, ao fazê-lo, não podemos perder a
visão global da história no projeto de Deus. Mesmo as discordâncias quanto ao
tempo dos acontecimentos do fim no futuro não nos devem separar da esperança
que o Jesus que reina agora reinará plenamente no porvir.

Os pré-milenistas não podem abafar a esperança com seus esquemas. Os
pós-milenistas não podem anular a esperança com seu otimismo. Os a-milenistas
não podem empobrecer a esperança com a redução dos acontecimentos do fim a
meros símbolos.

6.2. Os sinais
Pressupondo a parousia é o acontecimento central, em torno do qual orbitam os
demais, devemos nos acautelar duplamente, com o cuidado de não achar que a
volta de Cristo é algo para o “são nunca de tarde” (conforme o alerta
de Pedro — 2Pedro 3.9) ou que é algo para tão breve que nos perturbe (2Tessalonicenses
2.2).

Nós simplesmente não conhecemos o tempo da volta de Jesus Cristo. E isto é
muito bom, conquanto para alguns possa soar como um convite a colocá-lo para um
futuro remoto. Nós temos que viver como se Ele fosse voltar hoje, com os olhos
voltados para a Sua direção. Nós temos que viver como se Ele fosse ainda
demorar a retornar, mantendo nossos olhos voltados para o crescimento em
direção à Sua estatura perfeita. Enquanto tocamos nossos projetos, de curto,
médio e longo prazos, devemos esperar e desejar a volta.

Era assim que Paulo pensava e agia. Embora achasse que alguns de sua geração
seriam arrebatados e transformados, sem passarem pela experiência da morte (só
a da transformação), pela iminência da parousia (versículo 51), ele não deixava
de fazer projetos para a universalização do Evangelho.

Os sinais do fim estão na Bíblia. Alguns já se cumpriram claramente. Outros
ainda não se cumpriram. Devemos ter cuidado de não os ignorar, mas também de
não os produzir, fazendo com que fatos se encaixem artificialmente em nossos
esquemas. Entre a indiferença em relação aos sinais e a indústria dos sinais,
devemos ficar com a oração apostólica: “Maranata!” Enquanto a
parousia não acontece, devemos pedir por ela, repetindo a frase com a qual
Paulo termina esta epístola: “Maranata!”, que quer dizer: “Vem,
Senhor Jesus” (1Coríntios 16.22).

Devemos ter a humildade ainda de reconhecer que há sinais que dificilmente
conseguiremos divisar com clareza. O objetivo dos sinais é nos advertir contra
a possibilidade de marcar tempos que só Deus conhece. O Senhor da história não
é refém de nossas interpretações, que falham, conquanto Ele não falhe jamais.

7. SÓ PODEMOS FALAR DA ETERNIDADE POR MEIO DA LINGUAGEM POÉTICA

Além da fixação do tempo para os acontecimentos do fim, nós lavramos em um
outro tipo de dificuldade: a linguagem. A linguagem objetiva não consegue falar
da eternidade; só a imaginação poética nos ajuda. É isto que faz o autor de
Apocalipse. Tudo ali é poesia.

7.1. A imaginação poética
Toda a descrição da vida celestial, ao longo de todo o Novo Testamento, é
poética. É a poesia que nos ajuda a descrever a morte, a ressurreição, a
parousia e o céu. A poesia não remete para a mentira, mas para a incompetência
da linguagem narrativa (jornalística, objetiva, positiva).

Não podemos tomar as imagens acerca da vida celestial e limitá-las. Quem lê o
salmo 23 não pensa que Deus seja um pastor de ovelhas com um cajado na mão a
cuidar delas, mas — isso, sim — imagina que Deus se parece com um pastor de
ovelhas com um cajado na mão a cuidar dos seus filhos. Quem lê a descrição das
ruas celestiais, como a de Apocalipse, não deve imaginá-las como sendo de ouro,
mas como sendo tão imponentes e valorosos como o ouro, o mais rico dos metais
preciosos, razão por que foi utilizado para servir como meio de comparação
acerca da vida pós-esta. O céu é um lugar. Até podemos chamá-lo de nova terra,
à falta de elementos para descrevê-lo, porque nada tem a ver com esta vida aqui
e nada sabemos como ela será, a não ser que será radicalmente diferente desta.

Diante de nossa impossibilidade de imaginar o diferente como sendo diferente,
só podemos falar da eternidade por meio da linguagem poética. Um exemplo neste
capítulo é a referência à morte como sendo um sono (os que dormem — versículo
20 –, nem todos dormiremos — versículo 51). O apóstolo não está falando do
sono da alma: está usando um termo próprio da tradição bíblica para descrever a
morte.

7.2. A vida celestial
Em sua descrição poética, Paulo prefere usar a imagem da semente para descrever
a natureza de nossos corpos (?) celestiais.

Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? e com que qualidade de corpo vêm?

Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando
semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como o de
trigo, ou o de outra qualquer semente. Mas Deus lhe dá um corpo como lhe
aprouve, e a cada uma das sementes um corpo próprio.

Nem toda carne é uma mesma carne; mas uma é a carne dos homens, outra a carne
dos animais, outra a das aves e outra a dos peixes. Também há corpos celestes e
corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres.
Uma é a glória do sol, outra a glória da lua e outra a glória das estrelas;
porque uma estrela difere em glória de outra estrela.

Assim também é a ressurreição, é ressuscitado em incorrupção. Semeia-se em
ignomínia, é ressuscitado em glória. Semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em
poder. Semeia-se corpo animal, é ressuscitado corpo espiritual. Se há corpo
animal, há também corpo espiritual. (Assim também está escrito: O primeiro
homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante.) Mas
não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois o espiritual. O primeiro
homem, sendo da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Qual o terreno,
tais também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E,
assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do
celestial.

Mas digo isto, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus; nem
a corrupção herda a incorrupção.

Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos mas todos seremos
transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última
trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados
incorruptíveis, e nós seremos transformados.

Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade
e que isto que é mortal se revista da imortalidade. Mas, quando isto que é
corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir
da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrito: “Tragada
foi a morte na vitória”. Onde está, o morte, a tua vitória? Onde está, o
morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a
lei.

Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo (versos
35-57).

Desta seção, eivada de imagens poéticas, podemos reter algumas verdades
inquestionáveis:

1. A vida celestial é radicalmente diferente da vida terrena. Um fruto não se
parece com o grão do qual germinou. Uma árvore não se parece com a semente que
a fez nascer. A vida celeste não se parece com a vida terrena.

Nossos novos corpos não conhecerão as limitações de tempo e espaço que
experimentam aqui. Podemos, diante disto, ainda nos referir a eles como
“corpos”? Não está o apóstolo novamente fazendo poesia?

2. Estes nossos novos corpos serão corpos glorificados. O máximo que podemos
saber a este respeito é que estes novos corpos se parecerão com o corpo do
Jesus ressurreto. Mais do que isto não sabemos, exceto ainda que, quando
adentrarmos à eternidade, os elementos constitutivos desses nossos corpos não
serão mais a carne e o sangue, isto é, não serão células biologicamente
formadas, nem serão mais passíveis de ser atingidas pelo poder do pecado.

3. A participação na vida eterna celeste é o cume do processo iniciado na
ressurreição de Jesus: a vitória sobre a morte. Depois de ver Jesus reinando
nos céus e de nos contemplar ajoelhados diante dEle confessando o Seu senhorio,
Paulo pergunta à morte, com ironia:

— Ei, morte, onde está a ponta aguçada de ferro com a qual você flagelava as
pessoas? Ei, morte, onde está o seu sorriso de vitória?

Mesmo a morte, este acontecimento definitivo, tornou-se relativa diante do
Absoluto dos absolutos. Por isto, podemos cantar que Jesus está vencendo e um
dia terminará sua obra.

8. CONCLUSÃO

O apóstolo Paulo termina seu capítulo mostrando qual deve ser o sentido de se
estudar escatologia: reafirmar o valor da confiança no Senhor, que transforma
as nossas ações em ações úteis no Seu reino.

A especulação deve ceder lugar ao compromisso.

A recordação deve preceder a esperança.

Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na
obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor (verso 58).

Podemos concluir com esta oração, própria do cristão que ora, age e espera.

PLANETA PRECÁRIO

Ele vem.
A qualquer momento, ele vem.
E eu estou indo ao seu encontro.
Ainda visto as roupas de sempre,
ainda olho nas mesmas direções,
ainda piso nos mesmos caminhos,
ainda toco nos mesmos corpos,
ainda digo as mesmas palavras que os homens
mas eu espero a hora
o instante do encontro
para um abraço muito longo.
E o meu rosto será outro.
E o meu verbo será outro.
E o meu corpo será outro.

Pode ser que eu chegue primeiro
porque eu tenho muita pressa de chegar.
Se primeiro eu for,
receberei logo a sua palavra,
mas o seu corpo
certamente esperarei
pela minha pressa de chegar.

Parte
IV
UMA
MULHER VESTIDA DO SOL
Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol,
tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas; estava
grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz.
Apareceu então outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo, com sete
cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas; sua cauda arrastava um
terço das estrelas do céu, lançando-as para a terra. O Dragão colocou-se diante
da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho, tão logo
nascesse. Ela deu à luz um filho, um varão, que Irá reger todas as nações com
um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu
trono, e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar
em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias. (…) Ao ver que fora
expulso para a terra, o Dragão pôs-se a perseguir a Mulher que dera à luz o
filho varão. Ela, porém, recebeu as duas asas da grande águia para voar ao
deserto, para o lugar em que, longe da Serpente, é alimentada, é alimentada por
um tempo, tempos e metade de um tempo. A Serpente, então, vomitou água como um
rio atrás da Mulher: a terra abriu a boca e engoliu a água que o Dragão
vomitara. Enfurecido por causa da mulher, o Dragão foi então guerrear contra o
resto dos seus descendentes, os que observam os mandamentos de Deus e mantêm o
Testemunho de Jesus” (Ap 12.1.17).

Seria a santa Maria, a mãe de Jesus, essa “Mulher que deu à luz um
varão”, fugiu para o deserto, onde foi alimentada por mil duzentos e
sessenta dias? Colhemos de um site de apologética católica a seguinte
interpretação extra-oficial:

“No Apocalipse, João contempla nesta visão três verdades: a Assunção de
Nossa Senhora, sua glorificação, sua maternidade espiritual. O Apocalipse
descreve que esta mulher “estava grávida e (…) deu à luz um Filho, um
menino, aquele que deve reger todas as nações…” (Ap 12, 2.5 ). Qual
mulher, que de fato, esteve grávida de Jesus senão a Santíssima Virgem? (conf.
Is 7, 14). Outros contestam, dizendo que esta mulher é símbolo da Igreja
nascente. Mas, a Igreja nunca esteve “grávida” de Jesus Cristo!
Antes, foi Cristo que gerou a Igreja, foi ele que a estabeleceu e a sustenta. E
para provar que esta mulher é exclusivamente Nossa Senhora, em outro lugar está
escrito: “O Dragão vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher
que dera à luz o Menino” ( Ap 12, 13 ). A Igreja teria dado à luz a um
Menino? Evidente que não! Portanto esta mulher refulgente é unicamente, Nossa
Senhora, pois foi ela unicamente que gerou “o menino” prometido conf.
Is 9, 5 ). Diz ainda a Sagrada Escritura que: “(o Dragão) deteve-se diante
da Mulher que estava para dar à luz (…) para lhe devorar o Filho (…) A
Mulher fugiu para o deserto, onde (…) foi sustentada por mil duzentos e
sessenta dias” ( AP 12, 4.6 ). De fato, o demônio maquinou contra a vida
de Jesus desde seu nascimento, na pessoa do perseguidor Herodes. Maria fugiu
então com o filho para o deserto (Egito). Lá ficou por aproximadamente mil e
duzentos e sessenta dias (três anos e meio). Ou seja, do ano 7 AC, ano do
nascimento de Jesus, conforme atualmente se acredita, até março-abril do ano 4
AC, ano da morte de Herodes. Perfazendo os três anos e meio de exílio, nos
quais foi sustentada pela Providência. Portanto, todos esses versículos,
confirmam primeiramente a assunção de Nossa Senhora. Pois o apóstolo a
contempla revestida de sol, já estabelecida desde agora na glória prometida
pelo seu Filho, quando diz “Os justos resplandecerão como o sol” (Mt
13,43). Confirma incontestavelmente sua realeza espiritual, pois a mesma se
apresenta coroada com doze estrelas, símbolo das doze tribos de Israel e dos
doze apóstolos. Portanto Rainha do Antigo e do Novo Testamento. Por fim
confirma sua maternidade espiritual, pois diz o Espírito Santo: “(O
Dragão) se irritou contra a Mulher ( Maria ) e foi fazer guerra ao resto de sua
descendência ( seus filhos espirituais ), os que guardam os mandamentos de Deus
e têm o testemunho de Jesus” ( Ap 12, 17 ). Somos de sua descendência
apenas se nos comprometermos com o Cristo Jesus, guardando os seus mandamentos
e testemunhando-o como nosso Senhor e Salvador”.

A interpretação acima, que vez ou outra aparece nos debates entre católicos e
protestantes, não me parece das mais felizes. Vejamos alguns pontos
discrepantes:
1) Em nenhum momento a Bíblia relata que os salvos em Cristo receberão uma
coroa de doze estrelas;
2) Também nada registra sobre os tormentos e os gritos de Maria na hora do
parto. Acredito que Maria sentiu as dores normais, mas não a ponto de ficar
atormentada;
3) Maria fugiu para o Egito (Mt 2.14) e não para o deserto; 4) Pelo relato de
Apocalipse, o filho foi arrebatado e a mulher fugiu para o deserto, o que
realmente não aconteceu. Maria, Jesus e José foram para o Egito;
5) O cálculo dos 1.260 dias, como acima, pareceu-me impreciso, sem convicção,
aproximado. A Bíblia nada diz sobre o tempo de permanência de Maria no Egito;
6) O texto não fala – nem a Bíblia em qualquer de seus livros – na Assunção de
Maria, na sua glorificação e maternidade espiritual.
7) A interpretação está na contramão do que pensam eruditos católicos e
protestantes, conforme registros a seguir.

Vejamos qual a interpretação da Bíblia de Jerusalém (Primeira impressão em
setembro/1985, Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, autenticada
em 1.11.1980 com a assinatura de Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Metropolitano
de São Paulo. Na apresentação, os editores disseram que “após três anos de
árduo e intenso trabalho, realizado por uma equipe de exegetas católicos e
protestantes e por um grupo de revisores literários, pudemos entregar ao
público a tradução do Novo Testamento”). Pois bem, essa comissão do mais
alto nível, concluiu o seguinte com relação à “Mulher vestida com o
sol” (Ap 12.1.17):

“A cena corresponde a Gênesis 3.15,16. A mulher dá à luz na dor (v.2)
aquele que será o Messias (v.5). Ela é tentada por Satanás (v.9), que a
persegue, bem como a sua descendência. Ela representa o povo santo dos tempos
messiânicos (Is 54; 60; 66.7; Mq 4.9-10), e portanto [representa] a Igreja em
luta. É possível que João pense também em Maria, a nova Eva, a filha de Sião,
que deu nascimento ao Messias (cf. Jo 19.25)”.

Então, o entendimento dos eruditos católicos é o de que a “mulher” em
referência simboliza a Igreja perseguida. Apenas no final, dizem ser
“possível” que o autor do Apocalipse estivesse pensando em Maria.
Esta possibilidade não pode e não foi levada a sério; são conjecturas,
suposições. Para entendermos melhor o assunto, vamos ler Isaías 66.7-9
(referência citada pelos exegetas católicos): “Antes que estivesse de
parto, deu à luz; antes que lhe viessem as dores, deu à luz um filho. Quem
jamais ouviu tal coisa? (…) Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião mal sentiu
as dores de parto, e já deu à luz a seus filhos”.

A Bíblia de Estudo Pentecostal, concordando, esclarece que “Isaías prevê o
renascimento de Israel como o povo de Deus, durante o reino messiânico; o
nascimento será singularmente rápido e trará alegria, paz e prosperidade”.
Devemos ter o cuidado para não identificar Maria com tudo que dar à luz um
filho. Leiam também Isaías 26.17-19; Miquéias 4.9-10).

Vejamos os comentários da Bíblia Sagrada, Edição Ecumênica, tradução do Padre
Antônio Pereira de Figueiredo, com notas do Monsenhor José Alberto L. de Castro
Pinto, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, BARSA, 1964, aprovada, portanto, pela
Igreja Católica:

“Apocalipse 12.1: Uma mulher: não é o símbolo da SS. Virgem, mas sim o do
Povo de Deus, primeiro Israel, que deu ao mundo Jesus Cristo segundo a carne e
depois o “Israel de Deus”, isto é, a Igreja que enfrentaria as
perseguições do Dragão. O sol, a lua e as estrelas são apenas figuras para
expressar seu esplendor. Por acomodação a Igreja aplica este versículo à
SS.Virgem”.

Primeiro, os comentários católicos dizem o óbvio, o que não pode ter outra
interpretação, ou seja, que a mulher revestida do sol simboliza o Povo de Deus,
Israel donde nasceu Jesus, num primeiro momento; no outro momento, representa a
Igreja perseguida. No final, fala a verdade quando diz que o Catolicismo aplica
o versículo à SS. Virgem por acomodação, o que me parece uma afirmação que
compromete a lisura e imparcialidade com que as devemos interpretar e ensinar a
palavra de Deus. Acomodação dá idéia de arrumação, de arranjo. A advertência de
Apocalipse 22.19 pode ser aplicada nesse caso: “E se alguém tirar
quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da
árvore da vida…”

Os comentaristas da Bíblia [evangélica] de Estudo Pentecostal concordam em
linhas gerais com os das bíblias católicas. Vejam:

“Apocalipse 12.1 – Uma mulher – Esta mulher simboliza os fiéis de Israel,
através dos quais o Messias (i.e., o menino Jesus) veio ao mundo (cf. Rm 9.5).
Isso é indicado não somente pelo nascimento do menino, mas também pela
referência ao sol e à lua (ver Gn 37.9-11) e às doze estrelas, que naturalmente
se referem às doze tribos de Israel”. “Apocalipse 12.6 – A mulher
fugiu – Aqui, a mulher simboliza os fiéis de Israel na última parte da
tribulação (cf. os 1260 dias, metade exata do período da tribulação). (1)
Durante a tribulação, esses fiéis de Israel, judeus tementes a Deus, opor-se-ão
à religião do Anticristo. Examinando com sinceridade as Escrituras, eles
aceitam a verdade de que Jesus Cristo é o Messias (Dt 4.30-31; Zc 13.8-9). São
socorridos por Deus durante os últimos três anos e meio da tribulação, e
Satanás não poderá vencê-los (ver vv 13-16). (2) Quem de Israel aceitar a
religião do Anticristo e rejeitar a verdade bíblica do Messias, será julgado e
destruído nos dias da grande tribulação (ver Is 10.21-23; Ez 11.17-21;
20.34-38; Zc 13.8-9)”. “Apocalipse 12.13 – Perseguiu a mulher –
Satanás procura destruir a mulher. Aqueles em Israel, que aceitarem a Cristo,
serão vigiados e perseguidos por Satanás e pelos seguidores do Anticristo (cf
Mt 24.15-21). Deus dará proteção sobrenatural aos santos de Israel durante esse
período (vv 14-16)”.

Vamos ver alguns trechos de O Novo Comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, primeira
edição em 1963:

“A mulher e o seu filho (Ap 12.1-17) – Os gregos contavam uma história do
nascimento de Apolo marcadamente paralela à dos vv. 1-6. Os egípcios
semelhantemente relatavam o nascimento de Hórus; um fato é que a história, em
formas modificadas, parece ter sido universalmente contada. Claramente, João
tem empregado uma narrativa bem conhecida (primeiramente adaptada,
aparentemente, por um judeu) tanto para ilustrar o seu próprio tema, como para
tacitamente excluir todos os heróis de outras crenças da posição de Redentor
universal (…) Para as nações pagãs do mundo antigo, a mulher grávida (12.1,2)
teria sido uma deusa coroada com as doze estrelas do zodíaco. O judeu teria
visto nela o seu próprio povo, encabeçado pelos doze patriarcas. João mostra
que ela não representa nenhum destes, MAS [representa] O VERDADEIRO POVO CRENTE
DE DEUS, tanto da velha, como da nova dispensação, a comunidade messiânica.
(…) O dragão agora volta a sua atenção para A MULHER, ISTO É, A IGREJA, tendo
falhado no caso do Senhor dela (cfr. João 15.20). No simbolismo que revela o
ataque contra a mulher, a serpente é considerada como um monstro da água,
inclusive a personificação do mar. Daí a mulher foge para o refúgio no deserto
(14), onde um monstro marítimo não pode ter lugar. Para não ser superada, a
serpente manda após ela um dilúvio, mas a terra o traga, de maneira que não se
faça mais nada por ele (15,16). O retrato bem ilustra a segurança espiritual
dos crentes contra tudo que o diabo possa fazer em suas tentativas para
destruí-los”.

Todas as interpretações apontam para um só entendimento, o de que a mulher
vestida com o sol simboliza Israel, a Igreja de Cristo, o Povo de Deus. Nada há
que possa indicar a descrição do parto de Maria, na cidade de Belém. Em sua
essência, os eventos apocalípticos apontam para o futuro, e não para o passado,
“para dar aos crentes de todas as eras a perspectiva divina do férreo
conflito entre eles e as forças conjuntas de Satanás, nesta revelação de
desfecho da história. O Apocalipse revela principalmente os eventos dos últimos
sete anos da segunda vinda de Cristo, quando, então, Deus intervirá neste mundo
e vindicará seus santos, derramando sua ira sobre o reino de Satanás”.
Neste contexto, insere-se a visão da mulher e o dragão, objeto da presente
análise.

Parte
V
A
UNÇÃO DO ESPÍRITO NA VIDA DO CRISTÃO
01. INTRODUÇÃO
A igreja hoje está vivendo mais em função do seu passado do que do seu
presente. Muitos que sepultaram a velha vida, estão chorando diante da
sepultura, recordando um tempo que já não existe mais. O que aconteceu? Onde
foi parar a alegria, a fé, a ousadia?
O povo de Deus está voltando a ser um povo errante. Qualquer dificuldade é
motivo para se afastar em busca de um oásis inexistente.
A lista para explicar este tipo de comportamento é grande. Tudo tem uma
explicação para apoiar o afastamento, o desinteresse. Assim vamos colecionando
fracassos na família, no trabalho, na igreja culpando até mesmo a Deus pelas
nossas derrotas.

O estudo sobre a unção do Espírito visa restaurar o poder de Deus em nossas
vidas. Estamos vivendo num período muito singular. O mover do Espírito Santo
está começando a acontecer em muitos lugares. Precisamos estar preparados para
não deixar esta onda passar sem nos tocar. A hora é de entrega e disposição de
buscar a presença de Deus e a manifestação do Espírito Santo. Que Deus nos
ajude!

Há duas questões que precisam ser consideradas no estudo sobre a unção do
Espírito Santo:

A primeira é sobre o que o Espírito Santo está dizendo hoje para a igreja?
Sabemos que a verdade de Deus é única e que o seu propósito continua o mesmo
desde o início da criação. Malaquias 3:6
Mas sabemos também que suas revelações são progressivas! João 13:7. Em cada
período da história o Espírito Santo se moveu de acordo com as necessidades da
igreja e do povo!

Hoje não temos necessidade de ver um lençol descendo do céu cheio de animais
impuros, para caminharmos na direção indicada por Deus. Atos 10:11-12. Os
presbíteros não se reúnem para discutir se devemos ou não ser circuncidados.
Atos 15:1,6.

Nestes dias o Espírito Santo está dispensando à igreja o que ele tem de melhor.
Por isso é devemos estar atentos à sua voz.
Algumas perguntas devemos fazer a nós mesmos:
a. O que estamos realizando tem a ver com o plano de Deus para esses dias?
b. O nosso esforço tem respondido as prioridades do Reino de Deus?
c. A nossa motivação está sendo direcionada para o alvo certo?

A segunda questão é se a igreja está ouvindo com clareza o que o Espírito está
dizendo?
Quando não se ouve com clareza a voz do Espírito corre-se o risco de caminhar
por caminhos traçados pela nossa vontade.
Paulo adverte – 1 Coríntios 14:8

02. COMO OUVIR A VOZ DO ESPÍRITO NESTES DIAS?

Em primeiro lugar, examinando o que a Palavra de Deus fala sobre esse período.

Isaías 35 é um texto profético que fala sobre uma grande unção que será
derramada sobre o nosso deserto!
Esta unção será tão grande que o maior desejo de Deus será cumprido.
a. Ver o evangelho sendo pregado a todas as nações. – Mateus 24:14
b. Ver a igreja convivendo com o sobrenatural. – Marcos 16:17
c. Ver o povo buscando a santificação de vida. – 1 Tessalonicenses 4:3
d. Ver as influências satânicas sendo inibidas pelo poder da unção. – Lucas
4:18

Em segundo lugar, estendendo os olhos para o mundo para ver onde o vento está
soprando.

Durante um período o vento soprou em alguns países e modificou completamente a
sua paisagem.
A Escócia há cerca de quatrocentos anos estava mergulhada em profundas trevas.
O povo vivia numa pobreza degradante. O sistema feudal, que em outros países já
havia sido abolido, ainda predominava na Escócia. Não existia a classe média.
Apenas o clero, a nobreza e o povo. O povo era considerado os vassalos dos
barões. Era escravo no corpo e na mente.
O clero levava uma vida corrompida e imoral. Neste caos surge um homem
levantado por Deus chamado João Knox. Sob o ministério deste homem o país foi
transformado completamente.

A Inglaterra também em 1739 experimentou o mover do Espírito através de João
Wesley, Charles Finney, George Whitefield.

Em outros países como Irlanda, Gales, Estados Unidos o sopro do Espírito Santo
mudou a vida e o sistema de governo até então predominante.

Hoje o Espírito continua soprando em muitos outros lugares. A nossa oração é
que ele não deixe de soprar em nosso meio, em nossa igreja, em nosso país.

03. UM GRANDE PERIGO QUE RONDA A IGREJA

Um dos grandes riscos da igreja moderna é o de acreditar:
a. que através de uma organização bem feita;
b. de uma programação eclética;
c. de uma da habilidade em lidar com o povo
Ela produzirá os mesmos resultados que a unção do Espírito produz.

É importante frisar, que sem unção não há trabalho espiritual. Nada pode
substituir a ação do Espírito Santo. Lucas 24:49

04. O QUE É UNÇÃO DO ESPÍRITO?

Hoje esta palavra, que é nova no vocabulário evangélico, já está sendo
deturpada e desgastada.
A unção está sendo confundida com muitas práticas realizadas pela igreja.
A unção não é:
a. Um manifestação sentimental!
c. Uma demonstração humana de poder!
d. Uma encenação espiritual!

Unção, é o método que Deus usa através do Espírito Santo para operar a sua
vontade na terra. Envolve todas as graças, habilidades e poderes do Espírito
Santo. A Unção é a revelação da presença de Deus no meio do seu povo.
Ela ao se manifestar afeta todo aquele que é tocado. Quando um homem está
ungido tudo o que ele toca recebe a mesma unção.

05. UM PEQUENO HISTÓRICO BÍBLICO

No Antigo Testamento ninguém podia oferecer sacrifícios se não fosse ungido
para tal.
A unção era específica para:
– os reis – 1 Samuel 9:16; 2 Samuel 5:3
– sacerdotes – Êxodo 28:41; Êxodo 30:32
– profetas – 1 Reis 19:16

Estes eram ungidos para oficiarem diante de Deus. Quem tentou oferecer
sacrifícios sem passar pela unção, foi punido. Levíticos 10:1; 1 Samuel 13:8-9;
13.
Hoje a unção do Espírito Santo nos habilita a exercer:
– a autoridade de um rei – Lucas 10:19
– a interceder como um sacerdote – 1 João 5:16
– a profetizar como um enviado de Deus – Atos 18:9

Lembre-se do seguinte: o mundo hoje requer uma igreja que trabalhe no poder do
Espírito Santo. Uma igreja que saiba depender do Espírito na realização de seus
projetos.
Zacarias 4:6.

Parte
VII
CONTEMPORANEIDADE
DOS DONS ESPIRITUAIS II




Este estudo contempla questões levantadas por vários irmãos.

Qual a diferença entre batismo no Espírito Santo e dom de línguas?
R: Expressões equivalentes a batismo no Espírito: Ser cheio do Espírito (At
2.4; 9.17) Receber ou descer o Espírito (At 8.15-16; 19.2); Cair ou derramar o
Espírito Santo (Joel 2.28-29; At 2.17; 10.44-45; 11.15); Batizar com o Espírito
Santo (Mt 3.11; Jo 1.33; At 11.16). O Batismo é uma experiência especial e
sobrenatural. O falar em línguas é uma manifestação do Espírito, um dom (1 Co
12.7, 10).

Por que só o dom de variedade de línguas é uma evidência do batismo, se
existem outros dons mais nobres?

R: A vida espiritual do crente deve ser um crescer constante. A Bíblia diz para
crescermos na graça e no conhecimento (2 Pe 3.18); Jesus crescia em sabedoria
(Lc 2.52); devemos crescer em nossa fé (2 Co 10.15; Lc 17.5). Deus concede
inicialmente ao recém-batizado um ou mais dons, mas nada impede que o crente
continue crescendo, procurando com zelo os melhores dons (2 Co 12.31; 14.1). O
apóstolo Paulo diz que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os
infiéis (1 Co 14.22), que passam a compreender porque o Reino de Deus é
diferente do reino das trevas. Para os crentes, as línguas significam que o
Espírito está sendo derramado (At 10.44-46; 11.15-17).

Por que considerar o batismo no Espírito Santo uma doutrina se essa
experiência está circunscrita ao livro de Atos e aos primeiros passos da
Igreja?

R: Se o cânon do Novo Testamento só fosse selado após o último batismo no
Espírito Santo, ainda continuaria aberto, pois a Igreja continua RECEBENDO o
Espírito. Ademais, Paulo não declara que o falar em línguas tenha sido um
privilégio da igreja em Corinto. Se dermos curso ao raciocínio de que a
experiência ficou restrita àqueles irmãos, deveríamos então desconsiderar não
só as cartas aos coríntios, mas a enviada aos romanos, aos filipenses, aos
colossenses, e outras. O registro detalhado da experiência em Atos não
significa dizer que ficou ali circunscrita. Seria desnecessária a continuação
dos registros. Mas o assunto é tratado também em I e II aos Coríntios; em Joel
2.28, como promessa; em Marcos 16.17, na palavra de Jesus; em João 1.33, na
palavra de João Batista; em Romanos 1.11 e 12.6, na palavra de Paulo, desejoso
de que houvesse fortalecimento espiritual, e confirmando a variedade de dons e
o de profecia.

Jesus falou em línguas?

R: A Bíblia nada diz a respeito. Cremos que não, porque a promessa era para uma
ocasião futura (Jl 2.28; Mc 16.17; At 2.4,16). Outra razão: o falar em línguas
serve à edificação própria, do próprio crente, porque fala em espírito, em
mistérios, com Deus (1 Co 14.2,4,14). Jesus não precisava de tal edificação.

Há um local determinado para recebermos o batismo?

R: Não. O crente pode receber o Espírito em qualquer lugar, mas o local mais
apropriado é num ambiente de oração. Pode ser com ou sem imposição das mãos.

Quando a pessoa aceita Jesus como Senhor e Salvador recebe o Espírito. Por que
receber o Espírito outra vez? Seria um reforço da graça?
R: A finalidade desse batismo está expressa nas palavras de Jesus: Envio sobre
vós a promessa de meu Pai; mas ficai na cidade, até que do alto sejais
revestidos de poder (Lc 24.49; At 1.4-5). Antes de Sua ascensão, Jesus soprou
sobre os discípulos e estes receberam o Espírito, para regeneração (Jo 20.22),
cumprindo a promessa de que o Espírito habitaria neles, como habita em nós (Jo
14.17). Os interessados no estudo da Palavra poderão aprofundar-se no estudo
dessa passagem, em que Jesus, ressurreto, sopra sobre os discípulos para
dar-lhes uma nova vida espiritual. No segundo momento, Jesus diz que não muito
depois desses dias eles seriam batizados no Espírito Santo, em cumprimento à
promessa do Pai (At 1.4,5; 2.4,16,17,18). Não entendemos este batismo como uma
nova salvação. Entendemo-lo exatamente nos termos usados por Jesus:
revestimento de poder. O termo REVESTIR é assim definido no dicionário Aurélio:
1. Tornar a vestir; 2. Vestir; 3. Estender-se por sobre; cobrir; tapar; 4.
Atribuir a si; 5. Tornar estável, firme, resistente; solidificar… . Cremos
que a definição mais apropriada para o batismo no Espírito Santo seria então o
de dar um a cobertura, uma sobrecapa para tornar mais firme e resistente. Num
exército, todos são soldados defensores da pátria, mas os que seguem para a
linha de frente recebem adestramento, armadura, suporte e armas específicos.

Qual a finalidade do dom de variedade de línguas?

R: Falar em espírito com Deus sem usar o seu idioma pátrio, pelo que se edifica
a si mesmo (1 Co 14.2,4,14). Todavia, essas línguas podem ser humanas e vivas
(At 2.4-6), ou uma língua desconhecida na terra (1 Co 13.1). Os crentes de
Corinto estavam exagerando no uso do dom de línguas em detrimento dos outros
dons. Para corrigir, Paulo deu a seguinte orientação: a) a profecia é mais
importante para a igreja porque exorta, edifica e consola;dela todos se
beneficiam (1 Co 14.3). Os irmãos não devem pensar apenas na sua edificação; b)
para que os benefícios se estendam ao maior número possível, aquele que fala em
línguas, ore para receber o dom de interpretação (1 Co 14.13), se é que
desejais dons espirituais, procurai abundar neles para edificação da igreja (1
Co 14.12). Em nenhum momento Paulo despreza ou desestimula o uso do dom de
variedade de línguas. Ao contrário, ele agradeceu a Deus porque falava muito em
línguas (v. 18) e disse que gostaria que todos falassem em línguas , mas que
também houvesse muito mais profecia (v.5). Para benefício da Igreja e essa
orientação vale para hoje convém que haja intérprete; se não houver intérprete,
melhor que fiquem em silêncio, falando consigo e com Deus (v.28). Por fim, uma
recomendação do apóstolo: Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar e
não proibais falar línguas, mas faça-se tudo decentemente e com ordem (1 Co
14.39-40). Ou seja: usemos todos os dons para que o Espírito se manifeste, mas
em ordem.

Parte
VIII
CONTEMPORANEIDADE
DOS DONS ESPIRITUAIS

Batismo no Espírito Santo – Dom de Línguas – (PERGUNTAS E
RESPOSTAS)
Onde estão na Bíblia as promessas de batismo no Espírito?

R: Isaías 44.3; Joel 2.28-29; Mateus 3.11; Lucas 24.49.

Quando se iniciou o cumprimento dessas promessas?

R: Iniciou-se por ocasião do Pentecostes (Atos 2.1-4), a segunda grande festa
sagrada do ano judaico. Cinqüenta dias após a Páscoa iniciava-se a festa de
Pentecostes, também chamada Festas das Colheitas; Pentecostes deriva do grego
penteekostos , que significa qüinquagésimo. Leiam: E todos foram cheios do
Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo
lhes concedia que falassem (Atos 2.4).

Houve alguma promessa para que esse batismo ocorresse em gerações futuras?

R: Sim. Atos 2.39: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos
filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor
chamar”.

Quais os exemplos de batismos após o Pentecostes?

R: EXEMPLOS BÍBLICOS:
(a) EM SAMARIA – Atos 8.5-17. Aqui temos o registro detalhado do batismo de
irmãos que já eram crentes em Jesus e haviam sido batizados nas águas (vs.
8,12,14). Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria
recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João, os quais, tendo
descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo. Porque sobre
nenhum deles tinha ainda descido, mas somente eram batizados em nome do Senhor
Jesus. Então, lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo (At
8.14-17). Portanto, foi uma experiência posterior a Pentecostes e distinta da
salvação em Cristo Jesus.

(b) NA CASA DE CORNÉLIO Atos 11.13-15 Aqui o relato de salvação e batismo
simultâneos: E, quando comecei a falar, caiu sobre eles o Espírito Santo, como
também sobre nós a princípio. E lembrei-me do dito do Senhor, quando disse:
João certamente batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo
(At 11.15-16). Aqui Pedro declara que o batismo naquela casa tinha sido igual
ao do dia de Pentecostes: como também sobre nós a princípio.

(c) SAULO Atos 9.10-18 Saulo já era crente (v. 6,15), porém: E Ananias foi, e
entrou na casa, e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo [outra prova de que
Saulo já era irmão em Cristo], o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por
onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver E SEJAS CHEIO DO ESPÍRITO SANTO
(At 9.17). Experiência posterior a Pentecostes. A missão de Ananias não era
pregar a Palavra ou levar Saulo à conversão, mas somente restabelecer a sua
visão e enchê-lo do Espírito.

(d) OS DISCÍPULOS EM ÉFESO Atos 19.1-7 – O fato ocorreu 25 anos depois do
batismo coletivo em Pentecostes (Atos 2.4), já na terceira viagem missionária
de Paulo. Vejamos: Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, tendo passado pela
estrada do interior, chegou a Éfeso. Aí achou alguns discípulos e
perguntou-lhes: Recebestes vós o Espírito Santo quando crestes? Responderam
eles: Não, nem sequer ouvimos que haja Espírito Santo. Tornou-lhes eles: Em que
fostes batizados, então? Responderam: No batismo de João. Paulo disse:
Certamente João batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que
cresse no que após ele havia de vir, isto é, Jesus. Quando ouviram isto, foram
batizados em nome do Senhor Jesus . Antes de darmos prosseguimento, devemos
verificar que as Boas Novas não haviam chegado àqueles discípulos de João
Batista, que eram gentios. Tinham sido batizados em nome do Pai, de
conformidade com o batismo de João. Então Paulo anunciou a vinda, a morte e
ressurreição de Jesus, e eles ouviram, creram e foram batizados (v. 5). Paulo
não se limitou a isso. Desejava que eles recebessem a plenitude do Espírito,
tal como ele próprio recebera: E, impondo-lhes as mãos, veio sobre eles o
Espírito Santo, e falavam línguas e profetizavam (v.6).

EXEMPLOS NÃO BÍBLICOS:

Milhões de casos. Não há estatísticas sobre o assunto, mas com certeza há no
Brasil milhões de irmãos batizados no Espírito Santo, ou seja, que passaram
pela mesma experiência dos discípulos no dia de Pentecostes e de outros em anos
posteriores, como acima relatado.

Quem batiza no Espírito Santo?

R: O Senhor Jesus: Ele [Jesus] vos batizará com o Espírito Santo e com fogo (Lc
3. 16; Mt 3.11; At 2.32-33).

Quem pode ser batizado?

R: Somente os salvos, ou seja, os crentes em Jesus. Todos os casos bíblicos
ocorreram após haverem recebido a Palavra, ou simultaneamente. (At 2.38-39).

Quais as condições para o batismo?

R: Buscar, ter sede: Se alguém tem sede vem a mim e beba. Quem crê em mim, como
diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele dizia do
Espírito que haviam de receber os que nele cressem. O Espírito Santo ainda não
fora dado, porque Jesus ainda não havia sido glorificado (Jo 7.37-39). Mas não
existe um método especial. Deus é soberano na sua vontade. Ele batiza quem
quer, como, onde e quando quer.

Irmãos de Igrejas não pentecostais podem receber o batismo?

R: Podem, e muitos recebem. Alguns continuam na sua própria congregação, outros,
por diversos fatores, vão para igrejas pentecostais. Muitos são os exemplos de
batismo de irmãos não pentecostais. Há alguns meses vi um irmão não pentecostal
ser batizado; falou em línguas e falou de sua excepcional experiência. São
muitos os casos.

Qual a evidência desse batismo?

R: A evidência bíblica é o falar em línguas.

O falar em línguas é um dom?

R: É e está em 1 Corintos 12, onde se lê também acerca dos demais dons.

Esses dons estão disponíveis hoje, ou só foram concedidos no tempo de Jesus?
R: Todos os dons ali relacionados estão em vigor, não caducaram. A Carta aos
Corintos foi escrita em 55/56 anos depois de Cristo, e ali Paulo declara que
existe diversidade de dons e de ministérios (v. 4,5). Ademais, Paulo diz que
gostaria que todos vós falásseis em línguas, mas muito mais que profetizásseis
[outro dom] . (1 Co 14.5). E manifesta sua alegria em falar em línguas: DOU
GRAÇAS AO MEU DEUS, PORQUE FALO EM OUTRAS LÍNGUAS MAIS DO QUE TODOS VÓS (1 Co
14.18). Como se vê, Paulo falava em línguas por onde andava e incentivava os
irmãos a fazerem mesmo. Jesus declarou que o dom de variedade de línguas
estaria disposto a todos os que cressem (Mc 16.17).

Qual a finalidade desse dom?

R: Paulo responde: O que fala em língua não fala aos homens, senão a Deus. Com
efeito, ninguém o entende, e em espírito fala mistério. O que fala em língua
edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja (1 Co 14.2,4).

O batismo no Espírito Santo é condição para a salvação?

R Não. Somos salvos pela graça, mediante a fé no Senhor Jesus. Pentecostais e
não pentecostais são salvos em Cristo, irmãos em Cristo.

Então para que serve o batismo no Espírito?

R: O apóstolo Paulo responde dizendo que toda manifestação sobrenatural do
Espírito é dada a cada um para o que for útil (1 Co 12.7). Se não tivessem
nenhuma utilidade, Deus não concederia tais dons. Também não os teria
prometido. Também não teria derramado do seu Espírito sobre os discípulos no
Pentecostes. Uma das finalidades é receber poder. Vejam: Não vos ausenteis de
Jerusalém, mas esperai a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes.
Pois João batizou com água, mas vós sereis batizados com o espírito Santo, não
muito depois destes dias. MAS RECEBEREIS PODER, AO DESCER SOBRE VÓS O ESPÍRITO
SANTO… (At 1.4,5,8).

O que sente o crente na hora do batismo?

R: Essa pergunta eu fiz a uma centena de irmãos, antes de escrever uma apostila
sobre o assunto. Nenhum deles soube descrever com segurança o que se passou no
seu corpo, alma, espírito. A verdade é que receberam uma infusão de alegria.
Algo indescritível e, até certo ponto, incontrolável.

Para expulsar demônios e curar enfermos precisa ser batizado no Espírito?

R: Jesus outorgou tais poderes a todo aquele que crê (Mc 16.17-18).

Devemos buscar os dons espirituais?

R: Paulo responde: Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas
principalmente o de profetizar… o que profetiza, fala aos homens para
edificação, exortação e consolação (1 Co 14.1,3).

Parte
IX
CONTEMPORANEIDADE
DOS DONS ESPIRITUAIS III
A única evidência do batismo é o falar em línguas?

O que a Bíblia nos mostra como evidência do batismo no Espírito Santo é o falar
em línguas. Em Atos 10.44-46 vemos que “os fiéis que eram da
circuncisão” se maravilharam ao presenciar o derramar do Espírito sobre os
gentios. Como eles souberam? “POIS OS OUVIAM FALAR EM LÍNGUAS”.
Então, ficaram cheios de unção para engrandecerem a Deus (v.46). No caso de
Simão, a mesma coisa. Simão viu ou ouviu alguma coisa que evidenciou a descida
do Espírito aos de Samaria (Atos 8.15-18). Em Pentecostes, a evidencia maior
foram as línguas (Atos 2.4). O batismo dos efésios também foi seguido pelo
falar em línguas (Atos 19.5-6). Todavia, creio que o Espírito não está limitado
a determinadas fórmulas. É possível que um crente seja batizado e somente
depois de algum tempo haja a manifestação vocal e sobrenatural das línguas ou
de outros dons. Mas como determinar se o irmão foi batizado no momento em que
começou a falar em línguas ou no momento em que sentiu algo estranho?

Particularmente não conheço casos de batismo sem o dom de línguas, até porque
na ocasião do batismo, além das línguas, nem sempre há manifestações físicas
visíveis. Resumindo, o falar em línguas estranhas é uma evidência segura de que
o irmão foi batizado no Espírito Santo. Não estamos falando em falar línguas
decoradas ou em imitações grosseiras. Quem tem discernimento sabe distinguir
uma coisa da outra.

Parte
X
O
ESPIRITO SANTO

Uma Leitura Ortodoxa Oriental A Partir De Paul Evdokímov
Os teólogos cristãos ortodoxos orientais foram os que mais se
debruçaram sobre os estudos da teologia do Espírito Santo. Desde o século VII,
em virtude do debate com a Igreja Romana ocidental e posterior afastamento
dela, produziram uma teologia rica e sofisticada sobre o Espírito Santo,
infelizmente pouco conhecida em nossos seminários e faculdades de Teologia.

Nesse texto, o professor Marcelo Da Silva Ferreira, mestrando em Teologia e
História na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, nos apresenta uma leitura
necessária da doutrina do Espírito Santo a partir do livro do teólogo ortodoxo
oriental Paul Evdokímov, “O Espírito Santo na Igreja Oriental”,
publicado em 1996, em São Paulo, pela Editora Ave Maria. Sem dúvida, é um
estudo pertinente para a igreja evangélica. [Jorge Pinheiro].

As premissas orientais da teologia patrística

Os ensinamentos dos pais orientais sobre o conhecimento de Deus salientam que o
projeto divino da criação do homem está ligado a promessa de Encarnação do
Verbo divino, pois estas duas doutrinas complementam-se. O Oriente sustenta que
a Encarnação seria realizada mesmo fora da queda, como a expressão do amor
divino e termo último da comunhão entre Deus e o homem.

Essa idéia demonstra o aprendizado de Deus dentro de uma natureza a qual ele
havia criado, mas não havia experimentado e na humanidade de Cristo, Deus pode
compartilhar de experiências que ele conhecia, mas como divino não havia
passado. A concepção da eucaristia na Igreja demonstra o lugar da união
substancial entre Deus e o homem, esse aspecto nos leva a refletir dentro da
ótica ortodoxa que a ordenança da ceia do Senhor além de lembrar do sacrifício
de Cristo e de sua iminente volta, nos faz pensar que tudo isso foi possível
graças a Encarnação do Verbo divino entre nós.

Esse ponto muitas vezes é esquecido por nós que nos concentramos no aspecto do
sacrifício e de sua volta, o que é importante. No entanto, a idéia da
Encarnação sendo evocada na ministração da Ceia é de grande valia.

O homem, como portador de uma certa medida de conhecimento de Deus é capaz de
pressentir este mistério e responder ao desejo divino depositado por Ele no
coração humano. A idéia de predestinação, diferente do calvinismo, repousa no
fato de que todo homem pode responder positivamente ao chamado divino, porque
ele carrega o sopro de vida divino e é justamente isso que o impele a uma
resposta positiva.

Para o Oriente existe uma distinção entre a razão (cérebro) e a inteligência
(coração). No entanto, o verdadeiro conhecimento é sempre caritativo e o amor é
sempre intelectivo. Na verdade, o conhecimento sem amor é puro intelectualismo
vazio, inócuo e sem vida, o amor sem intelecto é paixão cega, sem o alicerce da
razão.

O pecado original separou a razão do coração, falseando a faculdade do
discernimento e da apreciação. Essa condição de perversão reclama um ato de fé
(metanóia). Para o Oriente, a fé é uma reviravolta de tudo no ser humano na sua
experiência do transcendente.

Podemos dizer que aqui há uma certa semelhança da teologia ortodoxa com a
teologia pentecostal no que diz respeito a uma experiência transcendente. No
entanto, os ortodoxos, evocam uma experiência com o transcendente sem
desligar-se de sua base: a teologia bíblica, o que difere nos grupos
neopentecostais mais novos que geralmente têm nas suas experiências com o
transcendente um desligamento do alicerce teológico.

De qualquer forma, seja pentecostal, ortodoxo ou histórico, a experiência com o
transcendente é necessária justamente para vivenciar aquilo que se lê, caso contrário,
estaremos vivendo uma fé puramente intelectual e nossos cultos repletos de
tédio e marasmo. O culto verdadeiro compreende uma experiência com o
sobrenatural de Deus e com a revelação sobrenatural da teologia bíblica que é o
nosso alicerce. Teologizar é a tradução dos termos teológicos a comunhão com
Deus, relatando o seu conteúdo.

O kerigma, a didaskália e a catequese fazem parte elemento doutrinal da
teologia, no entanto, a Igreja cultiva a seiva do conhecimento escutando os
santos, os Pais, da experiência com o Espírito Santo e do colóquio com o Verbo,
oferecendo a todos na liturgia.

A teologia mística é mais do que conhecimento cerebral é o conhecimento pela
revelação de Deus e pela participação receptiva do lado do homem. Todo
conhecimento de Deus deve partir dele e de sua proximidade.

Os Concílios Ecumênicos sempre tiveram como objetivo esclarecer a via salvadora
de forma prática, respondendo às questões de vida ou de morte. A teologia
segundo os Pais da Igreja erige-se em ministério carismático, pois o
conhecimento de Deus é obtido pelo que ele mesmo se dá a conhecer. Longe de uma
experiência puramente enciclopédica, os Pais da Igreja enfatizam a necessidade
de uma receptividade aberta às revelações fulgurantes do Transcendente.

As dimensões positiva e negativa da teologia dos Pais

A dimensão apofática (negação), constituiu o lado negativo da teologia no
sentido de negar toda a tentativa de definição de Deus, justamente pelo fato de
que todas as nossas definições não exprimem a totalidade daquilo que é Deus em
si mesmo. Ela realiza um ultrapassar, sem nunca se desligar de sua base, a
teologia da Revelação Bíblica. Esse aspecto negativo constitui o único remédio
para a insuficiência obrigando a transcender-se, por isso, o lado negativo não
é um simples corretivo, mas uma teologia autônoma. O método apofático ensina a
atitude correta de todo teólogo: o homem não especula, mas transforma-se,
podendo contemplar pelos olhos da Pomba a Mônada una e trina escondida na
epifania.

A dimensão catafática (positiva), constitui por sua vez, o lado positivo da
teologia e tem um caráter simbólico, segundo os Pais Orientais, sendo aplicada
apenas aos atributos revelados, às manifestações de Deus no mundo. Ela se
constitui num modo inteligível do conhecimento de Deus, que está acima de
qualquer sistema de pensamento. Essa teologia tem seu valor e suas dimensões
próprias e aos seus limites.

Deus é misterioso, incognoscível pela sua própria natureza. Quando o homem
procura a Deus, é ele que é encontrado por Deus.

As particularidades da Teologia dos Pais Orientais

A teologia dos Pais é uma teologia trinitária, elaboradora das definições
dogmáticas e da unidade e diversidade das Pessoas em Deus. O termo homoousios
permitiu exprimir o mistério de Deus.

O Oriente acredita que as relações entre as Pessoas da Trindade não são de
oposição, nem de separação, mas de diversidade, de reciprocidade, de revelação
recíproca e de comunhão no Pai. A forma ocidental de uma certa maneira
contribuiu para realçar as relações de oposição e de separação.

Os atributos que se referem à natureza comum são inerentes aos Três sem
diferenciações. Sendo a Pessoa Única quando evocada na sua relação com à Fonte
que é o Pai. A inascibilidade do Pai, a geração do Filho e a processão do
Espírito são as relações que melhor permitem distinguí-las.

As relações de origem não são o único fundamento das Hipóstases, que as
constituiria e as esgotaria do seu conteúdo.

A teologia do Oriente reserva um caráter sempre ternário ou triplo das
relações, suprimindo qualquer possibilidade de as reduzir à dualidade, à
formação de díades no seio da Trindade.

Na Trindade encontram-se reunidos e circunscritos o uno e o múltiplo, no
entanto, os Pais não procuram justificar pela razão o número Três. A própria
ciência matemática, não justifica o um absoluto, sendo assim a unidade composta
de Deus, não pode ser explicada através de pensamentos ditos
“lógicos”, se a própria ciência não reconhece o um absoluto.

A filosofia latina encara em primeiro lugar a natureza em si mesma e prossegue
até o subordinado (a Pessoa); a filosofia grega encara em primeiro lugar o
subordinado e aí penetra depois para encontrar a natureza. Este ponto explica
justamente a facilidade de entendimento e compreensão do método ortodoxo para o
ocidental, partindo das três pessoas como Jesus fez na “Grande
Comissão”, chega-se unidade de Deus. Nós atrelados ao pensamento ocidental
partimos de Deus para explicar a diversidade de Pessoas nele. O problema aqui
não é o método ser certo ou errado, mas a facilidade que o pensamento ortodoxo
fornece na compreensão da trindade é inegável.

O Oriente vê o perigo quando não é a Monarquia do Pai, mas a natureza una que
se erige em princípio da unidade na Trindade. O princípio de unidade não é a
natureza, mas o Pai que estabelece relações de origem em relação a Ele mesmo,
como a única Fonte de qualquer relação.

Para os Pais Orientais confessar a unidade trinitária é reconhecer o Pai como a
única fonte das Hipóstases que simultaneamente recebem dele a mesma e única
natureza.

A Hipóstase é a maneira pessoal de se apropriar a mesma natureza, sendo que
cada uma delas na sua realidade única ultrapassa as simples relações de origem.
Todos os Pais afirmam a única Fonte Hipostática do Pai e ao mesmo tempo uma
relação íntima entre o Filho e o Espírito inseparavelmente concebidos e unidos.
A processão do Filho e do Espírito Santo do único Pai foi sempre acentuada
fortemente pelos Pais Orientais.

A beatitude designa, para o Oriente, o infinito da deificação, participação da
vida divina e visão da glória trinitária através da humanidade glorificada do
Cristo.

O Pai é a fonte da Verdade, o Filho é o princípio de revelação da Verdade do
Pai, o Espírito Santo é o princípio da sua manifestação dinâmica e vivificante,
ele é a Vida da Verdade, o seu Espírito.

Parte
XI
LEVANDO
A SÉRIO OS PECADOS CONTRA O ESPÍRITO SANTO

Texto básico Hebreus 3.7-14
 Uma
das mais gloriosas promessas da Bíblia Sagrada é a da vinda do Espírito Santo
sobre a Igreja de Cristo. Ele é o Espírito da verdade (Jo 16.13), da alegria,
da paz, da justiça (Rm 14.17); é o Consolador, o Paráclito, nosso Amigo e
Companheiro de caminhada com Jesus (Jo 14.16).

No momento da nossa conversão, todos recebemos o Espírito Santo, assim o diz
Atos 19.2: “e [Paulo aos discípulos de Éfeso] perguntou-lhes: Recebestes
vós o Espírito Santo quando crestes?” Nesse instante especial, dons
espirituais nos são conferidos porque o Espírito Santo quer produzir o Seu
fruto em nossa vida. Então, como se explica que haja crentes cujas vidas não
demonstram os abençoados dons espirituais nem a maravilhosa graça do fruto do
Espírito?

Diz o Antigo Testamento que dia e noite, contínua e permanentemente, o fogo
ardia no altar (cf. Lv 6.8-13). Que símbolo inspirador, claro, bendito de como
o Espírito Santo deve agir em nós, permanente e continuamente.

Mas não tem sido assim: o modo como certos crentes (mesmo o crente?!) tratam o
Espírito Santo é sinal da presença da “velha criatura”. É o caso do
filho de Deus que dá lugar à hipocrisia, à fraude, à desonestidade, à falta de
controle, à mentira, e daí por diante. E quando ele age desse modo, torna-se
uma pedra de tropeço para os outros.

Pois é; o descrente peca resistindo ao Espírito Santo (At 7.51) e contra
Ele blasfemando (Mt 12.22-32; Hb 10.29); e o crente em Jesus Cristo peca
entristecendo o Espírito ((Ef 4.30) e extinguindo-O ou apagando-O
(1Ts 5.19). Aliás são dois versículos extremamente tristes: “E não
entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da
redenção”, diz o da Carta aos Efésios; “Não extingais o
Espírito”, adverte Paulo aos tessalonicenses e a nós.

A BLASFÊMIA CONTRA O ESPÍRITO SANTO

Este pecado é cometido por descrentes, e é o chamado “imperdoável”
(cf. Mt 12.31,32). Há muita idéia equivocada correndo nossos arraiais
evangélicos sobre em que consiste este pecado. Uma é que ninguém sabe qual é:
portanto, nem precisamos nos preocupar… Há quem pense ser uma imoralidade
degradante em que se envolveu, razão porque nunca mais terá perdão; no entanto,
1João 1.9 é revelador e confortador: “Se confessarmos os nossos pecados,
ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda
injustiça”. Também não é homicídio, nem adultério, nem tóxicos, nem o
divórcio.

A blasfêmia contra o Espírito Santo consiste na rejeição na graça divina. Ou
como os teólogos da Igreja Antiga diziam: “rejeição do evangelho”
(Irineu), “dureza do coração humano rejeitando a obra de Jesus
Cristo” (Agostinho). Pelo texto de Mateus 12 é a rejeição da obra, da
divindade, do ministério salvador de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

A negação da verdade do perdão trazido pelo sacrifício de Jesus, e a
conseqüente remissão de pecados, é não permitir que sejam anulados os pecados.
É a rejeição da obra do Espírito de Deus em levar o arrependimento e ao perdão.
Foi o caso de Judas Iscariotes: acompanhou Jesus de perto; participou do Seu
ministério, até; ajudou nos milagres; conhecia os lugares de oração, mas não
conhecia Jesus como Salvador.

Por esse motivo, a blasfêmia contra o Espírito Santo dá como resultado a
condenação eterna. Ora, o perdão em Cristo é o elo de restauração entre Deus e
o ser humano. Se não há perdão, não há redenção, comunhão nem compartilhar com
Deus. Estêvão falou sobre isso: “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de
coração e ouvido! Vós sempre resistis ao Espírito Santo, assim vós como vossos
pais!” (At 7.51).

É resistência ao Espírito; é tornar o coração como pedra, insensível aos apelos
do Espírito. Assim sendo, não pode haver perdão.

Mas a blasfêmia contra o Espírito Santo é uma atitude que pode ser corrigida,
pois Hebreus 3.7,8 o afirmam “Assim, como diz o Espírito Santo: Hoje se
ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como no dia da tentação no
deserto, onde vossos pais me tentaram, me provaram, e viram por quarenta anos
as minhas obras”(cf. Sl 95.7,8). Esse horrendo pecado deve ser combatido
clamando pelo Espírito Santo, arrependendo-se e obedecendo : “Se vós,
pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o
Pai celestial o Espirito Santo àqueles que pedirem?” (Lc 11.13).

QUANDO O ESPÍRITO SANTO FICA TRISTE (Ef 4.30)

O apóstolo Paulo estava perfeitamente consciente de que por trás do que
pensamos, dizemos e fazemos, há personalidades ativas atuando. São personalidades
invisíveis, mas bem presentes. Por essa razão, ele nos alerta a não dar
qualquer oportunidade ao Inimigo-de-nossas-almas: “não deis lugar ao
diabo” (Ef 4.27), bem como nos instrui a não entristecer o Espírito.

Ora, todo pecado é motivo de tristeza para Deus. Por uma razão simples; simples
e triste; triste e de tremendas conseqüências: é que o pecado quebra a nossa
comunhão com Ele, e nós fomos chamados a essa comunhão. Paulo com certeza tinha
Isaías 63.10a no coração ao escrever esta advertência: “Contudo eles foram
rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo”.

Não esqueçamos que o Espírito Santo é o elo, o vinculo da vida de comunhão. Não
esqueçamos, outrossim, que o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Trindade é,
por essência, Santo. E Ele Se entristece com a falta de santidade dos filhos de
Deus, naturalmente; Ele Se entristece com a desunião (Ef 2.18; 4.4); Ele Se
entristece com tudo o que não combina com a pureza, com a comunhão, com a
santidade, com a união, com a Sua própria natureza. Ele é o “Espírito da
verdade” (Jo 16.13; 14.17). Logo, Ele Se entristece com a mentira, com a
falsidade e a traição.

Ele é o Espírito que nos “sela” para o dia da redenção, ou seja, o
Espírito Santo em nós é a garantia, o selo, e a certeza da vida, e a certeza da
herança que nos aguarda. Ele está em nossos corações, e é Aquele no qual
estamos garantidos para o Dia Final (Ef 1.13,14); é Aquele que nos fez reviver
em Cristo (Ef 2.5); é Aquele que nos deu acesso ao Pai por meio de Jesus Cristo
(Ef 2.18); é Aquele que nos comunica os dons necessários para o nosso serviço
(Ef 4.7,8). Portanto, o que pode prejudicar o seu poder em nós deve terminante,
enfática e imediatamente rejeitado.

Enfim, entristecemos o Espírito de Deus cometendo aquilo que não combina com
Jesus em pensamento, palavras e ações:

· Quando mentimos, porque, como vimos, Ele é o Espírito da Verdade (Jo 14.7),
já o lembramos. Fora, então, a falsidade, a mentira e a deslealdade!
· Quando descremos, porque Ele é o Espírito de Fé (2Co 4.13). Fora a ansiedade,
a desconfiança, a dúvida, a preocupação!
· Quando não perdoamos, porque Ele é o Espírito da Graça (Hb 10.29). Abaixo o
que é amargo e malicioso, indelicado e demorado para perdoar!
· Quando nos degradamos, porque Ele é o Espírito de Santidade (Rm 1.4). Que
desapareça de nossa vida o que é impuro, ultrajante e degradante!

QUANDO O ESPÍRITO SANTO É EXTINTO

“Não extingais o Espírito” diz o texto de 1Tessalonicenses. Algumas
versões da Bíblia “apagar” em lugar de “extinguir”. E esse
é um pecado só cometido pelo que já confessou sua fé em Jesus Cristo. Essa
linguagem (“extinguir”, “apagar”) retoma a metáfora do
Espírito Santo como fogo, ou algo a Ele associado (cf. Mt 3.11; Lc 3.16; At
2.3; Rm 12.11; 2Tm 1.6). Observe-se que Romanos 12.11 e 2Timóteo 1.6 mostram
graficamente o abanar de um fogo de carvão até que as chamas sejam formadas.

Voltando à Carta aos Tessalonicenses, havia na igreja de Tessalônica uma
tendência de esmorecer, abafar as manifestações espirituais, ou seja, o fogo do
Espírito. Provavelmente, era uma reação contra o que pode ter parecido uma
ênfase entusiasta ao Espírito. Talvez, mesmo como em Corinto.

Ora, os dons foram dados para o crescimento espiritual do Corpo de Cristo. Se a
Igreja for indiferente a eles ou hostil, o exercício deles será frustrado,
apagado. Como então, se extingue o Espírito Santo em nossas vidas, como pessoas
individuais ou como igreja?
· Sem dúvida, por falta de receptividade à vontade do Espírito.
· Por suspeita, ou falta de consideração dos caminhos do Senhor (que não são os
nossos).
· Sempre que dizemos “não” a Deus.

Quer dizer que como a brasa apaga quando retirada da fogueira, as vidas dos
crentes rebeldes, fechados à operação de Deus também. Paulo até fez um veemente
apelo,
“Rogo-vos, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos
corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto
racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela
renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1,2).

O que apaga o Espírito? Qualquer desafio, qualquer oposição à vontade de Deus.
O que O acende? A submissão, a entrega, o quebrantamento, a decisão de cumprir
Seu querer. Um fogo natural é apagado quando jogamos areia ou água para
sufocá-lo. Pois um pecado intencional apaga, extingue o Espírito Santo. A
crítica malvada, a grosseria, o rebaixamento de um trabalho pela palavra de
alguém, o desprezo.

Aí, você, minha irmã, meu irmão, peca contra o Espírito Santo. Você entristeceu
o Espírito; você apagou o Espírito em sua vida, em seu pensamento, em seu
testemunho, em suas ações.

Que fazer agora? Como curar os estragos desse(s) pecado(s) em sua vida
espiritual? Lembre-se de que todo e qualquer pecado entristece o Espírito.
Recorde-se, porém, de que só Jesus Cristo pode purificar do pecado. João
escreveu essa evangélica verdade em sua Primeira Carta 1.9: “Se
confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados,
e nos purificar de toda a injustiça”. E Paulo o referenda em Tito 3.5.

A confissão é a única condição para a comunhão (1Jo 1.6,7). Afinal, nós somos
“selados” pelo Espírito Santo; somos marcados, separados para Cristo.
O que fizermos de errado no corpo ou na mente (na vida cristã não tem
pertinência essa separação), o que não for para a glória de Deus é ofensa como
Aquele que merece 100% de nós. Não 50%, nem 80%, nem sequer 98%.

Quando o irmão, a irmã se batizou nas águas tinha na mente e no coração que o
batismo é símbolo de morte e sepultamento. Morte para o lixo do passado, morte
para o pecado, e recomeço de vida em Cristo Jesus. Você tem levado a sério essa
morte para o sistema de coisas desse mundo? Você morreu para o que não agrada a
Deus? Ou continua a viver a velha vida da velha criatura com os velhos vícios,
as velhas atitudes, a vida da criatura que já devia ter morrido há muito tempo?
Você pode dizer: ” Vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim”?

Quando levamos os pecados contra o Espírito Santo a sério, queremos fazer tudo
o que é agradável a Jesus Cristo, Senhor de nossas vidas. Temos uma visão da
coisa hedionda que é o pecado, o pecado escondido, o pecado secreto, o pecado
acariciado tantas vezes.

A Bíblia conta que entre os querubins da tampa da Arca da Aliança (aron
haberith) brilhava a Shekinah (Ex 25.21,22; 29.43; 30.6; Lv 16.2). A Shekinah,
a gloriosa presença de Deus brilhava na antiga dispensação entre os querubins
do propiciatória (kapporeth). Hoje, na nova dispensação, chameja nas frontes
dos crentes em Jesus Cristo, lavados por Seu sangue, batizados no Seu Espírito,
purificados para servi-Lo.

Mas Satanás, nosso declarado Inimigo, fez nascer o medo do Espírito Santo entre
nós. Já pensaram que coisa horrível? Que o Espírito Santo, a Chama Divina, a
Divina Shekinah queime esse temor. Afinal, nós amamos o Senhor manifesto como
Deus Pai, Criador; Deus Filho, Sustentador e Deus Santo Espírito, nosso Guia,
Conselheiro, Amigo e protetor. Nós cantamos sobre o Espírito Santo. São
inspiradoras expressões as da terceira estrofe do hino 1 do Cantor Cristão
(CC),

“A Ti, ó Deus, real Consolador,
Divino fogo santificador
Que nos anima e nos acende o amor,
Aleluia! Aleluia!”

E do 118 CC,

“Jesus, ao céu subindo,
Se penhorou mandar
Seu bom e santo Espírito,
A fim de nos guiar;
E o grande, excelso Guia
Em nós agora está,
O mundo além revela,
Conduz-nos para lá”.

E as grandes verdades doutrinárias do hino 206 do Hinário para o Culto Cristão
(HCC),
“Santo Espírito divino, és o Criador,
junto com o Pai e o Filho, nosso Salvador.
Do pecado e do castigo vens nos convencer;
Pelo novo nascimento somos outro ser.

Santo Espírito, vive em mim aqui,
Pois em ti fui batizado quando em Cristo eu cri”.

E de tantos outros da nossa riquíssima hinódia.

Pois é; os hinos ensinam doutrina. Mas não é porque cantamos hinos que o
Espírito Santo vem sobre nós; mas porque o Espírito Santo veio sobre nós, e
está conosco, é que cantamos e louvamos.

E agora uma palavra aos amigos que não têm certeza da salvação. Quando o
Espírito Santo é levado a sério, entendemos o que seja rejeitar a salvação,
insultar o Espírito de Deus, blasfemar contra Ele. A rejeição da verdade do
evangelho produz trevas, caleja, endurece o coração, petrifica-o. Por essa
razão, quem se convence dessa verdade, da verdade de Cristo, da pureza do Seu
ensino, da grandiosidade de Sua obra de salvação, e não se rende ao Salvador,
endurece o coração contra Deus.

Receber o conhecimento da verdade (que é Cristo) e rejeitá-la é um pecado
voluntário contra o Espírito. Daí a expressão de Hebreus 10.29: “De quanto
maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de
Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com o qual foi santificado e
ultrajar o Espírito da graça?” E isso traz condenação sobre condenação.

A Bíblia, no entanto, a Bíblia que é o livro do amor de Deus, ensina que Ele
não em leva os tempos da ignorância (At 17.30), e o próprio apóstolo Paulo, que
havia blasfemado contra o Espírito Santo foi salvo pela graça, pela
misericórdia que não leva em conta esses tempos de desconhecimento da
misericórdia, graça, amor e paz, desde que haja confissão e arrependimento:
“a mim que outrora fui blasfemo e perseguidor e injuriador; mas alcancei
misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade; e a graça de nosso
Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Cristo Jesus” (1Tm1.13).

Parte
XII
LEVANDO
O ESPÍRITO SANTO A SÉRIO
Levam todos os crentes em Jesus Cristo o Espírito Santo a sério? A
pergunta não é descabida, porque a própria Escritura Sagrada nos encoraja a não
entristecer o Espírito, e a não extingüi-Lo em nossa experiência
de vida espiritual. Uma coisa, no entanto, deve ser enfatizada: a vida
cristã foi projetada para ser de vitórias!
E elas dependem do Espírito
Santo em nós, conduzindo a nossa vida e a enchendo.

Como vamos afirmar que levamos o Espírito Santo a sério, se Ele não ocupa lugar
de seriedade em nossa vida ou na vida da igreja? Na Escritura Sagrada, ao
Espírito Santo é atribuída a mesma dignidade do Pai e do Filho. Na Carta de
Judas está ressaltado: “Vós amados, edificando-vos sobre a vossa
santíssima fé, orando no Espírito Santo; conservai-vos no amor de Deus,
esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 20).
A
Palavra de Deus ensina, ainda, que toda a Santíssima Trindade, em comunhão
perfeita, trabalha unida, e nenhuma das Suas Pessoas opera de modo separado das
outras.

QUANDO NÓS LEVAMOS O ESPÍRITO SANTO A SÉRIO…

A primeira coisa que se vê na Escritura é que Ele nos põe de pé. No
livro do profeta Ezequiel, capítulo 1.28ss, está registrado:

“Como o aspecto do arco que aparece na nuvem no dia da chuva, assim era
o aspecto do resplendor da glória de Deus. Este era o aspecto da semelhança da
glória do Senhor; e, vendo isso, caí com o rosto em terra, disse Ezequiel, e
ouvi uma voz, a voz de quem falava. E disse-me: Filho do homem, põe-te em pé, e
falarei contigo. Então, quando ele falava comigo, entrou em mim o Espírito, e
me pôs em pé, e ouvi aquele que me falava” .

O Espírito Santo nos põe sempre em pé diante do Senhor. Ele não anda derrubando
o crente, pois o Espírito Santo não é Deus machucando o crente. Vêm acontecendo
alguns estranhos movimentos em algumas igrejas. A esse tipo de anormalidade
atribui-se uma pretensa atuação do Espírito de Santidade (melhor tradução para
Ruach haKodesh), que, segundo informam, anda derrubando o crente. Alguém sopra
e a pessoa cai; joga o paletó, cai. Talvez seja outro espírito qualquer, mas,
seguramente, não o Santo Espírito de Deus, que sempre nos põe em pé, como
ocorreu com Ezequiel e com João na Ilha de Patmos. É Deus levantando,
soerguendo, dando forças espirituais e morais para a atividade do serviço do
Senhor no dia a dia. O relato do que aconteceu com Ezequiel está em 1.27 a 2.2.
Com João, em Patmos, a narrativa está em Apocalipse 1.12-17.

QUANDO LEVAMOS O ESPÍRITO SANTO A SÉRIO…

Ele nos dá uma visão da glória de Deus. Que coisa maravilhosa! Ainda em
Ezequiel (3.12), “Então o Espírito me levantou, e ouvi por detrás de mim
uma voz de grande estrondo, que dizia: Bendita seja a glória do Senhor, desde o
seu lugar”.

Isso também aconteceu com Ezequiel, o profeta. E Paulo, o apóstolo, explica o
significado da revelação de Deus, o significado de tirar o véu. Pois é isso o
que quer dizer a palavra: tirar a barreira e possibilitar o acesso a essa
glória, a presença de Deus que faz brilhar, luzir, refletir a glória
presenciada. O texto de 2Coríntios 3.13ss é sempre lido com emoção. Nele, o
apóstolo Paulo diz,

“E não somos como Moisés, que punha um véu sobre a sua face para que os
filhos de Israel não fitassem o fim daquilo que desvanecia [ele via a glória de
Deus, e quando descia do monte, a glória começava a se apagar do seu rosto,
colocando ele um véu para que os filhos de Israel não vissem esse final da
glória de Deus] mas os seus sentidos foram embotados, pois até hoje, à leitura
da antiga aliança,[a leitura do Antigo Testamento, como ainda fazem na
Sinagoga.] permanece o mesmo véu. Não foi removido, porque somente em Cristo é
ele abolido.E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração
deles. Mas, quando um deles se converte ao Senhor então o véu é-lhe retirado.
Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade.
Mas todos nós, com o rosto descoberto, refletindo a glória do Senhor, somos
transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do
Senhor”.

Isso porque nós levamos o Espírito Santo a sério.

QUANDO NÓS LEVAMOS O ESPÍRITO DE DEUS A SÉRIO…

Nós nos inclinamos para o que é espiritual. O Novo Testamento diz que há três
qualidades de pessoas: a natural, e depois, com muita tristeza, diz a Bíblia o
crente carnal e o crente espiritual.

Natural é quem nunca experimentou uma mudança no seu interior, nunca mudou
espiritualmente, a propósito de quem, a Bíblia utiliza a definição: “O
homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus porque para ele são
loucura e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente”
(1Co 2.14).

Uma pessoa natural não entende a autoridade da Bíblia, não compreende a
inspiração da palavra de Deus, não sabe o que é o poder de Deus e para ela a
pregação bíblica é coisa sem sentido. É como diz aqui, “A palavra da cruz
é de loucura para os que perecem” (1Co 1.18). E foi, também, por essa
razão que Jesus Cristo disse, “Errais não conhecendo as Escrituras nem o
poder de Deus.”

Não devia acontecer, mas existe o crente carnal e o espiritual, diz a Palavra
Santa. O crente chamado carnal é o que se deixa levar por seus instintos, pelos
sentimentos e não pela vontade de Deus. Esses sentimentos podem ser de inveja,
de ciúme, de raiva ou um mexerico. Paulo o descreve em 1Coríntios 3,

“Eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais [está falando com os
crentes, não esqueçamos], “mas como a carnais, como a meninos em Cristo.
Com leite vos criei, e não com alimento sólido, pois ainda não estáveis prontos
para isso.Com efeito, ainda agora não estais prontos. Ainda sois carnais. Pois
havendo entre vós inveja e contendas, não sois carnais, e não andais segundo os
homens? Pois, dizendo um: Eu sou de Paulo, e outro: Eu de Apolo, não sois
carnais?”

O crente carnal é aquele que sabe o que é a graça de Deus; entende muito bem o
que a graça imerecida de Deus fez nele. Sabe o que é a salvação em Cristo
Jesus; conhece a Escritura Sagrada. Tem perfeita noção do poder de Deus, já o
viu até manifesto. Entende o significado do Corpo de Jesus Cristo que é a
Igreja; sabe a respeito do sustento da igreja através do dízimo. Mas vive como
se nada disso existisse. Alguém pode pensar (porque Paulo diz que: “Eu vos
dei leite”) que é o crente novo, o irmão que se converteu há pouco tempo.
Há crentes com cinco, dez, vinte, trinta anos e mais tempo de vida cristã, que
lamentavelmente conhecem tudo isso, mas vivem na carne. Acontece que alguns têm
medo de serem chamados de fanáticos. No domingo são “crentões”, mas,
na segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feiras agem como se Deus não fosse
uma realidade para a sua vida e como se Jesus Cristo não tivesse feito nada por
ele para levá-lo ao Pai. É uma pessoa sem amor, sem carinho pelos outros, sem
alegria: é macambúzio, triste. É uma pessoa sem paz, não tem paciência, não é
gentil, não é bondoso, não é digno de crédito, não é manso e não tem domínio
próprio. Citamos as características do fruto do Espírito, em Gálatas 5.22,23.
Quando acorda cada dia e todos os dias, tem gosto de segunda-feira cinzenta,
cansada na boca.

Mas a Bíblia diz (e glória a Deus!) que existe o crente espiritual: “Mas o
que é espiritual discerne bem a tudo, e ele de ninguém é discernido (1Co
2.15)”. Os outros não o entendem, porque busca as coisas do Espírito. Para
ele a Bíblia tem autoridade, ele a estuda, conhece a Palavra, tem prazer, tem
alegria cada dia da semana e leva a sério o Espírito Santo.

Fique certo, meu irmão querido, querida irmã, que Satanás sabe o tipo de crente
que você é. Sabe qual é o meu e o seu ponto fraco, e se aproveita disso para
nos acusar diante de Deus. Afinal de contas, essa é sua função, não está dito
na Bíblia?: “Eu ouvia uma voz que dizia, agora é chegada a salvação, e o
poder, e o reino, e autoridade porque já foi lançado fora o acusador dos nossos
irmão” (Ap 12.10).

Há crente carnal que afasta o descrente de Jesus Cristo, e há o crente sal da
terra, luz do mundo que atrai à salvação, que leva a Jesus Cristo. Fale a
verdade, meu irmão, quantas pessoas você tem trazido a Cristo ultimamente?
Pense com seriedade. E quantos se afastaram de Jesus, ou, no mínimo, quantos se
afastaram de sua igreja ou de uma organização da igreja por sua culpa?

Uma vida que leva a sério o Espírito Santo, distingue-se por um amor profundo à
Palavra. Gosta de lê-la, e mais ainda, ama estudá-la.

Uma vida que leva a sério o Espírito Santo tem o hábito da oração. Não é a
oração por hábito: é o habito da oração, o que Paulo chama de “orar sem
cessar”.

É liberal na sua contribuição porque diz a Bíblia: “Mais bem aventurada
coisa, é dar do que receber”.

Outra distinção é o ganhar vidas para Cristo. Como ganha vidas para Cristo!
Uma, duas, e tem alegria de trazer tantos aos pés de Jesus.

Ainda outra característica da pessoa que leva o Espírito a sério é permitir que
Ele, Espírito, se apodere dessa pessoa e na verdade esse é um anseio da vida, o
desejo de ser cheio do Espírito Santo de um modo altamente consumidor.

Quando levamos o Espírito Santo a sério ocorrem bênçãos extraordinárias na
nossa vida. E uma delas, que nos é dada por direito de salvação, é que não mais
existe condenação. Não mais somos acusados de qualquer coisa negativa do nosso
passado: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em
Cristo Jesus… porque a lei do espírito de vida, em Cristo Jesus, livrou-me da
lei do pecado e da morte” (Rm 8.1,2). Essa é a primeira grande bênção. O
nosso passado não mais nos amedronta, e se alguém vem lembrar-lhe o que você
foi no passado, glorie-se em Cristo, como Paulo dizia, e afirme: “Isso foi
no passado hoje eu sou outra pessoa, eu sou outra criatura. Deus falou em minha
vida e Deus tocou em minha vida através de Cristo”.

Quando levamos o Espírito de Deus a sério, deixamos de ser avarentos com o
sustento da Causa de Cristo. Deixamos de ser cheios de ira, porque já
abandonamos os sentimentos de amargura, de ódio, e os substituímos pelo bom
senso e damos lugar à paz. Egoístas, querendo o primeiro lugar, o lugar de
destaque, ingratos para com Deus e com o próximo, com o irmão em Cristo, não
reconhecendo o bem que prestam ao reino de Deus, insensíveis ao sofrimento, às
carências, às necessidades dos outros. Somos intolerantes com quem pensa
diferentemente de nós e, vezes tantas, temos prejudicado, alguém e famílias
inteiras por causa de uma guerrinha particular, quando lutamos com forças
carnais para destruir aquela pessoa, negligentes que somos com o trabalho do
Senhor.

Em uma expressão, somos carnais, influenciados pela velha natureza e não
subimos a escada espiritual que nos leva à vitória. Como tudo isso resulta em
graça e paz para a igreja, ou tristeza e miséria para o povo de Deus… Isso
pode trazer luz ou, dependendo de como o Espírito trabalha ou não em nós,
trevas, bênção ou maldição. Depende então da nossa atitude de levamos ou não o
Espírito Santo a sério, e quando o fazemos, cria-se uma unidade na igreja, uma
unidade entre os crentes. Na palavra de Deus, encontramos como Paulo colocou
essa questão da unidade: “…procurando e guardar a unidade do Espírito no
vinculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em
uma só esperança da vossa vocação. (Ef 4.3,4). O Espírito Santo cria unidade,
mas, nós temos que trabalhar para obtê-la. E quando nós dissemos, “Eu sou
de Paulo”, o outro diz, “Pois eu sou de Apolo” e um terceiro
fala, “Eu sou de Cefas” e mais um afirma, “Eu sou de
Cristo”, sabe o que acontece? Nós criamos sindicatos, partidos, grupos,
facções e igrejinhas dentro dessa unidade espiritual que deve ser a igreja
local. Se não levamos a sério o Espírito de Cristo, tudo isso vai acontecer
mesmo. No entanto, a palavra de Deus tem uma advertência muito pesada (tão
pesada quanto clara) quando em 1Coríntios 3.17 diz, “Se alguém destruir o
santuário de Deus, Deus o destruirá; quem favorecer a desunião da igreja, quem
prejudicar a comunhão que o Espírito quer criar, será destruído por Deus”.

Mas quando a igreja leva a sério o Espírito Santo, aí há reconciliação, muito
choro às vezes, nessa reconciliação. Porque Ele é a nossa paz diz o apóstolo,
“O qual de ambos os povos fez um e derrubando a parede de separação que
estava no meio, na sua carne ele desfez a inimizade entre judeus e
gentios”. A igreja é, realmente, uma comunhão de desiguais. Isso aconteceu
no colégio apostólico porque aqueles doze homens que andaram com Jesus Cristo,
eram as pessoas mais desiguais possíveis. Teria sido muito mais fácil para
Jesus ter utilizado doze fariseus para os seus apóstolos, pois eram iguais.
Estudando a história do Judaísmo, vemos que eram homens altamente honrados,
tementes a Deus; amantes da Escritura Sagrada e ortodoxos na doutrina. Criam na
ressurreição e eram tão apegados à Lei de Moisés, que chegaram a elaborar 613
mandamentos em vez de apenas 10. Nesse ponto, viraram fanáticos.

Realmente, Jesus poderia ter usado doze desse honrados homens. Mas, na Sua
soberana sabedoria preferiu chamar doze desiguais. Ele chamou um que era fiscal
do imposto de renda, um funcionário público, um publicano. Há dois mil anos, na
Palestina, ser fiscal de renda era considerado algo abominável, porque a pessoa
trabalhava para o Império Romano, não para o povo judeu, não para a Palestina,
não para Israel. O publicano recebia o dinheiro do judeu e o enviava para Roma,
razão porque era odiado. Mateus era um publicano. Havia no colégio apostólico
um guerrilheiro. Havia um que era zelote, o guerrilheiro daquele tempo. Os
zelotes faziam guerrilha urbana; andavam com uma faca, um punhal que recebia o
nome de sicar, o qual era escondido dentro do manto. Se ele passasse por uma
viela, num beco e se encontrasse um romano sozinho, matava-o e guardava seu
punhal. Pois um dos apóstolos havia sido zelote. Outros eram pescadores,
simples pescadores, e assim por diante. Era uma verdadeira comunhão de
desiguais, que tiveram, no entanto, que andar com Jesus para aprenderem a ser
iguais.

Quando o Espírito Santo é levado a sério, a igreja é capacitada também para a
adoração. É importante verificar que a igreja de Antioquia estava em culto,
ministrando perante o Senhor, diz o livro dos Atos dos Apóstolos, quando
Barnabé e Saulo foram escolhidos e separados pelo Espírito para a tarefa de
missões. A seriedade desse empreendimento é tanta que Lucas colocou o registro
de que eles estavam ministrando a Deus, isto é adorando e jejuavam. Não era
brincadeira o que eles estavam fazendo, estavam levando o Espírito a sério.

Quando se leva o Espírito Santo a sério, a pregação se torna autêntica e parte
do coração de Deus. Aliás, há quem se incomode quando o sermão passa dos trinta
minutos, por outro lado, a pregação hoje em dia tem se tornado extremamente
pobre. Há púlpitos que só pregam a mesma coisa, não há outra lição do Senhor.
Se é que a lição que é apresentada é realmente do Senhor, e sendo sempre a
mesma, ficando sempre no mesmo lugar, cai no que podemos chamar de
“síndrome da enceradeira”: ficar falando a mesma coisa. Para este
pregador, a palavra de Deus tem primazia de modo que nada o afastará de
dominicalmente anunciá-la para dar lugar a outras coisas. Porque o Espírito
Santo é levado a sério neste púlpito.

Observe que quando o irmão/a irmã leva o Espírito Santo a sério, as tentações
aumentam. Mas as vitórias são, igualmente, maiores. A renovação interior
produzida pelo Espírito de Deus no seu coração não tem com o que ser comparada.
Paulo o disse em Tito no capítulo 3.3-7:

“Outrora nós também éramos insensatos, desobedientes, extraviados,
servindo a várias paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e
odiando-nos uns aos outros. Mas quando apareceu a benignidade de Deus, nosso
Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que
houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante a
lavagem da regeneração e da renovação pelo Espírito Santo, que ele derramou
ricamente sobre nós, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, a fim de que,
justificados por sua graça, sejamos feitos seus herdeiros segundo a esperança
da vida eterna”

Quando você, meu amado, minha querida irmã em Cristo, leva o Espírito Santo a
sério, você é por Ele unido a outros irmãos e irmãs, em todo o mundo, numa
grande fraternidade de mãos postas, num grande círculo de oração, como diz o
apóstolo em Efésios 6.18: “E orai em todo o tempo com toda a oração e
súplica no Espírito. Vigiai nisto com toda a perseverança e súplica por todos
os santos”. E Ele mesmo, o Espírito, intercede por nós “porque não
sabemos o que havemos de pedir como convém” (Rm 8.26; cf. Tg 4.3).

Mas, sobretudo, nosso coração que passou de coração pecador a coração salvo,
deixa de ser simplesmente um coração salvo, para ser um coração salvo e em
chamas por causa do Espírito Santo!

Parte
XIII
OS
CRENTES BATISTAS E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO V

“O Dom de discernimento de Espíritos” – I Cor. 12:10
O mundo em que vivemos hoje, mais do que antes, tem se constituído
num mundo de enganos, onde existem falsificadores de todas as espécies, e este
Dom espiritual, o “dom de discernimento de espíritos”, diz respeito
exatamente à capacidade, que o Espírito Santo de Deus, confere ao servo do
Senhor, ao crente em Cristo Jesus, para ter a condição de entender e distinguir
os diferentes espíritos malignos, e, desta forma, sentir, observar, denunciar e
discernir, se tais coisas que estejam acontecendo, “são ou não” de
Deus.

A Palavra do Senhor está recheada de irrefutáveis exemplos, em que homens de
Deus foram usados com poder pelo Espírito Santo, verbi gratia, o Apóstolo Paulo
no incidente narrado em Atos 16.16-18, quando ele falou com autoridade, em nome
de Jesus, ao espírito maligno de engano, naquela jovem “possessa”,
diz a Bíblia, por “um espírito adivinhador” que dela se retirou no
mesmo instante, em que ouviu do servo dotado pelo Espírito Santo, a ordem:
“Em nome de Jesus Cristo, eu te mando: retira-te dela. E ele, na mesma
hora saiu…” (Atos 16.18b). Outros exemplos são o de Pedro no caso de
Ananias e Safira, em Atos 5.1-11; novamente a experiência de Pedro com Elimas
(Simão o mágico), de que fala Atos 13.9-11; a ocorrência de Mateus 9.32-33, na
cura do mudo que estava endemoniado; na cura da mulher possessa por um espírito
de enfermidade, como diz a Bíblia em Lucas 13.11-16; quando Filipe pregava em
Samaria (Atos 8.7, e outros que poderiam ser mencionados).

No texto grego, é a palavra “diákrisis” que é traduzida como “discernimento”,
que fala da capacidade de distinguir as várias fontes de manifestações
espirituais, fala da capacidade de diferenciar. Pois bem, no trato com os
espíritos, este Dom capacita o cristão a distinguir e, que tipo de influência
eles poderão causar no seio do povo de Deus. Este Dom espiritual, amados
leitores, é um Dom apropriado para esse momento exato, próprio, específico,
singular, e sem este Dom, o corpo de Cristo seria presa fácil diante de tantas
heresias e ensinamentos distorcidos, como os que hoje em dia se proliferam.

A igreja, o corpo de Cristo, vive o tempo todo lidando com o sobrenatural, e,
não vamos nós, sabendo que as coisas do Espírito são tratadas espiritualmente,
querer racionalizar e sistematizar, e ainda mais porque, o membro do corpo de
Cristo, tem que estar atento como ensina em I João 4.1, para poder discernir se
tais coisas procedem de Deus, ou de falsos espíritos, pois, se não houver
firmeza e joelhos dobrados diante do Senhor, não poderemos distinguir entre o
erro e a verdade, e é por isso que temos de usar o DIAKRISIS, isto é, a
capacidade que pelo “Espírito Santo é repartida a cada um como quer
…” para que, através deste dom de discernimento de espíritos, possa o
cristão se livrar, bem como evitar que o corpo de Cristo que é a igreja seja
atacado pelas investidas de Satanás nesses momentos tão difíceis que a Igreja
do Senhor está vivenciando à beira do terceiro milênio e, tantas loucuras de
homens, e tantas doutrinas erradas, têm se proliferado.

Por fim, considero com os amados leitores o seguinte:

a) Não podemos e nem devemos pelo nosso arraigado tradicionalismo, ditar regras
para o Espírito Santo agir no seio do corpo de Cristo, a igreja;

b) Não podemos ensinar e ministrar como tantos já ministraram e dizer: OS DONS CESSARAM,
se nós e até os que já escreveram essas coisas, sabem, que os dons não
cessaram;

c) Não coloquemos por causa do nosso ceticismo, dúvidas sobre o que o Espírito
Santo pode, ou não operar. Estejamos submissos ao Senhor. Ele, o Espírito
Santo, dá a cada um como quer. Não é você, porque é um grande doutrinador quem
vai ditar as regras ao Espírito.

Agora, tem uma coisa, cada Dom do Espírito Santo, só é concedido para a
edificação do corpo de Cristo, e, para exaltar e glorificar a Jesus. Não
esqueçam irmãos: “Que Ele cresça e que nós diminuamos…” Se for
diferente, teremos uma vertigem de altura!

Parte
XV
OS
CRENTES BATISTAS E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO IV

“Dom da Palavra de Sabedoria” – I Cor. 12.1-11
Por ser este um Dom do Espírito Santo, transcende e vai além da
sabedoria do homem. A tradução da palavra grega “sophia” é sabedoria,
mas, “sophia” diz respeito a sabedoria do homem, ao saber adquirido
pelo estudo, pela pesquisa, pelos meios que são colocados à sua disposição os
quais, proporcionam ao ser humano, uma gama de informações tal, que se pode
afirmar, “fulano tem sabedoria” pois ele entende deste ou daquele
assunto.

Aqui, agora, tratamos do Dom Espiritual da Palavra da Sabedoria, isto é,
daquela palavra que emana de alguém submisso à vontade do Senhor, e que por
estar debaixo do governo de Deus, e por Ter sido equipado pelo Espírito Santo
com este Dom, ao proferir palavras, fala com sabedoria espiritual e, ministra,
ensina ou esclarece coisas, que o simples saber humano jamais poderia explicar
ou deslindar.

Gosto muito da explicação dada por Pastor Russel Shedd, quando ao se referir
sobre palavra no grego “logos”, como “capacidade de
comunicar”, se refere a sabedoria, como “análise penetrante daquilo
já revelado”. Isto nos faz sentir a diferença existente entre a sabedoria
geral, aquela que se adquire durante toda a vida, a cada dia, através da
leitura e dos estudos, principalmente nas escolas e universidades da vida, e a
palavra de sabedoria – Dom do Espírito Santo, onde Deus manifesta através do
Espírito Santo, esta Palavra de Sabedoria, diante de uma necessidade especial,
em um determinado lugar, para solucionar algo que precisa ser resolvido, e tudo
é efetivado na realidade, essa palavra de sabedoria é proferida, para a
edificação do Corpo de Cristo e, sobretudo para a glorificação do Senhor e do
poder do seu Santo Evangelho.

Este Dom não se manifesta o tempo todo, trata-se, de uma palavra especial,
específica, para um determinado tempo e lugar, para atender a uma situação
singular.

O Dom da Palavra da Sabedoria trata de uma proclamação, de uma declaração, de
uma palavra específica dada por Deus, através do seu Espírito Santo, para
atender naquele momento a uma situação emergencial. Sendo esse um Dom do
Espírito Santo, é claro que ele não depende da sabedoria do homem, que embora
possa ser grande, vasta, graduada e pós-graduada, foge da habilidade humana e,
passa a se situar na esfera e nos domínios do ministério cristão, e este Dom,
pode ser exercido tanto no tocante ao ensino da doutrina bíblica, da Palavra de
Deus, quanto na solução de problemas em geral.

Em Efésios 1.17-19, o Apóstolo Paulo diante do Senhor, ele fala aos irmãos
“que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo o Pai da glória, vos dê o
espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele…” e
nesta súplica ardente, Paulo mostra o seu desejo de que as três coisas pedidas
possam ser entendidas e descobertas, por revelação do Senhor, pois, sem o
espírito de sabedoria o homem jamais poderia entender apenas pelo saber humano.

Billy Graham diz: “o tipo mais alto de sabedoria vem diretamente de Deus e
está ligado à atuação especial do Espírito Santo… Ele é o manancial de toda a
verdade, seja qual for a origem… Ele dá aos crentes sabedoria de maneira
singular… dá um Dom ou capacidade especial de sabedoria para alguns.”

Portanto, queridos, é através deste Dom da Palavra de Sabedoria, que o Senhor
nos revela uma situação específica, dando ou em palavras ou em ações, a
capacitação para tomarmos a atitude certa ou, falarmos aquilo que é
inquestionavelmente necessário.

Louvemos a Deus pelos Dons do Espírito Santo e, até o próximo estudo.

Parte
XVI
OS
CRENTES BATISTAS E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO III

“Dom da Palavra do Conhecimento”
I Cor. 12:8 Como é bom pensar com os amados leitores, sobre as
insondáveis riquezas espirituais que o nosso Deus coloca à disposição do Corpo
de Cristo, a Igreja, quais sejam os “Dons do Espírito Santo”.

Adentro hoje de maneira específica, no âmago da questão, verificando algo sobre
o dom da PALAVRA DO CONHECIMENTO. Este Dom espiritual está inserido no
grupo de dons, que têm se mostrado extremamente necessário à vida e, ao
ministério, dos que exercem a liderança sobre à Casa de Deus, a Igreja do
Senhor.

O Dom da Palavra do Conhecimento é indiscutivelmente, uma revelação
sobrenatural de algum fato, que existindo na mente de Deus, mas, que pela
fragilidade e limitação do homem, ele, o homem, não pode conhecer, exceto se o
Espírito Santo, o revelar dando assim a capacitação especial.

Conhecimento é o mesmo que ciência, GNÓSIS, na língua grega. Falar com ciência
é “falar com conhecimento, o que é diferente de conhecer, no sentido de
que este Dom, traz apenas uma palavra de conhecimento e não, todo o
conhecimento, pois ter todo conhecimento é prerrogativa divina”, conforme
esclarece Dr. José Perraçoli Moreno, ao escrever sobre o “Despertamento
dos dons Espirituais”.

O Dom da Palavra de Conhecimento possibilita ao cristão sincero e que está na
dependência do Senhor, ser equipado para proferir palavras, que saem da órbita
do alcance humano, isto afirmo, porque quando estamos a analisar e estudar
sobre os Dons do Espírito Santo temos de entender claramente, que para o
exercício desses dons, o Espírito Santo é quem capacita, e, um claro exemplo
que a Bíblia nos dá, é que os Apóstolos, eram pessoas rudes, sem conhecimento e
sem cultura, todavia, em Atos 4.13a, lemos o seguinte: “Então eles, vendo
a intrepidez de Pedro e João, e tendo percebido que eram homens iletrados e
indoutos, se admiraram…” (versão da Imprensa Bíblica Brasileira).

De acordo com a recente tradução da Bíblia de Estudos Almeida, “iletrados
e incultos eram os que não haviam estudado com os rabinos”.Note-se ainda,
que compara o texto referido, com João 7.15, que trata do equipamento maravilhoso
do Senhor Jesus, detentor da Palavra do Conhecimento, que deixava a todos
extasiados, pois, sabia as letras, mas, não havia estudado…

Na Bíblia Shedd, inclusive aproveito a oportunidade para dizer que aprecio
bastante os comentários do Pastor Russel Shedd, diz que: “as palavras
eloqüentes faladas pela inspiração do Espírito Santo causaram grande
surpresa.”

A Bíblia é, portanto farta, em demonstrar a manifestação deste Dom Espiritual
da Palavra do Conhecimento, em diversos Ministérios, como por exemplo, nos de:
SAMUEL (I Samuel 9.15-20 e I Samuel 10.22); AÍAS (I Reis 14.6); JESUS (João
2.48 e 4.18); PEDRO (Atos 5.3 e 4); PAULO (Atos 27.23-25).

Vale destacar, que ninguém é detentor de todos os Dons do Espírito, mas cada um
recebe o Dom, da forma como o Espírito quer. O Espírito é quem reparte. A
exortação da Palavra é que busquemos os dons com avidez, e ao buscá-los devemos
fazê-lo com equilíbrio, zelo, contudo sem impedir que o Espírito possa fluir
livremente. Só não podemos é humanizar o que é do Espírito e nem dizer como é
que queremos ser dotados, e nem como é que vai ser o exercício dos dons nas
nossas vidas. Em I Cor. 12.7, a tradução da Imprensa Bíblica diz: “A cada
um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum”, isto
é para o proveito do “Corpo de Cristo”, que é a Igreja do Senhor. O
Espírito é o mesmo, foi o de ontem, é o de hoje, e será eternamente, e este
Espírito “distribui particularmente a cada um como quer”(I Cor.
12.11).

Não vamos misturar “Palavra de Conhecimento” com “Palavra de
Sabedoria”, não vamos misturar GNOSIS com SOPHIA, pois conhecimento é
distinto de sabedoria e, em se tratando dos “Dons do Espírito” a
Palavra de Sabedoria que será o assunto do próximo estudo, iremos ver que tratará
de uma palavra especial, espiritual, sobrenatural, não é apenas, “a
sabedoria frente às exigências feitas pela vida humana…” é, coisa de
Deus, é coisa do Espírito.

O Ilustre Pastor Billy Graham em um dos seus livros diz claramente: “Os
dons do Espírito nunca devem dividir o Corpo de Cristo; devem mantê-lo
unido…” (O Espírito Santo, Edições Vida Nova, São Paulo, pág. 132).

Os assuntos que estamos abordando, visam o “aperfeiçoamento dos santos,
para o desempenho do seu serviço, para a edificação do Corpo de Cristo…”
(Ef. 4.12).

Parte
XVII
OS
CRENTES BATISTAS E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO III

“Dom da Palavra do Conhecimento”
I Cor. 12:8 Como é bom pensar com os amados leitores, sobre as
insondáveis riquezas espirituais que o nosso Deus coloca à disposição do Corpo
de Cristo, a Igreja, quais sejam os “Dons do Espírito Santo”.

Adentro hoje de maneira específica, no âmago da questão, verificando algo sobre
o dom da PALAVRA DO CONHECIMENTO. Este Dom espiritual está inserido no
grupo de dons, que têm se mostrado extremamente necessário à vida e, ao
ministério, dos que exercem a liderança sobre à Casa de Deus, a Igreja do
Senhor.

O Dom da Palavra do Conhecimento é indiscutivelmente, uma revelação
sobrenatural de algum fato, que existindo na mente de Deus, mas, que pela
fragilidade e limitação do homem, ele, o homem, não pode conhecer, exceto se o
Espírito Santo, o revelar dando assim a capacitação especial.

Conhecimento é o mesmo que ciência, GNÓSIS, na língua grega. Falar com ciência
é “falar com conhecimento, o que é diferente de conhecer, no sentido de
que este Dom, traz apenas uma palavra de conhecimento e não, todo o
conhecimento, pois ter todo conhecimento é prerrogativa divina”, conforme
esclarece Dr. José Perraçoli Moreno, ao escrever sobre o “Despertamento
dos dons Espirituais”.

O Dom da Palavra de Conhecimento possibilita ao cristão sincero e que está na
dependência do Senhor, ser equipado para proferir palavras, que saem da órbita
do alcance humano, isto afirmo, porque quando estamos a analisar e estudar
sobre os Dons do Espírito Santo temos de entender claramente, que para o
exercício desses dons, o Espírito Santo é quem capacita, e, um claro exemplo
que a Bíblia nos dá, é que os Apóstolos, eram pessoas rudes, sem conhecimento e
sem cultura, todavia, em Atos 4.13a, lemos o seguinte: “Então eles, vendo
a intrepidez de Pedro e João, e tendo percebido que eram homens iletrados e
indoutos, se admiraram…” (versão da Imprensa Bíblica Brasileira).

De acordo com a recente tradução da Bíblia de Estudos Almeida, “iletrados e
incultos eram os que não haviam estudado com os rabinos”.Note-se ainda,
que compara o texto referido, com João 7.15, que trata do equipamento
maravilhoso do Senhor Jesus, detentor da Palavra do Conhecimento, que deixava a
todos extasiados, pois, sabia as letras, mas, não havia estudado…

Na Bíblia Shedd, inclusive aproveito a oportunidade para dizer que aprecio
bastante os comentários do Pastor Russel Shedd, diz que: “as palavras
eloqüentes faladas pela inspiração do Espírito Santo causaram grande surpresa.”

A Bíblia é, portanto farta, em demonstrar a manifestação deste Dom Espiritual
da Palavra do Conhecimento, em diversos Ministérios, como por exemplo, nos de:
SAMUEL (I Samuel 9.15-20 e I Samuel 10.22); AÍAS (I Reis 14.6); JESUS (João
2.48 e 4.18); PEDRO (Atos 5.3 e 4); PAULO (Atos 27.23-25).

Vale destacar, que ninguém é detentor de todos os Dons do Espírito, mas cada um
recebe o Dom, da forma como o Espírito quer. O Espírito é quem reparte. A
exortação da Palavra é que busquemos os dons com avidez, e ao buscá-los devemos
fazê-lo com equilíbrio, zelo, contudo sem impedir que o Espírito possa fluir
livremente. Só não podemos é humanizar o que é do Espírito e nem dizer como é
que queremos ser dotados, e nem como é que vai ser o exercício dos dons nas nossas
vidas. Em I Cor. 12.7, a tradução da Imprensa Bíblica diz: “A cada um,
porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum”, isto é
para o proveito do “Corpo de Cristo”, que é a Igreja do Senhor. O
Espírito é o mesmo, foi o de ontem, é o de hoje, e será eternamente, e este
Espírito “distribui particularmente a cada um como quer”(I Cor.
12.11).

Não vamos misturar “Palavra de Conhecimento” com “Palavra de
Sabedoria”, não vamos misturar GNOSIS com SOPHIA, pois conhecimento é
distinto de sabedoria e, em se tratando dos “Dons do Espírito” a
Palavra de Sabedoria que será o assunto do próximo estudo, iremos ver que
tratará de uma palavra especial, espiritual, sobrenatural, não é apenas,
“a sabedoria frente às exigências feitas pela vida humana…” é,
coisa de Deus, é coisa do Espírito.

O Ilustre Pastor Billy Graham em um dos seus livros diz claramente: “Os
dons do Espírito nunca devem dividir o Corpo de Cristo; devem mantê-lo
unido…” (O Espírito Santo, Edições Vida Nova, São Paulo, pág. 132).

Os assuntos que estamos abordando, visam o “aperfeiçoamento dos santos,
para o desempenho do seu serviço, para a edificação do Corpo de Cristo…”
(Ef. 4.12).

Parte
VIII
OS
CRENTES BATISTAS E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO II

I Cor. 12:1-11
Mais uma vez me dirijo aos queridos irmãos para trazer algo que
merece a nossa reflexão, sobre esta pessoa maravilhosa da Trindade Santa, o
“Espírito Santo”, e, o que esta pessoa tão relevante tem para todos
nós, crentes batistas, através dos “dons espirituais”.

Os dons do Espírito Santo são os meios inquestionáveis, através dos quais, nós
os crentes, membros do Corpo de Cristo (a Igreja), somos capacitados,
habilitados e totalmente equipados para podermos realizar com autoridade e
poder, a obra de Deus.

Meu desejo de escrever sobre este assunto e trazê-lo para o nosso povo batista,
sinto ser vontade de Deus, sobretudo quando me deparo com o que diz a Palavra
em I Cor. 12:1, “a respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que
sejais ignorantes…” e, é por este motivo, com esteio nas Escrituras
Sagradas, que ouso salientar que sem os dons do Espírito Santo, o Corpo de
Cristo, a Igreja do Senhor, ao contrário de ser um poderoso organismo vivo,
cheio de graça e de unção, passaria a ser simplesmente uma organização social,
humana e religiosa, sem o poder e as características espirituais que a Igreja
do Senhor deve carregar consigo.

Já li com espanto, em algumas lições que mestres antigos ministraram,
principalmente nas revistas da Escola Bíblica Dominical, em que escritores e
comentaristas ao questionarem se os dons do Espírito Santo permanecem nos dias
atuais, respondiam ao povo dizendo:

“Alguns sim; outros não (grifo nosso).” (Revista Compromisso – JUERP,
1994, pg. 32), aonde é que está escrito na Bíblia isto? Em lugar nenhum.

Eu sei que a obra que o Senhor está realizando no meio do povo batista, me
confere a condição de dizer com letras maiúsculas e, se questionado for, se os
dons permanecem hoje, responder:

“SIM, TODOS OS DONS DO ESPÍRITO SANTO, NA VIDA DA IGREJA, PERMANECEM NA
SUA INTEGRIDADE, PORQUE A BÍBLIA DIZ QUE SIM”
e embora homens queiram
negar, prefiro ficar com a Palavra do Senhor que em I Cor. 12:4 diz: “Ora,
há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (grifo nosso), isto é,
Aquele Espírito Santo que deu e que repartiu, é o mesmo que dá e que reparte
hoje, a cada um, como quer, para a edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja
do Senhor.

Vale destacar também o fato de que muitos sempre confundiram os nove (09) dons
do Espírito Santo, com fruto do Espírito Santo, que se expressa através de nove
(09) características, indispensáveis à verdadeira vida cristã, isto é, o
cristão verdadeiro tem que dar frutos, deve frutificar no seu dia a dia, e
manifestar a todos que com ele convivem, as nove (09) características do fruto
do Espírito, quais sejam: AMOR, GOZO, PAZ, LONGANIMIDADE, BENIGNIDADE,
BONDADE, FÉ, MANSIDÃO e TEMPERANÇA,
conforme Gál.5:22. Portanto, é de bom
alvitre esclarecer que fruto é uma coisa e, dons outra coisa.

O fruto do Espírito Santo faz o crente sentir a necessidade de ter o seu
caráter, moldado pelo caráter do Mestre, o nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto
os dons do Espírito Santo, são as capacitações especiais que o Espírito concede
aos cristãos, para com poder, graça e unção, realizar a obra do Senhor.

Sinto-me, pois, à vontade em escrever para o nosso povo batista sobre o tema
dos “Dons do Espírito Santo”, não só porque a Palavra de Deus
admoesta e ensina aos crentes que assim o busquem: “segui o amor e buscai
com zelo os dons espirituais…” (grifo nosso) – I Cor. 14:1, mas, também,
porque ao falar a Timóteo seu filho na fé, o Apóstolo Paulo querendo
encorajá-lo a suplantar as dificuldades e destacando os grandes problemas que
mercê da Graça de Deus, dos mesmos já havia obtido a vitória, Paulo lhe
admoesta dizendo: “reavives o Dom de Deus que há em ti” – II Timóteo
1:6 (Pastor Shedd traduz por reavivar, usando um verbo que significa fazer o
fogo subir com vida, reatiçar, para que Timóteo permitisse que o Dom que lhe
fora dado pelo Espírito ardesse nele), cujo Dom era o de profecia, recebido
pela imposição de mãos do presbitério (I Timóteo 4: 14), mas, me sinto a
vontade, sobretudo, pelo Tema Geral dos Batista Brasileiros em 2001 que é: DESPERTA
OS DONS QUE HÁ EM TI!
Este tema é um imperativo e, ao estudá-lo, sem
dúvida, “dons” poderão ser despertados.

A partir do próximo estudo, estaremos observando o que a Bíblia Sagrada ensina
sobre os dons do Espírito Santo, conforme mencionaremos a seguir:
a) Palavra do Conhecimento, Palavra de Sabedoria e Discernimento de Espíritos;
b) Dons de Curar, Dons de Operação de Milagres e Dom da Fé;
c) Dom de Variedade de Línguas, Dom de Interpretação de Línguas e Dom de
Profecia.

Vamos devagar, com calma e prudência, mas, que Deus está fazendo uma grande obra
no meio do povo batista, está!

Louvado seja o Senhor!

Parte
XIX
OS
CRENTES BATISTAS E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

I Co. 12:1-11
Não há como negar, seja o povo batista ou não, o Senhor Deus está
realizando uma grande obra, e, de algum tempo para cá, estamos vivendo um
grande “mover do Espírito Santo”, isto porque, não tenham dúvidas, o
Senhor, à luz da Sua Palavra, está promovendo no meio do seu povo “um
grande avivamento espiritual”.
Numa época como esta, nada mais justo do que exercermos atitudes cautelosas em
muitas e determinadas coisas.

Como Pastor desde meus 20 anos de idade, ordenado na Igreja Batista da
Encruzilhada em Recife, hoje com 53 anos de idade, portanto, 33 anos de
Ministério, ouví, estudei e aprendí dos grandes mestres e professores, livros e
estudos dirigidos, etc., muitas coisas que foram ministradas e ensinadas, e,
principalmente sempre lí as lições dos “Pontos Salientes” da Escola
Bíblica Dominical, que eram ministradas nas nossas igrejas e, uma das coisas
que se ensinava e escrevia, é que:

1) “os dons cessaram”;
2) “não mais haveria a necessidade de manifestações dos dons” e,
3) “as manifestações dos dons eram necessárias naquela época apostólica
para o povo poder crer …”

Todavia, queridos leitores, nós sabemos que não é nada disto, os dons do
Espírito Santo são uma evidência clara no meio do povo de Deus e, os dons do
Espírito Santo, não são propriedades exclusivas de nossos amados irmãos em
Cristo, pentecostais ou assembleianos (a quem amamos e respeitamos), ou dos
néo-pentecostais (os quais também amamos), hoje tantos, mas, os “dons do
Espírito Santo” são também uma clara evidência no meio do povo batista, no
Brasil e no mundo, numa demonstração inequívoca, de que a Palavra do senhor é a
mesma de ontem e será eternamente, pois o Senhor assim ministrou:
“Passarão os céus e a terra, mas, as minhas palavras não haverão de passar
…” Mateus 24:35.

Não sei por que, tanta gente tem medo de tratar deste assunto e de ministrar ao
povo batista, a grande verdade, de que o Senhor está a realizar grandes
maravilhas e, que o “mover do seu Espírito” é, hoje, uma realidade
que ninguém pode negar.

Não tenham dúvidas, que é por causa desta omissão do líder batista de não
querer se expor, e dizer claramente ao povo que nós os batistas CREMOS NOS DONS
DO ESPÍRITO SANTO e, sabemos que, como diz a Bíblia Sagrada, “o Espírito
Santo opera todas essa coisas, repartindo particularmente a cada um como quer
…” (I Co. 12:11) e, que, a “manifestação do Espírito é dada a cada
um para o que for útil …” (I Co. 12:7), portanto, se não for para ser
útil, não será dada a manifestação nem será dado o Dom, é por causa desta
omissão que estamos vendo tanta distorção doutrinária no meio do povo batista.

Humilde e submisso à vontade do Senhor é que pretendo escrever uma série de
estudos sobre o assunto Dons do Espírito Santo, e, para tanto, tenho orado e
pedido as orações dos irmãos da Igreja Batista dos Mares da qual sou o Pastor,
para que orem por mim, pois, o que desejo, nada mais é do que a vontade da Palavra
de Deus, e, nos próximos estudos adentrarei de maneira direta numa análise à
luz da Bíblia, sobe os “dons espirituais” e, pasmem, até sobre os
“dons de línguas” incontestavelmente um tabu no meio do povo batista
mas, uma realidade insofismável na vida do povo de Deus, contudo, ensinaremos
que ao ser exercido, mediante a dádiva do Espírito Santo, o é, para edificação
própria, pois o que “fala em língua estranha edifica-se a si mesmo”
(I Co.14:4) e, este texto, fala mesmo da “variedade de línguas, isto é,
línguas que não correspondem a nenhuma língua conhecida por aquele que
fala…” , conforme está explicado no rodapé da (Bíblia de Estudos
Almeida, da Sociedade Bíblica do Brasil, às páginas 252, do Novo Testamento,
edição recente de 1999, Baurerí, São Paulo), mas, ninguém se espante, porque
também iremos dizer que “o amor” além de ser superior aos dons, é sem
dúvida o elemento legitimador do uso dos dons na edificação do povo de Deus, e,
o amor não deixa o crente presunçoso, orgulhoso, achando que é superior aos
demais e, nem “orando para que os outros crentes se convertam”, pois,
quem recebeu a Jesus e permanece fiél ao Senhor, dia após dia, não tem que se
converter de novo, nem, porque foi a um “encontro tremendo” é que
agora se converteu. Cuidado! É bom ter calma, prudência, mas, que Deus está
fazendo uma grande obra, está !

Até ao próximo estudo !

Parte
XX
O
ESPÍRITO SANTO, MISSÕES E A IGREJA BRASILEIRA
O Espírito Santo é eminentemente missionário e a missão da igreja
no mundo é participar da missão do Espírito.
Esta declaração nos deve conduzir a uma reflexão séria, principalmente porque
hoje, mais do que nunca, a sociedade brasileira necessita de uma mensagem
evangélica confrontadora. O que não significa dizer que ela queira
necessariamente ser tocada em suas feridas; porém, à luz da Bíblia, não podemos
oferecer às pessoas um evangelho paliativo e barateado como temos visto hoje em
dia. O cristianismo puro e simples (para usar o título em português do livro de
C. S. Lewis) precisa ser a mensagem pregada e o estilo de vida de todo homem e
de toda mulher salvos em Cristo.

É triste constatar o tipo de evangelho enganador que está sendo anunciado
atualmente. Um evangelho descompromissado da ética cristã e da santidade de
vida. Um evangelho falsificado que propõe atalhos ao invés do verdadeiro
caminho. No meio artístico, por exemplo, ouve-se falar daquele e daquela como
os mais novos irmãos na fé; entretanto, aqui e ali ficamos sabendo dos
escândalos que esses “irmãos” cometem. Não negamos que haja conversões
autênticas entre os artistas, porém, é preciso o quanto antes que o verdadeiro
evangelho, com todas as suas implicações para a igreja e a sociedade, seja
resgatado em nosso meio. É necessário que “o sal da terra” e “a
luz do mundo”, a igreja de Jesus Cristo, ofereça, mediante o evangelho da
verdade, a verdadeira vida para todo aquele que perece em seus próprios
pecados. E isto só acontecerá quando a igreja proclamar o evangelho de poder e
no poder do Espírito, visto que ela também precisa enxergar além de si mesma,
de sua institucionalização e de seus paradigmas obsoletos.

Além disso, em se tratando da apresentação do evangelho ao povo brasileiro, a
igreja evangélica, não raramente, tem ido ou para o extremo da mensagem
desencarnada, distante da realidade cotidiana do povo, mediante a apresentação
de um evangelho transcendente que alcança as estrelas mas esquece da terra; ou
tem, por outro lado, oferecido Jesus Cristo às pessoas como se Ele fosse um
produto de consumo à disposição nas prateleiras do mercado eclesiástico. Outras
vezes apresenta-se Cristo no melhor dos estilos “fada madrinha”. Em
nome dEle promete-se ao povo casa, carro, dinheiro; enfim, toda sorte de
prosperidade. Cremos sinceramente que Cristo pode dar tudo e até mais do que é
prometido ao povo em termos de prosperidade; contudo, não podemos perder de
vista as implicações e exigências do evangelho autêntico. As pessoas não devem
ser confrontadas somente em termos de: “Você não conseguiu? Venha para
Jesus que você consegue”, mas sim, encaradas como pecadoras que precisam
urgentemente da graça redentora.

E por que precisamos nos preocupar com isto? Justamente porque a sociedade
brasileira carece do evangelho que esteja encarnado na vida dos crentes e na
vida dela mesma. Um cristianismo integral, como expressão de vidas santificadas
e consagradas ao Senhor, é o que realmente impactará nosso país e o mundo.
Cristianismo integral é a manifestação viva daquilo que dizemos acreditar.
Paulo é um exemplo fabuloso de compromisso com a verdade do evangelho. Ele
nunca a comprometia. Podia como poucos ser imitado como imitador de Cristo.
Semelhantemente o povo brasileiro precisa ver na igreja de hoje pessoas que
vivam o que dizem crer. A prática é a expressão do que acreditamos. Se não
praticamos o que dizemos, então a nossa pregação não passará de retórica
evangélica desqualificada.

O livro de Atos é um exemplo fabuloso de prática cristã autêntica sob o comando
do Espírito Santo. Eis que o Livro está aí, diante de nós, para ser conferido,
lido e relido pelo povo evangélico ou não, sob uma nova (ou velha?) ótica: a
ótica do Espírito missionário. Em Atos o Espírito Santo faz a diferença. O
livro de Atos se torna único no Novo Testamento porque nele o Espírito Santo se
revela como um Espírito missionário. Por isso, abordar o segundo tratado de
Lucas numa perspectiva missiológica é fazer verdadeira justiça ao seu autor. Há
teologia em Atos? É claro que sim. Mas apresentá-lo missiologicamente é a
maneira mais natural de fazê-lo. Sendo o Espírito Santo missionário, o que
segue é conseqüência natural, isto é, a igreja neotestamentária formada a
partir do Pentecostes passa a ser naturalmente uma igreja missionária. A
relação Espírito-igreja é a chave do sucesso em Atos. No entanto, do começo ao
fim de seu segundo livro, Lucas deixa claro que o Espírito Santo é quem comanda
a igreja em sua missão. Achamos importante enfatizar este ponto, visto que
atualmente existe uma concepção equivocada acerca da pessoa e obra da terceira
pessoa da Trindade em geral, e de sua missão em particular.

O Espírito Santo é Deus, e Deus soberano. Ele conduziu em triunfo a Igreja
Primitiva em sua missão evangelística, sendo o mesmo Espírito a conduzir nos
dias de hoje a igreja brasileira em sua tarefa missionária. Num estudo
sistemático, podemos observar que o Espírito Santo é quem vocaciona, capacita e
dirige soberanamente seus obreiros e a igreja na missão. Além disso, é Ele quem
vai adiante, abrindo portas e preparando o caminho para o sucesso da obra
missionária. E o mesmo Espírito que vocaciona, capacita e dirige os
missionários e a igreja na missão, além de preparar o campo, é quem transforma
este mesmo campo em base missionária. A visão missionária é uma dádiva do
Espírito para a igreja do Senhor Jesus. Praticar esta visão, como o fez a
igreja de Antioquia, é entender o verdadeiro propósito para o qual a igreja de
Jesus existe.

Tudo que o Espírito Santo fez em Atos visava a ação missionária da igreja. O
Pentecostes, por exemplo, não aconteceu para que a igreja vivesse em torno de
si mesma, comodamente, degustando tão somente aquela experiência sobrenatural.
No Pentecostes o Espírito Santo capacitou a igreja e continuaria capacitando-a
para ser testemunha de Jesus em todo o mundo. Concedeu o que a igreja esperava
e o que ela buscava: poder para testemunhar. Poder para proclamar as boas novas
de Deus em Cristo Jesus, mas também poder para vencer o medo, a covardia e a
timidez por Cristo Jesus. Os dons ou manifestações do Espírito (línguas, curas,
profecias, etc.) foram dados pelo Espírito Santo com o objetivo de que a igreja
testemunhasse de Jesus ao redor do mundo. Nada do que a igreja recebe do
Espírito tem nela um fim em si mesmo.

No passado o Espírito Santo e a Igreja Primitiva deram continuidade ao que
Jesus começou a fazer e a ensinar. Hoje, é possível que nosso maior desafio
seja o de jamais esquecer que a missão do Espírito e da igreja cristã não
terminou com Atos 28.

Extraído com permissão do livro ATOS DO ESPÍRITO SANTO (Ed. Descoberta,
2002) de autoria do Rev. Josivaldo de França Pereira.

Parte
XXI
O
ESPÍRITO SANTO NO PROCESSO HERMENÊUTICO
Introdução
O presente trabalho é uma análise sucinta do papel do Espírito Santo no
processo hermenêutico e de sua relação com os outros elementos do chamado
círculo hermenêutico. Nós o dividimos em três capítulos principais, sendo que
somente o último deles trata diretamente do Espírito Santo no processo
hermenêutico. Acreditamos que esta disposição será necessária porque os dois
primeiros capítulos servirão de pano de fundo ao tema. Sendo assim, procuramos
definir a hermenêutica e seu propósito, a relação entre o Espírito Santo, a
Bíblia e o intérprete e, por último, o papel do Espírito Santo na ciência
hermenêutica e no círculo hermenêutico.
Quanto ao Espírito Santo no círculo hermenêutico, propriamente dito, abordamos
a questão no conceito de missão integral numa teologia de contexto. Como se
relaciona o Espírito com os quatro elementos do círculo hermenêutico? O
Espírito deveria ou não ser representado graficamente com os outros elementos
do círculo? Como definir o Espírito Santo no círculo hermenêutico? Esperamos
responder a contento a estas e outras perguntas semelhantes. Nossa pesquisa não
é exaustiva mas espero que atenda o propósito para o qual foi escrita; a saber,
valorizar a importância e centralidade do Espírito Santo no processo
hermenêutico.
“No estudo da Bíblia, não é bastante que entendamos o sentido de autores
secundários (Moisés, Isaías, Paulo, João); temos que entender a mente do
Espírito” (Louis Berkhof).

I. Definição e Propósito da Hermenêutica

1.1. Definição de Hermenêutica
“Hermenêutica” é uma palavra de origem grega. Platão (c. 427-347
a.C.) foi o primeiro a utilizá-la como termo técnico.
No sentido amplo do termo, a hermenêutica pode ser definida como a ciência que
nos ensina os princípios, as leis e os métodos de interpretação de qualquer
produção literária. Antônio Almeida diz que hermenêutica é “a ciência e a
arte de interpretar. É ciência porque postula princípios seguros e imutáveis; é
arte porque estabelece regras práticas”.1 Especificamente falando, a
hermenêutica sacra tem caráter muito especial, porque trata de um livro
peculiar no campo da literatura – a Bíblia como inspirada Palavra de Deus. E
somente quando reconhecemos o princípio ativo da pessoa do Espírito Santo na
inspiração da Bíblia e por Ele somos guiados na
compreensão da mesma, é que podemos conservar o caráter doutrinário e prático
da hermenêutica bíblica.

1.2. O Propósito da Hermenêutica
Em geral, estuda-se hermenêutica com o propósito de interpretar produções
literárias do passado. Sua tarefa principal é indicar o meio pelo qual possam
ser removidas as diferenças ou distâncias entre um autor e seus leitores. A
hermenêutica nos ensina que isso só se realiza satisfatoriamente quando os leitores
se transpõem ao tempo e ao espírito do autor para, por exemplo, analisar as
características pessoais do autor, as circunstâncias sociais do mesmo e as
circunstâncias peculiares aos escritos.
Na hermenêutica sacra o ponto de partida é a própria Bíblia, uma vez que ela
mesma é o objeto de pesquisa da hermenêutica. O propósito da hermenêutica sacra
é “transportar a mensagem bíblica, a partir do seu contexto original, a
uma situação histórica contemporânea”.2

Infelizmente, boa parte dos estudiosos bíblicos partem da metodologia para a
Bíblia. Primeiro formulam suas conclusões pessoais e depois vão aplicá-las à
interpretação das Escrituras, ao invés de deixarem que a Bíblia formule as
regras para sua própria interpretação. Valdir Steurnagel, por exemplo, entende
que “nós podemos ter as duas coisas. Teologia de baixo e teologia de
cima”.3 Entretanto, Padilla observa corretamente: “O esforço para
deixar que as Escrituras falem, sem impor-lhes uma interpretação elaborada de
antemão, é uma tarefa hermenêutica obrigatória de todo intérprete, seja qual
for sua cultura.”4

Um dos princípios defendidos pelos reformadores do século XVI era que a
Scriptura Scripturae interpres. Um século depois da Reforma Protestante, este
princípio foi apreciado e elaborado pela Assembléia de Westminster do seguinte
modo:
A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto,
quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da
Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado
e compreendido por outros textos que falem mais claramente5

Na verdade é quase que impossível nos aproximarmos da Bíblia sem pressuposições
variadas, herança herdada de diversas influências (sociais, culturais,
teológicas, etc.). Os reformadores, por exemplo, não foram os primeiros e nem
seriam os últimos a negarem, entre eles mesmos, o princípio de que a Escritura
interpreta a si mesma. Dentre outras coisas, temos o exemplo clássico dos
conceitos teológicos de Lutero, Zuínglio e Calvino em relação à Ceia do Senhor.
Contudo, todas as pressuposições, sejam as nossas ou sejam as deles, não são e
nem podem ser justificadas pela Bíblia. Afim de que as Escrituras possam ser
estudadas com o mínimo de coerência, é preciso interpretá-las gramática,
histórica e teologicamente de mente e coração abertos para ouvirmos com
humildade e disposição a voz do Espírito Santo de Deus.

II. O ESPÍRITO SANTO, A BÍBLIA E O INTÉRPRETE

2.1. O Espírito Santo e a Bíblia

“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a
repreensão, para a correção, para a educação na justiça, afim de que o homem de
Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm
3.16,17).

“Sabendo, primeiramente, isto, que nenhuma profecia da Escritura provém de
particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por
vontade humana, entretanto homens [santos] falaram da parte de Deus movidos
pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.20,21).

As passagens bíblicas que transcrevemos acima, assim como tantas outras que
poderiam ser acrescentadas a elas, mostram que a Bíblia tem um autor principal.
“Ela é, em todas as suas partes, produção do Espírito Santo”.6

Durante a história da Igreja, surgiram conceitos diversos quanto a relação
existente entre o Espírito Santo e a Bíblia. Os pelagianos e racionalistas
sustentavam que a operação intelectual e moral da Bíblia era suficiente para
produzir a salvação, independentemente do Espírito Santo. Os antinomianos, por
outro lado, ensinavam que o Espírito Santo fazia tudo, independente da Palavra
de Deus. A igreja evangélica, por sua vez, sempre sustentou o seguinte: A
Bíblia sozinha não é suficiente para salvar, e embora o Espírito Santo possa,
geralmente Ele não atua sem ela. Isto não significa que o Espírito seja
subserviente à Palavra de Deus, mas sim, que a soberania divina estabeleceu a
livre atuação do Espírito mediante a Palavra. “Na aplicação da obra da
redenção os dois trabalham juntos, o Espírito usando a Palavra como Seu
instrumento. A prédica da Palavra não produz o fruto desejado até que se torne
eficaz pelo Espírito Santo”.7 A verdade é que o Espírito Santo honra a
Bíblia, fala pela Bíblia e é reconhecido pela Sua harmonia com ela. Por isso,
os reformadores frequentemente se referiam às Escrituras como “a imagem do
Espírito”.

2.2. O Espírito Santo e o Intérprete

Desde os tempos bíblicos Deus levantou profetas e intérpretes da lei que
conduzissem Seu povo segundo os princípios estabelecidos em Sua Palavra. No
capítulo 8 do livro de Neemias vemos vários servos de Deus que juntamente com
os levitas “ensinavam o povo na lei” (v7). E mais: “Leram no
Livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que
entendessem o que se lia” (v8). No capítulo 8 de Atos nos deparamos com a
clássica passagem de Filipe e o eunuco. O alto oficial de Candace, rainha dos
etíopes, estava lendo o livro do profeta Isaías. Até certo ponto podemos
admitir que ele entendia o que estava lendo. Compreendia que o profeta falava
de grandes padecimentos e extrema humilhação que um servo do Senhor teria
sofrido ou iria sofrer. Faltava-lhe, no entanto, entender o essencial para a
clareza da profecia: a respeito de que servo o profeta se referia. Falava de si
mesmo ou de algum outro? “Então Filipe explicou; e, começando por esta
passagem da Escritura, anunciou-lhe Jesus” (v35). E não poderíamos nos
esquecer do Senhor Jesus, quando no caminho de Emaús diz a dois de seus
discípulos: “Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na
sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas,
expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc
24.26,27).
Mas a atuação do Espírito, em capacitar os intérpretes da Bíblia, não se
limitou a eles.

Deus tem levantado nos dias de hoje homens e mulheres, verdadeiros mestres da
exposição bíblica, para orientarem a Sua Igreja. As divergências teológicas e
de interpretação sempre serão evidentes entre eles, até porque iluminação não é
inspiração, no sentido bíblico daquela “influência sobrenatural exercida
pelo Espírito Santo sobre os escritores sacros, em virtude da qual seus
escritos conseguem veracidade divina, e constituem suficiente e infalível regra
de fé e prática”.8 Mas o direito da interpretação não se restringe aos
chamados “doutores”. O mesmo Espírito capacita os mais simples para
compreenderem o sentido das Escrituras com muita propriedade e coerência.
Particularmente tenho sido enriquecido em meu ministério pastoral por irmãos e
irmãs que, não tendo formação teológica alguma mas conhecendo muito bem o seu
Deus, lançam luz sobre passagens bíblicas como eu nunca havia pensado antes. E
muitos desses irmãos e irmãs são originais em seus conceitos. Entretanto, não
quero dizer com isso que o alvo da boa interpretação seja a originalidade e nem
também que um texto não possa parecer totalmente novo para quem o ouve ou o lê
pela primeira vez. O alvo da boa interpretação é, segundo os doutores Gordon D.
Fee e Douglas Stuart, chegar ao “sentido claro do texto”.9 Para isso,
é necessário os auxílios internos da própria Bíblia para interpretarmos
corretamente o pensamento de Deus mediante os autores secundários e dos
auxílios externos disponíveis para a interpretação gramatical do texto bíblico,
tais como: gramática, dicionários, concordâncias, léxicos, analíticos e
comentários. É preciso que os comentários ocupem, quando muito, o último lugar
em nossas pesquisas, visto que um comentário é sempre uma opinião e não a
última palavra de quem quer que seja.

III. O ESPÍRITO SANTO NO PROCESSO HERMENÊUTICO

3.1. O Espírito Santo e a Ciência Hermenêutica

Certamente o Espírito Santo pode atuar independente de meios, como já
mencionamos. Entretanto, o Espírito age, geralmente, com e através da Palavra
de Deus. E de que modo Ele o faz? De um lado, através da iluminação do
entendimento do intérprete; de outro, na condução do uso correto das
ferramentas hermenêuticas por parte do intérprete. O Espírito Santo não milita
contra qualquer instrumento que nos ajude a compreender o sentido das
Escrituras; pelo contrário, como acabamos de afirmar, Ele mesmo se utiliza da
hermenêutica para nos auxiliar no modo correto de interpretar a Bíblia. A
própria Bíblia apresenta muitos exemplos dessa natureza. Em muitos casos, os
autores investigaram de antemão a matéria a respeito da qual pretendiam
escrever. Lucas nos diz no prefácio do seu Evangelho que procedeu deste modo; e
os autores dos livros dos Reis e Crônicas se referem constantemente às suas
fontes. Além disso, os autores do Novo Testamento em várias ocasiões
interpretaram as profecias do Antigo Testamento como se cumprindo em ocasiões
específicas. Como chegavam a essas conclusões? Naturalmente com os recursos da
hermenêutica. O apóstolo Pedro criticou aqueles que, por falta de uma
hermenêutica sadia, deturpavam os ensinamentos de Paulo e das demais Escrituras
“para a própria perdição deles” (2 Pe 3.15,16).

Com certeza, nos tempos bíblicos os escritores e profetas sagrados não
conheciam a hermenêutica como nós a conhecemos hoje, isto é, como ciência e
arte de interpretação da Bíblia, mas nem por isso eram menos favorecidos, até
porque eles possuíam a inspiração do Espírito Santo que os habilitava a
escrever e interpretar a Escritura Sagrada sem nenhuma margem de erro. Isto não
quer dizer que estivessem livres do fracasso de entender a própria mensagem. O
fato de os profetas algumas vezes fracassarem em entender a mensagem que eles
mesmos traziam ao povo, serve também para demonstrar que aquela mensagem vinha
de fora, de Deus, e que, portanto, não partia da vontade pessoal deles. Daniel,
por exemplo, certa vez teve uma visão e logo em seguida declarou que não
entendia o significado daquilo tudo (Dn 12.8,9). Zacarias, por sua vez, teve
várias visões com mensagens para o povo, mas precisou que um anjo o auxiliasse
na interpretação delas (Zc 1.9; 2.3; 4.4). Pedro nos informa que os profetas
que apresentavam a mensagem a respeito dos sofrimentos e glórias de Cristo, com
frequência investigaram os detalhes disso, para poder entender com mais clareza
(I Pe 1.10,11).

Não devemos nos esquecer que o ato de fazer lembrar e entender a vontade de
Deus para a nossa vida é atribuição do Espírito Santo. Como vimos, Ele atuou no
passado na mente e no coração de homens e mulheres de Deus e hoje o faz
iluminando nosso entendimento para entendermos o que a Bíblia diz, com suas
aplicações práticas para a vida diária. E mesmo que em certas ocasiões o
Espírito nos faça compreender o sentido das Escrituras independente de uma
pesquisa prévia, via de regra as coisas não funcionam desse modo, até porque,
normalmente, o Espírito de Deus nos orienta através dos recursos da
hermenêutica. Além disso, a uma pesquisa diligente no intuito de se entender o
que lemos, deve-se unir a oração como expressão de uma vida dependente do
Espírito10. E assim, como dizia Lutero, oremos como se tudo dependesse de Deus
e trabalhemos como se tudo dependesse de nós mesmos.

3.2. O Espírito Santo e o Círculo Hermenêutico

1. O Círculo Hermenêutico

Esta última parte do nosso trabalho (O Espírito Santo e o Círculo Hermenêutico)
é o resultado natural de tudo que vimos até aqui. É a aplicação prática do
Espírito Santo no processo hermenêutico dentro do chamado círculo hermenêutico.
O que é o círculo hermenêutico? Como poderíamos representá-lo e defini-lo?

Graficamente podemos representar o círculo hermenêutico desse modo:

Embora os estudiosos não neguem a importância do Espírito Santo no círculo
hermenêutico, poucos enfatizam a centralidade Dele. René Padilla, por exemplo,
diz que “a iluminação do Espírito é indispensável no processo
interpretativo”11 e que é “urgente a necessidade de uma leitura do
Evangelho desde cada situação histórica particular, debaixo da direção do
Espírito Santo”.12 Entretanto, quando Padilla representa graficamente o
círculo hermenêutico omite a pessoa do Espírito. Esta omissão também é evidente
no artigo de Daniel S. Schipani (Crezcamos en todo … en Cristo em Misión en
el Camino, p. 127).13Um dos ensaios, dentre os que encontrei, que abordam com
mais ênfase a pessoa do Espírito Santo no círculo hermenêutico é The Role of
the Holy Spirit in the Hermeneutic Process: The Relatioship of the Spirit’s
Ilumination to Biblical Interpretation do Dr. Fred H. Klooster em Hermeneutcs,
Inerrancy and the Bible, pp. 451-472.
Nosso objetivo neste capítulo é tentar apresentar , de maneira prática, o
relacionamento do Espírito Santo no círculo hermenêutico, visto que Padilla e
Schipani não dizem quase nada sobre o Espírito e Klooster, apesar de falar
muito sobre o Espírito Santo no processo hermenêutico, não vai além do campo
teórico e da teologia. E agora, uma vez que o Espírito Santo está no círculo,
ligado aos quatro elementos hermenêuticos e vice-versa, podemos definir o
círculo hermenêutico como a interligação mútua e dinâmica na perspectiva que
devemos ter (como intérpretes que devemos ser) da Bíblia e da realidade
histórica sob a ótica e direção do Espírito Santo de Deus. Em outras palavras,
a perspectiva que se tem de um elemento do círculo hermenêutico afeta a
perspectiva que se tem do outro. A compreensão da Bíblia, a compreensão do
contexto histórico e a compreensão do Espírito Santo, na perspectiva do
intérprete, devem estar integradas mutuamente e não podem ser separadas. A
interpretação de um incide na interpretação do outro, até porque neste caso o
fator diálogo passa a ser, de certa forma, o segredo do sucesso do círculo
hermenêutico. O círculo hermenêutico segue, então, uma dupla direção, em que
não somente o intérprete e o texto (como sugere Padilla, op. cit., p. 08), mas
todas as partes dele estão em constante diálogo.
Como o Espírito Santo se relaciona com os quatro elementos do círculo
hermenêutico? Façamos, então, uma breve análise do papel do Espírito Santo na
dinâmica do círculo hermenêutico, a fim de entendermos com mais clareza o
significado desse processo.

2. O Espírito Santo no Círculo Hermenêutico

Por uma questão de didática e propósito achamos por bem abordar, já no capítulo
anterior desse trabalho, a relação do Espírito Santo com a Bíblia e o
intérprete numa perspectiva mais teológica. Agora, passaremos a tratar, não
somente destes ( Bíblia e intérprete), mas de todos os elementos do círculo
hermenêutico numa perspectiva de missão integral, como acreditamos ser o
principal objetivo do Espírito Santo no processo hermenêutico.

a. O Espírito Santo e a situação histórica do intérprete

Não se pode negar de forma alguma que todo intérprete, quer seja da Bíblia,
quer seja da vida de um modo geral, é fruto de sua época, influenciado por
todos os fatores e ditames do seu tempo. No que se refere à Bíblia, em
especial, milhares de anos e circunstâncias culturais separam o intérprete das
Escrituras Sagradas. O Espírito Santo sabe e compreende estas diferenças. Dá ao
intérprete a liberdade de se aproximar da Palavra de Deus com todos os seus
pressupostos, embora não lhe dê o direito de fazer com que a Bíblia diga o que
ele gostaria que ela dissesse. Repitamos novamente as já citadas palavras de
René Padilla: “O esforço para deixar que as Escrituras falem, sem
impor-lhes uma interpretação elaborada de antemão, é uma tarefa hermenêutica
obrigatória de todo intérprete, seja qual for sua cultura”.14 A Bíblia é a
voz do Espírito ao povo de Deus. E somente direcionado pelo Espírito, mediante
a Palavra, é que o interprete se tornará profeta e portador fiel da mensagem do
Espírito Santo de Deus.

b. O Espírito Santo e a cosmovisão do intérprete

Nada melhor do que o próprio intérprete para interpretar a realidade em que
vive. Na perspectiva de sua cosmovisão ele pode aplicar os princípios bíblicos
à realidade que vê e sente, pois a sua missão não é formular meras
doutrinações, mas extrair da Bíblia as aplicações e implicações práticas da sã
doutrina para seu povo. A menos que se prejudique o significado original das
Escrituras, a cosmovisão do intérprete é válida e sustentada pelo Espírito
Santo. A Bíblia não seria o que é, como Palavra de Deus, se não fosse aplicável
em todas as épocas por quem vive a vida no seu próprio contexto. “O
propósito do processo interpretativo é a transformação do povo de Deus em sua situação
concreta”.15

c. O Espírito Santo e a Bíblia

O Espírito Santo é o mediador do diálogo entre as Escrituras e o contexto
histórico contemporâneo. A Bíblia fala hoje porque é a voz do Espírito de Deus.
O Deus que falou no passado continua falando hoje em dia a toda a humanidade,
através das Escrituras. A mensagem bíblica de transformação do indivíduo e da
sociedade, mediante a vocação de homens e mulheres para proclamarem o evangelho
de Jesus Cristo aos homens e mulheres do nosso tempo, é a dinâmica do Espírito
Santo.

d. O Espírito Santo e a Teologia

O Espírito Santo é a fonte de toda teologia bíblica sadia. E para que uma
teologia seja verdadeiramente bíblica, e expresse a mente do Espírito, precisa
ser,
necessariamente, uma teologia de contexto, como costumava enfatizar Orlando
Costas em seus livros e artigos16. A teologia deve ser o resultado de uma
interpretação fiel da Bíblia, pois só assim tocaremos o coração do povo. E esse
deve ser o nosso maior objetivo: fazer uma teologia que toque o coração do povo.
Uma teologia que atenda os anseios e necessidades do indivíduo e da sociedade.
Uma teologia que nos faça compreender que o Deus transcendente também é o Deus
imanente que tem cuidado de nós, em todos os níveis imagináveis.

NOTAS
1. A. Almeida, Manual de Hermenêutica Sagrada, p. 11.

2. R. Padilla, A Palavra Interpretada: Reflexões Sobre Hermenêutica
Contextualizada, p. 5.

3. Anotações não publicadas.

4. R. Padilla, Op. Cit.,
p. 06.

5. A Cofissão de Fé de Westminster, I, 9.

6. L. Berkhof, Princípios de Interpretação Bíblica, p. 56.

7. L. Berkhof, Manual de Doutrina Cristã, p. 276.

8. L. Berkhof, op. cit., p. 44.

9. G.D.Fee & D.Stuart, Entendes O Que Lês?, p. 14.

10. Para uma discussão interessante sobre o Espírito Santo, a interpretação
bíblica e a espiritualidade do crente, veja Moisés Silva, A Função do Espírito
Santo na Interpretação Bíblica em Fides Reformata, Vol. II, Nº 2, pp. 89-96.

11. R. Padilla, Op. Cit.,
p. 05.

12. Idem, p. 09.

13. Schipani, sem nos dar uma justificativa plausível, usa a expressão
circulação hermenêutica no lugar de círculo hermenêutico. Ele apenas diz:
“O conceito de ‘circulação hermenêutica’ (em lugar de ‘círculo
hermenêutico’ como é utilizado por Rudolf Bultmann e Juan Luis Segundo, entre
outros) é proposto por Georges Casalis em Las buenas ideas caen del cielo, DEI,
San José, 1977”. Nota 18,
p. 126.

14. R. Padilla, Op. Cit., p. 06.

15. Idem, p. 07.

16. Veja, por exemplo, Compromiso y Misión de Orlando Costas, Editorial Caribe,
1979 e Misión en el Camino: Ensayos em homenaje a Orlando E. Costas, vários
autores, Fraternidade Teológica Latinoamericana, 1992.

BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, A; Manual de Hermenêutica Sagrada, 2ª Edição, CEP, SP, 1985.

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Parte
XXII
O
DOM, OS DONS E O FRUTO DO ESPÍRITO SANTO
O início do século I da era cristã foi um desafio e um prejuízo
para as religiões pagãs do Império Romano. Um movimento oposto às crendices e
às formas de religiões arcaicas e infrutíferas começou a desenvolver-se no seio
de uma pequena comunidade. A história nos empolga, pois é contada em termos
dramáticos e desafiantes. Esse movimento, cujo surgimento e desenvolvimento
está narrado no livro de Atos dos Apóstolos, foi fruto do mover do Espírito
Santo através e nos discípulos de Jesus Cristo. E até a nossa época, este
Espírito continua a mover-se no mundo.

Em nossos dias, há uma crescente preocupação com as manifestações do Espírito
Santo. Há, até, um movimento carismático no mundo cristão. No ambiente
evangélico, percebe-se, não raro, indagações sobre batismo com ou no Espírito
Santo. Outros questionam: o que acontece com uma pessoa que recebe o Espírito
Santo? Só é verdadeiro crente quem fala em outras línguas? Pode ou deve o
crente pedir o Espírito Santo? São algumas das diversas formas que explicitam
preocupação com os dons do Espírito Santo, sem levar em conta toda a história
da redenção e a realidade de que o Espírito Santo é Deus, assim como o Pai e o
Filho.

O Espírito Santo, como a realidade de Deus, é essencialmente poder. Ele não é
apenas uma força. Deus é todo-poderoso, onipotente e, na sua grandeza
incomensurável, subsistem três pessoas de uma mesma substância: Deus Pai, Deus
Filho e Deus Espírito Santo.

Devemos entender claramente a triunidade de Deus: nós cremos em Deus Pai, Deus
Filho e Deus Espírito Santo.

Quem tem o Pai, tem o Filho — e só podemos tê-los e recebê-los mediante a ação
eficaz, poderosa e irresistível do Espírito Santo em nós. Está claro que os
crentes têm o Espírito Santo, pois enquanto são membros da Igreja, do Corpo de
Cristo, a qual é habitada por esse Espírito.

O mundo e a história são campos de ação do Espírito Santo através da Igreja e
mesmo além da Igreja. Porque o espírito age como quer, onde quer e quando quer.
Não podemos limitar a ação do Espírito Santo de Deus.

A descida do Espírito Santo: O Dom

A experiência de Pentecostes ficou sendo assim conhecida porque aconteceu por
ocasião da Festa de Pentecostes. O nome Pentecostes origina-se do intervalo de
cinqüenta 50 dias que separa a Festa da Colheita da Festa da Páscoa, de acordo
com a tradição judaica. A descida do Espírito Santo sobre a Igreja reunida em
Jerusalém naquela ocasião nos é narrada em Atos 2, o capítulo de abertura e de
impacto da história da igreja cristã primitiva. O livro de Atos como um todo
mostra o Evangelho em ação. O livro mostra o impacto que uma comunidade pode
causar quando vive e age no poder do Espírito Santo.

Os dois personagens principais deste livro, Pedro e Paulo, agiram no poder do
Espírito. Os capítulos 2 e 3 de Atos registram dois sermões do apóstolo Pedro,
quando oito mil almas se renderam ao pé da cruz de Cristo. O ministério do
apóstolo Paulo foi um ministério de bênçãos e vitórias, levando o Evangelho
perante príncipes, governadores e reis. Assim, o texto de Atos e o contexto do
próprio livro de Atos, mostram o que pessoas e comunidades podem fazer quando
se tornam instrumentos vivos e eficazes do Espírito Santo.

A Promessa da vinda do Espírito

Pentecostes prova ser um tempo em que as profecias se cumpriram, desde o Velho
Testamento até às promessas gloriosas dos lábios do divino Mestre: Eu vos
enviarei o Consolador. Permanecei, pois, na cidade (em Jerusalém) até que do
alto sejais revestidos de poder. Eles permaneceram. E as promessas de Deus se
cumpriram. Porque elas jamais falham. O Espírito Santo provém, pois, do Pai e
do Filho, e juntamente com o Filho e o Pai, é adorado e glorificado, como diz o
texto niceno.

Volvendo os olhos ao passado distante, vamos encontrar o profeta Isaías falando
do Reino do Messias, no capítulo 11 verso 2, dizendo: repousará sobre ele o
Espírito do Senhor. O profeta Ezequiel, falando da restauração do povo de Deus,
afirma: Porei dentro de vós um espírito novo. E, de uma maneira muito especial,
profetizou Joel: E acontecerá naqueles dias que derramarei o meu Espírito sobre
toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos terão
sonhos e os vossos jovens terão visões (2.28).

O próprio apóstolo Pedro identifica a experiência do Pentecostes com o
derramamento do Espírito de que fala o profeta Joel. Temos aqui um exemplo de
cumprimento de profecia. Certeza de Deus. As profecias se cumprem.

Joel afirmou: e acontecerá naqueles dias que derramarei o meu Espírito sobre
toda a carne (Jl 2.28). Sobre todos os cristãos verdadeiros, indistintamente de
serem judeus ou gentios. No Antigo Testamento o Espírito vinha sobre algumas
pessoas distintas, e seus carismas (dons) eram dados a algumas pessoas com
missão específica e em caráter temporário. Eram carismas especiais que podiam
inclusive ser retirados, caso o ungido se desviasse das promessas de Deus. Um
bom exemplo disto é a oração do rei Davi após haver pecado: não me retires o
teu Santo Espírito (Sl 51.11). Davi se refere aqui àquela unção especial que
havia recebido para ser rei, e que lhe havia sido ministrada através das mãos
do profeta Samuel (1 Sm 16.13).

Já no Novo Testamento, o Espírito Santo, juntamente com seus dons, é dado a
todos os que crêem e seus dons estão presentes na Igreja de uma forma
permanente (Jo 14.16). Diz Lucas: Estavam todos reunidos no mesmo lugar (…) E
foram todos cheios do Espírito Santo (At 2.1-4).

A promessa de Jesus foi: Eu vos enviarei o Consolador para que fique convosco
para sempre. Agora o Espírito é dado a todos os que crêem e para sempre. Como
diria Calvino: “Uma vez selado com o Espírito Santo, para sempre
selado.” Que bênção e que conforto é crermos assim.

O Senhor Jesus também determinou aos apóstolos que permanecessem em Jerusalém.
Permanecei, pois, em Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder (Lc
24.49). E em Atos 1.8 temos a reafirmação dessa promessa: Mas recebereis poder
ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas em Jerusalém,
na Judéia e em Samaria e até aos confins da terra. Poder para testemunhar,
pregar e agir, guiados pelo Espírito Santo.

O Cumprimento da Promessa no Dia de Pentecostes

Não muito depois dessa última promessa, estavam todos os apóstolos com alguns
irmãos reunidos em Jerusalém quando veio do céu um som terrível, como de um
vento impetuoso e algo como línguas de fogo apareceu e foi distribuído entre
eles. Estes fenômenos: do som terrível, como de um vento impetuoso e de línguas
de fogo, embora muito enfatizados por alguns dentro da cristandade moderna, são
o ponto menos importante da experiência. O importante mesmo é que eles foram
cheios do Espírito Santo para comunicar as grandezas de Deus e viver o
Evangelho de Cristo, num testemunho encarnado que se estenderia por toda
Jerusalém, Judéia, Samaria e até aos confins da terra, como testemunhamos hoje.

O fervor e entusiasmo aqui registrados eram do céu, e não provocados pelo
ambiente emocional. Este fato nos ajuda, com a graça de Deus, a discernir as
manifestações reais do Espírito Santo dos delírios coletivos e das
circunstâncias emocionais que possam acontecer ou serem provocadas. O fervor e
o entusiasmo eram de Deus. Essa diferença é fundamental.

É bem verdade que a fé cristã comporta emoções as mais sublimes e santas. Tudo,
porém, seja feito com decência e ordem. Conforme nos ensina o Espírito Santo,
através do apóstolo Paulo (1 Co 14.40).

Pode-se dizer que a Igreja neotestamentária nasceu com a descida do Espírito
Santo no Dia de Pentecostes. Desde então, a Igreja e o cristão agem no mundo
como força transformadora no poder do Espírito, para implantação do Reino de
Deus entre os homens.

As línguas faladas no Dia de Pentecostes

O que dizer do dom de línguas? Esse fenômeno permite aos homens de todas as
raças compreenderem o Evangelho. É o sinal anunciador do Reino de Deus, daquele
dia glorioso quando todas as barreiras que separam os homens seriam derribadas
e a humanidade voltaria a encontrar em Deus a sua unidade perdida. O
Pentecostes assinala o princípio da grande reunião dos filhos de Deus dispersos
por toda a superfície da terra.

Convém notar que o texto de Atos relata que os apóstolos, uma vez cheios do
Espírito Santo, começaram a falar em outras línguas. Aqui não diz línguas
estranhas. Eram línguas conhecidas. Estavam presentes ali pessoas de várias
nacionalidades, com dialetos próprios. E ouviam falar em suas próprias línguas
das grandezas de Deus, conforme relata Lucas, autor deste maravilhoso livro (At
2.11). O objetivo de falar em línguas foi o de comunicar o Evangelho de forma
clara, para que as pessoas pudessem entender a mensagem. Não o de ser um dom
espetacular ou algo semelhante. O fenômeno de línguas ali registrado reside no
fato de que eram todos galileus os que falavam, e de outras nacionalidades os
ouvintes, e puderam receber e entender a mensagem em suas próprias línguas.

A lista dos povos ali representados é algo significativo, do ponto de vista
lingüístico e geográfico. Senão, vejamos: começa com povos que ficavam ao leste
(Partos, Medas, Elamitas e Mesopotâmios); move-se para o oeste até a Judéia,
nordeste e até a Capadócia e outros distritos da Ásia Menor; para o sudeste
alcançando o Egito e a Líbia , sendo ainda mencionados: Roma, a Ilha de Creta e
Arábia. Lembremos as palavras do verso 8 do capítulo 1: Sereis minhas
testemunhas em Jerusalém, Samaria, Judéia e até aos confins da terra…; ali
estava o começo glorioso da grande expansão missionária da Igreja Cristã
nascente.

O Pentecostes é ainda, num outro sentido, uma réplica divina da Torre de Babel.
Como tal, aponta para a unidade criada por Deus no Pentecostes em contraste com
a confusão de línguas, juízo divino sobre fruto do orgulho humano, que pretende
se elevar até aos céus e não consegue. Gênesis 11 relata a confusão e fracasso
humanos, seguidos do juízo de Deus. Pentecostes relata a unidade da Igreja como
um dom de Deus. A unidade de línguas é obra do Espírito Santo. Esta unidade da
Igreja é algo que não se cria: recebe-se, manifesta-se e crê.

Muitos comentaristas apontam para o fato de que, segundo a tradição judaica,
quando a lei foi dada no Monte Sinai, a voz de Deus foi ouvida em todas as
línguas. Segundo a tradição judaica, isto aconteceu na época da Festa de
Pentecostes, e houve também manifestação da glória e do poder de Deus.
Obviamente não podemos tomar tradições judaicas por certas; entretanto, esta
crença judaica é sugestiva do fato que Pentecostes lembraria para os Judeus
presentes naquela ocasião a experiência gloriosa do Sinai e a dádiva da lei que
representava o Espírito e a vontade de Deus para o seu povo, bem como o poder
que haveria de guiá-los em sua peregrinação.

O Espírito Santo é o próprio Deus-Consolador, que guia, orienta e dirige a
Igreja na sua peregrinação à Canaã Celeste.

Se o Espírito dado à Igreja no Pentecostes foi compreendido como Sustentador da
nossa participação, na reconciliação e na nova vida, falar da Igreja como
inteiramente ligada ao Espírito é qualificá-la como o povo em quem a soberania
de Deus e o Senhorio de Jesus Cristo são reconhecidos. Portanto, Pentecostes é
decisivo para a existência da Igreja.

Ao que nos parece, para muitos cristãos modernos, o principal papel ou o único
trabalho do Espírito Santo é dar suspense emocional e alegria interna.
Certamente isso era parte da experiência neo-testamentária, todavia, não era a
mais importante. Lembremo-nos, portanto, de que quando o Espírito Santo atua na
vida do crente e da Igreja, o resultado é alegria, amor, paz e gozo, conforme
descreve o apóstolo Paulo em Gálatas 5.22-23.

Dons e Ministérios: Os Dons

A cidade de Corinto era uma verdadeira ponte transcontinental. Tudo passava por
Corinto: os peregrinos, os mercadores e os diferentes tipos de pregadores. Era
uma cidade cheia de novidades e também de muito pecado.

Na Grécia Antiga, ao lado das célebres lendas de heróis, semideuses e deuses
pagãos, existiam as religiões de mistério. Corinto era um dos centros dessas
religiões de mistério com suas manifestações estranhas; entidades que entravam
em pessoas, mudando-lhes a voz e os hábitos; adivinhações; clima de emoções
tremendas; rituais os mais variados e extravagantes.

Foi nesse ambiente e nesse contexto sócio-econômico, cultural e religioso, aqui
referidos, que viveu a Igreja de Corinto e que pregou o apóstolo Paulo.

Foi naquele arriscado ambiente de sincretismo religioso que o apóstolo Paulo
bradou: A respeito dos dons espirituais não quero, irmãos, que sejais
ignorantes (2 Co 12.1).

A necessidade de discernimento quanto às manifestações espirituais
Ignorar os dons espirituais é desconhecê-los. Desconhecê-los no sentido de não
exercitá-los, ou mesmo no sentido de não ter qualquer informação sobre sua
origem, intensidade e utilidade. Ignorar pode também significar falta de
discernimento espiritual. Atribuir ao Espírito Santo coisas e fenômenos da
própria mente emocionada ou desequilibrada não é bíblico. Atribuir ao Espírito
Santo coisas que não edificam e nem promovem a paz, no caso “os
fenômenos” das religiões de mistério, é falta de discernimento espiritual,
o qual é necessário para não confundirmos nem sermos confundidos.

Não podemos ignorar que nem todo o fenômeno religioso vem dos céus, de Deus, do
Pai das Luzes em quem não pode haver mudanças nem sombra de variação… (Tg
1.17). Precisamos de discernimento para buscar com zelo os melhores dons.
Precisamos de discernimento para não confundir barulho com louvor, entusiasmo
com consagração constante, emocionalismo com o verdadeiro quebrantamento
espiritual; precisamos de critério para, não confundir manifestações externas,
não raro mecânicas e estereotipadas, com comunicação íntima, com fé firme, fé
inabalável; precisamos ser pessoas lúcidas, pessoas sempre abundantes em fruto
e na obra do Senhor, sabendo que no Senhor o vosso trabalho não é vão (1 Co
15.58).

Não se pode dar crédito a todo e qualquer espírito. Nem toda a manifestação é
realmente espiritual. Nem todo o que diz estar falando pelo Espírito, o está de
fato. Paulo ensinou aqui em 1 Co 12.1-3 o critério cristocêntrico pelo qual
julgar e discernir aquele que realmente fala pelo Espírito, com unção e com
poder. Paulo lembra aos crentes de Corinto, que outrora viveram sem Deus e, sem
esperança, que naquela época eram guiados pelos ídolos mudos da antiga religião
de mistérios; mas agora, são guiados pelo Espírito a Cristo; e ensina
firmemente: Por isso vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de
Deus afirma: anátema Jesus. E por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus,
senão pelo Espírito Santo (2 Co 12.3).

O apóstolo João nos adverte: Não deis crédito a todo espírito (1 Jo 4.1). O
critério cristológico e cristocêntrico aí está para nos ajudar a discernir.
Jesus Cristo é a pedra de toque; Ele sempre está, olhando para a Igreja,
buscando a edificação, a paz, o bem-estar, a unidade dos remidos. É nesta
perspectiva que o apóstolo nos fala de dons, dons espirituais. Fala de sua
origem, seu uso, sua utilidade. É nesta perspectiva que falamos sobre dons e
ministérios.

Dons e Ministérios

A fonte de todos os dons é o Espírito Santo. Toda dádiva excelente, todo o dom
perfeito provém de Deus, do Pai das luzes em quem não há mudanças, nem sombras
de variação. Os dons espirituais são diversos, mas o Espírito Santo é o mesmo.
Diversos dons, uma só e a mesma fonte, visando a um fim proveitoso: a
edificação espiritual da Igreja, o crescimento dos santos em amor, a paz, a
maior compreensão.

Todo o cristão tem um ou mais dons e nenhum cristão tem todos os dons. Não
existe cristão sem dom. É preciso descobrir o seu dom e, para a glória de Deus,
e usá-lo para um fim proveitoso, para a edificação da Igreja.

Aptidões naturais, ou mesmo dons espirituais, podem ser exercitados
conscientemente ou até inconscientemente.

Há diversidade de ministérios ou serviços, mas o Senhor é o mesmo. Todos têm
dons do Espírito. Todos devem exercer ministérios na Igreja, ou seja, no Corpo
de Cristo, servindo ao Senhor. Os dons são aptidões em potencial. Os
ministérios são essas aptidões postas em prática.

Há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. Os
dons vêm do mesmo Espírito Santo. Os ministérios servem o mesmo Senhor Jesus.
As realizações são do mesmo Deus que opera tudo em todos — e todas estas coisas
concorrem para a edificação da Igreja (1 Co 12.4-7).

Os dons são aptidões naturais ou especiais dadas pelo Espírito para equipar os
santos, concedendo-lhes os diversos ministérios exercidos para toda a boa obra
que são as realizações em Deus.

Todos nós recebemos dons, talentos e aptidões. É preciso exercê-los no
ministério total da Igreja em sua integridade; apresentá-los em forma de
realizações.

O Fruto do Espírito Santo

Temos visto até aqui e cremos firmemente que o Espírito Santo é Deus, é uma
pessoa, e não uma força ou energia impessoal estranha ao ensino bíblico e às
convicções reformadas.

Como pessoa, o Espírito tem inteligência (Jo 16.13 e Rm 8.27), tem vontade (1
Co 12.11), tem emotividade (Ef 4.30 e Rm 15.30), dá ordem (At 8.29), proíbe (At
16.6) e constitui (At 20.28).

O resultado da presença do Espírito Santo no crente é também chamado de o fruto
do Espírito Santo (Gl 5.22-23). A manifestação externa desse fruto e é a
evidência maior de que ele tem o Espírito Santo, de que é batizado com o
Espírito Santo.

Paulo, em Gálatas 5, faz um nítido contraste entre “carne” e
“Espírito”. Carne não dá fruto, produz obras no plural. E que obras
terríveis! Carne e Espírito são opostos entre si. O que semeia para a carne,
colhe corrupção e morte; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá
a vida eterna (Gl 5.8).

O fruto, que resulta do fato do crente ter o Espírito Santo, e de ser batizado
com o Espírito Santo, está explícito em Gálatas 5.22-23. Note que não se diz
“frutos”, mas, sim, “o fruto”. Além de estar no singular,
vem precedido do artigo definido.

Conclusão

Vimos o dom, a dádiva, a descida do Espírito Santo, no Dia de Pentecostes, como
um evento singular; os dons espirituais, como sendo do Espírito e não nossos, a
serem usados para um fim proveitoso, a edificação do Corpo de Cristo e para a
glória de Deus. Sempre que o uso de um dom é distorcido, Deus o transfere, o
retira ou o faz cessar. Agora, o fruto do Espírito Santo que se desdobra em
amor, alegria, paz, longanimidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio
próprio é permanecente.

Pode acontecer, e tem acontecido, casos de pessoas que se dizem batizadas com o
Espírito Santo e que, manifestam dons até espetaculares, mas não se vê nessas
pessoas as expressões do fruto do Espírito Santo. Embora não devamos julgar de
forma descaridosa estas pessoas, devemos exercer os critérios bíblicos antes de
receber tais manifestações como sendo legitimamente produzidas pelo Espírito
Santo.

Quero concluir, afirmando que todo aquele que é nascido de novo é batizado com
o Espírito Santo, é templo do Espírito Santo, e tem o Espírito Santo. E se
alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele, afirma o apóstolo
Paulo (Rm 8.9b).

Quem tem o Pai, tem o Filho; e quem tem o Pai e o Filho, tem o Espírito Santo.
Não se pode dividir o indivisível, que é Deus. Ele é triúno.

Nós não tememos o que vem do Espírito Santo, desde que exercitado dentro dos
parâmetros das Escrituras e sob a disciplina do próprio Espírito. Veja o que
diz Paulo: Ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema Jesus! por
outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo (1 Co
12.3)

Parte
XXIV
O
TEÓLOGO DO ESPÍRITO SANTO

Um Estudo sobre o Ensino de Calvino sobre a Palavra e o Espírito
Introdução
Meu tema neste artigo é “Calvino, o teólogo do Espírito Santo.” Devo
começar dizendo que este título não foi dado a Calvino pelos seus
contemporâneos, mas sim pelos estudiosos modernos, reconhecendo a sua
importância como teólogo e exegeta para esta área da Teologia que está em tanta
relevância hoje.

O título pode confundir algumas pessoas. Podem pensar que o assunto sobre o
qual Calvino mais escreveu, e ao qual mais se dedicou, foi o Espírito Santo. Na
realidade, embora Calvino tenha escrito muita coisa sobre o Espírito Santo,
nunca escreveu uma obra específica sobre o assunto, como, por exemplo, John
Owen e Abraham Kuyper, cujos livros sobre o tema são fundamentais para a Igreja
contemporânea.(1) Embora em suas Institutas de Religião Cristã João Calvino
trate freqüentemente da pessoa e obra do Espírito Santo, não dedicou ao assunto
um capítulo exclusivo.(2)

Alguns têm criticado Calvino por não haver dado atenção mais direta ao Espírito
Santo em seus escritos, especialmente nas Institutas. A crítica é injusta.
Existem razões suficientes para esta aparente falta de atenção.

Em primeiro lugar, a doutrina do Espírito Santo não era o foco do debate de
Calvino com a Igreja Católica Romana da sua época, e nem da sua polêmica com os
reformadores radicais, os Anabatistas e os “Entusiastas”, conhecidos
como a ala de esquerda da Reforma.(3) Calvino só tratou da obra do Espírito
Santo na medida em que esse assunto se relacionava com os pontos críticos em
debate, como a doutrina da salvação, da santificação, das Escrituras, e dos
sacramentos.

Em segundo lugar, Calvino tinha a visão bíblica-neotestamentária de que o
Espírito Santo geralmente agia nos bastidores, como o agente da Trindade.
Embora sua ação fosse claramente perceptível, quem deveria sempre receber a
proeminência eram o Pai e o Filho. Essa convicção reflete-se nas suas obras e
em sua abordagem dos mais variados temas teológicos. Não existe praticamente
nenhum assunto teológico em que Calvino não se refira, em seu tratamento, à
obra do Espírito. Sua Pneumatologia é desenvolvida dentro das demais áreas da
Teologia Sistemática, como Teontologia (estudo da Pessoa de Deus), Soteriologia
e Eclesiologia.

Esta mesma abordagem se encontra refletida na Confissão de Fé de Westminster. É
verdade que seus autores, os Puritanos, não escreveram um capítulo exclusivo
sobre a pessoa e obra do Espírito. Mas, como sugeriu Dr. Benjamim B. Warfield,
conhecido teólogo presbiteriano reformado, do início deste século, a razão é
que preferiram escrever nove capítulos em vez de apenas um. A tentativa que foi
feita em nossa época, pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, para suprir
esta alegada deficiência, produziu um capítulo a mais na Confissão de Fé que,
segundo Warfield, nada mais é que um curto sumário destes nove capítulos
originais.(4)

E por fim, não se podeexigir de Calvino (e nem dos autores da Confissão de Fé)
uma abordagem do assunto que seja aguçada pelas questões relacionadas com o
surgimento do movimento pentecostal, séculos após a sua morte. Mesmo assim,
Calvino é surpreendentemente atual no que diz sobre o Espírito.

Por que, então, o título “teólogo do Espírito Santo?” Em primeiro
lugar, Calvino foi o primeiro a sistematizar de forma clara o ensino bíblico
sobre o Espírito Santo. Não é que ninguém, antes dele, não houvesse escrito
sobre o assunto. Mas, é que poucos, antes e depois de Calvino, conseguiram ser
tão claros, simples, e bíblicos.(5) Ouçamos o testemunho de Dr. Warfield:

A doutrina sobre a obrado Espírito Santo é uma dádiva de João Calvino à Igreja
de Cristo. . . Nos amplos departamentos doutrinários sobre “A Graça
Comum,” “Regeneração,” e “O Testemunho do Espírito” do
livro terceiro das Institutas, Calvino foi o primeiro a desenvolver a doutrina
da obra do Espírito Santo, e a dar a toda a doutrina do Espírito Santo uma
formulação sistemática, fazendo dela uma possessão inalienável da Igreja de
Deus.(6)

Em segundo lugar, Calvino integrou indissoluvelmente a doutrina do Espírito
Santo aos demais temas e áreas da teologia, como regeneração, santificação, os
meios de graça, e o conhecimento de Deus, entre outros. A Pneumatologia de
Calvino, igualmente, abrangia e permeava todos os demais departamentos da
Enciclopédia Teológica. Sua teologia é uma unidade orgânica, onde o Espírito
aparece apropriadamente como o Soberano dinamizador.

Em terceiro lugar, Calvino resgatou alguns aspectos da doutrina do Espírito
Santo que estavam soterrados debaixo da teologia medieval da Igreja Católica,
como por exemplo, a relação entre a Palavra e o Espírito. Nosso alvo neste
ensaio é analisar mais exatamente esta contribuição de Calvino para nosso
conhecimento da obra do Espírito Santo, ou seja, a relação vital e orgânica
entre o Espírito e a Palavra de Deus, as Escrituras.

O ensino de Calvino influenciou profundamente os estudos subsequentes dentro
dos círculos Reformados. Sua ênfase na ação soberana do Espírito continua na
tradição reformada entre os Puritanos ingleses, particularmente John Owen e
Richard Sibbes, que nos deram os estudos bíblicos teológicos mais extensos e
profundos que existem em qualquer língua sobre o ministério do Espírito Santo.

O Contexto Teológico de Calvino

Comecemos por lembrar-nos que a teologia de Calvino nasceu e desenvolveu-se em
meio ao intenso conflito doutrinário que marcou a Reforma do século XVI. Sua
doutrina do Espírito Santo foi moldada em meio à sua batalha em duas frentes.
Em uma, ele enfrentava o cativeiro das Escrituras pela Igreja Católica, e na
outra, o abandono das Escrituras pelos da Reforma radical.

A Igreja Católica e o cativeiro das Escrituras

Calvino e a Igreja Católica tinham algumas convicções em comum quanto à
doutrina das Escrituras. Para eles, as Escrituras eram a Palavra de Deus,
inspiradas pelo Espírito Santo, infalíveis, e autoritativas. Este ponto não
estava sendo disputado por Calvino, nem pelos demais reformadores. O ponto de
discórdia entre Calvino e os católicos era quanto ao ensino papista de que a
autoridade da Escritura dependia do testemunho da Igreja. A Igreja Católica
afirmava que o cânon das Escrituras, a sua preservação, a sua origem divina e
sua autoridade, deviam ser aceitos pelos fiéis como verdadeiros porque a Igreja
assim o afirmava. A autoridade das Escrituras, enfim, dependia do testemunho da
Igreja. A Igreja, além disto, tinha a correta interpretação das Escrituras; a
coleção dessas interpretações formava a tradição eclesiástica, que possui tanta
autoridade quanto as próprias Escrituras. Assim, era vedado aos católicos
leigos lerem e interpretarem as Escrituras. Eles dependiam da interpretação
dada pela Igreja. Desta forma, a Palavra e a sua interpretação estavam cativas
debaixo da autoridade eclesiástica.

Calvino levantou-se contra esse estado de coisas, que havia prevalecido durante
a Idade Média. Ele considerava esse ensino como sendo uma afronta ao Espírito
Santo, e um abuso de autoridade por parte da Igreja. Era a Igreja que estava
fundada sobre as Escrituras, e não o contrário. A autoridade das Escrituras não
dependia do testemunho da Igreja, e sim o contrário: a Igreja só possuía
autoridade enquanto estivesse dentro da doutrina bíblica. Calvino apelava aqui
para Ef 2.20, onde Paulo ensina que a Igreja está edificada sobre o fundamento
dos apóstolos e profetas, que é o ensino das Escrituras.(7) A Igreja
simplesmente reconhecia — não estabelecia e nem determinava — a inspiração e a
autoridade dos livros que compunham o cânon sagrado.(8)

Para Calvino, amaior de todas as provas da autoridade e inspiração das
Escrituras era que o próprio Deus nos falava através delas. Calvino chamava a
isto o testemunho interno do Espírito.(9) Para ele, o homem natural não poderia
ser convencido da divindade das Escrituras por argumentos apresentados pela
Igreja, por mais lógicos e racionais que eles parecessem (1 Co 2.14).(10) Era o
Espírito quem persuadia o crente de que Deus estava falando nas Escrituras, inclinando-lhe
o coração a aceitá-las, e dando-lhe plena certeza disto, gerando-lhe fé em seu
coração. Nas suas Institutas e comentários Calvino aponta para alguns textos
com este efeito, como por exemplo, 1 Jo 5.6-7, 2 Tm 1.14-15, 1 Co 2.10-16.(11)

Para Calvino, o que o Espírito havia revelado nas Escrituras era suficiente e
final. Maomé, o Papa, e os “Entusiastas” estavam errados, ao
reivindicar que o Espírito estaria ensinando novas verdades no presente. Para
Calvino, as palavras do Senhor Jesus em Jo 14.25 deixavam claro que o
ministério do Consolador consistiria, não em revelar novas verdades, que fossem
além das que haviam sido ensinadas pelo Senhor Jesus e seus apóstolos, mas em
iluminar as mentes e os corações dos crentes, para que compreendessem e cressem
nas verdades, agora registradas na Escritura. Ele afirma: “O espírito que
introduz qualquer doutrina ou novidade que vá além do Evangelho, é um espírito
de mentira, e não o Espírito de Cristo.”(12)

O efeito do ensino de Calvino foi libertador.(13) Através da ênfase no
testemunho interno do Espírito Santo como a evidência máxima da divindade e da
autoridade das Escrituras, ele libertou as Escrituras e a sua interpretação do
cativeiro imposto pela Igreja Medieval, e as colocou de volta onde elas pertenciam
de direito, nas mãos do Espírito Santo. Neste sentido, estava certa a avaliação
de alguns católicos encarregados da contra-reforma no século XVII, de que uma
das maiores diferenças que existiam entre Roma e Genebra se encontrava em suas
doutrinas sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo.

Os Reformadores Radicais e seu Desprezo pela Palavra

A outra fronte de batalha de Calvino era contra o ensino da Reforma radical,
conhecida como a “ala esquerdista” da Reforma.(14) Havia diversos
grupos dentro desta ala do movimento reformista. Havia, em primeiro lugar, como
os Anabatistas, os “Fanáticos”, os “Espiritualistas” e os
Antitrinitarianos, que “embora diferentes em seus propósitos e em suas
doutrinas, tinham em comum o desejo de ver uma Reforma muito mais radical do
que a propagada por Lutero e Zwinglio.”(15) A polêmica de Calvino contra
os Anabatistas concentrou-se em questões como batismo infantil, predestinação,
governo de Igreja, relação entre Igreja e Estado, e interpretação das
Escrituras.(16)

Foi contra os excessos dos “Entusiastas” ou “Fanáticos”
(como eram conhecidos) na área de novas revelações contemporâneas do Espírito,
que Calvino se concentrou em alguns de seus escritos. Ele escreveu um tratado
em 1545 entitulado Contre la secte phantastique et furieuse des Libertines qui
se nomment spirituelz (Contra a seita fantástica e furiosa dos Libertinos, que
se chamam de Espirituais), que ainda não foi traduzido para o português.(17)
Freqüentemente em suas Institutas e comentários Calvino faz menções diretas ou
sugestões implícitas sobre este movimento.

Os “Entusiastas” enfatizavam o ministério didático do Espírito, um
ponto que havia sido resgatado pelos Reformadores; porém, estavam indo além
deles, reivindicando serem ensinados diretamente pelo Espírito através de novas
revelações, por meio de uma luz interior. Afirmavam que o Espírito não podia
ficar restrito a palavras escritas, pois isto diminuiria sua soberania. Testar
as manifestações espirituais seria desonrar o Espírito. Chegavam a ridicularizar
os que se apegavam às Escrituras, pois a consideravam como uma forma inferior e
temporária de revelação, e criticavam Calvino e os demais reformadores por se
apegarem à letra que mata.

Os “Entusiastas,” portanto, eram uma reação à escravidão das Escrituras
por parte da Igreja que havia vigorado até a Reforma, mas uma reação que estava
indo longe demais. Calvino, naturalmente, simpatizava-se com os
“Entusiastas” em vários pontos. Para ambos, as Escrituras, como
Palavra de Deus, não estavam cativas à interpretação da Igreja, mas deveriam
ser livremente examinadas por todos. Calvino, porém, questionava seriamente a
separação entre o Espírito e a Palavra, e considerava qualquer tendência neste
sentido como “demência”.(18) Ele também duvidava que “novas
revelações” fossem uma obra do Espírito Santo, e chegava mesmo a suspeitar
que os que reinvidicavam receber revelações novas, que excediam as Escrituras,
estavam sendo guiados por outro espírito, que não o de Deus. Calvino cria na
realidade e na atuação de espíritos mentirosos, e que Satanás estava
continuamente iludindo as pessoas, procurando afastá-las da verdade,
transfigurando-se em “anjo de luz” (2 Co 11.3,14). Para ele,
“novas revelações”, na verdade, eram invenções de espíritos mentirosos,
não provinham do Espírito Santo, sendo o cumprimento de passagens como 1 Tm
4.1-2.(19)

O Ensino de Calvino sobre o Espírito e a Palavra

Calvino não se limitou a criticar os exageros dos “Entusiastas.” Ele
apresentou, de forma positiva e construtiva, o ensino bíblico sobre a direção
divina para a Igreja vivendo após os tempos apostólicos. No livro I das suas
Institutas, onde trata de “O Conhecimento de Deus como Criador”,
Calvino dá o seguinte título ao capítulo 9: Os fanáticos, abandonando as
Escrituras e bandeando-se para revelação, derrubam todos os princípios da
piedade. Nesse capítulo, o reformador aborda o ensino dos
“Fanáticos”, como eram conhecidos na época, a partir da inseparável
relação entre o Espírito e a Palavra.(20)

O Espírito Fala pelas Escrituras

O ponto central de Calvino eraque o Espírito fala pelas Escrituras. Não que o
Espírito estivesse restrito à Pregação da Palavra e aos sacramentos, mas sim
que Ele não pode ser dissociado de ambos. O Espírito havia sido dado à Igreja,
não para trazer novas revelações, mas para nos instruir nas palavras de Cristo
e dos profetas. De acordo com Calvino, o Espírito sela nossas mentes quando
ouvimos e recebemos com fé a palavra da verdade, o Evangelho da salvação (Ef
1.13). Ele limita-se a guiar os crentes e a iluminar seus entendimentos naquilo
que ouviu e recebeu do Pai e do Filho, e não de Si mesmo (Jo 16.13). Como o
ensino divino se encontra nas Escrituras, a obra do Espírito consiste em
iluminá-las, fazendo com que esse ensino seja entendido pelos fiéis.

Contra o desprezo pelas Escrituras da parte de muitos “Entusiastas,”
Calvino citava o exemplo do apóstolo Paulo, que mesmo tendo sido arrebatado ao
terceiro céu, onde recebeu revelações extraordinárias (2 Co 12.2), ainda assim
jamais desprezou as Escrituras, como se fossem uma forma inferior de revelação,
mas as reconheceu como suficientes e eficazes, pela graça do Espírito, para
edificar a Igreja em todas as coisas concernentes ao reino de Deus (2 Tm
3.15-17; cf. 1 Tm 4.13).(21)

O Espírito é reconhecido pela sua harmonia com as Escrituras

Outro ponto importante destacado por Calvino nas Institutas era que a atuação
do Espírito Santo poderia ser reconhecida pela sua harmonia com as Escrituras,
as quais haviam sido inspiradas pelo próprio Espírito.(22) Calvino desejava
apresentar um critério pelo qual a Igreja pudesse discernir de forma segura, no
âmbito da experiência religiosa, o que realmente procedia da parte do Espírito
de Deus, ou de espíritos enganadores. Para ele, havia somente um critério
seguro e infalível: o Espírito falando nas Escrituras. Assim, não haveria
qualquer diminuição do poder e da glória do Espírito Santo ao concordar com
elas, já que Ele as havia inspirado. Seria concordar consigo mesmo, e qual a
desonra que poderia haver nisto? Testar as manifestações supostamente
provenientes do Espírito, usando-se o crivo das Escrituras, era, na realidade,
agradável a Ele, pois Ele mesmo havia determinado que a Igreja assim procedesse
com as manifestações espirituais.(23) Para Calvino, não poderia haver qualquer
contradição entre o ensino bíblico e a atuação do Espírito nos tempos
pós-apostólicos; e é por esta razão que ele frequentemente se refere às
Escrituras como “a imagem do Espírito.”(24)

A Soberania do Espírito

Um último ponto ao qual desejo me referir é a insistência de Calvino sobre a
soberania do Espírito Santo nesta relação íntima com a Palavra de Deus. Para
ele, a Palavra é o instrumento pelo qual Deus dispensa a iluminação do Espírito
aos crentes.(25) Assim, Cristo fala hoje através do ministro do Evangelho,
quando o mesmo expõe fielmente a Palavra. O Espírito torna eficaz a Palavra
exposta nos corações dos que a ouvem. Ao mesmo tempo, a relação
Espírito-Palavra não é mágica, ou automática. A Palavra não é como um talismã,
que sempre que invocado, libera seu poder mágico, ao bel-prazer do seu
possuidor. A eficácia da Palavra, ao contrário, está totalmente na dependência
da soberania do Espírito.(26) Para Calvino, a afirmação de Paulo de que somos
ministros de uma nova aliança, do Espírito que vivifica (2 Co 3.6), não é uma
garantia de que nossa pregação sempre será acompanhada pelo poder vivificador
do Espírito. Pastores não retém o poder de dispensar a graça do Espírito a
qualquer um que desejem, e quando o desejem. É por um ato soberano que o Espírito
torna a Palavra pregada em Palavra eficaz.(27)

Assim, a eloquência, a habilidade, a erudição e o fervor do pregador de nada
adiantam, se a graça e o poder do Espírito não estiverem presentes. E assim
ocorre porque, o mérito sempre deve ser de Cristo, e não dos pregadores.

A Influência de Calvino na Confissão de Fé de Westminster

A Confissão de Fé de Westminster, adotada pela Igreja Presbiteriana do Brasil,
foi elaborada no século XVII, quase um século após a morte de Calvino, por
pastores e teólogos Puritanos, reunidos com este fim pelo Parlamento Inglês, na
Assembléia de Westminster. O alvo dos eruditos ali reunidos durante vários anos
era um só: formular de forma sistemática a doutrina bíblica, partindo dos
princípios de interpretação herdados da Reforma. A Igreja Presbiteriana tem
adotado essa Confissão como a expressão correta do ensino das Escrituras. Os
seus autores foram profundamente influenciados por João Calvino. Esta
influência se percebe claramente no ensino da Confissão sobre o Espírito Santo,
e em especial, na relação do Espírito com a Palavra.

Assim, no seu capítulo sobre as Escrituras, a Confissão declara, nos melhores
termos calvinistas, que a autoridade da Escritura não depende do testemunho do
homem ou da Igreja, mas de Deus ( I, 4), que a nossa certeza da sua infalível
verdade e autoridade divina provém do testemunho do Espírito Santo em nossos
corações (I, 5), que à Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por
novas revelações do Espírito, nem por tradições de homens (I, 6). A Confissão
reafirma, com Calvino, que é necessária a íntima revelação do Espírito de Deus
para a compreensão salvadora das coisas reveladas na Palavra (I, 6), e que,
finalmente, o Juiz Supremo pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de
ser examinadas é o Espírito Santo falando nas Escrituras (I, 8).

Relevância do Ensino de Calvino para Nós Hoje

A Época em que Vivemos

A influência do movimento neopentecostal, surgido na década de sessenta, tem-se
feito sentir de forma profunda nas denominações evangélicas históricas, e
também dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil. Não podemos tratar o movimento
como um bloco monolítico — existem, dentro dele, diversas correntes e
ramificações, o que faz com que generalizações tornem-se injustas. Mas, onde aparece
com toda a liberdade, o neopentecostalismo manifesta a crença em novas
revelações através de profecia e línguas, visões e sonhos, todos atribuídos ao
Espírito Santo, e em alguns casos, práticas estranhas ao Cristianismo
histórico, que são atribuídas ao poder do Espírito Santo, como “cair”
no Espírito, o “sopro” do Espírito, o “riso santo”,
característica principal do movimento conhecido como “a bênção de
Toronto”. Há pastores que pretendem ter controle sobre o Espírito Santo,
que presumem concedê-lo pela imposição de mãos, lançá-lo sobre o povo, girando
o paletó, soprando sobre eles, etc., como o conhecido carismático Benny Hinn.
Estes super-pastores determinam até mesmo quando o Espírito vai curar ou agir,
pois marcam com antecedência reuniões de cura e libertação, coisa que nem mesmo
o Senhor Jesus e os apóstolos fizeram.

A Igreja Presbiteriana está aturdida, tomada de surpresa, por estes ensinos.
Muitas de suas igrejas locais têm adotado, em maior ou menor medida, as
doutrinas e práticas do neopentecostalismo. Podemos receber ajuda do ensino de
Calvino, nesta hora?

Em que o Ensino de Calvino nos Ajuda Hoje?

Em primeiro lugar, o ensino de Calvino sobre o testemunho interno do Espírito
vem lembrar à Igreja que, nestes tempos difíceis, ela deve buscar de Deus a
íntima iluminação do Espírito para compreender e aplicar as Escrituras à sua
vida e missão. Corremos o risco de pensar que Calvino, em sua luta contra os
excessos dos “Entusiastas”, caiu no extremo do academicismo frio.
Balke nos relata o que de fato ocorreu: “Calvino, o teólogo do Espírito
Santo, queria guardar-se contra o fanatismo, sem porém impedir a liberdade do
Espírito.”(28) Como Calvino, devemos nos guardar dos excessos de hoje, ao
mesmo tempo em que, submetendo-nos à liberdade do Espírito, procuramos a sua
iluminação. Mas, para isto, é necessário arrependimento e saneamento da vida
das igrejas locais, dos conselhos, concílios, organizações e instituições
eclesiásticas que compõem a IPB. É preciso nos voltarmos a Deus em oração,
suplicando a iluminação do Espírito, como bem orienta a Carta Pastoral da
Igreja Presbiteriana do Brasil sobre o Espírito Santo:

Ao mesmo tempo em que orienta a Igreja a guardar-se de uma interpretação das
Escrituras que parte dos princípios hermenêuticos equivocados da experiência
neopentecostal, a Igreja também adverte contra uma interpretação
intelectualizada e árida das Escrituras, que se esquece da necessidade da
iluminação do Espírito para sua compreensão e de que Deus promete ensinar
àqueles que procuram andar em santidade e retidão (Sl 119.18, 33-34; Lc
24.44-45).(29)

Em segundo lugar, Calvino nos desafia a examinar todas as manifestações
espirituais pelo crivo da Palavra de Deus, quanto à natureza, ao propósito, e
ao modo destas manifestações. Essa prática está pressupondo corretamente o
ensino bíblico de que o Espírito Santo não se contradiz. As Escrituras foram
inspiradas por ele. Embora o Espírito aja de formas distintas em épocas
distintas, jamais o faz em contradição ao que nos revelou na Palavra. Deveríamos
estar abertos para o fato de que o Espírito tem enfatizado aspectos diferentes
da Palavra em épocas diferentes — porém, jamais indo além dela ou contra ela.

Em terceiro lugar, o ensinode Calvino nos alerta contra os que pretendem ter
total controle sobre o Espírito, que pretendem dispensar o batismo do Espírito
pela imposição de mãos, que “ensinam” aos crentes imaturos e incautos
a falar em línguas. Alerta-nos a rejeitar todo ensino, movimento, culto,
liturgia, onde a Palavra de Deus não receba a devida proeminência. Se o
Espírito fala pela Palavra, a Palavra deve ser o centro.

Muitos presbiterianos consideram-se calvinistas e reformados, mas quantos
realmente percebem as implicações do ensino calvinista reformado sobre a obra
do Espírito para as práticas neopentecostais que são aceitas em muitas das
nossas igrejas? Calvino foi, de fato, um homem do Espírito Santo, que guiado
por Ele, tornou-se o principal instrumento de Deus para a Reforma do século
XVI, movimento que, na realidade, foi um dos maiores reavivamentos espirituais
ocorridos na Igreja Cristã, após o período apostólico. Todos nós queremos um
reavivamento espiritual, da mesma magnitude. Calvino, que viveu e ministrou em
meio àquela tremenda manifestação de poder divino, não teve receio de ofender o
Espírito por inquirir, de forma profunda e meticulosa, sobre a genuinidade dos
fenômenos que sempre acompanham os grandes movimentos espirituais da História.
Se por um lado não devemos ter medo do que o Espírito possa fazer, por outro,
devemos temer a obra espúria dos espíritos enganadores, e do nosso próprio
coração enganoso.

E por fim, vale a pena mencionarmos que “a era do Espírito Santo”,
como é conhecida em muitos meios neopentecostais, iniciou-se, não em 1906, com
a reunião na rua Azuza, nos Estados Unidos, mas desde o dia de Pentecoste. As
evidências bíblicas são numerosas. Em seu sermão no dia de Pentecoste, o
apóstolo Pedro declarou que a descida do Espírito estava inaugurando os últimos
dias (At 2.16-21). Os demais apóstolos ensinaram, semelhantemente, que os
últimos dias, a dispensação anterior ao dia do julgamento final, já havia
chegado ( 1 Co 7:29; 1 Jo 2.18). Enfatizo esse ponto pois alguns poderiam
argumentar que estamos vivendo hoje na “era do Espírito”, e que
Calvino viveu antes dessa época. Os que assim acreditam, afirmam que hoje o
Espírito está agindo de uma forma muito mais intensa, e mesmo, diferente, da
época da Reforma, e que, portanto, o que Calvino experimentou e ensinou está,
num certo sentido, ultrapassado. Entretanto, as Escrituras nos ensinam que a
Igreja já está vivendo os últimos dias, a dispensação do Espírito, desde o
período apostólico. Calvino viveu e ensinou em plena época do Espírito, tanto
quanto nós hoje vivemos e labutamos. O ensino de Calvino, por ser bíblico, pode
nos servir de balizamento, indicando-nos o estreito caminho do equilíbrio,
entre uma vida de piedade e uma mente firmada nas antigas doutrinas da graça.

Notas
1 Jown Owen, The Holy Spirit: His Gifts and Power (Grand Rapids: Kruegel,
1960); Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit (Grand Rapids: Eerdmans,
1946).
Outros autores poderiam ser acrescentados, como o Puritano inglês
Thomas Goodwin, e mais recentemente, Benjamim B. Warfield e George Smeaton.

2 Cf. João Calvino, As Institutas, ou Tratado da Religião Cristã, 4 vols.,
trad. Waldyr C. Luz (São Paulo: CEP e Luz para o Caminho, 1989). Calvino trata
da divindade do Espírito em I.13.14-14, e da sua obra redentora (aplicando a
salvação) no livro III, especialmente nos capítulos 1-2.

3 O termo “esquerda” tem sido empregado recentemente por alguns
historiadores para se referir a esse grupo, sem qualquer conotação política.

4 Cf. a nota introdutória de B. Warfield
em Kuyper, The Work of the Holy Spirit, xxvii.

5 Para uma lista das obras mais importantes sobre o Espírito Santo
escritas após Calvino nos séculos XVII e XVIII, ver Kuyper, The Work of the
Holy Spirit, lx-x.

6 Kuyper, The Work of the Holy Spirit,
xxxiii-xxxiv.

7 Institutas, I.7.2; IV.2.1,9. Veja ainda Calvin’s Commentaries,
vol. 21, trad.
W. Pringle
(Grand Rapids: Baker, 1981) 242-44.

8 Institutas, I.7.1. Veja também os capítulos 7-9 do livro I, onde
Calvino desenvolve o tema da autoridade das Escrituras.

9 Institutas, III.1.1; I.7.5.

10 Institutas, I.8.13; I.7.4. Cf.
Ronald S. Wallace, Calvin’s Doctrine of the Word and Sacrament (Grand Rapids:
Eerdmans, 1957) 101-2.

11 Institutas, III.1.1; III.2.33-34; II.2.20; I.7.5. Veja ainda
Calvin’s Commentaries, vol. 20, 116-17, e vol. 22, 257.

12 Calvin’s Commentaries, vol. 18, 101.

13 Devemos, com justiça, notar que Calvino deve muito dessa
perspectiva ao ensino desbravador de M. Lutero, que já havia, antes dele,
denunciado esse estado de coisas.

14 Veja nota acima.

15 WilliamBalke, Calvin and the Anabaptist
Radicals, trad. W. Heynem (Grand Rapids: Eerdmans, 1981) 2.

16 Para uma análise mais profunda do debate de Calvino com os
Anabatistas consulte Balke, Calvin and the Anabaptist Radicals. Resumos sobre o
movimento Anabatista durante a Reforma poderão ser encontrados nos livros
clássicos em Português de História da Igreja, como Robert Nichols, W. Walker e
Justo Gonzalez (vol. 6).

17 Esta obra se encontra publicada em Francês na coleção Corpus Reformatorum,
ed. C.G. Bretschneider (Halle, 1834-1860),
vol. 7, 145-248.

18 Institutas, I, 9, 1.

19 Institutas, I, 9, 2.

20 Para um estudo mais aprofundado, veja W. Kreck, “Wort und Geist bei
Calvin”, em Festchrift für Günther Dehn (Neukirchen, 1957) 168-173.

21 Institutas, I, 9, 1; cf. Wallace,
Calvin’s Doctrine of the Word and Sacrament, 130.

22 Institutas, I, 9, 2.

23 Institutas, I, 9, 2. Passagens como 1 Co 12.1-3, 14.29 e 1 Jo 4.1, entre
outras, estabelecem critérios doutrinários pelos quais pode-se julgar as
profecias e os profetas.

24 Institutas, I, 9, 2-3.

25 Ibid.

26 Calvin’s Commentaires, vol. 22, 102-3.

27 Calvin’s Commentaires, vol. 20, 174; veja ainda Wallace, Calvin’s Doctrine
of the Word and Sacrament, 89-90.

28 Balke, Calvin and the Anabaptist Radicals, 326.

29 “O Espírito Santo Hoje – Os Dons de Línguas e
Profecia”, em Cartas Pastorais (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana,
1995). O documento foi elaborado pela Comissão Permanente de Doutrina da IPB.

Parte
XXV
O
TOQUE DO ESPÍRITO
Introdução

“Essas maravilhas de um avivamento somente poderão ocorrer se o Espírito
Santo tornar viva a Palavra de Deus, quando ela for pregada. Bênçãos genuínas
não podem vir a não ser que o Espírito Santo as traga ao povo de Deus.
Traga-lhe convencimento e nele toque.”
A. W. Tozer. – A Tragédia da Igreja: Ausência de Dons p. 15

Se tivermos uma compreensão sadia do que o Espírito Santo fez em nós no início
de nossa vida cristã, nossas condições para buscar as bênçãos para nós
reservadas serão melhores, mais claras e definidas. Mostra também a Escritura
que o Espírito de Deus age em todas as suas páginas, não apenas em termos do
Espírito Santo como Pessoa Divina para uma pessoa humana, mas, igualmente, em
termos de inspiração. Extraordinário é ver na Bíblia Sagrada que o Espírito a
inicia e a conclui. Está em Gênesis 1.2, primeiro capítulo de toda a Bíblia, e
também no seu último capítulo, em Apocalipse 22.17:

“A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas
o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas”.

“E o Espírito e a noiva dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem
sede, venha; e quem quiser, receba de a graça a água da vida”.

O Espírito age intensamente nas páginas do Livro Sagrado levantando e guiando
os juizes do povo de Deus, ungindo sacerdotes, profetas e reis, e transformando
covardes em poderosos.(1) E porque o Espírito Santo é poder, figuras de poder
têm sido utilizadas pelos escritores inspirados. É comparado ao vento, ao óleo,
ao fogo, à pomba e à água. Em todos os casos, figuras concretas e altamente
gráficas.

FIGURAS DE PODER

A idéia de poder no mundo está ligada ao hedonismo e ao belicismo, ao prazer e
e ter e às armas e violência. Poder é possuir uma gorda conta bancária, de
preferência na Suíça e/ou Ilhas Cayman; poder são os músculos; são as multidões
que alguém possa arregimentar; é o número de tropas e de armas de uma nação. Na
Bíblia, porém, é criação, é manutenção, é apoio, e é, até, sofrimento?!

Na Bíblia, o Espírito Santo é comparado ao vento. O mesmo vocábulo é utilizado
pelos escritores bíblicos para dizer “vento”, “fôlego”,
“respiração” e “espírito” (2). É o Ruach haKodesh ou o
Pneuma ton Hagion. Vento é poder criador, gerador de energia como nos moinhos
de vento, ou poder destruidor como num furacão.

Também é comparado ao óleo ou azeite. Nessa comparação, o Espírito Santo é um
poder confortador, visto que o azeite era largamente utilizado no conforto, na
unção, e numa série de situações. Um dignitário em Israel era ungido com azeite
aromático. O rei não era “coroado”, mas ungido, o azeite perfumado
era derramado na sua cabeça, e escorria pelo seu cabelo e molhava as suas faces
e sua barba (3). Não era um azeite qualquer. Há, por sinal, muita gente
vendendo azeite de supermercado afirmando ser “azeite ungido” com o
objetivo de mistificar, manipular as emoções dos simples e enganar os menos
avisados. O azeite da unção usado em Israel tinha uma fórmula, na qual entrava
a mirra, a canela, as madeiras aromáticas, a cássia e o azeite de oliveira (4),
razão porque era usado como perfume (5). Era utilizado na iluminação deixando o
ambiente perfumado(6), e, também, aplicado medicinalmente como atestam Tiago
5.14 e Marcos 6.13. No consolo que traz, portanto, no conforto que proporciona,
no poder que infunde, o Espírito Santo tem uma figura altamente apropriada no
óleo ou azeite: “… e daquele dia em diante o Espírito do Senhor se
apoderou de Davi” (7).

O fogo sempre esteve ligado a Deus ou à Sua justiça. Por essa razão, a espada
flamejante se postava à entrada do Éden guardando-o (8); a sarça ardente estava
no alto do Sinai (9); a coluna de fogo liderou os filhos de Israel na caminhada
no deserto (10); e no Monte Carmelo havia um altar de fogo (11); e, no
Pentecostes, as línguas como que de fogo pousando sobre a cabeça de cada um dos
apóstolos (12); e no Apocalipse está mencionado um lago de fogo (13). Sempre
sinais da presença e da justiça divinas! Sinais de Deus! João, previamente ao
ministério de Jesus, disse a Seu respeito: “Eu, na verdade, vos batizo em
água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de
desatar a correia das alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo e em
fogo” (14). O fogo é poder purificador.

O ESPÍRITO SANTO NO DESCRENTE

Nossa proposta é examinar como o Espírito Santo age no ser humano. Podemos
verificar na Escritura e na experiência o Espírito agindo tanto no descrente
quanto no crente.

Em João 16, nos versos 7 e 8, estão registradas as palavras de Jesus Cristo:
“Todavia, digo-vos a verdade, convém-vos que eu vá; pois se eu não for, o
Consolador não virá a vós; mas, se eu for, vo-lo enviarei. E quando ele vier,
convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”. É deste modo que Ele
age no incrédulo.

Um dos mais terríveis efeitos do pecado é a cegueira que ataca a pessoa humana
quanto a seus pecados (15). Só o Espírito Santo pode abrir os nossos olhos. Por
mais bem intencionados que sejamos, somos cegos em relação ao próprio pecado.
“O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus porque para ele
são loucura”, diz a palavra de Deus (16). Dependemos dEle; e até os nossos
olhos o Espírito vai abrir; só Ele pode nos convencer da profundidade do pecado
e da verdade do evangelho. Essa é a razão porque é chamado “Espírito da
verdade” (17). Uma pessoa perdida não tem consciência de que é um pecador
(por isso está “perdida”). Converse com uma “pessoa
natural”, e ela não compreenderá o que você está falando, porque ainda não
foi convencida pelo Espírito de Deus com respeito à sua perdição. Não há
consciência de falta de retidão moral e espiritual; não há qualquer convicção
ou consciência da palavra de julgamento sobre o seu pecado. E no verso 8 de
João 16 está afirmado que “quando ele vier, convencerá o mundo do pecado,
da justiça e do juízo”.

Essa tríplice convicção de João 16.8 não são funções separadas como pode
parecer, mas uma só. O Espírito não pode convencer uma pessoa do pecado sem
convencê-la do juízo de Deus; nem pode convencer alguém da justiça, da retidão
de Jesus Cristo, sem convencê-la inicialmente do pecado e do conseqüente juízo.
É um ato único e coeso. Não importa qual seja a expressão do pecado na vida de
alguém (adultério, cobiça, bebida, imoralidade, o que seja), a razão básica
porque alguém continua “destituído da glória de Deus” (18) é a falta
de fé em Jesus Cristo. Quem não foi convencido pelo Espírito Santo de Deus, o destino
não é o céu: é o outro lugar. E, por inferência, aceitar o perdão divino,
confiar em Cristo tem como resultado a vida eterna, a salvação eterna, a vida
abundante (19). É convicção da justiça e perfeição de Jesus Cristo, do fato de
que Ele é reto, justo e perfeito; é convicção do juízo, pois, pela ação do
Espírito, comprova-se o amor de Deus e igualmente o Seu julgamento sobre os
nossos pecados. Isso significa uma coisa: Deus é Quem toma a iniciativa de
nossa salvação por meio do Espírito Santo. Que gloriosa mensagem essa do
evangelho! E ela se chama graça: Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro”
(20). Foi Ele Quem tomou a iniciativa da sua salvação; foi Ele Quem através do
Seu Espírito, levou-o a Jesus Cristo; foi Ele Quem, através do convencimento do
pecado, da justiça e do juízo, levou a cada fiel a se ajoelhar diante de Jesus.
Deus nos procura antes que nós O procuremos, ou seja, embora sejamos cheios de
rebeldia, preconceito e indiferença, Deus vem a nós através do Seu Espírito,
lei espiritual encontrada na Sua Palavra (21).

E Jesus Cristo nos dá uma razão dessa tríplice convicção. Está no verso 9:
“(convicção) do pecado, porque não crêem em mim”; e fala da descrença
que é resultado do orgulho, da vaidade e da recusa de se submeter à direção do
Senhor. Nesse caso, a incredulidade está igualada à desobediência (22). Jesus
fala da rebelião voluntária ao governo de Deus em nossas vidas.

No verso 10, diz Jesus: “convicção da justiça, porque vou para meu Pai, e
não me vereis mais”. E, sem dúvida, a primeira coisa a considerar é que o
crente tem um teste final da justiça de Jesus Cristo: Sua volta para o Pai como
havia prometido. Por outro lado, olhar para Jesus Cristo, o justo sem pecado, é
percebermos quão distantes e caídos estamos da retidão de Deus, e, nesse ponto,
o Espírito nos vai levar a pesar em nosso íntimo o fato do pecado contra o
senhorio de Jesus e a ação de Seu reino em nossa vontade.

O verso 11 ensina que é convicção “do juízo, porque o príncipe deste mundo
já está julgado”. Entendemos que esse é um fato muito alentador, porque,
apesar de a Escritura dizer que “o mundo inteiro jaz no Maligno”
(23), Jesus Cristo é o vencedor (24)! E não depositamos a nossa fé em um Cristo
derrotado! O Deus a Quem servimos vencedor de todas as batalhas! É Aquele que
afirma o julgamento de Satanás, prometido desde os mais antigos dias da espécie
humana, registro que se encontra no livro do Gênesis: “Porei inimizade
entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; e esta
lhe ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (25) Jesus Cristo
vitorioso, portanto! Isso foi realizado no Calvário. Foi com a cruz que a
Grande Serpente, começou a se contorcer de dores. A cruz foi um punhal cravado
no coração do próprio Satã (26). Na ressurreição de Jesus, porém, o golpe final
foi dado no Grande Dragão, motivo porque a execução de tudo será no fim dos
tempos, na consumação dos séculos como está registrado no Apocalipse (27).

Apesar dessa idéia futura para nós, no propósito de Deus já é fato consumado,
convicção que de nossa parte é necessária pelo que Satanás faz na vida do
descrente em Jesus Cristo. Não diz a Escritura que “o mundo inteiro jaz no
Maligno” (28)? No entanto, “sabemos que somos de Deus”! Isso é
glorioso! Os perdidos estão em cativeiro porque o mundo jaz no Maligno; fazem a
vontade do Inimigo-de-nossas-almas (29) porque o mundo jaz no Maligno, o que
quer dizer que a nossa ação evangelizadora e missionária é uma luta contra
Satanás e suas hostes de anjos da malignidade (30). E porque não podemos lutar
sozinhos, Deus vem ao nosso encontro pelo Espírito Santo.

PECADOS CONTRA O ESPÍRITO SANTO

A pessoa humana tem a infeliz possibilidade de cometer dois pecados contra o
Espírito. O crente deve dar glória a Deus porque contra essa doença já foi
vacinado. Mas o ser humano natural pode cometer duas tremendas faltas contra o
Espírito de Cristo. Um pecado é chamado na Bíblia de “resistir ao
Espírito” (31). O outro é identificado pela expressão “blasfemar
contra o Espírito” (32).

O pecado mais comum contra o Santo Espírito é a resistência, que se apresenta
de muitas maneiras. É o caso do desprezo e do desdém para com a palavra do
Senhor; é a depreciação do evangelho salvador de Jesus (33). Outro é o
adiamento. Você diz “estou ouvindo o Espírito falando ao meu ouvido, mas
vou deixar para depois a decisão de receber a Jesus como meu Salvador”.
Esse adiamento é um pecado (34). Outro mais é a zombaria, o escárnio, o levar o
Espírito Santo ao ridículo (35). E que dizer da oposição agressiva (36)? Mas em
tudo isso, vemos algo verdadeiro: enquanto a pessoa resistir à obra de
convicção, ela se priva das alegrias da salvação!

O outro caso é o da blasfêmia contra o Espírito. Mateus 12.22-32 fala desse
assunto. Havia um grupo que atribuía a cura de um endemoninhado cego ao poder
do diabo (37). A ironia de tudo isso é que o milagre realizado por Jesus,
prova, portanto, de Sua divindade, fora atribuído ao diabo. Essa atitude, esse
pecado não tem esperança de perdão. É o que está dito nos versos 31 e 32. O pecado
da blasfêmia, então, é o ponto mais alto de um processo de resistência ao
Espírito de Deus. É blasfêmia ser antagônico ao Senhor, quando Ele o chama para
o Seu lado, e você se posiciona contrariamente. O desdém começa, vira
resistência, endurecimento do coração, blasfêmia e resulta em perdição eterna.

O ESPÍRITO SANTO E A CONVERSÃO

A primeira importante lição é que o Espírito Santo trabalha na conversão. O
Espírito de Deus completa Sua obra de convicção em nós, e traz à nossa
consciência o fato do pecado e da nossa condenação. Se não há resistência, Ele
nos conduz à conversão. Assim é que aceitamos que Jesus Cristo Se torne o
Senhor de nossas vidas. A essência da salvação é a conversão ao senhorio de
Cristo. O primeiro pecado humano foi a negação da soberania divina (38); quando
o primeiro homem resolveu não ser o gerente da criação, e, sim, o proprietário,
evidenciou-se a rebeldia, e com isso repúdio da lei divina. Resultado: a
humanidade passou a ser dominada pelo Maligno (39), que recebe os títulos de
“príncipe deste mundo”, “deus deste século”, e “poder
das trevas” (40). Ser salvo é ser liberto por Deus do domínio das trevas
para o senhorio de Cristo Jesus (41).

A conversão ou regeneração não é trabalho do evangelista, do pastor ou do
professor da Escola Bíblica, mas, sim, do Espírito Santo. Regeneração não se
herda, não se adquire com o batismo, não é mérito da igreja, pois, na verdade,
alguém pode freqüentá-la por anos corridos e não ser regenerado. Regeneração
não consiste em boas obras (42), nem é resultado de vida moral ilibada (43).
Realmente, a palavra do evangelho é que “a todos quanto o receberam, aos
que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”
(44), e isso é ação do Espírito que leva ao arrependimento, à fé, e conduz à
incorporação em Jesus Cristo. E ensina a palavra de Deus que “crer no
evangelho”, “responder a Jesus Cristo” e “receber o
Espírito Santo” são três modos de observar o mesmo fato (45).

O ESPÍRITO SANTO E O CRENTE

Como agiu e age o Espírito de Deus no discípulo de Jesus Cristo? O Espírito
Santo
preparou o seu coração para entrar em uma nova vida. Tito 3.5 o explicita:
“…não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas
segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da regeneração e
renovação pelo Espírito Santo”.

Espírito de Deus o recriou. Jesus não o ensinou? “Em verdade, em verdade
te digo que se alguém nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de
Deus”(49)

O Espírito Santo fez ainda mais:

imprimiu o próprio caráter de Deus em sua vida! A Bíblia chama a esse fato o
selo do Espírito.(50) E com isso, o Espírito lhe deu a consciência de que é
filho de Deus.(51)

Jesus Cristo o batizou no Espírito Santo: “Pois em um só Espírito fomos
nós todos batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos,
quer livres, e a todos nós foi dado beber de um só Espírito” .(52)

O batismo no Espírito Santo é uma das fases do ministério da Terceira Pessoa da
Trindade, sem dúvida a mais mal compreendida. Há quem ensine que ele dá ao
crente uma experiência mágica, ou que seja uma espécie de sacramento, um meio
pelo qual o crente recebe uma graça especial. Necessário se torna,
evidentemente, cuidado para não confundir o ficar cheio do Espírito Santo com o
batismo no Espírito Santo.(53) Muitos crentes confundem essas realidades porque
os que foram batizados no dia de Pentecostes também ficaram cheios.(54) É
importante compreender que o glorioso e inicial fato do batismo no Espírito
Santo não é a “segunda bênção” anunciada por alguns grupos. O batismo
no Espírito Santo, pelo ensino do Novo Testamento, é a primeira bênção na sua
vida. Sua evidência não é o falar-em-línguas, mas a vida, quebrantada,
arrependida, penitente, dedicada, consagrada ao reino e a espalhar o seu poder
no coração dos homens. Em uma palavra: serviço. A evidência do batismo no
Espírito Santo é a vida dedicada que se expressa em termos de ação e serviço.

COMO O ESPÍRITO SANTO AGE NO CRENTE?

Ele o faz concedendo carismas, ou seja, os Seus dons para o serviço acima
mencionado.(55)

O Espírito Santo ajuda na oração. A palavra de Deus é claríssima sobre isso:
“Do mesmo modo também o Espírito nos ajuda na fraqueza; porque não sabemos
o que havemos de pedir como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com
gemidos inexprimíveis. E aquele que esquadrinha os corações sabe qual é a
intenção do Espírito: que ele, segundo a vontade de Deus, intercede pelos
santos”. (56)

Espírito Santo guia o crente através das circunstâncias.(57) Ele orienta o
cristão fechando certas portas e abrindo outras;(58) Ele dá direção ao fiel
através de palavras, atitudes e conselhos de outros fiéis;(59) Ele norteia o
caminho do crente através das Escrituras Sagradas;(60) Ele guia o crente
através da oração.(61) O Espírito Santo guiando a Igreja, traz reconciliação, e
cria a koinonia; Ele fala pela pregação.(62) O Espírito Santo edifica o Corpo
em amor. Por tudo isso, os escritores do Novo Testamento costumam falar de
Jesus Cristo e do Espírito Santo vivendo dentro do crente, quer dizer, nós
estamos em Cristo, e o Espírito Santo está em nós. (63)

A Bíblia diz que há três tipos de pessoas: o homem natural, o crente carnal e o
crente espiritual. Paulo, apóstolo, faz uma descrição de cada um. Em 1Coríntios
2.14 está o homem natural: “O homem natural não aceita as coisas do
Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque
elas se discernem espiritualmente”.

O crente carnal por sua vez está em 1Coríntios 3.1: “E eu, irmãos, não vos
pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em
Cristo”.

O Dr. Landrum Leavell disse que a vida religiosa do crente carnal é como a
malária: frieza e febre. Ataques de frio e de febre, frio e febre, e assim por
diante. Desce e sobe, desce e sobe, vai ao alto e cai, não tem constância, não
tem estabilidade, não tem alegria. O crente espiritual, por sua vez, tem seu
perfil em 1Coríntios 2.15: “Mas o que é espiritual discerne bem tudo,
enquanto ele por ninguém é discernido”.

Crentes espirituais são santificados todos os dias. Não precisam de movimentos,
caminhadas, marchas e campanhas especiais para serem santificados porque têm
comunhão com o Pai diariamente, alimentam-se dia a dia com a seiva da videira
verdadeira que é Cristo Jesus, são sustentados pelo Espírito Santo cada dia,
têm propósitos especiais para suas vidas, não se cansam de obedecer a Deus.
Amam sua igreja, participam fielmente dos estudos bíblicos, contribuem
biblicamente, são dizimistas e trazem o dízimo à casa do Senhor.

Pecado e santificação são extremos como Polo Norte x Polo Sul; escuro x claro;
noite x dia; distância de Deus X proximidade de Deus. Quanto mais o crente se
conforma com o mundo, mais se distancia de Deus; quanto mais o crente se amolda
à vontade de Deus, mais distância quer do sistema de coisas do mundo. Isso é
santificação, e ação do Espírito em sua vida. O mundo precisa da ênfase sobre a
santificação. A igreja local precisa da ênfase sobre a santificação; nós
precisamos da ênfase sobre a santificação. Nossas ações, vocabulário e atitudes
dirão aos outros e a nós mesmos, a que distância estamos do Polo Norte ou do
Polo Sul, do governo do mundo ou do reino de Deus.

Há quem imagine ser santificação deixar de fazer certas coisas. A Bíblia ensina
que é resultado de andar com Deus. Não são regras, mas estilo de vida.
Santificação é um processo para toda a vida e deve ter início na conversão.
Dissemos “deve ter início” porque há crente que não cresce, e não
cresce porque não dá vez ao Espírito. Alguém disse: “já dei muita oportunidade
ao Espírito Santo, e não vi nada!” Na realidade, encastelou-se em certa
posição, e não deu vez ao Espírito de Deus!

DUAS TENDÊNCIAS

Há no crente duas tendências ou naturezas, e são antagônicas. Uma é carnal; a
outra é espiritual. A primeira coisa que o Espírito tem que fazer para sua
santificação é dominar o pecado em sua vida. Pelo poder do Espírito Santo, o
irmão, a irmã vai conquistar a natureza mundana e carnal em sua vida. Quando
aceitamos a Cristo, nascemos do Espírito, mas a velha natureza continua ao lado
da recém-nascida natureza cristã.(64) A Bíblia, porém, ensina que mesmo com o
trabalho do Espírito Santo, só na glória é que vamos nos despir completamente
da velha criatura.(65) O Espírito é poder para sobrepujar nossa natureza
carnal.(66)

A segunda fase da santificação consiste em o Espírito Santo dar ao crente um
caráter justo e santo. Esse é o lado positivo da santificação, pois em relação
ao pecado, a obra do Espírito Santo é destrutiva, em relação ao caráter, porém,
é construtiva. Conforme Gálatas 5.19 em diante, temos um resumo das duas fases:

é preciso desmanchar a primeira, as obras da carne (versos 19-21);

e construir a segunda, que é o fruto do Espírito (versos 22,23).

Outra parte da atuação do Espírito Santo é o serviço que prestamos. Assunto a
ser examinado em outras reflexões.

NOTAS
1 Cf. 2Timóteo 1.7.
2 As palavras são ruach e pneuma, nas línguas hebraica e grega respectivamente.

3 Cf. Sl 133.
4 Cf Ex 30.22-33.
5 Cf. Amós 6.6.
6 Cf. Mateus 25.3ss.
7 1Sm 16.13b.
8 Cf. Gênesis 3.24.
9 Cf. Êxodo 3.2ss.
10 Cf. Êxodo 13.21,22.
11 Cf. 1Reis 18.38 .
12 Cf. Atos 2.1-3.
13 Cf. Apocalipse 20.14,15.
14 Lc 3.16.
15 Cf. 2Coríntios 4.4.
16 Cf. 1Coríntios 2.14.
17 Cf. João 14.17.
18 Cf. Romanos 3.23.
19 Cf. João 3.16, 18, 36.
20 Cf. 1João 4.19.
21 Cf. Gênesis 3.8-10; João 3.16; Efésios 2.8.
22 Cf. Hebreus 3.17-19.
23 Cf. 1João 5.19b.
24 Cf. João 16.33; Apocalipse 3.21.
25 Gn 3.15.
26 Cf. João 12.31-33.
27 Cf. Apocalipse 20.10.
28 Cf. 1João 5.19.
29 Cf. 2Timóteo 2.26.
30 Cf. Efésios 6.12.
31 Cf. Atos 7.51.
32 Cf. Mateus 12.22-32; Marcos 3.28-30; Lucas 12.10.
33 Cf. Atos 26.28.
34 Cf. Atos 17.32; 24.25.
35 Cf. Atos 17.32.
36 Cf. Atos 5.33-40; 7.54-60.
37 Cf. verso 24.
38 Cf. Gênesis 3.1ss.
39 Cf. 1João 5.19; 2Timóteo 2.26
40 Cf. Cf. João 12.31; 14.30; 16.11; Cf. 2Coríntios 4.4. Colossenses 1.13.
41 Cf. Colossenses 1.13.
42 Tito 3.5.
43 Cf. Isaías 64.6.
44 João 1.12
45 Cf. 2Coríntios 11.4.
46 Cf. João 16.8-11.
49 Cf. João 3.5; 1Coríntios 12.3.
50 Cf. 2Coríntios 1.22; Efésios 1.13; 4.30.
51 Cf. Romanos 8.15-17.
52 1Co 12.13.
53 Cf. Efésios 5.18.
54 Cf. Atos 2.4. O “ficar cheio do Espírito Santo” é fato conhecido
por outras expressões: controle do Espírito e plenitude do Espírito (do latim
plenus = cheio).
55 Cf. 1Coríntios 12.4-30; Efésios 4.1-16.
56 Rm 8.26,27.
57 Cf. Atos 16.10.
58 Cf. Atos 16.6
59 Cf. Atos 6;13.
60 Cf. Colossenses 3.16.
61 Cf. Colossenses 3.15.
62 Cf. Atos 2.14,18.
63 Cf. Gálatas 2.20; Cl 1.27; Rm 8.10; 1Co 3.16.
64 Cf. Efésios 4.22; 1Coríntios 3.1; Hebreus 5.13; Colossenses 3.9.
65 Cf. 1João 3.2.
66 Cf. Gl 5.16.

Parte
XXVI
ENTECOSTES:
O PARADOXO DE DEUS
1 Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no
mesmo lugar;

2 E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma
sobre cada um deles.

3 Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas,
segundo o Espírito lhes concedia que falassem.

A festa de pentecostes era uma das três festas obrigatórias dos judeus. A
primeira era a Páscoa, a segunda era o Pentecostes a terceira era a festa dos
tabernáculos.

A princípio, era uma festa agrária também chamada de festa das primícias pela
celebração do início da colheita. Posteriormente, veio, também ser a
comemoração da entrega da aliança que teria se dado cinqüenta dias após o
êxodo.

Não podemos negar que no pentecostes cristão, também estão presentes os
elementos do Pentecostes judaico. Com certeza no pentecostes, começa uma grande
colheita. Também, não podemos nos esquecer que a nova aliança de Deus já não é
escrita em tábuas de pedras, mas em nosso coração. Finalmente, a alegria que
deveria ser a tônica no pentecostes judaico extravasa no derramamento do
Espírito Santo sobre a Igreja.

Pregar sobre um texto como esse é uma das tarefas difíceis do pregador. Este texto
é policromático, polisemântico. Fôssemos abordar, todos os seus ângulos,
vertentes e nuances, levaríamos, quem sabe cinqüenta dias…

Queremos, porém, falar a partir da perspectiva dos paradoxos que se encontram
no texto. A palavra paradoxo, vem do grego e significa: parecer ou aparentar .
O paradoxo não é uma contradição. Na contradição uma coisa nega a outra. No
paradoxo, há uma aparente contradição, não, uma real contradição. Jesus, usou
paradoxos: Quem perde a sua vida por minha causa acha-la-á. (Mt. 10.39).

É nesse sentido que estaremos usando a palavra para descrever o evento
pentecostes.

Foi o fim do começo e o começo do fim.

2. 17. E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu
Espírito sobre toda a carne. O derramamento do Espírito no dia de Pentecostes é
início e fim. É o fim da antiga aliança e o surgimento de uma nova. É o fim de
uma velha era e o início de uma nova. O que era escrito em pedras agora é
escrito no coração. O povo de Deus agora já não é uma questão de raça (ser
judeu) mas de roça (é a colheita do Espírito Santo que semeia a palavra no
coração do homem) . Israel já não é o limite do arraial do povo de Deus.

No Pentecostes, ao citar o profeta Joel, Pedro deixa bem claro: o fim já
começou há muito tempo.

A compreensão de que o pentecostes marca o tempo do fim e o fim dos tempos,
traz para nós duas aplicações. A primeira, é que somos chamados à vigilância,
pois o fim se abrevia, o tempo da nossa partida para chegarmos enfim à nossa
Canaã está cada dia mais próximo. A segunda é que devemos repreender todo
espírito de alvoroço e de confusão daqueles que querem conhecer os tempos e
épocas que Deus reservou para si. Com expectativa, mas sem ansiedade; com
certeza no coração, mas, sem confusão na mente. Desprezemos os cálculos, as
estimativas, as projeções e nos firmemos na certeza de que a Vinda do Senhor se
abrevia, visto que a igreja o aguarda desde o dia de pentecostes.

Foi o esperado acontecendo inesperadamente.

É muito interessante observar que Lucas diz no capítulo 1.4, que os discípulos
deveriam esperar em Jerusalém o tempo da promessa. Para no capítulo 2.2, falar
do de repente do Espírito Santo.

Eles esperavam mas não sabiam quando. Eles tinham a certeza, não a previsão.

O Espírito Santo não é companheiro de encontros programados, de horas marcadas
anunciadas em cartazes e divulgados em todos os lugares.

Ele vem quando não esperamos. E não vem da forma que esperamos.

Quem quiser andar com o Espírito tem que estar preparado para surpresas, para o
inesperado.

Ele nunca falha com as suas promessas, mas nunca fará o que nós esperamos nem
quando esperamos.

Foi o incontrolável sendo conduzido.

Quando o Espírito Santo vem ninguém se controla. Mas ele controla a todos.
Naquela hora ninguém escolheu nem determinou os seus atos. Mas ninguém estava
sem controle. O Espírito Santo controlava a todos. Era conforme o Espírito
Santo concedia. Ser cheio do Espírito Santo não é ser como um trem desgovernado
ou um avião sem piloto. Ser cheio do Espírito Santo é ser conduzido por ele que
na sua soberania faz o que quer quando quer e como quer.

Talvez, uma das passagens, mais mal interpretadas das Escrituras seja aquela de
II Coríntios 3.17, que diz: Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito
do Senhor, aí há liberdade. Se observarmos atentamente o contexto, o texto não
está falando de que a presença do Espírito Santo permite a cada um fazer o que
quiser, mas que a presença do Espírito Santo tira o véu da nossa face para que
possamos conhecer a Cristo.

Quando o Espírito Santo vem, perdemos o controle, mas não ficamos
descontrolados. Ele está soberanamente no controle.

Era o sobrenatural enchendo natural.

A experiência de ser visitado pelo Espírito Santo é a mais fascinante
experiência do ser humano. É ser invadido por uma alegria desmedida; é ser
tomado por um poder incomparável; é ser seduzido por uma glória irresistível, é
ser inundado por uma onda de amor jamais experimentado. É ser transformado para
sendo o mesmo nunca mais ser igual.

Naquele dia, foi isso o que aconteceu com aqueles homens e mulheres. Pedro
ainda era Pedro, mas já não era o que foi. O medo deu lugar a coragem. O rude
pescador era o grande pregador.

O Espírito Santo deu àqueles homens a estatura que não tinham e os projetou a
dimensão que nunca sonharam.

Pelo poder do Espírito, revolucionaram o mundo, transformaram o mundo.

Conclusão:

Como muito bem apontou John Stott, o Pentecostes é um evento único e
irrepetível, como foi o nascimento, morte e ressurreição de Cristo, mas os seus
efeitos são permanentes.
Podemos crer que assim como a promessa do Espírito se cumpriu dando início aos
últimos dias, podemos crer e esperar a vinda de Cristo no grande e glorioso
dia.
Podemos ainda hoje, crer que a qualquer momento Ele pode vir sobre nós e nos
encher do seu poder e glória.
Podemos crer, que Ele na sua soberania fará em nós conforme lhe apraz. Nunca
saberemos como e quando. Pode ser na cozinha lavando a louça, pode ser no
trânsito dirigindo o carro, pode ser no quarto orando, pode ser na igreja
louvando.
Nunca saberemos como será, mas de uma coisa nós sabemos, será maravilhoso.
Finalmente, podemos crer, que a despeito das nossas limitações. O finito é
tomado pelo infinito; que o temporário é tomado pelo que é perene; que o fraco
é invadido pelo Todo-poderoso; o tangível pelo intangível; o imanente pelo
transcendente; o mortal pelo imortal; o visível pelo invisível; o contaminado
pelo incontaminado e que é Santo, Santo, Santo; o pó e a cinza pelo eternamente
glorioso e sublime. Podemos crer, que eu, que você, que nós, podemos ser tão
cheios do Espírito Santo a ponto de transbordar continuamente como foram os
discípulos. Pois Deus não nos dá o Espírito com limitações.

Glória ao Pai, Glória ao Filho, Glória ao Espírito Santo.

Amém, amém, amém.

Parte
XXVII
Eu
tenho o Espírito Santo ou é Ele quem me tem?
Comentário sobre a parte nove (O Espírito Santo – pp.343-365) do
livro Introdução à Teologia Sistemática, de Millard J. Erickson (1ª Ed.
Trad. Lucy Yamakami. São
Paulo: Vida Nova, 1997)

INTRODUÇÃO

Falar sobre o Espírito Santo é falar sobre nós, pois, só Ele pode nos ajudar em
entendermo-nos. Assim, Antropologia é melhor compreendida quando precedida pela
Pneumatologia. Quem é o Espírito Santo? O que é Ele? Para que foi Ele enviado
por Cristo Jesus? Espero que este estudo nos auxilie a começarmos uma boa
conversa sobre o assunto.

I. A PESSOA DO ESPÍRITO SANTO

Erickson afirma que a criação, a providência e a provisão da salvação são as
obras objetivas de Deus. Mas, existe também a obra subjetiva de Deus, que é a
aplicação de sua obra salvadora divina aos homens. E é aqui que entra “a Pessoa
do Espírito Santo”, pois esta obra é feita “de dentro para fora” no ser humano,
partindo do princípio que Jesus Cristo fez a obra externa.
Millard J. Erickson comenta que outra maneira de encarar o estudo de teologia
sistemática é ver as obras dos diferentes membros da Trindade separadamente!
Por exemplo, o Pai é destacado nas obras da criação e da providência, o Filho
efetivou a redenção à humanidade pecadora e o Espírito Santo aplica essa obra
redentora à criatura de Deus, tornando, dessa forma, real a salvação.

1. A Importância da Doutrina do Espírito Santo

A doutrina do Espírito Santo, assim, é vista com muita relevância por Erickson.
Na realidade, para ele, o Espírito Santo é o ponto em que a Trindade torna-se
pessoal para o que crê. O Espírito Santo é a pessoa específica da Trindade por
meio de quem toda a Divindade Triúna atua em nós. E isto, porque vivemos no
período em que a obra do Espírito Santo é mais proeminente que a dos outros
membros da Trindade. Não que o Pai e o Filho não estejam atuando enquanto o
Espírito Santo atua, mas sim que, as duas Pessoas estão hoje agindo através da
Terceira, assim como nos períodos anteriores a este, onde Filho e Espírito
atuavam através do Pai, depois Pai e Espírito agiram através do Filho. Se
quisermos, portanto, estar em contato com Deus hoje, precisamos estar à par da
atividade do Espírito Santo.
Vê-se também a importância do estudo sobre o Espírito Santo, porque, segundo
Erickson, a cultura atual dá muito valor à experiência, e é principalmente por
meio dele que experimentamos Deus! Desta maneira, é vital que entendamos o
Espírito Santo.

2. Dificuldades na Compreensão do Espírito Santo

Millard J. Erickson, sobre este assunto, assevera que, embora o estudo do
Espírito Santo seja especialmente importante, nossa compreensão é em geral mais
incompleta e confusa nesse ponto que na maioria das outras doutrinas. E isto
devido a que temos na Bíblia menos revelações explícitas acerca do Espírito
Santo do que encontramos acerca do Pai e do Filho, isto é, não há discussões
sistemáticas acerca do Espírito Santo.

Outra dificuldade é a falta de um quadro concreto de figuras. Deus Pai é
compreendido de forma bem razoável, por causa da figura do pai que é familiar a
todos. O Filho não é de difícil conceituação porque realmente apareceu em forma
humana. Mas, o Espírito é intangível e difícil de visualizar. Erickson comenta
até que há uma terminologia infeliz da King James e de outras traduções
inglesas mais antigas que se referem ao Espírito Santo como “Holy Ghost”
(Fantasma Santo). Isto, na verdade, leva-nos mais a pensar em alguma coisa por
baixo de um lençol branco.

Durante a era presente, o Espírito exerce um ministério de servir ao Pai e ao
Filho, mas, isto não nos deve levar à conclusão de que também existe uma
inferioridade em essência. O Espírito Santo não é inferior ao Pai e ao Filho,
como dizem as teologias denominadas por Erickson de “não-oficial”. Este erro é
semelhante ao dos arianos. Aqui há uma questão não de diminuição, de
inferiorização por ser o Espírito enviado para servir o Pai e o Filho, mas sim,
uma questão de “processão”, de haver Ele partido de “alguém” ou de “algo”.

Uma questão bem lembrada por Erickson, é que também existe alguma relutância em
discutir sobre o Espírito, por medo de que tal discussão possa criar
dissensões. Por causa disto, muitos evitam totalmente tocar no assunto. Porém,
não cremos que um assunto possa se resolver sozinho, então, pode ser também
através da discussão – sadia, construtiva e não direcionada – que consigamos
chegar a um acordo!

3. A Natureza do Espírito Santo

a) A Divindade do Espírito Santo

A divindade do Espírito Santo, é comentada aqui, como uma questão que não se
estabelece com tanta facilidade quanto a do Pai e a do Filho. Mas, a conclusão
que se chega através da pesquisa Bíblica e experiencial é que o Espírito Santo
é Deus nos mesmos moldes e no mesmo grau do Pai e do Filho.
Alguns fatos que comprovam isto, são que: 1) As várias referências ao Espírito
Santo são intercambiáveis com referências a Deus (At. 5; I Co. 3:16; Ef. 6:19).
Para Paulo, ser habitado pelo Espírito Santo é ser habitado por Deus; 2) O
Espírito Santo possui os atributos ou as qualidades de Deus. Um deles é a
onisciência (I Co. 2:10-11). O poder do Espírito Santo também recebe tratamento
destacado no Novo Testamento (Lc. 1:35; Rm. 15:19). Ele tem poder que se
pressupõe ser exclusivo de Deus. Outro atributo do Espírito que o equipara ao
Pai e ao Filho é sua eternidade (Hb. 9:14); 3) Além de possuir qualidades
divinas, o Espírito Santo realiza certas obras que costumam ser atribuídas a
Deus. Um exemplo disto, é a Criação (Sl. 104:30). O testemunho bíblico mais
abundante acerca do papel do Espírito Santo diz respeito à sua obra espiritual
sobre os homens ou dentro deles. A exemplo, vemos a regeneração (comparar Gn.
2:7 com Jo. 3:5-8 e Jo. 20:22). O Espírito Santo também levantou Cristo da
morte e nos ressuscitará (Rm. 8:11); 4) A concessão das Escrituras é outra obra
divina do Espírito Santo (II Tm. 3:16; II Pe. 1:21); 5) A fórmula batismal na
Grande Comissão (Mt. 28:19), a benção apostólica (II Co. 13:13), a discussão
paulina dos dons espirituais (II Co. 12:4-6) e a saudação de Pedro (I Pe. 1:2).

b) A Personalidade do Espírito Santo

Além da divindade do Espírito Santo, é importante, como diz Erickson, também
notarmos sua personalidade. Não estamos aqui lidando com uma força impessoal,
ou talvez, como dizem os “Testemunhas de Jeová”, com uma “força ativa” de Deus!
O Espírito Santo é uma pessoa, aliás, é “a Pessoa” divina que habita em nós.
Uma das provas da personalidade de Deus é o uso do pronome masculino.
Referindo-se ao Espírito Santo, agora, a palavra grega pneuma (espírito) é
neutra, mas, em João 16:13,14, a descrição que Jesus faz do ministério do
Espírito Santo usa um pronome masculino onde se esperaria um pronome neutro.
Isto é um fato que prova que Jesus estava se referindo a uma pessoa, não a uma
coisa.

Outro fato importante de se lembrar é que o Espírito Santo é chamado de
parakletos (conselheiro, advogado), assim como Jesus também o foi (Jo.
14:16,26; 15:26; 16:7 e I Jo. 2:1). A palavra “outro” de João 14:16 é a
tradução do termo grego “allon” = outro da mesma espécie, e não do termo
“eteros” = outro de espécie diferente.

As associações mais interessantes do Espírito Santo com agentes pessoais são
aquelas em que ele é ligado ao Pai e ao Filho (Mt. 28:19; II Co. 13:13; I Pe.
1:2). Se imaginarmos o Espírito Santo como uma força impessoal apenas, não
seria então correto, diante dos contextos dos versículos aqui apresentados,
imaginarmos também o Pai e o Filho como forças impessoais? O Santo Espírito de
Deus possui características pessoais incontestáveis, isto é, ele tem
inteligência, vontade e emoções (Jo. 14:26; I Co. 12:11; Ef. 4:30). Seria
possível mentir ou entristecer a algo que seja impessoal? E ainda há o pecado
da blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt. 12:31; Mc. 3:29). Em Romanos 8:26,
com certeza, Paulo tem em mente uma pessoa! Conclui-se, então, que o Espírito
Santo é um ser consciente, não uma força, e tal ser é Deus, na mesma dimensão e
da mesma forma que o Pai e o Filho. Como canta-se no Hino 11 do Cantor Cristão
(Ao Deus Trino):

Tu, Deus, Espírito veraz
Oh! Nossas almas satisfaz
Com gozo, com divina paz
E as nossas aflições desfaz

4. Implicações da Doutrina do Espírito Santo

As implicações de tal doutrina, é apresentada por Erickson da seguinte forma:

a) O Espírito Santo é uma pessoa – Ele é alguém com quem podemos ter um
relacionamento pessoal, alguém a quem podemos e devemos orar;
b) Ele é plenamente divino – desta maneira, deve receber a mesma honra e
respeito que dispensamos ao Pai e ao Filho. É apropriado adorarmos a Ele, como
adoramos as outras duas Pessoas da Trindade;
c) O Espírito Santo é um com o Pai e o Filho – não há pontos de tensão entre as
três pessoas;

d) No Espírito Santo, o Deus Triúno chega perto de nós – tão perto que, de
fato, entra em cada pessoa que crê.

O Hino 185 da Harpa Cristã (Invocação e Louvor) diz:

Ao grande e trino Deus
Louvem os anjos Seus e nós também,
A Deus nosso Senhor: Pai, Filho e Condutor
Louvemos com fervor, pra sempre. Amém.

II. A OBRA DO ESPÍRITO SANTO

Erickson comenta que a obra do Espírito Santo é de especial interesse para os
cristãos, pois é particularmente por seu trabalho que Deus se envolve de forma
pessoal e atua na vida do crente.

1. A Obra do Espírito Santo no Antigo Testamento

Muitas vezes é difícil identificar o Espírito Santo dentro do Antigo
Testamento. E isto, devido ao fato que, Ele foi operativo, mas não evidente.
Aliás, o termo “Espírito Santo” é raramente empregado no A.T.. Na verdade, só
há três menções deste termo no A.T. (Is. 63:10,11 e em Sl. 51:11). Mas, não se
prova, com isto, que exista uma pessoa distinta. A expressão “Espírito de Deus”
bem poderia ser compreendida como uma simples referência à vontade, mente ou
atividade de Deus, é Deus em pessoa exercendo uma influência ativa, como diz J.
H. Raven (The history of the religion of Israel – Grand Rapids, Baker, 1979 –
p.164). Porém, o acontecimento de Pentecostes (At. 2), é o cumprimento da
profecia de Joel 2:28, conforme Erickson. Desta maneira, o “Espírito de Deus”
do A.T., para ele, é sinônimo de Espírito Santo, e não apenas uma atividade de
Deus.

Há várias áreas importantes de atuação do Espírito Santo nos tempos do A.T.
Alguns exemplos disto são: a) A Criação (Gn. 1:2); b) A transmissão das
profecias (II Pe. 1:21); c) A transmissão das Escrituras (II Tm. 3:16,17); d) A
transmissão de certas habilidades necessárias para várias tarefas (Êx. 31:3-5)
e por fim, e) A administração (Gn. 41:38).
Sua presença parecia limitada e específica a alguns, mas, no testemunho do A.T.

acerca do Espírito, existe um anúncio de uma época em que o ministério do
Espírito será mais completo. É uma promessa mais generalizada, que não se
restringe apenas ao Messias. Ela se encontra em Joel 2:28,29. No Pentecostes,
Pedro citou essa profecia, indicando que ela havia se cumprido. Assim, o que
ocorreu em Pentecostes, na verdade, não é um “segundo batismo” diferente do
anterior, mas sim, uma continuação da obra operativa do Espírito santo na vida
do crente. Não é a “vestimenta” do cristão, pois assim que o fiel aceita a
Jesus Cristo como único e suficiente Salvador, já está vestido com o Espírito
Santo (Jo. 20:22)! Assim sendo, o Dom Pentecostal é melhor visto como um
“revestimento” (Lc. 24:49).

2. A Obra do Espírito Santo na Vida de Jesus

Quanto a este assunto, Erickson assevera que quando examinamos a vida de Jesus,
descobrimos uma presença e atividade maciça e poderosa do Espírito Santo em
toda sua extensão. Mesmo o próprio início de sua existência encarnada foi obra
do Espírito Santo (Lc. 1:35). Já João salientou que, em contraste com seu
próprio batismo, realizado apenas com água, Jesus batizaria com o Espírito
Santo (Mc. 1:8).

Desta forma, o Espírito Santo está presente, também, de um modo marcante logo
no início do ministério público de Jesus, e isto, em referência à Sua descida
perceptível sobre o Cristo (Mt. 3:16). Devido a este fenômeno, diz a Bíblia que
Jesus ficou “cheio do Espírito Santo” (Lc. 4:1). Até no ato de conduzir Jesus
ao deserto, para ser tentado, é descrito como ação do Espírito Santo (Mc.
1:12). Erickson comenta até mesmo que isto é uma prova que a presença do
Espírito Santo na vida de Jesus o conduz a um conflito direto e imediato com as
forças do mal, e a antítese entre o Espírito Santo e o mal no mundo precisa vir
à tona.

Na verdade, todo o ministério de Jesus foi conduzido no poder e pela direção do
Espírito Santo (Mt. 12:25-28). Aliás, toda a vida de Jesus, nesse sentido, era
“no Espírito Santo” (Lc. 10:17,21).
O que nos fica como ensinamento, enfim, da obra do Espírito Santo na vida de
Jesus, é que a sua presença não é um fenômeno crescente, como se a cada dia
tivéssemos mais dEle em nós, mas sim que, a cada momento, recebemos provas
crescentes da presença do Espírito de Deus.

3. A Obra do Espírito Santo na Vida do Cristão

a) O Início da Vida Cristã

No ensinamento de Jesus encontramos uma ênfase especialmente forte na obra do
Espírito Santo na introdução das pessoas na vida cristã. Assim, o batismo nas
águas simboliza o princípio da vida no convívio cristão da Igreja, enquanto a
recepção do Dom Pentecostal (o batismo Pentecostal) é o símbolo do princípio da
vida carismática do cristão.

É claro que é certo que a obra principal do Espírito Santo é o ato de convencer
o ser humano do pecado da justiça e do juízo (Jo. 16:8-11). Na verdade, sem
essa obra do Espírito Santo, não pode haver conversão. Mas também é certo que a
presença do Espírito Santo na vida do crente não é uma presença estática,
cristalizada. Desta forma, a regeneração é a transformação miraculosa do
indivíduo e a instalação da energia espiritual (aqui o cristão está vestido de
poder), porém, a obra do Espírito continua, levando o cristão a convicções
sobrenaturais através de experiências sobrenaturais (isto é revestimento de
poder).

b) A Continuação da Vida Cristã

A Obra do Espírito, então, também é dar poder ao que crê (Jo. 14:12; At.
1:4,5), ensinar (Jo. 14:26), interceder (Rm. 8:26,27), santificar (Gl. 5:22,23)
e dar dons especiais aos crentes dentro do corpo de Cristo (I Co. 12:4-11).
Dentre os dons especiais, os mais mencionados entre os pentecostais são o de
cura, a expulsão de demônios e, em especial, a glossolalia, ou falar em
línguas. A questão que perdura diante de alguns estudiosos é se estes dons,
principalmente o último, foram exercidos no período apostólico somente ou se
continuam até hoje!

A grande explosão do pentecostalismo, historicamente falando, ocorreu nas
reuniões organizadas por um pregador negro chamado William J. Seymour. Essas
reuniões eram realizadas numa antiga igreja metodista localizada na Rua Azuza,
312, em Los Angeles.
É importante frisar, neste ponto, como Erickson fez, a distinção na maneira de
se exercer os dons carismáticos entre pentecostalismo e o neo-pentecostalismo.
Os grupos mais tradicionais fazem uso dos dons com mais reserva, são dons
usados em momentos particulares, enquanto os neo-pentecostais vêm este fenômeno
como um meio de atrair os não crentes, por isto, os dons são usados
abertamente, em público, sem reservas.

A glossolalia, por exemplo, é vista como um Dom vitalizante na vida de oração
do indivíduo, e a proibição de sua prática, não é encontrada em parte alguma
das Escrituras. Aliás, o próprio Paulo sentia-se feliz por falar mais em
línguas do que os outros cristãos de sua época (I Co. 14:18).

Porém, algo que ainda está se cogitando, é o fato deste Dom aparecer também em
outras religiões. Mas, creio que a “contrafação” é um ardil antigo de Satanás,
e é exatamente por isso que um dos dons especiais do Espírito em I Coríntios
12, é o de “discernimento de espíritos”!

A psicologia também entrou neste assunto dizendo que isto pode ocorrer através
de catarses, mas, se assim for, então, Paulo, Pedro, etc. estavam passando por
uma lavagem cerebral?
Erickson, assim, interpreta este fenômeno como o ato de ser “cheio do Espírito
Santo”. Porém, em nenhuma parte da Escritura, vê-se uma ordem especifica da
obrigatoriedade de sermos batizados no Espírito Santo ou pelo Espírito Santo.
Pelo que Erickson julga, diante disto tudo, que não tem certeza se os fenômenos
ocorridos atualmente, são realmente dons do Espírito Santo. Contudo, mesmo que
a história prove que o Dom de línguas cessou, segundo Erickson, não há nada que
impeça Deus de restabelecê-lo. E este Dom, na verdade, não é uma questão de
termos mais do Espírito Santo de Deus em nós, pois todos nós possuímos o
Espírito em sua totalidade. Trata-se, antes, de uma questão de Ele possuir uma
fatia maior da nossa vida.

III. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Enfim, temos que ter em mente que mais importante que receber certos dons é o
desenvolvimento do fruto do Espírito em nossas vidas. Conforme Paulo, é através
do fruto, e não dos dons, que temos a verdadeira prova de que o Espírito está
atuando nos cristãos.
Não devemos, assim, nos apressarmos para julgar nem uma das duas partes, mas
sim, devemos tomar uma postura cônscia e bíblica diante deste fato!

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