Apostila 18

Estudando sobre a
Igreja

CONSAGRADO PARA
CUIDAR

Parte I

O capítulo 8 de
Levítico é o cumprimento da ordem dada em Êxodo 29 em relação à consagração dos
sacerdotes (cohanim), Arão e seus filhos, dada por Moisés, o libertador e líder
do povo de Israel. É um ato de extrema seriedade que descreve, de modo gráfico
a responsabilidade dos consagrandos, que eram os guardiães espirituais do povo
de Deus.

Deste ato distante de nós cerca de 3.300 anos, desejamos extrair lições para o
ministro do século 21, tarefa esta do intérprete da Bíblia Sagrada.

O Ato de Consagração

O ritual é um sacrifício de comunhão com a função especial de consagrar. A
cerimônia pode ser dividida em quatro partes:

vv. 1-13
Purificação, Vestidura, Unção dos Consagrandos
vv. 14-17
Oferta pelo pecado dos Sacerdotes
vv. 18-21
Oferta queimada
vv. 22-36
Oferta de paz
Uma análise da liturgia nos mostra em primeiro lugar o oferecimento de uma
oferta pelo pecado, que seria totalmente consumida de acordo com as instruções
do capítulo 4 do mesmo livro; e o oferecimento de dois carneiros. O primeiro
seria oferecido em holocausto, de acordo com o capítulo 1. O segundo, porém tem
uma parte especialíssima na cerimônia, razão porque é chamado de “o
carneiro da consagração”, conforme o verso 22 deste capítulo 8.

Lê-se no verso 23 que houve aplicação do seu sangue a algumas partes do corpo
dos consagrandos. Este sangue foi usado para trazer Arão e seus filhos a um
estado sem igual de santidade.

O restante do sangue será jogado ao redor do altar, estabelecendo com este ato
um relacionamento especial entre o altar, símbolo do ministério, e os
ordenandos, agentes desse ministério.

As partes do corpo tocadas pelo sangue são orelha, mão e pé. Esse toque pelo
sangue lava-os e dedica-os simbolicamente ao Senhor. Quer também dizer que o
ministro de Deus ouvirá e obedecerá, e suas mãos e pés servirão ao Senhor.

As lições são extraordinárias:

O OUVIR (v. 23)

O ministro de Deus há de ouvir corretamente. Referimo-nos à conversação
pastoral, chamada por alguns de Clínica Pastoral no gabinete, na visitação ou
informalmente. Não a confunda, porém, com aquilo que jocosamente chamam de
“papoterapia”.

Como ministro de Deus e da Igreja de Jesus Cristo, você deve conhecer
exatamente o papel que lhe corresponde. Não será um profissional da psicologia,
da psicanálise ou das variadas terapias oferecidas à clientela. E, no entanto,
seu ministério de ouvir é comparável ao do psicoterapeuta, do conselheiro
matrimonial, ou do psicólogo. Muito de seu trabalho tem a ver com
ouvir-e-aconselhar. Entretanto, você não receberá honorários pelo
aconselhamento, nem fará contrato de trabalho para isso. Você é um ministro de
Deus e será procurado não por um paciente ou cliente, mas por uma ovelha sua, ou
um semelhante seu que precisa de ajuda.

Há quem apenas deseja falar, conversar; dê ouvidos, pois para isso sua orelha
foi ungida. Há quem queira injeções de otimismo cristão, de esperança. Há quem
tenha sérios sentimentos de culpa, de rejeição. Há quem precise ser
confrontado. Uma coisa, porém, é certa: você tem autoridade dada por Deus e
pela igreja que o chamou para dar esse conselho, essa exortação ou esse
confronto.

O ministro de Deus deve ouvir corretamente. Assim, você precisa ouvir o que
está por trás das palavras. Palavras ditas, palavras não ditas, e palavras em
suspenso. Talvez os lábios digam algo, mas a expressão facial, as mãos, a
expressão corporal digam outra. Você precisa “ouvir” corretamente os
sentimentos de quem está à sua frente.

Na Clínica Pastoral, ouça bastante antes de opinar. Leve a ovelha a falar; viva
a situação do outro. Você é chamado a um ministério de simpatia, de carinho, de
afeição e de amor. Sobretudo quando você é enérgico!

Desde que você começa a ouvir, está fazendo Psicoterapia Pastoral. Isso é
afirmado pelo Dr. Wayne Oates, autor ou co-autor de mais de quarenta livros e
por muitos anos professor de Aconselhamento Pastoral (Pastoral Care), no The
Southern Baptist Theological Seminary em Louisville. Você é visto dentro de um
esquema todo especial: há um significado simbólico em você como ministro de
Deus. O pastor, por exemplo, é um ponto de referência na igreja para o povo de
Deus. Ele simboliza e representa a comunidade cristã, e é agente dessa
comunidade de Cristo, de Deus.

Há muita esperança quando alguém procura o pastor. Por essa razão, é terrível,
medonho mesmo, quando as palavras do pastor são divinas, mas seus hábitos de
vida contradizem essa dimensão… Você representa e simboliza muito mais do que
você mesmo: você representa o Pai, você leva a palavra de Cristo e o faz sob a
direção do Espírito Santo. Quem vai ao seu gabinete espera e deve sair
abençoado. Você vai ouvir confissões, vai ouvir palavras de arrependimento. Mas
não pressione: ajude no processo de crescimento.

O TOCAR (v. 23)

O ministro de Deus é ungido na mão para tocar vidas. Estamos nos referindo,
então, à influência. Você vai tocar muitas vidas e deve fazê-lo com cuidado e
leveza.

Use suas mãos para abençoar a criança, o jovem, o adulto, o idoso. E faça-o com
carinho. Leve-os à consciência do santo, lembrando ao crente em Jesus Cristo
que a rigor, para o povo de Deus, não existem espaços separados, compartimentos
estanques entre o secular e o religioso, o sagrado e o profano, pois a vida pública,
social, civil do crente em Jesus Cristo há de ser normatizada pelo senso do
santo.

Leve-os ao senso da providência, à fé, à gratidão, ao arrependimento, à
comunhão, à vocação. Você há de tocar vidas; há de xer com as emoções das
pessoas: raiva, medo, alegria. Você vai lidar com almas enfermas. São doenças
do comportamento, mazelas do espírito, enfermidades psicossomáticas.

Você terá um ministério a desempenhar nas crises. Crise é qualquer
acontecimento que ameace o bem-estar de uma pessoa, e interfira na sua rotina
de vida. O nascimento de uma criança, a morte de um parente, o fim de um
casamento, o desemprego, a aposentadoria são crises . Você há de entrar em
contato e reduzir a ansiedade, encorajando a pessoa a agir. Lembre-se de que
cada situação de crise é única, sem igual. Ou como o povo diz, “Cada caso
é um caso”.

Você há de tocar vidas em diferentes níveis de cuidado pastoral: o Nível da
Amizade; o Nível do Conforto; o Nível da Confissão, o Nível do Ensino e o Nível
do Aconselhamento e Psicoterapia. Devo estas classificações ao Dr. Oates. Há
pessoas aflitas que necessitam de apoio; há aqueles enfrentando a morte que
precisam do poder espiritual que o pastor representa; há pessoas com
enfermidades crônicas; há deficientes físicos; há famílias com filhos com
déficit mental; há os deprimidos e os desapontados com o amor ou outra causa.
Todos estes estão no Nível de Conforto. Há o jovem solteiro, os jovens casados,
o adulto de meia-idade, a viúva, a mãe solteira, o
separado/desquitado/divorciado, o hospitalizado, todos em diferentes níveis do
seu cuidado pastoral.

O ANDAR (v. 23)

O ministro de Deus é ungido no pé para andar santamente. Estamos falando de
ética. Para isso, necessária é a ajuda do Espírito Santo. Se você não tem a
ajuda do Espírito de Deus para crescer na graça e na maturidade, vai ser
difícil entender a Bíblia, impossível aplicá-la às vidas, será um problema
conviver com as ovelhas, e terrível dominar atitudes internas.

Mais do que nunca, é preciso ser imitador de Cristo. Para sê-lo, porém, é
preciso andar no Espírito, andar santamente. E andar santamente exige análise
freqüente de nós mesmos, submissão do eu a Deus, e plenitude do Espírito Santo,
que é o Seu controle em nossas vidas.

Você há de visitar. Irá a muitos lugares e lares. Há dois tipos de visitas: as
regulares e as de emergência. Não visite só nas crises: você precisa visitar o
seu rebanho em tempos de paz. Seja ético, então, quanto ao que ouve, vê e
aconselha.

CONCLUSÃO

O final da narração de Levítico 8 registra a obediência dos consagrandos, Arão
e filhos. Isso nos ensina que consagração é entrega absoluta marcada pela
obediência irrestrita às ordens de Deus.

Nossa oração é que nosso ministério seja pontuado agora, hoje, sempre pela
disciplina, obediência, entrega e consagração total àquele que é o Mestre de
nossas vidas, Senhor do nosso futuro, Salvador de nosso ser.

A Catedral

Uma catedral para a honra e a glória
de nosso Senhor Jesus Cristo
se constrói momento a momento
à medida que uma mão se estende
e toca outra mão
com amor humano,
e à medida que um coração responde
em amor a outro coração
capacitado pelo Espírito Santo
para anelar, escutar, elevar
e amar-nos uns aos outros.
Para que todos, em todo lugar
possamos oferecer outros dons
que Deus nos tem dado:
Integridade nas relações,
Alegria e paz na fidelidade,
Fortaleza para fazer por meio da igreja,
Mais do que pedimos ou imaginamos.

Margaret Shannon

Parte II
LEVANDO A
SÉRIO A CEIA DO SENHOR
“Porque eu
recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em
que foi traído, tomou o pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o
meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também,
depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto do meu
sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque
todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando
a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do pão, ou
beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do
Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim como do pão e beba do
cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se
não discernir o corpo do Senhor” (1Co 11.23-29).

A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente
e cheio de certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa
linguagem silenciosa porém plena de energia. Temos o pão e o vinho, elementos
simples, porém altamente destacados nesta celebração. E nesta simplicidade, ela
se torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o povo de
Deus. Quando levamos a sério a celebração da Ceia do Senhor, usamos de
determinadas linguagens:

A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25)

Paulo diz isso: “Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice,
dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes
que o beberdes, em memória de mim”, ou seja, “para que pensem
novamente em mim.”

A presença de Jesus Cristo é algo extraordinário na vida cristã. Pela
inspiração do Espírito de Deus, até mesmo a escolha de certas palavras tem o
seu lugar na Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma filigrana lingüística: na
língua hebraica, a palavra que significa “manifestação de Deus, presença
divina” é shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada
vez que a glória do Senhor se manifestava no meio do povo de Israel, fosse no
deserto, em Canaã, ou nas grandes batalhas, sempre era celebrada a manifestação
da shekinah divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19).

Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu nome, ele
disse “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade”; a palavra grega utilizada não é do hebraico: é grega, tem outra
origem. O impressionante, no entanto, é que o vocábulo utilizado por João para
dizer, “o Verbo habitou, marcou presença, manifestou-se entre nós”, é
a palavra grega que diz skinê. Percebam o som do hebraico sh ki nah e do grego
s ki nê. As duas palavras têm praticamente o mesmo radical. Coincidência, ou
vontade de Deus que as palavras assemelhadas fossem usadas pelo escritor
sagrado?

Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a Ceia
do Senhor é celebrada por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas ordenanças,
e somente duas: o Batismo e a Ceia Memorial. São ordenanças sem qualquer
benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo salva por Jesus
Cristo, na verdade não precisa, para acrescentar algum valor maior à salvação,
do Batismo. O malfeitor da cruz não precisou se batizar, mas já estava com
Jesus Cristo no paraíso após a crueldade daquele momento.

A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do Senhor,
fazemos algo pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo Senhor, porque
estamos pregando o Seu sacrifício para a salvação de todo aquele que crê.
Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos, que é o corpo de Jesus
Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o cálice, dizemos que o sangue
de Jesus Cristo foi derramado por nós. Estamos pregando a mensagem de
livramento de redenção para todo o que crê!

Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que nos
lembremos de quem somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e aonde
estamos indo. Quando nosso país joga na Copa, os memoriais brasileiros se
apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo desfraldada. E não
existe sentimento maior, e quem já passou por isso o sabe, que estar num outro
país, e se emocionar com o verde-amarelo tremulando nos mastros com outras
bandeiras. Isso se chama filia, o amor cívico, patriótico. Não é doença, não: é
patriotismo mesmo!

Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria, logo
lembramos do Dois de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de amor
conjugal, lembramos a aliança. Com certeza: precisamos de memoriais. Temos que
lembrar da nossa indignidade e da beleza do perdão. Por essa razão, temos o memorial
da Ceia do Senhor. É isso o exatamente o que faz a Ceia do Senhor: ela nos
relembra o dom da vida através da morte de Jesus Cristo. Assim, quando nos
reunimos seriamente para celebrar este ato memorial, utilizamos a linguagem da
comemoração.

A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20)

Paulo disse: “Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos
ajuntais, não para melhor, mas para pior” (v. 17). Aconteceu,
infelizmente, com a igreja de Corinto, que se reuniu não para o melhor, mas
para o pior; reunia-se para a indignidade. Não confundamos as coisas: quando
falamos de comunhão, não estamos falando de encontro sobrenatural, místico; não
estamos dizendo que nos unimos a Jesus Cristo através do Nirvana, como querem
pregar as religiões orientais; não estamos tendo uma visão, não; não é
comunicação com um morto como querem ensinar por aí, não! A Palavra nos ensina
que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há comunhão física, ao se participar da
Ceia do Senhor, entre o homem pecador e o Deus perfeito, mas uma comunhão
espiritual, sem dúvida, pela lembrança de Cristo na cruz, se a levamos a sério.

Ao longo destes 39 anos de ministério da palavra e das ordenanças, ainda me
emociono quando participo da Ceia do Senhor! E cada vez que seguro o pão, e o
parto na frente dos irmãos, eu me emociono, porque me vem à mente que sou
indigno pecador, e que pela graça de Deus fui feito Seu filho! Lembro-me,
quando tomo a jarra de vinho, e derramo um pouco no cálice, de que fico com as
mãos trêmulas; são 39 anos celebrando a Ceia do Senhor praticamente mês a mês
(e houve época quando o fiz duas vezes no mês), mas ainda hoje tremo quando
tenho na minha memória e coração a cena de Jesus Cristo no Calvário, e o Seu
sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua testa, pela face, e pelo tronco da
cruz…

Sim; há uma comunhão espiritual pela lembrança de Cristo na cruz, e pela nossa
identificação com essa cruz: a minha cruz, não de Cristo, mas a minha cruz!

Há uma comunhão entre os crentes na Ceia Memorial, mas não é comunhão-de-cafezinho!
Por isso, Paulo está preocupado, e diz “Mas, se alguém quiser ser
contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus. Nisto,
porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para
melhor, mas para pior”.

Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja
estava seccionada por causa de trajes (capítulo 11)?! Havia divisões por causa
de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); E depois todos queriam se reunir para
“tomar cafezinho”?! A Ceia do Senhor não é para isso, porque a
tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos com a mesma
amargura e rancor com que entramos. A conduta dos irmãos de Corinto destruía o
propósito da igreja, e o propósito da Ceia! O que Paulo está enfatizando é a
harmonia da Ceia, a qualidade de vida espiritual, a unidade da igreja, e quando
celebramos com seriedade a Ceia, é isso o que estamos proclamando!

A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29)

Quando celebramos a Ceia usamos esse tipo de linguagem. “De modo que
qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será
culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e
assim coma do pão e beba do cálice”.

Interessante que a Ceia do Senhor não torna ninguém melhor: ninguém vai sair
melhor porque tomou a Ceia do Senhor. E, no entanto, há um paradoxo: o irmão
pode sair pior se tomou a Ceia do Senhor indignamente! É o que Paulo diz, por
essa razão é dever de cada um solene e seriamente examinar-se sobre quais são
os seus interesses e propósitos quando se aproxima da Mesa do Senhor. Veja bem
a seriedade de seus objetivos.

Estive lendo sobre os levitas e sacerdotes (Números 3 e 4). Fiquei arrepiado!
Que coisa impressionante a legislação, como eram as normas no acampamento de
Israel no deserto: somente podiam se aproximar dos móveis os sacerdotes, nem os
levitas que eram os seus auxiliares.

Quando havia necessidade de desmontar o tabernáculo para se transferirem para
outro lugar, os sacerdotes entravam, embalavam os móveis, com várias camadas de
tecidos (e de cores diferentes para mostrar o grau de santidade do objeto), e
depois que tudo era embalado, e ninguém via a forma do objeto, os levitas
pegavam o pacote e faziam o carregamento nos carros de boi para o transporte
pelo deserto. E sempre é lembrado o seguinte: “e o estranho que se chegar
será morto” (Nm 3.10, etc.).

Os levitas funcionavam, entre outros deveres, como guardas de segurança do
tabernáculo. A lei não era fácil: era marcial, lei de guerra! O
“estranho” não era o pagão, não; era o próprio povo de Israel. Só que
há uma diferença muito grande: na Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e
os outros, o “povão”! Na Igreja de Cristo fomos todos elevados ao
sacerdócio, por isso podemos nos aproximar dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas
tem uma coisa: se o irmão vier à Mesa do Senhor com as mãos sujas, “será
culpado do corpo e do sangue do Senhor” (1Co 11.27b)! O irmão não sai
melhor, mas pode sair pior do santuário. Quanto seriedade é exigida dos participantes?!

Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo poder
da ressurreição de Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer! É Jesus
realmente o alimento da minha alma? Sou eu um dos Seus, e sou eu um com os
Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com os outros crentes?
Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não conheço a Jesus Cristo, como
posso me lembrar dEle?

Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia deve fazer três
perguntas:
· Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado pelo Seu
sangue?
· Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu coração
está limpo, ou borrado, sujo?
· Que é que eu desejo? Quais os meus sonhos e visões, que almejo na Causa de
Jesus Cristo?

Não é sério? Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um
diálogo com a Ceia do Senhor, e, assim, que venhamos à mesa do Senhor em
espírito de comemoração porque essa é a linguagem que falamos agora, em
comunhão espiritual porque essa é a realidade que vivemos agora, e consagração
pessoal porque esse é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa vida sempre. E
lembrando, sobretudo, que a Ceia do Senhor não é um funeral (para que cara
triste?): a Ceia do Senhor é uma celebração de fé, de alegria, de esperança
porque nós olhamos para o dia da volta de nosso Senhor Jesus Cristo!

Parte III
O DIÁLOGO DA
CEIA DO SENHOR
Porque eu
recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em
que foi traído, tomou o pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o
meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também,
depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto do meu
sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque
todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando
a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do pão, ou
beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do
Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim como do pão e beba do
cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se
não discernir o corpo do Senhor” (1Co 11.23-29).
A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente
e cheio de certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa
linguagem silenciosa porém plena de energia. Temos o pão e temos o vinho,
elementos simples e destacados nesta celebração. E nesta simplicidade, ela se
torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o povo de
Deus.

A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25)

Paulo diz isso: “Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice,
dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes
que o beberdes, em memória de mim”, ou seja, “para que pensem
novamente em mim”.

É extraordinária a presença de Jesus Cristo na vida cristã. Pela inspiração do
Espírito de Deus, até mesmo a escolha de certas palavras tem o seu lugar na
Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma filigrana lingüística: na língua hebraica,
a palavra que significa “manifestação de Deus, presença divina” é
shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada vez que a
glória do Senhor se manifestava no meio do povo de Israel, fosse no deserto, em
Canaã, ou nas grandes batalhas, sempre era celebrada a manifestação da shekinah
divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19).

Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu nome, ele
disse “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade”; a palavra grega utilizada nada tem a ver com o hebraico: é outra
língua, outra origem, não tem a mesma categoria, inclusive lingüística. Pois
bem, a palavra que João utilizou para dizer “o Verbo habitou, marcou
presença, manifestou-se entre nós”, é a palavra grega que diz skinê.
Percebam o som do hebraico sh ki nah e do grego s ki nê. As duas palavras têm
praticamente o mesmo radical. Coincidência, ou vontade de Deus que as palavras
assemelhadas fossem usadas pelo escritor sagrado?

Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a Ceia
do Senhor é celebrada por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas ordenanças,
e somente duas: o Batismo e a Ceia Memorial. São ordenanças sem qualquer
benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo salva por Jesus
Cristo, na verdade não precisa do Batismo para acrescentar algum valor maior à
salvação. O malfeitor da cruz não precisou se batizar, mas já estava com Jesus
Cristo no paraíso após aquele momento cruel. Não é preciso, mas o batismo é um
ato de obediência: Jesus até foi batizado por João, e mandou que a Igreja
praticasse o batismo, o que fazemos como testemunho público do que Jesus Cristo
fez na nossa vida.

A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do
Senhor, fazemos algo pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo Senhor,
porque estamos pregando a Sua morte para a salvação de todo aquele que crê.
Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos, que é o corpo de Jesus
Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o cálice, dizemos que o sangue
de Jesus Cristo foi derramado por mim e por você, por nós. Estamos pregando a
mensagem de livramento de redenção para todo o que crê!

Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que nos
lembremos de quem somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e aonde
estamos indo. Quando nosso país joga na Copa, os memoriais brasileiros se
apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo desfraldada. E não
existe sentimento maior que estar em outro país, e se emocionar com o
verde-amarelo tremulando nos mastros com outras bandeiras. Isso se chama filia,
o amor cívico, patriótico.

Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria, logo
lembramos do Dois de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de amor
conjugal, lembramos a aliança.

Sem dúvida, precisamos de memoriais. Temos que lembrar da nossa indignidade e
da beleza do perdão. Por essa razão, temos o memorial da Ceia do Senhor. É isso
o exatamente o que faz a Ceia do Senhor: ela nos relembra o dom da vida através
da morte de Jesus Cristo. Assim, quando nos reunimos para a Ceia, ela utiliza a
linguagem da comemoração.

A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20)

Paulo disse: “Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos
ajuntais, não para melhor, mas para pior” (v. 17). Isso aconteceu,
infelizmente, com a igreja de Corinto, que se reunia para a indignidade. Que
coisa triste, reunirem-se os nossos irmãos para atos indignos!

Não confundamos as coisas: quando falamos de comunhão, não estamos falando de
encontro sobrenatural, místico; não estamos dizendo que nos unimos a Jesus
Cristo através do Nirvana, como querem pregar orientais; não estamos tendo uma
visão, não; não é comunicação com um morto como querem ensinar por aí, não!

É por esses erros todos que doutrinas estranhas surgiram ao longo da história
da Igreja Cristã. Como a transubstanciação, ensinando que no momento em que são
pronunciadas as palavras de instituição (“isso é o meu corpo” e
“isso é o meu sangue”) que tanto o pão quanto o vinho mudam a sua
substância, e as suas substâncias tornam-se, respectivamente, a da carne e do
sangue de Jesus Cristo! O Senhor tenha piedade! Isso não se encontra na
Escritura?! A comunhão com Cristo não necessita que a substância desses
elementos materiais seja mudada.
O Novo Testamento nos ensina que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há
comunhão física, ao se participar da Ceia do Senhor, entre o homem pecador e o
Deus perfeito, mas uma comunhão espiritual, sem dúvida, pela lembrança de
Cristo na cruz.

Ao longo destes quase quarenta anos de ministério da palavra e das ordenanças,
tenho me emocionado sempre que participo da Ceia Memorial! E cada vez que
seguro a côdea de pão, e o parto na frente dos participantes, eu me emociono,
porque me vem à mente que sou indigno pecador, e que pela graça de Deus fui
feito Seu filho! Lembro-me, quando tomo esta jarra de vinho, e derramo um pouco
no cálice, fico com as mãos trêmulas ainda; são 39 anos celebrando a Ceia do
Senhor praticamente mês a mês (e houve época quando o fiz duas vezes no mês),
mas ainda hoje tremo quando tenho na minha mente e coração a cena de Jesus
Cristo no Calvário, e o Seu sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua testa, pela
face, e pelo tronco da cruz… Sim; há uma comunhão espiritual pela lembrança
de Cristo na cruz, e pela nossa identificação com essa cruz: a minha cruz, não
de Cristo, mas a minha cruz!

Há uma comunhão entre os crentes, mas não é comunhão-de-cafezinho, porque a
Ceia do Senhor não é isso! Por isso, Paulo está preocupado, e diz “Mas, se
alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as
igrejas de Deus. Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos
ajuntais, não para melhor, mas para pior”. Terrível!

Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja
estava dividida por causa de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); havia
divisões por causa de trajes (capítulo 11)?! E depois todos queriam se reunir
para “tomar cafezinho”?! A Ceia do Senhor não é para isso, não!
Porque tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos de novo
com a mesma raiva e amargura do nosso irmão em Jesus Cristo! A conduta dos
irmãos de Corinto destruía o propósito da igreja, e o propósito da Ceia! O que
Paulo está enfatizando aqui é a harmonia da Ceia, a qualidade de vida
espiritual, é a unidade da igreja, e quando celebramos a Ceia, é isso o que
estamos dizendo!

A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29)

Quando celebramos a Ceia usamos essa linguagem. “De modo que qualquer que
comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo
e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do
pão e beba do cálice”. Interessante que a Ceia do Senhor não torna ninguém
melhor. Na verdade, ninguém vai sair melhor porque tomou a Ceia do Senhor. E
agora o paradoxo: o irmão pode sair pior se tomou a Ceia do Senhor indignamente!
É o que Paulo diz, por essa razão é dever de cada um solene e seriamente
examinar-se sobre quais são os seus interesses em Jesus Cristo. Você participou
da Ceia só porque os outros iam ver, e você ia ficar com vergonha se ficasse
sentado e não participasse? Quais são seus propósitos quando se aproxima da
Mesa do Senhor?

Estive lendo sobre a congregação dos levitas e sacerdotes (Números 3 e 4).
Fiquei arrepiado! Que coisa impressionante a legislação, como eram as normas no
acampamento de Israel no deserto: somente podiam se aproximar dos móveis os
sacerdotes, nem os levitas quer eram os seus auxiliares. Quando havia
necessidade de desmontar o tabernáculo para ir para outro lugar, os sacerdotes
entravam, embalavam os móveis, com várias camadas de tecidos (e de cores
diferentes para mostrar o grau de santidade do objeto), e depois que tudo era
embalado, e ninguém via a forma do objeto, os levitas pegavam o pacote e faziam
o carregamento nos carros de boi para o transporte pelo deserto. E sempre é lembrado
o seguinte: “e o estranho que se chegar será morto” (Nm 3.10, etc.).
Os levitas funcionavam, entre outros deveres, como guardas de segurança do
tabernáculo.

A lei não era fácil: era marcial, lei de guerra! O “estranho” não era
o pagão, não; era o próprio povo de Israel. Só que há uma diferença muito
grande: na Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e os outros, o
“povão”! Na Igreja de Cristo fomos todos elevados ao sacerdócio, por
isso podemos nos aproximar dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas tem uma coisa:
se o irmão vier à Mesa do Senhor com as mãos sujas, “será culpado do corpo
e do sangue do Senhor” (1Co 11.27b)! O irmão não sai melhor, mas pode sair
pior do santuário.

Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo poder
da ressurreição de Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer! É Jesus
realmente o alimento da minha alma? Sou eu um dos Seus, e sou eu um com os
Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com os outros crentes?
Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não conheço a Jesus Cristo, como
posso me lembrar dEle?

Por isso que Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia deve
fazer três perguntas:
· Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado pelo Seu
sangue?
· Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu coração
está limpo, ou borrado, sujo? · Que é que eu desejo? Quais os meus sonhos e
visões, que almejo na Causa de Jesus Cristo?

Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um diálogo com a
Ceia do Senhor, e, assim, que venhamos à mesa do Senhor em espírito de
comemoração porque essa é a linguagem que falamos agora, em comunhão espiritual
porque essa é a realidade que vivemos agora, e consagração pessoal porque esse
é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa vida sempre. E lembrando, sobretudo,
que a Ceia do Senhor não é um funeral (para que cara triste?): a Ceia do Senhor
é uma celebração de fé, de alegria, de esperança porque nós olhamos para aquele
dia! Que o Senhor nos ajude e abençoe!

Patte IV
VESTIMENTA
NA IGREJA
Introdução:
“Nesta casa não tem moda, tem recato”. Faço minhas as palavras da
personagem de Tarcísio Meira na série Um só Coração, da Rede Globo, para
asseverar a minha convicção espiritual em relação a vestimenta do cristão
verdadeiro, pois creio que na igreja de Jesus Cristo não deve existir a
preocupação exagerada com a moda, mas sim com o recato e o decoro que devem ser
peculiares aos santos.
Há algum tempo
temos alertado a igreja sobre esta questão, mas parece que não temos sido
bem-sucedido nestes alertas, razão pela qual decidimos tratar francamente deste
assunto com toda a igreja.

Não pretendemos desenvolver um tratado teológico sobre o tema e nem desejamos
agir com rigorismo em termos de usos e costumes. Apenas desejamos apresentar
aos irmãos textos bíblicos que devem nortear a nossa experiência de fé e de
vida cristã, causando transformações radicais em nossas mentes, transformações
essas que nos atribuam redobrada autoridade espiritual e testemunhal diante
desta geração corrompida e perversa em que vivemos.

Há uma monumental investida contra a moralidade do ser humano, que se reflete
na vestimenta. Seja em nome da moda, da liberação feminina, do tropicalismo, da
quebra dos paradigmas, dos regionalismos ou da libertinagem e do hedonismo
peculiar a pós-modernidade. Não importa a razão, as pessoas estão cada vez mais
nuas. Aquelas que insistem em se vestir bem e com decoro, parece que estão
ilhadas, ou seja, cercadas de pessoas nuas por todos os lados.

O trágico é reconhecer que esta nudez desenfreada chegou à igreja. Chegou para
ficar e se estabelecer como referencial de comportamento cristão, o que é
absurdo. Porém, em nome de Jesus, mesmo sob a pecha de radical, de retrógrado,
de antiquado ou de autoritário, pretendemos persistir no combate desta
maldição, bem como no combate de toda a sorte de malignidade que tenta
corromper os parâmetros de Deus para a santidade do cristão, permanecendo fiel
a Cristo e a convicção ministerial que temos de que a igreja brasileira
necessita urgentemente experimentar um avivamento de santidade.

Vejamos no Texto Sagrado alguns ensinamentos bem objetivos sobre a vestimenta
do povo de Deus.

Inicialmente, vejamos algo sobre…

1. A primeira roupa – Gênesis 3.21:

Vemos que o primeiro a apresentar a preocupação com a vestimenta do ser humano
foi o próprio Deus.

Tais vestimentas são precursoras de muitas outras medidas adotadas por Deus,
relacionadas a moral e aos bons costumes, visando o bem-estar físico, social e
espiritual da humanidade. Medidas que se tornaram necessárias por causa da
corrupção imposta pelo pecado à natureza humana.

Nos versos 10 e 11 de Gênesis 3 o homem alega medo de Deus devido a sua nudez.
A nudez neste contexto representa a consciência da corrupção, da quebra de um
padrão estabelecido por Deus. O homem foi criado em santidade e a nudez não lhe
causava constrangimento diante do Criador. Mas depois do pecado, uma vez
quebrada a imagem e semelhança moral de Deus no homem, a nudez passou a ser
motivo de medo.

Desta referência concluímos que estar na presença de Deus consciente da nudez
imoral é afronta contra o Senhor. É pecado.

Pior ainda é a seminudez, que instiga e explora a sensualidade, provocando
pensamentos impuros e constrangimentos ao desnudo.

Devemos observar que mesmo sob maldição, em pecado, Deus não expulsou o homem
do Éden nu, para a desonra. Deus fez túnicas de peles, verso 21. Ou seja, roupa
que cobre tudo o que deve ser preservado e que indica parâmetros de moralidade
e de respeito entre serem humanos.

Em segundo lugar, vejamos algo sobre…

2. As roupas para a adoração – Êxodo 28.1-4:

Neste texto Deus exige roupas especiais, roupas de gala, para o sacerdote na
ministração do culto e da adoração.

Se a sua mente tenta justificar a não aplicação deste texto em sua vida, devo
ressaltar que a Palavra de Deus assevera que, a partir do sacrifício de Jesus,
com o rasgar do véu no templo, todos fomos feitos sacerdotes para Deus,
Apocalipse 1.6 e 1 Pedro 2.9.

Adoração é ato de culto. É reconhecimento do caráter divino e da santidade do
Deus objeto da adoração. Por esta razão, Deus exige roupas especiais para o ato
de culto verdadeiro.

O princípio que se encerra neste contexto bíblico é o de que as vestimentas que
usamos no ato de culto devem ser limpas, puras e santificadas, visto que nos
aproximaremos de Deus, que é santíssimo.

O conceito básico que estabelece os parâmetros da vestimenta sacerdotal é o de
que as roupas são como referencial de apresentação diante da glória de Deus e
para a glória do Deus que é adorado. A glória de Deus manifesta é símbolo real
e indiscutível da presença de Deus no culto ministrado diante dele e para ele.

Podemos verificar também os versos 31-35 e 39-43 de Êxodo 28, que fazem referência
aos paramentos e assessórios sacerdotais, destacando a preocupação de Deus até
com os calções, ou seja, com a roupa íntima do sacerdote, verso 42, indicando
que o cuidado de Deus vai além da roupa aparente.

Pensando ainda em roupas para a adoração, devemos observar ainda os ensinos de
Salmos 29.2 e 96.9. As afirmações destes versos, embora traduzidas como
“esplendor do seu santuário” ou “esplendor da sua
santidade”, ou ainda, como “beleza da sua santidade”, indicam,
em sua idéia mais remota, a luz do contexto geral da Bíblia, que devemos estar
bem vestidos, ou seja, trajados com decência, quando nos apresentamos diante do
Senhor para prestar-lhe culto. Não podemos estar na Casa de Deus com
vestimentas que não sejam expressão da nossa busca de santidade, que é o que
nos habilita a estarmos diante do Senhor em adoração, Hebreus 12.14.

Vale ressaltar que o Texto Sagrado alerta até mesmo aqueles que não são servos
de Deus e que não têm, por isso, uma experiência íntima com ele, a tomarem
cuidado com os seus trajes quando estiverem em uma situação que saibam que
estarão diante de Deus.

A realidade, amados, é que Deus requer decência de cada um de nós. Somos os
sacerdotes consagrados por ele e para ele. Deus requer moralidade na adoração e
na ministração dos cultos, bem como durante os cultos.

Vejamos em seguida algo sobre…

3. Roupas como sinal de reverência – 2 Reis 5.1-6:

Reverência tem a ver com a postura resultante da conscientização a que chegamos
em relação ao valor do outro.

Este texto mostra que Naamã ao se dirigir ao servo de Deus, desejando causar
boa impressão e agrada-lo, levou roupas finas e luxuosas, roupas de festa. Este
gesto de Naamã aponta para o reconhecimento da superioridade do profeta em
relação a ele e para o reconhecimento da soberania de Deus em relação a sua
vida e circunstância.

Naamã, o grande general, não entendia bem tudo o que estava acontecendo. Ficou
frustrado e aborrecido ao se sentir desprezado pelo profeta, bem como pelo fato
de o profeta não aceitar os seus presentes. Afinal, eram roupas especiais, com
aplicações em ouro, prata e cravejadas de pedras preciosas. Porém, o seu
coração ainda era obstinado e Deus conduziu o profeta para que, com aquela
atitude, Naamã fosse quebrantado, humilhado, curado e salvo.

Desta maravilhosa narrativa bíblica fica para nós a seguinte lição: não é
molambo, nem trapo velho encardido, nem modismo, nem roupas indecorosas ou
falta de roupa que se deve levar para a presença do Senhor ou do servo de Deus,
que o representa na ministração para as nossas vidas.

Devemos ter a consciência de que estamos diante do próprio Deus e que, por
isso, devemos estar bem trajados, levando o melhor possível, mesmo que com
roupas humildes e simples, mas com decência e decoro, mostrando que
reconhecemos a superioridade e a soberania de Deus, o Deus que está pronto a
nos quebrantar, a nos curar e ministrar salvação.

Vejamos ainda algo sobre…

4. Roupas como sinal de restauração – Lucas 15.21-22:

Neste texto identificamos duas questões importantes: O filho reconhecendo o seu
estado e admitindo a perda da condição de filho e o pai amoroso dando ao filho
pródigo, em seu retorno, roupas novas, sapatos e um anel. Vamos nos ater as
roupas.

A entrega de roupas novas para o filho, “a melhor roupa”, indica a
transformação de vida que o jovem experimentara. Os farrapos de uma vida
dissoluta e distanciada de Deus e dos parâmetros da moralidade devem ser
jogados fora e trocados por vestimentas novas, limpas e decentes.

Quando nos convertemos Deus nos honra e nos dá novas vestes, vestes
espirituais, que simbolizam a nossa restauração e a retomada da nossa condição
de filhos. Estas roupas novas simbolizam o perdão que nos foi outorgado,
servindo também como prova da nossa aceitação na casa do Pai, bem como da
restituição do nosso direito espiritual como herdeiros de Deus em Cristo.

Em Jesus não somos mais pessoas separadas de Deus, como que deserdadas por
causa do pecado. Em Cristo nos tornamos pessoas especiais, tendo regatado a
nossa posição espiritual como filhos de Deus, não podemos mais permanecer
maltrapilhos, desnudados ou vestidos de maneira indecorosa. A condição de
coitado, miserável e nu é para aqueles que serão vomitados pelo Senhor devido a
mornidão espiritual, Apocalipse 3.14-22, em especial osversos 16-18, e não para
os filhos que vivem em perfeita comunhão com o Pai.

Por fim, vejamos algo sobre…

5. O parâmetro de Deus para a vestimenta do cristão – 1 Timóteo 2.9-10:

Estes versos falam em trajes decorosos e sem luxúria como a vestimenta ideal
para o servo de Deus.

Mais uma vez a sua mente, principalmente a dos homens, pode estar tentando se
justificar dizendo que o ensinamento paulino não se aplica a você. Isso não é
verdade. A exigência de decoro e de moralidade na vestimenta é para mulheres e
homens ao mesmo tempo. O que comprova isso é o contexto geral do capítulo, em
especial o verso 8, que exige dos homens um alto padrão de santidade para a
oração.

Decoro é recato no comportamento e decência no vestir. Está relacionado com a
postura que adotamos para a vida. Luxúria é comportamento desregrado em relação
a sexualidade. É licenciosidade moral que denota a lascívia, que é pecado, e a
concupiscência, que é o desejo de pecar, do indivíduo. A luxúria se contrapõe
acirradamente ao decoro.

Em contrapartida, Deus exige dos seus filhos uma vestimenta decorosa e isenta
de qualquer sintoma de luxúria. Ou seja, Deus exige de nós um comportamento
recatado através do qual as pessoas percebam que estamos libertos do desejo de
pecar e que fomos restaurados em nossa moralidade, em nosso caráter, que é
agora santificado pela ação do Espírito Santo que em nós habita.

O termo traduzido por “traje decoroso”, utilizado por Paulo, no
original, ultrapassa a idéia de vestuário simplesmente. Paulo usa o termo para
fazer referência também a moralidade sexual que nos é exigida por Deus e que
deve se refletir em nossas roupas.

Nossas roupas indicam se temos maus ou bons costumes morais. A maneira como nos
vestimos ressaltam o valor moral que atribuímos ao nosso corpo diante de Deus.
O jeito como nos vestimos reflete a nossa consciência moral em termos de
sexualidade, bem como o nosso senso de preservação da nossa integridade moral.
A nossa roupa pode refletir o nosso caráter.

O que vestimos mostra o que esperamos que as pessoas pensem de nós em relação a
maneira como tratamos a nossa sexualidade. Se nos vestimos com luxúria as
pessoas poderão imaginar que somos licenciosos, ou seja, imorais. Se nos
vestimos com decoro, por certo as pessoas perceberão que nós nos honramos e que
lutamos para nos preservar em santidade diante de Deus. Isso é verdade desde
que não haja falsidade em nossos corações

A escolha não é muito difícil. Roupas sobrecarregadas de luxúria e de
sensualidade, que refletem lascívia e libertinagem imoral, ou roupa decorosa,
que reflete a sua compostura moral e espiritual. Lembre-se; suas roupas, por
certo, falarão mais alto do que as suas palavras em meio ao burburinho
esganiçado da promiscuidade na qual chafurda a nossa sociedade.

Conclusão:

Outros textos poderíamos estudar sobre o tema, tais como João 19.23-24, que
falam das roupas de boa qualidade, de valor e de discreta beleza usadas por
Jesus; Apocalipse 7.9-17, que fala da roupa dos mártires na glória, que eram as
mesmas vestes que usavam aqui na terra, pois não haverá tempo para trocar de
roupa antes de entramos no céu; e Apocalipse 16.15, que descreve o fato de
termos as roupas sempre à mão como sinal de preparo espiritual para o encontro
com Jesus, mas creio que já vimos o bastante para estabelecermos parâmetros
éticos para a nossa igreja, no que diz respeito a nossa vestimenta.

Talvez você esteja se perguntando: Onde se pretende chegar com este estudo? Ou
quem sabe você esta ruminando com os seus botões… “Já até sei qual vai
ser o resultado disso”. Não importa. Não nos preocupa nem mesmo o fato de
você pensar que este assunto não deveria ser tratado na igreja.

Mas devemos tratar destas questões na igreja sim, visto que imoralidade,
promiscuidade, lascívia, exploração da sensualidade na vestimenta e o
cinicamente chamado nu artístico são ações maléficas do diabo contra a natureza
humana e a sociedade. O resultado dessas estratégias diabólicas tem sido a
violência sexual contra as crianças, a gravidez na adolescência, a prostituição
desenfreada, a banalização do adultério, a aceitação parcimoniosa do divórcio
e, como decorrência, famílias destroçadas. O resultado da imoralidade no vestir
é uma sociedade corrompida, desigual e agonizante como percebemos a nossa. Será
mesmo que não temos razões que justificam estudar este tema?

Vale ressaltar ainda que este estudo, embora de cunho ético, é também
evangelístico. Pois apresenta o evangelho verdadeiro, sem ajustes humanos, sem
relativizações éticas e sem a tentativa de se fazer a vontade humana. Este
estudo apresenta o evangelho que é a luta por se fazer a vontade de Deus, que
nos quer santos para ele e santificadores pelo testemunho cristão autêntico. Se
você procura outro evangelho que não o de Jesus Cristo, bateu no estudo errado.
A igreja de Cristo não é o seu lugar.

Por fim, vamos
ao objetivo deste estudo que não é nada que a igreja já não saiba, pois em
diversas ocasiões manifestamos nossa posição bíblica sobre a questão da
vestimenta do cristão, como já dissemos neste estudo.

Uma vez realizado o estudo, nossa oração é para Deus, pelo Espírito Santo,
toque em nossas mentes e corações a fim de que mudemos radicalmente a maneira
de nos vestirmos. Não só na igreja, mas em casa, no trabalho, na escola, na
igreja, em fim, em todo o lugar onde estivermos e no nosso cotidiano.

Não é o pastor que manda. É Bíblia. É Palavra de Deus. Lógico que cabe ao
pastor a ministração da Palavra e a supervisão quanto a obediência aos
ensinamentos do Senhor. Por isso, de hoje em diante, devem ser estabelecidas
algumas regras bíblicas em relação a vestimenta que se usará para a
participação e para ministração nos cultos. Seria uma bênção se estas normas
fossem aplicadas pelos irmãos e irmãs de modo geral, pois o pastor não deve se
dar ao trabalho de vigiar ninguém. Deus há de restaurar e transformar a
consciência de cada um, visto que, como pastores, não podemos fazer o papel do
Espírito Santo no convencimento das pessoas.

Porém, no que diz respeito a utilização do púlpito, ao estar na frente para
ministrar o culto, para cantar, para declamar, para qualquer coisa, bem como
para se subir na plataforma para ministrar o louvor, o culto ou qualquer outra
participação, não se deve permitido blusas de alças (aquelas blusas que só tem
as alcinhas e mais nada), tomara que caia (que para os mais afoitos devia
chamar “pena que não caiu”), decote umbilical, no cóxi ou no
“rego”, e nem decotes meia-taça que projetam os seios para os olhos
incautos dos homens ávidos por aconchego ou mesmo dos desavisados… Haja unção
para olhar e não pecar.

Não mais se deve permitir o uso de mini-saia, micro-saia, vestidos curtos
(daqueles que vão só até a cabeça do fêmur) ou transparentes e translúcidos.
Não se deve ir para a igreja com calça de cós baixo (daqueles que ficam no
púbis) sem uma blusa ou camiseta que cubra os quadris, e nem com uma calça
comprida atarracada no corpo, na genitália ou no traseiro, por que estas não
são roupas adequadas para se estar na frente da congregação. Com roupas deste
tipo não se deve participar da ministração.

Seja para dirigir programa, para ministrar o culto ou o louvor. Seja para
apresentar visitantes, fazer anúncios, cantar, tocar, cantar em conjunto ou
pregar. Não importa. Diante da igreja, para ministrar na presença de Deus, não
se deve permitir mais uma vestimenta indecorosa, modismos exagerados e imorais,
ou mesmo roupas esculachadas, que não condizem com o padrão de Deus para a
vestimenta do salvo e nem com o testemunho cristão.

Diante de Deus e da congregação devemos estar bem trajados, demonstrando que
não temos mais os temores do pecado quanto a nossa nudez, e que estamos
devidamente vestidos para a adoração e em profunda e sincera reverência a Deus.

Isto por quê? Porque fomos restaurados por Deus da nossa natureza pecaminosa e
porque estamos dispostos a obedecer ao Senhor, fazendo a sua vontade, expressa
na Bíblia Sagrada, mesmo que para isso tenhamos que fazer uma “fogueira
santa” com as roupas que usávamos até sermos exortados na Palavra de Deus.
Seria maravilhoso se num domingo fizéssemos esta fogueira para queimar as
roupas das quais o Senhor nos libertou depois de termos estudado a Palavra.

Esperamos no Senhor que este estudo seja suficiente para uma tomada de posição
nossa como igreja de Cristo no Brasil. Não precisaríamos ouvir críticas ou
cobranças por causa de vestimenta.

Somos nós e os nossos filhos que nos vestimos indevidamente. Somos nós que
compramos as roupas dos nossos filhos. Se não compramos, admitimos que eles
comprem ou que usem. Vamos assumir a nossa responsabilidade e corrigir a nossa
conduta moral, diante de Deus, no que diz respeito a vestimenta.

Quanto às críticas ao autor e ao estudo, muito obrigado, em nome de Jesus, aos
críticos. Porém, entre a frouxidão moral e Palavra de Deus, ficamos com a
Bíblia. Entre a relativização ética e o Texto Sagrado; ficamos com a Bíblia.
Entre a perversão do modismo e as Escrituras, ficamos com a Palavra de Deus.
Mesmo que isso nos imponha a impopularidade, o estigma de radical ou a renúncia
do pastorado.

Amém.

Parte V
“ALEFREI-ME
QUANDO ME DISSERAM…”

Alegrei-me quando me disseram:
Vamos à casa do Senhor” (Sl 122.1)
A tocante,
inspiradora, edificante experiência de ver o povo de Deus chegando cada manhã
ao templo é uma alegria dominicalmente renovada. Podemos, mesmo, imaginar as
multidões indo à Beth haMikdash (Templo) em Jerusalém, e cantando à medida que
iam se aproximando dos portões da Cidade Santa. É o que diz a nota de
explicação do Salmo 122 com a expressão “cântico de degraus” (“gradual” ou “de
romagem”, “de romaria” ou “de procissão” em outras traduções). O povo ia ao
Templo de Jerusalém, e vem hoje ao templo. Porém, com que objetivo?

A Casa de Deus

É lugar de adoração. Está na Palavra Santa: “…aonde sobem as tribos, as
tribos do Senhor, como testemunho para Israel, a fim de darem graças ao nome do
Senhor” (Sl 122.4) Jesus Cristo ensina que o Senhor busca adoradores (Jô 4.23),
ou como bem o expressou A. W. Tozer: “Deus salva os homens para fazê-los
adoradores, fato esquecido hoje em dia por liberais, seitas e (até) cristãos
bíblicos”.
Se não somos adoradores, crentes com espírito de louvor, não poderemos
trabalhar aceitável e adequadamente pelo reino de Deus, pois o Espírito Santo
age através do coração, das mãos, dos pés, dos lábios que se renderam ao
Criador. Assim, o louvor é a nossa resposta ao amor de Deus. Cantar, orar,
meditar, tudo leva à adoração. Adorar, no entanto, é mais que qualquer um
desses atos.
Na verdade, é se deixar inflamar pelo Deus Pai, pelo Deus Filho e por Deus
Espírito Santo; cultuar é confessar que se mantém um relacionamento com o
Criador. O crente troca a independência, a auto-suficiência, a rebeldia pela
rendição a Deus, pela entrega, submissão e pedido de socorro. No culto,
louvamos a Deus em conjunto, confessamos nossos pecados em conjunto, recebemos
a Palavra em conjunto, e saímos para servir com um só propósito embora em
situações e contextos distintos.
Há, porém, que ser assim, visto que, após a salvação, o passo mais importante
que o novo crente, o crente deve dar é unir-se ao povo de Deus na instituição
que Ele estabeleceu para o propósito de lhe trazer crescimento: a igreja local.
No dizer de Paulo, apóstolo: “Escrevo-te estas coisas, embora esperando ir
ver-te em breve, para que, no caso de eu tardar, saibas como se deve proceder
na casa de Deus, a qual é a igreja do Deus vivo, coluna e esteio da verdade”
(1Tm 3.14,15). É nesse pensamento que o poeta exclama com tanto entusiasmo,
“Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!” (cf. v. 4).

No culto comunitário, há pessoas de diferentes origens, níveis sociais, raças e
culturas. Todas essas distinções, no entanto, se evaporam no canto
congregacional, no canto coral, na oração, na leitura bíblica, na entrega dos
bens e vidas, na mesma expectativa quanto à pregação. O crente há de
compreender que, ao vir ao culto, algo vai acontecer: sua vida será agraciada
pela presença de Deus, pela compreensão do grande, eterno amor, e enriquecida
pela comunhão dos irmãos, aquilo que é tão bem expresso na Bênção Apostólica:
“A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito
Santo sejam com todos vós” (2Co 13.13). É o senso de conjunto, de adoração
conjunta em perfeito acordo com o que Paulo acentuou em Filipenses 3.5: “Pelo
que todos quanto somos perfeitos tenhamos este sentimento, e, se sentis alguma
coisa de modo diverso, Deus também vo-lo revelará”. Há um popular hineto que
diz: “Quando estou com o povo de Deus,
eu sinto a maior alegria;
quando estou com o povo de Deus,
eu sinto real harmonia…”

É a fé estimulada, são as energias espirituais renovadas, a coragem, a
robustez, a esperança fortalecidas, por que no culto, Deus está presente: “O
Senhor está no seu santo templo…” (Hc 2.20); Jesus Cristo está presente:
“onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”
(Mt 18.20); o Espírito Santo está presente: “E, tendo eles orado, tremeu o
lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e
anunciavam com intrepidez a palavra de Deus” (At 4.31). E, quando o culto
termina, diz o adorador-em-espírito-e-em-verdade, “Alegrei-me de verdade,
alegrei-me com tudo o que eu sou, alegrei-me quando me disseram: vamos à casa
do Senhor!”
A casa de Deus é um lugar de oração. “Orai pela paz de Jerusalém” pede o
salmista no Salmo 122.6. Assim, é ambiente de conseqüente avivamento. Por
vezes, vidas são áridas num mundo árido, surgindo a necessidade de reavivar-se
a chama dentro de nós. É o reaquecimento, o despertamento que buscamos,
prezamos, queremos e pelo qual clamamos.
Habacuque expressou este clamor ao dizer, “Aviva, ó Senhor, a tua obra no meio
dos anos; faze que ela seja conhecida no meio dos anos; na ira lembra-te da
misericórdia” (3.2). E o Senhor nos responde: “e se o meu povo, que se chama
pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se desviar dos
seus maus caminhos, então eu ouvirei do céu, e perdoarei os seus pecados, e
sararei a sua terra” (2Cr 7.14).
A dinâmica do culto consiste em deixar-se o crente individualmente, e a igreja
como um todo tocar pelo Espírito de Deus. Isso nos recorda o ensino bíblico de
que é pecado trazer no culto divino e ao serviço do Senhor qualquer coisa que
não proceda de uma vida renascida. É o fogo estranho de que fala Levítico 10.1
e Números 3.3,4. Irreverência na casa do Senhor é pecado grave, muito grave, e
traz sério prejuízo espiritual para toda a igreja. Não expressa a Escritura,
“Guarda o teu pé quando fores à casa de Deus” (Ec 5.1a)?

É até possível ampliar a explicação exortando a guardar os ouvidos, os olhos, a
mãos, a mente e o coração. Dominados haveremos de ser por um anseio de uma
maior consagração. O cristão evangélico não “assiste ao culto”: dele participa.
O culto não é um drama encenado para uma platéia de espectadores, ou realizado
tão somente pelo oficiante sem a presença de um auditório. É ato corporativo.
Aliás, a alegria do culto divino é um sentimento antecipado, e acentuada essa
alegria quando compartilhamos a adoração com outros crentes. Portanto, não
basta a um cristão dizer que pode orar, cantar, ler e meditar em casa, ou ligar
a TV e ter a igreja eletrônica com um pregador de estúdio “olhando” para você
(?!) da tela fria do televisor, porque nada vai compensar o culto que você
perdeu, e nada vai comprar as bênçãos divinas, os temores afastados, as falsas
idéias e doutrinas corrigidas, e a fé revigorada na adoração coletiva.

Algo Prático

O cantar. É errado chamar a primeira parte do culto de Louvor, visto que, na
realidade, todo culto, e o culto todo é uma tremenda apoteose de louvor. Não
pode haver culto se não há adoração com seriedade, se o louvor é sem
reverência, sem humildade, sem espírito de dependência, sem espírito de
cooperação, sem confiança, sem quebrantamento e sem consagração.
A música são as flores do jardim da adoração. O objetivo é unicamente a glória
de Deus, nunca o destaque pessoal. A música deve afunilar juntamente com as
leituras bíblicas, a oração e as ofertas para o tema a ser explanado e
desenvolvido no sermão. Cuidado com a música de qualquer jeito, sem ensaio,
improvisada, porque nosso Deus não merece nem tolera isso!
Por que substituir os teológica e musicalmente bem escritos hinos, hinetos e
doxologias por corinhos de paladar duvidoso, escritos em mau português,
popularescos, com uma teologia que não é bíblica, como, por exemplo, “Jesus é a
aliança entre você e eu…”, onde em poucas palavras há um erro crasso de
linguagem? O hino deve ser reverente, bíblico, trazer o amor de Deus e
enfatizar a adoração.
O bom hino comunica o amor do Pai. Há quem se interesse pelo som, pela harmonia
ou pelo ritmo, mas não pelo Senhor que é exaltado nos seus versos. Há quem
esteja mais interessado no que alguém imaginosamente chamou de LIT-ORGIA, em
vez da liturgia (palavrinha boa que significa “o trabalho do leigo”); há quem
se interesse pelo barulho em vez do serviço a Deus, o “trio elétrico”
evangélico”, a “axé music” evangélica em vez da calma onde se manifestou o
Espírito de Deus a Elias (1Rs 19.12b). O irmão Lawrence afirmou, “Não consigo
imaginar como pessoas religiosas podem viver satisfeitas sem a prática da presença
de Deus”. Sim, a alegria da presença de Deus, porque a alegria não é encontrada
em cantar certo tipo de música ou viver com certo grupo. Consiste na
obediência.
As ausências. A palavra de Deus é claríssima sobre esse tema: “consideremo-nos
uns aos outros, … não abandonando a nossa congregação, como é costume de
alguns…” (Hb 10.24,25). A tradução do Pe. Negromonte esclarece ainda mais,
“Não deixando as nossas reuniões…”
É ausentar-se podendo estar presente, o velho e persistente comodismo. É não
deixar que a chuva, o calor, o frio, a TV, a corrida de automóveis, o futebol,
o dever de casa, a praia, os passeios, ou o turismo eclesiástico nos impeça de
vir à própria congregação, pois é preciso crescer com a igreja, crescer na
igreja, crescer para a Igreja de Cristo em sua expressão local, a comunidade de
fé de você faz parte.
Quando deixamos a congregação, quando nos ausentamos da igreja, não recebemos
as bênçãos do culto, perdemos o fervor, o espírito de unidade, não levamos os
filhos a crescer e a igreja perde a cooperação.
Se a adoração, o louvor, o culto não nos transformar, não pode ser chamado
culto, louvor, adoração (cf. Mt 5.23,24), visto que adorar, louvar, cultuar é
transformar-se. Se a adoração não nos levar a maior obediência, é só agitação,
mas não um ato de culto. Quando entramos no templo é a expectativa, quando
saímos é obediência; quando entramos é fé e esperança, quando saímos é amor.

Neemias nos inspira: “porque este dia é consagrado ao nosso Senhor. Portanto
não vos entristeçais, pois a alegria do Senhor é a vossa força” (8.10b), por
isso, “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”

Parte VI
A IGREJA
PRECISA DE TEOLOGIA?
Introdução e
Conceitos

É comum ouvirmos que “a teologia mata a religião” ou que “a
Igreja não precisa de teologia e, sim, de vida”. Serão verdadeiras essas
afirmações? Admitimos que há muita coisa por aí levando o nome de
“teologia” que não passa de especulação humana, por não se basear em
pressupostos de uma hermenêutica bíblica. E até a “boa teologia”,
quando se torna um fim em si mesma, pode não ter qualquer uso prático e
reduzir-se a mero academicismo. Não é disto que falamos aqui. Perguntamos se a
verdadeira Teologia é necessária à Igreja.

E o que é verdadeira Teologia? Como o próprio nome indica, Teologia é o estudo
de Deus, ou, definindo mais formalmente, “é a ciência que trata de Deus em
Si mesmo e em relação com a Sua obra” (B.B. Warfield). Perguntamos, por
conseguinte, se a Igreja pode prescindir do conhecimento de Deus e da Sua obra
e ainda ser Igreja de Deus. É quase certo que aqueles que negam a necessidade
da Teologia na vida da Igreja não diriam, conscientemente, que alguém pode ser
cristão sem conhecer a Deus. O que lhes falta é um bom conhecimento do que é
Teologia e de suas implicações.

Como podemos conhecer a Deus sem estudar a revelação que Ele faz de Si mesmo?
Como saber quem Ele é e o que Ele tem feito e faz, quem somos nós em relação a
Ele, o que Ele requer de nós,etc., se não investigarmos o que Ele deixou
revelado para nosso conhecimento? Pois esse é o trabalho da Teologia. Esse
trabalho parte de três pressupostos: O primeiro é o de que Deus existe; o
segundo, de que Ele pode ser conhecido, embora não de modo exaustivo e
completo; e o terceiro, de que Ele tem Se revelado tanto por meio de Suas obras
(criação e providência – Revelação Geral – Sl19:1,2; At 14:17), como,
principalmente, nas Santas Escrituras (Revelação Especial – Hb1:1,2; 1 Pd
1:20,21). É porque Deus Se revelou que podemos conhece-Lo. Nosso conhecimento
de Deus não é intuitivo, nem natural, mas comunicado por Ele mesmo através dos
meios que soberanamente escolheu. “Fazer teologia”, portanto, não é
inventar teorias a respeito de Deus e de Suas obras, nem mesmo
“descobrir” a Deus, mas conhecer e compreender a revelação que Ele
próprio deu de Si. Por isso, qualquer estudo de Deus que não tiver a Sua
revelação como base, meio e princípio regulador não é “teologia”,
devidamente entendida.

A palavra “teologia” não ocorre na Bíblia e o termo que lhe é
equivalente, no N.T., é “doutrina” ( “didache” ou
“didaskalia”, no grego), que vem de uma raiz que significa
“ensinar” e pode se referir tanto ao ato de ensinar, propriamente,
como ao conteúdo do que é ensinado (Rm 6:17;1Tm 6:3-4; 2Tim 4:3-4; Tito 1:2,9,
etc.). Podemos dizer, de modo mais completo agora, que Teologia é o conjunto de
verdades extraídas dos ensinos bíblicos a respeito de Deus e de Sua obra, e que
são apresentadas de modo sistemático, na forma de um corpo de doutrinas. A essa
forma ordenada de doutrinas, dá-se inclusive, o nome de “Teologia
Sistemática”. O adjetivo aqui, não altera o conceito de
“teologia”.

Assim entendidas, fica evidente que não há diferença entre Teologia e Doutrina.
Mas voltemos ao nosso tema. Duas são as razões geralmente apresentadas para se
dizer que a Igreja não precisa de Teologia. Elas se baseiam em duas falsas
antíteses:

1. A primeira é a suposição de que o Cristianismo se baseia em fatos e não
em doutrinas

Concordamos que nossa salvação não repousa sobre um conjunto de teorias ou idéias,
mesmo que extraídas corretamente da Bíblia, a que damos o nome de
“doutrina”, mas sobre os atos poderosos e eficazes do nosso soberano
Deus. Não somos salvos através de uma correta teoria a respeito da pessoa de
Cristo, mas pela própria pessoa de Cristo; nem através de um exato entendimento
da doutrina da Expiação, mas pelo próprio ato expiatório. É possível alguém ser
“bom teólogo”, nesse sentido, e ainda não experimentar as graças
ensinadas nas doutrinas que expõe. A doutrina realmente não salva. A obra de
Cristo, devidamente aplicada pelo Espírito no coração do crente, é que assegura
essa graça. Seu nascimento sobrenatural, Sua vida de perfeita obediência à Lei,
Sua morte substitutiva, Sua ressurreição, Sua ascensão e assentamento à direita
do Pai, Sua segunda vinda, são os grandes fatos que tornam garantida a salvação
dos eleitos.

Mas como sabemos que esses são os fatos? Que sentido teriam esses
acontecimentos se não tivessem sido interpretados? É a doutrina que lhes dá
sentido. Como viemos a saber que aquele menino que nasceu em Belém é o Filho de
Deus? Por que descansamos na eficácia da Sua morte para a expiação dos nossos
pecados? Por que sabemos que a Sua ressurreição, há dois mil anos atrás,
garante a nossa justificação? É porque esses fatos são todos explicados e
interpretados pela doutrina.

Esta não só informa o fato como também dá o seu significado. A doutrina não
salva, mas pode tornar o homem sábio para a salvação (2Tm 3:15). Doutrina sem
fato é mito, mas fato sem doutrina é mera história.

O Cristianismo, portanto, consiste em “fatos que são doutrinas e doutrinas
que são fatos”, na expressão de B.B. Warfield. Ele diz: “A Encarnação
é uma doutrina: nenhum olho viu o Filho de Deus descer dos céus e entrar no
ventre da virgem; mas se isso não for um fato histórico também, nossa fé é vã e
permanecemos ainda em nossos pecados”( Selected Shorter Writings, vol 2,
p. 234). Fato e doutrina se complementam no Cristianismo. Quando João diz:
“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade” (Jo 1:14), não está apenas apresentando um fato; está
explicando-o também. Quando Paulo afirma que Jesus “foi entregue por causa
das nossas transgressões,e ressuscitou por causa da nossa justificação”
(Rm 4:25), de igual modo está dando uma interpretação aos fatos da morte e
ressurreição de Cristo. Isto é o que se vê em toda a Escritura, especialmente
nas epístolas.

Até mesmo os fatos manifestos na natureza (Revelação Geral) não seriam
devidamente compreendidos se não fossem explicados pela Bíblia (Revelação
Especial). Podemos hoje entender que “os céus manifestam a glória de
Deus” (Sl 19:1) porque o Criador nos tem revelado isso na Sua Palavra.

Sem essa explicação, sua mensagem (a dos céus) passaria despercebida e eles
poderiam até ocupar o lugar do Criador, gerando a idolatria (devido ao pecado),
como lemos em Rm 1:18-32. Não é o acontece quando as pessoas dizem que “a
natureza é sábia”, ou quando a chamam de “mãe natureza”?. Sem a
revelação do Criador, a criatura toma o seu lugar. Daí dizer-se que para se
conhecer a Deus é preciso que Ele fale, e não somente que Ele aja.

Concluímos, portanto, que os fatos só têm sentido quando acompanhados da
doutrina. Nem é pertinente perguntar qual dos dois é mais importante. Seria o
mesmo que indagar qual das duas pernas é mais importante para o nosso caminhar.
O ensino da doutrina é uma das ênfases da Bíblia (1Tm 3:2; 2Tm 2:2; Tito 1:9;
Ef 4:11), pois sem ela não existe verdadeiro Cristianismo.

2. A segunda é a suposição de que o Cristianismo consiste em vida, não em
doutrina Por trás dessa afirmação podem estar raízes do conceito filosófico que
exalta o misticismo, as emoções, o sentimento religioso do homem, e que procura
eliminar da religião todo apelo ao intelecto, à razão. “Religião é vida e
a vida é dinâmica, fluente; a doutrina é estática, fria, e, portanto, não pode
ser compatível com o caráter do Cristianismo”, dizem. Aqueles que assim
pensam até admitem um certo tipo de doutrina, desde que mutável, adaptada
sempre à dinâmica da vida e conformada às “necessidades” da época e
do lugar onde a vida do Cristianismo se manifesta. Até chamam a isso de
“teologia contemporanizada” ou “contextualizada”. Segundo
esse ponto de vista, não é a doutrina que deve dirigir a vida, mas esta àquela.
“A letra mata, mas o espírito vivifica”, argumentam. A prática
(práxis) é colocada acima da doutrina não só em importância, mas também no
tempo: a doutrina passa a ser um produto da vida cristã, não a sua norma. Há
até quem interprete assim a célebre divisa: “Igreja reformada sempre se
reformando”.

Mas será essa a visão bíblica do Cristianismo? Podemos dizer, com base na
palavra de Deus, que o Cristianismo é vida e não doutrina, ou, primeiramente
vida, depois doutrina? Existe tal antítese? Se essa posição for verdadeira,
então não haverá verdade absoluta, nem princípio fixo, nem revelação objetiva.
Tudo cairá no campo dos valores relativos e passará a depender do subjetivismo,
da “piedade”, das emoções. Não admira que haja tanta
“fluidez” e instabilidade entre os que assim pensam, e que sejam
facilmente levados “por todo vento de doutrina”. Para estes, a
doutrina é o que menos interessa.

Concordamos também que Cristianismo é vida, e graças a Deus por isso! Onde a
vida não se manifesta, nos moldes escriturísticos, falta a alma da verdadeira
religião. Mas devemos ou podemos prescindir da doutrina para que essa vida se
manifeste? Antes de tudo, é a verdade de Deus relativa? Depende o seu valor do
lugar e da época em que se encontram os homens? Sabemos que esta é a posição
atual dos que se denominam pluralistas e esse é o pressuposto básico desta
posição. Será que aquilo que foi deixado por Paulo e pelos outros apóstolos
como doutrina para os seus dias deveria ser mudado nos dias de Agostinho,
depois nos dias de Lutero e Calvino, depois nos dias de Warfield e dos Hodge e,
assim, sucessivamente, até os nossos dias, para dar lugar às manifestações de
vida? Não creio que a Bíblia justifique essa posição nem que esses teólogos a
tenham entendido assim. O princípio de que “a Igreja reformada deve estar
sempre se reformando” visa manter sempre a mesma posição em relação à
verdade, não alterá-la, para que seja aplicável em todas as épocas. É para que
continue sempre sacudindo de si toda tradição e acréscimo humano que não estejam
de acordo com os valores fixos e absolutos da palavra de Deus.

Reformar é voltar às origens, ao que foi intencionado no princípio por Deus. E
não há outra forma de se fazer isto a não ser pela doutrina.

Foi a doutrina bíblica, tão bem exposta pelos reformadores e tão negligenciada
pela Igreja, que a trouxe de volta às origens e lhe recuperou a vida, no século
XVI. Foi a falta da verdadeira doutrina que enfraqueceu a Igreja e a lançou num
tradicionalismo vazio e pagão. É a correta aplicação da doutrina que produz a
verdadeira vida cristã. Não basta apenas um sentimento religioso para fazer de
um homem um cristão. É preciso que sua vida seja moldada na doutrina de
Cristo.É a doutrina que dá característica à vida.

Sem dúvida, não estamos afirmando que apenas a doutrina, independente da obra
santificadora do Espírito, produz vida. A doutrina é, isto sim, o meio que o
Espírito soberanamente usa para nos fazer conhecer a vontade de Deus e nos
levar a praticá-la. É através dela que ficamos sabendo que a vontade de Deus é
a nossa santificação e que, sem esta, ninguém verá o Senhor ( 1 Ts 4:3; Hb
12:14). É ela que nos aponta os meios de graça deixados pelo próprio Senhor,
que é quem nos santifica (Lv 20:7-8; Ef 5:26). Nas epístolas paulinas, a íntima
relação entre doutrina e prática é evidenciada pelo seu método de apresentar
primeiro a argumentação teológica (doutrinária) para depois tirar as
implicações práticas dela decorrentes (Ex. Rm 1-11: doutrina; 12-16: prática).
Isso se torna ainda mais claro na oração sacerdotal de Cristo, em que Ele
associa a prática da santificação com a doutrina da Palavra: “Santifica-os
na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 15 :17) e em João 7:17, onde o
fazer a vontade de Deus está ligado ao conhecer a doutrina: “Se alguém quiser
fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se
eu falo por mim mesmo”.

O conhecimento de Deus começa pela porta do intelecto, da razão, para depois
pervadir todas as áreas do ser e se transformar em manifestações de vida que O
agradem e glorifiquem. Por isso, o ensino da doutrina é indispensável na
Igreja, tanto através do púlpito como pelos estudos semanais, pela Escola
Dominical e por qualquer outro meio disponível. Nossa demonstração de vida pode
impressionar as pessoas e despertar nelas certa admiração, mas é pela pregação
da Palavra que vem a fé que transforma (Rm 10:7) A espada do Espírito é a
Palavra (Ef 6:17). Conclusão

Concluímos, portanto, que a Igreja precisa da Teologia, porque precisa da
doutrina nela contida para dar sentido e expressão aos fatos do Cristianismo e
para prover os meios de manifestação da verdadeira vida cristã.

Parte VII
A IGREJA,
CORPO DE CRISTO

TEXTO: EFÉSIOS 1:22-23
PROPOSTA: A
nossa proposta é a de conhecer o que a Bíblia fala sobre a igreja. Qual o
verdadeiro significado deste termo!
Quais as responsabilidades daqueles que dela participam.

01. A ORIGEM DA IGREJA

1.1 – A primeira referência bíblia sobre a igreja aparece em Mateus 16:18
1.2 – O nascimento da Igreja ocorreu n dia de Pentecoste. Atos 2:1-4

02. A NATUREZA E AS FUNÇÕES DA IGREJA COMO CORPO

2.1 – No Novo Testamento – “povo de Deus”
“Ekklesia” – “chamados para fora”

– Outros títulos:

– Corpo de Cristo – Ef. 1:22-23
– Templo do Espírito Santo – Ef. 2:21-22
– Plenitude de Cristo – Ef. 1:23
– Noiva do Cordeiro – 2 Cor. 11:2; Ap. 19:7

– A Igreja como corpo deve:

         
ministrar
– manter a unidade da fé
– reconhecer ministérios
– participar do louvor, da comunhão, dos desafios
– instruir seus filhos na Palavra

03. A FORMAÇÃO A IGREJA

– Ela é formada pela união de seus membros – 1 Cor. 12:17
– Ela tem responsabilidades – Ef. 1:4; Rom. 8:29; 1 Ped. 2:9;
Observe as expressões: “escolheu”; “conheceu”;
“eleita”, “para sermos”; “para serem”; “a
fim de”.

04. AS FUNÇÕES DOS MEMBROS

– criar unidade no corpo – Ef. 4:16
– nutrir os demais membros – 1 Cor. 12:25
– sustentar os membros – Col. 2:19
– transmitir ordens – Fil. 4:9

05. CARACTERÍSTICAS DO CORPO

– Colaboração – 1 Cor. 12:12
– Exclusividade – 1 Cor. 12:14
– Individualidade – 1 Cor. 12:21
– Harmonia – 1 Cor. 12:25
– Diversificação de ministérios – 1 Cor. 12:28-29

06. SÍMBOLOS BÍBLICOS QUE DESCREVEM A IGREJA

– Rebanho – João 10:16
– Lavoura de Deus – 1 Cor. 3:9
– Edifício de Deus – 1 Cor. 3:9
– Santuário de Deus – 1 Cor. 3:16
– Coluna e Baluarte da verdade – 1 Tim. 3:15

         
 
Parte VIII
A IGREJA,
CORPO DE CRISTO II

TEXTO: MATEUS 28:18
PROPOSTA: Este
estudo visa mostrar que a mesma autoridade que Jesus recebeu do Pai, foi também
delegada a igreja.
Ela se tornou a agência mediante a qual o Senhor manifesta o seu poder, a sua
graça e autoridade.

01. AUTORIDADE E PODER

A autoridade representa a própria essência de Deus, enquanto o poder expressa
os seus atos! Isaías 40:25-26
Deus pode perdoar aqueles que duvidam de seus feitos, mas retêm o perdão
àqueles que menosprezam a sua autoridade.
A queda de Satanás ocorreu, porque ele desejou ser igual a Deus, e não
simplesmente realizar os mesmos feitos de Deus. Isaías 14:13-14
Obs. Satanás não tem medo de uma pessoa que prega a Palavra.

Ele tem medo
das pessoas que se submetem a autoridade de Cristo.

02. AUTORIDADE E PODER DELEGADOS À IGREJA

– A igreja como corpo, recebeu do Senhor Jesus, toda a autoridade e poder para
se tornar uma igreja viva e vitoriosa.

2.1 – Autoridade sobre a natureza – Mat. 17:20; Mat. 20-21-22
– esse poder é manifestado através da oração. Ela se torna em realidade devido
a autoridade que Cristo concedeu à igreja.

2.2 – Autoridade sobre os espíritos – Luc. 10:19; Mat. 10:8
– A luta profetizada pôr Jesus:
– Igreja x Portas do inferno
– “Portas do Hades” – Hades representa o deus que tinha autoridade
sobre os mortos!
– Porta – representava a corte, o poder do reino do mundo inferior!
– Resumo: a igreja não pode morrer. Ela é eterna.

2.3 – A autoridade da igreja é maior do que o poder do Diabo
– Mar. 5:9; Luc. 8:30
– Jesus comandou o espírito que atormentava o jovem e o expulsou. A autoridade
a nós foi delegada, força o diabo a nos obedecer.

2.4 – Autoridade sobre os pecados – Mat. 6:14; Jó 20:23; Tg. 5:14-15

Diferença entre: “pecado” e “pecados”
– A igreja pode perdoar os pecados (ofensas) cometidos contra ela. Mas, o
pecado, provocado pela queda do homem, só através do sangue de Cristo.

2.5 – Autoridade para ligar e desligar – Mat. 18:18; Mat. 16:19; 1Cor. 5:3-5

– Para exercer esta autoridade a igreja precisa estar em perfeita sintonia com
o Espírito Santo. Esta autoridade não é um exercício individual, e, sim,
coletivo.

3.0 – CONTESTANDO A AUTORIDADE DELEGADA
– A nossa obediência deve ser praticada não em função da pessoa mas da
autoridade nela investida. Não se obedece a homens, e, sim, à autoridade de
Deus que está nesse homem.

– Obs. Watchamann Nee: “A maior das exigências que Deus faz ao homem não é
a de carregar a cruz, servir, dar ofertas, ou negar-se a si mesmo. A maior das
exigências é que ele obedeça” – 1 Sam. 15:22-23

– Obs. Os maiores castigos mencionados na Bíblia ocorreram em razão da
desobediência à autoridade delegada pôr Deus.

3.1 – Queda do querubim da guarda – Ezequiel 28:13-17
3.2 – Queda de Adão e Eva – Gênesis 2 e 3
3.3 – Rebelião de Cão – Gênesis 9:20-27
3.4 – Rebelião de Nadabe e Abiú – Levítico 10:1-2
3.5 – Castigo de Arão e Miriã – Números 12
3.6 – Rebelião de Coré – Números 16
3.7 – A desobediência de Saul – 1 Samuel 15
3.8 – A insubmissão de Absalão – 2 Samuel 15
3.9 – A idolatria de Salomão – 1 Reis 11
3.10 – A transgressão de Uzias – 2 Crônicas 26:16

4.0 – AUTORIDADE E A LIDERENÇA DA IGREJA
– A igreja só crescerá quando todos os membros estiverem debaixo do autoridade
de Deus delegada aos seus ministros.
1 Tes. 5:12-13; 1 Cor. 16:15-16; Heb. 13:17; Zac. 13:7

Parte IX
A IGREJA,
CORPO DE CRISTO III

TEXTO: ROMANOS 12:1-2
PROPÓSITO: A
maior necessidade do mundo, das pessoas, como também da igreja, é a necessidade
de adaptação ao curso da História. Esta adaptação só se viabiliza mediante a
disposição do mundo, das pessoas, e da igreja em se transformarem.
Transformação é o segredo de um organismo vivo.

Ilust. Leon Tolstói: “Todos pensam em mudar a humanidade e ninguém pensa
em mudar-se a si mesmo”.

1.1 – A comunicação se processa através de três elementos básicos:
a . Kerygma – mensagem
b. Koinonia – comunhão
c. Diakonia – serviço

1.2 – Encurtando as distâncias – João 13:12-17
A mensagem – Kerygna – não funciona isoladamente. Para que ela produza
resultados positivos, é necessário que o membro exercite a Koinonia e a
Diakonia.

0.2 – TRANSFORMANDO A NOSSA RELAÇÃO COM OS OUTROS MEMBROS

Este processo de transformação ocorre através da prática de quatro princípios
bíblicos.
2.1 – Princípio da integração – 1 Cor. 12:15-16
– cada membro tem sua função. Um membro não deve aspirar o lugar do outro,
quando isso ocorre todo o corpo é prejudicado.
– A quebra desse princípio provoca:
– desvalorização do membro
– contestação da vontade de Deus
– Afastamento dos outros membros
– desperdício de forças

2.2 – Princípio da oportunidade – 1 Cor. 12:17-18
– este princípio visa das a todos os membros a mesma chance de trabalho. Um
membro não pode inibir a ação do outro.
– A falta de oportunidade produz:
– desequilíbrio em todo o sistema
– um espírito de concorrência
– um anemiamento espiritual

2.3 – Princípio de Dependência – 1Cor. 12:21-22
– quando este princípio é quebrado, ocorre:
– um enfraquecimento de todos os membros
– o egoísmo passa a predominar nas relações
– a arrogância quebra a linha de comunicação

2.4 – Princípio da Unidade – 1Cor. 12:25-26; Ez. 34:17
– a unidade é a fonte geradora de toda a energia, de troca a mobilidade e
harmonia do corpo. Sem unidade, a igreja perde a sua função. João 17:23

3.0 – TODA
TRANSFORMAÇÃO EXIGE UMA FONTE DE DISCIPLINA PESSOAL – 1Cor. 9: 24

– A igreja precisa ser a autora e não a espectadora no processo de mudanças.
Ela foi criada para ser o instrumento de Deus na transformação da sociedade.

– Disciplina na prática de ouvir/falar – João 8:47
– Disciplina na prática do perdão – Marcos 11:25
– Disciplina na prática da fé – 2 Cor. 13:5
– Disciplina na prática da liberdade – Gal. 5:13
– Disciplina na prática dos hábitos – Col. 3:17
– Disciplina na prática do tempo – Ef. 5:15-16
– Disciplina na prática da santidade – 1 Tim. 5:22

Parte X
A IGREJA,
CORPO DE CRISTO IV

TEXTO: EZEQUIEL 37:1-14
Autor(a): PR.
VANDERLEI FRARI
PROPÓSITO:
Cerca de 2960 anos nos separam da experiência de Ezequiel junto ao vale de
ossos secos. Mas a realidade daquele vale ainda é a mesma em nossos dias. O
alvo deste estudo é recriar uma nova esperança no coração daqueles que como
membros, fazem parte da Igreja do Senhor Jesus.

01. UMA CONVIVÊNCIA DESAGRADÁVEL – V. 1

Ezequiel não só foi levado ao vale de ossos secos. Ele andou pôr entre aqueles
ossos. Conviveu com a morte. Sentiu os odores daquele ambiente fétido.
– A experiência de Neemias – Ne. 2:11-15
– Esta convivência foi necessária:
1.1 – para identificar a situação do povo
1.2 – para comprometer o profeta com o desafio de restauração
1.3 – para mostrar qual o propósito de Deus

02. HARMONIZANDO O CORPO

O texto de Ezequiel 37:6 nos ensina quatro verdades básicas sobre a harmonia do
corpo de Cristo.

2.1 – “Porei tendões (nervos) sobre vós…”
– “tendões” – cria a união; dá sustentação; mantém a flexibilidade e
resistência do corpo.
– “nervos” – estimulam; mantém a sensibilidade.
– hipersensibilidade – enferma o corpo!
– Rom. 12:15,17; Rom. 15:2; Gál. 5:26; Ef. 4:22

2.2 – “Farei crescer carne sobre vós…”
– Há três aspectos importantes sobre este elemento:
a . a carne representa unidade, participação, integração – Gên. 2:23
b. a carne é o elemento do corpo. A distrofia – perturbação da nutrição
-prejudica o metabolismo do corpo. Fil. 2:3; 2 Cor. 8:13-15
c. a carne fala do conhecimento da Palavra. É o alimento sólido. 1 Cor. 3:1-2;
Heb. 5:11-14

2.3 – “E sobre vós estenderei pele…”
– a pele é o elemento de proteção. Ela funciona também como um filtro. Uma pele
ressecada prejudica a respiração do corpo. Col. 3:12

2.4 – “E porei em vós o fôlego da vida e vivereis…”

O resultado
final de um corpo equilibrado e harmônico é a presença do Espírito Santo agindo
em todos os membros.

3.0 – COMO SE PROCESSA ESTA RESTAURAÇÃO?
Ezequiel foi o instrumento usado pôr Deus para restaurar os ossos secos. Cabe a
cada membro do corpo a mesma responsabilidade. O processo de restauração ocorre
através da ação profética.

3.1 – O que profetizar?
a . que Deus pode vivificar o que está morto em nossas vidas – v.5
b. que Deus harmonizará o corpo beneficiando assim cada membro em particular –
v.7
c. que Deus fará de membros soltos e sem vida, um grande exército – v.10
d. que Deus abrirá as sepulturas e libertará todos os que vivem presos –
v.12-13
e. que Deus derramará o seu Espírito Santo – v.14

Parte XI
A IGREJA,
CORPO DE CRISTO V

TEXTO: PROVÉRBIOS 4:7
Pôr falta de
sabedoria, a igreja tem lutado mais contra si mesma do que contra os
verdadeiros adversários; tem usado ignorantemente a armadura de Saul; tem
fomentado divisões; tem perdido enfim o poder de atuação.
“Realmente estará em perigo a sorte do mundo, se não surgirem homens mais
sábios. O homem sábio é aquele que é capaz de reconhecer um necessitado, um
pobre, um que precisa de oração”.(Concílio Vaticano II)

01. DEFININDO A SABEDORIA

– Sabedoria é saber fazer a coisa certa, no momento certo, e à pessoa certa.
Moisés nos dá um bom exemplo de falta de sabedoria. Êxodo 18:13-18
a . sabedoria como doutrina – Prov. 19:18; 22:6
b. sabedoria como virtude de homem – Gên. 41:38; Dan. 1:17
c. sabedoria como atributo e qualidade de Deus – Is. 28:29; Jer. 10:12

02. A IMPORTÂNCIA DA SABEDORIA

Pôr vivermos em grupos sociais, a sabedoria torna-se em elemento indispensável
em nossos relacionamentos inter – pessoais.

2.1 – sabedoria no diálogo – Prov. 26:4; Ecl. 7:16
2.2 – sabedoria nas decisões – Prov. 8:12; 1 Reis 3:25-28
2.3 – sabedoria nas amizades – Jer. 9:4-5
2.4 – sabedoria no comportamento – Ef. 5:15; 1 Pd. 3:1-2
2.5 – sabedoria nos negócios – Gên. 41:39
2.6 – sabedoria em tudo…

03. SABEDORIA, AGENTE ESPIRITUALIZANTE

A sabedoria não é uma virtude isolada, e muito menos eletrizante. Não é
contrária a verdadeira espiritualidade. Ela é antes de tudo o fiel da balança
espiritual.

3.1 – Exigência dos apóstolos – Atos 6:3
3.2 – A força de Estevão – Atos 6:8-10
3.3 – A oferta do Espírito Santo – 1 Cor. 12:8
3.4 – A verdadeira busca – Tiago 3:13-18
Resumo: Igreja sábia produz santos verdadeiros!

Parte XII
A IGREJA QUE
FAZ A DIFERENÇA

Mateus 26.17-30
Introdução
A igreja será apenas uma instituição humana se não tiver a visão de Jesus
Cristo para o contexto e a realidade histórica na qual está inserida.

Falar dos objetivos da igreja em contraposição as megatendências da
pós-modernidade e o modismo quanto a quebra de paradigmas que resultam na perda
da identidade doutrinária, do mundanismo que gera a mundanalidade incrustada na
igreja pela relativização da ética cristã, arrefecendo a autoridade da igreja
em sua ação reformadora no mundo, Efésios 3.10.

A igreja deve interagir na história, não andar a reboque da historieta escrita
nos alfarrábios desta geração corrompida e perversa. Somos o povo do Deus que é
Senhor da história e que se manifesta através da história. A igreja é
manifestação de Deus na história. Não podemos nos contentar em causar impacto
na história com os nossos escândalos ou com a nossa inércia contemplativa
enquanto o céu não vem. É imperativo fazermos diferença no mundo, escrevendo a
história da salvação na vida das pessoas e para isto, é imperioso resgatarmos a
relevância da igreja no contexto sociocultural em que trilhamos a jornada da
santificação.

Mas amados, a igreja só será relevante para o mundo e para o Reino, fazendo
verdadeira diferença neste mundo com Agência reformadora de Deus, quando…

1. Estivermos preocupados com a vontade do Mestre e não com a nossa própria
vontade – (Vs. 17).

Devemos evitar a visão antropocêntrica e buscarmos uma visão horizonal,
cristocêntrica, cristológica e cristossímel.

“Onde queres” – Théleis, vontade ativa, soberana. A vontade decisiva
e decisória de Deus onde não cabe relativizações ou negociatas, apenas a
submissão.

Os anseios e vontades humanas desembocam sempre no hedonismo ou nas guerras
cruentas e desumanas. Só a vontade de Deus para a igreja é “boa, agradável
e perfeita”, Romanos 12.1.

Como Jesus, devemos admitir nossa humanidade em sua plenitude mas sempre
orando: “não se faça a minha vontade, mas a tua”, Lucas 22.42.

2. Estivermos conscientes da brevidade do tempo da salvação – (Vs. 18).

O tempo da Deus é kairós, eterno, infinito, e não kronos, limitado, mensurado e
controlado pelo homem, como se fossemos senhores do tempo.

Na dispensação da igreja, da graça salvadora, o tempo é sempre presente, é
hoje, e a pregação deve ser levada a efeito “a tempo e fora de
tempo”, 2 Timóteo 4.2.

Vale ressaltar a expressão “o Mestre diz”. Mestre, didáskalos, alguém
que ensina revestido de capacidade, honra e dignidade. Jesus, sendo Deus, é
Senhor do tempo e fala com autoridade quanto a brevidade do tempo para a
pregação do evangelho. “Meu tempo está próximo”, diz o Mestre.

A Igreja não pode postergar a pregação. Não sabemos quando o Mestre voltará,
Mateus 25.13. Estar preparados para adentrarmos com ele em sua glória implica
em testemunho e pregação incessantes.

3. Nossos cultos se tornarem verdadeira celebração ao Cristo vivo, não à
liturgia, à Denominação ou à Eclesiologia – (Vs. 18b e 19).

É imperioso buscarmos a consciência de libertação, Páscoa, e de celebração, de
festa, de alegria e satisfação prezeirosa em nossos cultos, devido a presença
do próprio Deus entre nós.

O texto não prevê sectarismo ou uniformidade. Não induz ao radicalismo ou ao
êxtase emocional espiritualista esotericamente espiritualizado. Se quer, o
texto aponta para um denominacionalismo desvairado e promotor de uma nefasta
negligência ao que é bíblico em defesa de um hediondo tradicionalismo
histórico-denominacional.

A festa, a Páscoa, era um memorial da libertação do Egito, da morte às mão do
opressor, no sangue da remissão, Êxodo 12.14-17. Da mesma forma, nossos cultos
devem ser verdadeira celebração pela e para salvação em Cristo. Uma festa
alegre e vívida em gratidão pela libertação do pecado que nos é outorgada por
Cristo.

Devemos buscar a consciência de que o Senhor está em seu trono de glória para
receber de nós um culto “vivo, santo e agradável”, Romanos 12.1,
resultado de mentes renovadas em Cristo no entendimento dos mistérios da
salvação, 1 Coríntios 2.14-16.

Se perseguimos palco, apresentações e números especiais, ou se queremos
vislumbrar os nossos olhos com feitos pitorescos ou com manifestações
pneumotécnicas, aqui não é nosso lugar.

4. Somos contristados pela possibilidade de sermos o traidor – (Vs. 21 e
22).

Qual a nossa reação diante da expressão “um de vós me trairá”. Somos
assolapados pela consciência de pecado que desemboca no arrependimento ou
permanecemos insensíveis e nada nos impulsiona à santidade?

A expressão do verso 21, “me entregará”, no original, denota que
Jesus bem sabia das intenções daqueles que o perseguiam. É assombroso que
muitos crentes não sintam o sabor amargo de pecado como sentiram Moisés, Jacó,
Isaías, Jeremias, Pedro, Paulo e muitos outros indicados no Texto Sagrado,
insistindo nos passos de Caim e na decisão diabólica tomada por Judas
Iscariotes, persistindo na traição.

Muitos, mesmo estando diante de Jesus e sendo desafiados ao arrependimento, não
conseguem olhar para Jesus e identificá-lo com Senhor absoluto de todas as
coisa, Kírios, admitindo-o apenas como rabi, mestre da lei, o que não é uma
característica da personalidade de Jesus.

No culto verdadeiro Deus sempre manifesta sua glória, Isaías 6.1-8, e se nos
dispomos à perfeita adoração, sempre somos levados à contrição e ao
arrependimento, a fim de que dediquemos nossas vidas em perfeito louvor,
evidenciado na proclamação do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo.

Retirar-se do culto sem experimentar restauração santificadora, permanecendo na
inércia petrificada do comodismo, é constituir-se em traidor.

Em quinto e último lugar, afirmo que a igreja fará diferença no mundo e
resgatará sua relevância e autoridade na pregação quando…

5. O sangue do pacto promover aliança de compromisso em nós – (Vs. 28).

Como igreja, se buscamos relevância para a sociedade, se pretendemos fazer a
diferença já em nosso tempo, profetizando um futuro melhor, não podemos
permanecer aguilhoados ao pelourinho do pecado e dissociados pelo preconceito
que ressalta as idiossincrasias. Se somos igreja, devemos vivenciar íntima
comunhão, irmanados em Jesus Cristo, Efésios 2.14-18 e 1 João 4.20.

O sangue do pacto foi derramado “para a remissão de pecados”, para
cobrir e apagar o escrito de culpa que recaia sobre nós, Colossenses 2.14, para
nos reconciliar com Deus, 2 Coríntios 5.18 e 19, fazendo-nos um só povo,
Efésios 4.4 e conjugando-nos em só coração, Atos 4.32. Não divisionismo ou
sectarismo autofágico e se quer, para um preconceito satanicamente beatificado
pelo denominacionalismo coercitivo.

O sangue que “nos purifica de todo o pecado”, a partir do
arrependimento e da confissão sincera diante de nosso Advogado e único
mediador, Jesus Cristo, l João 1.8, 2.2 e 1 Timóteo 2.5, nos impõe a comunhão
que afaga o coração e acarinha o aflito e o existencialmente desesperançado.
Pelo que, a igreja deve retirar-se do templo, após o culto prestado,
restaurada, perdoada, transbordando em amor e alegria e amalgamada no sangue de
Jesus Cristo.

Todo o nosso pecado e preconceito devem ser abandonados aos pés da cruz de
Cristo, o Cristo que “é tudo em todos”, Colossenses 3.11.

Conclusão

Amados, é urgente e premente uma reflexão quanto relevância e a atuação da
igreja no mundo da globalização e, em especial, aqui em São Paulo.
Se não identificamos estas cinco assertivas em nossa expressão cúltica e identidade
doutrinária e denominacional, corremos o risco de sermos vitimados por
descomunal aridez teológica, eclesiológica e doutrinária. Nos tornaremos
insipientes, insignificantes e dispensáveis ao homem que carece de salvação e
não de liturgias, eventos sociais ou verdadeiros shows pseudo-espirituais
aromatizados com essência de enxofre, não com o hálito do Espírito Santo.

Sejamos igreja. Corpo vivo de Cristo. Submissos a ordem do Mestre e conscientes
da brevidade do tempo para a salvação. Sejamos igreja que festeja a vitória de
Cristo na Cruz e que é contristada pela consciência de pecado. Sejamos igreja
santa e poderosa na evangelização para que desfrutemos as benesses do perdão,
do amor e da comunhão íntima, expressão inconteste da nossa reconciliação com
Deus em Cristo Jesus.

Parte XIII
A LIDERANÇA
CRISTÃ E O DISCIPULADO
Creio na
liderança cristã e creio no discipulado. Compreendo que a liderança cristã tem
o trabalho de despertar e conduzir o ser humano para Deus e para tudo o que de
Deus recebeu. Creio numa liderança comprometida com o reino de Deus (cf. Mt
6.33), o que, aliás, é uma qualidade-chave do líder cristão. Uma liderança
comprometida é fiel (1Co 4.2), disponível (Lc 9.57-62), receptiva à
capacitação, ou seja, ao treinamento (um teste é convidar 12 a 20 pessoas para
reuniões de treinamento, e observar quem retorna a partir da segunda reunião. O
treinamento, por sinal, já é uma seleção). Descobrir pessoas que possuam
potencial é tarefa do líder, e isso com o objetivo de treiná-las de modo a que
em dado momento a organização possa funcionar sem ele, líder. É um facilitador
no ensino dos novos discípulos e na participação deles no global do processo; é
exemplo e ajuda em vez de apenas verbalizar, valoriza a participação dos
outros, é paciente e confia no Espírito Santo como conselheiro e auxílio nas
dificuldades.

Creio na liderança capacitada pelo Espírito de Deus, “carismatizada”
para o benefício da Igreja de Cristo, para que todo o edifício bem ajustado
cresça para templo santo cuja glória seja unicamente a de Deus, ou como colocou
a Bíblia em Português Corrente (edição da Sociedade Bíblica de Portugal, 1993):
“É em Cristo que todo o edifício está seguro e cresce até se transformar
num templo que honre ao Senhor” (Ef 2.21).

Creio também no discipulado cristão, pois é somente observar a ênfase dada por
Jesus ao cuidado, carinho, busca e instrução dos que O seguiam.
“Discípulo”, por sinal, parece ser a palavra favorita de Jesus para
aqueles cuja vida estava ligada a dEle. Aparece 269 vezes nos Evangelhos e no
livro dos Atos dos Apóstolos.

O líder cristão
do século 21 não pode esquecer que as condições do discípulo são um daqueles
princípios imutáveis, apesar das transformações litúrgicas, administrativas,
pelas quais a Igreja de Cristo vem passando através dos séculos. Quem as
declara são os Evangelhos:
· Transportar a cruz (Lc 14.27). A cruz não é brinquedo, mas instrumento de
morte, na qual o eu deve morrer. Ir-para-o-Calvário é um caminho escolhido
deliberadamente, visto que a cruz é o símbolo da perseguição, vergonha e abuso
que o mundo jogou sobre o Filho de Deus e jogará sobre os que escolhem navegar
contra a corrente, o discípulo.
· Renúncia (Lc 14.33), que é entrega irrevogável a Jesus Cristo, autonegação,
nos termos de Lucas 14.26 e Mateus 16.24. Nosso amor a Jesus e à Sua causa há
de ser tão evidente que, em comparação, todos os demais serão diminuídos. Billy
Graham afirmou que “a salvação é de graça, mas o discipulado custa tudo o
que temos”.
· Constância (Jo 8.31). É passar a viver em companhia de Jesus, comunhão de
destinos com Ele, segui-Lo, permanecer nEle. O verdadeiro discípulo se
caracteriza pela estabilidade.
· Produção de frutos (Jo 15.8). União frutífera como Senhor (Jo 15.4,5).

O líder cristão há de observar os dois aspectos básicos do discipulado em sua
própria experiência de vida: a união com Cristo e a dedicação sem reservas, que
Jesus Cristo descreveu em termos de videira e ramos (cf. Jo 15.5ss). Em relação
ao primeiro aspecto, Paulo usa inúmeras vezes a expressão “em Cristo”
para com isso significar que nós estamos nEle e Ele está em nós (Cl 1.27). Por
sua vez, Romanos 6.1-12 indica o significado do regime de dedicação exclusiva a
Jesus.

O alvo do discipulado deve permanecer bem definido na mente do líder cristão: é
a semelhança de Cristo em caráter e em serviço. O Espírito Santo dá-nos o
caráter de filhos de Deus, e nessa linha de raciocínio, o fruto do Espírito é o
retrato desse caráter: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão e autodomínio.

OIKOS, UM CONCEITO PARA O SÉCULO 21

As grandes cidades, sejam capitais legais, formais ou informais são um centro
dominante A característica maior é a concentração de população várias vezes
superior à cidade seguinte em importância. Tem primazia política, econômica,
acadêmica e cultural (a área metropolitana de Tóquio é maior que a metade da
população do Canadá). É também nessa situação que o líder cristão há de exercer
o discipulado.

São características dos habitantes da urbis:

· Um ser solitário. Quem mora na roça vive praticamente num sistema de clã
(estilo semita bíblico). Na cidade grande está perdido.
· Um ser pobre. Mora em invasão.
· Um ser que sonha. Não perdeu essa capacidade.
· Um ser que escuta. E a ele muitos “discipuladores” querem falar.

OIKOS, UM NOVO VELHO CONCEITO

Oikos é o “lar familiar”, a esfera de influência. É o sistema social
primário composto por aqueles que que são relacionados por laços comuns de
família, trabalho e vizinhança. Três são as constantes culturais: o parentesco,
a comunidade e a associação:
· parentesco são laços de sangue ou de afinidade.
· A associação é voluntária com normas, autoridade, mobilização de recursos, e
movidas por amizade, sexo, poder, ideais, interesses, prestígio (sindicatos,
igrejas, clubes).

· A comunidade é determinada pela geografia.

Se isso existe hoje, e é uma constante antropológica, existiu nos dias
neotestamentários. É o oikos (cf. Michael Green. Evangelização na Igreja
Primitiva). Alguns casos são:

· a família de Betânia (Jo 12.1-3);
· a casa de Cornélio, oficial romano (At 10);
· a casa de Lídia (At 16.13-15);
· a família do carcereiro de Filipos (At 16.25-34);
· a casa de Prisca e Áqüila (Rm 16.3-5);
· a casa de Aristóbulo (Rm 16.10);
· a casa de Narciso (Rm 16110.

Os descrentes têm dois problemas: o de informação (não conhecem a um cristão de
verdade), e o de reputação (conhecem um “cristão” que não tem a mente
de Cristo).




IMPEDIMENTOS

Liderança que não encarna ideais e falta de mobilização do povo de Deus. Falar
de liderança é falar de pastores, presbíteros, diáconos, ministros na várias
áreas, professores, conselheiros, relatores, etc. Através da história, Deus tem
chamado homens e mulheres para abençoar Seu povo.

No século 21 muita coisa tem mudado: igrejas querem dinheiro, não poder do
Espírito; santuários cheios de pessoas, mas não de poder; animação, mas não
renovação.

A liderança há de ter visão.

A LIDERANÇA
E A PALAVRA DE DEUS
A liderança
cristã não pode prescindir de utilizar a Bíblia Sagrada como fonte de reflexão,
de meditação, de discipulado e caminho de vida. O desenvolvimento do Salmo 119
bem o demonstra. Afinal, a Bíblia se evidencia Palavra de Deus nas profecias e
cumprimentos, em mostrar o ser humano em sua realidade e pelos seus efeitos na
vida do homem que é transformado em discípulo de Jesus Cristo.

Por essa razão, há o líder de nela meditar (Sl 1.1,2), de nela viver (v.3) e
conhecê-la para crescer em graça (v.3).

OMO A PALAVRA DE DEUS TEM SIDO DESAFIADA

A proposta de um evangelho para o Terceiro Milênio.
Exemplo típico deste desafio à Escritura Sagrada e o seu ensinamento é o feito
por Huáscar Terra do Valle em seu Tratado de Teologia Profana. No capítulo em
que trata de “Além do Bem e do Mal”, Valle explica que a moral do
judaísmo se resume na expressão “Olho por olho, dente por dente”,
buscando provar com tal exposição que o Deus dos hebreus, é mau e vingativo.
Javé é colocado no mesmo nível de Marduque dos babilônios, de Baal dos fenícios
e outros deuses semitas. Civilizado é, no seu entender, o Zoroastrismo que
prega a eterna luta entre o bem e o mal (Ormuz e Arimã) e a presença de Mitra,
encarregado de ajudar o ser humano a lutar pelo bem.

Chega esse pensador à conclusão que a figura de Deus vem do fundo do
inconsciente, referindo-se ao comando instintivo dos genes. Há uma tremenda
carga emocional que inspira profundo respeito e é codificada para o
entendimento do consciente como Deus onipotente, criador, etc. Expressão dessa
carga emocional é o misticismo. Religião, diz ele, é uma adoração da própria
raça, que são os genes, ou na figura de Deus ou na imagem dos ancestrais.

Pecado é a desobediência aos mandamentos dos genes, sendo, a rigor, um conceito
tribal.

A proposta de uma nova moral.

Tratando-se de uma nova moral para o Terceiro Milênio, não se pode negar a
sobrevivência do mais apto, ou seja, daquele que soubesse compatibilizar os
interesses do indivíduo com os da sociedade. As religiões nada fizeram para
melhorar os padrões de moralidade da sociedade como um todo, visto que vivem confinadas
em suas próprias doutrinas, e consideram os elementos de outras religiões como
gentios ou pagãos.

A nova moral, como a nova religião, tem que ser universal excluindo apenas um
grupo, os fanáticos. A idéia de Deus não é indispensável para um comportamento
moral. A proposta é a de um código de ética baseado na ciência, pois a
Astronomia mostra a insignificância do ser humano no universo; a Biologia, a
Genética, a Teoria da Evolução e a Sociobiologia de mostram que o ser humano
não foi criado à semelhança de Deus, e sim do macaco e de outros animais. Valle
declara não acreditar em outra vida, por isso o céu deve ser procurado nesta,
evitando, também que a vida se transforme em um inferno. O destino do ser
humano é entregar aos descendentes os genes que recebeu dos antepassados, o que
o transforma em uma máquina de sobrevivência apenas.

Igreja

É a prostituição da religião. A verdadeira religião consiste em agir
desinteressadamente, visando ao bem da coletividade, e não, entre outras
coisas, citar a Bíblia, fazer sermões de duvidosa sinceridade, ou pagar o
imposto do céu (o dízimo). Por isso, prescinde de Deus. O sentimento religioso
pode ser transmitido de várias maneiras, sobressaindo-se a música, que é emoção
pura. O arrebatamento religioso poderá vir por meio dela.

É PRECISO…

Resgatar o senso da soberania e majestade de Deus.
Ou seja, um conceito adequado de Deus e da sua doutrina. Porque homens e
mulheres levaram Deus a sério, foram escolhidos para altas missões (Gn 6.9;
7.1; 12.1-3; Is 6.1ss); tiveram visões (2Rs 6.17; Ez 1); foram mães de grandes
homens (1Sm 1.1ss; Jz 13.2,3; Lc 1.1ss). Deus não é algo, uma força ou uma
influência. Mas, ensina a Escritura e a nossa própria experiência, uma Pessoa
com quem podemos manter comunhão.

O Nome e o toque de Deus. O Deus à minha imagem e semelhança: o Deus Papai
Noel, o Deus da Arte, o Deus-que-me-obedece, o Deus utilitário.

Quem é Deus? É o Deus único (Is 45.22; Dt 6.4); é o Deus que está presente (Ez
48.35); é o Deus Vivo, Santo e Verdadeiro.

Resgatar o senso da messianidade e da obra de Jesus Cristo.
A doutrina de Cristo, no Cristianismo, dá significado a todas as outras
(Revelação, o Ser Humano, Igreja, Escatologia, etc.) Uma pergunta tão antiga
quanto o evangelho é “Quem dizem os homens que eu sou?” (Lc 9.18,19).
* “O Homem Perfeito”
* “O Homem Ideal”, modelo dos outros
* “A mais bela alma que jamais existiu” (Auguste Sabatier, filósofo
francês)
* “Curvo-me diante de Jesus Cristo como diante da revelação divina do
princípio supremo da moralidade” (Goethe)
* “Um grande mestre”
* “(Jesus com) seu perfeito idealismo, é a mais alta regra da vida, a mais
destacada e a mais virtuosa. Ele criou o mundo das almas puras…” (Ernest
Renan)
* “(foi Jesus quem) pôs à luz, pela primeira vez, o valor de cada alma
humana e ninguém pode desfazer o que ele fez” (Harnack).

Pedro faz a confissão de fé evangélica ao dizer “o Cristo, o Filho do Deus
Vivo” (Mt 16.16).

Um modo de reconhecer os atributos de Jesus Cristo é examinar os seus títulos
no Novo Testamento:
Jesus (“Salvação do Senhor”),
Cristo (“Ungido”),
Senhor, Verbo ou Palavra, etc.

Resgatar o valor da Escritura Sagrada como norma de vida
Os estandartes da Reforma: Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura. O propósito
da Bíblia Sagrada e dos seus registros: para que homens e mulheres venham a
crer (Jo 20.31) e os crentes cresçam (1Pe 2.2,3).

A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4.12), e penetrante e apta.

Livros sugeridos
BLANCHARD, John. Aceptado por Dios. Edinburgh, El Estandarte de la Verdad, 1974.
Trad. J.M. Blauch. 128 p.
BROWN, Lavonn D. Truths that Make a Difference. Nashville, Convention Press,
1980.
CHRISTIAN, C.W. Shaping your Faith. Waco, Word, 1973.
KNUTSON, Kent S. His Only Son Our Lord.
Minneapolis,
Augsburg, 1966.
LAMEGO, Maria J.R. e RAHM, Haroldo. Eu Sou Quem Sou.
SP, Loyola,
1976.82 p.
NEILL, Stephen.
Quem é
Jesus Cristo? Rio, Confederação Evangélica do Brasil, 1961.
Trad.
L. A Caruso
SNOWDEN, Rita. Christianity Close to life.
Glasgow, Collins, 1978. 57 p.
VALLE, Huáscar Terra do. Tratado de Teologia Profana. SP, Alfa Ômega, 1998. 349
p.

Parte XIV
A MISSÃO DA
IGREJA

Na confrontação com a opressão
espiritual
Uma das
questões mais cruciais da missiologia é a definição do próprio conceito de
missão. O que se deve entender por missões cristãs? Quais são a natureza e os
objetivos da missão da igreja? Evidentemente essas perguntas podem receber uma
grande variedade de respostas a partir de diferentes pressupostos e
compromissos teológicos. Uma antiga abordagem foi o debate em torno de evangelização
e “civilização.”1 Hoje é mais comum falar-se em evangelismo e responsabilidade
social. Diferentes autores do século XX têm procurado expressar a missão da
igreja em termos de desenvolvimento, presença cristã, diálogo inter-religioso,
justiça e paz, diaconia e outros conceitos.

Certamente este é um assunto controvertido, mas também sumamente importante
para a igreja e para os cristãos individuais. Como pode a igreja ser o que deve
ser e fazer o que deve fazer se não tiver uma clara compreensão acerca do seu
propósito na sociedade e no mundo?

O objetivo deste estudo é abordar o tema a partir da perspectiva de Samuel
Escobar, um dos mais destacados missiólogos evangélicos contemporâneos da
América Latina. A escolha de Escobar justifica-se por várias razões. Ele tem um
profundo conhecimento da situação religiosa, social e política da América
Latina, tendo trabalhado em vários países como pastor e missionário; é um
teólogo, escritor e orador extremamente articulado e criativo; tem sido um
líder respeitado em círculos missiológicos e teológicos; tem estado em diálogo
constante com representantes de grupos e movimentos importantes do cristianismo
latino-americano e mundial; finalmente, por vários anos ele tem sido professor
em instituições teológicas norte-americanas, o que o coloca numa posição
privilegiada para falar a uma audiência mais ampla e levar ao primeiro mundo
uma valiosa perspectiva do terceiro mundo acerca de missões.

Nossa análise começa com um retrospecto histórico da discussão missiológica
protestante na América Latina. A seguir, iremos fornecer algumas informações
biográficas sobre Samuel Escobar, fazer um apanhado dos principais movimentos
de que tem participado e apresentar alguns dos principais temas e ênfases da
sua reflexão missiológica. Ao longo dos anos, Escobar tem defendido um conceito
de missão que é ao mesmo tempo bíblico, evangélico, contextual e sensível às
complexas realidades espirituais, políticas, sociais e econômicas da América
Latina. Criticando os modelos missionários reducionistas ou dicotômicos, ele
propõe um programa que implica em levar o evangelho integral ao ser humano
integral, na amplitude de suas necessidades e relacionamentos. Concluiremos o
estudo acrescentando algumas de nossas próprias convicções a respeito do tema
em questão, ou seja, a missão da igreja na sociedade.

I. ANTECEDENTES
A reflexão sistemática e abrangente sobre o trabalho missionário protestante na
América Latina foi desencadeada pela célebre Conferência Missionária Mundial,
realizada em Edimburgo em 1910.2 Todavia, esse estímulo ocorreu às avessas, uma
vez que somente foram convidadas para a conferência as sociedades missionárias
que atuavam entre povos não-cristãos.3 Isso excluiu a América Latina do âmbito
daquele encontro, sendo admitidas apenas as missões que trabalhavam entre as
tribos pagãs desse continente.

Durante a conferência, Robert E. Speer (1867-1947), o secretário executivo da
Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos,
convidou vários delegados interessados na América Latina a se reunirem
informalmente para discutir como essa lacuna poderia ser suprida. Como
resultado desses entendimentos, realizou-se em Nova York, em março de 1913, uma
conferência sobre missões na América Latina, sob os auspícios da Conferência de
Missões Estrangeiras da América do Norte.4 Essa conferência criou a Comissão de
Cooperação na América Latina (CCLA), tendo como presidente o próprio Robert
Speer e como secretário executivo Samuel Guy Inman.

Por sua vez, a CCLA patrocinou o Congresso de Ação Cristã na América Latina,
reunido no Panamá em fevereiro de 1916, o maior encontro das forças
protestantes desse continente realizado até aquela data. O Congresso mostrou a
necessidade de maior cooperação em áreas como educação religiosa, missões,
literatura e formação teológica. Mais especificamente, suas metas principais
foram a evangelização das classes cultas, a unificação da educação teológica
através de seminários unidos, o desejo de dar uma dimensão social ao trabalho
missionário na América Latina e o esforço em promover a unidade protestante.5

Na realidade, o Congresso do Panamá foi uma reunião de representantes de juntas
missionárias estrangeiras, antes que um encontro de líderes protestantes
latino-americanos. Dos 230 delegados oficiais, apenas 21 eram latino-americanos
natos.6 Mesmo assim, o evento produziu a primeira discussão séria do
protestantismo latino-americano e estimulou a criação de órgãos cooperativos
regionais em vários países. Por outro lado, o Congresso do Panamá revelou duas
ênfases que se tornariam problemáticas para os evangélicos latino-americanos:
uma atitude simpática para com a Igreja Católica e uma forte influência do
“evangelho social.”

Como resultado do encontro do Panamá, nos anos seguintes realizaram-se dois
congressos missionários regionais. O primeiro, denominado Congresso de Ação
Cristã na América do Sul, reuniu-se em Montevidéu, Uruguai, em 1925. Aqui,
embora a participação de latino-americanos tenha sido maior (o pastor
presbiteriano brasileiro Erasmo Braga foi eleito presidente do congresso), os
norte-americanos ficaram a cargo da organização e presidiram todas as
comissões. Finalmente, em 1929 reuniu-se em Havana o Congresso Evangélico
Hispano-Americano, presidido pelo metodista mexicano Gonzalo Baez-Camargo.
Desta feita, o congresso foi inteiramente organizado e conduzido por
latino-americanos e as ênfases recaíram sobre a nacionalização e o
auto-sustento das igrejas evangélicas.

Uma segunda série de encontros do protestantismo latino-americano foi
representada por três Conferências Evangélicas continentais: CELA I (Buenos
Aires, 1949), CELA II (Lima, 1961) e CELA III (Buenos Aires, 1969).7 Essas
conferências estavam ligadas às denominações históricas, que rapidamente
tornavam-se minoritárias no contexto geral do protestantismo da América Latina.
O protestantismo ecumênico das CELAs recebia a influência do protestantismo
histórico declinante do hemisfério norte, buscava aproximar-se do catolicismo
posterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965) e procurava responder à difícil
situação social do continente com uma teologia radical, que eventualmente
identificou-se com a célebre “teologia da libertação.”

A teologia da libertação adquiriu notoriedade no âmbito católico romano com a
segunda assembléia da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), reunida
em Medellín, Colômbia, em 1968.8 Anos antes, em 1962, os protestantes haviam
criado a organização Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL), após uma
consulta realizada em Huampaní, Peru, no ano anterior. Ela tornou-se o centro
de convergência dos teólogos protestantes da libertação, tendo como órgão o
periódico Cristianismo e Sociedade. Em 1972, as duas correntes teológicas
puseram-se em contato no I Congresso Latino-Americano de Cristãos pelo Socialismo,
realizado em Santiago do Chile.

Ao lado das Conferências Evangélicas continentais (CELAs) e do ISAL, o
protestantismo ecumênico latino-americano criou várias estruturas
para-eclesiásticas com o fim de promover os seus objetivos. Alguns organismos importantes
são ou foram os seguintes: Movimento Estudantil Cristão (MEC), União
Latino-Americana de Juventudes Evangélicas – depois, Ecumênicas (ULAJE),
Agência de Serviços Ecumênicos Latino-Americanos (ASEL), Comissão Evangélica
Latino-Americana de Educação Cristã (CELADEC), Coordenadoria de Projetos
Ecumênicos (COPEC) e Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).9

Uma característica desse protestantismo ecumênico era o crescente declínio do
seu ímpeto evangelizador, em contraste com a vitalidade das igrejas vinculadas
a missões independentes ou ao movimento pentecostal, que mantinham o seu vigor
evangelístico apesar das debilidades da sua teologia. Do seio desse
protestantismo majoritário surgiu o impulso para os Congressos
Latino-Americanos de Evangelização, que constituem a terceira das séries
mencionadas acima: CLADE I (Bogotá, 1969), CLADE II (Lima, 1979) e CLADE III
(Quito, 1992). O CLADE IV deverá realizar-se em setembro do ano 2000 no
Equador.10

O primeiro CLADE foi organizado pela Associação Evangelística Billy Graham, sob
o impulso do Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), convocado pela
revista evangélica Christianity Today. O CLADE I permitiu que líderes
preocupados em relacionar a fé evangélica com a realidade latino-americana compartilhassem
as suas inquietações. Para Valdir Steuernagel, esse congresso teve duas marcas
distintivas:

Manifestou com clareza que, na América Latina, somos e queremos ser
evangélicos. E, como evangélicos, somos e queremos ser latino-americanos.
Naquela ocasião e naquele contexto, tornava-se urgente que, sendo evangélicos,
buscássemos uma teologia da encarnação que estabelecesse as pautas para um
diálogo com a situação de sofrimento e opressão que se vivia em toda a América
Latina.11

Foi no CLADE I que se articulou a criação da Fraternidade Teológica
Latino-Americana, organizada no ano seguinte em Cochabamba, Bolívia, tendo
Pedro Savage como seu primeiro secretário e Samuel Escobar como seu primeiro
presidente. Escobar assim expressou os objetivos da Fraternidade:

Desde o primeiro momento, a FTL procurou ser uma plataforma de encontro e
diálogo teológico da qual participassem pastores, missionários e pensadores
evangélicos, dentro do marco evangélico de uma lealdade comum à autoridade
bíblica e à fé evangélica como base da reflexão e de um compromisso ativo com o
cumprimento da missão cristã.12

Por sua vez, a Fraternidade Teológica Latino-Americana convocou os CLADEs
posteriores, inclusive o que irá realizar-se no ano 2000.13 A Fraternidade
procurou estar tão consciente da problemática social latino-americana quanto o
grupo ISAL, mas ao mesmo tempo preocupou-se em abordar a questão de uma
perspectiva que entendia ser mais bíblica e equilibrada. Ela é também mais
representativa do protestantismo popular da América Latina que a sua congênere
ecumênica. Entre os seus participantes mais destacados e influentes está o
líder que é o enfoque principal deste artigo — Samuel Escobar.14
II. DADOS BIOGRÁFICOS E ESCRITOS
Samuel Escobar nasceu no Peru e freqüentou uma escola missionária inglesa em
Arequipa. Em 1956, ele recebeu o seu grau de mestre em artes e educação na
Universidade de São Marcos, em Lima, após o que dedicou-se ao ensino nos níveis
primário, secundário e superior.

Em 1959 Escobar tornou-se o secretário itinerante da Fraternidade Internacional
de Estudantes Evangélicos (International Fellowship of Evangelical Students) —
representada no Brasil pela Aliança Bíblica Universitária —, visitando
praticamente todos os países da América Latina. Ele trabalhou como missionário
entre estudantes universitários na Argentina e no Brasil15 e foi diretor da
Comunidade Evangélica Kairós, em Buenos Aires. Alguns anos depois, ele fez o
curso de doutorado em filosofia (Ph.D.) na Universidade Complutense de Madri e
eventualmente trabalhou como secretário da Fraternidade Cristã Universitária
(Inter-Varsity Christian Fellowship) do Canadá, com sede em Toronto.16

Escobar foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Fraternidade Teológica
Latino-Americana (1970-1984) e de 1979 a 1985 ocupou o cargo de secretário
geral da Fraternidade Internacional de Estudantes Evangélicos. Nas décadas de
1960 e 1970, ele e outros teólogos latino-americanos tornaram-se bem conhecidos
em círculos evangélicos e ecumênicos internacionais através de sua participação
em importantes conferências. Além disso, há muitos anos ele é membro da
Comissão Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial (World Evangelical
Fellowship), tendo participado de muitas de suas consultas ao redor do mundo.17
Atualmente, Samuel Escobar é presidente das Sociedades Bíblicas Unidas e
professor titular de missiologia no Seminário Teológico Batista do Leste, em
Filadélfia, Estados Unidos.18 Ele também leciona sobre missões em seu país
natal, o Peru.

Samuel Escobar é autor de vários livros sobre teologia e missiologia: Diálogo
entre Cristo y Marx (1967), Quien es Cristo Hoy? (1970, com C.
René Padilla), Decadencia da la Religión (1972), Christian Mission and Social
Justice (1978, com John Driver), Irrupción Juvenil (1978), La Fe Evangelica y
las Teologías de la Liberación (1987), Evangelio y Realidad Social (1988),
Liberation Themes in Reformational Perspective (1989), Paulo Freire: Una
Pedagogia Latinoamericana (1993), entre outros.
Um dos seus livros mais recentes é Desafios da Igreja na
América Latina: História, Estratégia e Teologia de Missões, publicado em 1998
pela Editora Ultimato.

Escobar também escreveu diversos ensaios que foram publicados como capítulos de
livros. Alguns títulos representativos podem dar-nos uma idéia de seus temas
prediletos: “Social Concern and World Evangelism,” em Christ the Liberator
(1971); “The Social Impact of the Gospel,” em Is Revolution Change? (1972);
“Evangelism and Man´s Search for Freedom, Justice and Fulfillment,” em Let the
Earth Hear His Voice (1974); “The Role of Translation in Developing Indigenous
Theologies: A Latin American View,” em Bible Translation and the Spread of the
Church (1990); “Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Christian
Mission (1993); “A Pauline Paradigm of Mission: A Latin American Reading,” em
The Good News of the Kingdom (1993); “La Presencia Protestante en America
Latina: Conflicto de Interpretaciones,” em Historia y Misión: Revisión de
Perspectivas (1994); “The Church in Latin America after Five Hundred Years” e
“Conflict of Interpretations of Popular Protestantism,” em New Face of the
Church in Latin America: Between Tradition and Change (1994); “The Search for a
Missiological Christology in Latin America,” em Emerging Voices in Global Christian
Theology (1994); “The Training of Missiologists for a Latin American Context,”
em Missiological Education for the Twenty-First Century (1996); “Religion and
Social Change at the Grass Roots in Latin America,”19 em The Role of NGOs:
Charity and Empowerment (1997).

Finalmente, seus numerosos artigos têm aparecido em renomados periódicos como
Evangelical Missions Quarterly, Evangelical Review of Theology, International
Bulletin of Missionary Research, Transformation, Missiology e International
Review of Mission, entre outros. Uma vez mais, os próprios títulos de alguns
artigos representativos dão uma clara idéia dos principais temas com os quais
Escobar tem trabalhado ao longo dos anos: “The Social Responsibility of the
Church in Latin America” (EMQ, 1970), “Beyond Liberation Theology: Evangelical
Missiology in Latin America” (IBMR, 1982), “Transformation in Ayacucho: From
Violence to Peace and Hope” (Transformation, 1986), “Missions and Renewal in
Latin American Catholicism” (Missiology, 1987), “Recruitment of Students for
Mission” (Missiology, 1987), “Has McGavran´s Missiology Been Devoured by a
Lion?” (Missiology, 1989), “From Lausanne 1974 to Manilla 1989: The Pilgrimage
of Urban Mission” (Urban Mission, 1990), “A Movement Divided: Three Approaches
to World Evangelization Stand in Tension with One Another” (Transformation,
1991), “Evangelical Theology in Latin America: The Development of a
Missiological Christology” (Missiology, 1991), “Mission in Latin America: An
Evangelical Pespective” (Missiology, 1992), “The Elements of Style in Crafting
New International Mission Leaders” (EMQ, 1992), “500 Years after Columbus:
Requiem or Te Deum?” (EMQ, 1992), “The Legacy of John Alexander Mackay” (IBMR,
1992), “The Whole Gospel for the Whole World from Latin America”
(Transformation, 1993), “Missions´ New World Order: The Twenty-First Century
Calls for us to Give up our Nineteenth-Century Models for Worldwide Ministry”
(Christianity Today, 1994), “Beyond Liberation Theology: A Review Article”
(Themelios, 1994), “A Missiological Approach to Latin American Protestantism”
(IRM, 1998).20

As influências recebidas por Escobar, especialmente através dos movimentos de
que participou a partir da década de 1960, ajudam a entender as preocupações
reveladas pelos títulos dos seus escritos.

III. REFLEXÃO TEOLÓGICA E
ENVOLVIMENTOS
Samuel Escobar identifica-se como um evangélico.21 Isto significa, por um lado,
que ele não tem nenhuma conexão particular com as correntes da teologia da
libertação que foram e ainda são uma expressão importante da teologia
latino-americana, tanto católica quanto protestante. Por outro lado, ele está
longe de partilhar das idéias e compromissos do fundamentalismo, sendo bastante
crítico da sua teologia/ideologia.

Sua identidade latino-americana também é essencial para a reflexão e os
envolvimentos teológicos de Escobar. Tendo vivido em um período de grande
turbulência na história latino-americana, marcado por injustiça e opressão
generalizada, violência política, golpes militares, regimes ditatoriais e caos
sócio-econômico, Escobar e alguns colegas sentiram que não era suficiente
pregar um evangelho puramente espiritual. Para ele, o evangelho tem relevância
para a totalidade da vida. A igreja deve proclamar Jesus Cristo como Salvador e
Senhor porque os seres humanos carecem tanto de reconciliação com Deus quanto
de dignidade e integridade em sua vida neste mundo, como indivíduos e como
membros da sociedade. O evangelho tem implicações sociais e políticas
revolucionárias que não podem ser omitidas.

Conseqüentemente, Escobar tem um profundo interesse em missões. Como pastor,
líder de movimentos estudantis, professor e teólogo, ele sempre interessou-se
pela missão da igreja, especialmente em um contexto de pobreza e sofrimento.
Para ele, a mensagem bíblica em geral, e os ensinos e o ministério de Jesus em
particular, mostram o interesse de Deus por todas as necessidades humanas, e a
igreja deve partilhar desse interesse de Deus. Escobar considera sua tarefa
articular essa missiologia holística e inspirar outras pessoas — estudantes,
pastores, leigos e líderes cristãos — a compartilhar essa visão.

Em seu livro Mission Theology, Rodger C. Bassham descreve o desenvolvimento das
teologias de missão ecumênica, evangélica conservadora e católica,
especialmente entre 1948 e 1975. Ele observa que, em meados da década de 60, os
evangélicos começaram a constituir uma comunidade verdadeiramente global com
uma visão abrangente de missões, em particular depois de 1966, o ano em que
eles patrocinaram duas grandes conferências mundiais sobre missões e
evangelização.22

Os congressos de Wheaton e Berlim marcaram um novo estágio na emergência de uma
identidade evangélica, à medida que evangélicos de todo o mundo começaram a
empreender juntos uma análise da situação enfrentada por aqueles que estavam
envolvidos com missões e evangelismo em todos os continentes. Nesse contexto,
Bassham identifica vários desdobramentos importantes: os primórdios de uma
teologia evangélica de missão altamente representativa (a Declaração de
Wheaton), a luta em torno da relação entre evangelização e ação social, o forte
impacto do conceito de “crescimento da igreja” sobre a teologia evangélica de
missões, e o crescente número de vozes evangélicas provenientes de fora da
América do Norte.

O Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966) – a primeira grande reunião
mundial de evangélicos no século XX – também estimulou congressos regionais de
evangelização em vários continentes. Estes por sua vez contribuíram para o
Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974), que evocou
manifestações de opinião de toda a comunidade evangélica, à medida que os
participantes se debatiam com as questões da teologia de missão no mundo
contemporâneo. Para Bassham, o Pacto de Lausanne demonstra que “os evangélicos
desenvolveram uma teologia de missão amadurecida, positiva e consistente.”23

Em todos esses acontecimentos importantes houve uma decidida participação de
teólogos latino-americanos, Samuel Escobar estando entre eles. Escobar foi
ouvido pela primeira vez por grandes audiências internacionais nas convenções
da Fraternidade Cristã Universitária realizadas em Urbana, Estados Unidos, nos
anos 60. Ele e outros oradores da América Latina desafiaram os evangélicos
norte-americanos a reconhecer a necessidade de promover justiça social e
reformas políticas como parte dos seus deveres como cristãos.24 Na convenção de
1970, Escobar falaria apaixonadamente sobre a necessidade de se estabelecer uma
relação entre as preocupações sociais e a evangelização mundial.

No Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), Escobar estava entre os
muitos líderes do terceiro mundo que falaram enfaticamente em prol das igrejas
nativas. Ele exortou os missionários a superar a mentalidade paternalista,
imperialista e colonialista, a fim de permitir o surgimento de igrejas nativas
alicerçadas na fé, dotadas de uma liderança nacional bem-treinada, e capazes de
atuar eficazmente em seu contexto local.25

No entanto, o principal forum internacional em que se ouviu a voz de Escobar
foi o Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974).
Bassham observa que “as apresentações e discussões de Lausanne mostraram um
espírito de abertura, diversidade de perspectivas e profundidade de análise
jamais alcançado anteriormente em uma assembléia evangélica.”26 Uma das grandes
influências nas deliberações do congresso veio através das contribuições de
oradores do terceiro mundo. O impacto de líderes como Samuel Escobar e C. René
Padilla, através do grupo de Discipulado Radical, foi de especial importância.

Enquanto que a orientação teológica de Lausanne permaneceu firmemente
evangélica, acentuando a autoridade da Bíblia, a singularidade de Cristo e a
necessidade da evangelização, ela também produziu algumas mudanças bem-definidas
na teologia evangélica de missões. O Pacto de Lausanne foi muito além das
declarações evangélicas tradicionais, demonstrando que o evangelismo bíblico é
inseparável da responsabilidade social, do discipulado cristão e da renovação
da igreja. Lausanne abordou o tema abrangente da evangelização mundial,
referindo-se com isso ao ministério e à missão total da igreja.

Em seu capítulo sobre a “Responsabilidade Social Cristã,” o Pacto de Lausanne
declara:

Afirmamos que Deus é tanto o Criador como o Juiz de todos os homens. Portanto,
devemos partilhar da sua preocupação com a justiça e a reconciliação em toda a
sociedade humana e com a libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque
a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, não importa qual seja a
sua raça, religião, cor, cultura, classe, sexo ou idade, tem uma dignidade
intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada.
Também aqui manifestamos o nosso arrependimento, tanto pela nossa negligência
quanto por às vezes termos considerado a evangelização e a preocupação social
como mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o ser humano não seja o
mesmo que a reconciliação com Deus, nem a ação social seja evangelismo, nem a
libertação política seja salvação, todavia afirmamos que tanto a evangelização
como o envolvimento socio-político são parte do nosso dever cristão.27

Muitas vezes durante o congresso os participantes afirmaram ter um interesse
profundo e permanente pela ação social em favor dos pobres e necessitados, até
mesmo ao ponto de se esforçarem pela mudança das estruturas sociais. Oradores
latino-americanos como René Padilla, Orlando Costas e Samuel Escobar proferiram
as declarações mais fortes no sentido de que a preocupação com as necessidades
sociais da humanidade e o envolvimento com as mesmas é uma parte necessária do
testemunho e da responsabilidade dos cristãos em favor do mundo. Bassham cita
as seguintes afirmações de Escobar:

Uma espiritualidade sem discipulado nos aspectos diários da vida — sociais,
econômicos e políticos —, é religiosidade e não cristianismo… De uma vez por
todas, devemos rejeitar a falsa noção de que a preocupação com as implicações
sociais do evangelho e as dimensões sociais do testemunho cristão resultam de
uma falsa doutrina ou de uma ausência de convicção evangélica. Ao contrário, é
o interesse pela integridade do Evangelho que nos motiva a acentuarmos a sua
dimensão social.28

No âmbito continental, Samuel Escobar teve uma importante participação no
Primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I, Bogotá, 1969),
planejado em resposta a pedidos de delegados latino-americanos presentes no
Congresso de Berlim, três anos antes.29 Dentre os 28 discursos principais, a
sua apresentação sobre a responsabilidade social da igreja recebeu a atenção
mais entusiástica. Ele argumentou eloqüentemente que tanto a evangelização
quanto a ação social são necessárias para o testemunho cristão.30 Escobar
afirmou a certa altura:

Existe base suficiente na história da Igreja e nos ensinamentos da Palavra de
Deus para afirmar categoricamente que a preocupação pelo aspecto social do
testemunho evangélico no mundo não é um abandono das verdades fundamentais do
Evangelho; pelo contrário, é levar às suas últimas conseqüências os ensinos a
respeito de Deus, de Jesus Cristo, do homem e do mundo, que formam a base desse
Evangelho… Sustentamos que uma evangelização que não toma conhecimento dos
problemas sociais e que não anuncia a salvação e a soberania de Cristo dentro
do contexto no qual vivem os que ouvem, é uma evangelização defeituosa, que
trai o ensino bíblico e não segue o modelo proposto por Cristo, que envia o
evangelista.31

Essa ênfase achou lugar na Declaração Evangélica de Bogotá, que afirmou: “É
chegada a hora de nós, evangélicos, levarmos a sério a nossa responsabilidade
social.” Os participantes afirmaram que “o exemplo de Cristo devia ser
encarnado na crítica situação latino-americana de subdesenvolvimento,
injustiça, fome, violência e desespero,”32 se os cristãos quisessem testemunhar
fielmente em seu contexto sócio-cultural.

Orlando Costas comenta que 1969 foi para os protestantes o que 1968 havia sido
para os católicos (II Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medellín,
Colômbia). Naquele ano, além do CLADE I, os protestantes latino-americanos
realizaram ainda outra grande conferência – a Conferência Evangélica
Latino-Americana (CELA III), em Buenos Aires. Apesar das diferenças existentes
entre os dois movimentos, Costa vê nos documentos de ambos os eventos a emergência
de novas tendências missiológicas caracterizadas por um tríplice interesse: a
busca de um entendimento histórico de missões, de uma expressão mais autêntica
de unidade cristã no empreendimento missionário e de uma reflexão missiológica
mais séria e profunda. Em sua opinião, essa terceira busca tem assumido várias
formas, uma das quais é o modelo ético-missiológico — missão da perspectiva de
questões éticas — articulado por, entre outros, Samuel Escobar e C. René
Padilla.33

O próprio Escobar acha que o seu modelo pode ser melhor descrito como
“holístico.”34 Ele argumenta que os evangélicos latino-americanos escolheram o
Pacto de Lausanne como uma expressão do seu consenso doutrinário básico e do
seu claro compromisso com um modelo de missão integral e bíblico.35

Em um capítulo sobre a América Latina que escreveu para o livro Toward the
Twenty-First Century in Christian Mission (1993), Escobar menciona duas outras
conferências missionárias latino-americanas, ambas realizadas no Brasil. Uma
delas foi o Primeiro Congresso Missionário Latino-Americano (Curitiba, 1976),
cujo pacto manteve a ênfase de Lausanne sobre a preocupação social como parte
da missão da igreja: “Assim como no passado o chamado de Jesus Cristo e da sua
missão foi um chamado para cruzar fronteiras geográficas, hoje o Senhor está
nos chamando para cruzarmos as fronteiras da desigualdade, injustiça e
idolatria ideológica.”36

Todavia, ele lamenta o fato de que o Congresso Missionário Ibero-Americano
(COMIBAM, São Paulo, 1987) deixou de abordar conceitos básicos do entendimento
de missões, inclusive a clamorosa realidade de pobreza que circundava o próprio
local em que se reuniram os delegados.37

Por essa razão, Escobar é um crítico rigoroso do movimento do Crescimento da
Igreja, iniciado por Donald McGavran em 1960. Ele preocupa-se com a
“missiologia gerencial” que dá ênfase à proclamação verbal e ao crescimento
numérico de adesões à igreja como o principal componente das missões cristãs.
Reagindo contra o triunfalismo fácil das estatísticas e a tirania do controle
de dados, Escobar acredita que o êxito do avanço protestante na América Latina
deve ser interpretado fazendo-se perguntas sérias sobre o seu dinamismo
transformador e a sua contribuição para a justiça nas relações sociais.38

Ele acha que a base desse questionamento tem sido o compromisso claro com a
tarefa de missões e evangelização, mas também o esforço consciente de executar
essa tarefa segundo moldes bíblicos. Assim sendo, testemunha-se o surgimento de
uma nova teologia contextual que conclama à “integridade” da missão e procura
associar o zelo evangelístico com a paixão holística.39

Em resposta a um artigo de McGavran, Escobar afirma que, como evangélico, ele
concorda integralmente com dois pontos do apelo de McGavran: primeiro, a igreja
nunca deve perder o seu senso de missão e do seu chamado para proclamar a Jesus
Cristo como Salvador e Senhor. Segundo, porque Jesus Cristo é Senhor, somente
em seu nome há salvação para a humanidade, e essa singularidade de Jesus Cristo
é essencial para a mensagem da igreja.40 O que Escobar questiona é se uma
pessoa pode realmente evangelizar anunciando a Cristo como Salvador e então
deixar a questão do senhorio de Cristo sobre toda a criação para uma segunda
etapa, que poderá nunca chegar.

Ele observa que os grandes missionários dos primeiros 1800 anos da igreja
dificilmente fariam a distinção entre “espiritual” (evangelização) e “o resto,”
que McGavran faz. Eles não procurariam estabelecer prioridades nesses termos,
pois operavam com uma noção bíblica holística do ser humano. O que o movimento
do Crescimento da Igreja necessita é o corretivo de uma sólida teologia
bíblica. Escobar argumenta que o grande dilema para o qual a missiologia deve
estar alerta é diferente: A obra missionária será realizada segundo o modelo de
Jesus e a prática apostólica, ou irá adotar as técnicas e padrões da sociologia
funcionalista, do marketing e das relações públicas?41

Compreensivelmente, Escobar vê com apreciação o dinamismo e o crescimento do
protestantismo popular (pentecostalismo) na América Latina. Como evangélico,
ele aborda esse movimento na qualidade de “um observador-participante, alguém
que tem procurado ser um crítico e intérprete amoroso – um crítico severo em
alguns pontos – do lado de dentro.”42 Ele destaca várias lições missiológicas
que podem ser extraídas do impressionante crescimento do pentecostalismo
latino-americano: é um movimento religioso (e não social ou político), é um
movimento popular, mobiliza as pessoas para a missão e cria um senso de comunidade.
Escobar declara que

“para as massas em transição, essas igrejas estão oferecendo não somente
um abrigo ou refúgio no sentido mais limitado, mas a única maneira disponível
de encontrar aceitação social, alcançar dignidade humana e sobreviver ao
impacto das forças anômicas que atuam nas grandes cidades.”43

Ele observa que alguns pentecostais latino-americanos também escolheram o Pacto
de Lausanne como expressão do seu compromisso com um modelo de missão holístico
e bíblico.

Se, por um lado, Escobar diverge da escola do Crescimento da Igreja, por outro
lado ele não sente entusiasmo pela Teologia da Libertação. Ele observa como, no
início das missões protestantes na América Latina, o evangelho era a verdadeira
força libertadora nas vidas dos latino-americanos, e a religião oficial uma
força opressora.44 Em décadas recentes, à medida que a Igreja Católica Romana
latino-americana buscou nova relevância social e política, a Teologia da
Libertação foi uma das conseqüências desse processo.

Escobar entende que a Teologia da Libertação é uma voz eloqüente que procura
reinterpretar a história cristã e a mensagem cristã. A missiologia evangélica
deve avaliá-la.45 A Teologia da Libertação confronta a missiologia evangélica
com dois desafios, um na área da consciência histórica e o outro na da
hermenêutica. Com relação ao primeiro, embora Escobar considere inadequadas a
análise marxista e a “escatologia” da Teologia da Libertação, ele admite que a
missiologia evangélica está aprendendo a encarar a história missionária com uma
atitude menos ingênua e mais madura. Ele admite: “Nós não mais podemos aceitar
uma missiologia que recusa-se a levar a sério as realidades políticas e
sociais.”46

Na área da hermenêutica, Escobar reafirma a ênfase evangélica na centralidade
da Escritura e questiona a abordagem fortemente ideológica da interpretação
bíblica demonstrada pelos teólogos da libertação. Ele admite que a hermenêutica
evangélica necessitar ser constantemente purificada de pressuposições
ideológicas, e apela a uma genuína cristologia missiológica que, nas palavras
de René Padilla, enfatize “o discipulado cristão como algo que implica em
colocar a totalidade da vida debaixo do senhorio de Jesus Cristo.”47 Contra o
Cristo “docético” do catolicismo latino-americano tradicional, Escobar e os
seus colegas da Fraternidade Teológica Latino-Americana têm refletido sobre o
Jesus dos evangelhos, sobre como a sua obra e ensino são relevantes para todas
as áreas da vida, tanto individual quanto social. Essa reflexão inclui uma crítica
do cristianismo evangélico na América Latina. Escobar cita novamente seu amigo
René Padilla: “(O evangelicalismo) afirma o poder transformador de Cristo em
relação ao indivíduo, mas é totalmente incapaz de relacionar o Evangelho com a
ética social e a vida social.”48

Essa missiologia cristológica busca um novo modelo para inspirar e moldar a
ação missionária. O material bíblico é abordado a partir de várias perspectivas
possuidoras de significado missiológico. Há uma séria reflexão acerca daquilo
que os evangelhos dizem sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré. Há também
uma preocupação quanto às marcas da missão de Jesus, com o entendimento de que
ser seu discípulo é ser chamado por ele tanto para conhecê-lo quanto para
participar da sua missão. Além disso, há uma busca do significado e da
“integridade” do evangelho — Jesus Cristo é tanto o conteúdo quanto o modelo e
o alvo da proclamação do evangelho.

Escobar identifica essa reflexão missiológica que está vindo não só da América
Latina, mas também da África e da Ásia, como uma missiologia crítica da
periferia. Ele observa que tal missiologia “é caracterizada por uma forte
ênfase hermenêutica que insiste na importância de ler o mundo e ler a Palavra,
mesmo que essa leitura signifique um exame incômodo e sério da herança
evangélica.”49

Ele argumenta que seria grandemente desejável para a globalização das missões e
da teologia evangélica se as diferentes correntes missiológicas do
evangelicalismo (européias, crescimento da igreja, terceiro mundo) pudessem
convergir em um movimento mais articulado e cooperativo para enfrentar a tarefa
missionária do terceiro milênio.

Em um artigo sobre a preparação de líderes de missões, Escobar observa que a
internacionalização das missões cristãs implica em reconhecer que Deus tem
levantado igrejas grandes e florescentes no terceiro mundo. Nessas igrejas do
hemisfério sul, as igrejas dos pobres, Deus está despertando uma nova força
missionária. Escobar gostaria de ouvir as igrejas norte-americanas dizerem:
“Vamos descobrir o que Deus está fazendo em outras partes do mundo,
especialmente nas fronteiras de missão, e como ele o está fazendo, e vamos
unir-nos aos nossos irmãos e irmãs a fim de completarmos a tarefa inacabada.”50

Em sua obra publicada recentemente em português, mencionada no início deste
trabalho, Escobar aborda em cinco ensaios algumas de suas preocupações mais
fundamentais. Inicialmente, ele destaca a importância do treinamento de
missionários e missiólogos para o contexto latino-americano. Nesse sentido, ele
argumenta que “nosso programa de treinamento na América Latina precisa ser
elaborado com base em convicções bíblicas, experiência de vida, consciência
histórica e preocupação pastoral.”51 Mais uma vez ele expressa o seu entusiasmo
pelo protestantismo popular (pentecostalismo) devido a sua ênfase na
mobilização dos leigos, suas formas contextualizadas de culto e ação
missionária e o destaque dado ao ministério do Espírito Santo e ao elemento de
conflito espiritual relacionado com a missão da igreja.

Após salientar o “fator novo” na história do cristianismo que é a transferência
do dinamismo missionário para o hemisfério sul (África, Ásia e América Latina),
ele aponta que os evangélicos latino-americanos têm maior afinidade com os
pietistas, morávios e avivalistas dos séculos XVIII e XIX do que com os
reformadores do século XVI. Isso tem levado Escobar, em anos recentes, a dar
uma grande ênfase ao papel do Espírito Santo nas missões cristãs, ao lado da
sua anterior ênfase cristocêntrica. Ele entende que “os evangélicos
latino-americanos necessitam de um impulso renovado do Espírito Santo e de uma
leitura nova e contextual da Palavra de Deus.”52

Ao mesmo tempo que expressa sua admiração pelas igrejas populares, Escobar
reconhece que, com sua ênfase na conversão de indivíduos ao evangelho, elas
enfrentam os riscos do excesso de individualismo, espírito de competição, falta
de uma eclesiologia clara e atitudes sectárias. Para superar esses problemas
ele novamente propõe o modelo de missão integral, que vai além da experiência
religiosa pessoal para incluir a comunidade e o mundo.53

Finalmente, Escobar alerta os cristãos evangélicos para a necessidade de um
constante processo de encarnação e contextualização que rejeita toda e qualquer
forma de paternalismo e discriminação, a partir da sua própria comunidade
local. Ele encarece a necessidade de uma espiritualidade profunda aliada a uma
preocupação igualmente intensa com as exigências éticas do evangelho, e conclui
com uma análise do modelo missionário de Paulo, com sua notável interação entre
reflexão e ação missionária.

REFLEXÕES FINAIS
Samuel Escobar não se identifica como um reformado ou calvinista. Sua biografia
e envolvimentos revelam uma conexão preponderante com a tradição anabatista,
uma vez que está filiado à Igreja Menonita. Não obstante, algumas de suas suas
ênfases certamente contariam com o aval de João Calvino e de muitos dos seus
seguidores. Nos escritos do grande reformador, seja em seus comentários,
cartas, sermões ou nas Institutas, vemos uma preocupação constante com as
implicações sociais e comunitárias do Evangelho, fato que tem sido amplamente
documentado por diversos pesquisadores.54 Historicamente, os reformados têm
acentuado um conceito abrangente acerca da missão da igreja, muito embora as
suas práticas nem sempre tenham correspondido às suas convicções.

Não precisamos concordar com tudo o que Samuel Escobar tem escrito. Na
realidade, alguns pontos da sua missiologia merecem reparos, como a sua ênfase
quase que exclusiva sobre as massas empobrecidas da América Latina como objeto
da ação missionária da igreja. Ainda que isso não deixe de ser importante, o
nosso continente testemunha o crescimento cada mais acentuado de uma classe
média significativa que também deve ser alvo do interesse da igreja. Ao lado
disso, Escobar tende a superestimar os valores positivos das igrejas populares,
dando pouca atenção a alguns sérios problemas apresentados pelas mesmas,
notadamente nas áreas doutrinária e ética, como é caso de alguns recentes
movimentos neopentecostais.

Não obstante, Escobar e seus colegas têm algo importante a dizer às igrejas
evangélicas históricas da América Latina e do Brasil, que realmente correm o
risco de tornar-se irrelevantes na sociedade caso não despertem para algumas
dolorosas realidades que existem ao seu redor. Tal ocorrência seria um
retrocesso histórico lastimável, pois que a igreja cristã em geral e as igrejas
evangélicas de modo particular têm uma longa e honrosa tradição de “missão
integral” ao mundo. Basta lembrarmos o intenso esforço de missões e de reforma
social gerado pelos grandes despertamentos dos séculos XVIII e XIX, na Europa e
nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo que enviavam pregadores do evangelho para todos os quadrantes do
mundo, as igrejas e cristãos individuais estavam na vanguarda de movimentos em
prol da extinção do tráfico negreiro, da abolição da escravatura, da reforma
das prisões, da luta contra o trabalho infantil, do combate ao alcoolismo e de
tantas outras causas nobres. Infelizmente, no início deste século, as disputas
teológicas tão bem exemplificadas pela controvérsia modernista-fundamentalista
nos Estados Unidos, produziram a concepção dicotômica da missão da igreja que
hoje observamos. Os conservadores em grande parte aferraram-se à idéia de que a
missão exclusiva da igreja é a evangelização, tendo como alvo a conversão
individual, ao passo que os liberais, poucos afeitos à pregação do evangelho,
optaram decididamente por atividades de cunho social.

Num período conturbado da história recente da América Latina, quando nosso
continente foi sacudido por profundas convulsões políticas, ideológicas e
sociais, muitos cristãos aderiram à agenda revolucionária da Teologia da
Libertação. Samuel Escobar e seus companheiros da Fraternidade Teológica Latino-Americana
fizeram um esforço sério no sentido de apresentar uma alternativa a essa
teologia que fosse bíblica, evangélica e igualmente radical em suas
implicações. Eles demonstraram que as igrejas podem permanecer fiéis às suas
convicções históricas e ao mesmo tempo adotar uma postura ousada e coerente em
relação aos problemas sociais.

Como cristãos brasileiros preocupados tanto com a missão da igreja quanto com
as difíceis realidades sócio-econômicas de nosso país, devemos levar a sério os
desafios desses líderes, que falam com convicção, coerência e clareza sobre a
necessidade de um entendimento abrangente da tarefa da igreja no mundo, como
agente e instrumento de Deus. Como Escobar destaca, a atitude e as ações de
Deus em relação ao mundo, especialmente como reveladas no seu Filho, Jesus
Cristo, são o nosso grande paradigma de missão. A Bíblia fala de um Deus que
toma a iniciativa, que busca a humanidade com amor e compaixão, que quer dar
vida e dignidade à sua criação. Isso foi ilustrado de maneira extraordinária
por Jesus, quando, em seu ministério terreno, manifestou o interesse de Deus
por todos os tipos de pessoas e pela pessoa integral.

O Cristo do Novo Testamento interessa-se por todas as necessidades humanas —
espirituais, físicas e emocionais; a sua mensagem e ações desafiam todas as
áreas da vida particular e coletiva. Tudo deve ser colocado debaixo do
propósito e do senhorio de Deus. O reino de Deus e seus novos valores devem ser
manifestos em todos os tipos de relacionamentos humanos. Por causa do seu forte
senso de missão, Jesus lutou e morreu na cruz. Ele instruiu os seus seguidores
a continuarem a sua obra de proclamação do reino (Jo 20.21s).

Evidentemente, esses sublimes ideais nem sempre encontram plena expressão nas
vidas diárias dos cristãos e das igrejas. Inevitavelmente é levantada a questão
das prioridades: uma vez que não podemos fazer tudo que Deus espera que
façamos, vamos concentrar os nossos esforços no que é primordial – a
evangelização – e as outras preocupações cuidarão de si mesmas.

Desde uma perspectiva evangélica, a evangelização – convidar os indivíduos, as
famílias e as comunidades à reconciliação e nova vida em Jesus Cristo –
certamente é básica e essencial. Todavia, a preocupação com prioridades,
praticidade ou, muitas vezes, estatísticas e resultados rápidos não deve cegar
a igreja para a integridade da missão, o propósito total de Deus para a
humanidade e para a comunidade redimida. À medida que a igreja evangeliza, ela
também precisa expressar o interesse de Deus por toda a vida e espelhar a
atitude daquele que disse: “Eu vinham para que tenham vida, e a tenham em
abundância.”

A igreja não deve ser reduzida a uma organização social ou a um grupo de
pressão política como tantos que existem na sociedade. Ela é uma instituição
singular, com uma contribuição e uma mensagem singular. Essa mensagem, se
vivida até as suas últimas conseqüências, necessariamente fará com que a igreja
enfrente as diferentes situações que afetam a vida humana neste mundo caído. É
para essas implicações mais amplas do evangelho e da missão da igreja que
cristãos comprometidos e inquiridores como Samuel Escobar chamam a nossa
atenção.

Obs.: O presente estudo é uma versão ampliada do artigo “Samuel Escobar e a
Missão Integral da Igreja: Uma Perspectiva Latino-Americana,” publicado em Vox
Scripturae 8/1 (Julho 1998): 95-111.

Ver, a esse respeito, o importante livro de William R. Hutchison, Errand
to the World: American Protestant Thought and Foreign Missions (Chicago: The
University of Chicago Press, 1987).
A Conferência de Edimburgo
é considerada o berço do moderno movimento ecumênico. Seus líderes, como Joseph
H. Oldham, John R. Mott e Robert E. Speer, eram provenientes do movimento
cristão de estudantes.
Ver Kenneth S. Latourette, “Ecumenical Bearings of the
Missionary Movement and the International Missionary Council,” em A History of
the Ecumenical Movement: 1517-1948, eds. Ruth Rouse e Stephen C. Neill, 3ª ed.,
353-402 (Genebra: World Council of Churches, 1986).
Daí o subtítulo utilizado:
“Para considerar os problemas missionários relativos ao mundo não-cristão.”
William R. Hogg, Ecumenical Foundations: A History of the International
Missionary Council and its Nineteenth-Century Background (Nova York: Harper and
Brothers, 1952), 131-32.
John Kessler e Wilton M. Nelson, “Panamá 1916 y su Impacto sobre el
Protestantismo Latinoamericano,” Pastoralia 1/2, ed. especial (Novembro 1978):
5-21.
Entre os latino-americanos
presentes no congresso estavam apenas três brasileiros, os presbiterianos Eduardo
Carlos Pereira, Álvaro Reis e Erasmo Braga. Erasmo eventualmente tornou-se o
secretário da Comissão Brasileira de Cooperação, entidade que promoveu o maior
esforço cooperativo até hoje empreendido pelas igrejas evangélicas brasileiras
e foi precursora da Confederação Evangélica do Brasil.
O historiador Sidney Rooy identifica uma seqüência de três séries ou ciclos de
encontros do protestantismo latino-americano.
Ver Samuel
Escobar, “Los ‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” Iglesia y Misión 67/68
(Jan-Jul 1999), 20.
Um dos primeiros e mais
importantes articuladores dessa teologia foi o sacerdote peruano Gustavo
Gutiérrez, autor de Uma Teologia da Libertação (1971). Outros nomes importantes
no campo católico são Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, José Porfirio Miranda,
Hugo Assmann, Henrique Dussel e Leonardo Boff; no campo protestante
destacaram-se José Miguez Bonino e Rubem Alves, entre outros.
Entre os evangélicos conservadores, o órgão cooperativo correspondente ao CLAI
é a Confraternidade de Evangélicos da América Latina (CONELA).
Os próprios locais dessas conferências e congressos são reveladores. Das três
CELAs, duas realizaram-se na cosmopolita e culta Buenos Aires, enquanto que
todos os CLADEs ocorreram nos países andinos, com seus enormes problemas sociais
e suas dinâmicas igrejas populares.
Citado por Tito Paredes em “Visión Histórica de los ‘CLADEs’,” Iglesia
y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 13.
Escobar, “Los ‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” 22.
Os critérios de seleção
procuram ser os mais abrangentes possíveis em termos de faixas etárias dos
participantes, sexo, identidade étnica e filiação eclesiástica. Neste último
aspecto, metade das inscrições é reservada para participantes pentecostais.
Iglesia
y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 35.
Outros membros bem
conhecidos da Fraternidade Teológica são C. René Padilla, Rolando Gutiérrez,
Tito Paredes, Emílio A. Núnez e o brasileiro Valdir Steuernagel.
Sobre a sua relação com o Brasil, o próprio Escobar afirma em uma obra recente:
“Desde a minha primeira visita ao Brasil, em 1953, como jovem delegado peruano
a um congresso mundial da juventude batista, apaixonei-me por esse imenso país.
Em 1959 e 1960 percorri como evangelista e discipulador um bom número de
centros universitários. Cheguei de avião, um velho Catalina da Panair, de
Iquitos, na selva peruana, até Manaus. Dali percorri o Norte e o Nordeste, até
chegar a São Paulo, onde, entre 1962 e 1964, trabalhei como missionário na
frente estudantil, nos primeiros anos da Aliança Bíblica Universitária.” Samuel
Escobar, Desafios da Igreja na América Latina: História, Estratégia e Teologia
de Missões (Viçosa, MG: Editora Ultimato, 1997), 11.
Por força de suas ocupações, Escobar também foi responsável por vários
periódicos. Por exemplo, ele foi editor de Certeza, uma revista para estudantes
universitários, e diretor de Pensamiento Cristiano, um órgão de exposição do
pensamento evangélico, publicado na Argentina.
Por exemplo, em 1982 Escobar participou da Consulta de Teólogos do Terceiro
Mundo, realizada em Seul, na Coréia do Sul. A revista Evangelical Review of
Theology, órgão oficial da referida Comissão Teológica, publicou os trabalhos
apresentados nessa consulta, um deles escrito por Escobar e três colegas
latino-americanos. Ver Samuel Escobar, Pedro Arana, Valdir Steuernagel e
Rodrigo Zapata, “A Latin American Critique of Latin American Theology,”
Evangelical Review of Theology 7, nº 1 (abril 1983): 48-62. Mais recentemente,
em março de 1998, Escobar participou de uma conferência sobre economia e
missões promovida pelo Concílio de Ministérios Internacionais das igrejas
menonitas norte-americanas. Segundo o Mennonite Brethren Herald, “o
missiologista Samuel Escobar disse que um conceito holístico de missão conclama
os cristãos a compartilhar tanto a vida espiritual quanto recursos materiais e
a utilizar instrumentos espirituais, culturais e tecnológicos.”
Escobar também leciona no curso de Administração do Eastern College, em nível
de pós-gradução. Seu papel principal é ajudar os estudantes a considerar as missões
cristãs no contexto da justiça econômica.
Também publicado em Annals of the American Academy of Political &
Social Science 554 (Nov 1997).
Para os leitores não
familiarizados com o inglês, esta é a tradução dos títulos dos artigos de
Escobar: “A responsabilidade social da igreja na América Latina”; “Além da
teologia da libertação: missiologia evangélica na América Latina”;
“Transformação em Ayacucho: da violência à paz e esperança”; “Missões e
renovação no catolicismo latino-americano”; “O recrutamento de estudantes para
missões”; “A missiologia de McGavran foi devorada por um leão?”; “De Lausanne
1974 até Manilla 1989: a peregrinação da missão urbana”; “Um movimento
dividido: três abordagens da evangelização mundial permanecem em tensão entre
si”; “Teologia evangélica na América Latina: o desenvolvimento de uma
cristologia missiológica”; “Missão na América Latina: uma perspectiva
evangélica”; “Elementos de estilo na formação de novos líderes missionários
internacionais”; “500 anos após Colombo: Requiem ou Te Deum?”; “O legado de
John A. Mackay”; “O evangelho inteiro para o mundo inteiro a partir da América
Latina”; “A nova ordem mundial das missões: o século XXI nos conclama a
abandonarmos nossos modelos de ministério mundial procedentes do século XIX”;
“Além da teologia da libertação: artigo-resenha” e “Uma abordagem missiológica
do protestantismo latino-americano.”
Como no Brasil, historicamente, o termo “evangélico” tem sido virtualmente
sinônimo de “protestante,” os estudiosos estão utilizado o anglicismo
“evangelical” para designar especificamente os evangélicos conservadores, em
distinção dos progressistas ou liberais, como ocorre nos Estados Unidos. David
Bosch menciona pelo menos seis tipos básicos: (1) novos evangelicais (como
Billy Graham), que tentam unificar todos os evangelicais; (2) evangelicais
separatistas (como Carl McIntire e o seu Concílio Internacional de Igrejas
Cristãs); (3) evangelicais por confissão (como Peter Beyerhaus); (4)
evangelicais pentecostais e carismáticos; (5) evangelicais radicais (como
Samuel Escobar, René Padilla e Orlando Costas); e (6) evangelicais ecumênicos
(como John Stott, Festo Kivengere e Arthur Glasser).
Ver Internet,
www.homenet.com.br/cem/postura.html.
Rodger C. Bassham, Mission Theology: 1948-1975 – Years of Worldwide Creative
Tension – Ecumenical, Evangelical, and Roman Catholic (Pasadena, Califórnia:
William Carey Library, 1979), 291.
Ibid., 295.
Ibid., 187.
Ibid., 225.
Ibid., 231.
John Stott, The Lausanne Covenant: An Exposition and Commentary (Minneapolis:
World Wide, 1975), 25.
Bassham, Mission Theology, 237.
Escobar atribui ao CLADE I,
que recebeu 920 delegados de 25 países, o surgimento de uma “teologia nacional”
entre os evangélicos latino-americanos. Desafios da Igreja, 22. Esse congresso
foi o berço da Fraternidade Teológica Latino-Americana.
Quando Escobar concluiu sua palestra, os delegados colocaram-se de pé e
demonstraram a sua aprovação aplaudindo-o entusiasticamente. A palestra foi
publicada na íntegra por Edições Vida Nova. Ver Samuel Escobar, A
Responsabilidade Social da Igreja, Tópicos do Momento 3 (São Paulo: Vida Nova,
1970).
Ibid., 7-8.
Bassham, Mission Theology, 262.
Orlando Costas, “Missiology in Contemporary Latin America: A Survey,” em
Missions and Theological Education in World Perspective, ed. Harvie M. Conn e
Samuel F. Romen (Farmington, Michigan: Urbanus, 1984), 104.
“Holístico,” do grego hólos
(“inteiro”, “completo”), denota o que diz respeito a totalidades ou sistemas
completos, em contraste com a análise, tratamento ou divisão em partes. A
medicina holística, por exemplo, procura tratar tanto a mente como o corpo.
Samuel Escobar, “Mission in Latin America: An Evangelical Perspective,”
Missiology 20 (Abril 1992), 244.
Samuel Escobar, “Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Mission,
ed. James M. Phillips e Robert T. Coote (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 131.
Ibid. O COMIBAM deu uma
forte ênfase à segunda vinda de Cristo.
Ibid., 133.
Um bom exemplo das idéias de Escobar acerca da evangelização pode ser
encontrado no seu artigo “Vivir y Evangelizar,” em Pensamiento Cristiano 93
(Março 1978): 170-175.
Samuel Escobar, “Has McGavran´s Missiology been Devoured by a Lion?”
Missiology 17 (Julho 1989), 349-350.
Ibid., 350.
Escobar, “Mission in Latin America,” 241.
Escobar, “Latin America,” 134. “Anômicas”
deriva de “anomia,” a instabilidade social resultante do colapso dos padrões e
valores; no sentido individual, significa a inquietação, alienação e incerteza
que decorre da ausência de propósito ou ideais.
Samuel Escobar, “Beyond Liberation Theology: Evangelical Missiology in
Latin America,” International Bulletin of Missionary Research 6 (Julho 1982),
108.
Ibid., 110.
Ibid., 111.
Samuel Escobar, “Evangelical Theology in Latin America: The Development of a
Missiological Christology,” Missiology 19 (Julho 1991), 316.
Ibid., 321.
Ibid., 328.
Samuel Escobar, “The Elements of Style in Crafting New International Mission
Leaders,” Evangelical Missions Quarterly 28 (Janeiro 1992), 7.
Escobar, Desafios da Igreja
na América Latina, 19.
Ibid., 48. Há poucos anos, Escobar participou de mais uma consulta da Comissão
Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial. Tal consulta, realizada em
Londres de 9 a 14 de abril de 1996, teve como tema “Fé e Esperança para o
Futuro: Por Uma Teologia Evangélica Vital e Coerente para o Século XXI.”
Escobar foi o autor de um dos seis estudos apresentados ao plenário, sob o
título “Discernindo o Espírito na América Latina,” em que revela o seu grande
interesse pela dimensão pneumatológica da missão da igreja e conclama os
evangélicos a estarem receptivos ao novo vento do Espírito que sopra na igreja,
gerando uma espiritualidade nova e radical.
Samuel Escobar,
“Mañana – Discerning the Spirit in Latin America,” Evangelical Review of
Theology 20/4 (Outubro 1996).
Escobar, Desafios da Igreja
na América Latina, 64. É o caso de André Biéler, O Pensamento Econômico e
Social de Calvino, trad. Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Casa Editora
Presbiteriana, 1990). Ver também, do autor do presente artigo, “Amando a Deus e
ao Próximo: João Calvino e o Diaconato em Genebra,” Fides Reformata 2:2
(Jul-Dez 1997), 69-88, e “Jonathan Edwards: Teólogo do Coração e do Intelecto,”
Fides Reformata 3:1 (Jan-Jun 1998), 72-87

Parte XV
A MISSÃO
INTEGRAL DA IGREJA
 Introdução:
Que é missão integral? O que envolve a missão da Igreja a ponto de
investigarmos o que é mito e o que é realidade?

Na procura de respostas para estas e outras perguntas semelhantes é que este
estudo veio a lume. Não é um trabalho original e nem exaustivo. Não é original
porque missão integral já faz parte da discussão teológica da Igreja há algum
tempo. Não é exaustivo porque o número de teólogos, missiólogos e pensadores
que têm escrito e palestrado sobre a missão da Igreja, e em seus vários
aspectos, é enorme. Um bom exemplo da diversidade da missão integral é o livro
A Missão da Igreja, organizado pelo Dr. Valdir Steuernagel em 1994. Nele nada
menos que 27 articulistas tratam da missão integral da Igreja. Mas existem
muitos outros autores que não aparecem no livro de Steuernagel. Além disso,
obras como as de René Padilla e Timóteo Carriker são dignas de nota, conforme
observamos no capítulo sobre o conceito de missão integral da Igreja na
teologia contemporânea. Por causa dessa variedade de autores foi preciso adotar
alguns critérios, vez ou outra mencionados no corpo deste trabalho.

Nosso estudo divide-se em três capítulos principais. O primeiro trata da missão
integral como mito e realidade propriamente dito. Os outros dois são uma explanação
bíblico-teológica e pragmática do primeiro. Nosso objetivo é mostrar que a
Igreja evangélica brasileira só pode ser verdadeiramente missionária quando no
desempenho de sua missão integral.

I. O MITO E A REALIDADE DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

1.1. O mito da missão integral da Igreja

O que poderíamos denominar de mito ou mitos na missão integral da Igreja? Após
relativa pesquisa e análise cuidadosa deste assunto, chegamos à conclusão que
dois pontos resumiriam bem o mito de missão integral da Igreja. O primeiro
deles estaria relacionado a um debate que perdura já algum tempo na igreja
evangélica mundial e na brasileira em particular, a saber, a polarização entre
evangelização e a responsabilidade social da Igreja. O segundo mito estaria
diretamente ligado à dicotomia humana, isto é, o ser humano considerado em
partes separadas ao invés do todo. Alguns fatores que possibilitaram o
surgimento desses mitos é o que veremos, também, neste capítulo.

a. O mito da polarização teológica

Que evangelização e responsabilidade social são verdades bíblicas para a Igreja
de Jesus Cristo não há dúvida, ou pelo menos não deveria haver (1). Felizmente,
a consciência social da igreja brasileira hoje parece ser maior do que algumas
décadas atrás. Entretanto, se por um lado a Igreja vem melhorando em sua visão
social, por outro, ainda não amadureceu tanto em sua concepção de missão
integral, justamente porque ao se discutir prioridades (estamos falando apenas
de evangelização e ação social) a igreja deixa de fazer bem uma e outra coisa.

Evangelização e responsabilidade social devem andar juntas como causa e efeito
de uma mesma verdade evangélica. Com isso não queremos dizer que evangelização
e ação social devam ser entendidas como sendo a mesma coisa. Por outro lado, também
não estamos afirmando que sejam duas coisas diametralmente separadas. “Um
ministério integral verdadeiro define a evangelização e a ação social como
funcionalmente separadas, mas relacionalmente inseparáveis e necessárias para
um ministério integral da igreja” (YAMAMORI, 1998, p. 14).

O relatório da Consulta Internacional realizada em Grand Rapids (EUA),
presidida por John Stott em 1982, concluiu que na questão da primazia entre
evangelização e ação social “a evangelização tem uma certa prioridade. Não
estamos falando em prioridade temporal, mas em prioridade lógica, pois há
situações em que o ministério social precisa vir primeiro” (STOTT, 1983,
p. 23).

E na prática?

Na prática, como aconteceu no ministério público de Jesus, estas duas
realidades (evangelização e ação social) são inseparáveis, pelo menos nas
sociedades livres, e raramente teremos de optar entre uma e outra. Em lugar de
estarem em competição, elas se sustentam e fortalecem mutuamente, numa espiral
ascendente de preocupação crescente (STOTT, 1983, p. 23)

A discussão pouco louvável no meio cristão sobre a missão prioritária da Igreja
no mundo também levou o comitê de Lausanne a elaborar uma declaração sóbria e
amadurecida. Diz assim, em seus artigos, o chamado Pacto de Lausanne: “Os resultados
da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um
serviço responsável no mundo” (O PACTO DE LAUSANNE, 1983, IV). E ainda:

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos
partilhar o seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade
humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a
humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça,
religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade
intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada.
Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes
considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora
a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social
evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a
evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever
cristão. (Idem, V) (Grifos nossos)

E mais: “A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na
totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é
morta” (Idem, V).

Evangelização e responsabilidade social são partes integrantes da missio Dei,
portanto, inseparáveis e indispensáveis na missão integral da Igreja de Jesus
Cristo no mundo e para o mundo (2).

Façamos, a seguir, uma rápida apresentação de dois grandes movimentos que
contribuíram negativamente para o distanciamento da Igreja de sua missão
integral.

O evangelho social e a teologia da libertação

A influência perniciosa e nefasta do liberalismo teológico do século XX, em
particular das teologias do evangelho social e da libertação, foi um dos
fatores que colaboraram para a polarização entre evangelização e a ação social
no meio evangélico. O esforço de se combater a teologia do evangelho social e
depois a teologia da libertação (por causa da ênfase social à parte do
evangelho bíblico e de uma filosofia marxista, principalmente desta última),
provocou um mal-estar na igreja brasileira. Resultado: No afã de se preservar o
espiritual, a Igreja acabou se equivocando e não enxergou a mensagem social
autêntica que o mesmo evangelho oferecia.

Se de um lado as teologias liberais mencionadas cometeram o pecado do social
sem espiritualidade, a igreja evangélica brasileira, por outro lado, pecou na
espiritualidade sem encarnação. Contudo, há de se admitir que, por sua vez,
tanto o evangelho social quanto a teologia da libertação provocaram uma reação
positiva na Igreja. A Igreja foi levada a refletir seus valores, dando uma
reviravolta considerável nessa história toda. Hoje em dia, boa parte das
igrejas brasileiras está envolvida em trabalhos sociais, e sem qualquer
preocupação de ser rotulada e perseguida por isso, como ocorria em tempos
atrás.

b. O mito da dicotomia humana

Ver o indivíduo completo, não dictomizado, é uma necessidade urgente em nossos
dias, conforme veremos no decorrer deste estudo. Um dos maiores males cometidos
na igreja evangélica brasileira de hoje é limitar o conceito de salvação,
achando que Cristo veio salvar apenas a alma do homem ou da mulher.
O ser humano – homem ou mulher – é um todo e deveria sempre ser visto assim,
como o é pela Bíblia. Partindo da perspectiva bíblica, o ser humano poderia ser
definido como sendo ‘uma comunidade integrada de corpo e alma’ (STOTT, 1989, p.
38). Entretanto, a ausência da compreensão do indivíduo como ser integral, pela
própria Igreja, tem levado a mesma a desvalorizar não somente o ser humano na
sociedade, como também o próprio evangelho para o qual ela foi chamada a
proclamar no mundo, pois, como salientou muito bem Manfred (1987, p. 59),
“só existe fidelidade na evangelização quando existe fidelidade na missão
integral da igreja”.

Veremos a seguir que pelo menos três fatores contribuíram negativamente para o
surgimento do mito da dicotomia humana, isto é, o platonismo, a influência
missionária européia e norte-americana e a teologia sistemática.

A influência missionária e da teologia sistemática

Norman L. Geisler (1985, p. 154) observa que parte do descuido do “homem
total” tem sua origem na ênfase platônica não-cristã sobre a dualidade do
ser humano. “Esta ênfase foi dirigida pelos cristãos na Idade Média e tem
sido transmitida para o presente”. Em síntese o platonismo argumenta que o
ser humano é essencialmente um ser espiritual e que apenas tem conexão
funcional com um corpo que, na melhor das hipóteses, é um impedimento e, na
pior, um grande mal. A correção deste erro está no ensino bíblico acerca da
unidade essencial do ser humano.

Além da influência platônica, os missionários europeus e norte-americanos que
aqui estiveram parece que não conseguiram passar adiante a idéia da missão
integral. Nossa herança missionária é deveras espiritualista. O que é
facilmente percebido nas mensagens bíblicas e hinos que os missionários nos
legaram. Porém, isso não quer dizer que não houve qualquer tipo de envolvimento
social, pelo contrário, a história da igreja brasileira registra dignos exemplos
de missionários como Robert e Sarah Kalley, Ashbell Green Simonton e outros,
que desempenharam um papel social muito grande em nosso país. Mas então, por
que a igreja evangélica brasileira de modo geral não herdou a totalidade da
visão desses bons exemplos de missionários, e durante tanto tempo vem
caminhando lentamente na questão social? Pelo menos por três razões principais:
Uma delas tratamos há pouco, isto é, a omissão da Igreja, até hoje sentida, por
causa daquela reação ao evangelho social e à teologia da libertação. Outra
razão é que a maioria dos missionários estrangeiros que aqui chegaram tendia
para a corrente do evangelho individual (KRIEGER, In Teses,1988, pp. 39,40).
Isso explica, embora não justifique, é claro, nosso espiritualismo desencarnado
no campo social; o que, de certa forma, contribuiu para a difusão do evangelho
social e principalmente da teologia da libertação em nosso país. Uma terceira
razão foi observada pelo missiólogo norte-americano Timóteo Carriker, quando
diz que boa parte dos missionários europeus e norte-americanos que aqui
estiveram “realizaram o trabalho, ora nobre e sacrificial, ora dominador e
paternalista, mas, com raríssimas exceções, não transmitiam a mesma visão
missionária para as igrejas autóctones. Assim, deixaram a impressão de que
missões é coisa que o Brasil recebe e não que faz (CARRIKER, 1993, p. 55).
(Grifo nosso) (3)

Outro fator que infelizmente tem colaborado para a dicotomia humana é a
teologia sistemática, independente de sua linha confessional. Embora a teologia
sistemática seja uma tentativa interessante de organizar em um ou mais
compêndios conceitos e pensamentos religiosos variados, é preciso ter cautela
com a mesma. Bruce A. DEMAREST, em seu artigo Teologia Sistemática (In
EHTIC1990, p. 515), faz uma advertência importante:

Alguns consideram a teologia sistemática como um depósito eterno e inalterável
de verdades divinas. Embora as Escrituras sejam invioláveis, novos
entendimentos teológicos e reformulações são necessários a cada geração.
Primeiro: porque à medida que a linguagem e as formas culturais mudam, o
conjunto da verdade cristã deve ser vestido em roupagens contemporâneas a fim
de permanecer inteligível; e segundo: porque novas questões e problemas
continuam a surgir para desafiar a igreja. Por isso, de tempos em tempos, o
texto bíblico precisa ser reinterpretado e reaplicado ao contexto moderno. No
estudo da natureza do ser humano na teologia sistemática, na análise da questão
corpo, alma e/ou espírito, e em seus conceitos dicotômicos e tricotômicos,
perdeu-se de vista a perspectiva bíblica de que somos um todo. E, certamente,
isto tem sido um dos fatores prejudiciais na compreensão da missão da Igreja.

1.2. A realidade da missão integral da Igreja

Em contrapartida ao mito da teologia de missão integral da Igreja, destaquemos
dois fatores que, em nossa opinião, expressam bem a realidade dessa missão.

a. A missão da Igreja é holística e diaconal

Por mais óbvia que pareça esta afirmação, sabemos que a ortopraxia da missão
integral não é tão óbvia como deveria ser. Não é fácil inculcar na cabeça do
nosso povo que o envolvimento da Igreja deve ser total. Não só no que se refere
ao indivíduo, mas também à criação de Deus em geral. Onde está, por exemplo, a
consciência ecológica da Igreja? (4)

Além disso, a Igreja como sal da terra e luz do mundo deve fazer a diferença
nos vários setores da sociedade, principalmente no socorro aos menos
favorecidos.

A injustiça social, verdadeira afronta contra a imagem e semelhança de Deus,
tem solapado nosso país e a Igreja muitas vezes tem se afastado como se nada
tivesse com isso. É verdade que a Igreja não é uma instituição
político-partidária que deva defender qualquer bandeira política. É mais que
isso. Ela é uma instituição divina supra partidária. Por isso mesmo, tem o
dever ético e moral de ser mais justa do que qualquer governo ou partido
político pretenda ser. Conforme salientou Jorge GOULART (1941, p. 229), a
Igreja “não prega uma forma de governo, mas cria uma consciência
democrática, à luz dos conceitos de liberdade, de dignidade humana, de respeito
ao próximo e, sobretudo, de amor a Deus e à humanidade”.

Os cristãos foram postos no mundo para ser a consciência da sociedade, como
diria Orlando COSTAS (1979, p. 102). A Igreja deve ser a voz do que clama no
deserto a fim de fazer a diferença no mundo. Precisa deixar o monte da
transfiguração (entenda-se contemplação) e descer até ao sopé onde se encontram
os excluídos. Uma opção preferencial pelos pobres? E por que não? O evangelho é
para todos, porém, somente o pobre precisa ser atendido também em suas
necessidades básicas prioritárias, por causa da má distribuição de renda de
nosso país, como resultado de uma política social opressora.

Quando se coloca o pobre e o rico lado a lado, em se tratando de benefícios a
serem recebidos, o primeiro sempre sai perdendo. É preciso sim que os pobres
desse mundo recebam um tratamento preferencial porque foi assim que Deus os
tratou na Bíblia, como veremos mais adiante.

Orlando Costas via nesta dimensão diaconal ou encarnacional da Igreja “a
intensidade de serviço que a igreja presta ao mundo, como prova concreta do
amor de Deus” (COSTAS, 1994, p. 113). E ainda:

Esta dimensão envolve o impacto que o ministério reconciliador da igreja exerce
sobre o mundo, o seu grau de participação na vida, conflitos, temores e
esperanças da sociedade e a medida em que seu serviço ajuda a aliviar a dor
humana e a transformar as condições sociais que têm condenado milhões de
homens, mulheres e crianças à pobreza. Sem esta dimensão a igreja perde sua
autenticidade e credibilidade, pois somente na medida em que conseguir dar
visibilidade e concreticidade à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar
ser ouvida e respeitada. (COSTAS, 1994, pp. 113,4).

b. A missão da Igreja é bíblica

Quando dizemos que a missão integral da Igreja é bíblica, significa que ela (a
missão integral da Igreja) não é uma filosofia cega ou um modismo passageiro. A
missão da Igreja não é filosofia e muito menos modismo. É uma verdade bíblica
que precisa ser resgatada e praticada em sua totalidade. A Bíblia não existe
para o deleite de nossa mente carnal. A Bíblia não incentiva nenhum blá-blá-blá
teórico desinteressado. A Bíblia é doutrina e prática. A opção por apenas um
desses seus aspectos (doutrina ou prática) causará profunda ojeriza em Deus.
Sua Palavra é um todo, como um todo deve ser a missão integral de Sua Igreja.

A integralidade da Igreja é bíblica e se baseia na missão integral de Deus. A
missão integral da Igreja é ampla, assim como é ampla a missão integral de
Deus, visto que a dimensão dessa missão é vertical e horizontal. O compromisso
da Igreja com Deus (vertical) resulta nela um compromisso com a criação em
geral e com o ser humano em particular (horizontal). Não é por acaso que
GRELLERT (1987, p. 22) resumiu a missão intergral da Igreja em “comunhão,
adoração, edificação, evangelismo e serviço”.

No capítulo 2 desse estudo falaremos um pouco mais sobre a base bíblica da
missão integral da Igreja.

II. A BASE BÍBLICA E TEOLÓGICA DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

2.1. A missão integral na Bíblia

A missão integral tem raízes bíblicas profundas. Tetsunao YAMAMORI (1998, p.
15) salienta:

Tanto no Antigo como no Novo Testamentos a Bíblia ordena à igreja que ministre
à pessoa como um todo. Isto quer dizer que se deve atender tanto às
necessidades físicas como às espirituais, que estão inseparavelmente
relacionadas, ainda que sejam separadas em termos funcionais.

No capítulo anterior mencionamos que a missão integral da Igreja é ampla. Isso
é verdade. Por isso mesmo nosso objetivo agora será tratar, à luz da Bíblia,
apenas de um dos aspectos da missão integral, isto é, aquele que está
diretamente relacionado à pessoa do indivíduo ou, mais especificamente, aos
pobres deste mundo. “Nada é mais claro na Bíblia do que ser Deus o campeão
dos pobres, dos oprimidos e dos explorados”. (BRYANT, 1988, p. 56).

Segue abaixo uma abordagem resumida sobre o assunto.

a. No Antigo Testamento

Se folhearmos as páginas do Antigo Testamento veremos que existe uma clara opção
preferencial de Deus pelos pobres e oprimidos. Isto não significa que Deus faça
acepção de pessoas ou de classe social. De modo algum! Mas com certeza Ele olha
de maneira especial para aqueles que não têm vez, que não têm voz. Só no AT nós
temos 300 referências sobre causas, realidade e conseqüências da pobreza. Vinte
e cinco palavras hebraicas para falar do oprimido, do humilhado, do
desesperado, do que clama por justiça, do fraco, do desamparado, do destituído,
do carente, o pobre, a viúva, o órfão, o estrangeiro. Em Isaías 58.3-8, quando
o povo de Deus pergunta: “Por que é que nós oramos e jejuamos e tu não nos
respondes?”, Deus diz: “É porque vocês jejuam e oram para a
iniqüidade, vocês estão oprimindo os pobres, e seus próprios operários, e o
jejum que eu quero, é que vocês cortem as ligaduras da impiedade, é que ajam
com justiça em relação aos desamparados”. Veja também Isaías 1.17; 10.1,2.

Ezequiel 16.49 afirma que o pecado de Sodoma, além do orgulho, da vaidade e da
imoralidade era que aquela cidade, sendo rica e abastada, nunca atendeu o pobre
e o necessitado. Se olharmos na legislação do povo de Deus no Velho Testamento,
veremos que o objetivo de toda a legislação era que não houvesse miseráveis e
injustiçados no meio do povo de Israel.

b. No Novo Testamento

Jesus Cristo é a revelação máxima da missão integral de Deus no mundo. No
início de seu ministério terreno o Senhor Jesus deixou bem clara a sua missão
quando declarou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu
para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e
restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar
o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18,19). O cuidado de Jesus com os pobres
e marginalizados é enorme. “Nós nunca encontramos Jesus Cristo de dedo
apontado contra os pobres e marginalizados, mas enfrentando exatamente aqueles
que oprimiam o povo, quer pelo sistema religioso, quer pelo sistema econômico,
ou sistema político de sua própria época”. (MACEDO FILHO, 1988, p. 35).

Em Mateus 4.23 lemos também: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando
nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e
enfermidades entre o povo”. E ainda em Mateus (cap. 25) notamos que além
da questão do se “fazer igualmente a Cristo”, a nossa atitude para
com os desfavorecidos deste mundo será um critério importante de julgamento no
Juízo Final.

Os apóstolos deram continuidade ao tema da missão integral de Jesus em seus
ministérios. Veja por exemplo Atos 5 e 6.

Em Jerusalém as três colunas do colégio apostólico (Pedro, Tiago e João)
recomendaram a Paulo e a Barnabé que não se esquecessem dos pobres, “o que
também me esforcei por fazer”, diz o apóstolo em Gálatas 2.10.

Várias igrejas foram orientadas por cartas a agirem com a mesma visão de
integralidade bíblica dos apóstolos. Destacamos, dentre outras, as igrejas de
Corinto (II Co 8 e 9), da Galácia (Gl 6.2-10) e das doze tribos da dispersão
(Tg 2. 1-7,14-26; 5.1-6).

2.2. A missão integral na teologia contemporânea

O número de teólogos que escreveram e escrevem sobre a missão integral da
Igreja não é pequeno. Um bom exemplo disso é a obra do Dr. Valdir Steuernagel
em que ele reúne nada menos que 27 autores. Falar do trabalho de cada um desses
autores, sem considerar outro tanto que Steuernagel não menciona, seria
simplesmente impossível para as dimensões do nosso trabalho. Estou tomando,
então, a liberdade de selecionar apenas dois deles, a saber, Timóteo Carriker e
René Padilla, e explico porquê. Em primeiro lugar, nossos dois teólogos são
duas das maiores autoridades mundiais sobre a missão integral da Igreja. Em
segundo lugar, cada um deles escreveu um livro com o mesmo título (Missão
Integral) com cerca de 300 páginas cada. Em terceiro lugar, vale a pena conferir
a ênfase e a abordagem distintas que ambos conferem em seus respectivos livros
acerca da missão integral da Igreja.

a. O conceito de Timóteo Carriker

O livro de Timóteo Carriker é uma teologia bíblica de missões. Seu objetivo é
ressaltar as diversas dimensões, na palavra de Deus, da identidade e tarefa
missionárias do povo de Deus (1992, p. 11). A seguir exporemos alguns dos
principais conceitos da missão integral de Carriker.

No Antigo Testamento Javé é o Deus soberano sobre toda a sua criação. Esta
imagem de Deus está no coração do Novo Testamento também. Um Deus soberano e
misericordioso é o ator último das parábolas de Jesus. É este Deus salvador que
alcança além das leis judaicas. Sua aproximação do homem exige a atitude de
conversão. O seu reino tem um escopo universal até cósmico. Os marginalizados,
mulheres, samaritanos, e gentios recebem a misericórdia de Deus.

Deus tem um plano salvífico que alcança tanto judeu quanto gentio, e Ele vai
cumpri-lo. A confiança no cumprimento do seu plano dá a igreja motivação para
perseverar até o fim.

A igreja, contudo, não fica passiva em relação à soberania de Deus. Reconhecer
que a missão é essencialmente de Deus, missio Dei, não significa que a
participação da igreja na evangelização mundial tem pouca significância. Muito
pelo contrário, a missio Dei exige os missiones eclesiae. São praticamente dois
lados da mesma moeda.

O Deus da Bíblia é o Deus que age na história. Não é principalmente apresentado
como um conceito ou idéia, uma doutrina que podemos elaborar. Ele é, acima de
tudo, pessoal e age nos eventos e experiências concretas das nossas vidas. Deus
não se restringe a uma dimensão mística da nossa vida. Atua através do êxodo,
do dilúvio e do cativeiro no Velho Testamento, todos eventos históricos até
“seculares”. Ele atua através da vida humana do seu filho Jesus,
através da sua morte e ressurreição, eventos bem visíveis que fazem parte da
nossa história.

É na nossa história humana que Deus se revela e o faz com movimento para
frente. Percebemos, através da história, a sua conclusão. Assim, a perspectiva
cristã da história é essencialmente escatológica. A humanidade está indo na
direção do cumprimento, julgamento e salvação, e este movimento entrou na sua
fase final com a ressurreição de Cristo. Hoje é o dia da salvação.

b. O conceito de René Padilla

A abordagem de René Padilla é mais teológica e menos bíblica. Por “mais
teológica” queremos dizer que os argumentos de Padilla estão mais na área
das idéias, o que não diminui, de modo algum, o valor da obra dele. Por
“menos bíblica” queremos afirmar que o livro de Padilla não é uma
teologia bíblica nos moldes do livro de Timóteo Carriker, porém, seus
princípios são eminentemente bíblicos. Apesar de não termos o objetivo de
comparar os dois autores, vale ressaltar que as aplicações de Padilla são mais
contextualizadas que as de Carriker.

Padilla desenvolve seu tratado em termos de desafios. Diz ele que o maior
desafio que a igreja enfrenta atualmente é o desafio da missão integral (1992,
p. 139).

O desafio da missão integral, por sua vez, subdivide-se em outros três, a
saber: O desafio da evangelização e do discipulado, o desafio da colaboração e
da unidade e o desafio do desenvolvimento e da justiça. Seus argumentos
principais são os seguintes:

Um conceito um tanto romântico da obra missionária impulsionou as missões a
concentrarem seu esforço em pequenas tribos nas selvas, esquecendo-se das
cidades. A “explosão urbana” é um fenômeno mundial. A missão urbana,
portanto, é uma prioridade em todas as partes. Lá, na cidade, com todo seu
poder desumanizante, vê-se com clareza a necessidade de um evangelho com poder
para transformar a totalidade da vida. Num mundo que está se urbanizando
rapidamente, a cidade é, sem dúvida, o símbolo do desafio que a evangelização e
o discipulado colocam para a igreja.

Porque há um mundo, uma igreja e um evangelho, a missão cristã não pode ser
outra coisa que missão realizada em colaboração mútua. Chegou o momento de
encontrar maneiras de reduzir a distância entre as igrejas no Ocidente e no
Terceiro Mundo. Já há experiências úteis que estão sendo levadas a cabo com
este propósito, mas é necessário fazer muito mais para desenvolver modelos de
solidariedade acima das barreiras políticas, econômicas, sociais e culturais, e
para estimular a colaboração mútua entre as igrejas.

O desafio que a igreja encara no campo de desenvolvimento hoje é
fundamentalmente o desafio de um desenvolvimento humano, no contexto da
justiça. Fazem falta modelos de missão plenamente adaptados a uma situação
marcada por uma distância abismal entre ricos e pobres. Os modelos de missão
baseados na riqueza do Ocidente solidarizam-se com esta situação de injustiça e
condenam as igrejas do mundo pobre a uma permanente dependência. No final das
contas, portanto, são contraproducentes para a missão.

O desafio tanto para os cristãos no Ocidente como para os cristãos nos países
subdesenvolvidos é criar modelos de missão centrados num estilo de vida
profético, modelos que apontem para Jesus Cristo como Senhor da totalidade da
vida, à universalidade da igreja e à interdependência dos seres humanos no
mundo.

III. OS DESAFIOS E IMPLICAÇÕES DA MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA

3.1. Desafios da missão integral da Igreja
Observamos no capítulo anterior que René Padilla apresenta a missão integral da
Igreja em termos de desafios. Entretanto, sua abordagem é ampla, no sentido de
envolver a missão da Igreja num âmbito mundial ou, no mínimo, na América
Latina. Os desafios que agora mencionaremos tratam da igreja brasileira em solo
brasileiro. Dividimo-nos em duas partes distintas, isto é, os desafios sociais
e os desafios eclesiais.

a. Os desafios sociais da Igreja

Não são poucos e nem pequenos os problemas sociais brasileiros. A igreja
evangélica brasileira tem desafios enormes nesta área. Porém, de início é
preciso que encaremos com seriedade e maturidade o dilema de até onde podemos e
devemos nos envolver nestes desafios. Que a igreja evangélica brasileira não
deve se esquivar de sua missão integral, é o nosso comum acordo com a
declaração de Lausanne:

Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação
social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que
evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão.

É preciso sim que a Igreja seja a consciência da sociedade e a voz profética
que denuncia os desmandos desta mesma sociedade. Não devemos, como Igreja de
Cristo, partir para a ignorância e violência, mas podemos e devemos fazer
confrontações sociais sérias. Confrontação não é violência. Robert C. Linthicum
(1996, pp. 171,2) explica:

Há muita confusão sobre a natureza da confrontação e da violência. Confrontação
é simplesmente a atividade entre seres humanos na qual eles discordam, e devido
a esta discordância, estão desafiando uns aos outros. A palavra significa
literalmente “testa-a-testa” – isto é, as testas colocadas
fisicamente uma contra-a-outra. É um encontro face a face, direto, procurando o
fim da resolução.

Por outro lado, violência é o exercício da força física, a fim de ganhar uma
disputa. Enquanto a confrontação é verbal, a violência é física. De uma forma
mais profunda, essas palavras não são sinônimas, e sim antônimas, pois, em sua
própria natureza, um ato de violência é a indicação de que a confrontação
falhou. A confrontação boa e eficaz nunca deve levar à violência, mas à
resolução do problema.

É nesse espírito de verdadeira confrontação que a Igreja deve encarar seus
desafios sociais, com propostas terapêuticas para uma sociedade enferma.
Portanto, empenhemos-nos pela dignidade do povo brasileiro. Reivindiquemos,
pois, os seus e os nossos direitos: Saúde, segurança, educação, trabalho e
salário digno.

E até onde podemos e devemos ir nesta questão toda? Até onde os direitos sejam
verdadeiramente assegurados, o amor ao próximo evidenciado, a moral
dignificada, o evangelho e o bom testemunho não sejam prejudicados e,
sobretudo, o nome de Jesus seja glorificado.

O governo tem (e como tem!) suas culpas e responsabilidades, mas não podemos
ficar indiferentes ao que ocorre em nossa volta, simplesmente criticando por
criticar o governo. Pesa (e como pesa!) sobre o povo de Deus também a
responsabilidade pelo bem-estar social do nosso país.

b. Os desafios eclesiais da Igreja

Certamente um dos maiores desafios da igreja brasileira na atualidade é vencer
seus próprios desafios. Tentarei explicar esta minha tese.

Os desafios sociais da igreja brasileira não são combatidos e vencidos como
deveriam porque falta vontade eclesiástica por parte da mesma. Ou porque a
liderança não se empenha, ou porque os liderados não se envolvem na obra. O
certo é: Se não chegarmos a um consenso; se não juntarmos forças, jamais
sairemos do lugar comum. Continuaremos marcando passo, salgando a nós mesmos e
iluminando nossos umbigos.

Uma lição é preciso aprender com a igreja de Jerusalém. A igreja de Jerusalém
estava consciente de sua missão no mundo. Era uma igreja unida em seus
propósitos e se amava de verdade. Internamente ela estava pegando fogo,
desejosa de pregar o evangelho, em obediência ao mandado de Cristo. Porém,
externamente os desafios eram humanamente insuperáveis. Pilatos, Herodes e
muita gente se levantaram contra a Igreja de Deus. Então a Igreja orou:
“agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que
anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes as mãos para
fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo
Jesus” (At 4.29,30).

E Deus atendeu ao clamor de sua Igreja (At 4.31). Atendeu porque a Igreja
deixou de lado seus próprios interesses para servir ao mundo. Hoje, o que muito
se vê, à nível de igreja local, é a própria igreja criando obstáculos para não
fazer a obra do Senhor. Externamente desfruta-se de uma liberdade religiosa como
nunca se viu, mas internamente muito de nossas igrejas estão enfermas, quando
na verdade eram elas que deveriam estar curando!

A seguir daremos duas sugestões práticas para que esse quadro sombrio possa se
reverter.

3.2. Implicações da missão integral da Igreja

As implicações que aqui abordaremos não deixam de ser verdadeiros desafios para
a igreja brasileira, porém, entendemos que estes desafios são implicações
naturais para uma igreja que queira verdadeiramente cumprir sua missão
integral.

a. A revisão de estruturas não-funcionais

O que muito tem contribuído para um mau desempenho da Igreja em sua missão
integral é a falta de estruturas que funcionem. Estruturas enrijecidas pelo
tradicionalismo matam ou impedem a visão de uma igreja.

A quebra de paradigmas é uma das coisas fundamentais para que a estrutura de
uma igreja se torne funcional. Às vezes é preciso muita coragem para mudar
certos parâmetros que já não funcionam mais. À primeira vista parece fácil
mudar aquilo que se tornou obsoleto, mas não é tão simples assim. Antes é
preciso mudar a mentalidade dos acomodados e principalmente dos saudosistas,
daqueles que confundem inovação com inovacionismo, tradição com
tradicionalismo. O que está “matando” muito crente novo (e velho
também) é a igreja não-funcional, que se limita a suas atividades internas,
fechada em quatro paredes.

Contudo, por uma questão de prudência e respeito àqueles que não pensam como
nós, é preciso que os paradigmas sejam quebrados aos poucos. As idéias devem
ser amadurecidas no meio da comunidade, sem atropelos, mas progressivamente.

Uma coisa aprendi em meus poucos anos de ministério pastoral: Se a igreja não
comprar a nossa idéia, não será por meio de decreto conciliar que conseguiremos
qualquer êxito. Um diálogo franco, aberto e amigável é a chave do sucesso.

b. A reafirmação do compromisso missionário

Aquelas igrejas que um dia receberam orientação missionária, se não forem
constantemente lembradas daquele compromisso, rapidamente minguarão.

E como revitalizar uma igreja que começou com tanto entusiasmo por missões e de
repente esfriou? Em primeiro lugar é preciso reconscientizar a igreja de sua
missão no mundo. Em segundo lugar é preciso conscientizá-la de que ela está no
mundo para servir o mundo integralmente.

Se a igreja chegou a se empolgar com missão algum dia, é sinal que ela tem
potencial para fazer, com a graça de Deus, o que fez antes. Sermões e estudos
bíblicos missionários, filmes específicos como As Primícias, Etal e Atrás do
Sol, além do auxílio de uma boa agência ou junta missionária, com certeza
produzirão novo alento. Geralmente a frieza por missões acontece por causa da
rotina. Uma vez que o mal foi detectado é necessário que seja combatido com
atividades variadas.

O mais importante é que a igreja seja cientificada de que sua missão no mundo é
integral. Evangelizar não é simplesmente distribuir folhetos como alguns
pensam, mas sim, atender o indivíduo na totalidade de suas necessidades. Por
isso mesmo, a Igreja nunca deveria deixar se levar pela prática do paternalismo
e assistencialismo paliativos, porém, deveria partir sempre para uma ação
social transformadora, do indivíduo e da sociedade, para a honra e glória de
Deus Pai.

Cada igreja deve refletir sobre sua motivação em praticar evangelismo e ação
social, e todas as atividades nestas direções devem estar debaixo do serviço a
Deus em primeiro lugar (A. C. BARRO, sem data, p. 5). O ponto de partida é o
parâmetro bíblico e o contexto da igreja local.

Conclusão:

A missão integral da Igreja é basicamente evangelização e ação social. Dizemos
“basicamente” porque a missão integral da Igreja é na verdade
universal. Abrange vários aspectos. Evangelizar é a sua qualidade primordial. A
Igreja que troca a evangelização por qualquer outra responsabilidade social
está fora de propósito e, portanto, descaracterizada como igreja de Jesus
Cristo. Por outro lado, que nenhuma igreja pense ser mais espiritual porque
optou pela evangelização. Concordamos que uma igreja possa fazer uma opção
temporária entre evangelizar e assistir ao necessitado, mas nunca uma opção
permanente. A verdadeira espiritualidade do povo de Deus se expressa em sua
integralidade. A mesma igreja que proclama as boas novas do reino deve ser a
mesma que estende a mão ao necessitado.

Missão integral é uma realidade bíblica. Os mitos não fazem sentido quando são
resultados baratos de um reducionismo evangélico, polarização entre
evangelização e ação social, e quando se deixa de contemplar o indivíduo em sua
totalidade. Os mitos (pelo menos os que aqui estudamos) deturpam a missão
integral da Igreja.

Se queremos atentar para o ensino bíblico, então devemos almejar por uma igreja
brasileira autêntica, que não seja ela mesma um mito, mas a realidade bíblica
de uma missão integral em nossa sociedade.

Bibliografia
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ZANDRINO, Dr. Ricardo. Curar também é tarefa da igreja. São Paulo: Nascente,
1986.

(1) Veja Manfred Grellert (1987, p. 41).

(2) Para um argumento interessante contra este reducionismo evangélico (a
polarização teológica ente evangelização e ação social) veja Manfred Grellert
(1987, pp. 41-43).

(3) Veja também MACEDO FILHO (In TESES, 1988, p. 33).

(4) Para uma compreensão importante sobre a responsabilidade da Igreja com a
natureza, veja Francis A. Schaeffer (Poluição e morte do homem) e Norman L.
Geisler (O cristão e a ecologia).

Parte XVI
A MISSÃO DA
IGREJA

Uma perspectiva latino-americana
 Uma das
questões mais cruciais da missiologia é a definição do próprio conceito de
missão. O que se deve entender por missões cristãs? Quais são a natureza e os
objetivos da missão da igreja? Evidentemente essas perguntas podem receber uma
grande variedade de respostas a partir de diferentes pressupostos e
compromissos teológicos. Uma antiga abordagem foi o debate em torno de
evangelização e “civilização.”1 Hoje é mais comum falar-se em evangelismo e
responsabilidade social. Diferentes autores do século XX têm procurado
expressar a missão da igreja em termos de desenvolvimento, presença cristã,
diálogo inter-religioso, justiça e paz, diaconia e outros conceitos.

Certamente este é um assunto controvertido, mas também sumamente importante
para a igreja e para os cristãos individuais. Como pode a igreja ser o que deve
ser e fazer o que deve fazer se não tiver uma clara compreensão acerca do seu
propósito na sociedade e no mundo?

O objetivo deste estudo é abordar o tema a partir da perspectiva de Samuel
Escobar, um dos mais destacados missiólogos evangélicos contemporâneos da
América Latina. A escolha de Escobar justifica-se por várias razões. Ele tem um
profundo conhecimento da situação religiosa, social e política da América
Latina, tendo trabalhado em vários países como pastor e missionário; é um
teólogo, escritor e orador extremamente articulado e criativo; tem sido um
líder respeitado em círculos missiológicos e teológicos; tem estado em diálogo
constante com representantes de grupos e movimentos importantes do cristianismo
latino-americano e mundial; finalmente, por vários anos ele tem sido professor
em instituições teológicas norte-americanas, o que o coloca numa posição
privilegiada para falar a uma audiência mais ampla e levar ao primeiro mundo
uma valiosa perspectiva do terceiro mundo acerca de missões.

Nossa análise começa com um retrospecto histórico da discussão missiológica
protestante na América Latina. A seguir, iremos fornecer algumas informações
biográficas sobre Samuel Escobar, fazer um apanhado dos principais movimentos
de que tem participado e apresentar alguns dos principais temas e ênfases da
sua reflexão missiológica. Ao longo dos anos, Escobar tem defendido um conceito
de missão que é ao mesmo tempo bíblico, evangélico, contextual e sensível às
complexas realidades espirituais, políticas, sociais e econômicas da América
Latina. Criticando os modelos missionários reducionistas ou dicotômicos, ele
propõe um programa que implica em levar o evangelho integral ao ser humano
integral, na amplitude de suas necessidades e relacionamentos. Concluiremos o
estudo acrescentando algumas de nossas próprias convicções a respeito do tema
em questão, ou seja, a missão da igreja na sociedade.

I. ANTECEDENTES

A reflexão sistemática e abrangente sobre o trabalho missionário protestante na
América Latina foi desencadeada pela célebre Conferência Missionária Mundial,
realizada em Edimburgo em 1910.2 Todavia, esse estímulo ocorreu às avessas, uma
vez que somente foram convidadas para a conferência as sociedades missionárias
que atuavam entre povos não-cristãos.3 Isso excluiu a América Latina do âmbito
daquele encontro, sendo admitidas apenas as missões que trabalhavam entre as
tribos pagãs desse continente.

Durante a conferência, Robert E. Speer (1867-1947), o secretário executivo da
Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos,
convidou vários delegados interessados na América Latina a se reunirem
informalmente para discutir como essa lacuna poderia ser suprida. Como
resultado desses entendimentos, realizou-se em Nova York, em março de 1913, uma
conferência sobre missões na América Latina, sob os auspícios da Conferência de
Missões Estrangeiras da América do Norte.4 Essa conferência criou a Comissão de
Cooperação na América Latina (CCLA), tendo como presidente o próprio Robert
Speer e como secretário executivo Samuel Guy Inman.

Por sua vez, a CCLA patrocinou o Congresso de Ação Cristã na América Latina,
reunido no Panamá em fevereiro de 1916, o maior encontro das forças
protestantes desse continente realizado até aquela data. O Congresso mostrou a
necessidade de maior cooperação em áreas como educação religiosa, missões,
literatura e formação teológica. Mais especificamente, suas metas principais
foram a evangelização das classes cultas, a unificação da educação teológica
através de seminários unidos, o desejo de dar uma dimensão social ao trabalho
missionário na América Latina e o esforço em promover a unidade protestante.5

Na realidade, o Congresso do Panamá foi uma reunião de representantes de juntas
missionárias estrangeiras, antes que um encontro de líderes protestantes
latino-americanos. Dos 230 delegados oficiais, apenas 21 eram latino-americanos
natos.6 Mesmo assim, o evento produziu a primeira discussão séria do
protestantismo latino-americano e estimulou a criação de órgãos cooperativos
regionais em vários países. Por outro lado, o Congresso do Panamá revelou duas
ênfases que se tornariam problemáticas para os evangélicos latino-americanos:
uma atitude simpática para com a Igreja Católica e uma forte influência do
“evangelho social.”

Como resultado do encontro do Panamá, nos anos seguintes realizaram-se dois
congressos missionários regionais. O primeiro, denominado Congresso de Ação
Cristã na América do Sul, reuniu-se em Montevidéu, Uruguai, em 1925. Aqui,
embora a participação de latino-americanos tenha sido maior (o pastor
presbiteriano brasileiro Erasmo Braga foi eleito presidente do congresso), os norte-americanos
ficaram a cargo da organização e presidiram todas as comissões. Finalmente, em
1929 reuniu-se em Havana o Congresso Evangélico Hispano-Americano, presidido
pelo metodista mexicano Gonzalo Baez-Camargo. Desta feita, o congresso foi
inteiramente organizado e conduzido por latino-americanos e as ênfases recaíram
sobre a nacionalização e o auto-sustento das igrejas evangélicas.

Uma segunda série de encontros do protestantismo latino-americano foi
representada por três Conferências Evangélicas continentais: CELA I (Buenos
Aires, 1949), CELA II (Lima, 1961) e CELA III (Buenos Aires, 1969).7 Essas
conferências estavam ligadas às denominações históricas, que rapidamente
tornavam-se minoritárias no contexto geral do protestantismo da América Latina.
O protestantismo ecumênico das CELAs recebia a influência do protestantismo
histórico declinante do hemisfério norte, buscava aproximar-se do catolicismo
posterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965) e procurava responder à difícil
situação social do continente com uma teologia radical, que eventualmente
identificou-se com a célebre “teologia da libertação.”

A teologia da libertação adquiriu notoriedade no âmbito católico romano com a
segunda assembléia da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), reunida
em Medellín, Colômbia, em 1968.8 Anos antes, em 1962, os protestantes haviam
criado a organização Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL), após uma
consulta realizada em Huampaní, Peru, no ano anterior. Ela tornou-se o centro
de convergência dos teólogos protestantes da libertação, tendo como órgão o
periódico Cristianismo e Sociedade. Em 1972, as duas correntes teológicas
puseram-se em contato no I Congresso Latino-Americano de Cristãos pelo
Socialismo, realizado em Santiago do Chile.

Ao lado das Conferências Evangélicas continentais (CELAs) e do ISAL, o
protestantismo ecumênico latino-americano criou várias estruturas
para-eclesiásticas com o fim de promover os seus objetivos. Alguns organismos
importantes são ou foram os seguintes: Movimento Estudantil Cristão (MEC),
União Latino-Americana de Juventudes Evangélicas – depois, Ecumênicas (ULAJE),
Agência de Serviços Ecumênicos Latino-Americanos (ASEL), Comissão Evangélica
Latino-Americana de Educação Cristã (CELADEC), Coordenadoria de Projetos Ecumênicos
(COPEC) e Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).9

Uma característica desse protestantismo ecumênico era o crescente declínio do
seu ímpeto evangelizador, em contraste com a vitalidade das igrejas vinculadas
a missões independentes ou ao movimento pentecostal, que mantinham o seu vigor
evangelístico apesar das debilidades da sua teologia. Do seio desse
protestantismo majoritário surgiu o impulso para os Congressos
Latino-Americanos de Evangelização, que constituem a terceira das séries
mencionadas acima: CLADE I (Bogotá, 1969), CLADE II (Lima, 1979) e CLADE III
(Quito, 1992). O CLADE IV deverá realizar-se em setembro do ano 2000 no
Equador.10

O primeiro CLADE foi organizado pela Associação Evangelística Billy Graham, sob
o impulso do Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), convocado pela
revista evangélica Christianity Today. O CLADE I permitiu que líderes
preocupados em relacionar a fé evangélica com a realidade latino-americana
compartilhassem as suas inquietações. Para Valdir Steuernagel, esse congresso
teve duas marcas distintivas:

Manifestou com clareza que, na América Latina, somos e queremos ser
evangélicos. E, como evangélicos, somos e queremos ser latino-americanos.
Naquela ocasião e naquele contexto, tornava-se urgente que, sendo evangélicos,
buscássemos uma teologia da encarnação que estabelecesse as pautas para um
diálogo com a situação de sofrimento e opressão que se vivia em toda a América
Latina.11

Foi no CLADE I que se articulou a criação da Fraternidade Teológica Latino-Americana,
organizada no ano seguinte em Cochabamba, Bolívia, tendo Pedro Savage como seu
primeiro secretário e Samuel Escobar como seu primeiro presidente. Escobar
assim expressou os objetivos da Fraternidade:

Desde o primeiro momento, a FTL procurou ser uma plataforma de encontro e
diálogo teológico da qual participassem pastores, missionários e pensadores
evangélicos, dentro do marco evangélico de uma lealdade comum à autoridade
bíblica e à fé evangélica como base da reflexão e de um compromisso ativo com o
cumprimento da missão cristã.12

Por sua vez, a Fraternidade Teológica Latino-Americana convocou os CLADEs
posteriores, inclusive o que irá realizar-se no ano 2000.13 A Fraternidade
procurou estar tão consciente da problemática social latino-americana quanto o
grupo ISAL, mas ao mesmo tempo preocupou-se em abordar a questão de uma
perspectiva que entendia ser mais bíblica e equilibrada. Ela é também mais
representativa do protestantismo popular da América Latina que a sua congênere
ecumênica. Entre os seus participantes mais destacados e influentes está o
líder que é o enfoque principal deste artigo — Samuel Escobar.14

II. DADOS BIOGRÁFICOS E ESCRITOS

Samuel Escobar nasceu no Peru e freqüentou uma escola missionária inglesa em
Arequipa. Em 1956, ele recebeu o seu grau de mestre em artes e educação na
Universidade de São Marcos, em Lima, após o que dedicou-se ao ensino nos níveis
primário, secundário e superior.

Em 1959 Escobar tornou-se o secretário itinerante da Fraternidade Internacional
de Estudantes Evangélicos (International Fellowship of Evangelical Students) —
representada no Brasil pela Aliança Bíblica Universitária —, visitando
praticamente todos os países da América Latina. Ele trabalhou como missionário
entre estudantes universitários na Argentina e no Brasil15 e foi diretor da
Comunidade Evangélica Kairós, em Buenos Aires. Alguns anos depois, ele fez o
curso de doutorado em filosofia (Ph.D.) na Universidade Complutense de Madri e
eventualmente trabalhou como secretário da Fraternidade Cristã Universitária
(Inter-Varsity Christian Fellowship) do Canadá, com sede em Toronto.16

Escobar foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Fraternidade Teológica
Latino-Americana (1970-1984) e de 1979 a 1985 ocupou o cargo de secretário
geral da Fraternidade Internacional de Estudantes Evangélicos. Nas décadas de
1960 e 1970, ele e outros teólogos latino-americanos tornaram-se bem conhecidos
em círculos evangélicos e ecumênicos internacionais através de sua participação
em importantes conferências. Além disso, há muitos anos ele é membro da
Comissão Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial (World Evangelical
Fellowship), tendo participado de muitas de suas consultas ao redor do mundo.17
Atualmente, Samuel Escobar é presidente das Sociedades Bíblicas Unidas e
professor titular de missiologia no Seminário Teológico Batista do Leste, em
Filadélfia, Estados Unidos.18 Ele também leciona sobre missões em seu país
natal, o Peru.

Samuel Escobar é autor de vários livros sobre teologia e missiologia: Diálogo
entre Cristo y Marx (1967), Quien es Cristo Hoy? (1970, com C.
René Padilla), Decadencia da la Religión (1972), Christian Mission and Social
Justice (1978, com John Driver), Irrupción Juvenil (1978), La Fe Evangelica y
las Teologías de la Liberación (1987), Evangelio y Realidad Social (1988),
Liberation Themes in Reformational Perspective (1989), Paulo Freire: Una
Pedagogia Latinoamericana (1993), entre outros.
Um dos seus livros mais recentes é Desafios da Igreja na
América Latina: História, Estratégia e Teologia de Missões, publicado em 1998
pela Editora Ultimato.

Escobar também escreveu diversos ensaios que foram publicados como capítulos de
livros. Alguns títulos representativos podem dar-nos uma idéia de seus temas
prediletos: “Social Concern and World Evangelism,” em Christ the Liberator
(1971); “The Social Impact of the Gospel,” em Is Revolution Change? (1972);
“Evangelism and Man´s Search for Freedom, Justice and Fulfillment,” em Let the
Earth Hear His Voice (1974); “The Role of Translation in Developing Indigenous
Theologies: A Latin American View,” em Bible Translation and the Spread of the
Church (1990); “Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Christian
Mission (1993); “A Pauline Paradigm of Mission: A Latin American Reading,” em The
Good News of the Kingdom (1993); “La Presencia Protestante en America Latina:
Conflicto de Interpretaciones,” em Historia y Misión: Revisión de Perspectivas
(1994); “The Church in Latin America after Five Hundred Years” e “Conflict of
Interpretations of Popular Protestantism,” em New Face of the Church in Latin
America: Between Tradition and Change (1994); “The Search for a Missiological
Christology in Latin America,” em Emerging Voices in Global Christian Theology
(1994); “The Training of Missiologists for a Latin American Context,” em
Missiological Education for the Twenty-First Century (1996); “Religion and
Social Change at the Grass Roots in Latin America,”19 em The Role of NGOs:
Charity and Empowerment (1997).

Finalmente, seus numerosos artigos têm aparecido em renomados periódicos como
Evangelical Missions Quarterly, Evangelical Review of Theology, International
Bulletin of Missionary Research, Transformation, Missiology e International
Review of Mission, entre outros. Uma vez mais, os próprios títulos de alguns
artigos representativos dão uma clara idéia dos principais temas com os quais
Escobar tem trabalhado ao longo dos anos: “The Social Responsibility of the
Church in Latin America” (EMQ, 1970), “Beyond Liberation Theology: Evangelical
Missiology in Latin America” (IBMR, 1982), “Transformation in Ayacucho: From
Violence to Peace and Hope” (Transformation, 1986), “Missions and Renewal in
Latin American Catholicism” (Missiology, 1987), “Recruitment of Students for
Mission” (Missiology, 1987), “Has McGavran´s Missiology Been Devoured by a
Lion?” (Missiology, 1989), “From Lausanne 1974 to Manilla 1989: The Pilgrimage
of Urban Mission” (Urban Mission, 1990), “A Movement Divided: Three Approaches
to World Evangelization Stand in Tension with One Another” (Transformation,
1991), “Evangelical Theology in Latin America: The Development of a
Missiological Christology” (Missiology, 1991), “Mission in Latin America: An
Evangelical Pespective” (Missiology, 1992), “The Elements of Style in Crafting
New International Mission Leaders” (EMQ, 1992), “500 Years after Columbus:
Requiem or Te Deum?” (EMQ, 1992), “The Legacy of John Alexander Mackay” (IBMR,
1992), “The Whole Gospel for the Whole World from Latin America”
(Transformation, 1993), “Missions´ New World Order: The Twenty-First Century
Calls for us to Give up our Nineteenth-Century Models for Worldwide Ministry”
(Christianity Today, 1994), “Beyond Liberation Theology: A Review Article”
(Themelios, 1994), “A Missiological Approach to Latin American Protestantism”
(IRM, 1998).20

As influências recebidas por Escobar, especialmente através dos movimentos de
que participou a partir da década de 1960, ajudam a entender as preocupações
reveladas pelos títulos dos seus escritos.

III. REFLEXÃO TEOLÓGICA
E ENVOLVIMENTOS

Samuel Escobar identifica-se como um evangélico.21 Isto significa, por um lado,
que ele não tem nenhuma conexão particular com as correntes da teologia da
libertação que foram e ainda são uma expressão importante da teologia
latino-americana, tanto católica quanto protestante. Por outro lado, ele está
longe de partilhar das idéias e compromissos do fundamentalismo, sendo bastante
crítico da sua teologia/ideologia.

Sua identidade latino-americana também é essencial para a reflexão e os
envolvimentos teológicos de Escobar. Tendo vivido em um período de grande
turbulência na história latino-americana, marcado por injustiça e opressão
generalizada, violência política, golpes militares, regimes ditatoriais e caos
sócio-econômico, Escobar e alguns colegas sentiram que não era suficiente
pregar um evangelho puramente espiritual. Para ele, o evangelho tem relevância
para a totalidade da vida. A igreja deve proclamar Jesus Cristo como Salvador e
Senhor porque os seres humanos carecem tanto de reconciliação com Deus quanto
de dignidade e integridade em sua vida neste mundo, como indivíduos e como
membros da sociedade. O evangelho tem implicações sociais e políticas
revolucionárias que não podem ser omitidas.

Conseqüentemente, Escobar tem um profundo interesse em missões. Como pastor,
líder de movimentos estudantis, professor e teólogo, ele sempre interessou-se
pela missão da igreja, especialmente em um contexto de pobreza e sofrimento.
Para ele, a mensagem bíblica em geral, e os ensinos e o ministério de Jesus em
particular, mostram o interesse de Deus por todas as necessidades humanas, e a
igreja deve partilhar desse interesse de Deus. Escobar considera sua tarefa
articular essa missiologia holística e inspirar outras pessoas — estudantes,
pastores, leigos e líderes cristãos — a compartilhar essa visão.

Em seu livro Mission Theology, Rodger C. Bassham descreve o desenvolvimento das
teologias de missão ecumênica, evangélica conservadora e católica,
especialmente entre 1948 e 1975. Ele observa que, em meados da década de 60, os
evangélicos começaram a constituir uma comunidade verdadeiramente global com
uma visão abrangente de missões, em particular depois de 1966, o ano em que
eles patrocinaram duas grandes conferências mundiais sobre missões e
evangelização.22

Os congressos de Wheaton e Berlim marcaram um novo estágio na emergência de uma
identidade evangélica, à medida que evangélicos de todo o mundo começaram a
empreender juntos uma análise da situação enfrentada por aqueles que estavam
envolvidos com missões e evangelismo em todos os continentes. Nesse contexto,
Bassham identifica vários desdobramentos importantes: os primórdios de uma
teologia evangélica de missão altamente representativa (a Declaração de
Wheaton), a luta em torno da relação entre evangelização e ação social, o forte
impacto do conceito de “crescimento da igreja” sobre a teologia evangélica de
missões, e o crescente número de vozes evangélicas provenientes de fora da
América do Norte.

O Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966) – a primeira grande reunião
mundial de evangélicos no século XX – também estimulou congressos regionais de
evangelização em vários continentes. Estes por sua vez contribuíram para o
Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974), que evocou
manifestações de opinião de toda a comunidade evangélica, à medida que os
participantes se debatiam com as questões da teologia de missão no mundo
contemporâneo. Para Bassham, o Pacto de Lausanne demonstra que “os evangélicos
desenvolveram uma teologia de missão amadurecida, positiva e consistente.”23

Em todos esses acontecimentos importantes houve uma decidida participação de
teólogos latino-americanos, Samuel Escobar estando entre eles. Escobar foi
ouvido pela primeira vez por grandes audiências internacionais nas convenções
da Fraternidade Cristã Universitária realizadas em Urbana, Estados Unidos, nos
anos 60. Ele e outros oradores da América Latina desafiaram os evangélicos
norte-americanos a reconhecer a necessidade de promover justiça social e
reformas políticas como parte dos seus deveres como cristãos.24 Na convenção de
1970, Escobar falaria apaixonadamente sobre a necessidade de se estabelecer uma
relação entre as preocupações sociais e a evangelização mundial.

No Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), Escobar estava entre os
muitos líderes do terceiro mundo que falaram enfaticamente em prol das igrejas
nativas. Ele exortou os missionários a superar a mentalidade paternalista,
imperialista e colonialista, a fim de permitir o surgimento de igrejas nativas
alicerçadas na fé, dotadas de uma liderança nacional bem-treinada, e capazes de
atuar eficazmente em seu contexto local.25

No entanto, o principal forum internacional em que se ouviu a voz de Escobar
foi o Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974).
Bassham observa que “as apresentações e discussões de Lausanne mostraram um
espírito de abertura, diversidade de perspectivas e profundidade de análise
jamais alcançado anteriormente em uma assembléia evangélica.”26 Uma das grandes
influências nas deliberações do congresso veio através das contribuições de
oradores do terceiro mundo. O impacto de líderes como Samuel Escobar e C. René
Padilla, através do grupo de Discipulado Radical, foi de especial importância.

Enquanto que a orientação teológica de Lausanne permaneceu firmemente
evangélica, acentuando a autoridade da Bíblia, a singularidade de Cristo e a
necessidade da evangelização, ela também produziu algumas mudanças
bem-definidas na teologia evangélica de missões. O Pacto de Lausanne foi muito
além das declarações evangélicas tradicionais, demonstrando que o evangelismo
bíblico é inseparável da responsabilidade social, do discipulado cristão e da
renovação da igreja. Lausanne abordou o tema abrangente da evangelização mundial,
referindo-se com isso ao ministério e à missão total da igreja.

Em seu capítulo sobre a “Responsabilidade Social Cristã,” o Pacto de Lausanne
declara:

Afirmamos que Deus é tanto o Criador como o Juiz de todos os homens. Portanto,
devemos partilhar da sua preocupação com a justiça e a reconciliação em toda a
sociedade humana e com a libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque
a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, não importa qual seja a
sua raça, religião, cor, cultura, classe, sexo ou idade, tem uma dignidade
intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada.
Também aqui manifestamos o nosso arrependimento, tanto pela nossa negligência
quanto por às vezes termos considerado a evangelização e a preocupação social
como mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o ser humano não seja o
mesmo que a reconciliação com Deus, nem a ação social seja evangelismo, nem a
libertação política seja salvação, todavia afirmamos que tanto a evangelização
como o envolvimento socio-político são parte do nosso dever cristão.27

Muitas vezes durante o congresso os participantes afirmaram ter um interesse
profundo e permanente pela ação social em favor dos pobres e necessitados, até
mesmo ao ponto de se esforçarem pela mudança das estruturas sociais. Oradores
latino-americanos como René Padilla, Orlando Costas e Samuel Escobar proferiram
as declarações mais fortes no sentido de que a preocupação com as necessidades
sociais da humanidade e o envolvimento com as mesmas é uma parte necessária do
testemunho e da responsabilidade dos cristãos em favor do mundo. Bassham cita
as seguintes afirmações de Escobar:

Uma espiritualidade sem discipulado nos aspectos diários da vida — sociais,
econômicos e políticos —, é religiosidade e não cristianismo… De uma vez por
todas, devemos rejeitar a falsa noção de que a preocupação com as implicações
sociais do evangelho e as dimensões sociais do testemunho cristão resultam de
uma falsa doutrina ou de uma ausência de convicção evangélica. Ao contrário, é
o interesse pela integridade do Evangelho que nos motiva a acentuarmos a sua
dimensão social.28

No âmbito continental, Samuel Escobar teve uma importante participação no
Primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I, Bogotá, 1969),
planejado em resposta a pedidos de delegados latino-americanos presentes no
Congresso de Berlim, três anos antes.29 Dentre os 28 discursos principais, a
sua apresentação sobre a responsabilidade social da igreja recebeu a atenção
mais entusiástica. Ele argumentou eloqüentemente que tanto a evangelização
quanto a ação social são necessárias para o testemunho cristão.30 Escobar
afirmou a certa altura:

Existe base suficiente na história da Igreja e nos ensinamentos da Palavra de
Deus para afirmar categoricamente que a preocupação pelo aspecto social do
testemunho evangélico no mundo não é um abandono das verdades fundamentais do
Evangelho; pelo contrário, é levar às suas últimas conseqüências os ensinos a
respeito de Deus, de Jesus Cristo, do homem e do mundo, que formam a base desse
Evangelho… Sustentamos que uma evangelização que não toma conhecimento dos
problemas sociais e que não anuncia a salvação e a soberania de Cristo dentro
do contexto no qual vivem os que ouvem, é uma evangelização defeituosa, que
trai o ensino bíblico e não segue o modelo proposto por Cristo, que envia o
evangelista.31

Essa ênfase achou lugar na Declaração Evangélica de Bogotá, que afirmou: “É
chegada a hora de nós, evangélicos, levarmos a sério a nossa responsabilidade
social.” Os participantes afirmaram que “o exemplo de Cristo devia ser
encarnado na crítica situação latino-americana de subdesenvolvimento,
injustiça, fome, violência e desespero,”32 se os cristãos quisessem testemunhar
fielmente em seu contexto sócio-cultural.

Orlando Costas comenta que 1969 foi para os protestantes o que 1968 havia sido
para os católicos (II Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medellín,
Colômbia). Naquele ano, além do CLADE I, os protestantes latino-americanos
realizaram ainda outra grande conferência – a Conferência Evangélica
Latino-Americana (CELA III), em Buenos Aires. Apesar das diferenças existentes
entre os dois movimentos, Costa vê nos documentos de ambos os eventos a
emergência de novas tendências missiológicas caracterizadas por um tríplice
interesse: a busca de um entendimento histórico de missões, de uma expressão
mais autêntica de unidade cristã no empreendimento missionário e de uma
reflexão missiológica mais séria e profunda. Em sua opinião, essa terceira
busca tem assumido várias formas, uma das quais é o modelo ético-missiológico —
missão da perspectiva de questões éticas — articulado por, entre outros, Samuel
Escobar e C. René Padilla.33

O próprio Escobar acha que o seu modelo pode ser melhor descrito como “holístico.”34
Ele argumenta que os evangélicos latino-americanos escolheram o Pacto de
Lausanne como uma expressão do seu consenso doutrinário básico e do seu claro
compromisso com um modelo de missão integral e bíblico.35

Em um capítulo sobre a América Latina que escreveu para o livro Toward the
Twenty-First Century in Christian Mission (1993), Escobar menciona duas outras
conferências missionárias latino-americanas, ambas realizadas no Brasil. Uma
delas foi o Primeiro Congresso Missionário Latino-Americano (Curitiba, 1976),
cujo pacto manteve a ênfase de Lausanne sobre a preocupação social como parte
da missão da igreja: “Assim como no passado o chamado de Jesus Cristo e da sua
missão foi um chamado para cruzar fronteiras geográficas, hoje o Senhor está
nos chamando para cruzarmos as fronteiras da desigualdade, injustiça e
idolatria ideológica.”36

Todavia, ele lamenta o fato de que o Congresso Missionário Ibero-Americano
(COMIBAM, São Paulo, 1987) deixou de abordar conceitos básicos do entendimento
de missões, inclusive a clamorosa realidade de pobreza que circundava o próprio
local em que se reuniram os delegados.37

Por essa razão, Escobar é um crítico rigoroso do movimento do Crescimento da
Igreja, iniciado por Donald McGavran em 1960. Ele preocupa-se com a “missiologia
gerencial” que dá ênfase à proclamação verbal e ao crescimento numérico de
adesões à igreja como o principal componente das missões cristãs. Reagindo
contra o triunfalismo fácil das estatísticas e a tirania do controle de dados,
Escobar acredita que o êxito do avanço protestante na América Latina deve ser
interpretado fazendo-se perguntas sérias sobre o seu dinamismo transformador e
a sua contribuição para a justiça nas relações sociais.38

Ele acha que a base desse questionamento tem sido o compromisso claro com a
tarefa de missões e evangelização, mas também o esforço consciente de executar
essa tarefa segundo moldes bíblicos. Assim sendo, testemunha-se o surgimento de
uma nova teologia contextual que conclama à “integridade” da missão e procura associar
o zelo evangelístico com a paixão holística.39

Em resposta a um artigo de McGavran, Escobar afirma que, como evangélico, ele
concorda integralmente com dois pontos do apelo de McGavran: primeiro, a igreja
nunca deve perder o seu senso de missão e do seu chamado para proclamar a Jesus
Cristo como Salvador e Senhor. Segundo, porque Jesus Cristo é Senhor, somente
em seu nome há salvação para a humanidade, e essa singularidade de Jesus Cristo
é essencial para a mensagem da igreja.40 O que Escobar questiona é se uma
pessoa pode realmente evangelizar anunciando a Cristo como Salvador e então
deixar a questão do senhorio de Cristo sobre toda a criação para uma segunda
etapa, que poderá nunca chegar.

Ele observa que os grandes missionários dos primeiros 1800 anos da igreja
dificilmente fariam a distinção entre “espiritual” (evangelização) e “o resto,”
que McGavran faz. Eles não procurariam estabelecer prioridades nesses termos,
pois operavam com uma noção bíblica holística do ser humano. O que o movimento do
Crescimento da Igreja necessita é o corretivo de uma sólida teologia bíblica.
Escobar argumenta que o grande dilema para o qual a missiologia deve estar
alerta é diferente: A obra missionária será realizada segundo o modelo de Jesus
e a prática apostólica, ou irá adotar as técnicas e padrões da sociologia
funcionalista, do marketing e das relações públicas?41

Compreensivelmente, Escobar vê com apreciação o dinamismo e o crescimento do
protestantismo popular (pentecostalismo) na América Latina. Como evangélico,
ele aborda esse movimento na qualidade de “um observador-participante, alguém
que tem procurado ser um crítico e intérprete amoroso – um crítico severo em
alguns pontos – do lado de dentro.”42 Ele destaca várias lições missiológicas
que podem ser extraídas do impressionante crescimento do pentecostalismo
latino-americano: é um movimento religioso (e não social ou político), é um
movimento popular, mobiliza as pessoas para a missão e cria um senso de
comunidade. Escobar declara que

“para as massas em transição, essas igrejas estão oferecendo não somente
um abrigo ou refúgio no sentido mais limitado, mas a única maneira disponível
de encontrar aceitação social, alcançar dignidade humana e sobreviver ao
impacto das forças anômicas que atuam nas grandes cidades.”43

Ele observa que alguns pentecostais latino-americanos também escolheram o Pacto
de Lausanne como expressão do seu compromisso com um modelo de missão holístico
e bíblico.

Se, por um lado, Escobar diverge da escola do Crescimento da Igreja, por outro
lado ele não sente entusiasmo pela Teologia da Libertação. Ele observa como, no
início das missões protestantes na América Latina, o evangelho era a verdadeira
força libertadora nas vidas dos latino-americanos, e a religião oficial uma
força opressora.44 Em décadas recentes, à medida que a Igreja Católica Romana
latino-americana buscou nova relevância social e política, a Teologia da
Libertação foi uma das conseqüências desse processo.

Escobar entende que a Teologia da Libertação é uma voz eloqüente que procura
reinterpretar a história cristã e a mensagem cristã. A missiologia evangélica
deve avaliá-la.45 A Teologia da Libertação confronta a missiologia evangélica
com dois desafios, um na área da consciência histórica e o outro na da
hermenêutica. Com relação ao primeiro, embora Escobar considere inadequadas a
análise marxista e a “escatologia” da Teologia da Libertação, ele admite que a
missiologia evangélica está aprendendo a encarar a história missionária com uma
atitude menos ingênua e mais madura. Ele admite: “Nós não mais podemos aceitar
uma missiologia que recusa-se a levar a sério as realidades políticas e
sociais.”46

Na área da hermenêutica, Escobar reafirma a ênfase evangélica na centralidade
da Escritura e questiona a abordagem fortemente ideológica da interpretação
bíblica demonstrada pelos teólogos da libertação. Ele admite que a hermenêutica
evangélica necessitar ser constantemente purificada de pressuposições
ideológicas, e apela a uma genuína cristologia missiológica que, nas palavras
de René Padilla, enfatize “o discipulado cristão como algo que implica em
colocar a totalidade da vida debaixo do senhorio de Jesus Cristo.”47 Contra o
Cristo “docético” do catolicismo latino-americano tradicional, Escobar e os
seus colegas da Fraternidade Teológica Latino-Americana têm refletido sobre o
Jesus dos evangelhos, sobre como a sua obra e ensino são relevantes para todas
as áreas da vida, tanto individual quanto social. Essa reflexão inclui uma
crítica do cristianismo evangélico na América Latina. Escobar cita novamente
seu amigo René Padilla: “(O evangelicalismo) afirma o poder transformador de
Cristo em relação ao indivíduo, mas é totalmente incapaz de relacionar o
Evangelho com a ética social e a vida social.”48

Essa missiologia cristológica busca um novo modelo para inspirar e moldar a
ação missionária. O material bíblico é abordado a partir de várias perspectivas
possuidoras de significado missiológico. Há uma séria reflexão acerca daquilo
que os evangelhos dizem sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré. Há também
uma preocupação quanto às marcas da missão de Jesus, com o entendimento de que
ser seu discípulo é ser chamado por ele tanto para conhecê-lo quanto para
participar da sua missão. Além disso, há uma busca do significado e da “integridade”
do evangelho — Jesus Cristo é tanto o conteúdo quanto o modelo e o alvo da
proclamação do evangelho.

Escobar identifica essa reflexão missiológica que está vindo não só da América
Latina, mas também da África e da Ásia, como uma missiologia crítica da
periferia. Ele observa que tal missiologia “é caracterizada por uma forte
ênfase hermenêutica que insiste na importância de ler o mundo e ler a Palavra,
mesmo que essa leitura signifique um exame incômodo e sério da herança
evangélica.”49

Ele argumenta que seria grandemente desejável para a globalização das missões e
da teologia evangélica se as diferentes correntes missiológicas do
evangelicalismo (européias, crescimento da igreja, terceiro mundo) pudessem
convergir em um movimento mais articulado e cooperativo para enfrentar a tarefa
missionária do terceiro milênio.

Em um artigo sobre a preparação de líderes de missões, Escobar observa que a
internacionalização das missões cristãs implica em reconhecer que Deus tem
levantado igrejas grandes e florescentes no terceiro mundo. Nessas igrejas do
hemisfério sul, as igrejas dos pobres, Deus está despertando uma nova força
missionária. Escobar gostaria de ouvir as igrejas norte-americanas dizerem:
“Vamos descobrir o que Deus está fazendo em outras partes do mundo,
especialmente nas fronteiras de missão, e como ele o está fazendo, e vamos
unir-nos aos nossos irmãos e irmãs a fim de completarmos a tarefa inacabada.”50

Em sua obra publicada recentemente em português, mencionada no início deste
trabalho, Escobar aborda em cinco ensaios algumas de suas preocupações mais
fundamentais. Inicialmente, ele destaca a importância do treinamento de
missionários e missiólogos para o contexto latino-americano. Nesse sentido, ele
argumenta que “nosso programa de treinamento na América Latina precisa ser
elaborado com base em convicções bíblicas, experiência de vida, consciência
histórica e preocupação pastoral.”51 Mais uma vez ele expressa o seu entusiasmo
pelo protestantismo popular (pentecostalismo) devido a sua ênfase na mobilização
dos leigos, suas formas contextualizadas de culto e ação missionária e o
destaque dado ao ministério do Espírito Santo e ao elemento de conflito
espiritual relacionado com a missão da igreja.

Após salientar o “fator novo” na história do cristianismo que é a transferência
do dinamismo missionário para o hemisfério sul (África, Ásia e América Latina),
ele aponta que os evangélicos latino-americanos têm maior afinidade com os
pietistas, morávios e avivalistas dos séculos XVIII e XIX do que com os reformadores
do século XVI. Isso tem levado Escobar, em anos recentes, a dar uma grande
ênfase ao papel do Espírito Santo nas missões cristãs, ao lado da sua anterior
ênfase cristocêntrica. Ele entende que “os evangélicos latino-americanos
necessitam de um impulso renovado do Espírito Santo e de uma leitura nova e
contextual da Palavra de Deus.”52

Ao mesmo tempo que expressa sua admiração pelas igrejas populares, Escobar
reconhece que, com sua ênfase na conversão de indivíduos ao evangelho, elas
enfrentam os riscos do excesso de individualismo, espírito de competição, falta
de uma eclesiologia clara e atitudes sectárias. Para superar esses problemas
ele novamente propõe o modelo de missão integral, que vai além da experiência
religiosa pessoal para incluir a comunidade e o mundo.53

Finalmente, Escobar alerta os cristãos evangélicos para a necessidade de um
constante processo de encarnação e contextualização que rejeita toda e qualquer
forma de paternalismo e discriminação, a partir da sua própria comunidade
local. Ele encarece a necessidade de uma espiritualidade profunda aliada a uma
preocupação igualmente intensa com as exigências éticas do evangelho, e conclui
com uma análise do modelo missionário de Paulo, com sua notável interação entre
reflexão e ação missionária.

REFLEXÕES FINAIS

Samuel Escobar não se identifica como um reformado ou calvinista. Sua biografia
e envolvimentos revelam uma conexão preponderante com a tradição anabatista,
uma vez que está filiado à Igreja Menonita. Não obstante, algumas de suas suas
ênfases certamente contariam com o aval de João Calvino e de muitos dos seus
seguidores. Nos escritos do grande reformador, seja em seus comentários,
cartas, sermões ou nas Institutas, vemos uma preocupação constante com as
implicações sociais e comunitárias do Evangelho, fato que tem sido amplamente
documentado por diversos pesquisadores.54 Historicamente, os reformados têm
acentuado um conceito abrangente acerca da missão da igreja, muito embora as
suas práticas nem sempre tenham correspondido às suas convicções.

Não precisamos concordar com tudo o que Samuel Escobar tem escrito. Na
realidade, alguns pontos da sua missiologia merecem reparos, como a sua ênfase
quase que exclusiva sobre as massas empobrecidas da América Latina como objeto
da ação missionária da igreja. Ainda que isso não deixe de ser importante, o
nosso continente testemunha o crescimento cada mais acentuado de uma classe
média significativa que também deve ser alvo do interesse da igreja. Ao lado
disso, Escobar tende a superestimar os valores positivos das igrejas populares,
dando pouca atenção a alguns sérios problemas apresentados pelas mesmas,
notadamente nas áreas doutrinária e ética, como é caso de alguns recentes
movimentos neopentecostais.

Não obstante, Escobar e seus colegas têm algo importante a dizer às igrejas
evangélicas históricas da América Latina e do Brasil, que realmente correm o
risco de tornar-se irrelevantes na sociedade caso não despertem para algumas
dolorosas realidades que existem ao seu redor. Tal ocorrência seria um
retrocesso histórico lastimável, pois que a igreja cristã em geral e as igrejas
evangélicas de modo particular têm uma longa e honrosa tradição de “missão
integral” ao mundo. Basta lembrarmos o intenso esforço de missões e de reforma
social gerado pelos grandes despertamentos dos séculos XVIII e XIX, na Europa e
nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo que enviavam pregadores do evangelho para todos os quadrantes do
mundo, as igrejas e cristãos individuais estavam na vanguarda de movimentos em
prol da extinção do tráfico negreiro, da abolição da escravatura, da reforma
das prisões, da luta contra o trabalho infantil, do combate ao alcoolismo e de
tantas outras causas nobres. Infelizmente, no início deste século, as disputas
teológicas tão bem exemplificadas pela controvérsia modernista-fundamentalista
nos Estados Unidos, produziram a concepção dicotômica da missão da igreja que
hoje observamos. Os conservadores em grande parte aferraram-se à idéia de que a
missão exclusiva da igreja é a evangelização, tendo como alvo a conversão
individual, ao passo que os liberais, poucos afeitos à pregação do evangelho,
optaram decididamente por atividades de cunho social.

Num período conturbado da história recente da América Latina, quando nosso
continente foi sacudido por profundas convulsões políticas, ideológicas e
sociais, muitos cristãos aderiram à agenda revolucionária da Teologia da
Libertação. Samuel Escobar e seus companheiros da Fraternidade Teológica
Latino-Americana fizeram um esforço sério no sentido de apresentar uma
alternativa a essa teologia que fosse bíblica, evangélica e igualmente radical
em suas implicações. Eles demonstraram que as igrejas podem permanecer fiéis às
suas convicções históricas e ao mesmo tempo adotar uma postura ousada e coerente
em relação aos problemas sociais.

Como cristãos brasileiros preocupados tanto com a missão da igreja quanto com
as difíceis realidades sócio-econômicas de nosso país, devemos levar a sério os
desafios desses líderes, que falam com convicção, coerência e clareza sobre a
necessidade de um entendimento abrangente da tarefa da igreja no mundo, como
agente e instrumento de Deus. Como Escobar destaca, a atitude e as ações de
Deus em relação ao mundo, especialmente como reveladas no seu Filho, Jesus
Cristo, são o nosso grande paradigma de missão. A Bíblia fala de um Deus que
toma a iniciativa, que busca a humanidade com amor e compaixão, que quer dar
vida e dignidade à sua criação. Isso foi ilustrado de maneira extraordinária
por Jesus, quando, em seu ministério terreno, manifestou o interesse de Deus
por todos os tipos de pessoas e pela pessoa integral.

O Cristo do Novo Testamento interessa-se por todas as necessidades humanas —
espirituais, físicas e emocionais; a sua mensagem e ações desafiam todas as
áreas da vida particular e coletiva. Tudo deve ser colocado debaixo do
propósito e do senhorio de Deus. O reino de Deus e seus novos valores devem ser
manifestos em todos os tipos de relacionamentos humanos. Por causa do seu forte
senso de missão, Jesus lutou e morreu na cruz. Ele instruiu os seus seguidores
a continuarem a sua obra de proclamação do reino (Jo 20.21s).

Evidentemente, esses sublimes ideais nem sempre encontram plena expressão nas
vidas diárias dos cristãos e das igrejas. Inevitavelmente é levantada a questão
das prioridades: uma vez que não podemos fazer tudo que Deus espera que
façamos, vamos concentrar os nossos esforços no que é primordial – a
evangelização – e as outras preocupações cuidarão de si mesmas.

Desde uma perspectiva evangélica, a evangelização – convidar os indivíduos, as
famílias e as comunidades à reconciliação e nova vida em Jesus Cristo –
certamente é básica e essencial. Todavia, a preocupação com prioridades,
praticidade ou, muitas vezes, estatísticas e resultados rápidos não deve cegar
a igreja para a integridade da missão, o propósito total de Deus para a
humanidade e para a comunidade redimida. À medida que a igreja evangeliza, ela
também precisa expressar o interesse de Deus por toda a vida e espelhar a
atitude daquele que disse: “Eu vinham para que tenham vida, e a tenham em
abundância.”

A igreja não deve ser reduzida a uma organização social ou a um grupo de
pressão política como tantos que existem na sociedade. Ela é uma instituição
singular, com uma contribuição e uma mensagem singular. Essa mensagem, se
vivida até as suas últimas conseqüências, necessariamente fará com que a igreja
enfrente as diferentes situações que afetam a vida humana neste mundo caído. É
para essas implicações mais amplas do evangelho e da missão da igreja que
cristãos comprometidos e inquiridores como Samuel Escobar chamam a nossa
atenção.

Obs.: O presente estudo é uma versão ampliada do artigo “Samuel Escobar e a
Missão Integral da Igreja: Uma Perspectiva Latino-Americana,” publicado em Vox
Scripturae 8/1 (Julho 1998): 95-111.

Ver, a esse respeito, o importante livro de William R. Hutchison, Errand
to the World: American Protestant Thought and Foreign Missions (Chicago: The
University of Chicago Press, 1987).
A Conferência de Edimburgo
é considerada o berço do moderno movimento ecumênico. Seus líderes, como Joseph
H. Oldham, John R. Mott e Robert E. Speer, eram provenientes do movimento
cristão de estudantes.
Ver Kenneth S. Latourette, “Ecumenical Bearings of the
Missionary Movement and the International Missionary Council,” em A History of
the Ecumenical Movement: 1517-1948, eds. Ruth Rouse e Stephen C. Neill, 3ª ed.,
353-402 (Genebra: World Council of Churches, 1986).
Daí o subtítulo utilizado:
“Para considerar os problemas missionários relativos ao mundo não-cristão.”
William R. Hogg, Ecumenical Foundations: A History of the International
Missionary Council and its Nineteenth-Century Background (Nova York: Harper and
Brothers, 1952), 131-32.
John Kessler e Wilton M. Nelson, “Panamá 1916 y su Impacto sobre el
Protestantismo Latinoamericano,” Pastoralia 1/2, ed. especial (Novembro 1978):
5-21.
Entre os latino-americanos
presentes no congresso estavam apenas três brasileiros, os presbiterianos
Eduardo Carlos Pereira, Álvaro Reis e Erasmo Braga. Erasmo eventualmente
tornou-se o secretário da Comissão Brasileira de Cooperação, entidade que
promoveu o maior esforço cooperativo até hoje empreendido pelas igrejas
evangélicas brasileiras e foi precursora da Confederação Evangélica do Brasil.
O historiador Sidney Rooy identifica uma seqüência de três séries ou ciclos de
encontros do protestantismo latino-americano.
Ver Samuel
Escobar, “Los ‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” Iglesia y Misión 67/68
(Jan-Jul 1999), 20.
Um dos primeiros e mais
importantes articuladores dessa teologia foi o sacerdote peruano Gustavo
Gutiérrez, autor de Uma Teologia da Libertação (1971). Outros nomes importantes
no campo católico são Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, José Porfirio Miranda,
Hugo Assmann, Henrique Dussel e Leonardo Boff; no campo protestante
destacaram-se José Miguez Bonino e Rubem Alves, entre outros.
Entre os evangélicos conservadores, o órgão cooperativo correspondente ao CLAI
é a Confraternidade de Evangélicos da América Latina (CONELA).
Os próprios locais dessas conferências e congressos são reveladores. Das três
CELAs, duas realizaram-se na cosmopolita e culta Buenos Aires, enquanto que
todos os CLADEs ocorreram nos países andinos, com seus enormes problemas
sociais e suas dinâmicas igrejas populares.
Citado por Tito Paredes em “Visión Histórica de los ‘CLADEs’,” Iglesia
y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 13.
Escobar, “Los ‘CLADEs’ y la Misión de la Iglesia,” 22.
Os critérios de seleção
procuram ser os mais abrangentes possíveis em termos de faixas etárias dos
participantes, sexo, identidade étnica e filiação eclesiástica. Neste último
aspecto, metade das inscrições é reservada para participantes pentecostais.
Iglesia
y Misión 67/68 (Jan-Jul 1999), 35.
Outros membros bem
conhecidos da Fraternidade Teológica são C. René Padilla, Rolando Gutiérrez,
Tito Paredes, Emílio A. Núnez e o brasileiro Valdir Steuernagel.
Sobre a sua relação com o Brasil, o próprio Escobar afirma em uma obra recente:
“Desde a minha primeira visita ao Brasil, em 1953, como jovem delegado peruano
a um congresso mundial da juventude batista, apaixonei-me por esse imenso país.
Em 1959 e 1960 percorri como evangelista e discipulador um bom número de
centros universitários. Cheguei de avião, um velho Catalina da Panair, de
Iquitos, na selva peruana, até Manaus. Dali percorri o Norte e o Nordeste, até
chegar a São Paulo, onde, entre 1962 e 1964, trabalhei como missionário na
frente estudantil, nos primeiros anos da Aliança Bíblica Universitária.” Samuel
Escobar, Desafios da Igreja na América Latina: História, Estratégia e Teologia
de Missões (Viçosa, MG: Editora Ultimato, 1997), 11.
Por força de suas ocupações, Escobar também foi responsável por vários
periódicos. Por exemplo, ele foi editor de Certeza, uma revista para estudantes
universitários, e diretor de Pensamiento Cristiano, um órgão de exposição do
pensamento evangélico, publicado na Argentina.
Por exemplo, em 1982 Escobar participou da Consulta de Teólogos do Terceiro
Mundo, realizada em Seul, na Coréia do Sul. A revista Evangelical Review of
Theology, órgão oficial da referida Comissão Teológica, publicou os trabalhos
apresentados nessa consulta, um deles escrito por Escobar e três colegas
latino-americanos. Ver Samuel Escobar, Pedro Arana, Valdir Steuernagel e
Rodrigo Zapata, “A Latin American Critique of Latin American Theology,”
Evangelical Review of Theology 7, nº 1 (abril 1983): 48-62. Mais recentemente,
em março de 1998, Escobar participou de uma conferência sobre economia e
missões promovida pelo Concílio de Ministérios Internacionais das igrejas
menonitas norte-americanas. Segundo o Mennonite Brethren Herald, “o
missiologista Samuel Escobar disse que um conceito holístico de missão conclama
os cristãos a compartilhar tanto a vida espiritual quanto recursos materiais e
a utilizar instrumentos espirituais, culturais e tecnológicos.”
Escobar também leciona no curso de Administração do Eastern College, em nível
de pós-gradução. Seu papel principal é ajudar os estudantes a considerar as
missões cristãs no contexto da justiça econômica.
Também publicado em Annals of the American Academy of Political &
Social Science 554 (Nov 1997).
Para os leitores não
familiarizados com o inglês, esta é a tradução dos títulos dos artigos de
Escobar: “A responsabilidade social da igreja na América Latina”; “Além da
teologia da libertação: missiologia evangélica na América Latina”;
“Transformação em Ayacucho: da violência à paz e esperança”; “Missões e
renovação no catolicismo latino-americano”; “O recrutamento de estudantes para
missões”; “A missiologia de McGavran foi devorada por um leão?”; “De Lausanne
1974 até Manilla 1989: a peregrinação da missão urbana”; “Um movimento
dividido: três abordagens da evangelização mundial permanecem em tensão entre
si”; “Teologia evangélica na América Latina: o desenvolvimento de uma
cristologia missiológica”; “Missão na América Latina: uma perspectiva
evangélica”; “Elementos de estilo na formação de novos líderes missionários
internacionais”; “500 anos após Colombo: Requiem ou Te Deum?”; “O legado de
John A. Mackay”; “O evangelho inteiro para o mundo inteiro a partir da América
Latina”; “A nova ordem mundial das missões: o século XXI nos conclama a
abandonarmos nossos modelos de ministério mundial procedentes do século XIX”;
“Além da teologia da libertação: artigo-resenha” e “Uma abordagem missiológica
do protestantismo latino-americano.”
Como no Brasil, historicamente, o termo “evangélico” tem sido virtualmente
sinônimo de “protestante,” os estudiosos estão utilizado o anglicismo
“evangelical” para designar especificamente os evangélicos conservadores, em
distinção dos progressistas ou liberais, como ocorre nos Estados Unidos. David
Bosch menciona pelo menos seis tipos básicos: (1) novos evangelicais (como
Billy Graham), que tentam unificar todos os evangelicais; (2) evangelicais
separatistas (como Carl McIntire e o seu Concílio Internacional de Igrejas
Cristãs); (3) evangelicais por confissão (como Peter Beyerhaus); (4)
evangelicais pentecostais e carismáticos; (5) evangelicais radicais (como
Samuel Escobar, René Padilla e Orlando Costas); e (6) evangelicais ecumênicos
(como John Stott, Festo Kivengere e Arthur Glasser).
Ver Internet,
www.homenet.com.br/cem/postura.html.
Rodger C. Bassham, Mission Theology: 1948-1975 – Years of Worldwide Creative
Tension – Ecumenical, Evangelical, and Roman Catholic (Pasadena, Califórnia:
William Carey Library, 1979), 291.
Ibid., 295.
Ibid., 187.
Ibid., 225.
Ibid., 231.
John Stott, The Lausanne Covenant: An Exposition and Commentary (Minneapolis:
World Wide, 1975), 25.
Bassham, Mission Theology, 237.
Escobar atribui ao CLADE I,
que recebeu 920 delegados de 25 países, o surgimento de uma “teologia nacional”
entre os evangélicos latino-americanos. Desafios da Igreja, 22. Esse congresso
foi o berço da Fraternidade Teológica Latino-Americana.
Quando Escobar concluiu sua palestra, os delegados colocaram-se de pé e
demonstraram a sua aprovação aplaudindo-o entusiasticamente. A palestra foi
publicada na íntegra por Edições Vida Nova. Ver Samuel Escobar, A
Responsabilidade Social da Igreja, Tópicos do Momento 3 (São Paulo: Vida Nova,
1970).
Ibid., 7-8.
Bassham, Mission Theology, 262.
Orlando Costas, “Missiology in Contemporary Latin America: A Survey,” em
Missions and Theological Education in World Perspective, ed. Harvie M. Conn e
Samuel F. Romen (Farmington, Michigan: Urbanus, 1984), 104.
“Holístico,” do grego hólos
(“inteiro”, “completo”), denota o que diz respeito a totalidades ou sistemas
completos, em contraste com a análise, tratamento ou divisão em partes. A
medicina holística, por exemplo, procura tratar tanto a mente como o corpo.
Samuel Escobar, “Mission in Latin America: An Evangelical Perspective,”
Missiology 20 (Abril 1992), 244.
Samuel Escobar, “Latin America,” em Toward the Twenty-First Century in Mission,
ed. James M. Phillips e Robert T. Coote (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 131.
Ibid. O COMIBAM deu uma
forte ênfase à segunda vinda de Cristo.
Ibid., 133.
Um bom exemplo das idéias de Escobar acerca da evangelização pode ser
encontrado no seu artigo “Vivir y Evangelizar,” em Pensamiento Cristiano 93
(Março 1978): 170-175.
Samuel Escobar, “Has McGavran´s Missiology been Devoured by a Lion?”
Missiology 17 (Julho 1989), 349-350.
Ibid., 350.
Escobar, “Mission in Latin America,” 241.
Escobar, “Latin America,” 134. “Anômicas”
deriva de “anomia,” a instabilidade social resultante do colapso dos padrões e
valores; no sentido individual, significa a inquietação, alienação e incerteza
que decorre da ausência de propósito ou ideais.
Samuel Escobar, “Beyond Liberation Theology: Evangelical Missiology in
Latin America,” International Bulletin of Missionary Research 6 (Julho 1982),
108.
Ibid., 110.
Ibid., 111.
Samuel Escobar, “Evangelical Theology in Latin America: The Development of a
Missiological Christology,” Missiology 19 (Julho 1991), 316.
Ibid., 321.
Ibid., 328.
Samuel Escobar, “The Elements of Style in Crafting New International Mission
Leaders,” Evangelical Missions Quarterly 28 (Janeiro 1992), 7.
Escobar, Desafios da Igreja
na América Latina, 19.
Ibid., 48. Há poucos anos, Escobar participou de mais uma consulta da Comissão
Teológica da Fraternidade Evangélica Mundial. Tal consulta, realizada em
Londres de 9 a 14 de abril de 1996, teve como tema “Fé e Esperança para o
Futuro: Por Uma Teologia Evangélica Vital e Coerente para o Século XXI.”
Escobar foi o autor de um dos seis estudos apresentados ao plenário, sob o
título “Discernindo o Espírito na América Latina,” em que revela o seu grande
interesse pela dimensão pneumatológica da missão da igreja e conclama os evangélicos
a estarem receptivos ao novo vento do Espírito que sopra na igreja, gerando uma
espiritualidade nova e radical.
Samuel Escobar, “Mañana –
Discerning the Spirit in Latin America,” Evangelical Review of Theology 20/4
(Outubro 1996).
Escobar, Desafios da Igreja
na América Latina, 64.
É o caso de André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, trad.
Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990). Ver também,
do autor do presente artigo, “Amando a Deus e ao Próximo: João Calvino e o
Diaconato em Genebra,” Fides Reformata 2:2 (Jul-Dez 1997), 69-88, e “Jonathan
Edwards: Teólogo do Coração e do Intelecto,” Fides Reformata 3:1 (Jan-Jun
1998), 72-87

Parte XVII
APRENDENDO
DA HISTÓRIA DOS AVIVAMENTOS
Estamos vivendo
numa época em que muitos membros das nossas igrejas oram: “Aviva a tua
obra, ó Senhor, no decorrer dos anos.”(1) Talvez não se expressem
exatamente com estas palavras, mas de fato almejam um avivamento autêntico.
Outros se arrepiam imediatamente quando ouvem falar do assunto. Não é que não
queiram que as igrejas sejam vivas e dispostas para a obra do Senhor; ao
contrário. Mas avivamento? Já passamos por tanta confusão, tribulação e
separação amarga. Não seria melhor evitar o assunto? Neste artigo estudaremos
um pouco da história para ver se podemos descobrir algumas lições para os dias
de hoje. Não é possível repetir a história, mas podemos aprender com ela.

As nossas igrejas no Brasil foram plantadas por missionários da Igreja
Presbiteriana dos Estados Unidos. Nesse país também houve várias épocas de
avivamento com bênçãos e problemas incontáveis. Vamos perguntar à nossa mãe
espiritual: “Conte, mamãe, como é que foi?” Voltemos, então, para a
época que entrou na história como o “Grande Despertamento” (Great
Awakening, 1739-1745).

I. O Presbiterianismo na América do Norte

O Brasil foi descoberto em 1500. Foi na época em que Portugal e Espanha
começaram a navegar pelos oceanos e fundar o seu império ibérico. Somente um
século mais tarde nações protestantes começaram a zarpar pelos oceanos, depois
que foi quebrada a espinha dorsal marítima da Espanha com a derrota da sua
Armada (1588). A Inglaterra implantou colônias na América do Norte, sendo
Virgínia a primeira (1607), com a Igreja Anglicana como a igreja oficial.(2) Os
holandeses fundaram Nova Amsterdã (1614) com sua Igreja Reformada (mas os
ingleses capturariam a colônia cinqüenta anos depois, rebatizando-a como Nova
York). Os “Pais Peregrinos” foram para o nordeste do continente
(1620) e estabeleceram fortes colônias congregacionais.

Por volta de 1700 havia muitas famílias presbiterianas espalhadas por todas as
colônias, especialmente escocesas-irlandesas, e em 1701 um jovem pastor do
nordeste da Irlanda, Francis Makemie, iniciou o seu trabalho itinerante de Nova
York até as Carolinas.(3) Ele é considerado o “pai do presbiterianismo
americano,” tendo organizado igrejas e até consagrado ministros. Era um
homem preparado para o trabalho de Deus: conversão clara, chamada consciente,
visão ampla, santificação constante e disposição incansável. O Senhor abençoou
o seu trabalho. Muitas igrejas foram organizadas e já cinco anos depois o
presbitério reuniu-se pela primeira vez em Filadélfia. No ano seguinte, Makemie
foi preso por ter pregado em Nova York. Ele defendeu o seu próprio caso, que
ficou famoso na jurisprudência sobre a liberdade religiosa. Foi absolvido, mas
adoeceu gravemente devido à permanência no calabouço e foi promovido à glória.
Porém, o crescimento continuou e em 1717 organizou-se o primeiro sínodo. Foi adotada
a ordem eclesiástica da Escócia, e também o seu selo e lema: Nec Tamen
Consumebatur.(4)

Apesar do crescimento numérico das igrejas em geral, a situação religiosa nas
colônias não era boa. Muitos colonos viviam longe das igrejas e, pior ainda, da
Palavra de Deus. Nos lares crentes de fato havia leitura bíblica e o catecismo
era decorado, mas por outro lado existiam muitos obstáculos à santificação,
mormente a embriaguez… até entre pastores. É que os colonos eram pobres, e os
preços dos produtos da lavoura muito baixos, a não ser que pudessem ser
industrializados. Os escoceses sabiam fazer isto, só que não conseguiam vender
o whisky a tempo. Nesse caso, o pastor podia ser pago em espécie e, chegando em
casa depois de uma longa cavalgada numa tempestade de neve, era tentado a tomar
uns tragos. E havia outros problemas. Portanto, não é de estranhar que algumas
pessoas reconhecessem que a igreja precisava ser purificada para tornar-se
realmente uma igreja puritana. E essa purificação devia começar com o corpo
ministerial.(5)

Havia algumas escolas para preparação de pastores no nordeste americano, tais
como Harvard e Yale, mas infelizmente nem sempre zelavam pela ortodoxia e pela
ortopraxia. Além disso, as distâncias eram grandes e as despesas altas. Então,
recorreu-se ao sistema conhecido na Irlanda do Norte, em que candidatos ao
ministério eram treinados na casa de um ou outro pastor com o dom de mestre. Um
desses foi o velho Rev. William Tennent, que preparou uns poucos jovens para o
ministério sagrado, entre eles seus próprios filhos, no seu humilde
“colégio de toras” (Log College).(6) O casal Tennent era um exemplo
de piedade e o próprio George Whitefield, depois de visitá-los, comparou-os a
Zacarias e Isabel. A sua oração diária era pela “purificação dos filhos de
Levi.”(7) A conversão era absolutamente necessária (inclusive para os
presbiterianos) e essa conversão devia ser visível.

II. O Grande Despertamento, 1739-1745

Essa ênfase na pregação tinha sido (re)iniciada naquela região por
“Dominie”(8) Theodore J. Frelinghuysen, o pastor de uma das Igrejas
Reformadas holandesas, que eram muitas por causa da antiga colonização
holandesa e que continuaram a crescer mesmo depois da conquista de Nova
Amsterdã pelos ingleses.(9) Nesse sentido, o Rev. Theodore era herdeiro de uma
ênfase do puritanismo holandês, que por sua vez tinha recebido muita influência
do puritanismo inglês(10) não somente uma doutrina e fé bíblicas, mas também
uma ética e comportamento bíblicos. Quando, pois, o jovem ministro Gilbert Tennent
começou a pregar como o seu colega reformado (1733), isso não foi algo estranho
ao puritanismo presbiteriano americano.(11) Ao mesmo tempo, o Senhor estava
operando nas Igrejas Congregacionais do nordeste americano (1734) e algum tempo
depois o Rev. Jonathan Edwards pregou o seu célebre sermão “Pecadores nas
mãos de um Deus irado” (1741).(12) Na Inglaterra, a pregação de George
Whitefield e de John Wesley levou muitas pessoas ao Senhor, e quando Whitefield
fez uma campanha evangelística nas colônias (1739-1741), em dois anos mais de
trinta mil pessoas foram ganhas, ou seja, 10% da população americana da
época.(13)

Apesar desses resultados positivos, houve problemas humanos, como sempre ocorre
quando o Senhor dá a sua bênção. Vários pastores não souberam controlar a sua
língua. A gritaria de um certo James Davenport passou tanto dos limites, que
até os seus correligionários o consideraram mentalmente fraco. O próprio
Gilbert Tennent abusou da palavra. Em 1740 ele pregou uma mensagem com um
título apropriado sobre os perigos de um ministério não convertido, mas com um
vocabulário por vezes muito veemente, referindo-se aos colegas como “cães
mortos” e outros termos negativos. Não era incomum o uso de linguagem
violenta, mas o impacto do sermão de Gilbert foi mais amplo pelo fato de ter
sido impresso.(14) Também puderam ser observados vários desvios teológicos,
tais como: a Lei não se aplicaria aos crentes; se alguém não sabia quando
estivera sem Cristo, não poderia ser considerado convertido; se alguém não sentia
o sopro do Espírito Santo como um vento verdadeiro, seria um crente carnal.
Algumas irregularidades contra a ordem presbiteriana também azedaram as
relações eclesiásticas, já tensas por causa da frieza, zombaria e forte
oposição dos tradicionalistas e de um certo radicalismo e farisaismo dos
avivados, afetando ambos os grupos como um vírus maligno.

III. O Cisma Presbiteriano, 1741-1758

Infelizmente as tensões aumentaram tanto durante a época do Grande
Despertamento, que ocorreram divisões no corpo de Cristo.(15) O cisma na Igreja
Presbiteriana começou em 1741. No início do sínodo daquele ano um grupo de doze
ministros apresentou um documento chamado “Protestação,” que
simplesmente declarava que os avivados não tinham lugar “neste concílio de
Cristo.” Sete dos “protestadores” pertenciam ao Presbitério de
Donegal, que havia se tornado uma foco de oposição, e quatro deles deviam ser
afastados do ministério por causa de problemas graves. Dizendo-se leais a
Cristo, praticaram uma lealdade dúplice por causa do seu corporativismo.(16)
Alegando apoio na Constituição Presbiteriana, pisaram o direito eclesiástico. O
grupo de tradicionalistas ficou conhecido como a “Ala Velha” do
Sínodo de Filadélfia, e os avivados como a “Ala Nova” do Sínodo de
Nova York.(17)

A Ala Nova é mais conhecida por causa do seu trabalho evangelístico. Em
primeiro lugar, pelo esforço missionário transcultural de homens como o Rev.
David Brainerd, que nos deixou o seu conhecido diário.(18) Brainerd havia sido
expulso do curso teológico de Yale por afirmar que um certo professor não tinha
mais da graça de Deus do que uma cadeira. Depois da sua ordenação, David
trabalhou incansavelmente durante quatro anos entre os indígenas, até sucumbir
à tuberculose na casa do seu futuro sogro, o Rev. Jonathan Edwards. Poucos
meses depois, a sua noiva Jerusha também faleceu vitimada pela mesma
enfermidade (1748).

Menos conhecido, mas não menos importante, foi o trabalho de “missões
nacionais” da Ala Nova. Samuel Davies, também formado num “colégio
(teológico) de toras,” implantou o trabalho presbiteriano na região de
Richmond, na Virgínia (1747-1759), que resultou no primeiro presbitério do sul,
o de Hanover (1755). Não somente pregou aos colonos europeus, mas também aos
escravos africanos, que gostavam de cantar salmos em sua cozinha. No seu diário
ele anotou que de vez em quando acordava com uma torrente de melodias
celestiais. Davies teve o privilégio de batizar uns 150 deles. Nessa época,
Jonathan Edwards, que era presidente do colégio teológico de Princeton, veio a
falecer por causa da varíola. Davies foi chamado para substituí-lo, mas também
faleceu depois de dois curtos anos. Colocaram no túmulo desse servo, que
pregava como o embaixador de um rei poderoso, uma frase de um dos seus 600
hinos: “Inspira a minha alma, ó graça real, e toca meus lábios com fogo
celestial.”(19)

Um problema muito interessante era a tensão entre educação e missão. O fato era
que as igrejas, congregações e pontos de pregação se multiplicavam, mas havia
falta de pastores para atender aqueles vastos campos. Não é que os
presbiterianos não tivessem visão, mas havia falta de obreiros por causa das
rigorosas exigências na educação teológica, o que diminuia o número dos que
podiam estudar. Mas os que conseguiam fazer o curso teológico saíam como homens
bem preparados. Quando chegavam aos seus campos de trabalho, freqüentemente na
então fronteira colonial, eram bem-vindos como pastores e também como
professores, porque eram as pessoas mais educadas da comunidade. Os colonos
pediam que o pastor ensinasse seus filhos.(20) Mas o bom era o inimigo do
melhor, porque uma vez envolvidos no ensino diário, mal sobrava tempo para
visitarem as congregações espalhadas, que às vezes perdiam o contato com a
igreja presbiteriana e filiavam-se a outras denominações.(21)

IV. A Reunião, 1758

Depois de dezessete anos, as duas alas conseguiram restabelecer a paz. Uma das
alavancas foi o sofrimento comum causado pela guerra contra os franceses. O
restabelecimento da união também foi possível porque ambos os lados haviam
permanecido presbiterianos na doutrina e os renovados não tinham rejeitado o
batismo dos filhos da aliança.

Porém, o mais importante é que o clima havia se tornado mais ameno, basicamente
por existir mais humildade nos dois lados. Os tradicionalistas ainda tinham
certas restrições, mas reconheceram que de fato houve muitas conversões
sinceras e permanentes. Também admitiram ser necessário que os pastores (e
conseqüentemente os candidatos ao ministério sagrado), tivessem uma experiência
religiosa, e não somente uma fé formal.(22) Os avivados, por outro lado,
sentiam ainda um profundo desejo de pregar em todo e qualquer lugar, mas
reconheceram que erraram algumas vezes ao invadirem campos pastorais de colegas
tradicionalistas sem serem convidados, não respeitando assim as normas
constitucionais. Também reconheceram que as suas línguas não haviam sido
batizadas pelo Espírito Santo quando usavam certas expressões pejorativas ao
referirem-se aos seus colegas. Insistiram que o avivamento era uma obra santa
do Senhor, mas admitiram que houve falta de discernimento espiritual, pois os
convertidos que apresentavam reações físicas (como arrepios, gritos, desmaios,
etc.), mas sem os frutos do Espírito Santo, estavam seriamente iludidos. E a
Lei do Senhor era sem dúvida uma norma de gratidão para a vida do crente
convertido. As duas correntes uniram-se novamente, sendo o próprio Gilbert
Tennent o maior defensor dessa reunião.(23)

Porém, a paz entre os dois grupos deve ter sido um pouco difícil, especialmente
para os da Ala Velha, por causa da maioria numérica da Ala Nova. No começo do
cisma os avivados eram uma minoria, mas cresceram muito durante os anos da
separação.(24) Um pouco de estatística pastoral demonstra isto claramente: em
1741 a Ala Velha tinha 27 pastores e a Ala Nova 22; em 1758 a Ala Velha tinha
23 pastores e a Ala Nova 73.

De fato, foi como o historiador Trinterud afirmou: “Two sides, two
tides” (duas alas, duas marés).(25) Mas qual teria sido a causa dessa
diferença tão patente? Muito se tem discutido. A Ala Velha insistiu que os
avivados tinham sido beneficiados pela imigração e fundos do Velho Mundo, mas
assim também o foram os tradicionalistas. Talvez tenhamos de lembrar a
distinção entre causas diurnas, patentes a todos, e causas noturnas, ocultas à
maioria.(26) Embora a Ala Velha também tenha feito algo pelas missões
nacionais, a “causa diurna” do crescimento maior da Ala Nova deve ter
sido o trabalho evangelístico mais intenso e mais descentralizado dos irmãos
avivados, as missões sendo sempre um índice preciso do avivamento autêntico.

E existiria ainda alguma “causa noturna”? Cremos que sim. O fato é
que o avivamento real procura maior santificação em todos os setores da vida,
começando pelo individual. Faltando essa característica essencial, o avivamento
não passa de emoção litúrgica. Sem dúvida, no início a Ala Velha não reconheceu
essa necessidade premente de santificação, focalizando suas críticas em
aspectos mais circunstanciais. Dos doze “protestadores” que iniciaram
o cisma expulsando os avivados, quatro tinham problemas morais e, no fim desse
período, mais quatro, ou seja, ao todo dois terços do mesmo grupo! Em virtude
do “corporativismo,” os seus presbitérios faltaram com a disciplina
fraternal. Sim, infelizmente a “causa noturna” mais provável por que
o braço tradicionalista da Igreja Presbiteriana americana murchou até mesmo
durante o “Grande Despertamento” foi a falta de santificação,
santificação esta que é o alvo do Espírito Santo em cada efusão especial do
poder do alto, para que a igreja seja testemunha no tempo e no lugar onde Deus
a colocou na história.

V. Dia da Renovação da Aliança

Devemos ainda acrescentar um parágrafo sobre as lições espirituais que emanam
desse período, à luz das Escrituras? Calvino certa vez disse o seguinte sobre
aqueles que querem tirar uma série de aplicações de um texto bíblico: “A
Escritura é frutífera em si mesma.” Parece que as lições históricas neste
caso são óbvias. E cada um de nós deve aplicá-las à vida, dependendo da nossa posição
no processo histórico atual. Oremos para que aprendamos a andar em humildade, a
fim de não perdermos o verdadeiro avivamento, não promovendo um avivamento pelo
esforço próprio, nem rejeitando as bênçãos incontáveis da obra do Senhor.

“Avivamento” é uma palavra muito bíblica, significando reviver. Não
deveríamos perdê-la por causa de abusos. O conceito de avivamento também é
muito bíblico: retornar ao Senhor, humilhar-se e começar a ter uma vida
purificada, produzindo mais frutos do Espírito Santo.(27) Não devíamos perder o
conteúdo por causa de uma palavra. Se não quisermos usar a palavra
“avivamento,” para nós da tradição reformada uma expressão como
“Renovação da Aliança” ajudaria muito a entender o que o Senhor quer
de nós. Aquela súplica — “Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos
anos” — é uma oração ensinada pelo próprio Espírito Santo. E o Senhor nos
convoca a renovarmos a aliança que ele estabeleceu conosco, renová-la em todos
os seus aspectos. Um dia especial para enfatizar essa renovação da aliança pode
ser para nós presbiterianos o dia do aniversário da nossa igreja, 12 de agosto.
Ou talvez o dia de Pentecoste, o dia do aniversário da igreja universal. Mas,
qualquer dia que seja, seria um dia de oração e jejum para que o Senhor não nos
lance fora, ao contrário, nos use, não para o nosso próprio triunfalismo oco, e
sim para a sua glória, para a salvação de muitos perdidos, e para a
santificação e edificação da igreja, a fim de que ela seja sal da terra e luz
neste mundo tenebroso, como é o desejo profundo de todo verdadeiro
presbiteriano.

Notas

1 Habacuque 3.2 (Almeida Revista e Atualizada).

2 Para um resumo sobre religião na América do Norte, ver W. S. Hudson, Religion
in America (New York: Scribner’s, 1993). Para o período
colonial, ver W. W. Sweet, Religion in Colonial America (New York: Scribner’s,
1942).

3 Sobre Makemie, ver I. M. Page, The Life Story of Rev. Francis Makemie (Grand
Rapids: Eerdmans, 1938).

4 Adotado pela Igreja
Presbiteriana da Escócia em 1635. Os Estados Unidos tornaram-se independentes
em 1776, e em 1789, o ano em que a França sangrava por causa da revolução,
realizou-se a primeira Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana nos Estados
Unidos, incorporando muitos dos antigos huguenotes.

5 Assim também Philipp J. Spener, o grande líder do pietismo na Igreja Luterana
da Alemanha, em seu famoso livro Pia Desideria (“desejos piedosos”),
publicado em 1675.

6 Sobre Tennent e sua escola, ver M. A. Tennent, Light in Darkness: The
Story of William Tennent, Sr. and the Log College (Greensboro, NC: Greensboro
Printing Co., 1971).

7 Ml 3.3; absolutamente
necessário, senão Deus amaldiçoará até as nossas bênçãos (Ml 2.2)!

8 Como eram chamados os ministros da Igreja Reformada Holandesa: dominie, do
latim dominus, “senhor.”

9 Sobre a posição oficial, o crescimento e os problemas dessas igrejas
reformadas (inclusive depois da conquista de Nova Amsterdã pelos ingleses em
1664), ver Gerald F. De Jong, The Dutch Reformed Church in the American
Colonies (Grand Rapids: Eerdmans, 1978).

10 Wilhelm Goeters, Die Vorbereitung des Pietismus in der Reformierten
Kirche der Niederlande bis zur Labadistischen Krisis, 1670 (Amsterdam: T.
Bolland, 1974).

11 L. J. Trinterud, The Forming of an American Tradition (Philadelphia:
Westminster Press, 1949).

12 Jonathan Edwards,
Pecadores nas Mãos de um Deus Irado, 3a. ed. (São Paulo: Publicações
Evangélicas Selecionadas, c.1993).

13 Sobre Whitefield, ver A. A. Dallimore, George Whitefield, 2 vols.
([London]: Ed. Banner of Truth Trust, [1970]).

14 A. Alexander, comp., Sermons and Essays by the Tennents and their
Contemporaries (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, [1855]).

15 Os congregacionais
dividiram-se em “Old Lights” e “New Lights,” os batistas em
“Regulars” e “Separatists.”

16 Se houve também uma dupla lealdade por causa de ligações maçônicas, não
ficou claro até agora. Nesse século XVIII de racionalismo, a maçonaria era uma
espécie de reação mística contra o árido deísmo. Começou em Londres em 1717 e
trinta anos depois já era influente na colônia americana.

17 “The Old and New Side” do século XVIII não devem ser confundidos
com “The Old and New School” do século XIX.

18 Ver Jonathan Edwards, A Vida de David Brainerd (São José dos Campos, SP:
Editora Fiel, 1993). Para essa biografia do seu genro, Edwards baseou-se em
grande parte no diário de Brainerd.

19 “Almighty grace, my soul inspire, and touch my lips with
heavenly fire.”

20 Dessas escolas
paroquiais nasceram instituições educacionais conhecidas, como a Universidade
de Pittsburgh, na Pensilvânia.

21 Valeria a pena um estudo aprofundado sobre as congregações da IPB que foram
perdidas.

22 Exigência incluída também na Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil,
no seu Art. 32.

23 Cf. o seu sermão publicado, “Irenicum Ecclesiasticum” (1749).

24 O mesmo fenômeno de crescimento numérico ocorreu entre os congregacionais:
na região de Boston havia nessa altura quase três vezes mais pastores avivados
do que tradicionalistas.

25 Trinterud, Forming of an American Tradition, cap. 8: “The Withered
Branch.”

26 Ruy dos Santos Pereira,
Piso e a Medicina Indígena (Recife: Instituto Arqueológico, Histórico e
Geográfico Pernambucano e Universidade Federal de Pernambuco, 1980), 23.27 2 Cr
7.14. Existem muitos exemplos históricos, como Js 5, 24; 2 Cr 29-30; Ne 8, etc
Fonte: Revista Fides Reformata

Parte XVIII
AS QUATRO
INDISPENSÁVEIS QUALIDADES

Uma Igreja Missionária
“E,
servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora,
Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando,
e impondo sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.2,3).

Como deve ser caracterizada a igreja evangélica brasileira em seu propósito de
ser uma igreja verdadeiramente missionária no Brasil e no mundo? Biblicamente
falando, todo campo missionário deveria se tornar, obrigatoriamente, numa base
missionária. Mas por uma série de fatores que lamentamos, nem sempre é essa a
realidade em termos de igreja brasileira. Já a igreja de Antioquia era, sem
sombra de dúvida, um exemplo de igreja missionária. A igreja que outrora foi
campo, que o Espírito Santo preparou para receber a boa semente do evangelho,
cresceu e frutificou, passando a ser oficialmente o portal da missão entre os
gentios; pois quando o Espírito Santo disse em Atos 13.2, “Separai-me
agora …” a partir daquele momento a igreja de Antioquia não seria mais a
mesma em termos de visão e ação missionárias.

Os princípios que nortearam a vida da igreja de Antioquia, e que, com certeza,
deveriam inspirar todas as igrejas, foram cuidadosamente observados e
registrados por Lucas em Atos 13.

Igreja missionária é igreja adoradora

Atos 13.2 inicia assim: “E, servindo eles ao Senhor…”. O particípio
presente leitourgountwn (servindo [ARA], workshiping [NIV]), do verbo leitourgéw,
é empregado por Lucas em Atos 13.2 com o mesmo significado de latréw, isto é,
“servir em adoração”; “prestar culto a Deus”. O particípio
presente indica ação contínua.

Uma igreja só pode ser verdadeiramente missionária se for verdadeiramente
adoradora e vice-versa. Orlando Costas estava certo quando disse que “o
culto está intrinsecamente relacionado com a ação de Deus na história e a
conversão das nações ao Deus trino e uno”.

E ainda:

O culto, em sua dimensão humana, surge da missão. É o resultado espontâneo da
experiência da redenção. Do mesmo modo, a missão deve ser vista como um
acontecimento cultual, porquanto celebra o que Deus tem feito por homens e
mulheres em Jesus Cristo e os chama a receber e compartilhar o dom da graça de
Deus.

Talvez um dos piores males que têm assolado, dividido e enfraquecido a igreja
brasileira em nossos dias seja os constantes debates em torno da tarefa
prioritária da igreja. E não estamos nos referindo à questão da evangelização e
responsabilidade social, outro assunto desnecessariamente polarizado. Ao
contrário, estamos falando da dicotomia existente entre culto e missões. E a
discussão não é se a igreja deve adorar ou evangelizar (embora às vezes é o que
de fato acontece), mas sim, o que deve ser considerado em primeiro lugar.

As opiniões são as mais variadas e extremistas até. De um lado temos os que
insistem que “missões são a segunda mais importante atividade no
mundo”, ou que “missões existem porque o culto não existe”. Do
outro lado, tem quem afirme ser “um absurdo dizer que muitas são as
responsabilidades da igreja. Igreja é missões”. Para os defensores da
primeira posição, só o fato do culto ser dirigido a Deus e as missões aos
homens já definiria, por si só, a questão da prioridade da igreja. Os defensores
da segunda posição argumentam, por sua vez, que é preciso mais que adoração.
“É preciso ter paixão pelos perdidos e obedecer ao ide de Jesus”.
Será que precisamos mesmo priorizar uma tarefa em detrimento da outra, como
temos visto na prática? Será que podemos afirmar que culto é mais importante
que missões ou vice-versa? Mais uma vez contamos com o argumento equilibrado de
Orlando Costas:

Não existe dicotomia alguma entre culto e missão. O culto é a reunião do povo
enviado ao mundo para celebrar o que Deus fez em Cristo e está fazendo mediante
a participação deles na ação testemunhal do Espírito. A missão é a culminação e
antecipação do culto. No culto e na missão a comunidade redimida dá evidência
concreta do fato de que é, ao mesmo tempo, um povo de oração e
testemunho”.

Vemos, então, que o culto deve levar a igreja a fazer missões (cf. At 2.42-47),
e missões, por sua vez, devem levar os perdidos a prestarem culto a Deus (cf.
At 13.44-49). Pois uma adoração que não leva a igreja a evangelizar não passa
de mera contemplação, e uma evangelização que não leva os pecadores a adorarem
a Deus está fora dos propósitos do próprio Deus. “A liturgia sem missão é
como um rio sem manancial, a missão sem culto é como um rio sem mar. Ambos são
necessários. Sem um o outro perde sua vitalidade e significado”.

Igreja missionária é igreja de oração

José Martins disse corretamente: “A oração é a essência da obra
missionária. Não é só uma atividade necessária ao sucesso da obra – é a obra em
si. É a prática mais missionária possível, quando vivida de maneira
bíblica”. É evidente que Martins não quer dizer que oração e missões são a
mesma coisa, e sim, que essas duas atividades devem vir interligadas uma na
outra. Nunca é demais enfatizar a importância da prática da oração na obra
missionária.

Quando o Espírito Santo ordenou que a igreja de Antioquia separasse Paulo e
Barnabé para a obra que os tinha chamado, a igreja estava em oração. Esta
verdade está implícita e explícita em Atos 13.2 e 3, respectivamente.

Implicitamente porque o versículo dois diz o seguinte: “E, servindo eles
ao Senhor, e jejuando…”. O fato da igreja estar jejuando subentende-se
que ela estava também orando.

Seria incoerente pensar que uma igreja que estava adorando a Deus e jejuando
não estivesse em oração. Nem toda oração é feita em jejum, mas todo jejum
bíblico é feito com oração. Além disso, temos uma evidência explícita de que a
igreja de Antioquia realmente orava naquela ocasião: “Então, jejuando e
orando…” (v3). Não sabemos ao certo se o jejum do verso 3 é o mesmo do
verso 2. Pela urgência do chamado do Espírito, tudo indica que sim. Mas se é o
mesmo ou deixa de ser, não é tão importante sabermos. Basta saber que a igreja
de Antioquia era uma igreja de oração e que fazia da oração a base de sua
missão.

É provável que o exemplo da igreja de Antioquia tenha marcado positivamente o
ministério de Paulo. Paulo foi um homem de oração e recomendava às igrejas que
orassem por ele e pela expansão do evangelho de Jesus Cristo.

Agora, mais do que simplesmente orar, a igreja de Antioquia era uma igreja que
exercia a prática do jejum. É impressionante a ênfase que Lucas dá ao jejum na
igreja de Antioquia. Em Atos 13.2 ele diz que a igreja jejuava, e não menciona
a oração, embora sabemos que ela também orava, conforme dissemos acima. No
verso 3, do mesmo capítulo 13, Lucas coloca a palavra “jejuando” na
frente de “orando”. No texto grego é a mesma coisa: nestéusantes kai
proseuxamenoi. A ordem das palavras é significativa e não pode ser menosprezada,
como tem feito a maioria dos autores que consultamos.

A ênfase de Lucas é importante por duas razões pelo menos: 1) Não devemos
pensar que a igreja de Antioquia jejuava porque trazia resquícios do judaísmo.
Esta não seria uma forma inteligente de pensar, primeiro porque Lucas era
gentio (provavelmente da cidade de Antioquia da Síria) e, por isso mesmo, qual
o interesse dele em dar tanta ênfase a uma prática estritamente judaica?
Segundo, a igreja de Antioquia foi uma das igrejas mais anti-judaicas do passado,
naquilo que se refere às práticas religiosas do judaísmo. Direta ou
indiretamente o Concílio de Jerusalém de Atos 15 aconteceu em razão desse
anti-judaísmo-cerimonialista. 2) Acreditamos que Lucas fez questão em enfatizar
a prática do jejum pela igreja de Antioquia, primeiramente para mostrar que
jejum e oração não são incompatíveis na vida de uma igreja e, em segundo lugar,
mostrar como esta prática era (e deve ser) valorizada no meio de uma igreja
verdadeiramente missionária.

Se muitas de nossas igrejas têm falhado na prática da oração, e falhado mais
ainda em rogar ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara, em
interceder pelos missionários e orar pela obra missionária de um modo geral, o
que dizer então da prática do jejum em nossas igrejas?

Acredito que as igrejas históricas têm falhado até agora em subestimar a
importância do jejum na vida do povo de Deus. Quantos são os membros destas
igrejas que jejuam? Quantos de seus pastores jejuam? Muitos de nós mal oramos,
diga-se de passagem.

Na minha própria denominação, Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), aprendi:
“Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia
que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades
públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a
observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de
graças” (Princípios de Liturgia, XI). Se o povo de Deus tiver que jejuar
“em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras,
epidemias, terremotos, etc.”, conforme prescrevem os princípios de
liturgia da IPB, nunca existirá um dia de jejum neste país! Que o jejum deve
ser praticado em dias de calamidades públicas não questionamos, pois a Bíblia
nos dá vários exemplos disso. Mas será que devemos jejuar somente em casos
muito excepcionais de calamidades públicas? Da forma como foi redigido o
princípio para a prática de jejum na IPB, ao invés de estimular o crente a
praticá-lo, ele faz exatamente o contrário. Não que o princípio fora escrito
com o objetivo de desestimular quem quer que seja, porém, na prática é o que
tem acontecido. Creio que o capítulo sobre jejum deveria ser revisto pela IPB,
primeiro porque ele não expressa corretamente a realidade brasileira e também
por não apresentar uma definição mais completa do verdadeiro conceito bíblico
de jejum.

Apesar da Igreja Primitiva ter vivido momentos de muitas provações, nada indica
que naquela ocasião especial de Atos 13 a igreja de Antioquia estivesse
jejuando e orando porque passava por momentos difíceis. Pelo contrário, o
contexto próximo (cap. 12) indica que a Igreja Primitiva, de modo geral, estava
vivendo um dos seus melhores dias. Pedro havia sido libertado milagrosamente da
prisão e um dos maiores inimigos da igreja, o rei Herodes Agripa I, foi morto
mediante a intervenção de um anjo do Senhor. Enquanto isso, “a palavra do
Senhor crescia e se multiplicava” (At 12.24).

A igreja de Antioquia buscava a presença de Deus pelo simples prazer de estar
servindo a Deus.

E continuou assim quando enviou seus missionários e os sustentou com fervorosas
orações.

Que Deus conceda à igreja brasileira a graça de ser uma igreja que se alegre em
estar em Sua presença, intercedendo dia após dia pela obra missionária do
Brasil e do mundo.

Igreja missionária é igreja que ouve a voz do Espírito Santo

Enquanto a igreja orava, é provável que o Espírito Santo falou pelos profetas
que ali estavam, tornando Sua vontade conhecida. Não sabemos ao certo como o
Espírito Santo falou aos profetas da igreja de Antioquia. Seja como for, Ele
falou e a igreja ouviu.

O verbo “ouvir” é empregado em mais de um sentido nas Escrituras.
Pode significar: captar, entender, abraçar e obedecer o que se ouve. Alguém
pode escutar e ouvir, no sentido literal, o som das palavras, entender as
palavras, mas ser totalmente surdo quanto à prática dessas palavras.

A igreja de Antioquia era uma igreja sensível à voz do Espírito, e mais do que
aguçar os ouvidos para ouvir a Sua voz, ela ouviu, principalmente, obedecendo.
E é exatamente nesse sentido de fazer o que Deus ordena que a igreja brasileira
hoje deve ouvir, através da Escritura, o que “o Espírito diz às
igrejas”.

O Espírito Santo continua falando e ouvimos a Sua voz, mas lamentavelmente,
este “ouvir” nem sempre tem sido traduzido em termos de
“obediência”. O Espírito Santo falou à igreja de Antioquia e ela
imediatamente colocou Paulo e Barnabé no mundo. Eis aí a voz do Espírito que
muitas vezes tem sido ignorada pelos crentes: A igreja no mundo e para o mundo.
É nisso que Deus espera ser ouvido e obedecido.

Se ouvir o Espírito Santo significa obedecê-lo, uma das grandes expressões
dessa obediência é estar no mundo para ouvir o mundo. E o que significa ouvir o
mundo? John Stott responde: “O mundo de hoje está repleto de clamores que
refletem ira, frustração e sofrimento. Mas muitas vezes nós nos fazemos de
surdos diante dessas vozes de angústia”. Stott nos lembra, ainda, que
existem dois grupos de pessoas no mundo que, além de precisarem ouvir o que a igreja
tem a lhes dizer, precisam, antes, ser ouvidos pela igreja. Diz ele:

Primeiro, temos o sofrimento daqueles que nunca ouviram o nome de Jesus, ou
que, embora tenham ouvido falar nele, ainda não o aceitaram e, portanto, em sua
alienação e perdição, estão sofrendo terrivelmente. Neste caso, o que
costumamos fazer é sair correndo com o evangelho nas mãos, subir no nosso
poleiro e vomitar a nossa mensagem, sem a mínima consideração para com a
situação cultural ou as verdadeiras necessidades dessas pessoas. O resultado é
que, com muito mais freqüência do que gostaríamos de admitir, nós afastamos as
pessoas e até mesmo aumentamos sua alienação, pois a forma como apresentamos a
Cristo é insensível, desajeitada e até irrelevante. De fato, “responder
antes de ouvir é estultícia e vergonha”.

A melhor coisa é ouvir antes de falar, procurar penetrar no mundo das idéias e
pensamentos da outra pessoa, tentar descobrir quais são as suas possíveis
objeções ao evangelho e então compartilhar com ela as boas novas de Jesus Cristo
de uma maneira que fale às suas necessidades. Esta atividade desafiadora,
humilde e perspicaz é chamada, e com razão, de “contextualização”.
Mas é essencial acrescentar que contextualizar o evangelho não é de maneira
alguma manipulá-lo.

… Em segundo lugar, temos o sofrimento dos pobres e dos famintos, dos
despossuídos e dos oprimidos. Muitos de nós só agora é que estão despertando
para a obrigação que a Escritura sempre colocou sobre o povo de Deus, de
preocupar-se com a justiça social. Nós deveríamos ouvir com mais atenção os
clamores e os suspiros daqueles que estão sofrendo. Quero compartilhar aqui um
versículo bíblico que nós temos negligenciado e que, em se tratando deste
assunto, quem sabe deveríamos destacar. Ele contém uma solene palavra de Deus
para aqueles que, dentre o seu povo, carecem de consciência social. Encontra-se
em Provérbios 21.13: “O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também
clamará e não será ouvido.

Complementando Jonh Stott, lembramos ainda de Orlando Costas, que também costumava
chamar o compromisso da igreja para com a sociedade e o mundo de dimensão
diaconal ou encarnacional, isto é, “a intensidade de serviço que a igreja
presta ao mundo, como prova concreta do amor de Deus”. E mais:

Esta dimensão envolve o impacto que o ministério reconciliador da igreja exerce
sobre o mundo, o seu grau de participação na vida, conflitos, temores e
esperanças da sociedade e a medida em que seu serviço ajuda a aliviar a dor
humana e a transformar as condições sociais que têm condenado milhões de
homens, mulheres e crianças à pobreza. Sem esta dimensão a igreja perde sua
autenticidade e credibilidade, pois somente na medida em que conseguir dar
visibilidade e concreticidade à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar
ser ouvida e respeitada.

Se a igreja brasileira der ouvidos à voz do Espírito, com certeza ouvirá a voz
dos que precisam ser ouvidos.

Igreja missionária é igreja compromissada com os missionários

O que determina, de certo modo, se uma igreja é ou não missionária é o seu
envolvimento e compromisso com os missionários. Este compromisso mostrará até
onde a igreja está engajada em missões e, principalmente, até onde ela tem sido
obediente à voz do Espírito de Deus, mesmo quando atua na retaguarda.

A igreja de Antioquia era uma igreja de compromissos. Ela estava compromissada
com Deus (servindo a Deus, jejuando e orando, Atos 13.2,3) e com os
missionários (impondo sobre eles [Barnabé e Saulo] as mãos, os despediram, Atos
13.3).

É importante destacar, antes de tudo, que o envolvimento missionário da igreja
de Antioquia não estava limitado àqueles cinco nomes de Atos 13.1. E mesmo se a
imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé tivesse sido realizada por apenas três
deles, nem por isso deixaria de ser o trabalho da igreja toda. Comentando o
envio dos missionários pela igreja de Antioquia, Kistemaker diz com razão que
“toda a igreja de Antioquia estava envolvida em comissionar Barnabé e
Saulo, pois quando os missionários retornaram, eles relataram à igreja o que
Deus tinha feito (14.27)”. E ainda, “o Espírito Santo movimenta a
igreja e não meramente cinco pessoas para se engajarem na obra
missionária”.

A imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé não deve ser entendida, conforme
observa Liefeld, como “uma ordenação para ensinar (Paulo e Barnabé já
tinham estado no ministério cristão, e Paulo considerava que a sua autoridade
vinha diretamente de Deus, e não dos homens, nem sequer por intermédio dos
homens, Gl 1.1)”. E ainda: “O certo é que Paulo e Barnabé foram enviados
para uma obra específica numa atmosfera de adoração, oração e jejuns (At
13.1-3), uma ação que, segundo Atos 14.26, os ‘recomendou à graça de
Deus'”.

A interpretação de Liefeld quanto à imposição de mãos em Atos 13.3 é boa mas
poderia ser melhorada. É que, além do que Liefeld diz, houve naquela ocasião um
“pacto” entre a igreja de Antioquia e os missionários, no qual a
igreja ficaria definitivamente vinculada aos missionários e os missionários à
igreja.

Uma palavra grega que expressa muito bem o vínculo do relacionamento e do
compromisso cristãos entre missionário e igreja é koinwnéw (associar). Certa
vez o apóstolo Paulo expressou sua gratidão para com os filipenses, pelo
cuidado a ele dispensado e, depois de observar que “tudo posso naquele que
me fortalece” (Fp 4.13), acrescentou: “Todavia, fizestes bem,
associando-vos na minha tribulação. E sabeis também vós, ó filipenses, que, no
início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou
comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros” (Fp
4.14,15, grifos nossos). Por duas vezes o apóstolo usa o verbo
“associar” nesta passagem. Comentando este texto de Filipenses
4.14,15, Edison Queiroz destaca:

A palavra que Paulo está usando aqui para “associar-se” é uma palavra
comercial, usada quando duas pessoas decidem formar uma sociedade. Assim como
eles se tornam sócios, em um projeto missionário um dos sócios é o missionário
e sua família, e o outro é a igreja local; a igreja e a família estão indo
juntas ao campo.

Lucas registra que a igreja de Antioquia “acompanhou” as viagens
missionárias de Paulo e este, por sua vez, relatava a ela as coisas que Deus
fazia por seu intermédio. Em Atos 14.26-28, por exemplo, a primeira viagem
missionária termina com o retorno de Paulo e Barnabé à igreja enviadora para
repartir os “lucros” com os “sócios”, para compartilhar os
frutos do trabalho com ela: “… navegaram para Antioquia, onde tinham
sido recomendados à graça de Deus para a obra que haviam já cumprido. Ali chegados,
reunida a igreja, relataram quantas cousas fizera Deus com eles e como abrira
aos gentios a porta da fé. E permaneceram não pouco tempo com os
discípulos”.

A igreja de Antioquia tomou para si a responsabilidade da obra missionária. E
por que? Porque ela se propôs a ser co-participante do Espírito no envio e
sustento dos missionários. A missão do Espírito seria a missão da igreja.

Em Atos 13.3 não aconteceu o que vemos hoje em dia. Paulo e Barnabé não foram
lançados num campo e deixados “ao deus dará”. A igreja não se esqueceu
daqueles que enviou e os missionários, por outro lado, não se lembraram da
igreja somente quando o dinheiro da missão encurtou. Não queremos generalizar,
mas não é, infelizmente, o que muitas vezes temos visto? Além disso, a igreja
de Antioquia não entregou Paulo e Barnabé aos cuidados da igreja de Jerusalém e
muito menos os deixou por conta de uma agência missionária. De maneira nenhuma!
A igreja de Antioquia tinha responsabilidade missionária. Havia nela o que
Queiroz chama de “personalização”.

Atualmente, o que temos visto com freqüência são as agências ou juntas de
missões ocupando o lugar da igreja local. Não que as agências não tenham seu
devido valor, é claro que têm. Ademais, as agências de missões, em si, não
tiram a responsabilidade missionária das igrejas. Contudo, se hoje elas estão
ocupando o lugar das igrejas, indo além de suas atribuições, é porque as
igrejas estão aquém de sua vocação.

Del Pino complementa o conceito da responsabilidade missionária da igreja
dizendo: Um grande número de igrejas espalhadas por este nosso Brasil precisa
ver-se como vocacionadas por Deus para exercerem a tarefa missionária como um
fator de peso em seu ministério, precisa ver-se como a força missionária de
Deus nesse mundo e em nosso país.

Falando ainda acerca da importância da igreja local em missões, Del Pino
destaca quatro coisas que, segundo ele, deveriam acontecer em nossas igrejas.
Em resumo, são elas:

1. A igreja local como um todo precisa receber, compreender e assumir a visão
de seu lugar na obra missionária, além de compreender as dimensões bíblica,
espiritual, cultural e financeira desta tarefa.

2. A igreja local, compreendendo sua importância para missões, não pode
transferir esta responsabilidade.

3. A igreja local, ainda, precisa assumir por completo a sua responsabilidade
missionária. O que mais comumente vemos é que a igreja muito se alegra com o
despertar de uma vocação em seu meio, ora por aquele irmão e diz para ele ir.
Mas quando chega o momento de assumir o compromisso financeiro regular e
decente, ela se silencia, como se isso não fosse problema dela.

4. Por fim, a igreja local precisa conscientizar-se e ver-se como a principal
agência missionária da face da Terra. Orar tendo isso em mente, agir tendo isso
em mente, pregar tendo isso em mente, trabalhar tendo isso em mente.

Para Deus só existem duas coisas: Ou somos campo, ou somos base missionária. Se
somos campo, precisamos ser evangelizados, mas se somos base, então está na
hora de trabalhar. A omissão não pode ser a missão de uma igreja vocacionada
pelo Espírito Santo de Deus.

Notas
Segundo Orlando Costas, “a prova de uma vigorosa experiência cultual será
a participação dinâmica na missão: a prova de um fiel compromisso missionário
será uma profunda experiência de culto” (Orlando E. COSTAS, Compromiso y
misión.
San José-Costa Rica: Editorial Caribe, 1979, p.
151).
Idem, p. 150.
Ibidem.
Cf. Evangelização e responsabilidade social. 2a ed. São Paulo-Belo Horizonte:
ABU Editora/Mundo Cristão, 1985, p. 17-25. Por falar em evangelização e
responsabilidade social da igreja, vale a pena ressaltar que o verdadeiro
conceito de missão para a igreja de Antioquia era (como os missiólogos
contemporâneos costumam denominar) o de missão integral, isto é, o indivíduo
assistido em sua totalidade, conforme Atos 11.27-30.
COSTAS, op. cit., p. 150.
Idem, p. 150,151.
7 José MARTINS, A oração dominical e missões. In: Missões e a igreja
brasileira: perspectivas teológicas, p. 67. V. t. Durvalina B. BEZERRA, A
missão de interceder: oração na obra missionária. Londrina: Descoberta, 2001,
p. 229-244.
Cf. Simon J. KISTEMAKER, New Testament Commentary:
Exposition of the Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990,
p. 20,21..
Cf. KISTEMAKER, op. cit., p. 455.
John STOTT, Ouça o
Espírito, ouça o mundo. 2ª ed. São Paulo: ABU Editora, 1998, p. 123..
STOTT, p. 123-125.
COSTAS, p. 113.
Idem, p. 113,114.
KISTEMAKER, op. cit., p. 455. V. t. J. H. BAVINCK, An
introduction to the science of missions. Phillipsburg: The Presbyterian and
Reformed Publishing Company, 1960, p. 58-60.
KISTEMAKER, p. 455. Cf. Atos 15.40.
Walter L. LIEFELD,
Imposição de mãos.
In: ELWELL, Walter A. (ed.). Enciclopédia histórico-teológica da
igreja cristã, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 323.
Idem, p. 324.
A expressão “os despediram” de Atos 13.3 reforça a idéia de que a
igreja de Antioquia estava enviando Paulo e Barnabé, e continuaria vinculada a
eles, uma vez que o verbo apolyw, diferentemente de apospaw (At 21.1), não
sugere “despedida definitiva”. V. t. Paul E. PIERSON, Atos que
contam. Londrina: Descoberta, 2000, p. 117.
Edison QUEIROZ, O melhor para missões. 2a ed. Londrina-Curitiba: Descoberta,
1999, p. 50. V. t. Neal Pirolo, A missão de enviar: como sustentar o seu
missionário. Londrina: Descoberta, 2001, p. 13-31,179-200; Hugo PIRIZ, A igreja
e a integridade pessoal e familiar do obreiro do Senhor.
In:
STEUERNAGEL, Valdir (ed.).
E
o Verbo se fez carne: desde a América Latina.
Curitiba: Encontrão Editora, 1995, p. 153-160.
E, certamente, este “sustento” significava mais do que orar por eles.
Não concordo com A. T. Robertson (em Word Pictures in
the New Testament: The Acts of the Apostles.
Grand Rapids: Baker Book House, 1930, p.
178,9) quando afirma que “Paulo e Barnabé tiveram que financiar a própria
viagem”, com base em Filipenses 4.15. De fato, Paulo passou por muitas
dificuldades em seu ministério, inclusive financeiras (cf. Fp 4.12), mas isto
não aconteceu por falta de compromisso da igreja de Antioquia, e sim, por causa
das circunstâncias político-religiosas da época. Às vezes faltava oportunidade
para uma melhor participação da igreja (cf. Fp 4.10).
E. QUEIROZ, op. cit., p. 60. Diz ele: “O objetivo da igreja, ao fazer
missões, deve ser promover a máxima personalização, fazer com que o maior
número possível de membros da igreja tenha contato com os missionários”.
V. t. Oswaldo PRADO, Do chamado ao campo. São Paulo: Sepal, 2000, p. 87,88.
Edison Queiroz destaca muito bem alguns pontos que evidenciam a importância de
uma agência missionária. Diz ele: “Há inúmeras dificuldades para o envio
de um missionário. Precisa haver contatos com outras agências missionárias, com
autoridades governamentais, emissão de vistos de entrada e permanência, câmbio
e envio de dinheiro, orientação quanto aos relacionamentos no campo com igrejas,
governo e outras agências e avaliação in loco do andamento do trabalho.
Todas estas tarefas são difíceis para a igreja. Daí, a importância das juntas e
organizações missionárias” (E. QUEIROZ, Igreja local e missões. 3a ed. São
Paulo: Vida Nova, 1991, p. 56).
Cf. Carlos Del PINO, A importância da igreja local em missões. In: Missões e a
igreja brasileira, p. 60.
Idem, p. 60,61. V. t. E. QUEIROZ, op. cit., p. 43-58; A missão da igreja e o
despertar missionário na América Latina.
In: STEUERNAGEL,
Valdir R. (ed.).
A
missão da igreja.
Belo Horizonte: Missão Editora, 1994, p.117-126 e O.
E. COSTAS, La misión, el ministerio y el Espírito Santo: el caso de la iglesia
de Antioquia. In: Misión y ministerio en America Latina, artigo não publicado,
p. 1-7.

Parte XIX
ATOS 1.8 E A
MISSÃO DA IGREJA
O contexto de
Atos 1.8 é a ascensão de Cristo. Os que estavam reunidos no monte das Oliveiras
perguntaram ao Mestre quando seria o tempo da restauração do reino de Israel. O
Senhor respondeu que não competia a eles conhecer tempos e épocas que o Pai
reservou para a Sua exclusiva autoridade. Porém, prometeu:

“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis
minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até
aos confins da terra”.

Em Atos 1.8 o Senhor Jesus repete as promessas da Grande Comissão (Mt 28.18-20;
Mc 16.14-18; Lc 24.44-49; J.o 20.21).

1. O poder do Espírito

Há uma série de termos para “poder” no Novo Testamento. Lucas
empregou dynamis em At 1.8, mas tem também exousia, thronos, bia, ischys,
energia, kratos e keras. Será que existiu algum motivo especial para que Lucas
usasse a palavra dynamis ao invés de qualquer outra, ou ele a escolheu
aleatoriamente? Vejamos: exousia é uma palavra usada com muita freqüência no
Novo Testamento. A rigor é traduzida como “autoridade”. Contudo,
geralmente era empregada num contexto político (cf. Rm 13.1-3). Thronos
indicava, a priori, a sede do governo, mas depois passou a significar a pessoa
que detinha semelhante posição de autoridade ou força. Bia está associada ao
emprego da força coerciva. Energia é poder no seu exercício; força em ação.
Ischys significa força física. Kratos tem um sentido semelhante ao de ischys,
mas se refere mais ao exercício da autoridade. E keras (lit.: chifre), por sua
vez, indica força e, juntamente com kratos, formam as duas palavras do NT cujo
significado fica mais perto de exousia e dynamis. Contudo, dynamis tem um
sentido todo exclusivo. É a palavra do poder sem fronteiras, por assim dizer.
Ela é a palavra por excelência para se referir ao poder do Espírito Santo.
Portanto, Lucas sabia muito bem que ao escolher dynamis estava utilizando o
termo que melhor representava a ação poderosa do revestimento do Espírito na
vida do crente e da igreja. “… permanecei, pois na cidade”, disse
Jesus aos discípulos, a quem Ele havia comissionado para evangelizar o mundo,
“até que do alto sejais revestidos de poder…” (Lc 24.49; At 1.8).

Quando o Espírito Santo foi derramado por ocasião do Pentecostes, “com
grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor
Jesus…” (At 4.33). E ainda: “Estêvão, cheio de graça e poder, fazia
prodígios e grandes sinais…” (At 6.8). Temos também a declaração de
Pedro na casa de Cornélio a respeito de Jesus, que “Deus ungiu…com o
Espírito Santo e poder…” (At 10.38). Nestes exemplos Lucas revela que
desde o princípio o evangelho foi disseminado pelo poder do Espírito Santo.

O poder do Espírito é o segredo do sucesso da missão da igreja. Lembremos que
os discípulos de Jesus foram homens que andaram cerca de três anos com o
Mestre. Conheceram-nO intimamente, foram ensinados por Ele, ouviram Seus
sermões e viram Seus milagres. Viram Seus sofrimentos, morte, ressurreição e
ascensão. Se alguma vez existiram homens que estivessem em melhor posição e
condição de falar ao mundo acerca da ressurreição de Jesus e de todos os fatos
a respeito dEle, estes homens eram Seus discípulos. Entretanto, o que o Senhor
Jesus diz é que eles seriam totalmente incapazes de fazê-lo se do alto não
fossem revestidos do poder do Espírito.

2. Poder e testemunho

No dia de Pentecostes a promessa de Atos 1.8 se cumpriu (1). A igreja foi
batizada e revestida do poder do Espírito Santo. Entretanto, o poder do
Espírito para a igreja não tem, como nunca teve, um fim em si mesmo. Em Atos
não existe esta concepção moderna equivocada de que o poder do Espírito é para
edificar o crente e ficar tudo por isso mesmo. Não! O poder do Espírito tinha
como finalidade primordial capacitar os crentes para dar testemunho de Cristo.
No Novo Testamento os dons ou manifestações do Espírito (línguas, curas,
profecias, etc.) foram dados com o único objetivo de que a igreja testemunhasse
de Jesus ao redor do mundo. (2). Nada do que a igreja recebe do Espírito tem nela
um fim em si mesmo. “Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito
Santo, e sereis minhas testemunhas…”, disse Jesus (At 1.8).

Neste tópico procuraremos observar, de modo prático, o que significava nos
tempos bíblicos e o que deveria significar para a igreja evangélica brasileira
hoje ser testemunha de Jesus Cristo. E para uma reflexão imediata, vale
conferir um alerta do Dr. Charles van Engen:

“Logo antes de sua ascensão, Jesus disse a seus discípulos, como está
registrado em Atos 1.8: “… sereis minhas testemunhas [kai esesthe mou
martyres]…”, começando em Jerusalém e espalhando-se geográfica e
culturalmente para fora, para os confins da terra (eôs eschatou tês gês). Muito
dessa comissão, quanto à expansão geográfica e cultural da Igreja, se cumpriu.
Mas provavelmente não captamos as palavras de Cristo em todo o seu peso:
“…sereis minhas testemunhas…”.(3)

O substantivo grego martys (4) (martyres) do verbo martyreo já possuía, nos
tempos bíblicos, cinco significados principais, sendo que o último deles era a
expressão mais elevada daquilo que significava ser testemunha de Jesus; a
saber:

testemunha judicial de fatos;
testemunha de fatos numa confissão de fé;
declaração de um fato como testemunha ocular de um ocorrido;
o testemunho evangelístico da natureza e da importância de Cristo;
martírio. (5).
Pela própria natureza da evangelização e pelas perseguições e adversidades
futuras que desafiariam a Igreja Primitiva, seria imprescindível o poder do
alto para testemunhar de Jesus. Que a igreja muitas vezes testemunhou ao preço
de sangue é algo que dispensa comentários. Contudo, é importante ressaltar,
pelo menos, dois aspectos do testemunho pelos quais os cristãos muitas vezes
tiveram que pagar com a vida. A Igreja em Atos testemunhava:

1) No poder do Espírito com sinais e maravilhas
Quanto a esta questão, vale a pena conferir o teólogo alemão Otto Betz:

“Cristo era “poderoso em obras e palavras” (Lc 24.19). Seus
milagres são chamados dynameis (cf. Heb. gebûrôt; i.é, “atos
poderosos”), porque neles, o reino de Deus na terra começa a ter efeito
poderoso, e a luta contra o diabo é levada a efeito no nível da existência
humana (Mt 12.22-30; Mc 6.2; Lc 19.37; At 10.58). Jesus é o “mais
forte” que, como Representante de Deus, subjuga o “homem forte”,
o diabo (cf. Mc 1.8 com 3.22-30). Os milagres de Jesus são operados por um
poder dentro dEle (Mc 5.39 par. Lc 5.17; Mc 6.14). Lucas liga este poder, dado
por Deus, com o Espírito Santo em Lc 1.35; 4.14; At 1.8; 10.38. Os milagres,
portanto, são encarados como evidência da parte de Deus quanto a Jesus ser o
Messias, Aquele que foi ungido pelo Espírito (At 2.22; 10.38). A glorificação
do Messias faz dEle, em grau ainda maior, Mediador do poder salvífico de Deus.
É, pois, pelo poder do Espírito que Jesus derramou sobre os Seus servos, que
estes podem operar atos poderosos (At 4.7; 6.8; 8.13; 19.11)”. (6).

Às vezes os sinais e prodígios preparavam o palco, por assim dizer, para uma
pregação cheia do Espírito (cf. At 3; 16.16-34); outras vezes estavam intercalados
numa pregação (cf. At 20.7-12), mas na maioria das vezes sucediam a mensagem do
evangelho (cf. At 19.8-12).

2) No poder do Espírito na pregação da Palavra

Em Atos o Espírito Santo, a pregação e o ensino da Palavra estão estritamente
relacionados. Isto salienta o fato de que o Espírito de Deus costuma agir
através da Palavra de Deus. A Palavra é a espada do Espírito (cf. Ef 6.17).
Michel Green diz que um dos grandes méritos do livro de C.K.Barret, Luke the
Historian, é a maneira como ele destaca esta verdade da ligação do Espírito
Santo com a Palavra. “O principal meio através do qual o Espírito estende
a soberania de Cristo é a Palavra de Deus” (7), que incluía expressões
como “palavra do Senhor”, “palavra da salvação”,
“palavra do evangelho”, e “a palavra” tout simple. (8).

Os cristãos primitivos levavam a Palavra para qualquer lugar que fossem (8.4).
O que manteve Paulo dezoito meses ou mais em Corinto foi a Palavra (18.5). Em
Éfeso a mesma coisa, durante os dois anos em que trabalhou ali (19.10). E
quando Lucas quer indicar o sucesso de uma missão, ele diz que a Palavra do
Senhor “crescia e prevalecia poderosamente” (9).

“A pregação autoritativa dos apóstolos (At 4.33; Cf. 6.8-10) é vista como
prova de um poder sobrenatural” (10). Não é por menos que o evangelho
causou tanto impacto sobre Teófilo (At 1.1; cf. Lc 1.1), o centurião Cornélio
(10.44), o procônsul de Chipre (13.7) e os cidadãos de Antioquia (13.44). Não é
de admirar que o ministério da Palavra fosse prioridade para os doze (6.4).
Também não é de admirar que eles comprometessem seus convertidos com ela
(20.28) e que os missionários anônimos de Atos 8.4 a tinham como sua grande
arma. Quando alguém cria é porque a Palavra trouxe fé (4.4). Quando alguém
recebia o Espírito isto acontecia por ouvir a Palavra (10.44). Quando alguém se
tornava cristão é porque o Espírito iluminava o coração dos ouvintes com a
mensagem apostólica (16.14). “Não é exagero dizer que a Palavra é o
principal instrumento na missão evangelizadora da igreja, sob o poder do
Espírito de Deus”. (11).

Será que o poder do Espírito dos tempos bíblicos continua sendo o mesmo para a
igreja evangélica brasileira hoje? Com certeza, pois precisamos testemunhar. E
não é possível um testemunho autêntico de Jesus sem o poder do Espírito. A
Igreja Primitiva tinha desafios imensuráveis, mas não se curvava diante deles.
Clamava a Deus para ser revestida com mais e mais poder para proclamar com
ousadia e intrepidez as verdades do Senhor a quem ela tanto amava (At 4.23-31).
Era uma igreja de oração que buscava constantemente a plenitude e enchimento do
Espírito Santo. A igreja de hoje, principalmente no mundo ocidental, também
possui seus desafios. Felizmente (ou seria infelizmente?) seus desafios são
mais de ordem interna que externa. Atualmente já não são tantos os Pilatos, os
Herodes, os judeus e gentios que estão perseguindo a igreja. Hoje, a igreja é
perseguida pelo fantasma de sua própria morbidez por persistir, muitas vezes,
numa vida contemplativa, alienada do mundo, com pouca ou nenhuma perspectiva da
missão para a qual ela foi chamada.

Em outro estudo de minha autoria (A Missão Integral da Igreja), disse algo a
respeito da igreja de Jerusalém que poderia ser repetido aqui. “Uma lição
é preciso aprender com a igreja de Jerusalém: A igreja de Jerusalém estava
consciente de sua missão no mundo. Era uma igreja unida em seus propósitos e se
amava de verdade. Internamente ela estava pegando fogo, desejosa de pregar o
evangelho, em obediência ao mandado de Cristo. Porém, externamente os desafios
eram humanamente insuperáveis. Pilatos, Herodes e muita gente se levantaram
contra a igreja de Deus. Então a igreja orou: “agora, Senhor, olha para as
suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua
palavra, enquanto estendes as mãos para fazer curas, sinais e prodígios por
intermédio do nome do teu santo Servo Jesus” (At 4.29,30).

E Deus atendeu ao clamor de sua igreja (At 4.31). Atendeu porque a igreja
deixou de lado seus próprios interesses para servir ao mundo. Hoje, o que muito
se vê, à nível de igreja local, é a própria igreja criando obstáculos para não
fazer a obra do Senhor. Externamente desfruta-se de uma liberdade religiosa
como nunca se viu, mas internamente muito de nossas igrejas estão enfermas, quando
na verdade eram elas que deveriam estar curando!”.

Esta é a triste realidade de muitas igrejas históricas e pentecostais
brasileiras em nossos dias. Mas graças ao bom Deus, não é a realidade de todas
elas. O vento sopra onde quer e está soprando em muitas de nossas igrejas. Deus
seja louvado! Entretanto, precisamos orar mais, precisamos ser avivados (no
verdadeiro conceito bíblico desse avivamento), precisamos do poder e enchimento
do Espírito para transpor nossos próprios portões, a fim de sermos o verdadeiro
sal da terra e a verdadeira luz do mundo. A ordem e a promessa de Atos 1.8 é
para a gente também!

Gostaria de concluir este tópico com uma declaração urgente e atual do Comitê
de Lausanne sobre a importância do poder do Espírito Santo na missão da igreja:

“Cremos no poder do Espírito Santo. O Pai enviou o seu Espírito para dar
testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão. Convicção
de pecado, fé em Cristo, novo nascimento e crescimento cristão, é tudo obra
dele. De mais a mais, o Espírito Santo é um Espírito missionário; de maneira
que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito.
A igreja que não é missionária se contradiz a si mesma e debela o Espírito. A
evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a
igreja na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder.
Portanto, instamos com todos os cristãos para que orem pedindo pela visita do
soberano Espírito de Deus, a fim de que o seu fruto todo apareça em todo o seu
povo, e que todos os seus dons enriqueçam o corpo de Cristo. Só então a igreja
inteira se tornará um instrumento adequado em suas mãos, para que toda a terra
ouça a Sua voz”. (12).

. A esfera de atuação da igreja

A missão da igreja consiste em percorrer o mundo todo para pregar o evangelho a
toda criatura (cf. Mc 16.15). Em Atos 1.8 Jesus especifica a missão global da
igreja dizendo que ela deveria testemunhar “…tanto em Jerusalém, como em
toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. A expressão
“tanto…como” de Atos 1.8 é formada, no grego, pela partícula
enclítica te mais a conjunção kai. Em grego “tanto…como” equivale
ao nosso adjetivo comparativo e sugere, em Atos 1.8, simultaneidade de
trabalho; isto é, Jesus não estava dizendo simplesmente que a Sua igreja
precisava escolher uma dessas áreas geográficas para trabalhar ou que deveria
começar por uma de cada vez. Pelo contrário, a idéia bíblica do termo aqui é:
atuar ao mesmo tempo em todos os lugares da terra. (13).

Infelizmente, hoje em dia não são poucos os crentes equivocados quanto à
compreensão da ordem do Mestre. Quantas vezes já não ouvimos indagações mais ou
menos assim: “Por que mandar ou sustentar missionários no estrangeiro se
temos tanto o que fazer no Brasil?”. Como sabemos, a maioria dos que
pensam assim não está preocupada com a obra missionária nem mesmo no seu
próprio país. Jesus ordena que o trabalho missionário da igreja seja te…kai,
isto é, temos que evangelizar lá sem esquecer de cá e vice-versa.

Uma aplicação contextualizada das regiões citadas por Jesus fica por conta da
nossa imaginação, mas sem, evidentemente, deturpar o texto bíblico. Jerusalém
foi o berço dos acontecimentos básicos do cristianismo. Boa parte do ministério
de Jesus ocorreu em Jerusalém. Nela Jesus morreu, ressuscitou e ordenou a
evangelização do mundo. Nela Jesus prometeu o Espírito Santo e nela, no dia de
Pentecostes, a igreja cristã foi inaugurada e habilitada para cumprir a Grande
Comissão. Para efeito de comparação e aplicação da ordem de Jesus, podemos
identificar Jerusalém com a cidade em que moramos. A Judéia, por sua vez, era a
província que tinha Jerusalém como capital. Supomos que a nossa Judéia seja o
estado onde estamos vivendo. Samaria era uma região mais afastada, situada ao
norte da Judéia. Poderíamos comparar Samaria ao nosso paísl? Os confins da
terra (14) significam, naturalmente, que devemos ser testemunhas de Jesus para
todos os povos. Atualmente sabe-se que “os confins da terra” de Atos
1.8 é mais que “universalidade concebida de forma geográfica”. É
geografia sim mas também é etnia. A missão da igreja contemporânea é mais do
que missão estrangeira, é missão transcultural que envolve, por exemplo, os
índios do Brasil.

NOTAS
(1) Harry Boer, missionário reformado na Nigéria na década de 50, escreveu
Pentecost and Missions (1961). “A tese desse trabalho”, segundo
Samuel Escobar (Desafios da Igreja na América Latina (São Paulo: Ultimato,
1997), p. 43), “é que no estudo de missões prestou-se muita atenção à
Grande Comissão, mas não de igual modo a Pentecostes, e que o ponto de partida
de missões no Novo Testamento é o que aconteceu em Pentecostes. Ele propõe uma
revisão não só da teologia de missões, mas da teologia em geral, à luz desse
fato. Seu cuidadoso estudo do material bíblico seguia a convicção de que
escreveu-se muito sobre a obra do Espírito Santo na salvação dos seres humanos,
mas muito pouco sobre seu significado crucial para o testemunho missionário da
igreja. O assunto não foi totalmente ignorado, mas deveria ser central na
reflexão sobre missões, e tem sido relegado à periferia”. Desde que não se
entenda que o Pentecostes deve ser desvinculado da Grande Comissão, a ponto de
não ter ligação alguma com ela, estou de pleno acordo com Boer e Escobar.

(2) Cf. R. C. Sproul, O Mistério do Espírito Santo (São Paulo: Cultura Cristã,
1997), p. 144.

(3) (3) C. van Engen, Povo Missionário, Povo de Deus (São Paulo: Vida Nova,
1996), pp. 122,3 (Grifo nosso).

(4) Das 34 ocorrências de “martys” no Novo Testamento, 13 estão em
Atos.

(5) Cf. Kittel, G. & Friedrich, G., “martys”, em The
Theological Dictionary of the New Testament apud C. van Engen, Op.
Cit., p. 123.

(6) O.Betz, “Poder” em Dicionário de Teologia do Novo Testamento,
Vol. III (3. ed. São Paulo: Vida Nova, 1985), p. 576.

(7) Barret apud M.Green, Evangelização na Igreja Primitiva (2. ed. São Paulo:
Vida Nova, 1989), p.185. Barret, segundo Green, afirma que “a pregação ou
recebimento desta Palavra é mencionado nada menos que trinta e duas vezes em
Atos” (p. 202).

(8) Idem, p. 185.

(9) Foi assim na Judéia (6.7), Samaria (8.4-7,14), na primeira viagem
missionária (13.49) e na Ásia (19.20).

(10) O. Betz, Op. Cit., p. 576.

(11) M. Green, Op. Cit., p. 185.

(12) O Pacto de Lausanne, XIV. V.t. Jonh Stott Comenta o Pacto de Lausanne (São
Paulo: ABU Editora), 1983.

(13) Júlio Paulo Tavares
Zabatiero discorda da idéia de simultaneidade de Atos 1.8. Para ele “a
expressão grega te kai, em Lucas, significa simplesmente “e” (Lc
23.12; At 1.1; 4.27; 5.24; 21.30)” (Zabatiero, “Poder e Testemunho –
Missões em Atos 1 e 2” em Missões e a Igreja Brasileira, Vol. III (São
Paulo: Mundo Cristão, 1993), p. 83). Pela fraseologia de Zabatiero e as
referências citadas, tudo indica que ele está seguindo o Léxico do N.T. Grego/Português
de F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker do qual ele foi o tradutor. Para
Gingrich e Danker te kai “freqüentemente significa simplesmente e”
(p. 204). Entretanto, “freqüentemente” não é o mesmo que
“sempre”. Além disso, na relação das referências de Atos, onde te kai
poderia possivelmente ser traduzido como “e”, Gingrich e Danker não
mencionam Atos 1.8. E esta omissão não aparece somente na tradução de
Zabatiero, que até justificaria por ser um resumo de A Greek-English Lexicon of
the New Testament and other Early Christian Literature, porém, nem mesmo nesta
volumosa obra (900 páginas!) Atos 1.8 é citado para provar tal argumento. Será
que os autores simplesmente, sem mais nem menos, deixaram de incluir na lista
deles uma das principais passagens de Atos? Acredito que não.

(14) Convém lembrar que o conceito de confins da terra da maioria das pessoas
nos tempos bíblicos não era o mesmo conceito de Jesus e do Espírito Santo. A
concepção geográfica dos cristãos primitivos era limitada. Paulo, por exemplo, mostrou-se
desejoso de ir à Espanha (Rm 15.24,28), naturalmente porque entendia que ela
fosse os confins do extremo ocidental da terra.

BATISMO DE
CRIANÇAS

Algumas Considerações
A prática de
batizar os filhos dos cristãos vem desde os primórdios do cristianismo. Pais da
Igreja, como Irineu (século II), se referem ao batismo infantil. Orígines
(século IV) foi batizado quando criança. Hoje, milhares de cristãos evangélicos
no mundo continuam a prática, embora alguns pais permitam que seus filhos sejam
batizados apenas porque faz parte da tradição religiosa na qual nasceram. Para
outros, o batismo é um ato pelo qual consagram seus filhos ao Senhor, com votos
solenes de educá-los nos caminhos de Deus até, a idade da razão.

Evidentemente nem todos os evangélicos concordam que o batismo infantil seja a
única maneira de se fazer isso. Muitos preferem apresentar seus filhos ao
Senhor, sem batizá-los, pois acreditam que o batismo é somente para adultos que
crêem. Porém, tanto os que batizam seus filhos, quanto os que os apresentam,
têm um desejo só, de vê-los crescer nos caminhos do Evangelho, e, quando
chegarem à idade própria, publicamente professar sua fé pessoal em Cristo
Jesus.

Alguns me perguntam por que apresentei meus quatro filhos para serem batizados,
quando cada um ainda não tinha mais que dois meses. Minha resposta é que
acredito estar seguindo a tradição bíblica, que remonta ao tempo do Antigo
Testamento, e que não foi abolida no Novo, de incluir os filhos dos fiéis na
aliança de Deus com o seu povo. Batizei meus filhos crendo que, através desse
rito iniciatório, eles passaram a fazer parte da Igreja visível de Cristo aqui
na terra. Minha crença sé baseia no fato de que, quando Deus fez um pacto com
Abraão, incluiu seus filhos na aliança, e determinou que fossem todos
circuncidados (Gn. 17.1-14). A circuncisão, na verdade, era o selo da fé que
Abraão tinha (ver Rm 4-3,11 com Gn 15.6), mas, mesmo assim, Deus determinou-lhe
que circuncidasse Ismael e, mais tarde, Isaque, antes de completar duas semanas
(Gn. 21.4). Abraão creu e o sinal da sua fé foi aplicado à Isaque, mesmo quando
este ainda não podia crer como seu pai. Mais tarde, quando Moisés aspergiu com
o sangue da aliança as tábuas da Lei dada por Deus, aspergiu também todo o povo
presente no monte Sinai, incluindo obviamente as mães e seus filhos de colo (Hb
9.19-20).

Estou persuadido de que a Igreja cristã é a continuação da Igreja do Antigo
Testamento. Símbolos e rituais mudaram, mas é a mesma Igreja, o mesmo povo. O
Sábado tomou-se em Domingo, a Páscoa, em Ceia, e a circuncisão, em batismo. Os
crentes são chamados de “filhos de Abraão” (Gl 3.7,29) e a Igreja de
“o Israel de Deus” (Gl 6.16). Não é de se admirar que Paulo chame o
batismo de “a circuncisão de Cristo” (C12.11).

Foi uma grande alegria ter meus filhos batizados e vê-los, assim, receber o
selo da fé que minha esposa e eu temos no Senhor Jesus. Deus sempre tratou com
famílias (Dt 29.9-12), embora nunca em detrimento da responsabilidade
individual. Assim, Deus mandou que Noé e sua família entrassem na arca (Gn.
7.1), chamou Abraão e sua família (Gn 12.1-3) e castigou Acã, Coré e suas
famílias juntamente. Paulo, ao refletir sobre a história de Israel e ao
mencionar a passagem dos israelitas pelo Mar Morto, diz que todo o povo foi
batizado com Moisés, na nuvem e no mar inclusive as crianças, é claro, pois
havia milhares delas (1 Co 10.1-4). Não é de se admirar, portanto, que Pedro,
no dia de Pentecostes, ao chamar os ouvintes ao arrependimento, à fé em Cristo
e ao batismo, disse-lhes que a promessa do Espírito Santo era para eles e para
seus filhos (At 2.38-39). E não é de admirar que os apóstolos batizavam casas
inteiras em suas viagens missionárias: Paulo batizou Lídia e toda sua casa
(,At. 16.15), o carcereiro e todos os seus (At 16.3233), a casa de Estéfanas (1
Co 1.16). É verdade que não se mencionam crianças nessas passagens, mas o
entendimento mais natural de “casa” e “todos os seus” é que
se refira à família do que creu e fica difícil imaginar que, se houvesse crianças,
elas teriam sido excluídas. Pois, para Paulo, os filhos dos crentes eram
“santos” (1 Co 7.14), ao contrário dos filhos dos incrédulos. Talvez
ele estivesse seguindo o que o Senhor Jesus havia dito, que não impedissem as
crianças de virem a Ele (Mc 10.13-16).

Compreendo a dificuldade que alguns terão quanto ao batismo infantil, pois não
há exemplos claros de crianças sendo batizadas no Novo Testamento. É verdade.
Mas é igualmente verdade que não há nenhum exemplo de um filho de crente sendo
batizado em idade adulta. Neste caso, talvez seja mais seguro ficar com o
ensino do Antigo Testamento., Se os judeus que se converteram a Cristo não
podiam batizar seus filhos, era de se esperar que houvesse alguma proibição
neste sentido por parte dos apóstolos, já que estavam acostumados a incluir
seus filhos em todos os aspectos da religião judaica. Mas não há nenhuma
proibição apostólica quanto a isso.

Compreendo também que alguns têm dificuldades com o batismo infantil por causa
da prática da Igreja Católica e de algumas denominações evangélicas, que adotam
a idéia da regeneração batismal, isto é, que, pelo batismo, a criança tenha
seus pecados lavados e seja salva. Pessoalmente não creio que seja este o
ensino bíblico. O batismo infantil não salva a criança. Meus filhos terão de exercer
fé pessoal em Cristo Jesus. Não serão salvos pela minha fé ou da minha esposa.
Eles terão de se converter de seus pecados e crer no Senhor Jesus, para que
sejam salvos. O batismo foi apenas o ritual de iniciação pelo qual foram
admitidos na comunhão, da Igreja visível. Simboliza a fé dos seus país nas
promessas de Deus quanto aos seus filhos (cf. Pv 22.6; At 2.38; At 16.31) e
expressa os termos da aliança que nós e nossos filhos temos com o Senhor (Dt ‘
6.6,7; Ef 6.4). Se, ao crescer, uma criança que foi batizada resolver
desviar-se dos caminhos em que foi criada, é da sua inteira responsabilidade,
assim como os que foram batizados em idade adulta, e que se desviam depois.

Certamente que o Novo Testamento fala do batismo como sendo uma expressão de fé
e de arrependimento por parte daqueles que se convertem a Cristo – coisas que
uma criança em tenra idade não pode fazer. Por outro lado, lembremos que
passagens assim não tinham em vista os filhos dos fiéis, mas toda uma primeira
geração de adultos que se converteram pela pregação do Evangelho.

Mas, ao fim, tanto os que batizaram seus filhos quanto os que os apresentaram,
devem orar com eles e por eles, serem exemplos de vida cristã, levá-los à
Igreja, instruí-los nas Escrituras e viver de tal modo que, ao crescer, os
filhos desejem servir ao mesmo Deus de seus pais.

Fonte: Revista Fides Reformata

Parte XX
COMO MEMBROS
DO CORPO DE CRISTO
“Porque,
assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros do corpo,
embora muitos formam um só corpo, assim também é Cristo. Pois em um só Espirito
fomos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos
quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espirito. Para que não haja
divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns dos outros
padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com
ele. Ora, vos sois corpo de Cristo, e individualmente seus membros”

(1Co 12.12,13,24-27)

A Igreja de Jesus Cristo tem uma natureza militante, e é descrita através de
imagens riquíssimas como “Povo de Deus”, “Corpo de Cristo”
e “Comunhão no Espírito”. Expressa-se também como um corpo local.
Assim, falamos na Igreja Batista Sião, na Igreja Presbiteriana da Bahia, na
Igreja Evangélica Fluminense como uma dessas comunidades locais, onde o nome de
Jesus Cristo é exaltado, Sua palavra, estudada, e onde nos estimulamos e
encorajamos a crescer em amor. “A Igreja é uma companhia de crentes
regenerados e batizados que se associam num conceito de fé e fraternidade do evangelho”.

A IGREJA

A Igreja é isso: uma congregação de crentes cuja única cabeça é Jesus Cristo. É
uma fraternidade de pessoas que crêem em Jesus Cristo como Salvador pessoal, e
Lhe obedecem seguindo-O como discípulos e tendo-O como Senhor.

Sim, formamos uma comunidade (At 2.42; 1Jo 1.3,6,7), e, se comunidade temos
algo em comum: a fé comum em Cristo Jesus (Tt 1.4; 1Co 1.9), o sangue de Cristo
(1Co 10.16), o Espírito Santo (Fp 2.1; 2Co 13.13). A verdadeira comunidade
cristã é criada e sustentada por uma fé e uma vida comuns em Cristo, um
compromisso de obediência comum a Cristo como Senhor, uma participação comum no
Espirito.

Somos “irmãos”. É a mais freqüente designação do Novo Testamento para
os crentes em Jesus Cristo. Aparece cerca de 250 vezes nos Atos e cartas. É uma
saudação natural (cf. Rm 8.29; Tg 2.15; 1Jo 2.10), e quer dizer que
fraternidade tem a ver com amor, com responsabilidade mútua, plena participação
na família de Deus, e um compartilhar pleno na realização da vida da igreja.
Jesus disse que “irmão” era quem fazia a vontade de Deus: “Pois
aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc
3.35).

Não há superioridade, não há diferença quando chamamos o outro de “meu
irmão” (Mt 23.8). Diferença que exista é de dom e função na Causa de
Cristo, “Ora há diversidade de dons, mas o Espirito é o mesmo. E há
diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de
operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um, porém, é dada
a manifestação do Espirito para o proveito comum” (1Co 12.4-7).

Somos membros uns dos outros, sim, porque confessamos a um só Senhor: Jesus
Cristo (Mt 10.32; 1Jo 2.23; 4.15); porque filhos do mesmo Pai (Jo 1.12, Rm
8.14-17); porque regenerados pelo poder do Santo Espírito (Tt 3.5; Ef 1.13; Lc
11.13).

A Igreja de Jesus Cristo, da qual somos membros pelas razões já expostas, é ,
então, um centro de trabalho e de lealdade. E visto que o propósito redentor de
Deus é para ser realizado por meio da Igreja, “Para que agora a multiforme
sabedoria de Deus seja manifestada , por meio da Igreja, aos principados e
potestades nas regiões celestes, segundo o eterno propósito que fez em Cristo
Jesus nosso Senhor.” (Ef 3.10,11), a participação nesse plano deve ser o
ponto focal da lealdade do irmão e do seu trabalho. E é realizado através da
Igreja local, o que significa que seu esforço, sua atividade, sua iniciativa
devem ser através desta abençoada comunhão local. É uma questão de investimento
espiritual, investimento de alto retorno em termos de crescimento, de
conhecimento, de graça, de amor alegria, paz, bênçãos! Muitas bênçãos!

E PARA SER MEMBRO DA IGREJA?

Há condições, pois pode uma pessoa ser cristã e não ser membro de uma Igreja
local. Por outro lado, há quem participe da comunhão terrena, mas não do
nascimento celestial. Por isso, “Saíram dentre nós, mas não eram dos
nosso; porque, se fossem dos nosso, teriam permanecido conosco; mas todos eles
saíram para que se manifestasse que não são dos nossos” (1Jo 2.19).

Todos devem ser salvos antes de se tornarem membros de uma Igreja; e se é
salvo, é normal que busque a comunhão do povo de Deus. Então, aí esta a
primeira exigência para ser membro da Igreja de Cristo: regeneração através do
arrependimento, “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de
Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o Dom do Espirito
Santo” (At 2.38).

Importa que isso aconteça porque o salvo é batizado no Espírito Santo, e assim
unido à Igreja de Deus: “Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados
em um só corpo , quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos
nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12.13), e essa expressão
“batismo no Espírito Santo”significa o ministério do Espírito em
favor do que crê. Não se pode ser membro por ordem de outros, por procuração,
ou sem exercício da fé como no caso de recém-nascidos.

Após a regeneração, o passo da obediência: o batismo. O ingresso tem seguimento
pelo batismo: Jesus deu ordem definida sobre isso (cf. Mt 28.19; cf. At
8.36-38; 10.47; 16.33; Gl 3.27), e o batismo há de ser realizado em nome do
Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28.19). Deste modo, o novo convertido
é batizado para se tornar célula viva, membro ativo na comunhão de irmãos que
se chama Igreja de Jesus Cristo.

QUALIDADES DO MEMBRO DA IGREJA DE CRISTO

1. Amor ao estudo da Palavra de Deus. Na Reforma Protestante do século 16, a
exclamação “Sola Scriptura!” (“apenas e unicamente a Escritura
Sagrada!”). A Palavra de Deus que alegra o coração, fortalece o espirito e
alimenta a alma (Mc 12.24; 2Tm 3.16,17). Tomá-la para “ler, viver e
crescer”, lembrando a exortação: “Procura apresentar-te diante de
Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a
palavra da verdade”. Com o objetivo de “antes santificai em vossos
corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com
mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em
vós” (2Tm 2.15; 1Pe 3.15).

2. Fervor na Oração. Jesus ensinou: “Contou-lhes também uma parábola sobre
o dever de orar sempre, e nunca desfalecer” (Lc 18.1); Paulo exortou
“orai sem cessar” (1Ts 5.17), e Tiago deixou claro: “Confessai
portanto, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para
serdes curados. A súplica de um justo pode muito na sua atuação” (Tg
5.16). Pois oração implica em atitude de dependência de Deus, em comunhão com
Deus, em absoluta confiança em Deus.

3. Assiduidade os cultos. Está em Hebreus 10.25: “Não abandonando a nossa
congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e
tanto mais, quando vedes que se vai aproximando aquele dia” (cf. At. 2.42)

E isso para ir ao encontro do Senhor e dos irmãos (Sl 84.2,4; 133.1), para
receber do Senhor bênçãos e mais abundância de vida (Sl 133.3; Mt 18.20; Jo
10.10), para imitar o exemplo dos primeiros cristãos (At 2.46).

4. Atividade. Consciência dos dons que recebeu e usá-los: pregar, ensinar,
exortar, consolar. Socorrer, cantar, administrar, o que quer que seja.

Há membros e há membros. Há os salvos, batizados no Espirito, regenerados,
portanto; lavados no sangue de Cristo, exemplares, úteis, vidas inspiradoras, e
que levam a igreja a crescer. Há os postiços, agregados ao Corpo de Cristo, mas
como um corpo estranho. Não crescem, não fazem crescer escandalizam até. Jesus
os chamou “joio”no meio do trigal, “bodes” no meio das
ovelhas (Mt 13.24ss; 25.32ss). Levam freqüentemente a igreja à tristeza, criam
problemas.

Mas é preciso recordar e viver a comunhão com Cristo no batismo (Rm 6.3,4), na
morte (v.4), na ressurreição (v.5; Ef 2.6), na vida eterna (v.8). Crucificados
com Ele (Gl 2.20), vivificados com Ele (Ef 2.5), e com Ele nos céus (Ef 2.6;
cf. Mt 8.11; 23.2; Cl 3.1; 2Ts 2.4; hb 8.1; Ap 3.21). E também a comunhão com
os outros, tão essencial que João a põe como prova de conversão (1Jo 3.14-18;
cf. Jo 13.35; 17.21; 1Co 13.1-13).

A IGREJA LOCAL

O princípio da Igreja diz que pertencer-lhe é um santo privilégio e um sagrado
dever. Há uma alegria especial em ser membro da igreja. Aliás, o Novo
Testamento não fala de experiência cristã praticada independentemente, e
isolada dos outros crentes. Jesus andava e mantinha comunhão com seus
discípulos, homens e mulheres, unidos todos em amor comum e lealdade (cf. Mt
10.1ss, 28; 27.55; Mc 6.7ss; Lc 8.1-3; 9.1ss; Mt 20.17).

Como é você como membro da Igreja de Cristo? Como eram os primeiros cristãos? É
somente ler Atos ou as Cartas. Era imperativo que vigiassem sua conduta, que
preservassem a harmonia entre eles, e tivessem a consciência de que a verdade
divina lhes fora confiada; eram ativos no testemunho de Jesus Cristo; estavam
vigilantes quanto à Sua Segunda vinda, encontravam alegria na comunhão, a
igreja era um investimento de vida. Na igreja, todos os crentes têm direito a
privilégios iguais. Isso não se refere a diferenças de habilidades ou
capacidades espirituais das pessoas.

Dizer isso significa que ninguém tem privilégio especial sobre outro. Só
Cristo! Então, já que há direitos iguais de acesso a Deus, há privilégios
iguais na igreja. Essa é a razão porque somos uma fraternidade, uma família da
qual Deus é o Pai, e Jesus Cristo o irmão mais velho (R.M. 8.29; Mt 6.9; 12.50;
23.9; Lc 8.21; Ef 4.6; 1Pe 1.17). A igreja não é uma relação de sócios ou de
membros ou de filiados. É uma comunhão. Se alguém está fora dessa comunhão,
seja por falta grave, abandono, escândalo, falsa doutrina, deve ser excluído da
igreja porque, de fato, já se auto-excluiu (Rm 16.17; 1Co 5.5,3-5, 9-11,13; 2Ts
3.6,14,15; 1Tm 1.18-20; Tt 2.10,13; 2Jo 9-11; Jd 4,10-13, 16-19; 1Tm 5.2b; 2Tm
3.5; Tt 3.10).

O falecido mestre do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil (no
Recife), Pr. Harald Schaly, ensinou haver três tipos de membros de igreja que
podem ser comparados a barcos: os que tem motor próprio; os que possuem vela
(precisam de vento, de agitação, de movimento, de campanhas, de novidades para
vir à igreja); aqueles que são como balsas (são puxados). Estes são peso morto
na igreja, alguns fazem pouco ou nada fazem, não trabalham e dão trabalho; têm
nome no rol de membros, mas só aparecem no Natal ou Noite de Ano Novo. Vão à
igreja como quem vai ao teatro: esperam boa música, bom sermão, e que todos
sejam sociáveis. Há quem, sendo membro da igreja, espere convite especial para
vir; há quem venha se tiver cargo; há quem, sendo membro de uma igreja, é muito
operoso, apreciado, mesmo, porém em outras igrejas, nunca na sua (?!). O mesmo
Pr. Schaly conta uma história. A do vaqueiro crente: “eu trabalho para
“seu” Vicente; mas mesmo que eu passasse todo o tempo falando de
“seu” Vicente , dizendo que é o melhor patrão, e cantasse muito para
ele (já que ele gosta de música sertaneja), e não fizesse meu serviço com o
gado, ele me mandaria embora!” Jesus não falou naqueles que dizem “Senhor,
Senhor! E que não entrarão no reino dos céus?”

Pois é; a igreja é chamada a crescer. E o modelo é o de Atos 2.47:
“Louvando a Deus, e caindo na graça de todo p povo. E cada dia
acrescentava-lhes o senhor os que iam sendo salvos”.

Crescer em todas as direções:

para o alto, buscando o altar de Deus;
para baixo, aprofundando-se na doutrina do Senhor;
para os lados, atingindo os não conhecem a salvação em Cristo Jesus;
de dentro para fora, pela vida espiritual intensa pela consagração à causa;
e de fora para dentro, agregando pecadores regenerados.
Cresce a igreja, cresce o reino de Deus. É um crescimento lento porem
continuado. Como árvore que nasce da semente, ou o fermento na massa do pão (Mt
13.31-3). Crescimento, não inchação!

É isso: precisamos de crentes que busquem o reino de Deus em primeiro lugar;
que sejam luz do mundo; que sejam santos porque o Senhor é santo; que amem a
Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento; que amem ao
próximo como amam a si mesmos; que confiem no poder da intervenção; que exerçam
o sacerdócio dos crentes; que amem a Palavra de Deus; que façam do crescimento
pessoal assunto de perseverança, cuidado e prática diária. Precisamos de
crentes que entendam ser a igreja local o lugar previsto por Deus para a
comunhão, e onde os recursos para o crescimento cristão ao dispor (venha,
portanto, à EBD!). É esse, aliás, o mais eficiente meio de deter nossa
tendência de fazer renascer a velha criatura. Por isso, “Antes exortai-vos
uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que
nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado” (Hb 3.13).

Que nos comprometamos a ter cuidado uns dos outros, que nos lembremos uns dos
outros em nossas orações, que nos ajudemos mutuamente em nossas enfermidades
(Tg 5.16b), a cultivar relações francas e a delicadeza no trato e a estar
pronto a perdoar as ofensas (Mt 6.12-15), a buscar a paz com todos. Que Deus
nos ajude!

Parte XXI
COMO SE FAZ
UMA GRANDE IGREJA
“Cristo
amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse,
tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar
a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém
santa e sem defeito” (Ef 5.15b-27).

É desejo comum que esta nossa igreja seja grande em todos os sentidos. Por
isso, oramos no sentido que cresça em número e espiritualidade. Uma grande
igreja não é a que tem o maior templo da cidade, nem as melhores salas para a
educação religiosa do seu povo, o melhor coro, ou o maior balancete mensal, ou
a que levanta as maiores ofertas missionárias e para outros fins. Não é aquela
cujo pastor é o melhor orador da cidade, e os membros os mais destacados da
sociedade.

No entanto, incidentalmente, uma grande igreja pode ter tudo o que foi mencionado..
No entanto, uma grande igreja é a quem tem certas características bíblicas que
passaremos a enumerar.

UMA GRANDE IGREJA É A QUE TEM UM MINISTÉRIO PARA TODOS

Cada crente é chamado por Deus para ser um ministro. Isso é interessante porque
podemos pensar que a palavra “ministro” é tão elevada, pois, afinal
de contas, é utilizada no primeiro escalão do governo. Falamos em Ministro da
Educação, Ministro das Finanças, e assim por diante. Palavra, portanto, usada
para pessoas de altíssimo gabarito, do alto escalão do governo.

No entanto, é palavra tão simples. Há uma diferença abismal entre as palavras
“ministro” e “mestre”. “Mestre” vem de uma
palavra da língua latina, magister, de onde procedem, ainda,
“magistério”, “magistrado”, designando alguém que era
procurado por ter “algo a mais (magis)”. Era que tinha com que
contribuir. “Ministro” vem de minister, procedente de minus, alguém
que tem “algo de menos”, o servo, o escravo.

A Bíblia diz que nós temos um serviço. Essa palavra “ministro” é
usada, sobretudo, para dizer “servo” e o conseqüente serviço
prestado. Somos todos chamados para ser ministros de Jesus Cristo. Isso é algo
básico, é um conceito bíblico, evangélico em todos os sentidos porque Jesus
declarou “O Filho do Homem (Cristo) não veio para ser servido, mas para
servir…”,e é igualmente prático (cf. Ef 4.11,12; Mc 10.45).

Talvez uma pergunta esteja na mente dos leitores: “se todos vão ser
ministros, quem vai ser o pastor?” É precisamente neste tipo de pergunta
que há mal-entendidos, pelo fato de algumas pessoas ainda presumirem que o
pastor tem que fazer tudo na igreja, de preferência ao mesmo tempo, e, estar em
todas as reuniões, algumas marcadas ao mesmo tempo, e, se possível, que ele
tenha o singular condão nunca esperado de outras pessoas, de estar presente em
todas essas reuniões.

No entanto, ensina a Palavra Santa que a principal tarefa do pastor é preparar,
capacitar os cristãos para o exercício eficiente de seus ministérios. Lembremos
que o pastor trabalha COM a igreja capacitando-a, treinando-a para o exercício
eficaz do ministério de cada pessoa. Esse é um fato altamente prático, e quer
dizer que cada um de nós tem um ministério. Você vai dizer, “Pastor, não
sei qual é o meu ministério, o meu dom”. Os chamados testes dos dons dão
uma pista. Dom não é o talento natural, pois alguém pode ter um grande talento
em certa área, e não ter sido capacitada por Deus para exercê-lo no ambiente de
formação espiritual da igreja. Você reconhece o seu dom espiritual pela
compulsão que parte do seu íntimo. Você sente o desejo de realizar algo. Há um
irmão em nossa igreja que tem o evidente carisma do socorro, da ajuda. Não é a
contribuição em dinheiro para resolver a débil situação econômica de alguém. É
que no momento em que você diz “Preciso de tal coisa”, ele responde
“Pronto, diga onde está que vou buscar”. Sem alarde, ele diz
“Vou resolver”.

Essa é uma grande igreja, a que tem um ministério para cada pessoa. Cada um
sabe qual o seu ministério, se evangelismo, se ação social, se ensino. Cada um faz
alegria, com prazer, e não é preciso pedir “Por favor” porque o
Espírito Santo já capacitou para tal trabalho. Soube de uma igreja no estado da
Flórida (EUA) onde não indicação para os cargos. As posições são disponíveis e
os membros dizem à Comissão, “Quero trabalhar nessa função”, e os
cargos vão sendo preenchidos de acordo com a vontade de trabalhar da pessoa.
Assim fazendo, trabalha quem quer trabalhar, porque infelizmente, muita gente
fica esquecida quando a Comissão de Indicações vai estudar os nomes e cargos.
Uns são esquecidos, outros recebem três, quatro, cinco cargos. Com um
ministério para cada um, essa é uma grande igreja!

UMA GRANDE IGREJA É AQUELA QUE TEM FIRMEZA DE FÉ E DE DOUTRINAS

Como é possível obter uma fé estável, firme, que não seja levada por todo vento
de heresia ou de corrupção? Temos algumas pistas na Palavra de Deus. Uma muito
simples é compartilhando as experiências nos cultos. A Carta aos Hebreus quase
que diz “Não deixando a vossa congregação como é costume de… Fulano de
Tal…”Mas o Espírito Santo diz “Não deixando a vossa congregação
como é costume de alguns”. E esses “alguns” sabem quem são e
quais são os costumes: de faltar sem necessidade, de passear pelas outras
igrejas (o chamado “turismo eclesiástico”).

Irmão amado, irmã querida, qual a sua mesa espiritual? Já imaginou se seu filho
resolvesse que amanhã vai almoçar na casa do vizinho, e terça-feira na casa da
tia, quarta-feira vai para a do primo, e assim cada dia da semana. Seria uma
tremenda economia para o irmã, mas o feijão-com-arroz é em casa. Fora, há
banquete, mas há tantos banquetes que fazem mal. Feijão-com-arroz bem
preparado, bem temperado edifica, faz crescer, engorda e faz ficar bonito. O
mesmo com a doutrina: edifica, fortalece, encaminha.

O hábito da freqüência sistemática aos cultos é uma bênção na vida do cristão
por ser fundamental para a firmeza de suas convicções. Li uma frase (mas não
vou dar 100% de crédito porque conheço a luta de alguns irmãos): “No
domingo de manhã, vêm todos; à noite, só os fiéis”. Achei-a um tanto
pesada. É meio complicado para um igreja de centrão da cidade ter uma altíssima
freqüência à noite: há quem more muito distante, há quem seja idoso, há quem
tenha filhos ainda pequenos, e outra tantas razões. Porém, se você não tem
nenhum desses impedimentos, venha. Traga sua alegria, seu louvor, sua
contribuição de presença à Celebração do Nome de Jesus.

E o Culto de Oração nas quartas ou quintas-feiras que tem virado uma lástima em
algumas igrejas? Alguém me repassou uma Nota de Falecimento que diz o seguinte:
Nota de falecimento
Faleceu, na Igreja dos negligentes e frios na fé, dona “Reunião de
Oração”, que já estava enferma desde os primeiros séculos da era cristã.

Foi proprietária de grandes avivamentos bíblicos e de grande poder e influência
no passado. Os médicos constataram que sua doença foi motivada pela
“frieza de coração”, devido à falta de circulação do “sangue da
fé”.

Constataram ainda: “dureza de joelhos” – não dobravam mais –
“fraqueza de ânimo” e muita falta de boa vontade. Foi medicada, mas
erroneamente, pois lhe deram grande dose de “administração de
empresa”, mudando-lhe o regime; o xarope de reuniões sociais”
sufocou-a; deram-lhe “injeções de competições esportivas”, o que
provocou má circulação nas amizades, trazendo ainda os males da carne:
rivalidades, ciúmes, principalmente entre os jovens. Administraram-lhe muitos
“acampamentos”, e comprimidos de “clube de campo”. Até
cápsulas de “gincana” lhe deram pra tomar!

RESULTADO: Morreu Dona “Reunião de Oração”! A autópsia revelou: falta
de alimentação, como “pão da vida”, carência de “água
viva”, e ausência de vida espiritual. Em sua memória, a Igreja dos
negligentes, situada na Rua do Mundanismo, número 666, estará fechada nos cultos
do meio da semana. Aos domingos, haverá Culto ou Escola Bíblica, só pela manhã,
assim mesmo quando não houver dias feriados, emendando o lazer de sexta a
segunda e vigília, nem pensar.

Agora, uma pergunta: SERÁ QUE O LEITOR NÃO AJUDOU A MATAR A DONA
“REUNIÃO DE ORAÇÃO”?

Quantos pastores se ressentem da ausência de irmãos (até da liderança…) que
deveriam e até poderiam estar presentes no Culto de Oração. A presença nos
Cultos é fundamental para a solidez da fé, tanto quanto participar das
atividades da Denominação fortalece os laços de amor entre as igrejas locais.

UMA GRANDE IGREJA É A QUE TEM UMA VIDA DE DISCIPLINA

Os primeiros seguidores de Jesus foram chamados de “discípulos”, isto
é, “aqueles que estão debaixo de uma disciplina”. Na Palavra de deus,
a disciplina de Jesus Cristo é uma atitude e uma atividade. É uma atitude de
submissão, de entrega, de quebrantamento, de reconhecimento do senhorio de
Jesus Cristo sobre nós com o objetivo nosso de aprender.
E é uma atividade que se demonstra em tudo o que fazemos. Como Jesus expressou:
“São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons,
todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em
trevas”(Lc 11.34), e Paulo, o apóstolo, em Filipenses 3.13,14,
“Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço:
esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de
mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em
Cristo Jesus”. É uma atividade que olha para o alvo que é a cruz de Jesus
Cristo, o próprio Senhor Jesus Cristo.

Essa disciplina se manifesta na devoção e na vida de serviço. O exercício da
oração é prova disso. Jesus manteve uma vida de oração. Sua vida de oração era
intensa: ou Ele Se levantava de madrugada para orar, ou ficava até de madrugada
em oração. Orava durante o dia, orava na sinagoga, no Templo, chegou a ensinar
uma oração-modelo, pela qual pautamos a nossa oração; modelo porque não é
recitada simplesmente, embora até a recitemos. Mas temos que nela colocar alma
para que não vire reza (palavra que vem de “recitar”). Observem que
os discípulos não pediram a Jesus “Ensina-nos a pregar”, mas
“Ensina-nos a orar”. A oração torna a nossa marcha mais firme, a
nossa vida mais constante, e o nosso trabalho mais abundante no Senhor.

Através do estudo da Palavra. Não posso entender o crente que não se alegra com
a leitura da Palavra de Deus. Isso quando a Bíblia fala tanto de alegria e
felicidade. Há até uma bem-aventurança: no Salmo 1, onde fala do “varão
que tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita dia e noite”.
Prefiro esta última expressão “dia e noite” a uma outra tradução que
ensina “de dia e de noite”, porque a primeira fala de constância,
permanência na Palavra, enquanto a segunda pode dar idéia de tirar uma horinha
de dia, e outra horinha de noite para meditar na Palavra. Ela só é meditação
constante quando aplicada à vida e cada coisa que fizermos, cada palavra que
pronunciarmos, cada atitude que expressamos está marcada por essa disciplina que
vem da Escritura Sagrada.

O propósito da leitura e estudo da palavra de Deus é confirmar e estimular
nossa fé, como ensina Paulo: “a fé vem pela… palavra de Cristo”
(cf. Rm 10.17). Lemos a Bíblia com o objetivo de estudá-la e de nela meditar.
Há, aliás, uma bem-aventurança para aquele que “tem prazer na lei do
Senhor, e na sua lei medita dia e noite”.

Através de vida disciplinada no serviço. Todos somos chamados, e aquele que
deseja fazer de sua vida um real ministério, deve nele disciplinar-se. As horas
consumidas no preparo disciplinado não constituem tempo perdido.

Nossa igreja tem realizado seminários e simpósios de capacitação. Eles vêm para
melhorar a nossa vida pessoal e da igreja como um todo.

UMA GRANDE IGREJA É AQUELA QUE TEM UMA VIDA DE TESTEMUNHO

Mateus 5.16 e Atos 1.8b são textos basilares sobre o testemunho do cristão:
“Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens…”; “Vós sois
a luz do mundo”; “Vós sois o sal da terra”. Tudo isso é
testemunho! O apóstolo Paulo tem uma expressão em 2Coríntios 3.2< “Vós
sois… conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta
de Cristo, produzida pelo ministério, escrita não com tinta, mas pelo espírito
do Deus vivente…” O que é impressionante é que muita gente nunca vai
abrir a Bíblia Sagrada, mas vai ler a minha e a sua vida, a única Bíblia que
estas pessoas irão ler. Portanto, uma grande igrejaé aquela que tem uma vida de
testemunho.

Outra realidade impressionante é que o melhor testemunho não é aquele que eu
pesquiso e repasso às pessoas: é o da minha vida, é o que eu conto sobre o que
Deus fez por mim. Nos bondes, no passado bem passado, havia uma propaganda que
dizia

“EU ERA ASSIM (e mostrava um indivíduo bem apessoado)
CHEGUEI A FICAR QUASE ASSIM (a figura era de um esqueleto)
TOMEI [E DIZIA O NOME DO FORTIFICANTE],
FIQUEI ASSIM (corado, bonito, forte).

Perceberam que isso é o que Jesus faz? É o evangelho! EU ERA ASSIM (o pecado em
deixou desta maneira, na lama, quase me arrastando, e o evangelho veio e me
resgatou para Jesus!!!) É a minha história e a sua também. Nós éramos assim
(que palavra terrível!), e a Bíblia diz, “Não há um justo, nem um
sequer”” (Rm 3.10), e , ainda, “”pois todos pecaram e
destituídos estão da glória de Deus (Rm 3.23). Ninguém fique iludido pensando
não ter pecado. Se disse que não o tem, já está pecando.

Que é, no entanto, ser testemunha de Jesus Cristo? É compartilhar algo da
própria experiência. Pode até acontecer que em nosso testemunho ao mundo
perdido sejamos um tanto vacilantes, mas sempre devemos começar com a nossa
própria experiência nos termos de 1João 1.3, “O que temos visto e ouvido
anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão
conosco”. O que eu vi, eu conto. O melhor testemunho é contar a vida; o
melhor testemunho é dizer “eu era ssim, eu fazia isso, mas a minha vida
mudou”, e você passa a ser respeitado. E sabe quando você começa a ser
respeitado? Quando aquela rodinha no trabalho ou na escola se cala quando você
chega, e não conta mais aquela piada indecente que você costumava ouvir.

O conteúdo do testemunho aponta para Jesus Cristo e Sua obra na vida humana.
Somente temos que ler o livro dos Atos dos Apóstolos para confirmar o que foi
dito. Que livro extraordinário! É uma leitura empolgante. Parece que estamos
andando com os discípulos, e entrando com eles nas cidades, e participando das
pregações. Nesse livro, o testemunho é pessoal, e começa na própria experiência
de Pedro (At 2.32), de Pedro e João (3.4-6), de Estêvão (7.56), de Paulo (20.24;
22.14,15).

Fico impressionado com o testemunho de Estêvão. Ele estava sendo apedrejado, e
naqueles momentos finais, ele exclamou: “Eis que vejo os céus abertos e o
Filho do Homem, em pé à direita de Deus” (7.56). Não foi ele que pediu a
Deus que peroasse os seus algozes? (7.60). Olha o nome: Atos dos Apóstolos: o
Testemunho dos Apóstolos! Um livro inteiro só de testemunhos do que Deus fez
através dele.

É, em todos os casos, testemunho pessoal que parte da experiência pessoal. Um
testemunho eficaz inclui dois elementos básicos: um modo de viver: um modo de
vida e uma comunicação oral. A única prova disponível para que o mundo veja a
obra de Cristo em nós é nossa própria vida. Deste modo, o mundo quer ver esta
realidade vital genuína que só Cristo pode oferecer.

O Pr. Tomás Munguba contou-me sobre um operário de uma fábrica em sua cidade
(João Pessoa). O homem tem dez filhos, e todo início de semana chegava
embriagado ao trabalho. Seu chefe, um descrente, amigo do Pr. Tomás, se
perguntava o que poderia fazer para ajudar. Numa certa segunda-feira, deu-se um
milagre: chegou sóbrio à fábrica e assim permaneceu por toda a semana e sempre.
Quando o chefe soube que ele estava freqüentando uma igreja evangélica,
perguntou ao Pr. Tomás, usando a linguagem da psicologia: “Que vocês,
protestantes, estão fazendo para condicionar a atitude comportamental de
Fulano?” Responde o pastor, “Nada. Não fizemos qualquer lavagem
cerebral, nada. Mas o Espírito Santo trabalhou…”

UMA GRANDE IGREJA É AQUELA QUE TEM O PODER DO ESPÍRITO SANTO

Não obstante, nada acontecerá sem o poder do Espírito Santo. Absoluta nada. Não
haverá um ministério para cada um; não haverá estabilidade de fé; nem vida de
disciplina, nem vida de testemunho.

Há uma história sobre um grupo de missionários acampados na selva perto das
vilas e aldeias, mas também perto de uma colônia de chimpanzés selvagens. Cada
tardinha, voltavam das aldeias, acendiam uma fogueira e ficavam ao redor
contando as experiências e as bênçãos. Uma tarde, quando os missionários regressaram,
viram os macacos que os estavam imitando: puseram lenha para fazer uma
fogueira, e estavam sentados ao redor da fogueira apagada se
“esquentando” como os missionários faziam nas noites frias:
esfregavam as mãos, faziam ruídos. Faltava, porém, algo importante naquela
fogueira: o fogo. Era apenas uma imitação.

Assim é com a igreja: sem o fogo do Espírito, a igreja não tem sentido. É um
clube religioso, é uma reunião de amigos, de gente idealista, mas não é uma
igreja onde Jesus Cristo é Senhor. É uma mascarada, uma fantasia. Lembremos que
o fogo que aquece a igreja é o Espírito Santo, na inspiração de Zacarias 4.6,
“Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos
Exércitos”.

EXPRESSÕES PARA DESCREVER O MINISTÉRIO DO ESPÍRITO

O Novo Testamento tem dois termos para descrever o ministério do Espírito Santo
na vida e experiência dos crentes: a habitação do Espírito Santo e a plenitude
do Espírito Santo ou ser cheio do Espírito. O primeiro se refere à conversão
(1Co 3.16; Tg 4.5). O segundo significa ser controlado pelo Espírito Santo (Ef
5.18).

Por incrível que possa parecer, Paulo faz uma analogia entre a intoxicação
alcoólica, a embriaguez, e o controle do Espírito de Deus. Ele o faz em Efésios
5.18: “Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas
enchei-vos do Espírito”. Quando uma pessoa está “cheia de vinho”
não significa que está cheia da cabeça aos pés como uma garrafa, mas que cada
parte de seu corpo está afetada pela bebida: seu modo de caminhar, sua
conversa, seu olhar, seus pensamentos.

Ser “cheio do Espírito” significa que cada ação nossa, cada
pensamento e palavra está sob Sua influência. É o controle e o domínio do
Espírito Santo sobre. A plenitude do Espírito Santo não é instantânea como a
embriaguez também não o é. Sua comunhão com o Espírito vai fazendo com que sua
vida seja controlada, e cada vez mais controlada, de tal modo que quando você
fala, anda ou toca as pessoas, todos compreendem que você está sob o domínio do
Espírito de Deus.

Esta deve ser uma nova hora para cada pessoa que lê esta reflexão. A hora de
cada crente renovar sua aliança com Deus. A hora de se firmar mais e cada vez
mais em Jesus Cristo, nossa Rocha Eterna. A hora de buscar a plenitude do
Espírito, se o que desejamos é uma vida abundante e vitoriosa.

Este é o momento sério de renovar o pacto com suas convicções, se o que
queremos é uma grande igreja, forte e espiritual!

Parte XXII
CREIO NA
CONTRIBUIÇÃO CRISTÃ
“Fazei
todas as vossas obras com amor”
(1Co 16.14)

A causa de Jesus Cristo tem seu lado financeiro, o que ninguém desconhece. Isso
faz lembrar a palavra de um evangelista que afirmou com muita propriedade,
“Na verdade, a água da vida é grátis, mas o balde em que é transportada
tem que ser comprado.” Quer isso significar que quando se anuncia o reino
de Deus isso é feito de modo absolutamente gratuito, havendo, no entanto, um
custo financeiro. Quando os irmãos se reúnem para o crescimento, quando a
igreja se reúne para a edificação ou quando espalha a mensagem através de ondas
do rádio, da televisão, ou através da imprensa escrita, a água da vida é
levada. E o crente que se consagra, reconhece que o dinheiro não é o lado
profano, secular, de algo sagrado chamado Igreja. A contabilidade de uma igreja
local é tão sagrada quanto a mensagem que sai do púlpito, tão sagrada quanto a
lição da Escola Bíblica que é repassada para os alunos em uma classe; tão
sagrada quanto uma cesta básica que é dada para uma família menos valida,
porque na Igreja de Jesus Cristo não reconhecemos coisas profanas e coisas
sagradas. Para o cristão, tudo tem sacralidade. Assim o era no Antigo
Testamento. A Constituição do povo de Israel era a própria Lei de Moisés. O
aspecto civil da lei de Moisés confundia-se com o lado cultual, ritual e
litúrgico.

Dinheiro, portanto, é assunto sério. Tão sério, tão sagrado que Jesus tinha um
tesoureiro no colégio apostólico. E havia pessoas fiéis que sustentavam o Seu
ministério. Vamos a Lucas 8.2,3, que apresentam o seguinte: “E também
algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de
enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; E Joana,
mulher de Cusa, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras as quais o
serviam com seus bens.” Sustentavam a obra de Jesus Cristo.

Sim; existe um aspecto sagrado no dinheiro que entregamos à igreja. Há, até,
quem pense que a Bíblia ensina que o dinheiro é a raiz de todos os males. E
alguém disse, “Está na Bíblia”. Isso não existe na palavra de Deus.
Se assim fosse, não seria ordenado “trazei todos os dízimos à casa do
tesouro”. O que a Bíblia diz, é que “o amor ao dinheiro é a raiz de
todos os males”. O que a Escritura ensina é que a avareza, o amor ao
dinheiro, a ganância, é a raiz de todos os problemas e sofrimentos. No livro de
Jó no capítulo 31, diz o verso 24: “Se no ouro pus a minha esperança, ou
disse ao ouro fino: Tu és a minha segurança; Se me alegrei por ser grande a
minha riqueza, e por ter a minha mão alcançado muito; Também isto seria pecado
para ser punido pelos juizes, pois eu teria sido infiel a Deus que está lá em
cima.” Na palavra de Jesus, em Lucas 12.15: “Acautelai-vos e
guardai-vos da avareza; a vida de um homem não consiste na abundância dos bens
que ele possui”. Mateus 6.24, faz parte do “Sermão do Monte. Nele
está que “Ninguém pode servir a dois senhores. Ou a de odiar a um e amar o
outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as
riquezas”. Algumas traduções têm “Não podeis servir a Deus e a
Mamon”. Mamon é a personalização do dinheiro, das riquezas.

Aliás, neste último versículo, há um sugestivo ensinamento sobre uma gradação
no relacionamento entre o homem e o seu dinheiro. Porque começa dizendo assim,
“Ninguém pode servir, ninguém pode se devotar e ninguém pode
cultuar.” A idéia é essa mesmo: servir, amar e dedicar-se a Deus e
dedicar-se aos bens, às posses, à conta bancária. Não servir, odiar e desprezar
a Deus. Não pode ser dessa maneira.

Temos nesta história todo um sistema de valores. Dinheiro, não é apenas um meio
de adquirir bens. Dinheiro é um sistema de valores. É um sistema de valores
econômicos, espirituais e morais. Por isso que o valor de um objeto é medido
pela quantidade de dinheiro que nós gastamos nele. Se alguém vai comprar um
refrigerador, e a loja diz que custa R$ 450,00, e há um outro bem semelhante
nas características e funções e custa R$ 580,00, você vai querer saber porque
um custa duzentos e pouco e o outro quinhentos e alguma coisa. E normalmente se
dá mais valor ao que custa mais caro. Então, nós colocamos no dinheiro um
sistema de valores porque damos preço a um objeto pela quantidade de dinheiro
investido nele.

O dinheiro é, também, um sistema de valores morais porque representa o seu
tempo, o seu trabalho, e, até, a sua personalidade. É um sistema de valores
espirituais, dependendo do modo como você o usa, como o emprega na causa de
Jesus Cristo. E então, nós entramos na questão do dízimo.

O dízimo faz parte desse sistema de valores. Dar é sinal da graça de Deus. Tive
a curiosidade de olhar na Concordância Bíblica a palavra dar, que também pode
ser doar e oferecer. A lista de versículos relacionados com dar, doar e
oferecer é imensa, indo de Gênesis 4:12 a Apocalipse 22:12. Por isso, a Bíblia
diz tantas vezes, “Que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu
filho unigênito”. Também há uma palavra de Jesus registrada fora dos
Evangelhos, no livro dos Atos dos Apóstolos (chamado, aliás, de “o
Evangelho do Espírito”): “Mais bem aventurada coisa é dar do que
receber”.

Realmente, a Escritura mostra que dar é sinal da graça de Deus na sua vida e a
disposição de fazê-lo é dom da operação do Espírito Santo no coração. Romanos
12 fala sobre isso, e uma das graças do Espírito na nossa vida chama-se o dom
da liberalidade, o carisma de ser liberal. É aquela pessoa que dá o dízimo, no
entanto, o carisma é tão forte na sua vida que se a igreja pedir o segundo
dízimo dá, e se a igreja pedir uma contribuição para ajudar a uma determinada
causa, também dá. Contribuir está intimamente ligado ao estado de vida espiritual
e onde há contribuição generosa e liberal a Deus, podemos reconhecer a ação do
Espírito Santo de Deus.

Contribuir significa companheirismo no serviço cristão; significa assistência
aos pobres. Quando contribuímos, há pessoas que são ajudadas com as cestas
básicas há pouco mencionadas; a manutenção do culto (ou alguém não paga essas
luzes que são acesas durante o culto? Ou outros bens que nós usamos, outros
serviços públicos que a igreja utiliza?). A própria expansão do evangelho
quando mandamos um missionário ou uma família missionária, e a sustentamos em
um determinado país. O crente faz isso através do seu dízimo.

No caso particular dos Batistas, quando o fiel entrega o dízimo, uma parte dele
é enviada para a Convenção Batista do seu Estado. A Convenção estadual reúne
das igrejas do seu campo e remete uma porcentagem para a Convenção Batista
Brasileira, a qual, por sua vez, divide toda a contribuição recolhida pelos
diversos apostolados e ministérios que realiza, enviando uma parte à Aliança
Batista Mundial. Nesse ponto, forçosamente nós temos que entrar no sistema de
Deus para o financiamento do Seu projeto. O projeto de Deus é o programa de
expansão do Seu reino neste mundo. É o governo soberano de Deus nos corações. E
parte desse projeto é 10% da renda pessoal.

Então o que é e o que não é o dízimo? Vamos esclarecer algumas coisas. Vamos
começar com o que o dízimo não é:

O dízimo não é um meio de pressionar a igreja a levantar dinheiro a fim de
suprir necessidades do seu orçamento.
O dízimo não é cumprimento de exigência da lei de Moisés. Já vi gente dizer
isso, “Não dou dízimo porque é da lei de Moisés. O Novo Testamento acabou
com o dízimo.” Não acabou nada. A palavra de Jesus diz que nós devemos,
além de realizar obras caracteristicamente cristãs, dar o dízimo também. E ele
até mencionou temperos usados no trivial da cozinha: dízimo do cominho, do
endro, do coentro, da hortelã, mostrando como é natural, Porque o povo dava o
dízimo não só de dinheiro, mas, dava o dízimo também de espécie. Por exemplo:
trigo, se tinha vinte sacas de trigo, duas pertenciam ao Senhor entregava ao
Templo. Se tinha naquele ano uma produção de dez bezerros, um era do Senhor,
então, um era do Templo.
Não é uma maneira de mostrar posição pessoal. Porque alguém pode pensar assim:
“Bom, mas irmão Fulano ganha R$ 15 mil, ele dá R$ 1.500,00 de dízimo. Eu
só ganho R$ 151,00, o salário mínimo, dou R$ 15,10”. Então, um tem mais
posição que o outro. Diante de Deus é a mesma coisa. R$1.500,00 para R$
15.000,00 é a mesmíssima proporção de R$ 15,10 para quem recebe R$ 151,00.
Talvez seja até mais sacrificial, os 15 reais e 10 centavos que os 1.500 reais
que o outro entregou.
Não é um meio de pagar para que outros façam a obra no meu lugar. Já vi isso
também, “Se ele é o Diretor de Evangelismo, ele que evangelize.” Não
é assim não. O Diretor de Evangelismo dirige a evangelização, por isso, ele é o
Diretor. O Coordenador de um Ministério, coordena, por isso, ele é o
Coordenador, mas, quem realiza é a Igreja de Jesus Cristo. Ela é evangelista,
ela é visitadora, ela é aconselhadora, enfim, cada ministério é realizado pela
igreja, com pessoas que treinam, que dirigem, que levam para o campo. Por isso,
não é um meio de pagar para que outros façam.
Não é um meio de subornar a justiça de Deus. Há quem pense, “Isso me
aconteceu porque eu não dei o dízimo. Agora vou dar o dízimo para não acontecer
mais. Vou dar o dízimo para ficar rico.” Não dê o dízimo com intenção de
pagar pecados, não! Dízimo não é para isso. Hebreus 10.8 coloca o assunto da
seguinte maneira: “Depois de dizer como acima: Sacrifício e oferta, e
holocausto e oblações pelo pecado não quiseste, nem neles te deleitaste os
quais se oferecem segundo a lei.” Faziam sacrifícios de animais, oblações
com vinho, ofertas com massas para pagar pecados. Mas, Deus não se deleitava
com essas coisas.
Nem para criar um saldo de graças com Deus. Ouvi contar de certo pastor que
falou para alguém, e essa pessoa repassou que ele dissera, “Eu tenho
crédito com Deus, e agora posso exigir dele.” Como pode?! Deus não está me
devendo nada; eu, sim, que lhe devo! Deus só me cobre de graça sobre graça,
benção sobre benção, glória sobre glória! Agora, eu preciso cumprir a minha
parte. Não é que Deus me deva alguma coisa e com isso eu tenho credito com Ele.
Eu não tenho que criar um saldo de graças com Ele, não. As bênçãos de Malaquias
3.10, não são apenas bênçãos materiais. A promessa é de bênção, “Se eu não
vos derramar sobre vós uma benção em abundância.” Há outras bênçãos além
de dinheiro. Quantas vezes o dinheiro tem sido maldição; mais dinheiro uma
pessoa tem, mais miserável é, às vezes, para a obra de Cristo. As bênçãos são a
graça, a misericórdia, o crescimento espiritual. Por isso, não dê o dízimo para
pagar promessa. Não dê o dízimo com medo, não.
“Então o que é o dízimo, pastor?”

Dízimo, é 10% da renda. É um referencial simbólico de tudo aquilo que o crente
entrega a Deus. Ou você pensa que 10% é de Deus e 90% é seu? Não é, não!
“Dez por cento é de Deus, do resto eu faço o que quiser”. Não é, não!

Dízimo é expressão de adoração; é forma de cultuar a Deus, por isso, nós não
podemos fazer o que umas igrejas andaram fazendo. Entregaram um boleto bancário
para os membros, que deveriam pagá-lo no banco. Como quem paga carnê do Baú da
Felicidade, ou fatura de clube. No banco, paga-se luz, água, telefone, pagam-se
duplicatas e prestações. Mas, o dízimo é do Senhor e eu o trago à casa do
Senhor. Acho que é uma boa prática não entregar dízimo na tesouraria. De vez em
quando, alguém pergunta, “Pastor, dá para entregar o dízimo na
tesouraria?” Respondo, “Faça o seguinte irmão, vá lá no santuário e
coloque no gazofilácio. O tesoureiro depois vai recolher os dízimos e
ofertas”. É uma boa prática não entregar na mão de ninguém, nem na
tesouraria. Mas, não é por outra razão, não. É porque é um ato de louvor e
deve, por isso, ser trazido ao culto e entregue em adoração.
O dízimo é reconhecimento de que eu aceito o fato de que Deus é soberano sobre
o mundo e sobre a minha vida também.
Então, qual é o motivo real para que eu dê o dízimo? Creio que só há um motivo
irmãos, e está em 1Coríntios 16.14: “Fazei todas as vossas obras com
amor”. É assim que está na Escritura Sagrada, que ensina que é até uma
coisa mesquinha pensar apenas em 10% porque Jesus Cristo realmente pede 100% de
nós. O que Ele quer é você, minha irmã; o que Jesus Cristo quer é você, meu
irmão querido. Dez por cento é apenas o começo dessa expressão de entrega.

Onde devo dar o dízimo? Na “casa do tesouro”; na igreja em culto.
Alguém de uma igreja irmã me disse certa vez que para pressionar a saída do
pastor estava com outros irmãos depositando o dízimo em uma caderneta de
poupança. Esse irmão de outra igreja falou isso: “Há um grupinho da igreja
que está depositando o dízimo em uma poupança, que é para ver se com isso o
pastor sai.” Está errado. Há designações para isso: conspiração e formação
de quadrilha. É crime e dá cadeia. É errado por vários motivos: por não trazer
o dízimo, por usar um expediente errado e por pressionar o pastor daquela maneira.
O pastor pode estar errado, mas não é dessa maneira que se faz. Se para entrar,
houve muita oração, para sair tem que haver muita oração.

Aprendo que o dízimo é uma solução. A Bíblia me mostra que o dízimo é uma
solução para o crente pessoalmente falando. Porque um vai dizer, eu ganho pouco
e o outro vai dizer, eu ganho muito. Eu vou dar quanto? A resposta é a mesma.
10%. Isso significa que o dízimo é proporcional. Isso diz que o dízimo é
adequado, é ponderado. É um guia para o padrão de crescimento do crente na
contribuição. E assim, nos ajuda a desenvolver a disciplina de um padrão, o
padrão de contribuir, além de nos ajudar também a estabelecer corretamente
quais são as prioridades da nossa vida.

É solução para não só para o crente individual, mas, é solução para a expansão
da igreja, porque as causas missionárias, os planos evangelísticos, o
desenvolvimento na educação dos novos e dos antigos crentes, tudo se executará
com largueza, com amplitude, com visão por causa do dízimo. Um problema
financeiro que a igreja tem será resolvido com facilidade. Aliás, não haverá
problema financeiro.

Dízimo é solução para a vida de qualquer denominação evangélica como agente da
causa de Jesus Cristo nesse mundo através de um plano de cooperação. A igreja
local e a obra de Cristo não se sustenta através de bazares, chás sociais,
rifas, sorteios, leilões, shows e coisas assemelhadas. Talvez os crentes mais
novos tenham ouvido muito superficialmente na Classe de Preparação para o
Batismo. O Plano Cooperativo é um programa de integração das igrejas. O nome
está dizendo Plano de Cooperação das Igrejas. E esse programa começa com o
crente. Ele coopera com outros crentes e dessa maneira todos trazem seu dízimo,
sua oferta ao Senhor.

Oferta alçada é mais do que dízimo, sabiam? Há quem pense que oferta é menor do
que o Dízimo. Se o seu dízimo é de R$ 100,00, oferta é R$ 120,00, 200,00,
250,00, etc. Contribuição é menos. Se você deve dar R$ 100,00, e dá R$ 80,00,
está dando uma contribuição. Está fora do padrão. Quando você então se une a
outros crentes na sua igreja e você dá o dízimo, você começou a cooperar. O
plano cooperativo começa com você.

Qual é a próxima etapa do Plano Cooperativo? A igreja local. A nossa igreja
contribui com 10%; poderia contribuir com 5%; ou 20%, 50%.. Está estipulado
pela assembléia da igreja que nós daremos 10% da entrada. Então, a nossa igreja
mensalmente envia 10% para a Convenção Batista Baiana. As outras igrejas locais
do Campo Baiano fazem o mesmo: cada igreja do interior e da capital manda este
sua parte e, através do Plano Cooperativo, a Convenção Batista Baiana
estabelece seu programa de ação, que não é outro senão o programa da igreja
local. Coloca missionários em cidades, vilas, vilarejos do interior.

Que mais? A Convenção Batista Baiana por sua vez, remete 20% para o Rio de
Janeiro, onde fica a sede da Convenção Batista Brasileira. E a Convenção
Batista Brasileira recebe da Convenção Baiana; da Sergipana; da Capixaba; da
Mineira; da Amazonense; da Paraense; da Paraibana e assim por diante. Todas as
Convenções mandam uma parte (20%, 30%, 10%), quanto estiver estipulado em
assembléia da respectiva Convenção. A Convenção Batista Brasileira recebe
então, o dinheiro das Convenções que na verdade é o dinheiro que veio das
igrejas; que na verdade é o seu dinheiro; que na verdade é o dinheiro do
Senhor. E dessa maneira distribui pelos diversos ministérios que ela executa:
Junta de Missões Mundiais; Junta de Missões Nacionais; Junta de Rádio e
Televisão; JUERP, Seminários, Aliança Batista Mundial, e assim por diante… Os
missionários que estão no Japão, no Canadá, na Romênia, na África, enfim,
espalhados pelo mundo, recebem porque o irmão deu o dízimo na igreja.

Isso é o que se chama de Plano Cooperativo na igreja local, na Bahia, no Brasil
e no mundo. Esse Programa de Cooperação só vai trazer uma coisa: bênçãos! Vamos
para Malaquias 3.10, “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que
haja mantimentos na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos
Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós
benção tal, que dela vos advenha a maior abastança”. Abundância é questão
de valores, não é questão de dinheiro. Não faça negociação com Deus. Há uma
história que é passada às vezes de um modo muito lindo, no entanto, na minha
interpretação, essa história, não guarda nada de nobreza.. É a história de
quando Jacó estava em Betel, e teve a revelação de que naquele lugar o Senhor
estava; que ali era Beth-El, a casa de Deus. Ele fez um voto dizendo: “Se
Deus for comigo e me guardar nessa viagem que ora faço; e me der pão para comer
e vestes para vestir, e eu em paz voltar a casa de meu pai, o Senhor será o meu
Deus”. Por que ele disse, “Se Deus for comigo”, o problema é
esse “se…”, “Se Deus for comigo; se Deus me guardar; se ele me
der comida; se ele me der roupa; se me fizer voltar em paz, então, eu darei o
dízimo”. Parece bonito, mas, o problema é que Deus lhe foi fiel e ele
continuou o mesmo enganador de todo o sempre, porque dízimo é uma questão de
valores espirituais e não de recompensas materiais como ele estava colocando
diante do Senhor.

O pastor Roberto McAlister, já falecido, faz uma pergunta, “Que é melhor:
saúde ou um bom tratamento médico?”. O que é que você prefere irmão, saúde
ou o melhor médico da cidade tratando do seu terrível caso ? “Que é
melhor, um filho simples e obediente ou um filho brilhante sem caráter? Que é
melhor, um casamento humilde com muito amor ou um casamento infeliz com muito
dinheiro?” O que é melhor? Porque tudo depende do senso de valores e Jesus
Cristo fala de valores quando diz que devemos buscar o Reino de Deus e a sua
justiça, porque o restante vem acrescentado.

Quer dizer, se eu colocar o dízimo como o meu ponto de partida, a minha falta
de fé vai se transformar em confiança e em sinceridade. Não vai haver falta de
recursos para fazer a obra do Senhor, na casa do Senhor. A conquista de almas
vai aumentar porque eu só tenho que fazer uma coisa, uma aliança com Deus; uma
aliança com o Senhor na base da fé, na base da dependência Dele, pois certas
coisas só podem ser realizadas com o Espírito Santo. Por isso, não é dever, é
privilégio do crente, o de participar da obra do Senhor, da causa do Senhor; do
projeto de Deus.

Parte XXIII
DESAFIOS DA
LIDERANÇA CRISTÃ
A verdade é que
entramos no século 21 com tremendos desafios para a liderança na igreja. Um
deles é, no dizer de Warren Wiersbe uma crise de integridade. E ela atinge o
cerne da autoridade e da liderança da Igreja de Jesus Cristo. Wiersbe lembra
que Paulo exclamou com as veras da sua alma: “não me envergonho do
evangelho!” E sugere que talvez o evangelho afirme: “(mas) eu me
envergonho dos cristãos”. Quanta coisa tem sido praticada em nome do
evangelho, com aparência de evangelho, com linguagem de evangelho, e tem dado
como resultado superficialidade de convicções, confusão mental e espiritual, e
enfraquecimento da fé porque os líderes, pastores ou não, têm aberto campo para
a falta de ética, para a manipulação dos sentimentos, para a falta de
integridade.

Excelente palavra a que traduz o conceito de integridade na língua hebraica:
shalom, a qual é vertida para o português com alguns ricos significados, tais
como “inteireza, integridade, plenitude, sucesso, salvação, saúde,
prosperidade e, também paz”.

Não podemos fazer por menos: o instrumento que Deus tem para unir as pessoas,
fatos e acontecimentos é a Igreja de Cristo. O líder há de ser íntegro,
“limpo de mãos” (cf. Cl 1.9,10; 2.10; Sl 24.3,4), e “puro de
coração” (cf. Sl 24.3,4). O líder cristão deve possuir uma mente como a de
Cristo (cf. 1Co 2.16); sua vontade é honesta (Ed 9.6).

O fato é que na época de Jeremias a religião parecia com esta do século 21: o
povo dizia crer, mas havia influência secularista, pois o que cria não fazia
diferença quanto ao modo de viver. O ideal evangélico está expresso em
2Coríntios 5.17. Além disso, na época de Jeremias, a religião havia se tornado
um “grande negócio”. É só conferir com as exclamações do profeta
Jeremias que não tolerava os abusos como em 5.30,31 e Lamentações 4.13. Tudo
isso é o que A. W. Tozer chamou de “tratamento comercial” do
evangelho. Esse mesmo “tratamento comercial” é responsável pelo
pragmatismo religioso: “visto que a igreja está cheia, Deus está
abençoando”, afirmam.

Outro desafio às portas do século 21 são os novos estilos de culto. O que em
outros países é denominado histórico ou contemporâneo, em nosso país é objeto
da pergunta “tradicional ou renovado?” Outras comunidades têm
utilizado a terminologia Culto Jovem contrapondo-se ao estilo recebido de
liturgia e rito.

É evidente que o culto é mensurado pela transformação causada nos que cultuam a
Deus, e há de ser sempre “em espírito e em verdade” (Jo 4.23,24), ou
não há de ser culto. É gratidão, reconhecimento, louvor, e (embora não seja o
propósito primário) terapêutico. Ao tempo que o cultuante reconhece o cuidado,
carinho e amor de Deus, louva-O e sai aliviado das tensões, dos cuidados e
preocupações, terapia grupal no louvor comunitário.

O culto, por ser dinâmico, envolve mudanças, mas envolve igualmente o que nunca
deve ser mudado. Deus não muda; as verdades eternas não mudam; a Palavra de
Deus não muda. Questiona-se a ressurreição de Jesus Cristo, a realidade do
pecado, a necessidade de salvação, e a singularidade da obra redentora de
Cristo. Mas o método pode mudar porque não são estáticos, mas se adequam aos
tempos e circunstâncias.

A liderança da igreja às vésperas do século 21 há de estar aberta para o novo
sem perder a visão do permanente na igreja. Afinal, somos líderes e
capacitadores numa comunidade local sem perder a visão do todo da Igreja de
Jesus Cristo; e capacitadores e líderes da Igreja de Deus sem perder a visão da
comunidade como expressão local dessa Igreja. Numa análise do que chama “a
Igreja do Futuro”, Ralph W. Neighbour destaca que a “Igreja do
Presente” se caracteriza por ser tridimensional: tem largura, comprimento
e profundidade, mas não possui poder espiritual para dar à luz outra geração de
cristãos. A “Igreja do Futuro”, além dessas dimensões, tem mais uma:
altura, ou seja, vive num mundo físico, de três dimensões como a outra, mas
vive em acréscimo num ambiente espiritual onde “principados, potestades,
príncipes do mundo destas trevas, hostes espirituais da iniqüidade” são
diariamente enfrentados.

É o caso, então, de examinar o que Neighbour destaca quanto ao que caracteriza
essa Igreja dinâmica, ativa, viva, quadridimensional:
· O Espírito Santo é Quem a dirige. É só permitir que Ele a controle nos termos
de Efésios 3.16. A Igreja e sua liderança não são significativas pelo que
possuem, mas porque são usadas por Deus.
· Essa Igreja vive na quarta dimensão, sem qualquer alusão à ideologia esposada
pelo pastor coreano David (antes Paul) Yongi Cho. Humanos, somos seres
tridimensionais; mas como povo de Deus, e ainda mais, liderança desse povo,
temos por conceito o sublime e urgente dever de ser quadridimensionais. Afinal,
é nessa dimensão que o poder de Deus se revela e Satanás é vencido (cf. Jo 3.3;
Ef 2.18,19). Onde se enfatizam as três dimensões, a liderança trabalha para o
povo; nas quadridimensionais, a liderança trabalha com o povo.

Não é de estranhar, portanto, que na Igreja onde se enfatizam as quatro
dimensões a liderança seja composta por aqueles em quem os milagres de Deus
acontecem de modo pessoal, e não de segunda mão. Ver a Deus, por exemplo, é
experiência de primeira mão: Noé teve uma experiência sensorial com Deus e
tornou-se o arauto divino para o arrependimento do seu povo (Gn 6.13); Abraão
viu a Deus, e isso resultou num rompimento com a velha e surrada vida no
politeísmo de sua terra natal (Gn 12.1ss); Jacó viu a Deus, e desde esse
momento tornou-se “o princípe de Deus” ((israel, cf. Gn 32.22-32);
Moisés viu a Deus e isso fez diferença na sua vida (Ex 3. 1-12; 34.29-35);
Gideão que teve um encontro transformador com o Todo-Poderoso (Jz 6.11-24);
Elias recuperou-se de um processo de depressão para a vitória porque viu a Deus
(1Rs 19.8ss); Isaías nunca mais foi o mesmo depois da visão de Deus (Is 6.1ss);
foi o caso de Paulo (At 9.1.ss). E “ver a Deus” dá novas energias.

Quando se experimenta pessoalmente o poder de Deus, não se necessita ser
aguilhoado para crer que todas as coisas são possíveis por meio de Cristo
Jesus. Um líder que tenha tido uma visão definida de Deus será capaz de amar,
terá todas as condições de repassar esperança, assim como capacidade de
comunicar a fé. Na verdade, só podemos influenciar e liderar outros até o ponto
a que nós mesmos chegamos. Nesse ponto, vai se revelar o líder espiritual em
contraposição ao líder natural. Segundo Sanders, o paralelo entre estas duas
qualidades de líderes é o seguinte:

O Líder Natural

· É autoconfiante
· Conhece os homens
· Toma as próprias decisões
· Usa os próprios métodos
· Gosta de comandar os outros (e ser obedecido)
· É motivado por questões pessoais
· É independente.

Bem diferente, portanto, do Líder Espiritual, o qual:
· Confia em Deus
· Conhece os homens e conhece a Deus
· Faz a vontade de Deus
· É humilde
· Usa o método de Deus
· Busca obedecer a Deus
· É motivado pelo amor a Deus e aos homens
· Dependência de Deus

Parte XXIV
DISCIPLINA
NA IGREJA
Introdução
Disciplina eclesiástica é um termo em risco de extinção no atual vocabulário
cristão. Desde que os princípios do pós-modernismo encontraram lugar no seio da
igreja,(1) qualquer conceito que ameace o individualismo e a liberdade de
escolha quanto ao estilo de vida, comportamento, etc., é logo taxado de
arcaico, passé. A dicotomia prática de muitos cristãos gera a ilusão de que a
igreja não tem nada a ver com o procedimento “secular” de seus
membros. Nessa “nova era” antropocêntrica, a igreja é vista como uma
organização altamente dependente do indivíduo, e que precisa conservá-lo ao
custo de várias exceções. O medo da impopularidade leva muitos líderes à
cumplicidade e pecados são justificados em nome de uma atitude mais
“humana.”(2) Por outro lado, o que dizer daqueles que, em nome do
zelo pela disciplina, cometeram injustiças e causaram mais males que bens?(3)
Em todo esse contexto, a disciplina tem uma vida curta e a tolerância consagra-se
como a virtude da moda.(4 )Porém, o que acontece com uma igreja sem disciplina?

O termo “disciplina,” em geral, é empregado em vários sentidos.
Podemos usá-lo para referir-nos a uma área de ensino, ao exercício da ordem, ao
exercício da piedade(5) ou a medidas corretivas no seio da igreja. O objetivo
deste artigo é delinear alguns fatores da importância da disciplina
eclesiástica entre os membros do corpo de Cristo. O autor está plenamente
consciente de que um artigo como este não coloca um ponto final no diálogo
sobre o assunto. Porém, o que motiva esta reflexão é a esperança de que a mesma
seja útil para elucidar a muitos quanto ao aspecto bíblico-teológico da
disciplina.

I. Errando o alvo

A igreja cristã tem sido acusada de ser o único exército que atira nos seus
feridos.(6) O grau de verdade dessa acusação é, muitas vezes, devido a
mal-entendidos com relação à disciplina eclesiástica. Tais mal-entendidos estão
presentes em pelo menos dois grupos: 1) os que aplicam a disciplina, e 2) os
que sofrem a aplicação da mesma. Como cada caso deve ser analisado
individualmente, só nos cabe aqui listar os mal-entendidos mais comuns em
relação à disciplina eclesiástica.

A. Disciplina e Despotismo

Com a subida ao poder do Partido Nacional na África do Sul, em 1948, a
segregação foi legalizada em nome da disciplina. Como resultado, foi sancionado
o aprisionamento de negros sem nenhum julgamento formal.(7) Isso não foi
disciplina, mas despotismo.

A história da Igreja Medieval apresenta uma vasta galeria de ilustrações da
confusão entre o uso da disciplina e o exercício do despotismo.(8) Seria isto
apenas um fenômeno do passado? Infelizmente basta familiarizar-se com os
círculos eclesiásticos para se descobrir que o espírito medieval ainda está
vivo e ativo na mente e atitude de alguns líderes modernos. Há aqueles que,
como resultado da ganância pelo poder, seguem o caminho de Balaão e amam a
injustiça (2 Pe 2.13,15). Estes estarão sempre prontos a
“disciplinar” por motivos interesseiros (Jd 16). Não se deve esquecer,
porém, que a culpa de Edom consistiu no fato de que “perseguiu o seu irmão
à espada, e baniu toda a misericórdia; e a sua ira não cessou de despedaçar, e
reteve a sua indignação para sempre” (Amós 1.11).

B. Disciplina e Discriminação

A confusa identificação entre disciplina e discriminação pode ser vista sob
dois aspectos: 1) no abandono do disciplinado por parte da igreja, e 2) na
recusa do disciplinado em receber a disciplina. Para se evitar o primeiro erro
é imprescindível que a família cristã não desista de um dos seus membros que
caiu. Paulo exorta a igreja para que manifeste perdão, conforto e reafirmação
de amor para com o arrependido, para que “o mesmo não seja consumido por
excessiva tristeza” (2 Co 2.7-8). Outra razão para esta exortação é para
que “Satanás não alcance vantagem” sobre a igreja, criando amargura,
discórdia e dissensão (v. 11).

Há sempre a possibilidade de que o disciplinado não se submeta à disciplina, e
acuse a igreja de discriminação. Tal atitude apenas manifesta ignorância e
estupidez (Pv 12.1 – tradução literal). Segundo as Escrituras, é o pecado e a
determinação em segui-lo que gera discriminação, e não a disciplina (1 Co 5.5 e
1 Tm 1.20).

C. Disciplina e Arbitrariedade

“Com que direito fizeram isso?” Tal é a pergunta que constantemente
se ouve em casos de disciplina. Essa pergunta revela um mal-entendido comum
entre disciplina e arbitrariedade. Ou seja, é como se aqueles que aplicam a
disciplina não tivessem nenhum direito de fazer tal coisa debaixo do sol.
“Aliás,” alguns argumentariam, “não somos todos pecadores?”

Primeiramente, é preciso lembrar que toda atitude pecaminosa precisa ser
corrigida, mas há algumas que requerem correção pública. Por exemplo, em Mateus
18.16-17 o evangelista fala daqueles que se recusam a abandonar o pecado mesmo
diante de uma amorosa exortação pessoal. Na sua Primeira Carta aos Coríntios
5.1-13, Paulo descreve as pessoas cujas práticas trazem escândalo à igreja, e
na Primeira Carta a Timóteo 1.20, na Segunda Carta a Timóteo 2.17-18 e na
Segunda Carta de João 9–11 são mencionados os que dissimulam ensinos contrários
ao Evangelho. Por outro lado, na Carta aos Romanos 16.17 o apóstolo recomenda
disciplina aos que causam divisões na igreja e, ao escrever a Segunda Carta aos
Tessalonicenses 3.6-10 ele prescreve disciplina eclesiástica para aqueles que
se deleitam na preguiça. Há um princípio claro: “Os pecados que foram
explicitamente disciplinados no Novo Testamento eram conhecidos publicamente e
externamente evidentes, e muitos deles haviam continuado por um período de
tempo.”(9)

Com relação à autoridade, é importante lembrar que a autoridade na disciplina
nunca vem daquele que a aplica, mas daquele que a ordenou, ou seja, o Cabeça e
Senhor da Igreja (Ef 1.22-23). Além do mais, a pergunta a ser feita dever ser:
“Com que direito um membro da Igreja do Cordeiro profana o sangue da
aliança e ultraja o Espírito da graça?” (Hb 10.29). Também, “Que
direito temos nós de tomar o corpo de Cristo e fazê-lo um com a
prostituição?” (1 Co 6.15). Nenhum direito nos é dado, mas sim a
responsabilidade de amar o pecador e vigiar para que também não caiamos (1 Co
10.12).

Concluindo, somente a ignorância, equívocos, ou dureza de coração poderiam
levar alguém a deturpar os princípios bíblicos sobre a disciplina eclesiástica
e justificar sua ausência entre os membros do corpo de Cristo.

II. O Ensino Bíblico

A. A Necessidade da Disciplina

Aquele que ordena a disciplina na igreja é o mesmo que estabelece o padrão a
ser seguido no exercício da mesma. Esse padrão consiste primeiramente em amor
paternal (Hb 12.4-13). É certo que o mundo vê a disciplina como expressão de
ira e hostilidade, mas as Escrituras mostram que a disciplina de Deus é um
exercício do seu amor por seus filhos. Amor e disciplina possuem conexão vital
(Ap 3.19). Além do mais, disciplina envolve relacionamento familiar (Hb.
12.7-9), e quando os cristãos recebem disciplina divina, o Pai celestial está
apenas tratando-os como seus filhos. Deus não disciplina bastardos, ou seja,
filhos ilegítimos (v. 8). O padrão de disciplina divina revela também
maravilhosos benefícios. A disciplina que vem do Senhor “é para o nosso
bem (v. 10).” Ainda que seja inicialmente doloroso receber disciplina, a
mesma produz paz e retidão (v. 11). O v. 13 ensina que o propósito de Deus em
disciplinar não é o de incapacitar permanentemente o pecador, mas antes de
restaurá-lo à saúde espiritual.

O termo hebraico rasUm é usado no Antigo Testamento como sinônimo de
“instruir” (Pv 1.3, 8), “corrigir” (Pv 22.15 e 23.13) ou
“castigar” (Is 53.5). No Novo Testamento, o grego paidei/a possui
sentido semelhante e é freqüentemente usado na analogia entre a disciplina dos
filhos por seus pais e a correção que vem do Senhor (ver Hb 12.1-10 e Ap 3.19).
Nesse sentido, disciplina e sabedoria estão intimamente ligadas nas Escrituras
(Sl 50.17; Pv 1.1-2 e 15.32). A correção é fonte de esperança para os que a
aplicam e vida para aqueles que a recebem corretamente (Pv 19.18 e 4.13). A
correta disciplina deve ser sempre aplicada com amor e não com ira (Pv 13.24).

Segundo as Escrituras, a disciplina na igreja está fundamentada não apenas no
exercício do bom senso, mas principalmente nos imperativos do Senhor. O mandato
bíblico referente à disciplina é encontrado especialmente no ensino de Jesus
(Mt 18.15-17) e nos escritos de Paulo (1 Co 5.1-13). Também, há clara
referência bíblica de que a igreja que negligencia o exercício desse mandato
compromete não apenas sua eficiência espiritual mas sua própria existência. A
igreja sem disciplina é uma igreja sem pureza (Ef 5.25-27) e sem poder (Js
7.11-12a). A igreja de Tiatira foi repreendida devido à sua flexibilidade moral
(Ap 2.20-24).

B. Os Passos da Disciplina

Biblicamente, a disciplina na igreja tem um triplo objetivo: 1) restabelecer o
pecador (Mt 18.15; 1 Co 5.5 e Gl 6.1); 2) manter a pureza da igreja (1 Co
5.6-8) e 3) dissuadir outros (1 Tm 5.20). É este triplo propósito que aponta
para os passos a serem seguidos em uma aplicação correta da disciplina
eclesiástica. Esses passos são especialmente mencionados em Mateus 18.15-17.

1. Abordagem individual- O v. 15 (Se teu irmão pecar vai argui-lo entre ti e
ele só…) ensina que a confrontação é um tarefa cristã. Uma das melhores
coisas a se fazer por um irmão em pecado é confrontá-lo em amor (Pv 27.5-6).
Mas é sempre arriscado confrontar alguém, pois nunca se pode prever a reação do
mesmo. Jesus, todavia, dirige nossa atenção para a alegre possibilidade de que
tal irmão nos ouça. Além do mais, o termo grego e)/legcon (“arguir,
instruir, confrontar,” v. 15) também pode ser traduzido como “trazer
à luz, expor.”(10) É significativo o fato de que esse é o mesmo termo
usado em João 16.8 para descrever o ministério do Espírito em relação àqueles
que estão no mundo, em convencê-los (confrontá-los) “do pecado, da
justiça, e do juízo.” Assim, antes de confrontar um irmão, podemos sempre
clamar por socorro Àquele cujo ministério de confrontação é sempre eficaz.

2. Admoestação privada – No caso de o ofensor não atender à confrontação
individual, Jesus ordena que haja admoestação privada (v. 16). Nesse caso, um
número maior de pessoas é envolvido. A princípio, pode parecer que o objetivo
desse passo é intimidar o ofensor. Uma atenção maior, porém, leva-nos a
entender que o propósito do mesmo pode ser o de conscientizar o ofensor quanto
aos prejuízos de sua atitude para com a comunidade do corpo de Cristo. Em
outras palavras, nosso pecado traz conseqüências pessoais e coletivas. Além do
mais, Jesus afirma que as outras pessoas envolvidas nesse processo serão
testemunhas. Isto é uma referência à prática vetero-testamentária de não se
condenar alguém com base apenas em uma opinião pessoal (ver Nm 35.30, Dt 17.6 e
19.15). Com isto, a objetividade do caso é preservada, o que diminui as chances
de injustiça, e o ofensor é beneficiado.

3. Pronunciamento público (v. 17) – Tal proceder nunca é violação de segredos,
pois o ofensor deliberadamente recusou os caminhos prévios do arrependimento.
Diante de tal pronunciamento cada membro do corpo de Cristo deve orar pelo
pecador, evitar comentários desnecessários (2 Ts 3.14-15) e vigiar a si próprio
(1 Co 10.12). Tal oficialização pública da disciplina traz implicações
temporárias em relação aos sacramentos (1 Co 11.27).(11)

4. Exclusão pública – O último recurso da disciplina é o da excomunhão (do
latim ex, “fora,” e communicare, “comunicar”), na qual o
ofensor é privado de todos os benefícios da comunhão. Nesse caso, o ofensor é
tido como gentio (a quem não era permitido entrar nos átrios sagrados do templo
do Senhor) e publicano (que eram considerados traidores e apóstatas: Lc
19.2-10). Com estes não há mais comunhão cristã, pois deliberadamente recusam
os princípios da vida cristã (1 Co 5.11). Se o seu pecado é heresia, ou seja, o
desvio doutrinário das verdades fundamentais ensinadas nas Escrituras, eles não
devem nem mesmo ser recebidos em casa (2 Jo 10-11).

É claro que cada um desses passos envolve dor, tempo, amor e transparência.
Nenhum deles é agradável e eles só prosseguem diante de dureza de coração do
ofensor, ou seja, a recusa ao arrependimento. Há porém o conforto de saber que
a presença e o poder de Jesus são reais mesmo no contexto desse processo (Mt
18.19-20). Assim, a disciplina eclesiástica “não é uma atividade a ser
realizada facilmente, mas algo a ser conduzido na presença do Senhor.”(12)

III. Implicações teológicas

Sem a intenção de limitar, mas tão somente de elucidar, oferecemos três tópicos
teológicos que estão vitalmente ligados ao processo da disciplina eclesiástica.

A. Disciplina e a Adoração Cristã

A verdadeira adoração “é a mais nobre atividade de que o homem, pela graça
de Deus, é capaz.”(13) A exclusiva adoração a Deus é um mandato divino (Mt
4.10 e Ap 19.10), é uma marca da fé salvadora (Fp 3.3), e deve seguir os
princípios revelados por Deus em sua Palavra.(14) Um princípio essencial da
adoração cristã é o zelo pela santidade do nome do Senhor (Ex 20.7 e Mt 6.9). A
negligência do povo de Deus quanto aos mandamentos do Senhor motiva os
incrédulos a blasfemar o nome de Deus (Rm 2.24). Assim, o zelo pela santidade
do nome de Deus implica diretamente no exercício da disciplina eclesiástica.
Uma igreja adoradora e ao mesmo tempo tolerante para com o pecado no seu seio é
uma contradição de termos e recebe a repreensão do Senhor (Ap 2.18-29).

B. Disciplina e as Marcas da Igreja

A Reforma Protestante do século XVI considerou importantíssima para a teologia
cristã a seguinte questão: Como distinguir entre a igreja verdadeira e a falsa?
Em outras palavras, quais são as marcas da verdadeira igreja cristã? Para o
reformador João Calvino, tais marcas consistem da proclamação da Palavra, da
administração dos sacramentos e do exercício da disciplina eclesiástica.
Segundo ele, “aqueles que pensam que a igreja pode sobreviver por longo
tempo sem disciplina estão enganados; a menos que pensemos que podemos omitir
um recurso que o Senhor considerou necessário para nós.”(15) Nesse
sentido, “a disciplina eclesiástica é tão necessária quanto os ligamentos
do corpo humano, ou como a disciplina em família.”(16)

Sendo que Cristo deseja sua igreja “sem mácula, nem ruga, nem coisa
semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27), a disciplina
eclesiástica é altamente relevante, pois é um meio instituído por Deus para
manter pura a sua igreja. O servo de Deus sempre deve almejar a pureza da noiva
do Cordeiro (2 Co 11.1-3), mesmo diante da possibilidade da sua contaminação
pelo mundo.

C. Disciplina e Evangelismo

A disciplina evidencia o amor cristão pelo pecador, ainda que esse pecador seja
um dos membros da igreja. Esse amor pelo pecador cristão também reflete o amor
da mesma pelo pecador incrédulo. A disciplina eclesiástica ressalta a seriedade
do pecado. Sem a visão dessa seriedade, a igreja não é corretamente motivada a
buscar a redenção do pecador. Há uma relação entre disciplina eclesiástica e
evangelismo.

Uma igreja sem disciplina torna-se um impecilho para o avanço do evangelho.
Essa relação vital entre evangelismo e disciplina é clara à luz de 1 Co
5.12-13. O evangelismo é dirigido aos que estão fora dos portões da igreja e
que estão escravizados pelo pecado. A disciplina é dirigida àqueles que estão
dentro dos portões da igreja e que estão se sujeitando ao domínio do pecado.
Assim, ambos (evangelismo e disciplina) almejam a liberdade do pecador e a
concretização do triunfo histórico da graça sobre o pecado na vida do mesmo
(Rm. 6.1-23). Uma igreja sem disciplina proclama uma liberdade desconhecida, ou
rejeitada, pelos seus próprios membros. Como diz Barnes, “há pouca
vantagem em uma greja que tenta vencer o mundo se ela já tem se rendido ao
mundo.”(17)

Conclusão

Laney adverte para o fato de que “a disciplina é como um medicamento muito
forte: pode trazer a cura ou causar maior dano.”(18) Nenhum profissional
médico, porém, se recusa a aplicar um medicamento que pode curar o seu paciente
apenas porque o mesmo é forte. Também, nenhum doente faz opção pela morte ou
pela continuidade da doença se a vida e a cura podem estar tão próximas.

Uma séria reflexão bíblica sobre a disciplina eclesiástica evidencia dois
princípios básicos. Primeiro, que a disciplina na igreja não é uma opção, mas
sim uma ordenança e, conseqüentemente, uma bênção divina (Hb 12.5-7). Segundo,
que a disciplina requer profundo amor por parte da igreja que a aplica e
semelhante humildade e quebrantamento por parte daquele que é disciplinado (2
Co 2.5-11).

1 Ver Os Guinness, Dining With the Devil: The
Megachurch Movement Flirts With Modernity (Grand Rapids: Baker, 1993).

2 Ver Guilherme de
Barros, “O Pastor da Esquerda Evangélica,” Vinde (Julho 1997):7-12. Nessa
entrevista, o bispo Robson Cavalcanti teoriza sobre casos em que a poligamia
poderia ser considerada uma atitude mais humana. O presente autor discorda do
bispo e crê que a questão retórica a ser levantada não é se condenar a
poligamia “seria humano,” mas sim se a prática atual da mesma “é
bíblica.”

3 Essa é uma constante referência à obra clássica de Nathaniel Howthorne, The
Scarlet Letter.

4 Josh N.D. McDowell, Tolerating the Intolerable: A
Mandate of Love (Wheaton, Illinois: Josh McDowell Ministry).

5 Richard J. Foster,
Celebração da Disciplina: O Caminho do Crescimento Espiritual, trad. Luiz
Aparecido Caruso (São Paulo: Vida, 1983).

6 Carl J. Laney, “The Biblical Practice of Church
Discipline,” Biblioteca Sacra (Outubro-Dezembro 1986): 353-64.

7 Compton’s Interactive Encyclopedia, 1997 (The Learning Company, Inc. CD).

8 Justo L. González, The Story of Christianity (Nova York: HarperSanFrancisco,
1984), 277-359.

9 Wayne Grudem, Systematic Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1994), 896. Minha tradução. A única exceção a esse
princípio foi “o pecado secreto de Ananias e Safira (At 5.1-11). Nesse
sentido a atuação extraordinária do Espírito Santo resultou em grande temor
entre os membros da igreja.”

10 F. F. Bruce, ed., Vine’s Expository Dictionary of
Old and New Testament Words (Nova Jersey: Fleming H. Revell, 1981), 283-4.

11 R. N. Caswell, “Discipline,” em New Dictionary of Theology, eds.
S. B. Ferguson, D. F. Wright, e J. I. Packer (Downers Grove: InterVarsity,
1988), 200.

12 Grudem, Systematic Theology, 898. Minha tradução.

13 John R. W. Stott, Christ the Controversialist: A Study in Some Essentials of
Evangelical Religion (Londres: Tyndale Press, 1970), 160.
Minha tradução.

14 Confissão de Fé de Westminster, XXI.i.

15 John Calvin, Institutes of the Christian Religion,
ed. John T. McNeill (Filadélfia: Westminster, 1960), 4.7.4.
Minha tradução.

16 Caswell, “Discipline,” 200. Minha tradução.

17 Peter Barnes, “Biblical Church Discipline,” The Banner of Truth
414 (Março 1998): 20. Minha tradução.

18 Laney, “The Biblical Practice of Church Discipline,” 363.

Parte XXV
É
MARAVILHOSO…
“Vede que
grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus; e
nós o somos. Por isso o mundo não nos conhece; porque não conheceu a ele.
Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de
ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele;
porque assim como é, o veremos” (1Jo 3.1,2).

Sou fascinado pela Primeira Carta de João. Ela tem qualidades extraordinárias.
Este é o mesmo João que um dia, ao passarem Jesus e os discípulos por Samaria,
ao perceber a má vontade dos samaritanos em receber o grupo porque era composto
de judeus (pois havia inimizade entre samaritanos e judeus, como, por sinal,
ainda hoje acontece), indaga de Jesus se não seria conveniente pedir um raio
que acabasse com os samaritanos tão sem hospitalidade (cf. Lc 9.51-54). Este
tão intolerante e raivoso João é o mesmo que quase sessenta depois,
amadurecido, experimentado, tem agora um tratamento absolutamente diferente.
Escreve esta carta debaixo de uma ternura tão grande, como atestam suas
palavras do início até o verso final.

É nessa carta que ele diz que “Deus é amor” (4.8); que “temos um advogado para
com o Pai” (2.1); e, ainda, “Eu escrevi, jovens, porque sois fortes, e a
palavra de Deus permanece em vós, e já vencestes o Maligno” (2.14).

Fizemos o destaque dos versículos iniciais do capítulo 3, que passaremos a
comentar. Estes dois versículos nos dão uma grande descoberta: o evangelho de
Jesus Cristo tem uma mensagem de alcance mundial, tão extraordinária que fala
de quando nosso passado foi obliterado, jogado para trás, fala de uma
experiência presente na nossa caminhada em e com Cristo, e fala do futuro, daquilo
que nos aguarda, da gloriosa epifania, da presença de Jesus Cristo, de Sua
manifestação na Segunda Vinda. Algo especial vai acontecer, e isso é
maravilhoso!

É MARAVILHOSO…

“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de
Deus; e nós o somos” (v. 1). É maravilhoso sermos “chamados filhos de Deus”.

Quem são os filhos de Deus? A pergunta tem pertinência porque existe uma
teologia popular que afirma que todos são filhos de Deus. Ouvi nesta semana um
pedaço de conversa no supermercado em que um cidadão dizia para o outro: “…
mas eu também sou filho de Deus…” Talvez fosse, não queremos julgar, mas a
idéia geral e popular é essa.

É popular, mas não é da Bíblia, que ensina que somos criaturas de Deus, ou como
o apóstolo Paulo deixou registrado, “somos feitura sua, criados em Cristo Jesus
para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas” (Ef
2.10). A palavra “feitura” é muito sugestiva na língua em que Paulo escreveu
esta carta; é poeimia, de onde vem nossa palavra “poema”. Somos uma obra de
arte de Deus, mas tão somente criaturas.

Então, se todos somos criaturas, quem é filho de Deus? Há inúmeras referências
na Bíblia Sagrada sobre isso. Gálatas 3, verso 26, não deixa por menos: “Pois
todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.” Já fez uma tremenda
limitação, pois quem não tem fé em Jesus Cristo não é filho de Deus!

Se assim é, que teologia é essa que ensina que todos somos filhos de Deus? Se
alguém não acompanha a Jesus, não o considera com responsabilidade na vida, não
tem um comprometimento sério com Ele pode efetivamente ser chamado “filho de
Deus”? Pela Escritura Sagrada, não. Vamos, então, ao Evangelho de João. É o
mesmo escritor da carta que estamos apreciando. Diz ele: “Veio [Cristo] para o
que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, aos
que crêem no seu nome [aos que têm fé-adesão, compromisso], deu-lhes o poder de
se tornarem filhos de Deus” (Jo 1.11,12).Quem é filho de Deus? Os que têm fé e
crêem em Cristo Jesus.

Diz a Palavra de Deus, ainda, que são filhos de Deus os que andam em
sinceridade. Ser sincero é ter uma face autêntica, ser puro de mãos e limpo de
coração. A palavra sincero vem do teatro greco-romano. O modo de fazer teatro
era diferente do nosso, visto que a postura corporal, o tom da voz, a expressão
facial têm enorme importância no teatro moderno. No teatro romano, usavam-se
máscaras: uma tinha a boca voltada para cima como se estivesse sorrindo, e dava
idéia de alegria, e a outra tinha a boca voltada para baixo como se chorasse, e
denotava tristeza. Para passar alegria, colocava-se no rosto a máscara feita de
cera denotando felicidade; se tristeza, a máscara triste de cera era colocada
no rosto. Quando o ator não estava de máscara, sem a cera no rosto, portanto,
estava com a verdadeira face aparecendo. Uma pessoa “sincera” (sem cera) ´não
está mascarada, mostra quem é. E diz a Bíblia que quem anda na honestidade de
seu coração voltado para a fé em Jesus Cristo, essa pessoa é filha de Deus. E o
propósito do evangelho é patente: “…para que vos torneis irrepreensíveis e
sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa,
entre a qual resplandeceis como luminares no mundo” (Fp 2.15).

Diz a Palavra Santa que é filho de Deus quem é praticante da justiça.
Palavrinha boa… justiça! Ser justo é ser reto no que se faz. Nas artes
gráficas, justificar é colocar tudo reto; o mesmo em informática: pode-se
justificar pelo lado esquerdo, pelo direito ou pelo meio. A Palavra de Deus é
tão clara quando diz, “Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus, por
nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Glória a Deus porque pela fé somos
considerados retos diante de Deus: tudo o que é passado vai para a lixeira da
eternidade, e agora temos uma vida toda nova porque fomos considerados justos
pelo Senhor, palavras Suas. Essa citação encontra outra versão em 1João 3.10:
“Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica
a justiça não é de Deus”. A Bíblia diz, ainda, que são filhos de Deus os que
promovem a paz. “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados
filhos de Deus” (Mt 5.9).

Pacificador não é o não-violento, nem o que foge de conflitos: é o que promove
a paz.

Uma melhor tradução para esta afirmação de Jesus Cristo é “Bem-aventurados os
promotores da paz, porque eles serão chamados filhos de Deus”, ou. A modo
exclamativo, “Como são feliz os artesãos da paz porque Deus os tem como
herdeiros de Sua natureza”. Uma oração atribuída a Francisco de Assis pede
“Senhor, faze de mim um instrumento de Tua paz”. Está dentro do espírito do
evangelho. Filhos de Deus são os guiados pelo Espírito Santo de Deus. “Pois
todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus … O
Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm
8.14, 16); “E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito
de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4.6).

Voltando ao texto básico (“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que
fôssemos chamados filhos de Deus; e nós o somos. Por isso o mundo não nos
conhece; porque não conheceu a ele.

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de
ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele;
porque assim como é, o veremos”, 1Jo 3.1,2), descobrimos que é mais
extraordinária uma declaração que vem a seguir:

É MAIS MARAVILHOSO… O fato de que agora somos filhos de Deus, pois “Amados,
agora somos filhos de Deus…” (1Jo 3.2a). Além de referendar a primeira e já
comentada declaração, acrescenta que “neste momento, neste instante, agora
somos filhos de Deus”! E isto é mais extraordinária porque ninguém precisa
ficar esperando que uma determinada situação aconteça para tentar obter a
filiação divina. Paulo e João nos dizem que a relação fundamental dos salvos
com Deus é filial. Paulo nos dá o aspecto legal. Diz que fomos adotados por
Deus: é a adoção, portanto. Gálatas 4.5 esclarece: “vindo a plenitude dos
tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei, para
resgatar os que estavam debaixo de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”
e “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual … nos
elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis
diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus
Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1.3-5;
cf. Rm 8.15).

João nos apresenta o aspecto natural: fala de geração.. Paulo diz que fomos
adotados, mas João diz que fomos gerados, e isso é mais íntimo. Uma pessoa quis
falar de uma criança que havia adotado. Ao ser indagada pelo interlocutor,
“então, é seu filho de criação?”, respondeu com muita ternura, “Não, é meu filho
do coração…” Que lindo jogo de palavras. Há o filho que nasce do ventre e há
o que nasce do coração. Os apóstolos usam ambas as figuras. A Bíblia diz que
Deus nos gera no coração agora! Precisamos entender, no entanto, na lei romana,
sob a qual Paulo viveu, adoção era considerada como equivalente à verdadeira
filiação. E como a nossa lei é herdeira direta da linha-mestra do Direito
Romano, também no nosso Direito o filho adotado é reputado como filho que
nasceu do ventre daquela mãe. Neste verso, duas das suas idéias centrais se
encontram: o amor e a filiação da parte de Deus. Um amor que tem como fim, como
objetivo que os seres humanos sejam chamados Seus filhos. É como claramente diz
João:

“somos filhos de Deus”, palavras que anunciam o glorioso fato de que
pertencemos à família divina. E isso é simplesmente maravilhoso porque não
acontecerá no futuro, mas já acontece agora. Observe o relato a seguir:
“Disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e procuram
falar contigo. Ele, porém, respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe? e
quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis
aqui minha mãe e meus irmãos. Pois qualquer que fizer a vontade de meu Pai que
está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12.46-50, itálico do autor). E
porque filhos de Deus, Seus interesses se tornam nossos interesses. Filhos da
ira que éramos, tornamo-nos, por adoção, herdeiros da Sua glória. No nascimento
carnal, filhos da desobediência; no segundo nascimento, no espiritual, filhos
de Deus. E esse estado é desfrutado agora, seja a pessoa abençoada rica ou
pobre, letrada ou não. Isso quer significar uma série de privilégios:

? Somos congregados num só corpo: “o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que
Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para
congregar num só corpo os filhos de Deus que estão dispersos” (Jo 11.52).

? Somos herdeiros de Deus: “e, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e
co-herdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que também com
ele sejamos glorificados” (Rm 8.17).

? Recebemos o amor e a disciplina da parte do Pai: “Vede que grande amor nos
tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus” (1Jo 1.3) e “É para
disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual é o filho a
quem o pai não corrija?” (Hb 12.7).

? Somos filhos da ressurreição: “porque já não podem mais morrer; pois são
iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição” (Lc
20.36).

E vivemos na expectativa de um futuro glorioso e radiante, como destaca 1João
3.2, a ser explicado em seguida.

É AINDA MAIS MARAVILHOSO… “… sabemos que, quando ele se manifestar, seremos
semelhantes a ele” (Jo 3.2b). Aqui temos três informações importantíssimas: O
Senhor Jesus ainda se manifestará. Estamos no aguardo do retorno de Cristo,
ansiamos por Sua vinda. Ele virá e nos tomará para Si como nos prometeu em
Mateus 24.30, 31: “aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as
tribos da terra se lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do
céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande clangor
de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de
uma à outra extremidade dos céus”.

Este texto é referendado por “o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado, à
voz do arcanjo, ao som da trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo
ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos seremos arrebatados
juntamente com eles, nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim
estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4.16, 17).

Nós o veremos como é. Não como homem de dores, não na Sua Paixão, isso já ficou
para trás! Vamos vê-Lo gloriosamente retornando como a Bíblia descreve: “Eis
que vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Ap 1.7a), e, repetimos, “Então
aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se
lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e
grande glória” (Mt 24.30). Agora o veremos na Sua glória como Rei dos reis e
Senhor dos senhores! Há uma terceira etapa: isso vai completar nossa semelhança
com Ele. Isso é extraordinário porque “Quando Cristo, que é a nossa vida, se
manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” (Cl 3.4).
Agora, precisamos ter a mente de Cristo como Paulo enfatiza (“nós temos a mente
de Cristo, 1Co 2.16), precisamos imitar a Jesus Cristo agora (“sede pois
imitadores de Deus, como filhos amados”, Ef 5.1). Mas quando Jesus retornar,
vai de tal maneira que não somente teremos a mente de Cristo, mas também o
corpo semelhante ao corpo glorioso de Cristo. A Bíblia é um tanto econômica
sobre esse assunto. Paulo, por exemplo, não soube como dizer como seria este
corpo igual ao corpo glorioso de Cristo. Por isso, colocou uma expressão,
“corpo espiritual”. Como seria este “corpo espiritual”? É só lembrar o episódio
da transfiguração: “tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, irmão deste,
e os conduziu à parte a um alto monte; e foi transfigurado diante deles; o seu
rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz”
(Mt 17.1, 2). Esta visão extraordinariamente gloriosa pode ser uma pista para
entendermos o “corpo espiritual” de que fala Paulo. Implícito em todo o que foi
dito por João e Paulo está a Segunda Vinda, a transformação dos corpos operada
na ressurreição, a reconfiguração dos que estiverem vivos naquela ocasião. E
tudo isso começa com uma coisa: a fé. E não é verdade? Tudo começa com fé. E
essa felicidade de que estamos gozando tem algo tremendamente emblemático: a
própria palavra começa com a sílaba – FÉ -. Diga a Jesus: “Senhor, eu creio no
que Tu falas, creio no que Tu pregas, creio na salvação trazida por Ti! Eu
creio na Tua cruz, creio e quero receber as bênçãos do Calvário!” O pecado é
incompatível com o fato de ser filho de Deus; é incompatível com o propósito da
manifestação de Cristo. Mas o querido leitor não precisa esperar pela Segunda
Vinda de Jesus Cristo para receber a filiação divina: pela fé, agora, segundo o
ensino da Bíblia, você pode se tornar filho de Deus!

Parte XXVI
EVANGELIZAÇÃO
– A AÇÃO DO EVANGELHO
 O mundo
atual no qual vivemos se encontra em um estado terrível pecaminosidade, onde
muitas pessoas a cada dia seguem rumo à morte, sem esperança alguma de
salvação. Porém há um povo sobre a terra que recebeu uma mensagem de vida, de
luz, para ser entregue aos homens. Este povo não pode parar diante das densas
trevas que se levantam.

Este povo é diferente, pois serve a um Deus inigualável, possui uma mensagem
diferente, faz uma oração distinta e tem um poder único, este povo são os
remidos do Senhor Jesus Cristo, comprado pelo sangue, comprados por um alto
preço de sangue. Não fomos tomados emprestados da mão do diabo, fomos
conquistados por Cristo.
Este povo não pode calar, porque se isto fizer-se até mesmo as pedras
clamariam. Não podemos nos deter, com as coisas deste mundo. Temos que avançar,
colocando o reino das trevas em retirada. Levantando bem alto a bandeira do
Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Muito campo ainda falta para ser conquistado, muita terra para ser alcançada,
nada pode nos impedir, Deus nos chamou para destruir as obras do diabo, e
anunciarmos ao mundo que o Rei está voltando.
O Evangelismo é uma arma poderosa se usada de forma correta, para isso vamos
analisar o que a Bíblia nos ensina com respeito a este tema.

Definindo Três Palavras: Evangelho, Evangelização & Evangelismo

Estas três palavras possuem definições fortes e contundentes em nossas vidas,
enquanto uma se torna uma tarefa, a outra é a descoberta da salvação e a outra
é a ação.
Uma delas é voltada para o mundo em pecado a outra é voltada para a Igreja,
ambas dependem uma da outra, e estão nas mãos da Igreja.

EVANGELHO

O termo evangelho vem do grego evanguélion, que significa, literalmente, boas
novas. Quando os anjos anunciaram aos pastores o nascimento de Jesus (Lc
2.10,11) foi empregado o verbo correlato evanguelizo, que tem o significado de
levo ou trago boas novas, naquele exato momento começa-se a cumprir as
promessas de Deus com relação ao Salvador da humanidade.
Evangelho é então o anuncio do cumprimento da providência de Deus para salvação
dos pecadores, que se realizou com a vinda de seu filho ao mundo.

EVANGELIZAÇÃO

A palavra evangelização provém do grego evaggelizo, cujo significado é:
“Anuncio boas novas”. Basicamente, pois, evangelização é levar o
evangelho às pessoas, é a apresentação de Jesus Cristo no poder do Espírito
Santo, de tal maneira que os homens possam confiar nele como Salvador e
servi-lo como Senhor de suas vidas.
Desta forma podemos definir que evangelização é quando levamos as pessoas ao
pleno conhecimento da verdade de Deus em relação ao seu filho Jesus Cristo.
Aqueles, porém que entendem que a evangelização é uma ação que consiste em
levar perdidos a Jesus para serem salvos por Ele, hão de empenhar-se
apaixonadamente na propagação do evangelho.

EVANGELISMO

Evangelismo é a ação cujo objetivo é levar os homens a conhecerem sua condição
de pecadores perdidos e a conhecerem o plano de Deus para sua salvação;
induzi-los à aceitação de Jesus Cristo como Filho de Deus, Salvador e Senhor, e
integrá-los na vida cristã.
Nesta definição vamos encontrar três pontos básicos de apoio que devem ser
verificados, são eles:

1 – Informação: Evangelismo é uma ação que tem por fim informar. Se faz
necessário que o ser humano seja informado de sua condição de pecador e de sua
vida distanciada da presença de Deus, da necessidade de arrepender-se de seus
pecados e ser informado que Deus o ama (Jo 3.16), que entregou seu filho para
salva-lo. Nesta área de informação deve-se utilizar todos os meios de
comunicação possível, desde o rádio até a Internet.

2 – Convencer: Evangelizar também é convencer o homem de seu estado pecaminoso,
além de anunciar ao homem o seu estado é necessário que o evangelista dê lugar
ao Espírito Santo para que este possa usá-lo para convencer o pecador que ele
precisa de salvação.

3 – Integração: Consiste no discipulado, durante o qual o novo crente aprende
as doutrinas bíblicas, cresce em poder e fé e se desenvolve, aplicando-se cada
vez mais ao serviço de Deus. Desta forma a evangelização de uma pessoa não
termina quando ele aceita a Jesus mas está apenas começando.

Depois de examinarmos estas definições, chegamos a conclusão, que evangelizar é
uma tarefa muito importante e difícil, a qual não pode estar nas mãos de
pessoas individualistas que não possuem compromisso com a obra de Deus, é
preciso investir, treinar, capacitar e ter métodos avançados e modernos de
evangelização.

MOTIVOS QUE NOS LEVAM AO EVANGELISMO

Quando lemos a Bíblia Sagrada, vamos encontrar alguns motivos fortes que nos
levam a querer fazer evangelismo, vejamos alguns destes pontos fortes:

1 – O Conhecimento da Vontade de Deus – Quando lemos a Bíblia Sagrada e nela
encontramos que a principal vontade de Deus é que todos cheguem ao pleno
conhecimento da Salvação (I Tm 2.4), nos colocamos em posição de ordem, pois
sendo Deus meu Senhor devo fazer de tudo para que a sua vontade seja cumprida.
Essa vontade revela o amor de Deus para com todos os pecadores e ao mesmo tempo
a grandiosidade da obra que é a evangelização.

2 – A Ordem de Jesus – Nesta ordem de Jesus podemos ver que se faz necessário a
existência de um discipulado obediente, espiritual e dinâmico; implica também,
na organização eficiente da evangelização local e missionária. Na ordem de
Jesus registrada em Marcos 16.15, distinguem-se os seguintes elementos:
a) O Campo de Atividade para a Evangelização – O mundo inteiro;
b) O Alvo a ser Atingindo – O homem;
c) A Tarefa específica a ser cumprida – A pregação do evangelho.

3 – A Revelação das Sagradas Escrituras – Quando lemos na Bíblia Sagrada, como
se encontram as almas sem Cristo ( Rm 3.10-12, 23; 6.23), e começamos a pensar
no sofrimento que há no inferno e que este sofrimento é eterno para aqueles que
não aceitaram a Jesus Cristo e que eles poderão estar lá porque eu não fiz a
minha parte. E nesta mesma revelação vamos encontrar a Bíblia afirmando que uma
só alma vale mais que o mundo inteiro ( Mc 8.36,37). Para podermos evangelizar
as almas precisamos olhar como Jesus olha para elas; como ovelhas sem pastor,
desgarradas e sofrendo, se não tivermos esta visão das almas nunca teremos
coragem de evangelizar.

4 – Compreensão de que Somente o Evangelho pode Salvar – É tolice tentar
encontrar salvação fora do Evangelho (Rm 10.13-17), e os crentes tem este
poder. A grande solução da humanidade não está na política bem feita, ela pode
até ajudar na vida material mas, não servirá de nada no lado espiritual, o
desenvolvimento econômico também não têm capacidade de oferecer salvação, nem a
ciência tem poder para isto, mas o evangelho têm, e este evangelho que está em
nós devemos repartir com aqueles que ainda não conhecem a Salvação que está em
Cristo Jesus.

5 – A Visão da Extensão da Obra – Jesus disse que o nosso campo seria o mundo
(Mc 16.15), haja vista que a cada dia que se passa milhões de pessoas nascem,
muitas em países comunistas, que ainda impõem as cortinas de ferro, e estão
esperando por nós, será que vamos cruzar os braços diante desta grande tarefa ?

6 – Visão da Responsabilidade Pessoal – Quando Deus chamou a Ezequiel, Ele o
colocou como atalaia sobre a casa de Israel, (Ez 3.17) será que é diferente?
Deus tem nos constituído como um atalaia não apenas em Israel mas
principalmente para o mundo. E como podemos escapar desta responsabilidade? Não
podemos, Deus ordenou e temos que cumprir nossa missão.

O EVANGELISMO VISTO NOS QUATRO EVANGELHOS

Dentro dos quatro evangelhos, vamos encontrar um personagem central, voltado
inteiramente para a obra de evangelização das almas, Ele é com toda a certeza o
maior de todos os evangelistas que o mundo já teve.
Vamos ver algumas características que este grande evangelista possuía, e como
ele organizou uma campanha de evangelismo bem preparada e equipada.

JESUS O PRIMEIRO EVANGELISTA

1 – Características Pessoais

a) Esforçado – Jesus era esforçado na obra que realizava, a Bíblia relata que
dois dos discípulos de João Batista o seguiam, desejosos de saber onde o mestre
morava, Jesus os convidou a acompanhá-lo e permaneceu com eles quase todo
aquele dia, ensinado-lhes a palavra de Deus, eles queriam apenas conhecer aonde
o Mestre morava porém Jesus aproveitou a oportunidade para convence-los de que
Ele era o Messias esperado por Israel.
b) Paciência e Determinação – Neste mesmo episódio revela duas outras
características de Jesus a Paciência e Determinação, Ele não tinha pressa em
evangelizar, ele podia apenas ter mostrado onde morava e pronto, mas ele viu a
oportunidade de ensinar mais a respeito dEle e da sua missão.
c) Compaixão – Em Mateus 14.14, vamos encontrar quando a Bíblia afirma que
Jesus por compaixão as almas que ali estavam as curou de suas enfermidades, e
nós quantas vezes passamos perto de pessoas que precisam de uma palavra e nada
fazemos.
d) Espírito de Sacrifício – Jesus durante toda a sua vida, viveu uma vida de
sacrifícios, pois ele mesmo declarou (Mt 20.28). Foi justamente isso que ele
fez durante seu ministério terreno, passava noites inteiras orando, passava
horas e mais horas curando os enfermos, percorria vilas e cidades pregando a
palavra de Deus e jamais despediu uma pessoa sem lhe ajudar, este exemplo é que
nós devemos seguir.
e) Preciso – Jesus não gastava tempo com filosofias humanas e especulações Ele
ia direto ao ponto sem perda de tempo. ( Lc 5.21-24). Jesus não permitia que
qualquer debate que Ele tivesse, tomasse outro rumo a não ser o reino de Deus
(Jo 3.1-21; Jo 4.1-30), infelizmente quando muitos vão evangelizar se deixam
levar com conversas que os desviam totalmente do objetivo.
f) Espírito Compreensivo e Perdoador – Jesus compreendia as fraquezas humanas,
e ao invés de ser um juiz implacável, Ele perdoava aos que se arrependiam,
podemos ver isso claramente na mulher adúltera (João 8.1-11). O evangelista
precisa aprender com o Mestre a combater o pecado, procurando, contudo, salvar
o pecador, a considerar o pecador como um enfermo, que precisa de cuidados e
não de açoites.
g) Dinamismo – Jesus era dinâmico não parava um momento a não ser o necessário
para descansar e repor as energias perdidas das caminhadas, precisamos aprender
com Ele.

MÉTODOS DE EVANGELIZAÇÃO UTILIZADOS POR JESUS CRISTO

Jesus empregou, na evangelização, dois métodos: Ensino Pessoal (Zaqueu, A
Mulher Samaritana, Nicodemos) e Proclamação às Massas. Os métodos de
evangelismo são imutáveis. As técnicas, estas sim, podem evoluir, serem
substituídas, modificadas para se adaptar-se as necessidades.
Atualmente contamos com grande variedade de recursos técnicos, que ajudam a
divulgação do evangelho; ampliação sonora, projeção luminosa, gravação em
discos, CDs, rádio, televisão, Internet e etc. Contudo seja qual for o recurso
empregado como auxiliar na evangelização, forçosamente teremos de usar um dos
dois métodos de Jesus – ou ensinar individualmente ou Proclamar às Massas.
A Obra de evangelização necessita de grandes e poderosos pregadores para as
massas e de inumerável quantidade de pessoas treinadas para o ensino
individual.

A ORGANIZAÇÃO DA CAMPANHA DE EVANGELIZAÇÃO POR JESUS CRISTO

Jesus não podia deixar a evangelização do mundo confiada à iniciativa pessoal e
espontânea, resultante das emoções, por isso organizou o movimento de
evangelização. A evangelização deve ser um movimento racionalmente organizado,
para tal Jesus a organizou da seguinte maneira:

1. Chamada – O primeiro passo na organização do evangelismo foi chamar
discípulos (Mc 1.16-20; 2.13-17);
2. Instrução – Tendo escolhido os apóstolos, Jesus passou a instruí-los para o
desempenho da missão que lhe daria;
3. Treinamento – Além de instruir, Jesus proporcionou um treinamento eficaz,
organizando campanhas de evangelização (Mc 6.6-13; Lc 10.1-29);
4. Definição da Tarefa – Podemos notar que me ambas as tarefas Jesus
especificou o local exato para que pudessem desenvolver o trabalho.

Cristo ofereceu-nos o perfeito exemplo de evangelista, cumpre-nos imitá-lo, se
quisermos ser testemunhas eficientes, Ele deu ênfase à evangelização pessoal,
porém não descartou a evangelização em massa, é necessário que hoje haja um
despertamento entre os crentes para ganhara almas para o reino de Jesus Cristo.

CARACTERÍSTICAS DO EVANGELISMO REGISTRADO NO LIVRO DE ATOS

Se quisermos melhorar nossas atividades evangelizadora teremos que analisar os
métodos utilizados pela Igreja Primitiva, e buscarmos colocá-los em prática
hoje. Eles sem os meios necessários para evangelizar conseguiram levar a
mensagem da salvação em todo o mundo habitado de sua época.

1. O Evangelismo Primitivo era Intenso – Os discípulos testemunhavam todos os
dias, não cessando de anunciar a Jesus Cristo (At 2.46,47; 5.42). Se estivermos
todos empenhados em falar de Cristo todos os dias; se estivermos determinados a
abrir novas frentes e organizarmos novas igrejas, os resultados de nosso
trabalho serão multiplicados.
2. O Evangelismo Primitivo era Dinâmico – Os discípulos não esperavam que os
pecadores lhe viessem ao encontro, pelo contrário, saíam a procura deles,
percorrendo ruas, vilas e cidades, ensinando e proclamando incessantemente o
evangelho.
3. O Evangelismo Primitivo dava Ênfase ao Ensino – A Evangelização atual com a
tendência de supervalorização das concentrações, em detrimento da evangelização
pessoal, restando ao ensino quase exclusivamente o campo da educação religiosa
para os já crentes. O ensino tendo por objetivo a evangelização pode facilmente
ser usado pelas igrejas, organizando classes especiais para interessados e
visitantes.
4. O Evangelismo Primitivo era Ousado – Homens iletrados enfrentam sábios;
pobres e humildes desafiaram ricos e poderosos, testemunhando de Cristo, mesmo
quando a sombra das mais terríveis ameaças.
5. O Evangelismo Primitivo era culto – Assim como Deus usou a Pedro e outros
incultos para darem testemunho da Palavra de Deus, também se utilizou de homens
como Lucas, Mateus, Paulo e tantos outros, homens formados, que diante da alta
sociedade dava grande testemunho e defesa a causa do Mestre.
6. O Evangelismo Primitivo era Impulsionado e Dirigido pelo Espírito Santo – Os
primitivos discípulos viviam cheios do Espírito Santo, de alegria e gozo
espiritual. Isso explica todas as demais características da evangelização
daqueles dias. (At 4.8,31; 5.17-41; 7.55).
Se colocarmos em prática estes métodos utilizado pela Igreja Primitiva, iremos
logra êxito, na evangelização do mundo no qual vivemos.

A PESSOA DO EVANGELISTA

A responsabilidade de evangelizar não é somente dos ministros. É de todos os
discípulos, há todavia, crentes que se limitam a cooperar com a obra de
evangelização freqüentando os cultos contribuindo, pensando que desta forma
estão fazendo o suficiente, porém se esquecem que a ordem de ganhar as almas
foi para todos e é infinita até a volta de Jesus Cristo, até os confins da
terra.

Como Deve ser a Pessoa do Evangelista ?

1. O Evangelista Deve ser um Verdadeiro Crente, Salvo por Jesus – Esse
requisito é óbvio, mas é necessário lembrá-lo. Infelizmente existe a
possibilidade de pessoas tentarem evangelizar sem que, elas próprias tenham
experiência de regeneração;
2. O Evangelista Deve ser Afável e cheio de simpatia – O evangelista deve
lembrar-se de que está tratando com enfermos, quando evangeliza, o pecado é
enfermidade. Existem evangelistas que ao invés de tratar os pecadores com amor
e carinhos os tratam com pedradas e desrespeito, desta forma ao invés de ganharem
perdem.

O Que o Evangelista Deve Saber ?

1. O evangelista Deve Conhecer a Bíblia – É necessário que o evangelista possa
ajudar o pecador a examinar a Palavra de Deus de modo a compreender o plano da
Salvação, é preciso portanto, que os crentes que desejam, ganhar almas para
Cristo estudem sistemática, metódica e perseverantemente a Bíblia.

2. O Evangelista Deve Conhecer a Vida dos Homens e suas Desculpas – via de
regra, as pessoas que o crente procura evangelizar tenta escapar à
responsabilidade de enfrentar o problema do pecado com desculpas, o evangelista
não deve ser apanhado de surpresas por essas desculpadas, é preciso saber
rebater cada uma delas com a Palavra de Deus.

3. O evangelista Deve Conhecer as Diversas Religiões – O evangelista precisa estar
preparado não só para enfrentar as desculpas, mas também os contra-ataques dos
que têm convicções em falsas religiões.

O Que o Evangelista Deve Cultivar ?

1. O Evangelista Deve Cultivar a Oração Fervorosa – A Evangelização é um
combate espiritual contra as hostes das trevas, cuja vitória depende do poder
do Espírito Santo. E a oração, é o meio pelo qual Deus outorga esse poder, não
há evangelista bem sucedido que não seja dedicado à oração.

2. O evangelista Deve Cultivar a Leitura – O Evangelista deve estar sempre
procurando aumentar seus conhecimentos pela leitura.

3. O Evangelista Deve Cultivar o Desejo de ver as Almas Salvas – O objetivo da
evangelização é ganhar almas para Cristo, enquanto o evangelista não estiver
dominado pelo desejo de conquistar almas, não poderá ser bem sucedido.

4. O Evangelista Deve Cultivar o Hábito de ir à Casa de Deus – Quem não ama a
sua Igreja, não dá valor aos cultos e não tem prazer em tomar parte em suas
reuniões jamais estará em condições de ganhar almas, estes são apenas alguns
deveres dos evangelistas.

O Que o Evangelista não Deve Fazer ?

1. O Evangelista Nunca Deve dar ênfase a Igreja e sim à Jesus – Entre o diálogo
travado entre Jesus e a mulher Samaritana, vemos um exemplo claro de que a
ênfase do ganhador de almas deve ser dada ao Senhor Jesus e nunca a Igreja, ou
a uma religião, ou a um lugar (Jo 4.20-29; At 4.12).

2. Nunca Discutir – E ao servo do Senhor não convém contender (II Tm 2.24,25).
Existem muitas outras atitudes que não são corretas à um evangelistas porém se
ele tem êxito nestes dois pontos estará realizando um bom trabalho.

TRAÇANDO UMA ESTRAGÉGIA DE EVANGELISMO

Todo trabalho para se obter êxito se faz necessário que se tenha uma estratégia
de ação. Este tipo de assunto é bastante utilizado pelas grandes empresas que
desenvolvem seus planos de trabalho anual ou mensal.

Para que Ter uma estratégia ? Será que isto é bom ? Traçar ou ter uma
estratégia nada mais é que realizar o que Jesus realizou , Ele tinha um alvo a
alcançar e para chegar a este alvo Ele usou de estratégias de trabalho., Ele
próprio nos ensinou a traçar nossos objetivos para se analisar se os recursos
são suficientes. (Lc 14.28-33).

A estratégia não anula a direção que recebemos do Espírito Santo, a estratégia
apenas põe em prática a ordem que dEle recebemos.
O Apostolo Paulo utilizou de estratégia para ganhar almas para o reino de
Cristo, ele mesmo escrevendo disse que quando estava evangelizando os judeus
guardava a lei judaica, mas relaxava quando este evangelizava os gentios que
não estavam debaixo da lei (I Co 9.22; I Co 9.19).

Ter uma estratégia de trabalho não é coisa da invenção do homem, Ter uma
estratégia é até mesmo recomendada pela Bíblia, vejamos o que diz:

Pv 16.9 “Devemos fazer nossos planos, confiando na direção que Deus nos
dá”
Pv 18.15 “O homem inteligente sempre está pronto para considerar novas
idéias.”

Desta forma notamos que a estratégia tem respaldo Bíblico, basta apenas que nós
venhamos a aceitar e pratica-la.

VANTAGENS EM SE TER UMA ESTRATÉGIA

Se aceitarmos o padrão Bíblico iremos descobrir que existe uma série de
vantagens em se traçar uma estratégia de trabalho:

1. Aumenta a nosso eficiência – em qualquer coisa que fazemos é necessário
gastar tempo, energia e dinheiro. A estratégia não apenas no ajuda a decidir o
que fazer, mas também nos ajuda a decidir o que não fazer, e isto é igualmente
importante. Um grande número de recursos dados por Deus são desperdiçados
porque líderes cristãos estão concentrando-se nas coisas menos importantes.

2. Ajuda a medir a eficácia – Uma tarefa é eficaz quando ela atinge seus
objetivos. O planejamento estratégico requer que os alvos sejam expressos de
forma clara, isto nos capacita a medir o progresso e saber quando o que foi
projetado a fazer não esta ocorrendo bem.

3. Permite Correção no meio do Caminho – Se uma estratégia bem planejada irá
prever diversos pontos de averiguação onde nós verificamos a metodologia que
estamos usando, se o que estamos fazendo não está funcionando bem, quando mais
cedo nós descobrimos melhor.

4. Une a Equipe – Muito freqüentemente as estratégia para evangelismo e missão
envolve a participação de mais de uma pessoa, se faz necessário a criação de
uma equipe, quando a estratégia é adequadamente planejada, cada membro desta
equipe entenderá a contribuição que se espera dele, cada membro do grupo saberá
sua tarefa e desta forma poderão cumprir com os objetivos de todo o grupo.

5. Permiti uma responsabilidade natural – Muito do que é feito para a obra de
Deus é voluntário, quando as pessoas não estão sendo pagas pelo que estão
fazendo corrigi-las não é fácil, uma estratégia claramente preparada evita
estas dificuldades porque a estratégia é como um contrato que une as pessoas
que estarão realizando tal trabalho.
6. Ajuda Outros – Embora as estratégias sempre precisem ser adaptadas a cada
situação, quando uma certa estratégia é bem sucedida, ela se torna um modelo,
outros que desejem realizar tarefas iguais, podem aprender muito de uma boa
estratégia e orientar-se por ela.

Desta forma notamos a importância em se Ter uma estratégia de trabalho bem
elaborada e definida, esperamos em Deus, que os queridos irmãos possam usar
este método para melhorar o seu desempenho em ganhar almas para o reino de
Deus.

CRUZADA EVANGELÍSTICA

A importância da Oração.

Para êxito real numa campanha evangelística, a oração intercessória deve
começar meses antes. Grupos de oração, vigílias, jejuns e muita oração, e sem
dúvida os resultados aparecerão.
Planejamento e Finanças
Planejar local, pregador, cantor, hospedagem para pregador e equipe, som,
iluminação, devem ser providenciados com muita antecedência. Além do mais, há
necessidade de uma comissão de finanças para cuidar dos custos e dos gastos da
Cruzada.

Publicidade

Os planos de publicidade de uma Cruzada devem ser feitos com muitos meses de
antecedência.

Música

A Música tem papel muito importante numa Cruzada. Meses de ensaio para bandas,
conjuntos, orquestras e corais, para que se apresentem muito bem.

Literatura e Treinamento de Pessoal

A comissão de literatura é de grande utilidade. O diretor desta comissão, em
consulta com o Pastor, deve cuidar da literatura a ser distribuída antes,
durante, e depois da Cruzada. O treinamento de cooperadores para trabalhar na
Cruzada é de máxima importância. Conselheiros e acomodadores, para ajudar na
manutenção de ordem e cuidar dos novos-convertidos, precisam de treinamento
especial para que cumpram bem suas responsabilidades.

Começada a Cruzada a Campanha de Oração não pode parar as reuniões de oração
devem prosseguir pela manhã, nos templos.

A Publicidade chega ao seu auge durante a Cruzada

Entrevistas ao vivo pela rádio e televisão despertam a atenção da população
para a Cruzada. Um testemunho notável de cura ou conversão pode ser publicado
no jornal local. Visita de casa em casa deixando um convite impresso para cada
família, um telefonema convidando a redondeza, etc.

A Pregação

A pregação deve consistir da mensagem direta e simples da salvação de modo que
o pecador possa entendê-la.

O Apelo

Durante o apelo, os obreiros da plataforma devem estar em seus postos. Muitos
pecadores vão à frente sem um crente se oferecer para acompanhá-los até ao
altar. Por outro lado, esses obreiros da plataforma não devem ser
demasiadamente insistentes e indelicados.

O Trabalho após a Cruzada não pára

É aí que precisa entrar em ação uma campanha intensa de visitação e os cuidados
necessários para com os novos decididos. Se não houver este acompanhamento todo
o trabalho será em vão mesmo que tenha havido uma boa pescaria.

CONCLUSÃO

Todo o evangelho a todo o mundo nesta geração! Isto demanda a mobilização e
treinamento de toda a Igreja; exige oração e submissão ao Espírito Santo.
Depois ele fará, por nosso intermédio, o que jamais poderíamos fazer sozinhos.
Evangelizar o mundo em nossa geração: cada geração de cristão tem esta dívida
para com seu próprio tempo. Podemos consegui-lo se permitirmos que Deus opere
por nosso intermédio em um ciclo perpétuo de evangelização.

“Tua Incumbência Única Sobre a Terra é Ganhar Almas.”

Referências Bibliográficas
1. BÍCEGO, Valdir Nunes – Manual de Evangelismo, Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembléias de Deus, 1999.
2. LIMA, Delcyr de Souza – Doutrina e Prática da Evangelização, Rio de Janeiro.
3. WAGNER, Peter – Estratégias Para o Crescimento da Igreja, Editora Sepal,
Julho/1995 – São Paulo/SP
4. ELISANGELA, IDACI – Dinamismo no Evangelismo Atual – Semadeal
-Fevereiro/2001 – Maceió/AL

Parte XXVII
IGREJA:
RETOMADA DO PROJETO DE DEUS
Neste texto,
penso que Paulo, além de descrever o processo da formação da Igreja, fala do
projeto que Jesus retoma para a Trindade.

(EFÉSIOS Cap: 2)

[11] Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados
incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos
humanas,

O apóstolo começa a conversa lembrando aos efésios o seu passado espiritual:
eram incircuncisos, isto é, não tinham pacto com Deus.
Paulo falava do pacto celebrado entre Deus e Abraão: (GÊNESIS Cap: 17)
[1] Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o SENHOR
e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito.

[2] Farei uma aliança entre mim e ti e te multiplicarei extraordinariamente.
[3] Prostrou-se Abrão, rosto em terra, e Deus lhe falou:
[4] Quanto a mim, será contigo a minha aliança; serás pai de numerosas nações.
[5] Abrão já não será o teu nome, e sim Abraão; porque por pai de numerosas
nações te constituí.
[6] Far-te-ei fecundo extraordinariamente, de ti farei nações, e reis procederão
de ti.
[7] Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no
decurso das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua
descendência.
[8] Dar-te-ei e à tua descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra
de Canaã, em possessão perpétua, e serei o seu Deus.
[9] Disse mais Deus a Abraão: Guardarás a minha aliança, tu e a tua
descendência no decurso das suas gerações.
[10] Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós e a tua
descendência: todo macho entre vós será circuncidado.
[11] Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança
entre mim e vós.
[12] O que tem oito dias será circuncidado entre vós, todo macho nas vossas
gerações, tanto o escravo nascido em casa como o comprado a qualquer
estrangeiro, que não for da tua estirpe.
[13] Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu
dinheiro; a minha aliança estará na vossa carne e será aliança perpétua.
[14] O incircunciso, que não for circuncidado na carne do prepúcio, essa vida
será eliminada do seu povo; quebrou a minha aliança.

A circuncisão é anterior à lei, é a marca que denota que o homem em questão, o
que, no caso, incluia sua descendência, é um dos escolhidos de Deus, que entre
eles há um pacto. Deus é dele e ele é de Deus (v 7).

Entretanto, Paulo, adverte que essa circuncisão, de que tanto os circuncisos se
orgulham, a ponto de estigmatizar os que não o são, é feita por mãos humanas. A
impressão é a de que o apóstolo chama atenção para um elo fraco da corrente: é
feito por homens, logo é externa e imperfeita.

Contudo, é aliança.

[12] naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e
estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.

Algum efésio poderia perguntar: “e daí que eu não sou circuncidado, que
não faço parte desse pacto?” Esta é a resposta de Paulo: estar fora do
pacto é estar sem saída existencial. Literalmente perdido. Não adiantava o
efésio tentar seguir a lei moral, ele não passara pela circuncisão (que era uma
ordenança); não pertencia ao povo para quem valia a pena cumprir a lei, por
causa do pacto que havia celebrado com Deus. Não bastava converter-se ao Deus
dos judeus, era necessário tornar-se judeu.

[13] Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes
aproximados pelo sangue de Cristo.

O sangue de Jesus quebrou a lógica angustiante da circuncisão; aproximou os
efésios e todos os não judeus que crerem em Jesus, de Deus e de suas promessas.
Isto quer dizer que já não estamos mais separados da comunidade de Israel, uma
vez que fomos aproximados ao mesmo Deus e às mesmas possibilidades.

[14] Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a
parede da separação que estava no meio, a inimizade,

E mais: em relação a Deus não há mais privilegiados, somos um povo só. A
inimizade, constituída pelos privilégios de um frente ao infortúnio do outro,
foi derrubada. Estamos nas mesmas condições, há paz.

[15] aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para
que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz,

Por isso o sangue de Jesus nos aproximou: ao morrer sem pecado, Jesus, o
representante da raça humana, satisfez a justiça divina, isto é, pagou pelo
nosso crime; tornando-se, portanto, única porta de entrada para o pacto com
Deus. Quem entra por essa porta recebe a verdadeira circuncisão, que o torna,
de fato, membro do povo de Deus: CL 2:11 – Nele, também fostes circuncidados,
não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a
circuncisão de Cristo

Além do mais, muitas das ordenanças tipificavam o próprio Cristo: CL 2:16,17 –
Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua
nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de
vir; porém o corpo é de Cristo.

A sombra que esses vestíbulos (as ordenanças) para o pacto eram, foi projetada
a partir do corpo de Cristo, com a chegada de Jesus fomos libertos da caverna
(Platão dizia que estávamos todos presos numa caverna, de costas para a
entrada, só víamos as sombras do mundo real, o mundo das idéias).

Jesus fez isto com um objetivo: criar um novo homem. Segundo Francis Foulkes
(Efésios: introdução e comentário; série cultura cristã – Eds. Mundo Cristão e
Vida Nova) a idéia presente aqui é a de, dos dois, criar uma coisa única –
muito mais profunda que a idéia de um único povo.
É um conceito de unidade absoluta.

Penso que isso nos remete à questão do significado desse novo homem. Parece
claro que não se trata de fazer de todos os cristãos uma única pessoa, pois,
nem Deus é uma pessoa só. Também, não se reduz ao fato de cada seguidor de
Cristo ser uma nova criatura, como deixou claro a colocação de Francis Foulkes.

William Barclay, citado por Foulkes, diz que é um novo tipo de criação. Não
seria, entretanto, uma retomada da criação?

Voltemos ao início.

GN 1:26, 27- Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança; (…) Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de
Deus o criou;

Esse texto marca uma mudança de ritmo e de forma na criação: até então Deus
falava e tudo vinha à existência, na criação do homem temos, antecedendo-a, uma
declaração de intenção e uma descrição.
Façamos o homem…

A teologia cristã entende que essa afirmação nos apresenta a Trindade, doutrina
que afirma haver um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, como
declara G. W. Bromiley1

Gosto de pensar nesse texto como uma declaração de intenção, é como se fosse o
resultado de uma conferência entre as três Pessoas.

Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;

Eis a descrição do projeto: o homem seria à imagem e semelhança de Deus, a
Trindade.

O que significaria isto?

Segundo Derek Kidner2, para alguns teólogos “imagem é a indelével
constituição do homem como ser racional e como ser moralmente responsável, e a
semelhança é aquela harmonia com a vontade de Deus, perdida com a queda”.
Ele, porém, diz que não há, no original, a partícula aditiva “e”, de
modo que os termos se reforçam (a palavra, então, seria imagem-semelhança). A
imagem seria “expressão ou transcrição do Criador eterno e incorpóreo em
termos de uma existência temporal, corpórea e própria de uma criatura – como se
poderia tentar a transcrição, digamos, de um poema épico numa escultura, ou de
uma sinfonia num soneto.” O que, segundo Kidner , perdemos dessa
imagem-semelhança, na queda, foi o amor, que recuperaremos quando for retomada
nossa plena comunhão com o Senhor.

Algo, entretanto, penso que precisa ser considerado: se ser moralmente
responsável e racional é ser imagem de Deus, então os anjos também não o
seriam?

Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram (2 Pe 2:4)

Como os anjos poderiam pecar se não fossem moralmente livres; uma vez que pecar
(pelo menos no ato primeiro) exige capacidade de escolha?

…reservando-os para juízo; (2 Pe 2:4)

Como qualquer ser pode ser julgado, se não for moralmente responsável?

Além do que, parece não haver dúvidas de que os anjos, também, são racionais,
senão estariam impossibilitados de comunicar-se e de arrazoar conosco, como
fizeram, por exemplo, com Ló (Gn 19:10-22).

Se ser imagem-semelhança é ser transcrição do eterno em termos de existência
temporais, os anjos, também, estão incluídos, pois, são criaturas e estão no
tempo, pois, tiveram começo, ainda que o tempo, talvez, não lhes faça
diferença. E, em ambos os casos, os anjos fiéis não perderam nada de sua
criação original.

Entretanto, somente do homem é dito que foi criado à imagem e semelhança de
Deus.

Gosto de pensar que esta imagem-semelhança inclui, além do já citado, algo que
só é comum a Deus e a nós: a unidade.

“A última palavra hebraica da Shema (Dt 6.4,5) é echad, um substantivo
coletivo, em outras palavras, um substantivo que demonstra unidade, ao mesmo
tempo que se trata de uma unidade que contém várias entidades. Poderíamos citar
um bom número de exemplos.(…) Em Nm 13.23 os espias pararam em Escol, onde
‘cortaram um ramo de vide com um cacho de uvas’. A palavra que aqui aparece com
‘um’, em ‘um cacho’, novamente é echad, no hebraico. Mas, como é evidente, esse
único cacho de uvas consistia em muitas uvas.”
Stanley Rosenthal3

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus os criou; macho e fêmea os
criou. Gn 1.27 (RC).

Seriam, realmente, duas criações?

Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o
fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. (Gn 2:7)
Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu;
tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o
SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. (Gn
2:21,22)

Macho e fêmea parecem ser uma criação só, pois, o barro e o sopro (que dá vida
ao ser humano) só aparecem uma vez. O segundo ser não é uma segunda criação, é
uma duplicação. Sendo que, no segundo ser, Deus fez desabrochar características
que não fizera desabrochar no primeiro.

Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à
semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou
pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. (Gn 5:1,2)

Duas pessoas, um só nome. De fato, a mulher só ganhou o nome de Eva depois da
queda: E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os
seres humanos (Gn 3:20). E por que? Penso que só após a queda o macho teve
autoridade para tal: e à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos
da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o
teu marido, e ele te governará (Gn 3:16). Se Deus condenou a mulher a essa
condição subserviente ao homem como consequência da queda, é de se supor que
antes não era assim, isto é, a relação entre ambos não era de autoridade; era,
quero crer, de unidade.

O homem à imagem e semelhança de Deus, sugiro, é um ser coletivo. Quando Deus
chamava: Adão! Macho e fêmea se voltavam para falar com Ele.
“Em Gn 2.24, Deus (…) instruiu marido e mulher a tornarem-se ‘os dois
uma só carne’, indicando que aquelas duas pessoas unir-se iam, formando
perfeita e harmônica unidade. Em tal caso, novamente a palavra hebraica é
echad.”
Stanley Rosenthal4

Se Deus é uma família, que criatura poderia expressar sua imagem-semelhança
senão se constituísse, também, numa família?

Se Deus é uma unidade-comunhão como uma criatura que não se constituísse noutra
unidade-comunhão poderia ser chamado de sua imagem-semelhança?

Me parece que o projeto divino passava estritamente pela unidade: criou um
casal apenas, logo, uma só família; criou-os tendo a si como modelo: o que
caracteriza a trindade é o amor, vínculo da perfeição, isto é, que une
perfeitamente; logo, criou-os para, a exemplo da trindade, amarem-se com esse
amor que unifica. Criou-os para viverem em unidade. Criou-os como unidade. Se
não tivéssemos caído, seríamos bilhões, talvez, entretanto, à semelhança da
trindade, nos amaríamos tanto que, apesar de muitos, seríamos um só homem: o
homem à imagem e semelhança de Deus.

O homem à imagem e semelhança de Deus é unitário-coletivo.

A queda foi marcada pela quebra de unidade entre o homem e Deus; entre o macho
e a fêmea.

Ainda que a graça comum tenha nos mantido em condições de experimentarmos, de
modo extremamente rarefeito, a unidade; o que perdemos é inapreensível para
nós.

para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz,

Esse, penso eu, é o projeto de Jesus, a retomada do homem à imagem e semelhança
de Deus; o homem-comunhão que, guardadas as devidas proporções, expressa o que
a Trindade é.

Não seria uma nova criação, pois, para admitir isso teríamos de considerar que
a primeira continha uma falha. Creio, de fato, tratar-se da retomada do projeto
do Gênesis; como disse Jesus: LC 19:10 – Porque o Filho do Homem veio buscar e
salvar o que se havia perdido. (ed. revista e corrigida)

Segundo vejo, a Igreja é, por definição, este novo homem. Por esse novo homem
Jesus se sacrificou.
Se esse é o destino da Igreja, este deve ser o moto de seu dia a dia.

[16] e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz,
destruindo por ela a inimizade.

Esse novo homem é mais que comunhão, é um organismo vivo (tem funcionalidade).
O papel da Igreja, enquanto corpo, é fornecer a possibilidade da expressão (como
o corpo humano é em relação a alma) e exprimir por meio da ação (corpo inerte
não exprime). Tem de ser saudável, de estar em forma.

[17] E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos
que estavam perto;

A paz é o princípio da unidade: paz com Deus; paz consigo mesmo; paz com o
próximo. Interessante pensar que evangelizar é chamar à paz. Uma outra forma,
portanto, de definir pecado é estado de guerra consigo mesmo, e/ou com Deus,
e/ou com o próximo, e/ou com a natureza.

Não seria essa a melhor forma de diagnosticar o que está acontecendo na
sociedade? Não estariam todos os relacionamentos marcados por alguma forma de
violência?

Paz ,penso, entre outras coisas, é uma aceitação geral: aceitamos as demandas
de Deus; aceitamos o que somos e as mudanças que precisamos sofrer; aceitamos o
próximo; aceitamos a natureza.

Gosto da idéia de que aceitar é admitir e compartilhar espaços.

Sem paz, isto é, sem que nos aceitemos mutuamente, o novo homem não pode ser
vivido.

[18] porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito.

Todo mundo pode ir ao Pai, Jesus Cristo é a estrada e o Espírito Santo é o
ônibus que nos leva. Todos estamos dentro desse ônibus (fomos batizados,
mergulhados nele – 1Co 12.13). Certamente é por isso que cada um de nós chega à
presença do Pai e tem de dizer: “Pai nosso”. A gente está na presença
do Pai, mas, não está sozinho, todos os irmãos foram junto.

É o novo homem que vai à presença do Pai.

[19] Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos,
e sois da família de Deus,

Somos da mesma nação; estamos no mesmo lugar, um lugar de todos nós; temos o
mesmo nome e o mesmo pai. Somos irmãos.

[20] edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo,
Cristo Jesus, a pedra angular;

Cremos na mesma coisa (senão, não estaríamos na Igreja) apesar de insistirmos
nas diferenças. Estamos, enquanto pedras vivas (1 Pe 2.5), assentados sobre o
mesmo alicerce.

[21] no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao
Senhor,

Propósito 1: serrnos o lugar onde Deus é adorado perfeitamente (1PE 2:5 –
também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para
serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais
agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.)

A Igreja, para ser santuário, tem de crescer em Cristo, para crescer em Cristo
tem ter unidade (bem ajustado – formando uma parede só), Jesus é o alicerce e o
construtor que ajusta cada pedra e material: (EF 3:18,19 – a fim de poderdes
compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a
altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo
entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.)

É na realidade do novo homem que Deus é adorado como quer e deve ser.

[22] no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de
Deus no Espírito.

Em Jesus estamos sendo tornados um, para que Deus possa ter sua morada; apesar
da boa vontade de Davi e de Salomão, um Deus vivo tem de morar numa casa viva.

Edificar é tornar um (vários materiais, uma só casa).

Deus nos criou como unidade para que o expressássemos. Perdemos isso, ainda que
a graça comum o tenha mantido em parte.

Jesus Cristo retoma o projeto do gênesis: cria o novo homem.

O novo homem retoma o seu destino: (AP 21:3 – Então, ouvi grande voz vinda do
trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com
eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles.) ser a morada de
Deus – a Trindade.

Penso que esse é o desafio dado a cada igreja local: alcançar essa unidade.

Isso implica em que o primeiro projeto para a igreja local deveria ser um
projeto de comunhão e, consequentemente, de pastoreio.

1 in artigo Trindade, in Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã –
v.3 – W..A. Elwell – editor – ed. Vida Nova
2 Gênesis – introdução e comentário – série cultura bíblica – Derek Kidner –
eds Mundo Cristão/Vida Nova
3 A Tri-unidade de Deus Velho Testamento – Stanley Rosentahl – Fiel
4 A Tri-unidade de Deus no Velho Testamento – Stanley Rosenthal – Fiel

Parte XXVIII
MÁRTIRES
CRISTÃOS
De acordo com o
Dicionário Aurélio, Mártir é: “Pessoa que sofreu tormentos, torturas ou a
morte por sustentar a fé Cristã”, no passado da Igreja, logo em seu
primeiro século, muitos foram aqueles que morreram em favor do evangelho, o
mesmo evangelho que hoje em dia nós temos a liberdade de defender.

Muitos foram os Mártires Cristãos, mas fizemos uma coletânia dos mais famosos e
armazenamos a maior quantidade de informações possíveis neste estudo.

Nem todos os mártires do cristianismo viveram junto com Cristo, os que isso
fizeram eram os apóstolos; também fizemos um breve esquema para que se tenha
uma idéia de quem eram os Apóstolos de Cristo.

Clique nos nome dos mártires que estão sublinhados para ver uma breve biografia
sobre os mesmos.
(Setor Personagens Bíblicos).

Os Mártires Apóstolos

Pedro – Tiago (o grande) – João

Faziam parte do círculo íntimo de Cristo, pois tinham privilégios especiais:

“Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, irmão
deste, e os conduziu à parte a um alto monte;” (Mt. 17:1) “E levando
consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a
angustiar-se.”
(Mt. 26:37)

“E não permitiu que ninguém o acompanhasse, senão Pedro, Tiago, e João,
irmão de Tiago.” (Mc.5:37)

Os Trabalhadores Silenciosos

André – Felipe – Bartolomeu – Tomé – Mateus

Os Pouco Conhecidos

Tiago (o pequeno) – Judas Tadeu – Simão

O Traidor

Judas Iscariotes
Foi substituído por Matias após ter traído o Senhor e ter se matatado:

16 – Irmãos, convinha que se cumprisse a escritura que o Espírito Santo
predisse pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que
prenderam a Jesus;
17 – pois ele era contado entre nós e teve parte neste ministério.
18 – (Ora, ele adquiriu um campo com o salário da sua iniquidade; e
precipitando-se, caiu prostrado e arrebentou pelo meio, e todas as suas
entranhas se derramaram.
19 – E tornou-se isto conhecido de todos os habitantes de Jerusalém; de maneira
que na própria língua deles esse campo se chama Acéldama, isto é, Campo de
Sangue.)
20 – Porquanto no livro dos Salmos está escrito: Fique deserta a sua habitação,
e não haja quem nela habite; e: Tome outro o seu ministério.
21 – É necessário, pois, que dos varões que conviveram conosco todo o tempo em
que o Senhor Jesus andou entre nós,
22 – começando desde o batismo de João até o dia em que dentre nós foi levado
para cima, um deles se torne testemunha conosco da sua ressurreição.
23 – E apresentaram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o
Justo, e Matias.
24 – E orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra
qual destes dois tens escolhido
25 – para tomar o lugar neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou
para ir ao seu próprio lugar.
26 – Então deitaram sortes a respeito deles e caiu a sorte sobre Matias, e por
voto comum foi ele contado com os onze apóstolos. Atos 1:16-26

Convertidos a Apóstolos depois da ascensão de Jesus

Matias – Paulo

Outros Mártires Cristãos

Marcos – Lucas – Barnabé – Estevão

Mártires que viveram ainda com os últimos apóstolos

Policarpo – Inácio – Papias

Mártires Após a Época dos Apóstolos

Jorge – Cosme e Damião – Orígenes – Sebastião

Fontes de Pesquisa:
– Dicionário Aurélio
– Bíblia Thompson
– Manual Bíblico Halley
– The Grolier Multimedia Encyclopedia, 1997
– Barsa Enciclopédia, 1974
– Centro de Pesquisas Religiosas
– Encyclopédia Universal Ilustrada Europeu-Americana, pp. 1262 – 1265.
– Encyclopédia e Dicionário Internacional, p. 10486.

Colaboradores:
– Verônica
– Carlos Magno
– Iranilde Campos

Parte XXIX
MORDOMIA DO
DÍZIMO
Introdução
(1)

O dízimo é o método de Deus para abençoar seus filhos na vida material, como os
têm abençoado, pela fé, na vida espiritual.

Crer ou não crer na Palavra de Deus é crer ou não crer no próprio Deus. A
pessoa que diz crer em Deus e não entrega seus dízimos está negando, na
prática, a fé que diz ter no coração. Nós somos salvos pela fé, não pelas
obras, mas a fé que não se transforma em atos de obediência não é a fé válida
para a salvação. Além de ser uma prova de fé, o dízimo é também uma
demonstração de amor a Deus. Amor que nos identifica com o caráter e os
propósitos do Senhor e que nos leva a adora-lo com atos objetivos, e não apenas
com palavras.

O dízimo é também uma prova de santificação da vida ao Senhor. É como o
cordeiro do holocausto no altar da consagração. Um cordeiro santificado no
altar santifica todo o rebanho. Cada real que você santifica para Deus
significa que os outros nove reais também são santos ao Senhor.

Dízimo não é tributo. O imposto é compulsório. Quem não paga é autuado. Dízimo
é compromisso que pauta a partir do voluntariado consciente, Gênesis 14.20 e
28.22. É o reconhecimento de que, não apenas o dízimo, mas a totalidade dos
bens e do ser pertencem ao Senhor.

1. Conceito e origem da mordomia do dízimo (2)

A mordomia do dízimo é o perfeito uso do dinheiro que pertence a Deus por
direito de criador e sustentador de todas as coisas que compõem o universo,
onde Deus colocou o homem para cultivá-lo com inteligência, habilidade e
fidelidade. A mordomia do dízimo envolve, portanto, tanto á fidelidade na
entrega do que pertence a Deus como na habilidade na aplicação ou gasto deste
dinheiro consagrado. Não é difícil entender que o dízimo só deve ser usado em
coisas consagradas e para a glorificação do de Deus, preservando-se o que se
denomina de fidelidade de propósito, Salmo 24.1-10.

O dízimo tem sua origem na economia divina ao preparar o projeto de criação do
mundo. Deus não resolve nada em seus planos de última hora, porque cremos que
nos propósitos de Deus não há variantes que não foram previstas com milhares de
anos de antecedência. O dízimo faz parte do planejamento de sustento da sua
grandiosa obra de redenção do mundo.

Sua aplicação aparece em toda a Bíblia na medida em que o homem é chamado a
assumir seu dever de entregar ao Senhor os dez por cento de sua renda para que
Deus possa realizar também seus planos espirituais para o mundo. O dízimo não é
uma invenção do homem para sustentar a religião, mas uma exigência de Deus para
sustentar espiritualmente o homem, Levítico 27.30-32, Números 18.21 e 24, 2
Crônicas 31.4-12.

2. Natureza e finalidade da mordomia do dízimo (3)

Enquanto cálculo matemático de 10% de uma quantia é isto e nada mais. Não pode
ser menos como alguns gostariam e não pode ser mais porque é inalterável no
tempo e no espaço. 10% de uma determinada quantia de dinheiro ou do peso de um
corpo qualquer será sempre 10%.

Enquanto dinheiro separado para Deus, o dízimo sofre uma certa força
carismática, visto que o Senhor de todas as coisas promete bênçãos especiais
aos fiéis dizimistas conforme o Texto Sagrado, Malaquia 3.10-12.

Os dizimistas fiéis sabem o quanto é bom confiar em Deus e praticar esta
doutrina bíblica tão negligenciada por muitos servos. O desafio é aprendermos a
dependência da graça sustentadora do Senhor e não essencialmente dos recursos
financeiros.

A mordomia do dízimo pode e pretende conscientizar os crentes do valor e
importância prática fiel e constante do dízimo para o reino de Deus. A
participação dos crentes no sustento diário da causa de Deus envolve todos os
fiéis de todos os tempos e lugares.

Aumentar a confiança dos crentes no poder e na providência de Deus conforme a
Bíblia tem nos ensinado é a finalidade da mordomia do dízimo. O poder
sustentador de Deus tem-se manifestado por meio da confiança daqueles que
fielmente dizimam em amor de suas rendas para o Senhor.

3. Como devemos dizimar (4)

É dever de todo cristão dizimar à luz de Malaquias 3:10 onde Deus nos ordena
dizendo: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja
mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos
exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma
bênção tal, que dele vos advenha a maior abastança”.

Se é uma ordem, só posso obedecê-la trazendo o dízimo inteiro, não a metade ou
apenas uma parte. Meia obediência é igual à desobediência total. Foi o caso de
Ananias e Safira que não queriam ser completamente desobedientes, mas
terminaram sendo os exemplos de deslealdade em matéria de contribuição, Atos 5.
1-11.

Todo o cristão sincero deveria ter verdadeira alegria ao contribuir para o
sustento do Reino de Deus. Esta atitude é a normal e correta, mas em se
tratando de uma ordem, mesmo que não seja com muita alegria, vale a pena
cumpri-la para o nosso próprio bem. Como alguém afirmou, o crente deve começar
a dizimar ainda que sem muito entusiasmo porque é tão bom contribuir que
começando por obrigação terminará por alegria e consagração.

Deve-se ter a preocupação de se contribuir com regularidade efetiva. Muitos
contribuem com tanta irregularidade que o dinheiro chega a perder o valor. São
aqueles que dão de quando em vez e não podem ser conhecidos como dizimistas
porque têm renda todo mês, embora contribuam eventualmente.

Supostamente baseados nos ensinamentos de Paulo, 2 Coríntios 9.7, alguns dizem
que devem contribuir segundo propôs no coração e assim o fazem. Estão errados
quanto à interpretação do Texto Bíblico que neste caso, trata de ofertas
alçadas para obras sociais, não do dízimo. O crente pode usar a medida do
coração, porém, quando se trata de dízimo, Deus já determinou 10% e isso é
inegociável.

Verificamos ainda, em Malaquias 3.8, que o crente só pode ser ofertante depois
de ser dizimista. O povo de Israel roubava a Deus nos dízimos e nas ofertas
alçadas. É uma questão lógica, o que é de Deus é o dízimo e não podemos ofertar
ao Senhor usando o que pertence a ele.

Quem poderá ser bom mordomo deixando de fazer o que Deus ordenou? Certamente o
servo fiel é mais agradável ao seu Senhor. Por muitos séculos Deus tem
comprovado sua fidelidade para com os homens que lhe obedeceram com amor e
dedicação.

Vale ressaltar que o dízimo deve ser entregue do valor bruto dos nossos
rendimentos. Os descontos previdenciários e os impostos que nos são deduzidos
em folha de pagamento ou em carnês, são para nosso benefício e são também um
compromisso espiritual, Mateus 22.21. Deus não deve pagar nosso impostos ou
taxas previdenciárias. Entregar ao Senhor o dízimo do valor líquido não é
fidelidade integral. O problema é que não existe fidelidade parcial.

4. A quem entregar os dízimos? (5)

O texto de Malaquias é muito claro. O dízimo deve ser entregue na Casa do
Tesouro, isto é, na igreja de Jesus Cristo em ato de adoração e culto solene.

Fala-se em cristãos que dão o seu dízimo parte em casas filantrópicas e parte
na igreja. Este não é o método bíblico que manda trazer todo dízimo a Casa do
Tesouro e consequentemente o dízimo todo para a administração da igreja. O
crente não deve fazer as coisas conforme sua conveniência somente, mas de
acordo com a consciência de Deus refletida nos ensinos da Bíblia, a sua Palavra
Santa e Infalível.

Como agência do Reino de Deus a igreja está credenciada para gerenciar os seus
negócios do Rei quer sejam especificamente espirituais ou materiais. Se houver
falha na mordomia da administração do dízimo por parte da igreja, o membro tem
direito de questionar e até de orientar a correção, mas nunca de tomar atitudes
pessoais para as quais não foi credenciado por Deus. É pecado, conforme o
preceito bíblico, o cristão arrogar-se o direito de aplicação e administração
do seu próprio dízimo.

Conclusão (6)

Nós, os cristãos evangélicos, nos orgulhamos em afirmar que a Bíblia é o nosso
único livro de fé, prática e conduta. Muito bem, se assim é, então por que não
pomos em prática a doutrina do dízimo como a Bíblia ensina?

No Novo Testamento, 90 (noventa) passagens falam sobre dinheiro. O batismo é
mencionado 17 vezes. A igreja aparece em 21 versículos. Inferno, 11 vezes. O
hades, 4 vezes. O arrependimento, 21 vezes. A vida eterna, 47 vezes. Eleição, 7
vezes. Pecado e pecadores, 72 vezes. Espírito Santo, 27 vezes. Vemos, pois, que
no Novo Testamento muito mais se pregou sobre dinheiro que sobre qualquer outra
coisa. Jesus, quando reuniu os apóstolos, elegeu um tesoureiro. Para que um
tesoureiro? Para receber ofertas, é claro. Dízimos e ofertas alçadas.

A Bíblia chama de ladrão a quem não entrega o dízimo, asseverando que os
roubadores não herdarão o Reino de Deus, 1 Coríntios 6.11. A situação dos
irmãos que insistem na infidelidade é crítica. Ou não entenderam de forma
apropriada o compromisso da fé salvadora ou não experimentaram a salvação que
se opera pela fé que desemboca na fidelidade incondicional.

Causa perplexidade ouvir certos membros de igreja afirmando que não dão o dízimo
porque não podem. Caso isso fosse verdade, teríamos de eliminar da Bíblia
Filipenses 4.13. Ora, se eu posso todas as coisas, então posso entregar o
dízimo a Deus. Pela fé, o crente pode todas as coisas que não contrariam a
natureza de Deus, e as que contrariam o caráter do senhor, que constitui
pecado, nos são lícitas mas não devemos praticá-las, 1 Coríntios 6.12 e 10.23.

Muito mais valem 9/10 do nosso salário com as bênçãos de Deus, do que todo um
salário sem as suas bênçãos, Ageu 1.3-6. E não só sem as bênçãos, mas com as
maldições previstas no juízo divino que se impõe pela suserania (7) do Senhor.

Amém.

Notas
(1) FALCÃO SOBRINHO, João. Estou Convosco. Rio de Janeiro: CPCCBB, 1997. 124 p.
(pp. 74-75).
(2) CÂNDIDO, Daniel Oliveira. Reflexões sobre Mordomia Cristã. Duque
de Caxias: AFE, 1982. 231 p. (pp. 161).
(3) Id. Ibid. pp. 162.
(4) Id. Ibid. pp. 162-163.
(5) Id. Ibid. pp. 163-164.
(5) MOTTA, Waldomiro. A
Doutrina Bíblica da Mordomia. 3. Ed. Rio de janeiro: JUERP, 1986. 62 p. (pp.
31-32).
(7) Ação de soberania em conceder livre arbítrio ao seus vassalos para o
exercício de aparente ou relativa autonomia

Parte XXX
MOTIVAÇÕES
PERIGOSAS PARA O MINISTÉRIO

Uma breve Reflexão sobre alguns
motivos errados para o Ministério
Falar de
vocação não é uma tarefa fácil. Como explicar os vislumbres de certezas
espirituais ?
Pode a vocação de Deus ser descrita ?
Talvez devesse deixar tal desafio para os mais experientes nas lidas pastorais;
não obstante, quero pisar neste terreno mui solenemente.
Nestes doze anos de ministério tenho visto alguns pastores perderem o rumo
original e ministérios infrutíferos com igrejas fracas e em declínio. Entendo
que grande culpa dos problemas destas igrejas deve-se a nós mesmos, seus
pastores.
Notem as palavras de Eugene Peterson: “Os pastores estão abandonando seus
postos, desviando-se para a direita e para a esquerda, com freqüência
alarmante.
Isto não quer dizer que estejam deixando a igreja e sendo contratados por
alguma empresa. As congregações ainda pagam seus salários, o nome deles ainda
consta no boletim dominical e continuam a subir não púlpito domingo após
domingo. O que estão abandonando é o posto, o chamado. Prostituíram após outros
deuses.Aquilo que fazem e alegam ser ministério pastoral não tem a menor
relação com as atitudes dos pastores que fizeram a história nos últimos vinte
séculos” . Uma reflexão dura, mas realista. Alguns pastores estão
abandonando seus postos. Após ler estas considerações de Peterson, fiz a
seguinte pergunta: O que tem levado nossos jovens ao ministério ? Minha
pergunta levanta a questão sobre as reais motivações de nossos vocacionados
para o Ministério Pastoral. Talvez nem todos têm consciência de que errar na
vocação trás conseqüências desagradáveis para si mesmos e também para suas futuras
igrejas. Embora uma vaga vocação para o ministério possa levar ao pastorado,
não sustentará o pastor através das ásperas realidades da vida na igreja. É
preciso avaliar as verdadeiras motivações, antes de ingressar nos seminários.

Por motivação queremos dizer os motivos internos que levam uma pessoa à ação.
Todos nós tomamos decisões na vida motivados por algo ou alguma coisa em dado
momento de nossa existência e considerando as diversas situações da vida.
Falando da motivação que leva um jovem a decidir pelo ministério, entendemos
que todo genuíno vocacionado deve ter como ambição ser um instrumento de Deus .
Sua única motivação para ser pastor é seu desejo ardente de realizar a obra de
Deus e para a glória de Deus. Contudo, é possível que nem sempre esta seja a
mola propulsora de um ou outro aspirante ao pastorado. A título de alertar-nos
para este perigo, alisto cinco possíveis motivações erradas e egocêntricas que
podem levar alguém ao Ministério:

1) Adquirir estabilidade financeira: Os motivos da nossa sociedade seculare são
controlados pelo cifrão. Vivemos uma época de recessão e de desemprego. São só
na cidade de São Paulo, quase 2 milhões de desempregados. O tempo médio hoje
para alguém que perde o emprego é de 1 ano até conseguir outro. É com temor e
tremor que arrisco raciocinar desta maneira, mas temo que alguns jovens em
nossas Igrejas, passe a compreender o ministério como uma profissão e um meio
de ganhar a vida. Penso que todo candidato ao ministério deveria responder a
esta pergunta: O motivo que tenho para desejar ser pastor é porque serei pago
para isto?

Quanto a isto, Spurgeon escreveu: “Se um homem perceber, depois do mais
severo exame de si mesmo, qualquer outro motivo que a glória de Deus e o bem
das almas em sua busca do pastorado, melhor que se afaste dele de uma vez, pois
o Senhor aborrece a entrada de compradores e vendedores em seu templo”

2) Status social: Não é de hoje que a sede de posição cega as pessoas . O
“ser pastor”, mesmo que em nossos dias não é lá muito bem visto, até
mesmo pelos escândalos envolvendo alguns líderes cristãos, os títulos de
Reverendo e Pastor transmitem uma certa dose de autoridade que dignifica o ser
humano, e lhe confere status social. Não obstante, liderar não é fácil. Às
vezes pregar pode ser uma tortura. Pastorear ovelhas relutantes é uma atividade
esmagadora. Ser uma figura pública sob os olhares de todos e viver sob
constantes cobranças, mesmo que estas não sejam verbais, sacodem o nosso
coração. Nós pastores inevitavelmente armazenamos um certo nível de frustração
em nosso trabalho. Ficamos frustrados com os conflitos da igreja, com a
futilidade de nossos planos e com o fracasso do nosso povo. O status social não
pode sustentar o nosso ministério e fazer com que vivamos nossa vocação de modo
responsável.

Em I Tm 3:1, Paulo escreve: “se alguém deseja o pastorado, excelente obra
almeja” O termo “deseja”na língua grega é epithumeo, que tem o
significado de “colocar o coração, ambicionar, desejar”. Precisa ser
observado que o objeto do desejo é a obra, o serviço, e não a posição ou
status. Este foi um erro cometido por Tiago e João (Mc 10:35:45). Alguém
motivado por posição elevada e pelo desejo de atenção trará com certeza
prejuízo a si mesmo e à Igreja de Cristo.

3) Necessidade de firmar-se como pessoa: É possível que alguém caia na
armadilha de desejar o ministério por entender que a posição e o status
conquistado forçam os outros a lhe dedicarem atenção. O desejo que um ser
humano tem de que os outros o respeitem é um sinal louvável de sua auto-estima.
Não há nada de errado em desejar ser respeitado e admirado, mas não é a
motivação correta para o ministério. É comum termos notícias de líderes que
avaliam sua eficiência ministerial através de quantas pessoas da denominação o
conhecem. Conheci um pastor que guardava todo exemplar do jornal Brasil
Presbiteriano em que saía uma matéria com sua foto e que falava a seu respeito.
São líderes que buscam a fama e serem aplaudidos pelos homens.

4) O Senso de obrigação: Há quem se torne ministro, pois depois de ter passado
pela família, conselho, presbitério e ter feito o curso teológico no seminário,
sente-se na obrigação de ter que ir até o fim de seu “chamado”.
Sente-se culpado se não fizer aquilo que todos esperam dele. É desnecessário dizer
que este líder não desenvolverá seu ministério com alegria e prazer. Um velho
pregador deu um sábio conselho a um jovem quando indagado sobre sua opinião
quanto a seguir o ministério: “Se você pode ser feliz fora do ministério,
fique fora, mas se veio o solene chamado, não fuja” Precisamos instruir
aos nossos seminaristas que mesmo que tenham feito o curso de teologia no
Seminário, caso sintam que não foram chamados ao pastorado, entendam que o
tempo de estudos e de preparação não será perdido. Poderão ser uma excelente
ajuda às igrejas como pregadores, professores, oficiais e líderes. O peso de um
sentimento de obrigação não pode levar ninguém ao pastorado. O Ministério deve
ser obedecido por vocação e não por obrigação. Alguém pontuou o seguinte:
“os ministros sem a convicção do chamado carecem muitas vezes de coragem e
carregam uma carta de demissão no bolso do paletó. Ao menor sinal de
dificuldade, vão-se embora”.

5) Falta de opções: É possível que alguém decida ser um pastor, pois depois de
tentativas inglórias de ingressar em alguma outra faculdade, ou por não ter
condições financeiras de custear um curso em uma universidade , percebeu que
poderia fazer um curso de nível superior pago pelo Presbitério e ainda
recebendo ajuda de custo de sua Igreja. Nossos jovens precisam ver que o
candidato ao ministério, sendo seu chamado imposto por Deus, não é uma
preferência entre outras alternativas, ou por falta delas. Ele é pastor não por
falta de alternativas, mas porque esta é a única alternativa possível para ele,
e insisto: Vocação pastoral não pode ser por falta de opções, mas porque foi
imposta por Deus.

Todos nós que somos pastores sabemos como o ministério é desgastante, e ninguém
pode cumprir o difícil papel de pastor se não tiver a consciência de que foi
comissionado por Deus. Na qualidade de pastores e tutores eclesiásticos, faz-se
necessária nossa orientação aos aspirantes e candidatos ao Ministério de que
não há como alguém sobreviver no pastorado, caso sinta que esta foi uma escolha
sua e não de Deus.

Parte XXXI
O ANÚNCIO DA
IGREJA
Neste trecho,
entendo que o Senhor Jesus apresenta a Igreja como seu propósito; assim como
esboça sua composição, seu caráter e missão:

(MATEUS Cap: 16)

[13] Indo Jesus para os lados de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos:
Quem diz o povo ser o Filho do Homem?

Embora, em seu ministério público, Jesus tenha interagido com quase todos os
partidos judaicos: os herodianos, que, conforme indica o nome, eram partidários
de Herodes; os zelotes, que queriam, pela força das armas, libertar Israel do
domínio romano; os fariseus, ortodoxos estudiosos das escrituras; e os
saduceus, partido da classe sacerdotal; foi com o povo que Jesus, de fato,
desenvolveu o seu ministério. Ao povo pregou; alimentou; curou. Foi com o povo que
andou e que se confundiu.
A pergunta era, portanto, uma aferição: o que as bençãos recebidas pelo povo
geraram neste em termos de compreensão de quem Jesus era?

[14] E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros:
Jeremias ou algum dos profetas.

A resposta deixou a desejar, conseguiram ver em Jesus um grande profeta,
catalogaram-no entre os maiores, porém, não acertaram. Ouvir, ser curado e
alimentado por Jesus não é garantia de chegar a ter dele o conhecimento que dá
vida eterna (Jo 17.3).

[15] Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?
Outra aferição, esta mais importante: os discípulos conviveram com Jesus,
obtiveram informações privilegiadas, quer pelas perguntas que puderam fazer,
quer por ensino exclusivo, quer pela observação no dia a dia. Detendo mais
informações, estavam mais preparados para responder; era de se supor que
acertariam.

[16] Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, responde Pedro. Tu és o
Cristo, o messias, o salvador vislumbrado pelos patriarcas e anunciado pelos
profetas. Certo, porém, incompleto, se parasse por aí: todos criam que o
messias seria o maior dos profetas (Dt 18.15), entretanto, um profeta. Pedro
teria ido apenas um pouco mais adiante que o povo. Ele vai mais longe: “o
filho do Deus vivo”. Revolucionário! Os teólogos, de então, diziam que
Deus era único, logo, não podia ter filho. Por que? Porque se Deus tivesse um
filho, este teria de ser um Deus também, então, já não seria um único Deus,
mas, dois deuses. Eles não conheciam a doutrina da Trindade, não sabiam que há
três pessoas e um só Deus. Pedro disse-o: Jesus de Nazaré é o Cristo; Jesus de
Nazaré é Deus. Resposta completa. Os teólogos entenderam que Deus haveria de
mandar um salvador, entenderam ser um grande profeta – Moisés assim pareceu
dizer (Dt 18.15) – não entenderam que, ao anunciar um salvador, Deus anunciava
a sua visita. Não imaginavam que a salvação humana custaria tão grande preço.
Franco Zefirelli, cineasta italiano, fez o filme Jesus, que chamou de seu
afresco. O filme, originariamente, apresentado em duas partes, tinha, como
término de sua primeira parte, cena que procurava retratar o texto que estamos
trabalhando: Zefirelli descreve Pedro ajoelhando-se enquanto proferia a
declaração em questão e, ato contínuo, os demais discípulos tomados pelo
impacto da afirmação, testemunhando sua concordância, também se ajoelham. Não
sei se foi assim mesmo que aconteceu, porém, indubitavelmente, é a cena que
mais se coaduna com a profundidade do que foi dito. Jesus é mais que um profeta
a ser ouvido; mais que um mestre a ser seguido; é Deus a ser adorado. Esse é o
conhecimento, acerca de Jesus, que dá vida eterna (Jo 17.30).

[17] Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não
foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.

Não foi a convivência com Jesus que os fez saber a verdade. Foi uma revelação!
O conhecimento-experiência, acerca de Jesus, que dá vida eterna, é uma
revelação do Pai – Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o
TROUXER; e eu o ressuscitarei no último dia. (JO 6:44).

[18] Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Que pedra?

A afirmação, ou melhor, a revelação: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus
vivo”.

Que igreja?

Igreja é uma palavra que pode ser traduzida por reunião, assembléia, nação e
afins; por se tratar de ajuntamento de pessoas que têm afinidades,
características e/ou objetivos comuns. Portanto, Jesus está falando de um grupo
de pessoas especiais: as pessoas que receberam a mesma revelação que Pedro e os
discípulos.
A Igreja é a reunião daqueles que, a exemplo de Pedro, receberam, do Pai, a
revelação de que Jesus Cristo é Deus vindo para salvar-nos, que deve ser
adorado, adoração, esta, que começa com a entrega da vida.
A Igreja é a reunião dos adoradores de Jesus. Neste sentido a missão da Igreja
é agradar o seu Senhor; é a Igreja como noiva: – Então, veio um dos sete anjos
que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo:
Vem, mostrar-te-ei a noiva , a esposa do Cordeiro (AP 21:9); – Vi também a
cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada
como noiva adornada para o seu esposo (AP 21:2).
A noiva, na sua ação de adorar, é a satisfação do desejo do Pai: – Mas vem a
hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e
em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores (JO 4:23).

e sobre esta pedra edificarei a minha igreja

A partir da confissão-adoração: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus
vivo” Jesus construirá a sua igreja. Será que a Igreja é edificada
enquanto e na medida em que adora?
Paulo parece dizer que sim: – E todos nós, com o rosto desvendado,
contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de
glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito (2CO
3:18).
Será que adorar passa, também, pela contemplação?
Adorar tem várias conotações: prestar homenagens; reverenciar; prestar culto e,
entre outras, também, contemplação. Por exemplo: Adorai o SENHOR na BELEZA da
sua santidade (SL 96:9). Derek Kidner (Salmos – introdução e comentário – ed. Vida
Nova e Mundo Cristão) diz sobre adorar na beleza da santidade: “a
verdadeira adoração reflete isto no amor e admiração dados a Ele.”
Adoração, aqui, é o mesmo que contemplação amorosa.

Nesta contemplação (adoração) somos edificados.

O Pai desvenda-nos o rosto (por meio da revelação), mostra-nos o Filho e o
Espírito Santo nos transforma. Assim Cristo edifica a sua Igreja. Torna-nos
parecidos com Ele à medida que o adoramos.
Igreja é, portanto, também, a reunião das pessoas que estão sendo transformadas
pelo Espírito Santo à imagem e semelhança de Cristo.

contemplando, como por espelho, a glória do Senhor,
Qual é o espelho?
Penso e algumas coisas que devem ser usadas como espelho:
i- a bíblia: JO 5:39 – Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida
eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. A Igreja lê as escrituras para
ver Jesus, não apenas para ter informações sobre ele. Ele é a vida eterna que
está no texto sagrado.
ii- a criação: SL 19:1 – Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento
anuncia as obras das suas mãos. A natureza expressa a glória de Deus. A glória
de Deus é a sua bondade (Ex. 33.19). A igreja perscruta a natureza para ver
Jesus, a encarnação da bondade de Deus.

A palavra reunião pode dar uma conotação equivocada: de que só há igreja quando
essas pessoas, de características especiais, e encontram. Por isso gosto muito
do que o Pedro disse: 1PE 2:9 – Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real,
nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as
virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
Aliás, Jesus disse “e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” num
contexto muito peculiar: Haviam três nações, representadas por três cidades,
que tinham pretensões universais: romanos, representados por Roma; judeus,
representados por Jerusalém e os gregos, representados por Atenas. Os romanos
acreditavam que a salvação do mundo estava em todos se submeterem à sua
“pax”, o que significava submeter-se a eles. Os judeus acreditavam
que a salvação dos homens estava na submissão destes a eles que, como
sacerdotes, os conduziriam no caminho de Deus; os gregos, por sua vez,
acreditavam que a tal salvação estava em todos submeterem-se a seu modo de
pensar.

e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Jesus diz que vai fundar uma nação que libertará de fato os homens do inferno.
Pois, sua nação atacará o inferno e as portas deste não resistirão ao ataque
daquela, liberando os seus prisioneiros. Por que ataque? Porque fala das portas
não prevalecerem. Jesus falava no contexto das cidades muradas, onde a porta é
o último bastião, a última defesa, se as portas não resistem ao ataque, a
cidade é invadida e tomada.

Outro elemento que, penso, está contido nessa afirmação é o fato de a igreja
ser o braço ministerial de Jesus Cristo, uma nação de soldados da libertação,
pois, como disse João: 1JO 3:8 -Para isto se manifestou o Filho de Deus: para
destruir as obras do diabo.

Eis o projeto de Jesus: uma nação de adoradores – a noiva; uma nação de
soldados – o corpo.

O corpo depende da noiva.

A medida que a igreja vai sendo edificada vai, também, assumindo seu papel
ministerial, ou seja, destruindo as obras do diabo. Quanto mais a igreja adora,
mais eficaz se torna contra o inferno.

Parte XXXII
O PADRÃO
BÍBLICO DE AVIVAMENTO
Qual o padrão
bíblico de avivamento? Os avivamentos bíblicos oferecem alguma coordenada para
a renovação da igreja evangélica no Brasil de hoje?

Estas são algumas das perguntas que procuraremos responder no decorrer desse
estudo.

I – O significado bíblico do termo “Avivamento”:.

1.1. No Antigo Testamento:.

O verbo hebraico hyh (avivar) tem o significado primário de
“preservar” ou “manter vivo”. Porém, “avivar” não
significa somente preservar ou manter vivo, mas também purificar, corrigir e
livrar do mal. Esta é uma conseqüência natural em toda vez que Deus aviva. Na
história de cada avivamento, dentro ou fora da Bíblia, lemos que Deus purifica,
livra do mal e do pecado, tira a escória e as coisas que estavam impedindo o
progresso da causa (1).

O verbo “avivar”, em suas várias formas (2), é usado mais de 250
vezes no Antigo Testamento, das quais 55 vezes estão num grau chamado piel. Um
verbo nas formas do Piel expressa uma ação ativa intensiva no hebraico. Neste
sentido, o avivamento é sempre indicado como uma obra ativa e intensiva de
Deus. Alguns exemplos de sua ocorrência são as clássicas orações de Davi, como
esta: “Porventura, não tornarás a vivificar-nos (3), para que em ti se
regozije o teu povo?” (Sl 85.6) (4), e da clássica oração do profeta
Habacuque: “Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações, e me sinto
alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos, e, no decurso dos
anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia” (Hc 3.2).

1.2. No Novo Testamento:.

Encontramos no Novo Testamento grego um conjunto de palavras que expressam o
conceito básico de avivamento. São elas: ‘egeíro, ‘anastáso, ‘anázoe e
‘anakaínoo. Outras palavras gregas comparam o avivamento ao reacender de uma
chama que se apaga aos poucos (cf. ‘anazopyréo em 2 Tm 1.6) ou uma planta que
lança novos brotos e “floresce novamente” (cf. ‘anaphállo em Fp
4.10).

No Novo Testamento grego as palavras supracitadas aparecem, no contexto de
avivamento, apenas sete vezes, embora a idéia básica de avivamento seja
sugerida com mais freqüência. Uma possível explicação para o uso escasso dos
termos, em comparação ao Antigo Testamento, é que o Novo cobre apenas uma
geração, durante a qual a Igreja Cristã desfrutou, na maior parte do tempo, um
grau incomum de vida espiritual.

II – O que não é avivamento bíblico:.

Antes de falarmos sobre avivamento bíblico, propriamente dito, acreditamos ser
de grande ajuda uma abordagem, mesmo que rápida, do que não é o padrão bíblico
de avivamento.

O Rev. Hernandes Dias Lopes, em seu livro AVIVAMENTO URGENTE, apresenta sete
interessantes razões sobre o que não deve ser entendido como avivamento de
verdade. Sou devedor ao dileto colega por suas pertinentes observações.
Transcrevo-as quase que na íntegra.

2.1. Avivamento não é um programa

agendado pela igreja.

Avivamento não é ação da igreja, mas de Deus. Avivamento é obra soberana e
livre do Espírito Santo. A igreja não promove e nem faz avivamento. A igreja
não é agente de avivamento. A igreja não agenda e nem programa avivamento. A
igreja só pode buscar o avivamento e preparar o caminho da sua chegada. A
igreja não produz o vento do Espírito, ela só pode içar suas velas em direção a
esse vento.

A soberania de Deus, no entanto, não anula a responsabilidade humana. O
avivamento jamais virá se a igreja não preparar o caminho do Senhor (5). O
avivamento jamais acontecerá se a igreja não se humilhar. Sem oração da igreja,
as chuvas torrenciais de Deus não descerão. Sem busca não há encontro. Sem
obediência a Deus, jamais haverá derramamento do Espírito. Contudo, quem
determina o quando e o como do avivamento é Deus. Ele é soberano. David
Brainerd orou vários anos pelo avivamento entre os índios peles vermelhas no
século XVIII. Aquele jovem, ajoelhado na neve, suava de molhar a camisa, em
agonia de alma, em oração fervente, em favor daqueles pobres índios. Quando o
seu coração parecia desalentado e já não havia prenúncios de chuva da parte de
Deus, o Espírito foi poderosamente derramado e os corações se dobraram a Cristo
aos milhares.

2.2. Avivamento não é mudança doutrinária.

Cometem ledo engano aqueles que querem descartar a teologia e desprezar a
doutrina na busca do avivamento. Desprezar a doutrina é dinamitar os alicerces
da vida cristã. Desprezar a doutrina é querer levantar um edifício sem lançar o
fundamento. Desprezar a doutrina é querer por um corpo de pé e em movimento sem
a estrutura óssea.

Não há vida piedosa sem doutrina. A doutrina é a base da ética. A teologia é
mãe da ética. “Assim como o homem crê no seu coração, assim ele é”
(Pv 23.7).

Vida sem doutrina gera misticismo e experiencialismo subjetivista. Avivamento
sem doutrina é fogo de palha, é movimento emocionalista, é experiencialismo
personalista e antropocentrista. Deus tem compromisso com a verdade e a sua
Palavra é a verdade e todo avivamento precisa estar fundamentado na Palavra. O
avivamento precisa estar norteado pelas Escrituras e não por sonhos e visões.
Precisa estar dentro das balizas da Bíblia e não dentro dos muros de revelações
subjetivistas, muitas vezes feitas na carne.

2.3. Avivamento não é mudança litúrgica.

Muitos crentes confundem avivamento com forma de culto, com liturgia animada,
com coreografia e instrumental aparatoso.

Louvor não é encenação. Não é mimetismo. Não é ritualismo. Não é emocionalismo.
Não é apenas seguir formas pré-estabelecidas, como bater palmas, dizer aleluia,
amém e levantar as mãos. Louvor não é pululância, gingos e dança (6). Louvor
que apenas levanta as mãos para o alto, mas não as estende para o necessitado
não agrada a Deus. A Bíblia ordena levantar mãos santas ao Senhor, num gesto de
rendição e entrega (I Tm 2.8). Louvor em que a pessoa apenas saltita e pula,
mas não vive em santidade, é ofensa a Deus. Louvor que apenas verbaliza coisas
bonitas para Deus, mas não leva Deus a sério na vida é fogo estranho diante do
Senhor.

Louvor que não produz mudança de vida, quebrantamento, obediência e não leva as
pessoas a confiarem em Deus, não é louvor, é barulho aos ouvidos de Deus. Assim
diz o Senhor: “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não
ouvirei as melodias das tuas liras” (Am 5.23).

Hoje estamos vivendo a época dos shows evangélicos, dos show-men, dos
animadores de programas religiosos, do “rock evangélico”, das músicas
badaladas por um ritmo sensual.

Mais do que nunca é preciso tocar a trombeta em Sião e condenar a idéia de que
precisamos imitar o mundo para atrair o mundo. A música do mundo tem entrado
nas igrejas, para vergonha nossa e para derrota nossa. O louvor que agrada a
Deus precisa ser em espírito e em verdade. O louvor precisa ser bíblico, senão
é fogo estranho. Davi, no Salmo 40, versículo 3, fala-nos sobre as balizas do
louvor que agrada a Deus: “E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de
louvor ao nosso Deus; muitos verão estas coisa, temerão e confiarão no
Senhor”. Primeiro, vemos a origem deste cântico: “E me pôs nos
lábios”. Este louvor vem de Deus e não do homem. Segundo, vemos a natureza
deste cântico: “E me pôs nos lábios um novo cântico”. Não é um novo
de edição, mas novo de natureza. É um cântico que expressa a marca da sua nova
vida, liberta do tremendal de lama (v2). Terceiro, vemos o objetivo deste
cântico: “… Um hino de louvor ao nosso Deus”. Este cântico não é para
entreter ou agradar o gosto e preferência das pessoas. Este cântico vem de Deus
e volta para Deus. Deus é o seu alfa e o seu ômega. Quarto, vemos o resultado
deste cântico: “Muitos verão estas coisas, temerão e confiarão no
Senhor”. O louvor bíblico leva as pessoas a temerem a Deus, a confiarem em
Deus. O verdadeiro louvor leva as pessoas a se voltarem para Deus.

O louvor não é um espaço da liturgia. Louvor é a totalidade da vida.
“Bendirei ao Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus
lábios” (Sl 34.1).

À luz destas coisas, é preciso dizer que avivamento não é mudança litúrgica, é
mudança de vida. Avivamento não é histeria carnal, é choro pelo pecado. Deus
não procura adoração. Ele procura adoradores.

Todavia, é preciso dizer que, embora o avivamento não seja mudança de liturgia,
todo avivamento mexe com a liturgia. O avivamento desinstala a liturgia
ritualista, cerimonialista, formalista, fria e morta e põe em seu lugar uma
liturgia viva, alegre, ungida, onde há liberdade do Espírito, sem abandonar a
ordem e a decência. Em épocas de avivamento, a liturgia é desingessada e o povo
com alegria e liberdade do Espírito adora a Deus, em espírito e em verdade, sem
regras rígidas pré-estabelecidas. Cada culto é um acontecimento singular, novo,
onde há abertura para o que Deus deseja falar e fazer com o seu povo.

Hoje existem muitos cultos solenes, aparatosos, pomposos, mas estão mortos.
Disse J. I. Packer no seu livro “Na Dinâmica do Espírito”: “Não
há nada mais solene do que um cadáver. Há cultos solenes que estão
mortos”. Embora o avivamento não seja mudança litúrgica, todo avivamento
muda a liturgia, tornando-a bíblica, alegre, ungida, dirigida pelo Espírito de
Deus. Devemos clamar como os puritanos: “Queremos liturgia pura”.

2.4. Avivamento não é uma ênfase carismática unilateral.
Muitas pessoas hoje estão limitando o avivamento a milagres, curas e
exorcismos, sem observarem a abrangência global da doutrina pneumatológica.
Este é um sério perigo. Toda vez que super-enfatizamos uma verdade em
detrimento de outra, nós produzimos deformações e distorções nesta verdade.

Deus pode e faz maravilhas, curas e prodígios extraordinários quando Ele quer.
Ele é soberano. Ninguém pode deter a sua mão. Ninguém pode ser o conselheiro de
Deus. Ninguém pode instruir a Deus e dizer o que Ele pode e o que Ele não pode
fazer. Ninguém pode obstaculá-lo nem ensinar-lhe qualquer coisa. Ele faz tudo
quanto Ele quer, como quer, onde quer, quando quer, com quem quer. “Ele
faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Ele não
obedece à agenda dos homens. Ele não se deixa pressionar. Ele é livre.

Entretanto, esta não é a ênfase do avivamento. A igreja hoje está correndo mais
atrás de sinais do que atrás de santidade. A igreja hoje empolga-se mais com
milagres do que com vida cheia do Espírito. A igreja hoje anseia mais as
bênçãos de Deus do que o Deus das bênçãos. A igreja hoje busca mais uma vida
antropocêntrica do que teocêntrica.

Avivamento não é efervescência carismática. Uma igreja pode ter todos os dons
sem ser uma igreja avivada. Avivamento não é conhecido pelos dons do Espírito,
mas pelo fruto do Espírito.

A igreja de Corinto possuía todos os dons, todavia, era uma igreja imatura e
bebê espiritualmente. Naquela igreja profundamente carismática, havia divisões,
cismas, brigas, partidos, contendas, imoralidade e irmãos levando outros irmãos
aos tribunais mundanos. Havia falta de compreensão acerca do casamento e da
liberdade cristã. Naquela igreja a ceia do Senhor estava sendo incompreendida,
os dons estavam sendo usados erradamente, a ressurreição dos crentes estava
sendo negada, e a cooperação financeira com os pobres negligenciada.

É verdade que, em épocas de avivamento, os dons são buscados e exercidos para a
glória de Deus e a edificação da igreja, mas a ênfase carismática não é
sinônimo de avivamento.

2.5. Avivamento não é modismo.
Muitos crentes, por desconhecimento, se posicionam contra o avivamento porque
acham que ele é a mais nova onda da igreja. Acham que avivamento é uma
coqueluche moderna e uma inovação sem nenhum respaldo bíblico e histórico.

Certamente, aqueles que assim pensam não estudam com critério a Bíblia nem a
história da igreja. Os pontos culminantes da igreja aconteceram em épocas de
avivamento. Desde o Antigo Testamento que esta é uma verdade incontestável. É
só olhar para os grandes despertamentos na época de Ezequias, de Josias e de
Neemias. É só ver o grande avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da
Síria e em Éfeso. É só ver o que Deus fez na Reforma do Século XVI, na Inglaterra,
no século XVIII e em outros grandes avivamentos da história. Certamente,
avivamento não é uma onda, não é um modismo. Ele possui firmes lastros
históricos. Ele é nossa herança e nosso legado e deve continuar sendo nossa
aspiração e nossa busca constante.

2.6. Avivamento não é uma visão

dicotomizada da vida.

Muitas pessoas, quando começam a buscar avivamento, saem da realidade e
enclausuram-se nos castelos inexpugnáveis de uma espiritualidade isolada e
monástica. Tornam-se tão “espirituais” que já não sabem mais conviver
com a vida, isolam-se, fazendo da vida uma caverna de fuga. Querem sair do
mundo em vez de serem guardados do mal. Dividem a vida entre sagrado e profano,
corpo e alma, matéria e espírito. Acham que Deus está interessado apenas nas
coisas espirituais. Acham que Deus só olha para a vida de trabalho na igreja,
sem observar os negócios, a família, o trabalho, os estudos e a vida do
dia-a-dia com o mesmo interesse.

Esta não é a visão bíblica nem a visão do verdadeiro avivamento. Tudo em nossa
vida é vazado pelo sagrado. Toda a nossa vida é cúltica. Todo o nosso viver é
litúrgico. O grande avivalista John Wesley lutou pelas causas sociais na
Inglaterra ao mesmo tempo que pregou sobre avivamento. Finney pregou
ardorosamente contra a escravidão nos EUA no século passado ao mesmo tempo que
foi o maior avivalista do seu país. João Calvino atacou com veemência os juros
extorsivos em Genebra. O avivamento sempre traz profundas mudanças políticas,
econômicas, sociais e morais. O avivamento não leva a igreja à fuga, mas ao
enfrentamento.

2.7. Avivamento não é campanha de evangelização.

Não podemos confundir avivamento com campanhas evangelísticas. Avivamento é
para a igreja, pessoas que já têm vida; evangelização é para o mundo, pessoas
que estão mortas em delitos e pecados. Avivamento é para crentes nascidos de
novo; evangelização é para pecadores inconversos. Na evangelização, a igreja
trabalha para Deus; no avivamento, Deus trabalha para a igreja. Na
evangelização, a igreja vai aos pecadores; no avivamento, os pecadores correm
para a igreja. Na evangelização, os pregadores apelam aos pecadores; no
avivamento, os pecadores apelam aos pregadores.

III – O Padrão Bíblico de Avivamento:

Podemos definir o avivamento bíblico em dois sentidos distintos:

3.1. O sentido estrito de avivamento.

Estritamente falando, avivamento é algo que acontece unicamente no meio do povo
de Deus. O Espírito Santo renova, reaviva e desperta a igreja sonolenta. É
revitalização onde já existe vida. Ou, como disse Robert Coleman, é “o
retorno de algo à sua verdadeira natureza e propósito” (7).

Comentando um pouco mais sobre o sentido estrito de avivamento, diz o Dr.
Martin Lloyd-Jones:

É uma experiência na vida da Igreja quando o Espírito Santo realiza uma obra
incomum. Ele a realiza, primeiramente, entre os membros da Igreja: é um reviver
dos crentes. Não se pode reviver algo que nunca teve vida; assim, por
definição, o avivamento é primeiramente uma vivificação, um revigoramento, um
despertamento de membros de igreja que se acham letárgicos, dormentes, quase
moribundos (8).

Quando há esse impacto da obra do Espírito de Deus na vida da igreja, os
resultados imediatos do avivamento são sentidos no povo de Deus: senso
inequívoco da presença de Deus; oração fervorosa e louvor sincero; convicção de
pecado na vida das pessoas; desejo profundo de santidade de vida e aumento
perceptível no desejo de pregação do evangelho. Em outras palavras, a igreja
amortecida e tristemente doente é a primeira a ser beneficiada pelo avivamento.

3.2. O sentido amplo de avivamento.

Como a própria expressão define, neste sentido não apenas a igreja, mas a
sociedade não-cristã também é beneficiada pelo avivamento. Isto acontece
porque, além da atuação soberana do Espírito Santo no mundo, na igreja passa a
existir uma conscientização profunda de sua missão; isto é, a missão integral
de servir o mundo evangelística e socialmente. No avivamento a igreja vive a
missão para a qual foi chamada.

A sociedade não-cristã, por sua vez, volta-se para Deus em resposta ao
evangelho. Acertadamente o Dr. Héber de Campos comenta que “o reavivamento
começa na igreja e termina na comunidade maior onde ela vive. Os efeitos do
reavivamento são muito mais perceptíveis nas mudanças morais que acontecem na
região ou num país onde ele acontece. Ele não se limita simplesmente aos
membros das igrejas atingidas pela obra de Deus. Ele causa impacto em toda a
comunidade onde a igreja de Deus está inserida” (9).

Em suma, as duas características principais do avivamento são 1) o
extraordinário revigoramento da igreja de Cristo e 2) a conversão de multidões
que até o momento estiveram fora dela na indiferença e no pecado.

3.3. Avivamento e a Bíblia.

Aqui também abordaremos dois aspectos essenciais do avivamento.

1) O padrão bíblico de avivamento é a Bíblia

Por mais simplória e pleonástica que esta declaração pareça ser, ela é tão
autêntica e singular como dois e dois são quatro. Estamos falando do único
padrão inerrante e infalível de avivamento: a Bíblia.

Uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela
que nos pode dar a direção certa deste assunto. A relação entre a Bíblia e o
avivamento é tão intrínseca que é impossível um avivamento de verdade sem que a
Bíblia faça parte dele.

Além disso, numa época de tantos extremos como este em que vivemos, é
fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem
desde aqueles que vêem toda e qualquer manifestação entusiástica como
avivamento, até àqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que
avivamento é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação
humana sem respaldo bíblico. É necessário, mais do que nunca, recorrermos à lei
e ao testemunho.

Permita-me ilustrar o que queremos dizer por “extremos”. Edwin Orr
(10), uma das maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas
nos Estados Unidos convidando pessoas para suas reuniões de avivamentos. Uma
delas dizia: “Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite”, enquanto
que a outra prometia: “Reavivamento aqui todas às noites, exceto às
segundas-feiras”. Orr menciona este fato para relatar um desses extremos
em que a palavra “avivamento” ou “reavivamento” é usada
aleatoriamente, como se o avivamento fosse produzido simplesmente pelo
desempenho humano com data e hora marcadas.

Voltando ao lugar da Bíblia no avivamento, é importante salientar que ela foi,
é e sempre será a espada do Espírito Santo em todo avivamento bíblico. Não
existe verdadeira espiritualidade sem a Bíblia. Observando os avivamentos
ocorridos na Bíblia e na história da igreja, notamos que os objetos do Espírito
eram sempre persuadidos com e para a Bíblia. Avivamento onde a Bíblia não está
presente não passa de um mero pentecostalismo convencional.

“Um reavivamento”, diz o Dr. Héber de Campos, “que é produto da
obra do Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem
sido esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de
Deus passa ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A
Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de
Deus” (11).

2) O padrão bíblico de avivamento está na Bíblia

Os primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o que
se pode chamar de “o grande despertamento geral” ocorreu nos dias de
Sete, pouco depois do nascimento de seu filho Enos: “Então se começou a
invocar o nome do Senhor” (Gn 4.26) (12). O nome Enos quer dizer fraco ou
doente. O que é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn
3.9-15) e o aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome
Enos era bastante adequado. “É provável que fosse um reflexo da
consciência da depravação humana e da necessidade da graça divina” (13). À
parte desta indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio
da história da raça humana. O relato subseqüente do dilúvio ilustra de modo
dramático o que acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados.

Depois temos os patriarcas que por vários séculos lideraram o povo de Deus.
Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia, eles agiam como a
força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom
exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos
empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira
páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8;
32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9).

No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas campanhas,
como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js
7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar
os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que
seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu
que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um
verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante “todos
os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo
depois de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel”
(Js 24.31).

O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de quando
em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus é
inevitável. Então, após longos anos de opressão, o povo se arrepende e clama ao
Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as
orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os
inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período,
sob a direção de Samuel (I Sm 7.1-17).

Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha de
Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um
avivamento (2 Sm 6.12-23). A dedicação do templo, no início do reinado de
Salomão, é outro grande exemplo (I Rs 8). O avivamento também chega a Judá nos
dias de Asa (I Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (I
Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2 Rs 11.4-12.16). Outro poderoso
despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2 Rs
18.1-8). Por fim, a descoberta do livro da lei, durante o reinado de Josias, dá
início a um dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2 Rs 22,23; 2 Cr
34,35).

Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um
novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os
judeus a interromperem a reconstrução do templo, os profetas Ageu e Zacarias
entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23;
Zc 1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra
expedição liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém,
dando-se mais atenção à lei (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos
anos depois, quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros
de Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31).

Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos também em
Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4.

No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João Batista.
Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na expectativa
de receberam a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O poderoso
derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o avivamento
que Jesus havia predito (At 2.1-47). “Marca-se, assim, o início de uma
nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação
desse dia – o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo,
redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a
proclamar o Evangelho ‘até os confins da terra’ (At 1.8)” (14).

O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém,
em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá, são muitos os
relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na história da igreja, como por
exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI, na Inglaterra no
século XVIII, entre os negros Zulus da África do Sul na década de 60 e na
Coréia do Sul nestes últimos tempos, dentre outros.

Que Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e
povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele “fogo abrasador”
que nos purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua
Palavra.

NOTAS
(1) Cf. D. M. Lloyd-Jones, DO TEMOR À FÉ (2ª ed. São Paulo: Editora Vida,
1987), pp. 73,4. Veja também, de Gerard Van Groningen, AVIVAMENTO SOB UM PRISMA
VÉTERO-TESTAMENTÁRIO no site www.ipcb.org.br.
(2) Os termos “avivamento”, “reavivamento”,
“renovação”, “despertamento”, “vivificação”,
“reviver” e “tornar a viver” são usados no mesmo sentido.
(3) O significado literal da expressão hebraica “vivificar-nos”, do
Salmo 85.6, é “causa-nos viver”, onde se reconhece que a vitalidade
espiritual depende inteiramente de Deus.
(4) O Novo Comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, dá a este Salmo o sugestivo
título: UMA ORAÇÃO PEDINDO REAVIVAMENTO.
(5) Para um ponto de vista diferente, veja a obra do Dr. Paul E. Pierson, A
HISTÓRIA DOS AVIVAMENTOS, material apostilado pela Faculdade Teológica Sul
Americana de Londrina – PR.
(6) Uma posição semelhante foi apresentada pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira,
em entrevista ao Jornal Brasil Presbiteriano (Abril/94, p. 12):
“Confunde-se avivamento com atitude pessoal e inclusive corporal (física),
com expressão emocional, levantar de mãos, etc. Essas atitudes em si não são
propriamente prejudiciais. Todavia, pela confusão que se faz a doutrina sai
perdendo. Há uma superficialidade doutrinária muito grande, porque se dá ênfase
excessiva ao louvor, a sermões eletrizantes, a práticas pentecostais, quando
avivamento é tão somente uma consciência clara e profunda da vontade de Deus
(que é doutrinária) e uma disposição plena de obediência (que é prática)”.
(7) R. Coleman, A CHEGADA DO AVIVAMENTO MUNDIAL (São Paulo: CPAD, 1996), p. 18.
(8) D. M. Lloyd-Jones, OS PURITANOS: SUAS ORIGENS E SEUS SUCESSORES (São Paulo:
PES, 1993), pp. 15,6. Veja também, do mesmo autor, o excelente livro AVIVAMENTO
(São Paulo: PES, 1992) 320 pp.
(9) Héber C. Campos, CRESCIMENTO DA IGREJA: COM REFORMA OU COM REAVIVAMENTO? In
Fides Reformata, Vol I, Nº 1 (São Paulo: 1996), pp. 44,5.
(10) Citado por Brian H. Edwards em REVIVAL! A PEOPLE SATURED
WITH GOD
(England: Evangelical Press, 1994), p. 25.
(11) H. C. Campos, op. cit., p. 45.
(12) R. Coleman, op. cit., p. 53.
(13) Idem.
(14) Idem, p. 61

Parte XXXII
O QUE É
MINISTÉRIO?

TEXTO 2 CORÍNTIOS 6:1-10
01. O
MINISTÉRIO NÃO É UMA PROFISSÃO E SIM UMA VOCAÇÃO

– vocação pressupõe – compromisso, disposição e acima de tudo uma visão clara
do trabalho que vai realizar.
– qual a sua visão do seu ministério pessoal?

02. VAMOS VER O MINISTÉRIO PELA PERSPECTIVA DE PAULO
– 2 Coríntios 6: 1-10

2.1 – Em primeiro lugar vamos examinar os fatores internos que influem no
ministério cristão. Se não soubermos administrar esses fatores, acabaremos
desistindo no meio do caminho.

A – Na muita paciência

– paciência – significa a habilidade em conservar o projeto do ministério mesmo
quando as águas são agitadas. Esta habilidade hoje está muito comprometida.
Poucos são os pastores que demonstram paciência no exercício do ministério.
– Ser paciente – não é ser simplesmente ser gentil. O sentido da palavra aponta
para um espírito de perseverança, de permanência, de estabilidade, de firmeza!
– Crisóstomo afirmou: “a paciência é um porto que desconhece
tempestades”.

– Pergunta: você tem exercido esta paciência em seu ministério?

B – Nas aflições

– esta palavra tem o sentido de “espremer”, “restringir”,
“afligir”. Não podemos nos esquecer de que o pastor é antes de tudo
um sacerdote chamado para interceder junto a Deus pelo povo. As aflições não
podem nos afastar deste propósito.
– Há duas situações neste contexto que precisam ser compreendidas:
– A primeira é a de aceitar as aflições como uma disciplina de Deus. Isto é. Tudo
o que acontece nesse campo de dores vem de Deus. Esse conceito nasceu no Séc.
XVII na França e na Itália e foi chamado de Quietismo. A síntese desse
movimento era que o mal foi planejado para o nosso bem. Portanto devemos nos
aquietar.
– O outro lado que se opõe frontalmente ao quietismo, é chamado de Ativistas.
Para os ativistas, através do exercício da fé, podemos acabar com todas as
enfermidades, com todas as dificuldades da vida. Todo mal vem de Satanás e deve
ser enfrentado com ousadia!
– O pastor segundo os ativistas não deve ficar deprimido. Tem de ser um heroi
24 horas por dia!

Nós sabemos que há momentos no ministério em que a vontade é de desaparecer, de
vesuviar, de largar tudo. Vale a pena reler Romanos 12:12 – “Sede
pacientes na tribulação…”

C – Nas privações

– um dos grandes problemas do ministério é que o pastor nunca se acha fraco.
Somos e procuramos exteriormente demonstrar uma força que muitas vezes não
temos. O medo de fracassar é um fantasma que ronda com muita freqüência o pastorado.

– Privação – tem o sentido de passar por “experiências adversas”.
Quem ainda não passou por esses vales profundos de pobreza ministerial.
– Há momentos em que a Bíblia parece um livro fechado. Você não consegue tirar
nem uma gota de inspiração.
– Ilust. eu ouvi uma certa ocasião um pastor afirmar que nós precisamos ter
pelo ao menos três pessoas compartilhando do nosso ministério.

– Em primeiro lugar você precisa de um Timóteo – alguém a quem você possa
ensinar. Alguém que dependa de você para vencer as dificuldades da vida. Quando
você tem alguém sob sua responsabilidade você se desdobra em busca de socorro.
É o que os pais fazem com os filhos.
– Em segundo você precisa de um Barnabé – alguém que esteja no mesmo nível
espiritual que você. Alguém com quem você possa se abrir, contar suas
frustrações e receber todo apoio. Este ponto é muito importante no ministério
pastoral. Você não pode caminhar sozinho, e não deve se abrir com muita gente.
Eu sei que é muito difícil você se abrir com um colega com o qual você não tem
uma amizade verdadeira. Mas sempre há alguém mais próximo de nós.
– Em terceiro lugar você precisa de um Paulo – alguém que esteja acima de você
e que possa orientá-lo nos seus momentos difíceis. Alguém que possa servir de
referencial para você nos momentos de provação.

D – Nas angústias

– o sentido aqui é de “estreitamento”. A idéia é que o ministro pode
a qualquer momento ser confinado, ser levado a um ambiente apertado, fechado.
– São frequentes os momentos em que os espaços diminuem. Você se esforça, luta
mas não consegue avançar, não consegue progredir.
– Aqui surge um outro problema. Nestas circunstâncias o pastor é levado a se
esconder atrás de disfarces.
– Adão tentou se disfarçar com uma folha de figueira. Procurou encobrir o seu
erro camuflando-se diante de Deus.
– Pedro por sua vez demonstrou um espírito de arrogância quando foi confrontado
pela criada – Marcos 14:66-71
– Ananias e Safira – usaram a aparência de santidade para impressionar o
apóstolo Pedro. Angústia faz parte do ministério.

2.2 – Em segundo lugar vamos examinar os fatores externos que acontecem com
muita frequência no ministério.

A – Em açoites

– o sentido desta palavra aponta para um dos sofrimentos maiores do ministério.
Esse sofrimento não tem muito a ver com sofrimento físico. Hoje isto quase não
acontece.
O enfoque maior desta palavra se refere as “feridas”, aos
“golpes” que recebemos em nossas emoções, em nossa mente.
– Aqui também corremos um outro perigo: o de produzir um estado de melancolia.
Freud analizando os aspectos da melancolia chegou à conclusão que ela produz
“uma anulação do interesse pelo mundo exterior, uma perda da capacidade de
amar, uma inibição de toda atividade e uma diminuição dos sentimentos de valor
próprio até o ponto de auto-recriminações e auto-injúrias…” (As Máscaras
da Melancolia, pg. 87).
– Paulo tinha as marcas de Cristo em seu corpo. Estas marcas ainda são
necessárias ao ministério.
– Lembre-se: ministério sem dor não é ministério. Precisamos estar preparados
para sofrermos esses golpes. Eles fazem parte da nossa chamada.

B – nas prisões

– eu creio que não estamos ferindo o texto bíblico ao aplicarmos estas
experiências de Paulo em nosso contexto social. Hoje poucos sabem o que é uma
prisão. Poucos são os pastores que exercem esse ministério.
– Devemos portanto pensar em prisão no sentido de não termos outro espaço para
viver a não ser o do ministério. Fomos aprisionados por Cristo. (Efésios 3:1).
Mesmo com todas as dificuldades já apontadas, não podemos fugir desse
compromisso.

C – nos tumultos

– o sentido aqui é de “vacilação”, de “instabilidade”, de
“desesperança”. Neste ponto nós podemos nos identificar com o
apóstolo Paulo. Ainda hoje sofremos este tipo de problema na igreja. Há muita
gente interessada em tumultuar o ambiente. Há correntes contrárias que tentam
desestabilizar o nosso ministério. É importante saber que não estamos livres de
tumultos na igreja.
– O perigo é querer punir os autores desses conflitos. C.S. Lewis fala da
“paixão vingativa”. Ele diz que é fácil alimentar um espírito de
desforra. Ficamos na espreita aguardando uma oportunidade para crucificar
aqueles que provocaram as divisões.

2.3 – Em terceiro lugar Paulo mostra o que o ministério exige de cada um de
nós. Ele aponta um trio de atividades que não podem ser menosprezadas.

A – nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns.

– O Bispo Roberto sempre dizia: “ministério é trabalho, não é
distração”. Eu não sei quanto tempo você dedica ao exercício de vigiar, de
jejuar.
– Eu sei que cada pastor tem um sistema próprio de vida. O que não pode ser
esquecido é que sem trabalho o ministério não cresce. E esse trabalho exige
momentos de reflexão, de isolamento, de afastamento de tudo e de todos para
ouvir a voz de Deus.
– Sobre o isolamento pastoral, George Barna diz algo muito interessante: Ele
fala da ausência programada do pastor. “Uma estratégia que funciona bem,
no caso da maioria das igrejas crescentes, é fazer o pastor afastar-se da
igreja, para uma ausência planejada”. E afirma: “Nas igrejas
crescentes, a breve ausência do pastor realmente fortalece a sua igreja,
fazendo o resto da equipe funcionar como uma unidade . Eles experimentam a
alegria de saber que a igreja não é um espetáculo de um único homem.”
(Igrejas amigáveis e acolhedoras).

2.4 – Em quarto lugar Paulo nos mostra como devemos ser. Uma série de
virtudes são apresentadas neste bloco.

A – na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no
amor não fingido.
– pureza – significa simplicidade, sinceridade, transparência.
– saber – estar afinado com o movimento da ciência. Não ficar alheio ao que
acontece no mundo.
– longanimidade – fala de tolerância, de resistência. Ser paciente para com os
demais.
– na bondade – generosidade, gentileza.
– no Espírito Santo – no poder do Espírito.
– eu disse a igreja que nós perdemos um pouco da nossa característica. Pouco
falamos sobre os dons do Espírito. Temos dado pouca ênfase nas manifestações do
Espírito. Esta falta enfraquece o ministério.
– no amor não fingido – amor não teatral. Não devemos apenas interpretar um
papel que não vivemos na realidade.

2.5 – Em quinto lugar Paulo mostra o que devemos fazer em nosso ministério.

A – na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer
ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra, por infâmia e por boa
fama, como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto
bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como
castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres ; pobres, mas
enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.

– Há uma série de paradoxos neste texto. Assim é o ministério pastoral. Temos
tudo e ao mesmo tempo não temos nada.
– Quem consegue entender esta composição bíblica consegue também exercer um
trabalho rico e abençoado por Deus.
– Nós fomos chamados para um ministério singular. Há muitas oportunidades a
nossa frente. Que ninguém desanime nesse caminhar.

ORLANDO
COSTA E A IGREJA BRASILEIRA
Introdução
Orlando E. Costas (1942-1987) nasceu em Porto Rico e faleceu nos Estados
Unidos, vitimado por um câncer, aos 45 anos de idade. Era pastor e teólogo
batista. Graduou-se doutor em teologia e missiologia nos Estados Unidos. Foi
reitor e professor do Seminário Bíblico Latino-Americano de Costa Rica; fundou
o Centro Evangélico Latino-Americano de Estudos Pastorais (CELEP), em 1973, em
San José, Costa Rica. Atuou como administrador da faculdade do Eastern Baptist
Theological Seminary, na Filadélfia, onde também foi professor de missiologia e
diretor de estudos hispânicos. Além disso, ocupou o cargo de segundo
vice-presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e, na ocasião de
seu falecimento, atuava como professor no Andover Newton Theological School, em
Massachussetts, e como vice-presidente da Fraternidade Teológica
Latino-Americana.

Orlando Costas esteve no Brasil em junho de 1984, participando da V Semana de
Atualização Teológica. Admirou a liderança jovem da igreja brasileira e
criticou seu fraco desempenho teológico. O renomado teólogo considerava-se um
“teólogo na encruzilhada”. Entendendo que a fé não é “uma
herança familiar”, sentiu-se atraído pela evangelização do povo
latino-americano. Costas rompeu com a cultura anglo-saxônica e a mentalidade
colonialista que subjuga os povos latino-americanos. Questionou a hegemonia
política na América Latina, rejeitando o que chamou de “império
norte-americano”. Assim, enveredou-se pela “libertação social e
cultural”, entendendo que a missão da igreja não é simples comunicação da
fé, mas o mundo em sua complexidade, o que requer a mobilização da igreja em
busca de uma prática libertadora integral. Entre seus escritos são dignos de
destaque o artigo Dimensões do Crescimento Integral da Igreja e o livro
Compromiso y Misión. (1).

Esta pesquisa é uma simples tentativa de se aplicar os conceitos de crescimento
da igreja de Orlando Costas a nossa realidade brasileira. Não é um trabalho
original no que se refere ao estudo dos tipos de crescimento propriamente dito.
René Padilla, por exemplo, faz um comentário interessante sobre as dimensões do
crescimento integral de Orlando Costas em seu artigo Avaliação Teológica do
Ministério Integral em Servindo com os pobres na América Latina: Modelos de
Ministério Integral. Contudo, Padilla é amplo demais. Seu enfoque é a América
Latina como um todo. Nosso trabalho visa a igreja brasileira em solo
brasileiro.

1. O CRESCIMENTO NUMÉRICO DA IGREJA BRASILEIRA

O crescimento numérico da igreja evangélica brasileira deve fazer parte do
desejo de todo cristão sincero, porque uma igreja que não cresce está fora dos
propósitos de Deus. Entretanto, tal crescimento não deve ser almejado e nem
considerado sadio quando a ética cristã está em jogo. Crescimento de igreja sem
saúde é mera inchação; saúde sem crescimento é contradição de termos, pois o
crescimento deve ser o resultado natural de uma igreja saudável.

Orlando Costas, por exemplo, era cuidadoso em sua análise de crescimento
numérico de uma igreja. Embora reconhecesse o valor, a importância e a
necessidade de uma igreja crescer, não se deixava impressionar simplesmente com
números. Haja vista o clássico episódio em que Orlando Costas visitou uma
igreja pentecostal no Chile. Chegando lá, constatou que uma igreja como aquela
não podia crescer saudavelmente estando, ao mesmo tempo, atrelada à ditadura
militar do general Augusto Pinochet.

Além disso, o rol de membros de uma igreja, segundo Costas, também não pode
servir como critério de avaliação de crescimento. Ele entendia que antes de
tudo algumas questões importantes deveriam ser levadas em consideração, como
por exemplo: O crescimento é motivado pelo Espírito Santo? O crescimento está
relacionado com os frutos do Espírito? A fé do crente é vibrante, calorosa e
esperançosa? Ele é amoroso? Sua fé é vista através da ação? A fidelidade,
espiritualidade e encarnação (2) estão presentes na vida da igreja?

Estas questões são fundamentais para se avaliar o crescimento da igreja
brasileira hoje. É preciso discernimento e critério de avaliação. Todo crescimento
de igreja, ou mesmo a falta dele, deve ser criteriosamente analisado. Na
questão de crescimento da igreja não podemos ser totalmente crédulos de um lado
e nem céticos do outro. Os extremos são sempre perigosos. As indagações
levantadas por Costas precisam ser ponderadas por todos nós, e por uma razão
óbvia: no Brasil existe uma forte tendência em se achar que todo e qualquer
crescimento de igreja é obra do Espírito Santo.

É importante deixarmos claro que Orlando Costas não era (e jamais foi) contra o
crescimento da igreja. Pelo contrário. O que Costas questionava, e com razão,
eram os meios muitas vezes utilizados para se chegar em tal crescimento.

Orlando Costas dizia que o crescimento numérico da igreja, propriamente dito,
“é parte fundamental do ser da igreja” (3), pois nenhuma igreja foi
formada para ficar estagnada e parada no tempo. Embora nem todas as igrejas
tenham vocação para ser mega-igreja, todas devem crescer. Isto é um princípio
bíblico que Costas fazia questão em destacar.

Temos no Brasil igrejas abençoadas: algumas grandes, outras nem tanto, mas que
estão crescendo saudavelmente. Contudo, esta não é a realidade geral em nosso
país. Independente de ser pentecostal ou histórica, sabemos de tantas igrejas
que estão marcando passo, engessadas em suas tradições ou em seus usos e
costumes, com pouca ou nenhuma perspectiva de sua missão e de seu crescimento.
Por outro lado, existem aquelas que experimentam um crescimento fenomenal e
intrigante até. As igrejas pentecostais do Brasil sempre serão um desafio
saudável às igrejas históricas. Contudo, fica a pergunta: aquelas estão
crescendo realmente com saúde, do mesmo modo como estas deveriam crescer?

2. O CRESCIMENTO ORGÂNICO DA IGREJA BRASILEIRA

Vimos no tópico anterior que o crescimento numérico não tem sido tão favorável
para a igreja evangélica brasileira de modo geral. O que não significa dizer
que não haja igrejas crescendo com autenticidade, de acordo com os preceitos
bíblicos. Porém, esta não é a regra geral. E por que não? Porque nem sempre a
ética cristã de uma vida santificada tem andado de mãos dadas com o crescimento
de nossas igrejas. O que, por si só, segundo Orlando Costas, não pode ser
aceito como crescimento verdadeiro.

E o que dizer do crescimento orgânico da igreja? Primeiramente é preciso saber
o que é crescimento orgânico na concepção de Costas. De acordo com ele, esta
dimensão inclui aspectos da vida interna da igreja como “sua forma de
governo, sua estrutura financeira, seus líderes, o tipo de atividade na qual
investe seu tempo e recursos e sua celebração cultural” (4). Costas
entendia que estas devem ser preocupações salutares e necessárias. Entretanto,
o crescimento orgânico da igreja não deve ser introspectivo, voltado para
dentro de si mesmo. Costas fazia questão de deixar isso bem claro (5) e René
Padilla interpretou muito bem o pensamento do missiólogo quando disse:
“Ele (o crescimento orgânico) abrange, entre outras coisas, o desafio da
contextualização da igreja em uma situação histórica definida, na intenção de
constituir-se em uma verdadeira comunidade com raízes autóctones” (6).

O crescimento orgânico é um dos tipos mais naturais de crescimento
experimentado pela igreja brasileira, pena que às avessas. Segundo pesquisas,
cerca de 80% a 90% dos recursos financeiros, formação de líderes, uso do tempo
e do templo estão voltados para o deleite de nossas próprias igrejas. A igreja
evangélica brasileira de modo geral ainda não se conscientizou de sua missão
fora dos portões como sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5.13,14). Um bom (ou
seria mau?) exemplo disso é o que a igreja geralmente faz com seus novos
membros ou recém-convertidos. Bruce Shelley expressou a mesma preocupação de
Costas quando advertiu:

“Infelizmente, as igrejas tendem a ‘eclesiastizar’ seus membros. Sua
obediência a Cristo se faz apenas mediante canais institucionais ou pietistas:
reuniões e programas, ou reuniões de oração e grupos de discipulado.

A nossa evangelização, no geral, tira o convertido do mundo e jamais o envia de
volta a ele. Nosso alvo deve ser a missão da mesma pessoa no mundo, todavia uma
nova pessoa com novas convicções e padrões. Se o primeiro mandamento de Jesus
foi ‘Vinde’ o segundo foi ‘Ide’. Devemos reentrar no mundo de que saímos, só
que agora como embaixadores de Cristo” (7).

As palavras de Shelley deve nos levar a uma reflexão séria, até porque o maior
potencial de uma igreja é o crente novo. A igreja não pode servir de tropeço
para ela mesma. Há alguns anos escrevi uma lição para a escola dominical na
qual dizia: “Reconhecemos que há muita coisa boa que uma igreja local pode
fazer além de missões, mas, por outro lado, se a ‘muita coisa boa’ estiver
desassociada de missões, então não é tão boa quanto se pensa’.

À luz do que vimos até aqui, a conclusão que chegamos é que a igreja brasileira
não é, essencialmente, uma igreja missionária. Boa parte de nossas igrejas que
pensam serem missionárias na verdade apenas fazem missões, quando fazem! Um
exemplo a ser considerado é a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), denominação
da qual sou pastor. Infelizmente a IPB é hoje o que jamais deveria ser. A
igreja que se orgulha de sua teologia calvinista esquece que Calvino possuía
uma consciência missionária profunda (8) sendo, inclusive, o responsável pelo
envio dos primeiros missionários ao Brasil em 1555 (9).

Fruto direto da obra missionária de Ashbel Green Simonton em 1859, a IPB
deveria ser, atualmente, uma das denominações mais missionárias do país. É
verdade que sua visão e missão, de uns tempos para cá, vem progredindo , porém,
ainda tem muita estrada para se rodar, pois é preciso resgatar por completo a
boa herança reformada, não apenas em seu aspecto teológico, mas sobretudo na
totalidade daquela missão integral que ficou perdida em algum lugar do passado.

Saindo do particular para o geral, além de uma conscientização missionária,
propriamente dita, a igreja brasileira precisa passar por uma revitalização de
suas estruturas, tornando-as mais funcionais e principalmente por uma
estruturação doutrinária que se expresse na vida prática. Infelizmente falta sã
doutrina e santidade de vida no povo de Deus, o que vem comprometendo
seriamente o evangelho e a aceitação do mesmo por parte da sociedade.

3. O CRESCIMENTO CONCEITUAL DA IGREJA BRASILEIRA

A igreja brasileira não é um caso perdido. Pelo contrário, é uma igreja que
está caminhando, embora a passos não tão largos como gostaríamos, mas caminha
na esperança de um futuro promissor. Com a graça de Deus chegaremos lá! Aos
poucos o velho conceito de fazer missões vai dando lugar ao ser missões. Isto
está acontecendo porque a igreja, consciente ou inconscientemente, começa a
crescer conceitualmente também; o que significa, segundo Costas, “expansão
na inteligência da fé: o grau de consciência que a comunidade eclesial tem a respeito
da sua existência e razão de ser, sua compreensão da fé cristã, seu
conhecimento da fonte dessa fé (as Escrituras), sua interação com a história
dessa fé e sua compreensão do mundo que rodeia. Esta dimensão dá à igreja
firmeza intelectual para enfrentar a todo tipo de doutrina e capacidade crítica
para evitar a fossilização e garantir a criatividade evangelizadora, orgânica e
ética” (10).

Talvez um dos teólogos que mais chamou a atenção da igreja para sua dimensão
conceitual (embora não com esta terminologia, mas com a mesma ênfase), tenha
sido o Dr. Martin Lloyd-Jones, um pastor britânico já falecido. Li vários
livros do Dr. Jones e notei que muito da preocupação conceitual de Orlando
Costas era a daquele também. O doutor costumava dizer, por exemplo, que
“se você estiver errado em sua doutrina, estará errado em todos os
aspectos da sua vida” (11).

O crescimento conceitual da igreja é o que poderíamos chamar de “dimensão
central da igreja”. A qualidade da qual se derivam todas as outras
dimensões.

É importante lembrar que Orlando Costas entendia corretamente as dimensões do
crescimento integral da igreja como um sistema interligado. A ausência de
qualquer uma daquelas dimensões (numérica, orgânica, conceitual ou diaconal)
acarretaria numa deficiência danosa. Na verdade, cada dimensão da igreja só tem
razão de ser se for vivenciada nas outras. Citemos um pequeno exemplo:
Crescimento numérico sem qualidade pode ser comparado ao câncer que cresce mas
não é bom. Qualidade sem crescimento é inconcebível. A igreja evangélica
brasileira ainda não entendeu como deveria essas dimensões e suas implicações.
E de quem é a culpa? Certamente são daquelas lideranças que muitas vezes
refletem em suas igrejas uma mentalidade tacanha e retrógrada. São aquelas
pessoas que confundem a boa tradição bíblica e evangélica pelo tradicionalismo
mórbido; inovação saudável e revitalizadora pelo inovacionismo e oba-oba.

À luz do que vimos até aqui fica difícil dizer: “A igreja brasileira tem
esta cara”. De certo modo, ainda somos uma grande colcha de retalhos;
porém, esta dimensão que nos faz olhar para dentro de nós mesmos, sem deixar de
olhar para fora, precisa ser devidamente analisada e exercitada pela igreja
brasileira como um todo. Estamos adentrando em um novo milênio e a igreja continua
sonolenta em muitos dos aspectos de sua missão integral.

4. O CRESCIMENTO DIACONAL DA IGREJA BRASILEIRA

Esta é a dimensão encarnacional da igreja. Orlando Costas entendia que sem este
crescimento a igreja perderia sua autenticidade e credibilidade no mundo, já
que “somente na medida em que conseguir dar visibilidade e concreticidade
à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar ser ouvida e respeitada”
(12). Para Costas, os cristãos foram colocados no mundo “para ser a consciência
da sociedade” (13). Uma consciência que estende a mão em ajuda aos fracos
e oprimidos. Felizmente, a consciência social da igreja brasileira hoje parece
ser maior do que algumas décadas atrás. Contudo, se por um lado a igreja vem
melhorando em sua visão social, por outro, ainda não amadureceu tanto em sua
concepção de missão integral, justamente porque ao se discutir prioridades
(como por exemplo as que envolvem evangelização e ação social) a igreja deixa
de fazer bem uma e outra coisa. Evangelização e responsabilidade social são
partes integrantes da missio Dei, portanto, inseparáveis e indispensáveis na
missão integral da igreja de Jesus Cristo no mundo e para o mundo.

O crescimento diaconal da igreja brasileira, assim como as demais dimensões do
crescimento integral, caminha lentamente pelo que a gente tem visto. Mas ele
não está estagnado. De uns tempos para cá a igreja melhorou consideravelmente.
Vale lembrar, e não faz muito tempo, a igreja que assumia sua responsabilidade
social no mundo era taxada de comunista, liberalista, etc. Hoje, graças ao bom
Deus, boa parte das igrejas brasileiras está envolvida em trabalhos sociais, e
sem qualquer preocupação de ser rotulada e perseguida por isso, como ocorria em
tempos atrás.

É pena que a igreja foi, e muitas vezes tem sido ainda hoje, influenciada pelos
sistemas políticos e deixado de ser a voz profética de Deus na sociedade. A
igreja brasileira não pode se calar diante dos males sociais.

A igreja brasileira não está parada, mas poderia andar um pouco mais depressa,
porque, quanto à participação nos problemas da sociedade, ainda temos um longo
caminho pela frente. Que Deus nos ajude!

Conclusão:
Vivemos na esperança de dias melhores para a igreja brasileira. De uma igreja
que se consolide pela visão integral de sua missão no mundo.

Comparando os quatro conceitos de crescimento de Orlando Costas à igreja
brasileira, podemos notar um avanço em todos eles.

Nossa igreja brasileira ainda não é a igreja dos sonhos, a igreja que
gostaríamos de ser, mas com certeza esse dia vai chegar.

Deus visitará seu povo e o avivará para honra e glória do Seu nome!

NOTAS
1. L. A. T. Sayão, verbete ORLANDO E. COSTAS em Enciclopédia
histórico-teológica da igreja cristã, Vol. I (São Paulo: Vida Nova, 1988), p.
362.

2. “Para Costas, estas três qualidades ou critérios teológicos –
fidelidade, espiritualidade e encarnação – são as variáveis de controle em seu
modelo de crescimento integral. Trata-se dos fatores ou princípios críticos em
função dos quais avalia-se qualitativamente as várias classes e dimensões do
crescimento eclesial e se prova a validez teológica de dito crescimento”
(Daniel S. Schipani, CREZCAMOS EN TODO…EN CRISTO em Misión en el camino
(Buenos Aires: FTL, 1992) p. 117, nota 6.

3. Orlando E. Costas, DIMENSÕES DO CRESCIMENTO INTEGRAL DA IGREJA em A missão
da igreja (Belo Horizonte: Missão Editora, 1994) p. 113.

4. Idem.

5. Idem.

6. René Padilla, AVALIAÇÃO TEOLÓGICA DO MINISTÉRIO INTEGRAL em Servindo com os
pobres na América Latina (Curitiba-Londrina: Editora Descoberta, 1998) p. 29.

7. Bruce Shelley, A IGREJA: O POVO DE DEUS (São Paulo: Vida Nova, 1984) pp.
126,7.

8. Cf. Antonio Carlos Barro, A CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA DE JOÃO CALVINO em Fides
reformata, Vol. III, nº 1 (São Paulo: 1998) pp. 38-49.

9. Cf. Fred H. klooster, MISSIONS – THE HEIDELBERG CATECISM AND CALVIN
em Calvin theological journal (1972) pp. 183,4.

10. Costas, op. cit., p.
113.

11. D. M. Lloyd-Jones, O COMBATE CRISTÃO (São Paulo: PES, 1991) p. 101.

12. Costas, op. cit., p. 114.

13. Costas, COMPROMISO Y MISION (San José: Editorial Caribe, 1979) p. 102.

Parte XXXIII
PERIGOS
SUTIS AO MINISTÉRIO PASTORAL
“Quando
fui convidado para escrever este artigo para a nossa Revista PROPOSTA, logo
pensei em algo sobre o ministério pastoral. Trata-se de um desejo de
compartilhar com meus irmãos e colegas pastores, alguns perigos do ministério,
os quais tenho constatado em minha própria caminhada. Como sempre, são
sutilezas que procuram desestabilizar e adulterar o nosso pastorado.

1º Perigo: O perigo de envolver-se tanto em atividades que negligenciamos
nossa vida devocional.

Penso que na essência, todo pastor deseja grandes mudanças em suas igrejas e
daí a quantidade exorbitante de atividades a que nos entregamos todos os dias:
aconselhamentos, visitas, escrever artigos, fazer ligações telefônicas,
preparar estudos e sermões, separar tempo para planejar, reunir-se com a
liderança, etc…

Obviamente, existe por trás deste excesso de atividades uma cultura – nosso
mundo é voltado para o sucesso. Em razão disso, em nossas muitas atividades
eclesiásticas somos cada vez mais dominados por superlativos. Orgulhamos por
ter uma grande Igreja, um grande coral, um grande…

Conscientemente ou não, corremos atrás de atender a um modelo ideal de pastor
estigmatizado por esta cultura do sucesso que é aquele líder que está sempre
ocupado, sem tempo para mais nada. Se estar atarefado é ser importante, então
preciso estar atarefado. Tornamo-nos daí pastores compulsivos, onde nossa
identidade pastoral passa a ser derivada de nossas atividades.

Sutilmente somos enganados, e por fazermos parte de uma sociedade competitiva,
constantemente temos que provar o nosso valor, a nossa utilidade, e para tanto,
procuramos nos manter sempre ocupado. Abro aqui um parêntesis para recomendar a
leitura do livro de Henry Nouwen “ No Nome de Jesus” , onde o autor fala de
três tentações mais comuns no ministério pastoral: ser relevante, ser
espetacular e ser poderoso. Mas voltando; como evitar cair na armadilha do
excesso de atividades ? A resposta é a mais simples possível: Precisamos
praticar um tempo a sós com Deus. Parece uma ousadia falar assim aos pastores,
mas aqui falo também como pastor – em nossa vida agitada e cheia de atividades
temos fracassado em separar tempo para a solidão afim de aprofundarmos nossa
vida espiritual. Solidão é o remédio contra o ativismo pastoral. Cito Henry
Nouwen quando ele afirma que na solidão, descobrimos que ser é mais importante
que ter e que valemos muito mais que o resultado de nossos esforços.

Aprendemos com nosso Senhor Jesus em Lucas 5:15,16, que a ação interna (oração)
tem precedência sobre a ação externa (proclamação). O v.15 nos informa que
muitas pessoas procuravam a Jesus para serem curadas por ele e o v.16 afirma
“ele porém se retirava para lugares solitários e orava”. Jesus percebeu o
perigo e não caiu na armadilha de se entregar ás atividades, negligenciando sua
vida devocional.

O pastor que imita as ações e a pregação de Jesus, sem, ao mesmo tempo, imitar
sua vida profunda de oração, são um prejuízo para a fé e um empecilho para o
crescimento da igreja.

Nós pastores insistimos com nossas ovelhas sobre a necessidade delas terem um
tempo a sós com Deus. Mas não podemos nos esquecer que somos ovelhas também, e
que ter uma vida profunda de oração não perde o seu valor quando somos
ordenados ao ministério.

2º Perigo: O perigo de reduzir a funções e projetos a pessoas que Deus nos
mandou pastorear.

Corremos o perigo de abandonarmos nossa função como pastor, deixando de
pastorear pessoas, e nos tornamos administradores e secretários de Igrejas.
Começamos a medir o sucesso no ministério pela popularidade de nossos projetos,
dos terrenos que a igreja adquiriu, das reformas feitas na estrutura física da
igreja durante nosso pastorado ali, do formato novo do boletim informativo,
etc… Quando olhamos para o ministério de Jesus, verificamos que ele passou
mais tempo cuidando de pessoas e conversando com elas do que em qualquer outra
coisa. Jesus não era inclinado à programas, mas à pessoas. Diferentemente de
nós que somos movidos para a produção.

Não me entendam mal. A princípio não há nada de errado em tudo isto; o perigo é
sutil. Neste processo da secularização da igreja, movida á produção, homens e
mulheres com quem vivemos e trabalhamos podem se tornar meros objetos. Pouco a
pouco todos se transformam em instrumentos de trabalho. Sob a pressão de que
estão trabalhando para Jesus, usamos estas pessoas como empregados para
cumprirem uma missão que nem sempre é de Deus e sim do pastor.

Talvez devêssemos perguntar: Como posso saber se estou sendo bem sucedido no
cumprimento de meu ministério? Creio que Efésios 4:11-15 delineia qual é a
expectativa de Deus para nós pastores – Dentre algumas das medidas de sucesso
em nosso ministério, está o fato de que precisamos preparar pessoas para o
ministério. Para fazer isto preciso gastar tempo com as pessoas – ajuda-las,
ouvi-las, aconselha-las, etc…Pessoas são a razão de nosso ministério.
Precisamos ser lembrados que fomos chamados para pastorear e não para administrar.
Para isto é que existem presbíteros regentes e docentes. Nós pastores
precisamos pastorear, dedicar tempo ás nossas ovelhas para visitá-las e
orienta-las espiritualmente. Deixe a administração com o presbítero regente.

3º Perigo: O perigo de se afastar tanto do mundo que perdemos a consciência
de que o mundo é nossa paróquia.

Quando nos tornamos pastores, a “ exigência” é que devemos nos retirar do mundo
e nos entregarmos ao trabalho de uma instituição religiosa que se dedica a seus
próprios assuntos, seguindo seu próprio cronograma e agenda. Erroneamente,
vemos o mundo como algo mal, um inimigo ou um competidor de nossa
espiritualidade.Assim, nos enfiamos nos trabalhos da Igreja que consomem todo
nosso tempo e energia e cada vez menos nos interessamos pelo mundo lá fora.

É surpreendente ver que Jesus não agiu desta maneira. Em Mateus 9:36 lemos que
Ele andava pela cidade e vendo as pessoas compadecia-se delas porque eram como
ovelhas sem pastor. Eram pessoas aflitas. Aflitas por falta de trabalho, medo
da violência, sem acesso a uma boa escola e inseguras quanto ao dia seguinte.
Eram pessoas exaustas, talvez pela sobrecarga de trabalho, não ter tempo para o
lazer ou por causa dos problemas do dia-a-dia. O texto ainda fala que eram
pessoas sem rumo na vida. Pessoas com crises no casamento, problemas com os
filhos, na vida profissional, emocional e existencial.

Nós pastores precisamos seguir o exemplo de Jesus e olhar para a nossa cidade,
para o nosso bairro e ter uma proposta pastoral para estas pessoas aflitas,
exaustas e sem rumo na vida. Nosso ministério corre o perigo de ser exercido
basicamente dentro da Igreja. Creio que já está na hora de desenvolve-lo “fora
da igreja” também. De tanto se afastar do “mundo”, nossa linguagem vai se
tornando “igrejeira” e quem é de fora entende muito pouco do que falamos.

Creio que para evitar que nosso pastorado seja adulterado, precisamos buscar a
“paz da cidade” ( Jr 29:7 ) e para tanto é mister nos envolvermos com ela. Se
faz necessário construir relacionamentos, estabelecer amizades e se identificar
com as pessoas da comunidade, sejam crentes ou não. Nossa espiritualidade
pastoral não pode ser desenvolvida apenas dentro da igreja; precisamos, por
exemplo, fazer parte da sociedade amigos de bairro, visitar a Câmara Municipal,
o prefeito da cidade, nos envolver em atividades promovidas pelas pessoas da
vizinhança, etc… Imagine se Jesus fosse o pastor de sua igreja! Por onde você
acha que ele andaria ? Quem ele visitaria ? Se formos bem honestos, teremos que
duramente admitir que ele andaria pela nossa cidade, visitando asilos,
hospitais, lanchonetes, prisões, os vizinhos que moram próximos á igreja,
etc…Ele não resumiria seu ministério apenas aos salvos.

Nas palavras de Eugene Peterson “quando o trabalho que executamos para Jesus
como pastores esmaece nossa consciência do mundo, afasta dele o foco de nossa
atenção, colocamo-nos em competição contra ele, ou, simplesmente leva-nos a
evita-lo, podemos dizer que nossa ordenação foi adulterada”.

A título de aplicação daquilo que foi dito aqui, penso que temos que responder
a três perguntas:

1) Quais são as atividades que você tem durante a semana em que você se coloca
na presença de Deus na perspectiva de ovelha, de filho e não de um funcionário
da igreja?

2) Quem são as pessoas que estão sendo afetadas pela sua vida? Pela convivência
espiritual com você?

3) Quais os lugares, ambientes que você freqüenta e pessoas com quem se
relaciona que facilitam sua ação como sal da terra e luz do mundo?

Parte XXXIV
REFLETINDO
SOBRE LIDERANÇA CRISTÃ
Há um lugar
especialíssimo para a liderança na visão do Novo Testamento. Assim é que
Efésios 4. 11-16 apresenta a plataforma de liderança da Igreja Apostólica, e
1Timóteo 3.1-13 oferece o padrão para os ministérios pastoral (ali denominado
“episcopado”) e diaconal.

Parece ser o óbvio, mas a função do líder é liderar. Na Igreja de Cristo é a
liderança desse corpo, e detêm funções de liderança aqueles soberanamente
escolhidos para esse cometimento. Paulo usa a expressão “a graça que nos
foi dada” (Rm 12.6). Não é função de mando, mas de presidência a ser
exercida zelosamente, segundo a Versão da IBB (Rm 12.8). Nancy DUSILEK no seu
Liderança Cristã: a arte de crescer com as pessoas, cita o ex-reitor da
Universidade de Colúmbia, nos EUA, Dr. Nicholas Murray Butler que disse haver
três tipos de pessoas no mundo:
· as que não sabem o que está acontecendo,
· as que observam o que está acontecendo e
· as que fazem com que as coisas aconteçam.

São essas últimas que detêm o dom de liderança. Uma música popular dos anos 70
de forte mensagem diz que “quem sabe faz a hora, não espera
acontecer”.

FUNDAMENTO BÍBLICO DA LIDERANÇA CRISTÃ

Deus utiliza seres humanos como seu método. Assim aconteceu com Moisés, com
Josué e com os apóstolos. Um líder tem limitações, e Moisés reconhecia as suas
próprias (Ex 4.10), mas no seu aprendizado teve que aprender a delegar (Ex
18.27). Como parte do seu aprendizado, foi humilde bastante a ponto de atender
conselhos que lhe foram dados. Desse modo, treinou os líderes escolhidos dentre
critérios bem determinados: que fossem capazes, tementes a Deus, pessoas de
palavra e não avarentos (Ex 18.20,21). É um Josué, homem submisso ã vontade de
Deus (Js 6.2), hábil na distribuição de tarefas (vv. 6,7), e em dar ordens
claras (v.10). Quanto à liderança espiritual e à preparação de outros líderes
da igreja apostólica, há de ser lembrada a palavra de Paulo em 2Timóteo 2.2:
“e o que de mim ouviste diante de muitas testemunhas, transmite-o a homens
fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros”.

TEOLOGIA DA LIDERANÇA

Recorde-se de que liderança cristã é “o trabalho de despertar e conduzir o
ser humano para Deus e para tudo o que dEle recebeu”, conforme ensinou
MINERVINO. Se estamos falando de conduzir para Deus, falemos igualmente de fé,
pois sem essa virtude é impossível agradar a Deus (cf. Hb 11.6). O líder
cristão deve agir com fé, pois essa virtude determina o verdadeiro objetivo da
liderança cristã que é o ser servo (cf. Mt 20.28; Lc 22.27; Gl 5.13; 1Co 9.19;
Fp 1.1).

Além disso, pela fé a unidade da igreja é mantida. Não é demais dizer que a
Igreja é variada e multiforme. Romanos 16 o lembra com extrema clareza: havia
naquela comunidade cristã: mulheres, homens, judeus e gentios, livres, libertos
e escravos, jovens e idosos, todos agindo, reagindo e interagindo para o bem
comum e para o bem da causa de Jesus Cristo.

Pela fé, o líder é estimula a desenvolver seu potencial (1Co 11.1), e pela fé,
o líder cristão exerce a perseverança.

É observar o que diz 2Coríntios 11.24-31. Pelo próprio conceito da palavra
(leader>líder), o líder é um condutor, e desse modo leva os seus liderados
aos cometimentos propostos, e utiliza para tanto os dons dos seus liderados e
associados. Mas o líder cristão reconhece que não o faz por mérito próprio:
Deus está com ele (Ex 3.10-12; 1Co 12.4). Porque o serviço é inerente à função,
o líder é servo. É um com o seu povo.

Mais: o líder tem poder. Duas palavras gregas são elucidativas do conceito de
poder: kratos e dynamis. Kratos é “poder, autoridade”, especialmente
no sentido de “poder político, comando, autoridade de mando”.
Vocábulos como democracia, tecnocracia, gerontocracia veiculam a idéia de
“poder do povo”, “poder da técnica” e “autoridade dos
idosos”. Dynamis, por outro lado, traduz “força, potência”,
permitindo que se chegue ao universo semântico de “força ou espiritual,
atividade, energia”, e dando-nos vocábulos como dínamo, dinamite e
dinamismo.

Do líder cristão é esperada a dynamis como fundamento e veículo da sua autoridade
espiritual e da sua atividade de condutor de vidas. Lamentavelmente, observa-se
uma profusão de kratos em numerosos líderes com sede de manipulação, de
detenção de poder decisório que só evidenciam que, na falta de autêntica
autoridade espiritual, de dinamismo ungido, passam a buscar o controle, a
preeminência, assumindo, mesmo, determinados títulos “religiosos” com
o propósito de “autenticar” o poder de mando e comando. Lucas
12.41-48 apresenta uma palavra de Jesus Cristo a esse respeito.

QUALIDADES DO LÍDER

· No mínimo as seguintes qualidades podem ser destacadas. A primeira é ter
ideal, e, aliada a esta, ter visão: alma e olhar de condutor de vidas.

· A competência e o espírito de iniciativa, que é o “partir para a
ação”, são igualmente basilares.
· Segue-se a tenacidade aliada à serenidade.
· Em seguida, segurança e confiança,
· que, ao lado da simpatia, autenticidade e comunicação, formam o perfil do
líder cristão. O líder há de ser equilibrado, e Atos 6.3 descreve o equilíbrio
desejado: boa reputação (cf. 1Tm 3.2), plenitude do Espírito Santo, plenitude
de sabedoria e de fé (cf. v.5).

Funções do Líder

Previsão e visão que envolvem, sem sombra de dúvida, análise dos acontecimentos
do passado, das circunstâncias do presente e das tendências do futuro,
imaginação e rapidez de raciocínio.

Planejamento que envolve algumas análises preliminares: estabelecimento de
objetivos, escolha dos meios para a realização do planejamento, controle da
situação e avaliação do realizado. Outra importante função da liderança é a
defesa. E dentro disso, vale ressaltar, a postura apologética diante das
ameaças à doutrina, às posturas e aos valores da instituição.

Parte XXXIV
REVITALIZANDO
A IGREJA

Introdução:
Aonde chegaremos como igreja se continuarmos insistindo em ser apenas o que
temos sido e em praticar somente aquilo que temos praticado nestes últimos
anos?

Essa pergunta estabelece a relevância do presente trabalho, que se justifica
quando confrontamos o projeto da maioria de nossas igrejas com o potencial das
igrejas batistas; o compromisso dos membros no exercício de cargos e no
sustento da igreja com a indiferença reinante, expressa na média Brasil batista
de integração que é de 40% apenas; a necessidade de revitalização da igreja
para a sobrevivência no mundo globalizado com o tradicionalismo embotador
imposto por um seguimento de líderes denominacionais ideologicamente
ultrapassados e quando confrontamos a gradativa contextualização denominacional
em seu interminável repensar, com o arcaísmo saudosista e excludente praticado
por aqueles que insistem em não pensar a batistandade.

Tais confrontações se materializam na leitura do perfil traçado de muitas de
nossas igrejas, tomando-se por base o alto índice de exclusões, o número de
dizimistas fiéis, a média do número de membros e a incontável massa de líderes
neopentecostais oriundos de nossa denominação.
Se analisarmos muitas de nossas igrejas sem ufanismo e sem o amor platônico que
nos foi inculcado, temos que a admitir que a situação é caótica. Precisamos
estudar mais as nossas doutrinas, deveríamos corre o risco de rever os nossos
posicionamentos doutrinários, carecemos de uma reformulação da proposta de
educação teológica e prosseguir repensando a denominação, mas creio que devemos
urgentemente buscar a revitalização de nossas igrejas, para a retomada dos
ideais de Cristo para a igreja e a manifestação da glória de Deus em nossos
arraiais.

Este momento, em Eclesiologia, é a leitura hermenêutica do traçado histórico da
igreja e a constatação da situação real em que nos encontramos, o que realmente
permite que a igreja redirecione seu foco e retome os propósitos de Deus para o
seu ministério e para o cumprimento de sua missão evangelizadora.
Antes que a igreja se prostre em nostalgia e desemboque nos questionamentos que
provocam a rotura que tem como fim último o desaparecimento da igreja. Antes
que a perda da identidade e da relevância no mundo como igreja ocorram, devemos
avaliar as nossas convicções doutrinárias, os nossos objetivos e a nossa estrutura
organizacional. Devemos revitalizar.
Revitalizar é reafirmar tudo aquilo que é bíblico, é retomar os princípios
bíblico-teológicos desprezados e é reordenar a estrutura, o modelo e as
estratégias para que não sejamos vitimados por uma nulidade eclesial
devastadora. A igreja que busca a revitalização tem o privilégio e o
compromisso de prosseguir sempre vitoriosa.

I – Missão e Visão: ferramentas para a revitalização da igreja

Se é nosso desejo revitalizar a igreja para augurarmos relevância ministerial
na proclamação do evangelho, precisamos desenvolver uma genuína consciência de
missão que propicie uma visão objetiva do que somos e do mundo para o qual
pregamos.
Qualquer instituição, principalmente a igreja, se não sabe ao certo o que deve
fazer e se não tem noção clara das estratégias possíveis para fazer o que deve,
sucumbe a historicidade e torna-se dependente do tradicionalismo conservador de
nulidades e acalentador da nostalgia petrificante.
Se esperamos ser igreja viva para cumprirmos o nosso papel no reino de Deus,
devemos elaborar a nossa declaração de missão, que nos manterá atrelados a
Palavra de Deus, bem como a nossa declaração de visão, que direcionará os
nossos olhos sempre para o ideal de Cristo para a igreja.
Aqui, cabem duas perguntas; o que é a nossa missão e qual seria, a luz dessa
missão, a nossa visão? Vejamos, a partir de uma conceituação teológica, as
devidas respostas. A primeira resposta é sobre a missão.

* Missão é a definição objetiva e clara da nossa identidade como igreja local,
independente da Denominação, buscando compreender o nosso corpo de doutrinas, o
que cremos, e a nossa missão prática no mundo, o que devemos fazer.

É essa consciência de missão, quando bem definida, que estabelece a nossa
identidade, quem somos, e que determina a qual denominação nos filiar. No nosso
caso, fica mais fácil por que somos batistas e não devemos prescindir dessa
identidade denominacional, mas carecemos de saber e de definir conceitualmente
o que é ser batista no terceiro milênio. O que a CBB busca fazer com a
aprovação do parecer do GT Repensando na última Assembléia convencional.

Agora vejamos a resposta sobre visão.

* Visão é, a partir da compreensão de nossa realidade efetiva, a imagem futura
que fazemos do lugar onde pretendemos chegar como igreja e a concepção
filosófica de como vivemos como igreja de Jesus no mundo.

Nossa visão do mundo e de nós mesmos como igreja é determinada e condicionada
pela nossa consciência de missão. Se não sabemos quem somos, o que cremos e o
que devemos fazer, não temos o que olhar ou, sequer, para onde direcionar os
nossos olhos.

Temos um verdadeiro desafio missionário no Brasil e no mundo. Não podemos
acreditar que está tudo muito bom, basta olharmos para o tempo de permanência
da igreja batista no País e confrontarmos com o número de membros que somamos.
Mais de 120 anos de igreja contra aproximadamente um milhão de batistas,
conforme as últimas estatísticas denominacionais. Um número inexpressivo se
comparado a densidade demográfica verificada no censo 2000 e divulgada pelo
IBGE.

Precisamos ou não de revitalização? Carecemos ou não de redescobrir a nossa
missão? Necessitamos ou não de restaurarmos a nossa visão? A resposta para
estas questões é um altissonante e retumbante sim! Não podemos negar a
necessidade de restaurarmos a nossa visão para que obtenhamos vitória de Deus
no cumprimento da nossa missão. Negar a necessidade de revitalização é como
usar antolhos históricos e eclesiológicos.

Nossa missão precípua é a evangelização, mas para levarmos a cabo esta
grandiosa tarefa carecemos de uma previsão dotada de discernimento e alicerçada
na compreensão do que deveríamos ter feito como igreja de Cristo nestes mais de
120 anos de história. Isso é ter visão.
Na verdade, nos deparamos com a premente necessidade de definirmos as nossas
reais intenções ministeriais a fim de que adquiramos características
eclesiológicas e expressão cúltica puramente bíblicas, bem como uma identidade
denominacional definitivamente Batista, não tradicionalista.

II – Declaração de Missão e de Visão cabíveis para a revitalização da igreja

Acreditando serem positivas as respostas às questões colocadas, buscamos nos
arraiais batistas as respostas possíveis e as apresentamos no presente
trabalho, no afã de definirmos nossa declaração de missão, bem como a nossa
declaração de visão. Vale ressaltar a necessidade de adaptação à realidade da
igreja local, no caso de se considerar apropriada a presente propositora.
Tomando por base o livro de Darrell Robinson, que apresenta a nova análise
bíblica dos dons espirituais no contexto Batista, visto que desejamos estar
afinados com a batistandade, definimos a nossa declaração de missão e de visão.

Sobre a missão, podemos asseverar que:

* A missão da nossa igreja é evangelizar os pecadores, capacitando-os, após a
conversão, como santos de Deus, para a exaltação de Cristo.

Não há mistério nem inovações. A nossa missão só pode ser baseada em textos
como Mateus 28.19 e 20 e Marcos 16.15, que apresentam a Grande Comissão
delegada por Jesus e ainda, em textos como Lucas 24.44-48 e João 20.21, que
determinam a formatação missiológica designada pelo próprio Cristo para a sua
igreja.
Esta declaração de missão proporciona uma vida eclesiástica equilibrada e
contém tudo que é essencial para o fortalecimento doutrinário, para a
maturidade espiritual e para o crescimento numérico da igreja. Logo, essa
missão promoverá relevância histórica e ministerial para a igreja, incitando
seus membros e sua liderança à constante renovação do entendimento de si mesma,
de suas doutrinas e de suas estratégias ministeriais. A igreja deve se permitir
a uma permanente autocrítica e praticar uma continuada hermenêutica histórica,
se deseja cumprir sua missão.

Com relação a visão, ainda tomando por base Darrell Robinson, afirmamos que:

* Nossa visão é ser Corpo Vivo de Cristo, com todas as suas implicações,
vivendo, coletiva e individualmente, sob sua autoridade e seu senhorio,
cumprindo a nossa missão evangelizadora com autoridade espiritual e relevância
sociocultural, exercendo influência ético-cristã na sociedade.

Essa visão está de acordo com os princípios do Novo Testamento e vem do Cabeça
da igreja, Jesus. É isso que podemos deferir de textos como Mateus 16.18, que
apresenta a igreja como poderosa e vitoriosa no embate contra o inferno, e de 1
Pedro 2.1-5, que nos posiciona como casa espiritual e ministradores do
sacerdócio universal praticado em genuína espiritualidade, a fim de que
obtenhamos contundente autoridade testemunhal em Cristo.

Temos o mesmo Senhor e Cabeça, Jesus, Colossenses 1.18. É a cabeça que impõe a
visão. A imagem visual se projeta e se define a partir da construção da imagem
mental que se faz. O tamanho da igreja é diretamente proporcional a visão que
seus membros têm de Deus e ela cumpre sua missão na mesma proporção em que crê
no poder de Deus ainda atuante no mundo.

III – Antíteses indispensáveis para a revitalização bem-sucedida

É extremamente produtivo definir a declaração de missão e de visão, ou mesmo
redefini-las, se entendemos que se faz necessário, mas este labor impõe
antíteses entre o tradicionalismo da batistandade e a tradição bíblica que deve
ser abraçada pela igreja de Cristo denominada Batista.

Muitas vezes, lidar com estas antíteses não é nada agradável e exige uma
firmeza doutrinária hercúlea e uma identidade denominacional capaz de
intercambiar relacionamento sem se permitir ser influenciado. Diversos líderes
postergam ao máximo a decisão de iniciar a revitalização da igreja na tentativa
de evitar os desgastes decorrentes destas antíteses, muitas vezes lamentando,
ao final, a perda de seus membros para a igreja neopentecostal que se acampou
nas redondezas.

Em síntese, a questão reside na compreensão da diferença entre o que é ser uma
Igreja Tradicional ou uma Igreja Tradicionalista, visto que a maioria dos
nossos membros, e até mesmo boa parcela dos nossos líderes, não sabe a
diferença efetiva entre uma coisa e outra.

Tradição é ato de transmitir ou de entregar. É a transmissão de valores
espirituais através das gerações. Filosoficamente, tradição é a herança
cultural transmitida de uma geração para outra, visando preservar as crenças. É
o único reconhecimento e a única garantia da verdade. Em Teologia, tradição
consiste em sabedoria e discernimento quanto a validade das instruções e as
noções religiosas transmitidas de geração para geração.

Na Bíblia, vemos em 2 Tessalonicenses 2.15 e em 1 Coríntios 11.2 indicações
para se preservar a tradição, onde a palavra no original significa preceitos
doutrinários e está condicionada a doutrina dos apóstolos citada em Atos 2.42.

A doutrina dos apóstolos nada mais é do que os ensinamentos espirituais
transmitidos por Jesus, que são verdadeiros e que estabelecem os parâmetros e a
validade do cristianismo. Não há na Bíblia qualquer referência a tradição
denominacional, até porque denominação não existia no período da Igreja
Primitiva.

A primeira Denominação Cristã surgida foi o Catolicismo Romano, no século IV,
que monopolizou a igreja até o movimento de Reforma Protestante, no século XVII.

Tradicionalismo é aferro ou apego, ou seja, amor exagerado aos usos antigos.
Filosoficamente, tradicionalismo é a defesa explícita da tradição no âmbito do
espírito romântico, classificando como tradição o que se entende ser verdadeiro
e não necessariamente a verdade.

Em Teologia rejeita-se o tradicionalismo devido a sua origem no iluminismo e o
seu ponto culminante, a Revolução Francesa, visto que tais movimentos foram uma
tentativa idealista de se devolver à Igreja Católica Romana a absoluta autoridade
sobre as questões religiosas.

No contexto bíblico, tradicionalismo é um mal devastador que afasta as pessoas
do ideal de Deus para escravizá-las com rudimentos humanos ou para enganá-las
com sutilezas diabólicas, Marcos 7.1-13 e Colossenses 2.8-15.
Jesus combateu a tradição dos anciões, escribas e fariseus, que impunham ao
povo 365 proibições e 250 mandamentos, acusando-os de subjugar o povo com um
fardo extremamente pesado que nem mesmo eles suportariam carregar, Mateus
23.1-7.

No contexto da igreja que busca a revitalização e que está disposta a se
permitir as antíteses necessárias na avaliação de sua prática eclesiológica e
cúltica, a diferença fundamental entre tradição e tradicionalismo se identifica
no quadro que se segue
Este quadro reflete algo que já ouvi do próprio Pr. Ed Kivitz em assembléias
convencionais: “Tradicionalismo é a fé morta dos vivos. Tradição é a fé
viva dos mortos”.

Depois de se permitir a estas antíteses, a pergunta talvez seja; o que vai
mudar realmente? A resposta não é simples e nem resumida na palavra tudo. Na
verdade, as mudanças reais acontecerão, primeiro, por que a igreja terá uma
identidade denominacional e doutrinária própria, não o perfil do pastor.
Segundo; na formação da liderança, que será mais efetiva e sempre direcionada
pelo serviço cristão, e não pela iconografia muitas vezes perniciosa. Terceiro,
doutrinariamente, nada. Os ajustes doutrinários possíveis são os promovidos
pela CBB, como no caso do Espírito Santo. A igreja apenas se adequará a estes
ajustes para permanecer fiel a Declaração Doutrinária da Convenção Batista
Brasileira.
Em quarto lugar, no que diz respeito a Eclesiologia, nada mudará também. A
Eclesiologia trata dos postulados filosóficos sobre o ser igreja, o que não se
pode prescindir como Batistas. As mudanças se efetivarão na expressão cúltica,
na forma do praticar o culto, que será ajustado ao Texto Sagrado, renunciando
tradicionalismo histórico e promovendo mudanças radicais de vida nos membros da
igreja. A igreja se tornará mais contextualizada e menos ritualista; mais
informal e menos eclesiástica, visto que bater palmas, utilizar bateria e
guitarras, bem como cantar hinetos ou fazer coreografias nas músicas, não são
temas contemplados no estudo da Eclesiologia Batista.
IV – Objetivos gerais para uma igreja de visão no cumprimento de sua missão

Para que a igreja tenha a motivação correta, após a revitalização, deve-se
estabelecer os objetivos gerais que a impulsionarão e que indicarão o seu modo
peculiar de ser igreja viva na adoração, na educação cristã, na comunhão, nos
ministérios e na proclamação, fazendo o que todas as igrejas devem fazer, porém
do jeito e da maneira mais apropriada para a realidade sociocultural na qual
interage.
Tendo definido, como batistas, a Declaração de Missão e de Visão, pode-se então
estabelecer os objetivos gerais que nortearão a eclesiologia, a expressão
cúltica, as estratégias ministeriais e a identidade denominacional levados a
efeito pela igreja revitalizada.
Vale ressaltar que a motivação da igreja deve ser a consciência objetiva quanto
a missão e quanto a visão futura que se projeta do quanto se deseja alargar os
horizontes do reino de Deus a partir do ministério prático da igreja. Em outras
palavras, a motivação da igreja revitalizada deve derivar dos objetivos gerais
definidos a partir da consciência de missão e da visão alargada em seus
horizontes.

Podemos agora asseverar que os objetivos gerais de uma igreja revitalizada são
os seguintes:

4.1 Instrução bíblica promotora de maturidade cristã e autoridade testemunhal –
Deve-se desenvolver um programa de educação cristã com embasamento bíblico
sólido, ensinando aos membros da igreja as verdades de Deus em sua Palavra,
capacitando-os a vivenciar o quotidiano conforme o propósito de Deus, Josué
1.8; João 5.39-47 e Tiago 1.21-24.

Somente instrução bíblica com esta perspectiva pode oferecer à igreja
referências claras de ensino bíblico profundo que se conciliem com uma unção
incontestável na vida comunitária do cristão.

4.2 Consciência ético-cristã para o exercício do sacerdócio universal e do
ministério eclesiástico – Deve-se levar os membros da igreja ao entendimento de
que todos somos sacerdotes para Deus, o que nos exige um padrão ético e moral
elevados, pois representamos o povo diante de Deus, e uma dedicação extremada
ao serviço cristão na igreja, 2 Coríntios 5.14 e 15, Gálatas 2.20, Tito 2.11-14
e 1 Pedro 2. 9-10.
À medida que os cristãos trabalharem nas igrejas conscientes dos compromissos
do sacerdócio e sabedores dos seus Dons espirituais para o ministério, não
trabalharão mais por suas próprias forças, mas o Espírito Santo trabalhará
neles e através deles.

4.3 Evangelismo responsável e baseado no testemunho pessoal – Praticar o
evangelismo responsável é, certamente, não depender de campanhas ou de
programas especiais, mas motivar a cada cristão a uma ação pró-ativa na
evangelização, seja em casa, no trabalho ou na rua, para que quando o visitante
chegar a igreja já tenha no seu coração o interesse pelo evangelho, despertado
pela amizade e pela convivência com o cristão, Mateus 3.8-9 e 28.19-20, Lucas
24.45-48, Atos 1.8, 2 Timóteo 4.1-2 e 1 Pedro 3.14-16.
A vivência prática da fé, com dedicação, com amor extremado pelos pecadores e
com entusiasmo contagiante, é fator determinante na evangelização. Uma igreja,
por mais ortodoxa que seja e por melhor que seja a sua doutrina, mesmo que
tenha um conhecimento bíblico apurado, dificilmente experimentará crescimento
real se não aprender a vivenciar e a transmitir a outros a sua fé de forma
pessoal e contagiante.

4.4 Adoração cristocêntrica que propicie verdadeiro louvor em culto vivo – Isto
é o que nos permite libertação da preocupação escravista com a liturgia ou com
os estilos, motivando-nos à participação efetiva e vívida na adoração, a partir
da convicção de que Deus se faz presente em nossas celebrações. É a igreja se
tornar sensível à ação do Espírito Santo que a guiará na exaltação a Cristo e
na ministração de um culto vivo, santo e agradável a Deus, Salmo 92.1-4; Isaías
38.17-20; Sofonias 3.17; Romanos 12.1; Apocalipse 5.11-12.
A verdadeira adoração nos conclama a declararmos a superioridade absoluta de
Deus, bem como a pequenez do adorador. Adoração é um mistério. É um exercício
do espírito humano no encontro pessoal com Deus, no qual cantamos, glorificamos
e magnificamos ao Senhor por sua santidade e por sua ação salvífica em nosso
favor. Adorar é abrir o coração ao amor de Deus e render a nossa vontade aos
propósitos dele.

4.5 Comunhão dinâmica vivenciada em amor, sinceridade e alegria produtiva –
Isto é a decretação do fim do preconceito e da segregação na igreja. É a
compreensão efetiva de que todos somos um. É a prática da empatia e da
mutualidade na consolação, na intercessão confidente e na ministração da bênção
àquele que foi vitimado pelas amputações existenciais ou pelas confrontações
espirituais, Atos 2.44-47 e 4.32-35; Romanos 12.9-18, 13.8 e 15.1-7; 2 Coríntios
1.3-5; Colossenses 3.12-17; Hebreus 10.19-25 e 1 João 4.18-21.

A igreja que vivencia este tipo de comunhão valoriza as pessoas e torna seu
ministério muito mais efetivo, visto que são satisfeitas as necessidades do ser
integral. A prática do verdadeiro amor dá à igreja um brilho divino e uma
alegria que se intensificam nos relacionamentos interpessoais de seus membros.
4.6 Fidelidade voluntária e incondicional na consagração de vidas e no sustento
financeiro da obra – Isto é o entendimento pessoal de cada membro no fato de
que é Deus quem nos sustenta e de que a contribuição financeira é apenas um
reflexo da dedicação amorável de nossas vidas ao Senhor. É saber que conversão
e senhorio estão amalgamados e que a insistência em não dizimar e ofertar é confissão
objetiva de incredulidade, 1 Crônicas 29.10-17; Ageu 2.8-9; Malaquias 3.7-12;
Atos 2.45 e 4.34-35 e 2 Coríntios 9.6-14.

Não se pode permitir a crença em uma dispensação automática ou mecânica de
bênçãos para os contribuintes. Não se pode comprar o Dom de Deus, Atos 8.20. A
oferta deve ser feita com fé e pela fé, como devoção amorosa ao Senhor e à sua
obra, bem como ao seu povo. Esta é a oferta que propicia bênçãos incontáveis
para o cristão. Em vez de encararmos a contribuição como uma obrigação desagradável
e penosa, devemos compreender que a dedicação de vidas expressa na fidelidade
nos dízimos e ofertas é um fértil meio de graça na igreja, pois por intermédio
dela o Espírito Santo ministra graça e prosperidade à igreja.

4.7 Crescimento integrado da igreja a partir do equilíbrio entre quantidade e
qualidade – Isto é o mesmo que dizer que não se deve estar preocupado com o
número de membros no rol, com o patrimônio ou com a conta bancária. A
preocupação certa é com a qualidade da vida espiritual dos membros da igreja.
Se para ter dez mil membros, uma catedral, um edifício anexo moderno e
funcional, um palacete pastoral, uma frota de veículos e uma equipe ministerial
bem remunerada tivermos que prescindir da ética cristã e do embasamento bíblico
continuaremos pequenos e pobres, porém, fiéis ao Senhor Deus, Levítico 19.1-5;
Salmo 15; Mateus 10.7-10; Atos 2.46-47 e 9.31; Tito 2.11-15; 1 Pedro 2.9e
Apocalipse 2.19-21.

A maior contribuição que a igreja tem para oferecer ao mundo é o evangelho de
Cristo e seu poder libertador, por isso, jamais haverá crescimento verdadeiro
na igreja se nos aprisionarmos ao poderio concedido pelo número de membros no
rol ou pelo saldo financeiro e patrimonial, não dando atenção às questões mais
profundas que afetam a humanidade em decorrência do aviltante paradoxo entre o
ser e o ter, e entre o saber e o fazer.

4.8 Identidade doutrinária e denominacional definidas a partir do Texto Sagrado
e não pelo conservadorismo histórico ou tradicionalismo – Isto é o mesmo que
dizer que a igreja deve querer ser batistas, mas que não aceita um doutrinismo
antibíblico. Deve-se querer ser batista, mas principalmente deve querer a
liberdade para praticar os ensinamentos da Palavra de Deus, sem receios da
crítica mordaz da batistandade. A Declaração Doutrinária dos Batistas preceitua
que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, mas deve-se desejar também
que a Palavra de Deus seja a única regra de conduta, mesmo que para isso se
tenha que renunciar a história, que se reconhecer erros doutrinários
historicamente defendidos ou que se quebrar alguns paradigmas denominacionais,
Marcos 7.5-9, Atos 2.41-42, Colossenses 2.8-10 e 2 Tessalonicenses 2.15.

Sempre que o tradicionalismo denominacional se sobrepõe a doutrina bíblica ou
que o tradicionalismo histórico se torna ineficiente diante dos propósitos de
Deus, é necessário substituí-los ou desmascará-los a luz da Palavra de Deus, o
que nos exige uma reflexão crítica sobre o denominacionalismo a luz da Bíblia
Sagrada.

4.9 Constante autocrítica e permanente avaliação do contexto histórico, da
expressão cúltica e da estrutura organizacional – Neste objetivo reside a
probabilidade de vitória. Quando se estabelece a autocrítica e a constante
hermenêutica da própria realidade, do que se faz e de como se fazem as coisas,
a luz da Palavra de Deus, evita-se a petrificação das estruturas, o arcaísmo
dos estratagemas, o embotamento das idéias e o esvanecer dos ideais. Evita-se a
tradicionalização suicida da igreja, bem como a mortificação da consciência cristã
no fazer igreja.

A constante autocrítica e a avaliação permanente exigirá uma continuada
revitalização, outorgando cognição no pensar a igreja, bem como saúde e
maturidade espirituais na prática efetiva do fazer igreja, Mateus 26.20-23;
Romanos 12.3 e 1 Coríntios 11.28-32.

A prática constante da autocrítica e da interpretação investigativa dos
comportamentos da igreja revitalizada permite o desmascarar as vacas sagradas,
como denomina George Barna. Tudo o que somos e fazemos como igreja deve estar aberto
à análise e à crítica. Não há pessoa, programa, estrutura ou idéia que esteja
fora do alcance de uma avaliação justa e alinhada com o propósito de Deus para
a igreja. A insistência de uma igreja em não se submeter à autocrítica e à
hermenêutica imparcial, negando-se a um processo de avaliação justo e
construtivo, é prova inconteste de sua vulnerabilidade à deterioração e à
petrificação motivadas pela maldição da negligência preceituada em Jeremias
48.10.

Conforme ressaltamos anteriormente, identificamos nestes nove objetivos gerais
os cinco propósitos eternos de Deus para a igreja, que são: louvor,
evangelismo, discipulado, ministério e comunhão. Estes propósitos sintetizam o
Grande Mandamento e a Grande Comissão de Jesus para a igreja, conforme Mateus
22.37-40 e Mateus 28.19 e 20, que foram praticados de forma efetiva e vitoriosa
pela Igreja Primitiva, Atos 2.37-47. São estes os mesmos propósitos que devem
ser perseguidos e praticados pela igreja que busca revitalização,
independentemente da tradição denominacional, se pretendemos relevância
testemunhal e autoridade espiritual no cumprimento da nossa missão.

Pode-se inovar no fazer igreja sem se alterar a essência do ser Igreja, se há
comprometimento com o Grande Mandamento e com a Grande Comissão, o que fará da
igreja revitalizada uma grande igreja.

Conclusão

Finalizando esta proposta de trabalho com vistas a revitalização da igreja,
deixo como sugestão a realização de estudos amplos e de debates francos, porém
respeitosos, para que se defina o seguinte:

a) O tipo de igreja que se pretende ser.
b) A expressão cúltica que será praticada.
c) O referencial de ética que a igreja perseguirá.
d) O tipo de mensagem que se proclamará.
e) O nível de compromisso exigido dos membros da igreja.
f) O padrão de relacionamento interpessoal e de comunhão que se desenvolverá.
g) O método de evangelização que será usado.
h) Qual a periodicidade da avaliação.

Sem tais definições, penso, é impossível levar adiante a revitalização da
igreja que carece de resgatar sua identidade doutrinária e denominacional,
voltando a sentir-se uma Igreja Viva que proclama a salvação e a libertação em
Cristo em meio a esta geração corrompida e perversa, Atos 2.40.

Na verdade, o presente trabalho visa embasar a assertiva de é que possível
promover a revitalização da igreja de maneira bíblica, seguindo os preceitos de
Jesus e desenvolvendo uma perspectiva correta de renovação espiritual e
eclesiológica, bem como um método prático para se introduzir as mudanças
necessárias para a contextualização da igreja.

O relato bíblico nos incentiva a perceber a dialética inevitável e continuada
entre a identidade eclesial e o chamamento para a missão, isto é, entre o ser e
o fazer igreja. Por isso, nenhuma igreja que afirme compromisso de missão conforme
os postulados bíblicos e o mandamento de Jesus pode esquecer que o cumprimento
da missão acontece em meio a difícil dialética entre o conservar a identidade
doutrinária e o renunciar a tradição histórica.

Uma igreja verdadeiramente viva e motivada pela missão não tem receios de
ultrapassar barreiras, de quebrar paradigmas, de romper as fronteiras e de
alargar seus horizontes. Não se pode ter medo de se praticar culto vivo, santo
e agradável a Deus. Não se pode ter fobia de evangelismo responsável, de
discipulado biblicamente instrutivo, de sacerdócio universal e de comunhão
dinâmica em amor. Pois estas são as características distintivas da igreja de
Jesus Cristo no Texto Sagrado.

Finalmente, desejo ressaltar que a igreja, como Corpo Vivo de Cristo, não é
mera sociedade de pessoas humanas. Se considerarmos apenas a tradição histórica
e os pressupostos denominacionais para sermos e fazermos igreja, jamais
compreenderemos o que realmente significa ser o povo de Deus que em Cristo é
chamado para as boas obras. As denominações são expressões sociológicas. A
diferença básica entre o ser e o fazer igreja e uma denominação reside na
comunhão com Cristo, que somente a igreja pode desenvolver. Não existe
Eclesiologia, o fazer igreja, dissociada da Cristologia, do ser igreja.

Pense em tudo isso e ore pedindo a Deus discernimento espiritual e
direcionamento para a decisão que você precisa tomar juntamente com a sua
igreja para a revitalização. Abrace este projeto, se considera-lo procedente e
biblicamente correto, leve a sua igreja entender o que é e a desejar a
revitalização. Trabalhe para que você, juntamente com sua igreja, seja
despertado por Deus para os nove objetivos aqui propostos. Não critique ou
refute sem estudar e orar. Permita-se a Deus e ao Espírito Santo para que estes
objetivos sejam realidades efetivas em sua vida, em sua igreja e em nossa
denominação.
Sejamos Igreja, Corpo Vivo de Cristo. Amém.

Parte XXXV
UM PROJETO
DE REVITALIZAÇÃO PARA A IGREJA LOCAL

O presente trabalho é uma
tentativa de se apresentar, de modo prático (assim esperamos), alguns
princípios fundamentais de revitalização da igreja local, visando seu
crescimento numérico. Como ficará evidente, a nossa intenção não é lidar com
modelos de igrejas propriamente dito, porque acreditamos que cada caso é um
caso, mas nos basearemos em princípios gerais e em nossa experiência pastoral.

1. A REVITALIZAÇÃO DA LIDERANÇA

Não são poucas as igrejas que conhecemos que nos obrigam a fazer uma inevitável
pergunta: “Onde está a liderança?”. Um líder não é capaz somente pela
sua boa reputação dentro e fora da igreja, o que é deveras significativo. Mas
também é preciso que ele capacite e equipe novos líderes, que por sua vez
capacitem e formem outros líderes.

A pessoa do pastor é fundamental para a formação de uma liderança capaz e
capacitadora. Existe boa literatura sobre administração eclesiástica que
ajudarão o pastor neste empreendimento. Uma das funções do pastor é equipar os
santos. Investir na formação de uma boa liderança é garantir o sucesso da
igreja local. Para isso, a liderança deve ser constantemente revitalizada,
receber novas orientações, a fim de contribuir na formação de novos líderes.

O pastor precisa delegar e distribuir tarefas. Um pastor centralizador
compromete seu ministério e o futuro de sua própria igreja. Um pastor que
pretende levar a carga sozinho não conseguirá ir muito longe. O que não falta
nas igrejas são pessoas que querem trabalhar, mas não sabem como fazer. Pastor,
ensine sua igreja a fazer. Confie no potencial de seu rebanho. Os resultados
serão simplesmente surpreendentes!

Os líderes de igrejas que crescem concentram seus esforços em capacitar outras
pessoas para ministérios específicos. Líderes capacitadores formam
colaboradores, e não meros “ajudantes” ou “marionetes” com
o intuito de alcançar seus próprios interesses. Pelo contrário, a pirâmide de
autoridade é invertida: os líderes ajudam cada cristão de sua igreja a chegar à
medida de plenitude intencionada por Deus para cada um. Eles capacitam, apóiam,
motivam e acompanham a todos individualmente para se tornarem aquilo que Deus
tem em mente; a saber, a varonilidade do Corpo de Cristo. “Líderes que se
vêem como instrumentos para capacitar outros cristãos e levá-los à maturidade
espiritual, descobrem como esse aspecto leva ‘por si mesmo’ ao
crescimento” (C. A. Schwarz, O crescimento natural da igreja, p. 23). Em
vez de fazer a maior parte do trabalho, esses líderes investem a maior parte do
tempo na formação de novos líderes através do discipulado e do compartilhamento
de tarefas. Assim, a energia investida por eles pode multiplicar-se quase
infinitamente.

Sendo assim, como revitalizar uma igreja cuja liderança está cansada e os
liderados insatisfeitos? Em nossa pouca experiência temos aprendido que o
segredo do sucesso está no investimento. Invista-se na liderança e na formação
de novos líderes e a igreja como um todo reagirá positivamente.

Quando fui pastor em uma das igrejas da Grande São Paulo, pude perceber um
pouco da força do que acabamos de dizer. Pegamos uma junta diaconal debilitada
e sem muito compromisso. Aos poucos (ir devagar é fundamental quando se chega
em uma nova igreja) fomos renovando a junta diaconal, trocando os
“irrecuperáveis” por novos. Investimos na nova liderança, viajamos com
eles para um encontro de diáconos no Rio de Janeiro, recebemos orientações
específicas de líderes de juntas diaconais que estavam dando certo e em pouco
tempo a junta diaconal de nossa igreja se tornou uma das mais atuantes da
Grande São Paulo. Os diáconos reconquistaram a credibilidade da igreja, e a
mesma se colocou à disposição para ajudá-los no que fosse preciso. O que seria
daquela igreja se todos os setores fossem revitalizados? Infelizmente não foi
possível continuar ali para ver os resultados.

Minha proposta é: 1) Quando uma liderança está “viciada” é preciso
ser trocada. Geralmente não vale a pena tentar recuperá-la. É perda de tempo.
Tem que ser trocada. Aos poucos, mas precisa ser trocada. Revitalização nem
sempre significa tentar recuperar o que não tem jeito. Mudança também é
revitalização. Existe muita gente boa no ministério errado. 2) Tem muita gente
nova na igreja que daria um bom líder. Meu ex-professor, Dr. Elias Dantas,
disse acertadamente que “o maior fenômeno de revitalização na igreja é o
crente novo”. E ele sabia o que estava dizendo porque levava isso a sério
nas igrejas que pastoreava.

Mas como preparar uma liderança capaz e capacitadora, verdadeiramente
revitalizada, sem que haja frustrações no futuro?

1º) Os ministérios devem ser orientados pelos dons

Acredito que muitos dos problemas de uma igreja, quer sejam de ordem
espiritual, quer sejam de ordem administrativa, seriam resolvidos com mais
facilidade, ou até mesmo não existiriam, se todos os membros da igreja
descobrissem e usassem seus dons ministeriais. Orlando Costas (Compromiso y
misión, p. 62) acertou quando disse que “o crescimento da igreja depende
de uma eficaz mobilização de seus membros”. E esta
“mobilização”, a meu ver, só é possível quando os membros de uma
igreja estão no lugar certo.

Schwarz faz uma declaração alarmante: “De uma pesquisa que fizemos com
1600 cristãos ativos em suas igrejas, no ambiente de fala alemã, na Europa,
descobrimos que 80% deles não sabem os seus dons espirituais”. Será que o
resultado da pesquisa seria diferente se fosse feita com 1600 cristãos ativos
nas igrejas do Brasil? Acredito que não e digo por quê. Ministrei sobre o tema
na região sul do País durante quase um ano, e pude constatar que o resultado da
pesquisa não foi diferente.

Além de outros fatores indispensáveis para o crescimento da igreja, como
veremos adiante, é fundamental que os ministérios sejam orientados pelos dons.
Novos líderes devem ser formados a partir de seus dons.

Existem bons livros que poderão ajudar na formação de ministérios orientados
pelos dons. Em português há pelo menos dois que recomendo: Quem é você no Corpo
de Cristo?/ Lida E. Knight. Campinas:
Luz Para o Caminho, 1994 e O teste dos dons/Christian A. Schwarz. Curitiba:
Editora Evangélica Esperança, 1997.

2º) Formar discípulos para serem discipuladores

O discipulado que gira em torno de si mesmo está fadado ao fracasso. A
preparação de um discípulo que não tem como objetivo a formação de outros não é
bíblica. Um discípulo deve ser preparado para discipular e formar novos
discípulos, que por sua vez discipularão e formarão outros e assim
sucessivamente. Isto sim é bíblico, pois foi a tônica do ministério terreno de
Jesus. Para isso preparou seus discípulos.

A ênfase da Grande Comissão foi: “fazei discípulos”.

Infelizmente, o que temos visto na prática, em termos de discipulado, é a
preparação que visa o crescimento espiritual do discípulo e nada mais que isso.
Toda ovelha deve ser preparada para produzir outras ovelhas. Os discipuladores
não devem perder isso de vista se realmente desejam formar líderes capazes.

E quem, por assim dizer, daria o ponta pé inicial do discipulado? Como pastor,
entendo que os próprios pastores deveriam iniciar o processo de discipulado,
por uma simples razão: Uma das principais atribuições do pastor é instruir,
orientar e superintender as atividades da igreja, a fim de tornar eficiente a
vida espiritual do povo de Deus.

<B< ECLESIAIS ESTRUTURAS DAS REVITALIZAÇÃO A>

O que muito tem contribuído para o não crescimento, e até decréscimo na
membresia de algumas igrejas, são aquelas estruturas enrijecidas pelo
tradicionalismo e, portanto, não funcionais. Duas coisas, pelo menos, são
necessárias para que as estruturas de uma igreja se tornem funcionais.

1º) A quebra de paradigmas

Paradigma é uma palavra de origem grega que significa “modelo” ou
“padrão”. Os paradigmas podem ser definidos como “verdades”
que se fixaram na mente, indicando um jeito de ser, viver ou fazer as coisas.
Para um estudo interessante deste tema sugiro a leitura do livro Quebrando
Paradigmas/Ed René Kivitz. São Paulo: Abba Press, 1995.

Às vezes é preciso coragem para quebrar paradigmas que não funcionam mais e
que, portanto, já não têm nenhum valor prático.

À primeira vista parece fácil mudar aquilo que se tornou obsoleto. Mas nem
sempre é tão simples assim. Primeiro é preciso mudar a mentalidade dos
acomodados e principalmente dos saudosistas, daqueles que confundem inovação
com inovacionismo; a boa tradição com tradicionalismo.

O segredo do sucesso está num trabalho de conscientização sério e paciente. Por
uma questão de prudência e respeito com aqueles que não pensam como nós, é
preciso que os paradigmas sejam quebrados aos poucos. As idéias e conceitos
devem ser amadurecidos no meio da comunidade, sem atropelos, mas
progressivamente. Uma coisa aprendi em meu ministério pastoral: Se a igreja não
“comprar” a nossa idéia, não será por meio de decreto conciliar que
conseguiremos qualquer êxito. Um diálogo franco, aberto e amigável é a chave do
sucesso.

2º) Testes de qualidade

As estruturas da igreja devem ser constantemente testadas por sua liderança, a
fim de serem revitalizadas e, desse modo, servirem melhor o organismo. Tudo que
não contribui para esse objetivo deve ser mudado ou eliminado.

Algumas coisas podem ser citadas como exemplos do que não devem passar pelo
teste de qualidade de uma igreja local: liderança inibidora, horário e duração
do culto inadequados, conceitos desmotivadores de administração das finanças,
etc.

Por meio de um processo constante de avaliação e renovação, o surgimento de
estruturas enrijecidas é evitado em grande parte.

3. A REVITALIZAÇÃO DO COMPROMISSO MISSIONÁRIO

Com o passar do tempo os membros de uma igreja local tendem a esquecer-se de
seus compromissos missionários. Para se evitar isso é preciso lembrá-los
constantemente da importância da igreja local para com a obra missionária no
mundo. Neste caso específico, o livro Igreja local e missões, de Edison
Queiroz, pode ser muito bem aproveitado.

1º) Um exemplo que deu certo

Aprendi com um colega de ministério a separar um domingo por mês para falar de
forma mais específica sobre a importância da igreja local em missões. O Domingo
Missionário, como era chamado, era dedicado às missões. Pregávamos sobre
missões, a igreja orava por missões e contribuía financeiramente com a obra
missionária. Mas isso não aconteceu de um dia para o outro. Foi preciso um
trabalho de base, de muita conscientização e investimento que valeram a pena.

Entendíamos que separar um domingo por mês para missões era o mínimo que
estávamos fazendo. O ideal seria todos os domingos. Mesmo assim foi
gratificante. Segundo testemunho de irmãos antigos (que a principio foram
relutantes), aquele foi um dos períodos mais abençoados na vida daquela igreja.
E não poderia ser diferente. Quando uma igreja se envolve com missões, todas as
demais áreas são abençoadas por Deus, inclusive a financeira. Prove!

2º) Uma questão de obediência e prioridade

A experiência nos ensinou que evangelizar não é uma opção de vida de uma igreja
local, mas a própria vida de uma igreja local. O que está “matando”
muito crente novo (que desperdício!) é a igreja não-funcional, que se limita a
suas atividades internas, fechada em quatro paredes. A igreja local precisa
resgatar sua visão missionária, excelência maior de seu chamado, como bem
declarou o apóstolo Pedro: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real,
nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as
virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I
Pe 2.9).
Vejamos alguns exemplos de como a igreja poderá revitalizar sua visão
missionária.

3º) Revitalizando a missão integral da igreja local

Como revitalizar uma igreja que começou com tanta empolgação para fazer missões
e de repente esfriou? Em primeiro lugar, é preciso reconscientizar a igreja de
sua missão no mundo. Em segundo lugar, é preciso conscientizá-la de que ela
está no mundo para servir o mundo integralmente.
Se a igreja chegou a se empolgar com missão algum dia, é sinal que ela tem
potencial para fazer, com a graça de Deus, o que fez antes. Sermões e estudos
bíblicos missionários, filmes específicos como por exemplo As Primícias, Etal e
Atrás do Sol, além do auxílio de associações evangélicas e agências
missionárias, certamente produzirão novo alento.

A igreja deve ser redirecionada. Geralmente a frieza por missões acontece por
causa da rotina. Uma vez que o mal foi detectado é necessário que seja
combatido com atividades variadas.

Além disso, é importante que a igreja saiba que sua missão no mundo é integral.
Isto é, evangelizar não é simplesmente distribuir folhetos como alguns pensam,
mas sim, atender o indivíduo na totalidade de suas necessidades. Por outro
lado, a igreja nunca deve deixar se levar pela prática do paternalismo e
assistencialismo paliativos, mas sempre partir para uma ação social
transformadora, do indivíduo e da sociedade, para a honra e glória de Deus Pai.
O ponto de partida será o parâmetro bíblico e o contexto da igreja local.

Conclusão:
Mais coisas poderiam ser ditas como parte integrante de um projeto de
revitalização para a igreja local, como por exemplo, a espiritualidade
contagiante da igreja local com relacionamentos marcados pelo amor fraternal,
um culto inspirador, a formação de grupos familiares ou células, etc.
Entretanto, entendemos que a formação de uma liderança capacitadora, as
estruturas da igreja sendo funcionais e o compromisso missionário revitalizado,
naturalmente resultarão em novas realizações.

Parte XXXVI
UMA IGREJA
RENOVADA

TEXTO: ROMANOS 12: 1-2
PROPÓSITO:

Uma das maiores necessidades do mundo, das pessoas e também da igreja é a de se
adaptar ao curso da história. Esta adaptação só se viabiliza mediante a
disposição do mundo, das pessoas e da igreja em se transformarem. Transformação
é o segredo de um organismo vivo.
– Ilust. Leon Tolstói: “Todos pensam em mudar a humanidade e ninguém pensa
em mudar-se a si mesmo”.

01. TRANSFORMAÇÃO ATRAVÉS DA COMUNICAÇÃO

A igreja não sobrevive sem uma comunicação interna. O grande fator de dispersão
que a enfraquece é a falta de uma boa comunicação entre seus membros.

1.1 – A comunicação se processa através de três elementos básicos:
a – Kerigma – mensagem
b – Koinonia – comunhão
c – Diakonia – serviço

1.2 – Encurtando as distâncias – João 13: 12-17

A mensagem Kerigma – não funciona isoladamente. Para que ela produza resultados
positivos é necessário que o membro exercite a Koinonia e a Diakonia.

02. TRANSFORMANDO A NOSSA RELAÇÃO

Este processo ocorre através da prática de quatro princípios bíblicos:

2.1 – Princípio da integralização – 1 Coríntios 12: 15-16

– cada membro tem a sua função. Um membro não deve aspirar o lugar do outro.
Quando isto ocorre todo o corpo é prejudicado.
– A quebra deste princípio provoca:
a – desvalorização do membro
b – contestação da vontade de Deus
c – afastamento dos outros membros
d – desperdício de forças

2.2 – Princípio da oportunidade – 1 Coríntios 12:17-18

– este princípio visa dar a todos a mesma chance de trabalho. Um membro não
pode inibir a ação do outro.

– A falta de oportunidade produz:

a – desequilíbrio em todo os sistema
b – um espírito de concorrência
c – uma anemia espiritual

2.3 – Princípio da dependência – 1 Coríntios 12: 21-22

– todos os membros devem participar das atividades que os demais realizam. A
independência enfraquece o corpo.

– Quando este princípio é quebrado, ocorre:
a – enfraquecimento de todos os demais membros
b – o egoísmo passa a predominar nas relações
c – a arrogância quebra a linha de comunicação

2.4 – Princípio da unidade – 1 Coríntios 12: 25-26

– a unidade é a fonte geradora de toda a energia, mobilidade e harmonia do
corpo. Sem ela, a igreja perde a sua função. João 17:23

3.0 – TODA TRANSFORMAÇÃO EXIGE DISCIPLINA PESSOAL –
1 Coríntios 9:25

– A igreja precisa ser a autora e não a espectadora no processo de mudanças.
Ela foi criada para ser o instrumento de Deus na transformação da sociedade.
Para isto o exercício da disciplina é imprescindível.

– Disciplina na prática de ouvir e falar – João 8:47
– Disciplina na prática do perdão – Marcos 11:25
– Disciplina na prática da fé – 2 Coríntios 13:5
– Disciplina na prática da liberdade – Gálatas 5:13
– Disciplina na prática das ações – Colossenses 3:17
– Disciplina na prática do tempo – Efésios 5:15-16
– Disciplina na prática da santidade – 1 Timóteo 5:22
– Disciplina na prática do amor – João 13: 35

Parte XXXVII
UNIDADE NA
VARIEDADE

Romanos 16.3-16
 No último
capítulo da Carta aos Romanos, Paulo faz recomendações, saudações e votos. São
saudações individuais a vinte e seis pessoas e a cinco famílias, grupos de
pessoas ou “igrejas no lar”. Das pessoas mencionadas, pelo menos oito
são mulheres. Treze dos nomes aparecem em inscrições ou documentos que tem a
ver com a nobreza e com o palácio do imperador naquela cidade (cf. Fp 4.22). No
entanto, são, na maioria, escravos.

É uma esclarecedora lista de como a fé evangélica se havia espalhado entre
todas as classes sociais. Há uma mistura de judeus e gentios; nobres, libertos
e escravos; homens e mulheres; idosos e jovens. Mostra como aquela comunhão de
fé na cidade de Roma era formada de gente de várias nacionalidades,
procedências e estratos sociais. Registra, ainda, como o muro de separação
entre judeus e não-judeus fora derrubado, exatamente nos termos de Efésios 2.14,16
(cf. Gl 3.28).

A COLORIDA VARIEDADE

Como já enfatizado, há nesta passagem uma visão da intensa vida da
Igreja-dos-Primeiros-Dias. A relação de nomes é de altíssimo significado, e
examinando-os com alguma análise, vemos que os tipos são tão diferentes que só
um milagre chamado evangelho pode explicar a interação naquela comunidade de
fé.

Há judeus e há gentios, já o dissemos, ou seja, gente que vem de um profundo
contexto espiritual, e gente que vem do paganismo. Há ricos e há pobres. Há
homens e há mulheres.

Os judeus. Era o caso de Priscila e Áquila (v.3), de Maria (v.6), de Andrônico
e Júnias (v.7), de Apeles (v.10), de Herodião (v.11).

Há romanos: Ampliato (v.8) e Urbano (v.9), e, pelo menos, um grego, Epêneto.
Escravos: Ampliato, Urbano, Estáquis, Flegonte, Pérside e Hermas.

O significado dos nomes é igualmente muito interessante:
· Áquila = águia
· Asíncrito = incomparável
· Epêneto = louvado
· Estáquis = espiga
· Filólogo = falador, erudito
· Flegonte = ardoroso
· Hermes = intérprete (daí a palavra hermenêutica, a arte da eloqüência)
· Júlia = juvenil
· Maria = bela (alguns traduzem como “teimosa, obstinada”)
· Nereu = molhado
· Olimpas = descido dos céus
· Pátrobas = vida do pai
· Priscila = venerável
· Trifena = delicada
· Trifosa = mimosa, graciosa
· Urbano = criado na cidade.

As saudações não são longas, mas são muito expressivas, cheias de gratidão e
plenas de amor:

Em relação a Prisca e Áquila (vv. 3,4): “meus cooperadores em Cristo”
e “pela minha vida expuseram as suas cabeças” . Para Epêneto (v.5b):
“meu amado” e “primícias da Ásia para Cristo”. Maria (v.6)
foi a que “muito trabalhou por vós”. No verso 7, Andrônico e Júnias
são “meus parentes”, “meus companheiros de prisão” e “bem
conceituados entre os apóstolos”.

No verso 8, Ampliato é “meu amado no Senhor”; no 9, Urbano é
“nosso cooperador em Cristo”e Estáquis é chamado de “meu
amado”. Apeles (v. 10) é denominado “aprovado em Cristo”; no
verso 12, as irmãs Trifena e Trifosa são as que “trabalham no
Senhor”, e Pérside, veterana senhora, é amada” e “muito
trabalhou no Senhor”. E passando ao verso 13, Rufo é o “eleito no
Senhor”.

MEMÓRIAS

Há algumas histórias por trás das lembranças de Paulo. A história de Prisca e
Áquila. Eu escrevi Prisca? Prisca ou Priscila? Dá no mesmo, porque Priscila é o
diminutivo de Prisca (cf. At 18.2, 18,26), como Lucia faz Lucila, Drusa,
Drusila e Lívia, Livila. Era um casal devotadíssimo ao apóstolo Paulo, a ponto
de sofrerem perigo de vida (cf. 1Co 15.32; At 19.23) Tinham a mesma profissão
de Paulo, que, por um tempo, morou com eles. Quando Paulo deixou Corinto indo
para Éfeso, o casal o acompanhou (At 18.18). É possível, até, que Priscila
pertencesse a uma família da nobreza romana, e Áqüila fosse um judeuda Ásia
menor setentrional. Um estudioso do Novo Testamento diz que não há no Novo
Testamento um casal mais fascinante que este.

Outra história interessante é a de Rufo. No verso 13, Paulo chamou à senhora,
mãe de Rufo, de sua mãe, de acordo com o costume oriental de assim chamar uma
senhora mais idosa. Há quem admita ser Rufo filho de Simão, o cireneu que
carregou a cruz de Jesus compartilhando com Ele a dor, o maltratto, a
humilhação daquela manhã em Jerusalém (cf. Mc 15.21). Se assim ocorreu, que
gente extraordinária são os pais de Rufo: o pai carregou a cruz de Jesus
Cristo, e a mãe “adotou” Paulo, o grande apóstolo aos gentios.

As duas idosas irmãs em Cristo têm histórias não contadas no texto. Pérside
(“natural da Pérsia”) e Maria são pessoas que não se entregam. Eram
avançadas na idade, e incansáveis no trabalho. Aliás, Paulo usa uma palavrinha
que diz isso: kopian, que significa “trabalhar até o cansaço”

A UNIDADE

Não é fácil viver em unidade, em concórdia. Dietrich Bonhoffer usa as
expressões “dom de uma vida comum” e “dom da adoração em comum
aos domingos”, aplicando-as à bênção de Deus que se chama Igreja. Diz ele
que o estilo de vida que acontece na igreja é um privilégio. Mas a verdade é
que é muito difícil viver em comunidade. E se não há o alicerce de Jesus
Cristo, essa experiência que deveria ser abençoada, abençoadora, enriquecedora,
torna-se amarga e, em certos casos, traumatizante. Muitos problemas afloram
porque nossos irmãos em Cristo (em quem corre o mesmo de Jesus nas veias) são
tratados apenas como outras pessoas, gente que enche os bancos da igreja, mas
não como irmãos no Nome de Jesus Cristo, nosso Salvador.

Pois é; o relacionamento humano é uma teia delicadíssima, tenuíssima e
fragílima que pode se romper com coisas mínimas e minúsculas, mas que se
fortalece quando está fundamentada no respeito, na confiança, na honestidade,
na tolerância, no querer o bem, no bem-querer e nas atitudes de boa vontade.

Na verdade, o relacionamento humano e cristão é dinâmico, poderoso e incentiva
o crescimento pessoal e da Igreja como um corpo.

PRECIOSAS LIÇÕES

Sacrifício de uns pelos outros (vv. 3-5a). Aqui temos Priscila e Áqüila, o
casal amado, recebendo do apóstolo o reconhecimento pelo modo através do qual
compartilharam de suas lutas, a ponto de quase serem mortos.

Desde o princípio desta genuína e profunda amizade, Priscila e Áquila foram
pessoas que mantiveram aberto o coração, abertas as mãos, e aberta a porta para
a expansão do nome e reino de Cristo

Trabalho pelo bem comum (v.6). Paulo saúda a irmã na fé chamada Maria. É digno
de observação que as mulheres são significativamente proeminentes na vida da
Igreja de Cristo. Nesta lista há solteiras, casadas, viúvas, mães e todas
executando um admirável ministério na Causa do Senhor.

Temos membros de uma mesma família fazendo parte com outras famílias de uma
mesma família de fé. Paulo até o menciona. No verso 10, ele fala dos “da
casa de Aristóbulo”; no verso 11, “os da casa de Narciso”, no
verso 13, de Rufo, sua mãe e sua irmã, e no verso 15, de Filólogo, Júlia, Nereu
e sua irmã (provavelmente, pai, mãe e filhos).
O Novo Testamento menciona que, em muitas ocasiões, famílias inteiras eram
batizadas (cf. At 10.44-48; 16.15, 33330-34; 18.8; 1Co 1.16; 16.19; Cl 4.15; Fm
2). Havia casos em que pequenos grupos se reuniam em uma casa. É o caso de um
núcleo que tinha seus encontros na casa de Áquila e Priscila (v. 5a). Alguns
foram companheiros de prisão do apóstolo (cf. v.7). Dr. Dale Moody, nosso
ex-professor, fez uma significativa afirmação ao dizer que será um dia glorioso
quando os cárceres forem transformados em púlpitos.

Aceitação de uns pelos outros (v. 16). Paulo recomenda uma saudação muito comum
no Oriente Próximo ainda hoje: o beijo (cf. Gn 29.11; 33.4; 1Sm 10.1). Além de
ser um sinal de afeição entre parentes,um sinal de amor, havia, também, um tom
de homenagem (Gn 29.11; Ct 1.2). No Novo Testamento,é um sinal de amizade e
saudação (Mt 26.48).

Era, lembremos, um ato de fraternidade entre os semitas, mas não entre os
romanos. Por outro lado, o costume já se havia difundido nas igrejas conforme
atestam os seguintes exemplos textuais: 1Coríntios 16.20; 2Coríntios 13.12;
1Tessalonicenses 5.26 e 1Pedro 5.14.. Paulo, porém, não o entende só como sinal
de amizade, nem como uma ordenança ritual. Paulo usa a palavra
“santo”, “ósculo santo”, para evitar toda e qualquer
conotação maldosa. Equivale, então, em nossa cultura, a um fraternal abraço e
aperto de mãos, um cordial “Bom dia!”

É preciso recuperar o significado da comunhão. Aliás, comunhão (koinonia) é uma
das grandes palavras do Novo Testamento. Fala de uma abordagem sistêmica, pois
é vital para a saúde espiritual da igreja e do crente como indivíduo. Pode não
parecer, mas uma há uma comunhão o dedo e o fígado de alguém, a perna e o
coração porque corre um sangue vital. Devemos buscar a comunhão, nos aproximar
de alguém. É preciso lembrar que avivamento e comunhão andam de mãos juntas.

Há uma recomendação do apóstolo que é apropriada para encerrar esta reflexão.
Encontra-se em 1Coríntios 16.14b: “Fazei todas as vosss obras com
amor”. É recomendação perfeitamente pertinente porque nenhum dom
espiritual, nenhum desejo de unidade ou de comunhão é coisa alguma sem o amor.
É ele quem põe um ponto final nas divisões, faz desaparecer o orgulho, que
regenera o interesse, a solidariedade e a fraternidade de uns pelos outros.

O amor é o começo do crescimento espiritual. Será preciso lembrar que o
primeiro aspecto do fruto do Espírito é o Amor? Por ele, manifesta-se a
humildade (Rm 12.4), desenvolve-se a compreensão e o ministério do ouvido
amigo. Assim é: “Todas as vossas obras sejam feitas com amor”.

Oração
Senhor, nós Te pedimos:
Que nos conheçamos sempre melhor
Em nossas aspirações e nos compreendamos
Mais e mais em nossas limitações.
Que cada um de nós sinta e viva
as dificuldades dos outros.
Que ninguém fique alheio aos momentos
De cansaço, dissabor e desânimo do próximo.
Que nossas discussões não nos dividam,
Mas nos unam na busca da verdade e do bem. Que cada um de nós, ao construir a
própria vida,
Não impeça o outro de viver a sua.
Que nossas diferenças não excluam ninguém da comunidade.
Que olhemos para cada um, Senhor,
Com os Teus olhos e nos amemos com o Teu coração.
Que a nossa fraternidade não se feche em si mesma,
Mas seja disponível, aberta e sensível
Aos problemas de cada um.
E que, no fim de todos os caminhos,
Além de todas as buscas, e depois de cada encontro,
Não haja vencidos nem vencedores,
Mas somente irmãos.
Assim seja. Amém!

(Autor desconhecido)

Parte
XXXVIII
O QUE LEVOU
A IGREJA

Em Antioquia a fazer Missões
Em Atos 13 o horizonte
de Lucas se alarga pois o nome de Jesus seria maciçamente testemunhado além da
Judéia e Samaria. A partir de Antioquia chegaria aos confins da terra. Os dois
diáconos evangelistas prepararam o caminho. Estevão através de seu ensino e
martírio, Filipe através de sua evangelização ousada junto aos samaritanos e ao
etíope. O mesmo efeito tiveram as duas principais conversões relatadas por
Lucas, a de Saulo, que também fora comissionado a ser o apóstolo dos gentios, e
a de Cornélio, através do apóstolo Pedro. Evangelistas anônimos também pregaram
o evangelho aos “helenistas” em Antioquia. Mas sempre a ação esteve
limitada à Palestina e à Síria. Ninguém tinha tido a visão de levar as boas
novas às nações além mar, apesar de Chipre ter sido mencionada em Atos 11:19.
Agora, finalmente, vai ser dado esse passo significativo.

A população cosmopolita de Antioquia se refletia nos membros de sua igreja e
até mesmo em sua liderança, que consistia em cinco profetas e mestres que
moravam na cidade. Lucas não explica a diferença entre esses ministérios, nem
se todos os cinco exerciam ambos os ministérios ou se os primeiros três eram
profetas e os últimos dois mestres. Ele só nos dá os seus nomes. O primeiro era
Barnabé, que foi descrito com “um levita, natural de Chipre” (Atos
4:36). O segundo era Simeão que tinha o sobrenome de Níger, que significa
Negro, provavelmente um africano e supostamente ninguém menos que Simão
Cireneu, que carregou a cruz para Jesus. O terceiro era Lúcio de Cirene e
alguns conjecturam que Lucas se referia a si mesmo o que é muito improvável já
que ele preserva seu anonimato em todo o livro. Havia também Manaém, em grego
chamado o “syntrophos” de Herodes o tetrarca, isto é, de Herodes
Antipas, filho de Herodes o Grande. A palavra pode significar que Manaém foi
“criado” com ele de forma geral ou mais especificamente que era seu
irmão de leite. O quinto líder era Saulo. Estes cinco homens simbolizavam a
diversidade étnica e cultural de Antioquia e da própria igreja.

Foi quando eles estavam “servindo ao Senhor, e jejuando” que o
Espírito Santo lhes disse: “separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a
obra a que os tenho chamado” (At.13:2). Algumas perguntas precisam ser
respondidas.

A quem o Espírito Santo revelou a sua vontade? Quem eram “eles”, as
pessoas que estavam jejuando e orando?

Parece-me improvável que devamos restringi-los ao pequeno grupo dos cinco
líderes, pois isso implicaria em três deles serem instruídos acerca dos outros
dois. É mais provável que se referia aos membros da igreja como um todo já que
eles e os líderes são mencionados juntos no versículo 1 de Atos 13. Também em
Atos 14:26-27, quando Paulo e Barnabé retornam, prestam conta a toda a igreja
por terem sido comissionados por ela. Possivelmente Paulo e Barnabé já possuíam
anterior convicção do chamado de Deus e esta verdade foi aqui revelada para
toda a igreja.

Qual o conteúdo da revelação do Espírito Santo à Igreja em Antioquia?

Foi algo muito vago e possivelmente nos ensina que devemos nos contentar com as
instruções de Deus para o dia de hoje. A instrução do Espírito Santo foi
“separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado”, muito semelhante ao chamado de Abrão: “vai para a terra que
te mostrarei”. Na verdade em ambos os casos o chamado era claro mas a
terra e o país não.

Precisamos observar também que tanto Abrão como Saulo e Barnabé precisariam,
para obedecerem a Deus, darem um passo de fé.

Como foi revelado o chamado de Deus?

Não sabemos. O mais provável é que Deus tenha falado à igreja através de um de
seus profetas. Mas seu chamado também poderia ter sido interno e não externo,
ou seja, através do testemunho do Espírito em seus corações e mentes.
Independente de como o receberam, a primeira reação deles foi a de orar e
jejuar, em parte, ao que parece, para testar o chamado de Deus e em parte para
interceder pelos dois que seriam enviados. Notamos que o jejum não é mencionado
isoladamente. Ele é ligado ao culto e à oração, pois raras vezes, ou nunca, o
jejum é um fim em si mesmo. O jejum é uma ação negativa em relação a uma função
positiva. Então jejuando e orando, ou seja, prontos para a obediência,
“impondo sobre eles as mãos os despediram”.

Isto não era uma ordenação ao ministério muito menos uma nomeação para o
apostolado já que Paulo insiste que seu apostolado não era da parte de homens,
mas sim uma despedida, comissionando-os para o serviço missionário.

Quem comissionou os missionários?

De acordo com Atos 13:4 Barnabé e Saulo foram enviados pelo Espírito Santo que
anteriormente havia instruído a igreja no sentido de separá-los para ele. Mas
de acordo com o versículo seguinte foi a igreja que, após a imposição de mãos,
os despediu. É verdade que o último verbo pode ser entendido como
“deixou-os ir”, livrando-os de suas responsabilidades de ensino na
igreja, pois às vezes Lucas usa o verbo “adulou” no sentido de
soltar. Mas ele também o usa no sentido de dispensar. Portanto creio que seria
certo dizer que o Espírito os enviou instruindo a igreja a fazê-lo e que a
igreja os enviou, por ter recebido instruções do Espírito. Esse equilíbrio é
sadio e evita ambos os extremos. O primeiro é a tendência para o individualismo
pelo qual uma pessoa alega direção pessoal e direta do Espírito sem nenhuma
referência à igreja. O segundo é a tendência para o institucionalismo, pelo
qual todas as decisões são tomadas pela igreja sem nenhuma referência ao
Espírito.

Conclusão

Não há indícios para crermos que Saulo e Barnabé eram voluntários para o
trabalho missionário. Eles foram enviados pelo Espírito através da igreja.
Portanto cabe a toda igreja local, e em especial aos seus líderes, ser sensível
ao Espírito Santo, a fim de descobrir a quem ele está concedendo dons ou
chamado.

Chamado missionário não é um ato voluntário, é uma obediência à visão do
Senhor.

Assim precisamos evitar o pecado da omissão ao deixarmos de enviar ao campo
aqueles irmãos com clara convicção de que foram chamados por Deus, bem como a
precipitação de o fazermos com outros que possuem os dons para tal, mas sem
confirmação do Espírito à igreja.

O equilíbrio é ouvir o Espírito, obedecê-lo e fazer da igreja local um ponto de
partida para os confins da terra.

Parte XXXIX
MINISTÉRIOS
FIÉIS
“…passei
pregando o reino de Deus… não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de
Deus… estou limpo do sangue de todos” (Atos 20. 25 – 27).

Não existe chamada mais honrosa e elevada que a divina para o ministério
integral. É senso comum que qualquer outra atividade desenvolvida pelos
cristãos tem sua pertinência na Causa de Cristo e não deve ser minimizada. No
entanto, a Escritura Sagrada dá grande importância a homens e mulheres que
foram separados como profetas, evangelistas, missionários e pastores. O
apóstolo Paulo mesmo demonstrou uma clara visão do seu ministério, e suas
cartas o revelam (1).

O contexto da porção bíblica escolhida é que Paulo, apóstolo, está deixando um
lugar onde tem exercido um ministério fiel e pleno de frutos. Paulo está com
sentimentos divididos: está triste e alegre. É tristeza por deixar aqueles a
quem ama, mas prazeroso por ter sido o instrumento de sua conversão.

É, na verdade, uma despedida carregada de emoção. E há, no seu desenvolvimento,
detalhes que merecem análise. Paulo menciona que sua palavra sempre foi
destemida, havia transmitido a vontade de Deus sem quaisquer reservas;
menciona, ainda, que sempre trabalhou com as próprias mãos para satisfazer as
suas necessidades pessoais, nada cobiçou de outras pessoas, pelo contrário, seu
trabalho, não o reservava para si, mas ajudava a suprir as necessidades de
outros menos validos.

Outra expressão de Paulo em sua despedida é o enfrentamento do futuro com
confiança visto que depende unicamente do Espírito Santo. Mesmo não sabendo o
que virá no dia seguinte, espera-o e o enfrenta com a plena consciência de toda
a direção é do Espírito.

Paulo recorda aos seus colegas de ministério algumas realidades próprias do seu
múnus ministerial e profético: o dever que não é outro senão vigiar, alimentar,
cuidar do rebanho do Senhor que lhes foi confiado, tarefa que ninguém escolhe,
antes, pelo contrário, para ela é escolhido; o perigo a que estão sujeitos, bem
na medida do pensamento contemporâneo de que “o preço da liberdade é a
eterna vigilância”. Os participantes da obra divina correm o perigo da contaminação
do mundo, do secularismo, da inveja ou do sucesso. É verdadeiramente uma luta
ingente, feroz e constante mantida pelos profetas, pastores, evangelistas,
educadores, missionários, obreiros em geral para manter a pureza e a
intocabilidade da Igreja de Jesus Cristo sob a sua liderança espiritual.

Antes de sua partida, traz à memória de seus amados três características de seu
próprio ministério, e, por extensão, de todos os fiéis ministros, missionários,
profetas, obreiros do Reino de Deus.

CARACTERÍSTICA 1:FIDELIDADE À DIVINA COMISSÃO

“Passei pregando o reino de Deus” (v. 25). O método de Deus para a
salvação dos perdidos não é outro senão a pregação, pois “aprouve a Deus
salvar pela loucura da pregação…(2)” Outros métodos são auxiliares, contribuem,
ajudam, não são, porém, prioritários.

A palavra pregar é usada por Paulo cinqüenta e nove vezes nas suas cartas. Até
mencionou que “Cristo não me enviou para batizar”(3). Da mesma forma,
escreveu, “cheguei a Trôade para pregar o evangelho”(4), e a Timóteo
exortou com a seguinte expressão: “Prega a palavra, insta a tempo e fora
de tempo”(5).

Para Paulo, precioso é o evangelho, não a sua vida(6). Esta convicção que
queimava a sua consciência ela a reflete igualmente em Atos 21.13, Filipenses
1.19-26 e 3.8, entre outros tocantes exemplos de dedicação, consagração e
abandono de seu espírito ao Espírito de Deus. Para o apóstolo, prioritário é
pregar, proclamar essa mensagem abençoada e abençoadora de um evangelho eficaz
para a salvação de todo aquele que crê.

CARACTERÍSTICA 2: APRESENTAÇÃO PLENA

“Não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus” (v. 27).
Spurgeon fez referência a pregadores que enfatizavam apenas certas doutrinas. É
o que podemos chamar de “evangelho light”. Esses pregadores falam de
doutrinas como o reavivamento, a cura divina, e outras igualmente populares.
Entretanto, os ministros fiéis não se prendem a um assunto favorito, mas
proclamam todas as Doutrinas da Graça.

O apóstolo Paulo não se esquivava de fazê-lo. Não deixava de pregar porque
certas verdades não satisfaziam os paladares de seus ouvintes porque um
ministro fiel não se amedronta diante dos homens. Na verdade, o ministro fiel e
destemido não busca a popularidade “amaciando” certas ênfases do
evangelho que não apoiadas por alguns. Seu tema principal é a salvação,
incluindo seus aspectos como a eleição, a justificação, a redenção, a
santificação e a glorificação a serem explicados com toda a clareza possível, e
tudo o mais que está contido na Palavra de Deus, ou como já foi resumido com
muita pertinência, “o ser humano, o pecado e a graça”.

CARACTERÍSTICA 3: OBRIGAÇÃO SEM CULPA

“Estou limpo do sangue de todos” (v. 26). Estas palavras são um eco
de Ezequiel 33.1 – 9,

“todo aquele que ouvir o som da trombeta, e não se der por avisado; e vier
a espada, e o levar, o seu sangue será sobre a sua cabeça”(7).

Diz a Bíblia na Linguagem de Hoje: “Esse alguém é responsável por sua
própria morte”. Paulo também o disse ecoando o profeta Ezequiel,
“estou limpo do sangue de todos” (8), frase do missionário vertida
pela BLH como “se algum de vocês se perder, eu não sou responsável”

Paulo era, na verdade, um pregador tremendamente linear. Pregava todo o plano
de Deus, e cumpria sua tarefa. A resposta dos ouvintes não era sua responsabilidade.
A referência à culpa pela morte de alguém aplica-se, como se depreende, ao
dever espiritual do missionário/evangelista pela apresentação fiel da mensagem
de vida abundante: o pecador é advertido, a responsabilidade de atender ao
convite para a bênção já lhe foi passada, e assim o pregador cumpriu o seu
sagrado dever de ressaltar o pecado, a justiça e o juízo, deixando que o
Espírito faça a obra de convencimento, e apelando para que se escolha a vida.

Nosso problema, quantas vezes, tem sido o desejo de ver resultados visíveis em
lugar de deixarmos os resultados com Deus. Pode o missionário, o evangelista, o
pastor ficar tão ansioso e não se lembrar da recomendação bíblica, “Lança
o teu pão sobre as águas”, até porque nos garante a conclusão desta
recomendação que “depois de muitos dias o acharás”(9). Garante a
Escritura que a Palavra de Deus “não voltará vazia”(10), razão porque
não precisamos nos preocupar com os resultados visíveis imediatos. O Senhor da
seara é fiel, desse modo, os Seus servos devem ser fiéis na entrega da mensagem
e na obrigação por causa de sua divina comissão.

ÚLTIMO PENSAMENTOS

“E eis agora sei…” (v. 25a). Gloriosa certeza! Extraordinária
convicção! Em outro espaço, também o fez com a afirmação de “sei em quem
pus a minha confiança e estou certo de que ele tem poder para me guardar na
minha missão até ao dia marcado”, o Dia do Juízo(11). Com esta expressão
de fé e esperança, o apóstolo introduziu os pensamentos acima analisados.

Sem qualquer sombra de dúvida, o missionário/profeta/pastor/obreiro/obreira
dirá “EU SEI..!” Sim; tem conhecimento de sua pequenez, fragilidade e
tremenda dependência de um Pai amoroso, cuidadoso, e sempre pronto a dar
sustento emocional, espiritual e forças físicas para o desempenho da tarefa
proposta.

Há lobos vorazes rondando o rebanho, prontos a entrar no santo aprisco. Quanta
deturpação doutrinária, quanta novidade penetrando como se fossem moderníssimos
métodos de proclamação, e, no entanto, quanto poder nas palavras emanadas por
vidas confiantes, corajosas, ousadas que podem afirmar

“EU SEI…! EU CONHEÇO O SENHOR DA SEARA!”

Que não passemos adiante a sagrada missão evangelizadora que o Senhor poderia
ter confiado aos Seus anjos, por essência e definição Seus autênticos
mensageiros e ministradores; porém, foi a nós que Ele o fez. Cabe-nos
corresponder!

NOTAS
(1) Cf. 15.14ss.; 1Coríntios 16.10ss.; 2Coríntios 2.14-6.10; 10.1ss.;
Colossenses 1.24-2.23; etc.
(2) 1Coríntios 1.21b.
(3) 1Coríntios 1.17.
(4) 1Coríntios 2.12a.
(5) 2Timóteo 4.2a.
(6) Cf. Atos 20.24
(7) Cf. v.4.
(8) Cf. Atos 20.26b.
(9) Eclesiastes 11.1.
(10) Isaías 55.11.
(11) 2Timóteo 1.12 (O Novo Testamento, Tradução Interconfessional, Lisboa,
Sociedade Bíblica de Portugal, 1978)

O MINISTÉRIO
DA PALAVRA
Introdução(1)

É interessante observarmos a exigência que muitos cristãos fazem a seus
pastores para que dediquem tempo em atividades secundárias, prescindindo
aquelas que o Texto Sagrado preceitua como sendo a função pastoral.

Vemos em Atos 6.4 que a tarefa pastoral precípua é a oração e o ministério da
Palavra. A pregação da Palavra deve ser efetivada por cristãos especialmente
vocacionados em distinção a todos os demais Ministérios Eclesiásticos. A idéia
radical inerente ao Ministério, em todo o Novo Testamento, é serviço prestado
em submissão, subserviência, diligência e fidelidade, que emprestam ao ministro
dignidade e importância oficial devido a natureza e a qualidade do serviço
prestado.

Dentre os Ministérios alistados na Bíblia o Ministério da Palavra é o mais rico
na sua significação. É o Ministério do Logos, que no Novo testamento é o
equivalente a Davar Elohim, Palavra de Deus, citada em hebraico 394 vezes no
Antigo Testamento. O Ministério da Palavra, portanto, é o que encerra o
compromisso de anunciar a Revelação de Cristo no sentido de uma comunicação
divina em forma de mandamentos, profecias e conforto para o povo de Deus.

O pregador da Palavra de Deus é um profeta que deve compreender claramente a
beleza e a universalidade do evangelho, absorto pelo Dom de proclamá-lo com
persuasão, zelo e extremado amor, sempre divinamente inspirado e autorizado
para esclarecer as manifestações de Deus decorrentes da mensagem proclamada. O
pregador da Palavra é o mensageiro de Deus e o verdadeiro mestre da sociedade,
eleito pelo próprio Deus da Palavra para arquitetar os ideais divinos para a
sociedade, afim de que os ouvintes passem a orientar e dirigir suas vidas a
partir da Palavra proclamada.

I – Finalidade específica do Ministério Pastoral (2)

Em uma pesquisa realizada entre pastores perguntou-se qual seria o alvo final
do trabalho pastoral e muitos responderam ser a evangelização, outros a união
dos crentes com o Senhor, uns poucos disseram ser o preparo do crente para a
eternidade e para o mundo atual e, lamentavelmente, muitos não souberam
responder a questão proposta.

É espantoso notar que muitos pastores dirigem igrejas e pregam sem ter uma
noção clara quanto a finalidade do Ministério, o que ressalta o fato de que não
desenvolveram uma visão bíblica para o Ministério da Palavra. Estão pastores
mas não são Pastores na acepção bíblica da tarefa pastoral.

Quando buscamos no Texto Sagrado a finalidade específica para o Ministério
Pastoral encontramos, além das tarefas primordiais indicadas em Atos 6.4, as
responsabilidades alistadas a seguir.

1. Aperfeiçoamentos dos crentes

O pastor não pode contentar-se em visualizar nos membros da igreja apenas
certas atitudes éticas pautadas na Palavra de Deus ou algumas poucas posturas
próprias dos costumes e princípios denominacionais. Deus espera mais dos
pastores e a tarefa pastoral deve esmerar-se em apresentar ao Senhor pessoas
maduras e adultas na fé que sejam cumpridores da Palavra, cristãos
“perfeitos em Cristo”, Colossenses 1.28.

Deus espera que os pastores entreguem a Cristo a obra acabada, isto é, cristãos
aperfeiçoados em Jesus, edificados na igreja, cheios do pleno conhecimento e
firmados doutrinariamente. Cristãos que tenham uma identidade doutrinária
definida e que interagem na obra do ministério da igreja de modo geral, Efésios
4.10-16.

2. Capacitar os cristão para o serviço.

A igreja é uma escola de vida e de serviço. A convivência na igreja deve nos
ensinar a servir no presente, preparando-nos para o serviço futuro na glória
celestial, 1 Pedro 4.7-10.

O Senhor espera que nos preparemos e aprendamos sobre fidelidade e dons de
ministérios, independentemente da condição social ou cultural, servindo na
igreja local, que é a figura da igreja universal gloriosa, Mateus 25.14-30. A
igreja não é um estágio no qual apenas esperamos passar o tempo até que Jesus
volte.

Devemos servir com esmero e amor no presente para que sejamos encontrados fiéis
no tempo em que formos convocados ao serviço celestial, Mateus 6.21-24; Marcos
10.43-45; Lucas 12.35-38; João 12.26; 13.13-17; Gálatas 5.13; Hebreus 10.22-25
e Apocalipse 22.3-4.

3. Preservar a unidade da igreja

A unidade da igreja é um desafio ao amor e ao respeito que os cristãos devem
uns aos outros. É um chamado à compreensão das diferentes manifestações de Deus
no mundo através da igreja local sem prescindir da comunhão em Jesus e da
sinergia cooperativa entre as diversas igrejas para que cada uma delas cumpra o
seu Ministério.

O pastor deve ter uma visão horizonal do Reino de Deus, isto é, deve enxergar
além do horizonte da igreja local ou de sua denominação. Há uma realidade muito
maior e superior do que a própria igreja local que é a Igreja Universal,
Invisível e Gloriosa, sendo a igreja local condicionada pelos sinaléticos
denominacionais apenas uma ínfima expressão da grande totalidade do que
constitui-se a Igreja de Deus em Cristo, João 17.11 e 20-23; Efésios 4.4-7;
Hebreus 12.22-24; Apocalipse 7.9-15.

II – A Relevância da Tarefa Pastoral para a Sociedade (3)

Nossa sociedade se admite pós-moderna e adota novos paradigmas socioculturais e
eclesiológicos, o que nos exige a compreensão das rupturas que se refletem no
nosso cotidiano a partir da substituição da mecanicidade pela informação e
informatização.

Vivemos em uma sociedade cibernética e de realidades virtuais. A igreja não
pode ser acometida de refração causada pelas lentes do virtuosismo ufanista e
sectário que se recusa à novas e diversificadas percepções da sociedade. O
pastor não pode fechar os olhos às transmutações da sociedade que privilegia a
privatização e a heterogeneização de interesses e valores, que vive em
constante suspeição da própria razão ressaltando a espontaneidade em
contraposição à subordinação.

Não há como não enxergar a pluralidade dos conceitos éticos e morais
estabelecidos pelo situacionismo degradante ancorado e aglutinado em torno de
interesses egocêntricos, o que exige da igreja o redirecionamento dos
comportamentos eclesiológicos e pluralidade na expressão cúltica, o que só será
possível a partir do reposicionamento da atuação pastoral. Há que se redefinir
a homilia, sem contudo, descambar para a relativização dos absolutos
estabelecidos na Palavra de Deus.

Nossa sociedade admite variegadas contemplações do mundo supondo que a
realidade seja ordenada a partir da observação das leis naturais e do ciclo
existencial. Mediante a essa miopia sociológica é imperioso desenvolvermos uma
cosmovisão pastoral que se contraponha à predisposição pós-moderna de rejeitar
uma perspectiva unívoca e correta, como preceitua a Palavra de Deus. A
pós-modernidade implica no abandono de qualquer mito legitimador dominante
desacreditando das meta-narrativas predominantes, refutando e ridicularizando
as micro-narrativas que se auto-arrogam credibilidade insofismável, como faz
discurso evangélico tradicionalista que reproduz uma eclesiologia arcaica em
detrimento da edificação e da relevância da igreja para a sociedade.

Uma cosmovisão pastoral para a pós-modernidade deve considerar o fato de que o
mundo não é algo exterior e que dele extraímos nossos conhecimentos. Uma
atuação pastoral instrutiva e construtiva, bem como uma igreja relevante, deve
entender e visualizar a possibilidade de criarmos os mundos, as realidades
existenciais, por meio da pregação contextualizada que considera as influências
recebidas na formatação da personalidade, dos conceitos éticos e da própria
religião. A Bíblia tem pressupostos para o ceticismo humano e os pastores devem
ser dotados de graça e qualificados para a interpretação dos absolutos de Deus
em qualquer época da história.

Se na pós-modernidade a realidade é relativa, indeterminada e participável, os
pastores devem atuar na formação da consciência cristã, ética e social
orientando a igreja para que condicione sua mentalidade, sua eclesiologia e sua
expressão cúltica em paralelo a recusa do verdadeiro conhecimento de Deus,
considerando a validade das emoções e da intuição na percepção ideológica da
verdade e da fé, tornando a igreja e o labor pastoral relevantes e essenciais
para o nosso contexto sociocultural.

O pastor tem a vantagem de estar presente em quase todas as ocasiões da vida
das pessoas podendo interpretar as revelações proposicionais da Bíblia a partir
da atuação de Deus na história, isto por quê uma mensagem bíblica e
profeticamente contundente aborda sobre uma variedade de problemas existenciais
e práticos, jamais apresentando-se como um discurso paliativo e
superficialmente direcionado às necessidades imediatas. O ministério pastoral é
a única tarefa que pode oferecer renovada razão de ser para a sociedade em
decadência ética e espiritual por enunciar mensagem verdadeira e mística, no
sentido pleno do termo, pois a fé cristã é o único misticismo que permite ao
homem comunhão consigo mesmo, com a sociedade e com o Deus verdadeiro de forma
completa, sem deixar de lado o intelecto, a volição e as emoções,
proporcionando ao ser uma experiência agregária, a igreja, inigualável.

Podemos ainda considerar de extrema relevância a tarefa pastoral por ser o
pastor, quando consciente de sua tarefa e de seu compromisso como profeta, o
único com argumentos capazes de superar as controvérsias ideológicas e
restaurar a unidade, a amplitude, a totalidade e a integralidade do ser,
levando-o, pela exortação bíblica e ensino da Palavra, a comunhão com o Deus
que pode restaurar e regenerar a sociedade. Nenhum outro Ministério
Eclesiástico é chamado, vocacionado e lapidado para a proclamação da sã
doutrina, para o ensino da Palavra de Deus e para o exercício da liderança na
igreja de Jesus Cristo, agindo como salvaguarda da Verdade Apostólica.

Conclusão (4)

Não é difícil perceber que a igreja sofre as mais variadas influências e se vê
pressionada pelas mais diversas tendências no atual contexto sociocultural. Os
resultados disto é profundamente perturbador e causador de uma verdadeira crise
de identidade ministerial entre os pastores, o que se verifica pela
esquizofrenia resultante do trauma causado pela confrontação da liderança.

Na melhor das hipóteses, a igreja pós-moderna tem desvalorizado a autoridade
pastoral quando exige do Ministro permanecer alheio ao desenvolvimento
tecnológico e atrelado as expectativas denominacionais tradicionalistas que
jamais promoverão desenvolvimento e maturidade para a igreja e para o próprio
pastor. Alguns membros das igrejas tecnicamente treinados têm dificuldades em
respeitar e ouvir os ministros formados e habilitados em retórica e idealismo
denominacional devido a crescente confiabilidade dos modelos de gerenciamento e
ao pragmatismo situacionista que corroem as bases bíblico-teológicas legadas
aos pastores para a realização de seus ministérios. O triunfo do individualismo
criou uma igreja cheia de pessoas que se recusam a aceitar alguém que lhes diga
em que devem crer ou o que devem ou não fazer. O padrão sociológico é muito
forte e o padrão bíblico é quase utópico no mundo estético e pictórico. (5)

É urgente e premente a necessidade de resgatarmos a credibilidade do Ministério
da Palavra pois somente aqueles que abrem seus corações e suas mentes para a
mensagem bíblica e à instrução pastoral crescerão espiritualmente. Os cristãos
que resistem a autoridade pastoral ou que vivem buscando referenciais externos
para abalizar a proclamação de seu pastor, além de se tornarem infelizes,
excluem-se da nutrição espiritual que emana do púlpito da igreja.

Não é exagero asseverar que no século 21 o exercício do ministério pastoral
ficará ainda mais difícil, visto que nossa sociedade se pauta pela negação da
autoridade e pelo fato de nenhum outro ministério eclesiástico exigir
cometimento e subordinação a autoridade como no caso do Ministério da Palavra.
O tom da liderança pastoral deverá ser estabelecido na autoridade moral e
espiritual que os pastores exibirão na pregação bíblica. Pregar deverá ser a
demonstração pública de que a Palavra de Deus opera no pastor, sendo o
instrumento que o Senhor utiliza para ministrar à igreja e ao mundo. Pregar sem
autoridade rouba a essência da Palavra de Deus.

O trabalho do pastor atinge seu auge no púlpito, resultado de oração incessante
e de inspiração autoconfrontante. Quando o pastor prega a Palavra de Deus, na
unção e instrumentalidade do Espírito Santo, o Senhor cria um momento que é
especialmente divino e que não pode ser repetido. Cada sermão é uma proclamação
específica de Deus para um momento específico na vida de seu povo.

Que Deus nos ajude.

Notas

(1) CRABTREE, Asa R. A Doutrina Bíblica do Ministério. 2. Ed. Rio de Janeiro:
JUERP, 1981. 148 p. (pp. 37-38 e 46)
(2) BARRIENTOS, Alberto. Trabalho Pastoral. Trad. Kédma Rix. Campinas:
Associação Evang. Menonita, 1991. 278 p. (pp. 31-37).
(3) FERNANDES, Fernando C. Pastor-teólogo na Pós-modernidade: Uma abordagem
teológico-fiolosófica a respeito da atuação pastoral na sociedade pós-moderna.
Rio de Janeiro, 1998. 128 p. [Dissertação – Mestrado em Teologia – Seminário
Teológico Batista do Sul do Brasil] – (pp. 99-107)
(4) FISHER, David. O Pastor do Século 21. Trad. Yolanda Krievin. São Paulo:
Vida, 1999. 334 p. (pp. 304-307 e 318).
(5) Pictórico é algo relativo ou próprio da pintura. O termo é usado aqui para
indicar o vislumbre de nossa sociedade pelo colorido das imagens e da televisão
na formação de conceitos os mais diversos.

QUE É UM
PASTOR?
De acordo com
Efésios no capítulo 4, os versos 11e 12, o ministério da Palavra é um dom
especial de Jesus Cristo à Sua igreja, havendo um objetivo definido para esse
ministério. O propósito é o treinamento dos crentes; é o estimulo à obra do
discipulado; é o crescimento do crente individual e da igreja como corpo forte,
robusto, poderoso. É, ainda, a consecução do múltiplo propósito que Jesus tem
para Sua igreja que é o de derrubar as portas do inferno, o de resgatar vidas
das mãos de Satanás, de batizar essas pessoas e de discipulá-las. E esses dom
foram dados por Deus em resposta às orações do Seu povo. O povo de Deus pedia.

Em Mateus 9.37, 38 está registrado: “Jesus diz aos discípulos: A seara é
realmente grande, mas os ceifeiros são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara
que envie ceifeiros para a sua seara”. Por isso, o que se requer daquele
que busca o ministério da Palavra é uma convicção da chamada especial da parte
de Deus. Não pode ser uma pessoa que não tenha chamada, porque o ministério, o
pastorado, o episcopado não pode ser abraçado como se escolhe uma profissão.
Lembro-me de um moço que me procurou uma ocasião e disse que achava que Deus o
estava chamando para o ministério. Perguntei-lhe, “Qual é a evidência que
você tem de que Deus está chamando você para ser pastor?” Ele não era
ovelha minha, era de uma outra igreja e viu escrito na parte externa do templo
ACONSELHAMENTO, então entrou e veio se aconselhar. Respondeu-me: “Pastor,
eu acho que Deus está me chamando para o ministério porque já fiz o vestibular
três vezes e fui reprovado. Então eu acho que é por isso que Deus está me
chamando para ser pastor”. Disse-lhe que não fosse para o seminário, que
ele estava muito enganado, porque Deus não chama fracassados nem desocupados.
Quando Jesus Cristo chamou os seus apóstolos, todos estavam trabalhando. Todos
estavam na sua profissão, consertando redes, pescando ou no escritório como
fiscal de rendas.

Relatos da Bíblia mostram que quando Deus ou o Senhor Jesus Cristo chamou, o
vocacionado estava numa atividade como Moisés que apascentava ovelhas. Ou como
Davi que também apascentava ovelhas e os outros que acabei de mencionar. A
Escritura Sagrada enfatiza a vocação divina, um sentimento tão forte naquele
que é chamado que levou Isaías, que estava cultuando no templo, a exclamar como
está registrado em Isaías no capítulo 6, no final do verso 8 onde ele diz:
“Envia-me a mim”. A mesma coisa aconteceu com Amós. Amós estava
apascentando o gado e quando ele estava pastoreando o gado, ouviu a palavra do
Senhor. E respondeu “Eu não era profeta, nem filho de profeta”. Ele
está falando aqui a Amazias. “Mas boieiro e cultivador.” Era
agricultor. “Mas o Senhor me tirou de após o gado e me disse: Vai,
profetiza o meu povo Israel.” É assim que Deus faz. É assim que Deus age.
Ou como dizia o saudoso pastor Valdívio Coelho, “Uma chamada divina, que
envolve um preparo divino para uma obra divina”. E isso tem base bíblica,
2Coríntios, capítulo 3, fala sobre esse assunto. Por essa razão, se alguém
entra no ministério sem chamada vai ser um infeliz; mas, se você também ouviu a
chamada e não entrou no ministério, vai ser tremendamente infeliz por uma
razão, e essa razão está na palavra de Jesus Cristo em João no capítulo 15 que
diz “Não fostes vós que me escolhestes mas fui eu que vos escolhei e vos
designei para que vades e deis fruto.” E se alguém abandona essa chamada
há de ser infeliz. Por isso a pergunta base é: Que é um pastor?

Estamos trabalhando em cima de um tema que já foi objeto de reflexão. Talvez
temos agora alguma variante. E quero dizer aos irmãos, especialmente os crentes
mais novos, aqueles que estão ainda se preparando para o batismo, Que é um
Pastor?

O PASTOR É UM PROFETA

E essa é uma palavra muito interessante, no entanto, ninguém queira que eu
adivinhe o futuro. Profeta não é isso. Profecia não é adivinhação do futuro. Na
mente de muitas pessoas significa uma predição do futuro, uma adivinhação.
Talvez na linha daquele povo que diz assim: “Previsões para o ano
2000”. Não, isso não é ser profeta.

No entanto, a palavra tem conotação muito mais ampla, muito mais profunda e
mais consistente e séria porque pela Bíblia Sagrada, profeta é quem fala em
nome de Deus, é o porta-voz de Deus. E a Bíblia ensina que isso é um carisma.
1Coríntios capítulo12 menciona entre os dons o de profecia. E porque profetiza,
ou seja, por que proclama a palavra do Senhor, porque edifica, exorta, consola
homens individualmente e a igreja como um todo, quando a proclamação não
existe, vai chegar a derrota e na Palavra Santa está com toda clareza e com
toda as palavras a expressão de Provérbios 29 que fala “Não havendo
profecia o povo se corrompe”. Portanto, a função primária, basilar,
fundamental do profeta é se colocar entre Deus e a pessoa humana e comunicar o
propósito eterno, comunicar a sua vontade.

Sem dúvida alguma irmãos há uma tradição milenar atrás de cada sermão que é
pregado de qualquer púlpito cristão. E mesmo assim, cada sermão deve ser atual.
Apesar de uma tradição milenar desde o tempo dos profetas, cada sermão deve
advertir sobre o pecar, deve advertir sobre a justiça e deve advertir sobre o
juízo de Deus. Cada sermão há de chamar a atenção para as conseqüências morais
e espirituais da conduta do ouvinte. E aquele que é arrependido deve apontar a
misericórdia e deve apontar o perdão de Deus e a bênção da vida com Deus. Por
isso, a palavra do profeta nunca é: “Assim eu digo”, “assim diz
Walter Baptista”, não. A palavra do profeta é: “Assim diz o
Senhor”. “Ou palavra do Senhor que veio a…”. Como está na
Bíblia Sagrada. Como profeta, o ministro da palavra tem mensagem. Mensagem de
luz, mensagem de vida, mensagem de conforto, de inspiração, de salvação que
deve ser sempre fiel e reta e ortodoxa. Palavra de orientação para a vida
porque Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente. Cada profeta então é
uma sentinela guardando a doutrina que veio dos lábios do Senhor e do ensino
apostólico. Sentinela e pastor.

Acontece que hoje está muito fácil se chamar “pastor”. Há tantos
desqualificados sendo chamados de “pastor” que é uma verdadeira
calamidade. É um quadro que vemos amiúde. Mas a Bíblia mostra que não é assim.
A Bíblia diz que sempre existiram aproveitadores, que sempre existiram mal
intencionados, que sempre existiram cavadores de lucro. E a palavra de Deus vai
dizer assim,

“Estes cães são gulosos, nunca se podem fartar; são pastores que nada
compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para sua
ganância, todos sem exceção” (Is 56.11).

É como está colocado. Querem ver mais? Jeremias 14:14,

“Disse-me o Senhor: Os profetas profetizam falsamente em meu nome, não os
enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, adivinhação, vaidade e
o engano do seu coração é o que vos profetizam”.

Há outros textos da palavra.

Nunca foi tão fácil para alguns, talvez devêssemos dizer para tantos,
reivindicarem, falarem em nome do Senhor, explorando uma pessoa simples,
incauta e até mesmo aquele que está desejosa de ser manipulada. Nunca foi tão
fácil como nos dias de hoje, e, no entanto, a palavra do Senhor é tão clara
sobre este assunto porque diz em Jeremias 3:15 “Dar-vos-ei pastores
segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com
inteligência”. Por isso, Paulo recomenda “Não desprezeis as
profecias”. Pastor é, então, o quê? Um profeta.

O PASTOR É UM ANJO.

Agora ninguém espere ver um par de asas nas costas do pastor Walter nem debaixo
do paletó. É porque tem uma história que diz que o pastor foi almoçar na casa
de uma família. E quando chegou, a menininha da família começou a andar por
trás da cadeira do pastor. Ia lá e vinha cá, fazia a volta e ia, olhava e mexia
e tocava no pastor. Aí a mão disse: “Rosinha pára com isso, menina! Que
história é essa, você andando para lá e para cá?!”. A menina respondeu:
“Eu estou procurando as asas: a senhora não disse que o pastor é um
anjo…”. Então há quem queira ver essas asas nas costas do pastor.

Mas vamos entender irmãos. Porque a palavra “anjo” tem significado.
Anjo é aquele que traz uma mensagem, um mensageiro. E Paulo se refere a isso
quando em Gálatas no capítulo 4.14, ele diz: “Embora minha enfermidade na
carne vos fosse uma tentação, não me rejeitastes, nem me desprezastes antes me
recebestes como a um anjo de Deus”. E no Apocalipse também a palavra
“anjo” é usada largamente quando as sete cartas são enviadas ao
pastor, ao anjo, da igreja de Filadélfia e às demais.

A pregação é algo extraordinário! Fico fascinado pela pregação. Quando saio de
férias, recomendam-me: “Pastor, não leve o paletó: porque se levar o
paletó, vai ter que pregar em algum lugar”, mas, eu sempre levo o paletó.
Pregar não cansa. Pregar não me cansa. Sou fascinado pela pregação. Spurgeon, o
grande Charles Spurgeon, entrou em um auditório que recém-inaugurado em
Londres, o Albert Hall. Naquele tempo não havia microfone, nem ampliação de
som. Tudo era à viva voz, e aquele auditório havia sido construído dentro dos
mais modernos recursos de acústica da época. E o evangelista havia ouvido falar
sobre isso. Entrou no auditório, que estava completamente vazio. Quando ali
chegou, foi para o palco, e com a voz poderosa de pregador, exclamou:

“EIS O CORDEIRO DE DEUS QUE TIRA O PECADO DO MUNDO!!!”

e repetiu,

“EIS O CORDEIRO DE DEUS QUE TIRA O PECADO DO MUNDO!!!”

Experimentou e saiu convencido de que a acústica era excelente. Quando chegou à
porta. um homem o procurou e disse: “O senhor que é o pastor
Spurgeon?” Ele disse: “Sou eu”. Continuou o homem, “Só
quero dizer que aceito a Jesus Cristo. Eu sou pedreiro, estava trabalhando na
sala do lado quando ouvi o senhor falar lá dentro. E essa palavra me
tocou”. A pregação dele foi só isso: “Eis o cordeiro de Deus que tira
o pecado do mundo”. O homem ficou convencido dessa verdade e se converteu.

É necessário que haja da parte do pastor verdadeira conversão. Como poderia ele
falar de uma experiência que não conhece? O que se pode dizer de uma
determinada fruta, o seu gosto, se nunca se experimentou da mesma? Quando eu
estava em Singapura, falaram de uma fruta chamada durian. É da família da jaca,
da fruta-pão, da pinha, da graviola. Essa fruta é um pouco maior que uma
graviola; mais espinhenta que a jaca, e dizem que é a fruta mais saborosa do
mundo. Essa foi a declaração que ouvi por lá, e li, até, afirmando esse fato.
Fomos, finalmente, apresentados à durian. Se é mais saborosa, não sei porque
não tive coragem de experimentar. No entanto, eu sei que é a mais fedorenta do
mundo… Fede que nem esgoto. Dizem que quando se come um bago da fruta, é algo
deliciossíssimo. Não tive coragem porque o fedor era de esgoto em dia de chuva.
Meus amados, não posso falar do sabor da durian porque não o conheço.

Outra coisa que o pastor deve ter é piedade cristã para resistir ao escrutínio
das outras pessoas. Está na palavra em 1Timóteo 4.12. O apostolo Paulo ele diz
o seguinte ao jovem pastor Timóteo, “Ninguém despreze a tua mocidade: mas
sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na amor, no espírito, na fé, na
pureza”. No boletim de hoje, foi transcrita uma palavra do Pr Nilson
Fanini bem parecida com essa. Como o pastor tem sido vítima de cobranças
fiscais. Sua vida é vasculhada e os procuradores de agulha no palheiro usam
lente de aumento sobre as falhas do ministro do evangelho. Por quê? Para orar
com ele? Nem sempre.

Ele precisa ter uma fé sadia também e ter uma fé que seja ortodoxa. Aliás, se
não for ortodoxa nem é sadia nem é fé. Que não seja amante de novidades. Hoje é
um tempo em que se ama a novidade. Nós preferimos ficar com a Palavra sempre.
Há muita novidade barateando o culto divino, nós preferimos o culto digno do
nome do Senhor. Há muito culto que satisfaz mais ao ego dos chamados pastores
que realmente às necessidades do povo.

Pois é, o pastor é um anjo. Por isso ele precisa de ter todas essas
características aí. Ele precisa conhecer a Deus, andar com Deus, ter comunhão
com Ele. Ele precisa conhecer as ciências teológicas. Ele tem que ter
capacidade mental e eu diria capacidade acadêmica, conhecimento bíblico
adequado. Ele pode não saber tudo, é verdade, mas o que ele sabe, deve saber
bem e ele deve continuar aprendendo, lendo, lendo muito para saber cada vez
mais. Por isso, não é demais até lembrar que Paulo tinha muito amor pelos
livros, por isso pediu que quando viesse, Timóteo trouxesse o livro.

Precisa conhecer o ser humano também, conhecer as ciências humanas, conhecer a
pedagogia, conhecer a psicologia, conhecer as relações humanas, conhecer aquilo
em que o ser humano é forte e aquilo que o ser humano é fraco. Agir para aquilo
que é forte na sua ovelha continue forte e progrida até e aquilo que é fraco
seja colocado com resistências, fortaleza e ele possa crescer igualmente. Como
mensageiro de Deus, como anjo de Deus, deve fortalecer aquele que está triste,
animar o cansado, levantar o que está derrubado na vida, o joelho tremente,
consolar aquele que está desconsolado, fortalecer o debilitado e mostrar o
caminho ao que está indeciso.

Como anjo de Deus é mensageiro do Espírito de Deus, da fé, da esperança, do
amor, da salvação e da libertação e do perdão que vem de Deus. Por isso, como
mensageiro de Deus, como mensageiro da palavra divina, sinto ao meu lado quando
prego, as testemunhas do Senhor, essa legião de testemunhas de que Hebreus
fala. Sinto ao meu lado Elias e Moisés e Isaías e Jeremias e Ezequiel e Daniel
e Oséias, Joel, Amós e os apóstolos. Não é que esteja tendo visões nem
fantasmas juntos de mim, mas, na mesma linha, na mesma tradição e na mesma
palavra que eles anunciaram e pregaram ao seu povo.

Primeira coisa que nós dissemos é que o pastor é um profeta. Segunda coisa, o
pastor é um anjo, mas há uma terceira o pastor é um homem. Descobri que ser
anjo não é difícil e que também não é difícil ser profeta. Difícil é ser
humano. Pastores são não somente humanos mas precisam ser plenamente humanos.
Razão porque todo pastor pede uma dose de compreensão, uma dose de paciência e
uma dose de tolerância. Isso é dito porque há quem espere que o pastor,
qualquer pastor de qualquer igreja em qualquer lugar, seja um bom pregador e
que tenha dois bons sermões todo domingo e que tenha um bom estudo em todo
Culto de Oração e que atenda no gabinete a qualquer hora do dia, inclusive no
seu dia de folga, e que seja somente sorrisos; que não canse e que não desanime
em certas horas, e que não tenha tristezas e que tenha inclusive p condão de
fazer a maravilha das maravilhas que é estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Talvez, se possível for, em três lugares ao mesmo tempo, como já tem acontecido
comigo, dois compromissos, três compromissos e a pessoa fica zangada porque a
só se pode atender a um deles.

O Pastor é um homem num mundo de homens. Em 2Timóteo 3, apresentam-se as
condições do mundo nos últimos dias. Essas condições que estão aqui em 1Timóteo
3:1-5 são as nossas condições hoje. Aliás, 2Timóteo 3:1-5,

“Sabe, que nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis. Os homens serão
amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos,
desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos”,

e aí segue com um catálogo de coisas do nosso tempo. É nesse mundo que nós
exercemos o ministério. São dias difíceis. E a descrição do coração desses
homens ímpios é a de um povo que se distancia de Deus, de um povo que
transgride as leis da decência. É um povo saturado de orgulho, de lascívia, com
novas formas de piedade, negando, porém, o Deus vivo e verdadeiro. E Paulo fala
de blasfêmia; fala de ingratidão, de calúnia, de atrevimento, de orgulho. Por
isso, enquanto o mundo desce a ladeira do inferno, Timóteo, o jovem pastor, é
exortado à fidelidade à palavra de Deus bem como todos os outros pastores.
Porque de hora em hora o mundo piora. Mas como o pastor é um servo da palavra,
ele deve manter na consciência que ele pertence ao seu povo. Ao povo que o
Senhor lhe confiou. Ele pertence à palavra que ele anuncia. Ele pertence a Deus
que o escolheu e o comprou e o fez ministro de Sua palavra. Isso quer dizer que
há de ser homem de oração e totalmente submisso e consagrado a Cristo e à Sua
causa, pois sem Deus na vida, não tem o que oferecer, não tem o que dizer a
quem busca o seu conselho ou a quem vai ouvir os seus sermões.

O pastor é um homem no mundo dos homens, mas é um homem de Deus. Ele é um
símbolo diz o doutor Wayne Oates em um livro sobre este assunto. Que ele é um
símbolo da fé cristã, um símbolo do evangelho, um símbolo da graça e é por esse
motivo que lá na Segunda Carta aos Coríntios, no capítulo 4 está dito da
seguinte maneira:

“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do
poder seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não
angustiados; perplexos, mas não desanimados; Perseguidos, mas não desamparados;
abatidos, mas não destruídos; Levando sempre por toda a parte o morrer do Senhor
Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos
corpos”.

É homem que se apropria portanto da verdade divina e a repassa a suas ovelhas.
Ele é um mestre e é um ministro. Aí eu quero explicar a palavra mestre e a
palavra ministro. Os irmãos sabem que a palavra mestre vem do latim magister,
de onde vem magistério, de onde vem magistrado, de onde vem magistratura. E
essa palavra magister, ela guarda uma raiz, magis, que quer dizer
“mais”. Por que é que o mestre, o magister ou o magistrado eram
procurados? Porque tinham algo a mais a oferecer.

Mas ele é um ministro. Ministro vem de minister onde está a raiz minus que quer
dizer menos. Ministro era o escravo. Ministro quer dizer isso aí. Pensa-se que
hoje a palavra “ministro” é pomposa e nós dizemos o primeiro escalão
do governo, os ministros. Ministro quer dizer escravo. Porque era uma pessoa
que tinha de menos. Não o procuravam porque tinha de mais, mas, sim tinha de
menos. Por isso, era ele que tinha que carregar cargas, transportar uma mesa,
pegar uma coisa ali adiante, fazer isso. Trabalho pesado era do minister, do
escravo. O pastor é ao mesmo tempo um mestre e um ministro. Ele ao mesmo tempo
passa e repassa aquilo que ele tem de mais, mas, ao mesmo tempo ele também
sendo mestre, ele é um servo, é um ministro.

É um homem de Deus mas não é um super-homem, é um ser humano vulnerável, e é
por esse motivo que ele busca ser fortalecido pelo poder do Alto. É vulnerável
por isso, infelizmente, comete o pecado de envelhecer. Dizem que uma igreja
estava procurando um pastor. A Comissão de Sucessão Pastoral entrevistou um
determinado obreiro já maduro e ficou muito satisfeita com os resultados da
entrevista, quando alguém se lembrou de fazer uma perguntinha que estragou
tudo: “Pastor, quantos anos o senhor tem?” Responde o candidato,
“Tenho sessenta e dois.” Aí, a igreja sentiu que a Comissão murchou,
porque ele tinha sessenta e dois anos: não foi convidado…

Virou moda fazer o perfil do pastor. Uma igreja em nossa cidade, quando foi
escolher o novo pastor, fez o “perfil do pastor”. Entre outras coisas
dizia que o pastor deveria ter até determinada idade. Nilson Fanini não poderia
ser pastor daquela igreja, Billy Graham. Nenhum desses grandes homens de Deus
podia ser pastor. Porque já haviam passado daquela idade. O único perfil que
conheço e reconheço é o que está no Novo Testamento, na palavra de Deus:
1Timóteo 3; Tito 1;1Pedro 5.

O pastor é humano, muito humano, é vulnerável, razão porque ele busca o poder
de Deus; e não pode ter medo de responsabilidades; não pode ter medo de
críticas e não pode ter medo do aparente fracasso.

Pastores são profetas, são anjos e são homens, simples homens, mas, pastores
são cooperadores, são facilitadores na obra do Senhor e o ministro do evangelho
é um servo voluntário como Jesus e há de caracterizar-se pela unção do Espírito
debaixo de cujo poder vive. E já que um enorme muro de separação existe e
sempre tem existido entre os homens (Paulo fala disso em Efésios 2), ao
ministro do evangelho é confiada a causa da reconciliação porque já chegou a
boa nova de que em Jesus Cristo há salvação, a barreira foi quebrada e nós
somos feitos um.

O que é necessário é amar a Cristo. Porque quando isso acontece, esse amor de
Cristo se estende naturalmente àqueles a quem Jesus Cristo também ama, o Seu
rebanho. Jesus perguntou a Pedro: “Pedro, tu me amas? Simão, filho de
Jonas, tu me amas verdadeiramente?” A pergunta foi essa. A pergunta foi
Pedro agapos me? Tu me amas verdadeiramente? E Pedro deu uma resposta infeliz.
Os irmãos viram que na Bíblia, Pedro dizer assim: “Senhor, Tu sabes que eu
Te amo.” Mas Jesus perguntou três vezes, “Senhor, Tu sabes que eu Te
amo”. Ele não disse agapo te. Pedro, agapos me? Ele devia responder,
“Agapo te”. Ele disse: “Filo te” é outra palavra. Filo, vem
de filos que quer dizer amigo. “Senhor, Tu sabes que eu sou teu
amigo”. Foi isso que Pedro respondeu para Jesus, que pergunta de novo:
“Pedro, tu me amas de verdade?”. “Ó Senhor, Tu sabes que eu sou
teu amigo.” E finalmente, a resposta, “Senhor, Tu sabe todas as
coisas. Tu sabes que eu te amo”. Por isso, Jesus disse, “Apascenta os
meus cordeirinhos, pastoreia minhas ovelhas.” O amor a Jesus Cristo meus
irmãos, é condição sine qua non para que um ministro do evangelho possa se
sustentar no evangelho da Palavra, no ministério e sempre nesse amor a Cristo,
a Deus, e aos irmãos.

Parte XXXX
Dos Sínodos
e Concílios

Comentário do Capítulo XXXI da
Confissão de Fé de Westminster
As várias
denominações de hoje empregam a palavra “sínodo” de maneiras diferentes. Para
nós, os presbiterianos, o sínodo – composto de ministros e presbíteros dos
presbitérios – é o grau acima do presbitério e abaixo do supremo concílio (ou
assembléia geral) na sua ordem de governo eclesiástico.

A distinção entre os vocábulos “sínodo” e “concílio” é mais aparente que real;
ou seja, assim como o presbitério e o supremo concílio, o sínodo também é um
concílio [1]. “Sínodo” ou “Concílio” é uma conferência convocada pelos líderes
eclesiásticos para dar orientação à igreja.

Um concílio pode ser ecumênico (geral) e, portanto, representar a igreja
inteira, ou pode ser local (particular), tendo representação regional ou local.
Por exemplo: Doze concílios regionais reuniram-se para debater a heresia ariana
entre os concílios ecumênicos de Nicéia, em 325, e de Constantinopla, em 381. O
primeiro concílio ecumênico na história da Igreja foi o de Jerusalém (c. 50 A.
D.) e está registrado em Atos 15. Os resultados daquele Concílio foram
normativos para toda a igreja cristã primitiva. No entanto, o Concílio de
Jerusalém deve ser distinguido dos concílios posteriores, pelo fato de ter tido
uma liderança apostólica [2].

A Assembléia de Westminster (1643-1649) foi um dos maiores concílios na
história da igreja cristã de origem reformada. O capítulo que passamos a
compartilhar é parte integrante da Confissão de Fé, um dos grandes tratados
teológicos produzidos por aquela histórica e notável assembléia.

I O propósito dos sínodos e concílios

“Para melhor governo e maior edificação da Igreja, deverá haver as assembléias
chamadas sínodos e concílios. Em virtude do seu cargo e do poder que Cristo
lhes deu para edificação e não para destruição, pertence aos pastores e aos
outros presbíteros das igrejas particulares criar tais assembléias e reunir-se
nelas quantas vezes julgarem útil para o bem da Igreja”.

Os sínodos e concílios existem “para melhor governo e maior edificação da
igreja”, ou seja, “para o bem da igreja”.
Cristo dotou a igreja do poder necessário para levar a efeito a obra que lhe
confiou. Investe todos os membros da igreja com uma certa medida de poder, mas
outorga uma medida especial dele aos oficiais da igreja. O governo da igreja
presbiteriana pertence aos pastores e presbíteros. Sua autoridade não lhes é
delegada pelos membros da igreja, embora a igreja os escolha para o ofício.
Enquanto participam do poder geral dado a todos os membros, recebem diretamente
de Cristo aquela medida adicional que é exigida para o seu trabalho como
oficiais da igreja do Senhor.

O poder governante da igreja reside primariamente nos conselhos locais e destes
é passado aos sínodos e concílios. Cada igreja local tem um certo grau de
autonomia ou independência, mas este é naturalmente restrito de várias maneiras
tão logo ela se associe a outras igrejas locais. Os interesses da igreja em
geral não podem ser sacrificados pelos de qualquer igreja local [3].

As assembléias maiores, ou concílios, não representam uma espécie de poder
superior do que se investe nos conselhos. É a mesma espécie de poder, mas
representado num grau maior. Desde que diversas igrejas são representadas há,
naturalmente, uma acumulação de poder. Além disso, as decisões dessas
assembléias não são meramente só consultivas, mas obrigatórias, exceto em casos
em que sejam explicitamente declaradas somente consultivas. São obrigatórias às
igrejas, a menos que sejam demonstradas como contrárias à Palavra de Deus.

II A autoridade dos sínodos e concílios

“Aos sínodos e concílios compete decidir, ministerialmente, controvérsias
quanto à fé e casos de consciência; determinar regras e disposições para a
melhor direção do culto público de Deus e governo de sua Igreja; receber
queixas em caso de má administração e com autoridade decidi-las. Os seus
decretos e decisões, sendo consoantes com a Palavra de Deus, devem ser
recebidos com reverência e submissão, não só pela sintonia com a Palavra, mas
também pela autoridade através da qual são feitos, visto que essa autoridade é
uma ordenação de Deus, designada para isso em sua Palavra”.

A autoridade dos sínodos e concílios deve ser segundo a Palavra de Deus. Do
contrário correm o risco de ficarem a quem do que se exige deles, ou mesmo de
irem além, beirando (ou até praticando) o despotismo e abuso de autoridade.
Segundo Calvino, se queremos saber qual é a autoridade dos concílios segundo a
Escritura, não há promessa maior do que a que se encontra nas palavras de
Cristo: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu
no meio deles” (Mt 18.20). Isso se aplica não somente a qualquer reunião
particular, mas aos concílios em geral. Contudo, não é essa a dificuldade da
questão, mas a condição que se adiciona: que Cristo estará no meio do concílio
sempre que o mesmo for reunido em seu nome. Cristo não promete nada a não ser
para quem esteja reunido em seu nome. O que isso significa?

Não estão reunidos em nome de Cristo os que, sem ter em conta o mandato de
Deus, no qual proíbe que se acrescente ou diminua algo à sua Palavra, decretam
o que lhes dá na telha; pois estes, não contentes com os oráculos da Escritura,
que são a regra da perfeita sabedoria, não cessam de inventar coisas novas. E
visto que Jesus Cristo não promete estar presente em todos os concílios, mas
tenha posto um sinal particular para diferenciar os verdadeiros dos que não
são, não podemos fazer pouco caso dessa diferença. O pacto que Deus fez
antigamente com os sacerdotes levitas foi que ensinassem o que ouviam de sua
boca (Ml 2.7). Ele também pediu o mesmo aos seus profetas e apóstolos. E
àqueles que quebrassem esse pacto Deus não os reconheceria como sacerdotes
seus, nem lhes daria autoridade alguma. Resolvam essa dificuldade os
adversários, diz Calvino, se desejam que se dê crédito às decisões dos homens
tomadas à margem da Palavra de Deus [4].

III A falibilidade dos sínodos e concílios

“Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer
particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem
constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e
outra coisa”.

Todos os sínodos e concílios podem errar, e muitos têm errado no decorrer da
história porque são formados por homens que podem e têm errado [5]. Isso,
porém, explica, mas não justifica uma decisão conciliar equivocada.

Uma decisão conciliar equivocada é aquela que resulta em algum prejuízo para a
igreja. O concílio não é a igreja, mas o seu representante. Uma igreja pode ser
bem ou mal representada. Qualquer resolução do concílio, seja ela boa ou má,
vai refletir primeiramente na igreja representada por ele. A igreja é o
termômetro das resoluções de um concílio. O Novo Testamento é muito claro
nisso. Após a decisão do primeiro concílio da Igreja – que se reuniu com o
propósito de opor-se aos esforços judaizantes – os que foram enviados à Jerusalém
desceram logo para Antioquia e, tendo reunido a comunidade, entregaram a
epístola. “Quando a leram, sobremaneira se alegraram pelo conforto recebido”
(At 15.31). Percebe-se que a igreja de Antioquia foi ricamente abençoada pela
decisão daquele Concílio. E não podia ser diferente porque o que foi resolvido
ali “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15.28). “O Espírito revelou o
que os líderes da igreja deveriam dizer e fazer” [6].

Quando um concílio se submete verdadeiramente ao Espírito de Deus o resultado
são decisões positivas e salutares para a vida da igreja. Mas quando o Espírito
Santo (assim como a Bíblia) não passa de inocente útil para satisfazer a
carnalidade humana, o resultado pode ser terrivelmente desastroso para a
igreja.

Embora os sínodos e concílios não devam constituir regra de fé e prática, eles
podem e devem ser usados como auxílio em uma (fé) e outra coisa (prática). Se
as decisões deles forem pouco sábias, mas não se opõem diretamente à vontade de
Deus, recomenda-se a submissão a elas por amor à paz. Mas se as decisões são
contrárias à Palavra de Deus, então devemos rejeitá-las e sofrer as
conseqüências [7].

IV O caráter eclesiástico dos sínodos e concílios

“Os sínodos e concílios não devem discutir nem determinar coisa alguma que não
seja eclesiástica; não devem imiscuir-se nos negócios civis do Estado, a não
ser por humilde petição em casos extraordinários, ou por conselhos, em
satisfação de consciência, se o magistrado civil os convidar a fazê-lo”.

O caráter eclesiástico dos sínodos e concílios nunca deve ser perdido de vista.
Por serem assembléias eclesiásticas, não estão sob a jurisdição dos sínodos e
concílios assuntos meramente científicos, políticos, comerciais ou
equivalentes. Não devem se envolver nos negócios civis do Estado, a não ser por
humilde petição deste em casos extraordinários, quando toca diretamente nos
interesses da igreja [8], ou por conselhos, em satisfação de consciência, se o
magistrado civil os convidar a fazê-lo. Isso tudo é compreensível porque aos sínodos
e concílios somente lhes correspondem assuntos como os de doutrina e moral, de
governo da igreja e disciplina, e quaisquer outros que tenham a ver com a
preservação da unidade e da boa ordem na igreja de Jesus Cristo. Mais
particularmente, têm que ver com (a) assuntos que devido a sua natureza
correspondam à jurisdição de assembléias menores, mas que por uma ou outra
razão, ditas assembléias menores não podem resolver; e (b) assuntos que devido
a sua natureza, correspondam à jurisdição de uma assembléia maior, visto que
pertencem às igrejas em geral, tais como assuntos relacionados com a confissão,
a ordem eclesiástica ou a liturgia da igreja.

Contudo, se por um lado os sínodos e concílios não devem tratar de assuntos que
pertencem à jurisdição do magistrado civil, do outro eles devem ensinar aos
membros das igrejas seus deveres com respeito ao poder civil, e do cumprimento
desses deveres como obrigação religiosa (cf. Rm 13.1-7; 1Pe 2.11-17).

Notas
[1] Portanto, toda vez que aparecer a palavra “concílio” neste artigo
entenda-se concílios em geral.
[2] Cf. J. H. Hall, Concílios eclesiásticos, p. 318.
[3] Cf. L. Berkhof, Manual, p. 261.
[4] Institución, IV,ix,2. Calvino
está pensando principalmente nos concílios católico-romanos.
[5] Cf. Calvino, Institución, IV,ix,10,11.
[6] Kistemaker, Acts, p. 562.
[7] Cf. A. A. Hodge,
Comentário, p. 350,51.
[8] Cf. A. A. Hodge, Comentário, p. 350.

Bibliografia

A Confissão de Fé de Westminster. 3a ed. São Paulo: Cultura Cristã, 1997.
BERKHOF, L. Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio:
LPC/Ceibel, 1985.
___________ Teologia Sistemática. 2a ed. Grand Rapids: T.E.L.L., 1987.
CALVINO, J. Institución de la Religión Cristiana. Vol. II. Países Bajos:
Felire, 1986.
HALL, J. H. Concílios
Eclesiásticos. In: EHTIC. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988.
HODGE, A. A. Comentário de la Confesión de Fé de Westminster. Barcelona: CLIE,
1987.
KISTEMAKER, S. J. Exposition of the Acts of the Apostles.
New
Testament Commentary. Grand Rapids: Baker Book House, 1990.
WHEATON, D. H. Sínodo. In: EHTIC.
Vol.
III. São Paulo: Vida Nova, 1990.

Parte XXXXI
Obedeçam a
Seus Líderes

Comentário de Hebreus 13.17 – Por
Simon Kistemaker
Este versículo
não tem conexão com os versículos precedentes. Nós precisamos voltar ao
versículo 7 onde a mesma expressão – seus líderes – ocorre. E no versículo 24 o
escritor mais uma vez emprega essa expressão.

17. Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por
vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e
não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.

Nesse versículo em particular, o autor enfatiza três pontos.

a. Obediência exigida. Os líderes que haviam falado a Palavra de Deus
anteriormente não estavam mais presentes. Eles devem ser relembrados por sua
conduta e fé, diz o autor de Hebreus (13.7). Líderes após líderes tomaram seus
lugares. O escritor não está interessado na posição desses líderes – ele não dá
qualquer idéia se eram presbíteros, bispos, pregadores ou professores. Antes,
ele pede ao leitor que obedeça a eles.

A falta de obediência prevalece entre alguns dos leitores. Observe, por
exemplo, a admoestação do autor para não se deixarem “envolver por doutrinas
várias e estranhas” (13.9). Os líderes precisavam de ajuda e encorajamento.
Assim, o apelo para obedecer a eles e submeter-se à sua autoridade é oportuno.
É claro, os leitores poderiam questionar se essa autoridade era auto-imposta
pelos líderes ou delegada a eles por Cristo. Se um líder é um ministro dedicado
da Palavra de Deus, ele prova, assim, que Cristo lhe deu autoridade. E se
Cristo confiou a tarefa de liderança a alguém, as pessoas não devem questionar
sua autoridade (At 20.28; Ef 4.11; 1Pe 5.1-3).

b. Cuidado prestado. Os líderes levavam a sério a tarefa que lhe havia
sido dada por Deus. “Pois velam por vossa alma.” Eles literalmente perdem sono
por causa do bem-estar espiritual dos crentes. Eles conhecem a Palavra de Deus
falada ao profeta Ezequiel: “Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa
de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte. Quando
eu disser ao perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada
disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse
perverso morrerá na sua iniqüidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei”
(3.17,18).

Os líderes ficam com a congregação, são vigilantes em cuidar dos membros,
nutre-os espiritualmente, desviam ataques malignos e administram disciplina
quando necessário. João Calvino escreve que, “Quanto mais pesada a
responsabilidade deles, maior honra merecem, pois quanto mais alguém sofre por
nossa causa, e quanto maior for sua dificuldade e maiores os riscos que
enfrentam por nós, maiores também nossas obrigações para com eles”. Esses
líderes devem prestar contas a Deus, porque ele é o superior deles; isso não
quer dizer que os membros não são tidos como responsáveis. Eles certamente são.
Eles, também, devem trabalhar juntos, harmoniosamente, para que a tarefa dos
líderes seja uma alegria e não um peso.

c. Alegria experimentada. Por toda sua epístola o autor enfatizou a
responsabilidade corporativa dos crentes. Para mencionar um exemplo, ele exorta
os leitores a encorajarem-se mutuamente: “Pelo contrário, exortai-vos
mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de
vós seja endurecido pelo engano do pecado” (3.13). De maneira semelhante, como
um corpo eles devem responder a seus líderes, pois, então, há alegria nos
relacionamentos interpessoais da igreja. Eles recebem as bênçãos do Senhor ao
obedecer os líderes que Deus lhes deu. Se eles todos respondem de modo
favorável, o trabalho de seus líderes se torna muito mais alegre.

Quando os membros se recusam a obedecer e não respeitam seus líderes, o
trabalho na igreja se torna um grande peso. Os membros devem entender que nem
eles nem os líderes são donos da igreja. A igreja pertence a Jesus Cristo, a
quem os leitores são responsáveis. Ao dificultar o trabalho e a vida dos
líderes, eles serão os perdedores. Os líderes podem testificar diante do Senhor
que advertiram a pessoa desviada, que escolheu não abandonar o pecado. Essa
pessoa morrerá em seu pecado, mas os líderes estão livres da culpa (Ez 3.19).
No final das contas, então, o Senhor vinga e julga seu povo (Hb 10.30; Dt
32.35,36; Sl 135.14). De maneira pastoral e prudente, o escritor de Hebreus
observa que um relatório triste, ao invés de alegre, sobre a conduta espiritual
dos leitores não será vantajoso para nenhum deles.

Parte XXXXII
Evangelismo
Ontem e Hoje
 INTRODUÇÃO
Podemos aprender com a História da Igreja, ou ela nos serve apenas para
mostrarmos conhecimento livresco e ostentação de datas e nomes antigos? Foi
desta pergunta que surgiu o interesse em escrever sobre este assunto!  O evangelismo na Igreja Primitiva tem muito a
nos ensinar hoje. Por que não observarmos o mover do passado tirando dele
lições preciosas para o presente? A Igreja Primitiva tem muito a ver com o que
pensamos sobre evangelismo na Igreja Contemporânea!

I. OS RUMOS DO EVANGELISMO NA IGREJA PRIMITIVA E NA IGREJA CONTEMPORÂNEA

Apesar de muitos pensamentos ao contrário, aquele foi o melhor momento de Jesus
vir ao Mundo. Mas, Roma não era a potência mundial? César não era o “senhor” da
época? Não havia pobreza e opressão por causa do Império ditador vigente? A resposta
é sim, é deve ser sim! Roma construía grandes estradas para cidades
circunvizinhas, onde o comércio se propagava com facilidade. Todo o comércio
era obrigado a caminhar pelas estradas de Roma. Foi a época da frase: “Todos os
caminhos levam à Roma”. Onde um Império destes beneficia o Evangelho? A
resposta é simples! Os evangelistas utilizavam-se das mesmas estradas usadas
pelos comerciantes para disseminar a Palavra de Deus. A diferença estava nos
propósitos de cada um, isto é, o comerciante ia pelo dinheiro, já os
evangelistas iam por Cristo. Um outro benefício disto, era que, para se viajar,
não necessitava-se de passaporte! Sabe-se até de um certo homem que viajou para
Roma 72 vezes, sem precisar de “burocracia” nenhuma.

O judaísmo foi, ao contrário do que alguns pensam, uma faísca que ajudou na
grande fogueira do cristianismo. Principalmente porque os judeus tinham grandes
privilégios para com os romanos, pois ficaram ao lado de César na guerra e,
eram fiéis à preferência deste Imperador, até os tempos da Igreja Primitiva. Os
romanos, inclusive, passaram até a admirar os costumes e religião dos judeus. E
isto foi causa até mesmo de grandes proselitismos e ajudas vindas deles (Lc.
7:5).

No Primeiro Século a.C., os filósofos começaram a disseminar o politeísmo
(embora crescem eles em algum tipo de monoteísmo). Porém, os judeus, que são
monoteístas, continuaram com sua crença e, por sua vez, conseguiram
disseminá-la também. Assim, na época da Igreja Primitiva, haviam religiões
fundamentadas nos dois princípios – monoteísta e politeísta.

Muitos romanos da época não aceitavam o judaísmo como religião por causa de
seus rituais, principalmente o da circuncisão, que achavam ser um ato de
selvageria. Mas, quando a circuncisão foi substituída pelo batismo nas águas,
na Graça, muitos começaram a aceitar a religião cristã. Num período onde as
religiões de “mistério”, onde as pessoas tinham que ser “iniciadas”, isto é,
passar por processos de “batismos” de aceitação e “pactos” de sangue, onde
haviam morte ou dor, de uma vítima ou do próprio iniciado, o Evangelho veio
como um refrigério, pois exigia-se do convertido, renúncia do “eu” (Mt. 16:24)
através do sacrifício já feito na cruz do Calvário, por Cristo Jesus, não
necessitando o ser humano fazer mais sacrifício ou penitência alguma! Isto era
algo muito chamativo para as pessoas da época, que apenas conheciam deuses
carrascos e extremamente exigentes! Sabe-se de uma religião daqueles tempos,
por exemplo, que a pessoa, para ser iniciada nela, devia deitar-se no chão, de
barriga para cima, e um animal era sacrificado sobre sua barriga, para que seus
pecados fossem perdoados! Os romanos se assustavam com a religião judaica
porque acabavam generalizando, achando que os sacrifícios deles também eram
assim. As religiões serviam para saciar o desejo de segurança espiritual dos
homens, principalmente a segurança após a morte. Mas, muitas delas, ofereciam
medo para adentrar-se nelas e ainda, após serem iniciados, os homens ainda
ficavam na incerteza, com tantas exigências rituais enquanto participavam das
tais. Na verdade, quando as pessoas adentravam as religiões da época da Igreja
Primitiva, seus pontos de interrogações e incertezas não diminuíam, ao
contrário disto, geravam mais dúvidas e indagações como: “estaríamos conforme
as exigências rituais religiosas prescritas na lei por nós seguidas?”;
“estariam nossas atitudes agradando as exigências de tais leis?”; “como
consegue-se alcançar exigências tão transcendentes sendo o homem tão falho?” O
Evangelho, com seu sacrifício perfeito – Jesus Cristo – conseguiu suprir todas
as necessidades e incertezas humanas, para aqueles que crêem (Hb. 8 – 10).

Percebe-se também a facilidade de se espalhar os ensinamentos de Cristo, pelo
fato de a língua grega ser uma língua quase que Mundial naquela época. Por
causa da helenização, a maioria das pessoas entendiam o grego, assim, podia-se
pregar o Evangelho em grego e ser entendido em quase todos os lugares
civilizados daquele período.

Desta forma, assim como Roma foi o berço de muitos filósofos ateus, contribuiu
de igual modo com a pregação do Evangelho. Vê-se isto até mesmo através da
tolerância e conservação dos judeus neste Império. Os judeus nunca foram
proibidos de terem sua religião por nenhum imperador romano. É certo que houveram
tempos onde os cristãos foram fortemente perseguidos por alguns líderes
romanos, mas isto, no fundo, contribuiu muito mais do que atrapalhou, pois com
a perseguição assirrada, houve uma disseminação maior dos cristãos pelo mundo,
pois quando havia afronta em uma região, os cristãos acabavam se espalhando por
outros lugares, levando consigo o Evangelho da Graça.

Enfim, na igreja contemporânea não temos de igual modo uma língua quase que
mundial como nos tempos romanos? Sim! O inglês, que é uma língua muito
conhecida por onde passamos (quase todo o mundo tem o inglês como língua
comercial). Ou ainda o espanhol (está em 84 países, também como língua
comercial). E isto, sem contar com os meios de comunicação de que dispomos na
atualidade, como a Internet. Se temos, atualmente, tanta chance quanto a Igreja
Primitiva teve de pregar o Evangelho a toda a criatura, se o evangelismo
“Ontem” e “Hoje” seguem rumos bem semelhante, o que estamos esperando?

II. O EVANGELISMO COM SUAS DIFICULDADES PRIMITIVAS E ATUAIS

Apesar de tantos benefícios, mostrados no capítulo anterior, haviam também as
dificuldades para se pregar o Evangelho na época da Igreja Primitiva! Muitas
vezes, achamos que só na atualidade existem as dificuldades! Achamos isto,
também, porque pensamos que se antigamente não havia tanta tecnologia, então,
talvez seria mais fácil as pessoas crerem em um mundo espiritual. Porém,
esquecemo-nos que nos tempos da Igreja Primitiva, a idolatria era predominante,
e havia se tornado parte da cultura religiosa do povo e que os únicos que
tinham liberdade religiosa eram os judeus, e ainda eram discriminados por isto!
Nós, diferentemente deles, temos liberdade religiosa apoiada pela nossa
Constituição! As pessoas de hoje que não crêem em Cristo, o fazem por
liberdade, pior foi o tempo onde não criam porque isto resultaria em
discriminação e, em algumas localidades, perseguição, sofrimento e até mesmo
morte!
Os judeus acreditavam em um tipo de monoteísmo absolutizado em uma só pessoa da
Trindade. Neste tipo de monoteísmo, Jeová era visto como o Deus solitário, sem
ninguém que se equiparasse a Ele, nem que o Ser equiparado a Ele, fosse de Sua
mesma natureza. Para expor tal fato, necessita-se de argumentos bíblicos bem
apurados e, muitos dos que seguiam a religião judaica, eram bem instruídos, em
contrapartida, os cristãos eram bem pouco estudados! Por este motivo, muitos
dos principais e fariseus não criam no Evangelho. Isso não ocorre, às vezes,
também em nossa época? É claro que sim! Porém, a culpa agora é nossa, pois temos
condições de estudar para atingirmos tanto a doutos quanto a indoutos em nossas
pregações e, por motivos variados, não estudamos, não pesquisamos, não
crescemos “na Graça e no conhecimento” junto (2ª Pe 3.18), e acabamos, em
muitos lugares, só alcançando os indoutos! É claro que para a pregação do
Evangelho, o primordial são os valores espirituais, mas, os materiais também
contam. Não façamos da nossa “preguiça” ou “falta de vontade” um estorvo à
pregação das Boas Novas do Reino de Deus! Nenhum dos discípulos de Cristo
saíram a pregar o Evangelho sem antes serem preparados para tal. Perceba-se que
deixaram de ser chamados de “discípulos” (literalmente “alunos” ou
“aprendizes”) e só foram chamados de “apóstolos” (que significa “enviados”)
depois do período de aprendizado com Jesus Cristo! Chega de desculpas irmãos!
Vamos nos preparar, os “campos brancos estão para a ceifa” (Jo 4.35).

Outra dificuldade de se pregar o Evangelho naquela época, era pelo fato de que
os judeus sabiam que “o Cristo” havia morrido numa cruz. A cruz, segundo o
livro de Deuteronômio 21:22,23, era o lugar onde morriam os malditos e, para os
judeus, o Cristo nunca teria de passar por esta humilhação, aliás, para eles, o
Cristo não passaria por humilhação nenhuma! Esqueceram-se de ver em Isaías 53,
que o Messias seria também o Servo Sofredor que levaria sobre Si a nossa
“maldição” através de Sua expiação. Eles achavam, ao contrário do que o próprio
Jesus ensinou, que Ele teria grandes poderes políticos, e nada disto aconteceu,
pois O Messias, na verdade, não seria o “rei do pecado”. O Império que
realmente subjugava a humanidade, não era o de César, mas sim o Império da
Morte. Como o Império da Morte estava em outra dimensão, no mundo espiritual, e
isto acabava prejudicando a esfera do material, Cristo aniquilou o mal pela
raiz, pela causa, no mundo espiritual, isto é, o Reino dele não foi deste mundo
porque Sua luta foi contra um reino que também não era daqui (Jo. 18:36; Hb.
2:14).

A perseguição ao cristianismo começou porque não eram os cristãos como os
religiosos judeus antigos. A única religião que poderia existir, para os
romanos, além da religião romana, era a dos judeus, o que diferenciasse destas
duas, tinha de ser examinada. Com isto, começaram a perseguir os cristãos, e a
expulsá-los, e quem também sofreu com isto, foram os judeus, pois os romanos
achavam que se o cristianismo havia surgido do judaísmo, estes também não
poderiam permanecer mais, porque haveria o risco dos judeus, como os cristãos,
aderirem a muitas outras crenças paralelas e excluírem as já existentes no
Império Romano. O cristianismo primitivo, ao que parece, era mais excludente
que o judaísmo do período, pois, os judeus viviam entre os pagãos romanos e até
mesmo se adaptavam ao governo de César sem muito problema, porém, o
cristianismo não aceitava os dias de festas pagãs, por isso não os comemorava e
nem ia à praça pública comemorá-las e, ao contrário do judaísmo, que
esperava-se a pessoa vir por si mesma e tornar-se um prosélito, o cristianismo
por sua vez, ia até as pessoas proclamando as Boas Novas e convidando-as a
renunciarem todas as práticas antigas, principalmente as práticas religiosas
romanas. Perceba-se que os pregadores primitivos “ia” às pessoas, não as
esperava “vir” até elas. Isto é para que percebamos como o Evangelho também
encontrou dificuldades contra o paganismo greco-romano, não tão diferente como
hoje!

O culto greco-romano era realizado apenas por uma questão de cultura. Ninguém
queria saber se realmente haviam ou não os deuses aos quais adoravam e serviam,
simplesmente cultuavam sem inquirirem nada à respeito do que criam. Os seus
cultos eram apenas um ritual passado de geração-a-geração, e seguiam apenas
para não perderem as tradições. Era o famoso: “Nasci nesta religião e vou
morrer nela!” Seguiam os ritos, então, apenas por uma questão de
tradicionalismo, mas não porque era a verdade. Isto tudo era bem diferente do
Evangelho, com seus cultos calorosos e avivados. Cultos esses aos quais não
prostravam-se diante de imagens ou objetos considerados sagrados, mas sim, uma
crença no Deus que havia morrido e ressuscitado, e que estava ainda no meio
deles por intermédio do Espírito Santo.
Não seriam estas as dificuldades básicas de hoje também? Não temos atualmente
religiões bem semelhantes às judaicas e às romanas do período da Igreja
Primitiva? Não pregaram eles o Evangelho, apesar de tudo isto, a toda a
criatura? Se o evangelismo “Ontem” e “Hoje” encontra as mesmas dificuldades, e
mesmo assim eles conseguiram, o que estamos esperando?

III. A IGREJA PRIMITIVA E A DE HOJE NA EVANGELIZAÇÃO DOS JUDEUS

Se pregar o Evangelho aos desconhecedores de Deus já é difícil, imagine só
pregar o Evangelho àqueles que se julgam conhecedores plenos de Deus?! Isto
ocorreu com os primeiros cristãos em Roma. Lá, haviam muitos judeus que ainda
seguiam sua religião à risca, porém, poucos que realmente buscavam a Deus!
Aconteceu que, os que simplesmente seguiam a religião por motivo semelhante aos
romanos, apenas por tradição, não aceitavam de maneira nenhuma a Jesus como
Senhor e Salvador de suas vidas, pois eram fanáticos materialistas. Porém, os
que realmente buscavam a Deus, conseguiam enxergar a verdade sobre Jesus e a
Sua Salvação proporcionada na cruz. Quantas pessoas hoje, que você conhece,
seguem sua religião porque aderiram cegamente a ela? Quantas que não querem ser
alertadas, pois acham que aceitar a Jesus é trocar de “religião”? O pior cego
não é aquele que não quer ver? Esta era a situação dos judeus, como também hoje
ainda o é.

Os judeus materialistas esperavam – como ainda hoje – o Messias político, que
dominaria todo setor econômico, administrativo, legislativo e territorial do
mundo todo e cederia tudo a Israel. Um pensamento bem semelhante ao de Hitler
quando na época do “Holocausto”! O exclusivismo absoluto foi e é o grande
problema do judeu.

Esqueceram-se eles de seus próprios pecados e da necessidade primordial do
perdão de Deus para que o “Reino dos Céus” fosse manifesto em sua vida
espiritual. Queriam eles resolver um problema terreno e material olvidando o
espiritual (Mt. 6:33).

Os cristãos sempre usavam como fato e como prova de que Jesus era o Messias, as
promessas feitas por Deus aos profetas no Antigo Testamento. Fatos estes, que
nunca ninguém conseguiu refutar. Os judeus-cristãos mostravam que todas as
promessas cumpriram-se em Jesus, e com isto, conseguiram ganhar muitos à
Salvação. Porém, também perderam muitos, como já exposto anteriormente, pelo
fato de os judeus não aceitarem a idéia de que Jesus era o Messias tendo
morrido numa cruz. Não entendiam que Jesus não era maldito, mas sim, que
tornou-se maldição por nós (II Co. 5:21). Jesus ressuscitou ao terceiro dia,
não como maldito, mas como o Vitorioso, pois não recebeu o salário do pecado,
que é a morte, mas garantiu-nos o Dom gratuito de Deus, a Vida Eterna, vencendo
as ânsias da morte (Rm. 6:23).

Os judeus tentavam argumentar o fato de não ser Jesus o Messias, por intermédio
de muitas afirmações que diziam não ter respostas, porém, quando chegavam à
ressurreição de Cristo, não havia como negar, Ele realmente ressuscitara, andou
entre seus discípulos por espaço de quarenta dias (At. 1:3) e apareceu a mais
de quinhentos irmãos (I Co. 15:3-8). Não somente isto levava os judeus da época
a se calarem diante da Verdade, como também, toda a vida de Jesus, onde não
houve sequer uma profecia que não foi cumprida Nele, e onde não houve pecado
algum (Mt. 26:56: Jo. 8:46).

Os judeus reclamavam também o fato de os cristãos usarem os mesmos livros do
judaísmo (a Lei e os Profetas). Diziam que haviam sido roubados, porém, os
cristãos diziam que os judeus não davam o valor correto à Palavra de Deus, e
provaram isto com passagens como “o bezerro de ouro”, “as murmurações no
deserto”, etc. A Palavra de Deus não é de cunho exclusivo e particular, mas, para
todos os que crerem (Rm. 1:16,17).

Muitos, no decorrer da história, disseram que apesar desta briga judaica contra
o cristianismo, na verdade, são ambas as religiões a mesma coisa. Disseram até
mesmo que Jesus foi uma tolice judaica seguida por pessoas sem escrúpulo e que
não raciocinam. Porém, tolices não permanecem por tanto tempo sem serem
desmentidas, e Jesus permaneceu, firmando ainda a Sua Igreja para continuar
disseminando a Verdade através da pregação do Evangelho a todos os povos (Mt.
28:18-20).

Se as dificuldades na evangelização dos judeus e das pessoas semelhantes a eles
foram superadas pela igreja de “Ontem”, podem, de igual modo, ser superadas na
igreja de “Hoje”. O que estamos esperando?
IV. A IGREJA PRIMITIVA E A ATUAL NA EVANGELIZAÇÃO DE TODOS OS POVOS EM TODAS AS
CULTURAS E RAÇAS

O Evangelho tem uma mensagem que alcança todo tipo de coração. E isto foi
mostrado desde os tempos de Jesus até aos nossos dias. Percebemos na História
da Igreja Primitiva que o Evangelho foi bem recebido pelos gentios, pois estes
eram comumente considerados como sem valor pelos judeus tradicionais da época.
Os gentios eram tratados como servos, eram humilhados e sofriam para que outros
se alegrassem. É aí onde o Evangelho foi de encontro às necessidades deles!
Imaginem só um Deus que já havia passado pela situação de servo, sendo
humilhado, que sofreu para a alegria de muitos, enfim, que conhecia de perto o
que eles passavam?! Este era o Deus que precisavam!

Antioquia foi o início de tudo. Ali aconteceu a primeira faísca que acendeu a
grande fogueira da evangelização mundial. Parece que a grande dificuldade
encontrada por eles, foi apenas a tradução do Evangelho para as línguas dos
povos evangelizados. Não a tradução somente das palavras mas principalmente a tradução
das idéias. Existiam palavras escritas nos originais, ou em suas cópias, que
não eram muito convenientes entre os gentios, pois traziam sentido estranho
quando traduzidas literalmente. Mas, graças a Deus, muitos eruditos da época,
como também os contemporâneos, passaram a traduzir as Escrituras de forma mais
empática. Isto gerou uma boa recepção do Evangelho entre os intelectuais e os
escravos.

Um outro motivo pelo qual o Evangelho era bem aceito, foi o medo dos demônios
que os gentios tinham, principalmente os que seguiam religiões animistas.
Percebendo que pelo nome de Jesus os demônios eram expulsos, e não através de
sacrifícios aos espíritos, encontraram segurança na mensagem cristã,
facilitando a aceitação de Jesus Cristo como único e suficiente Salvador. Para
que outros deuses ou intermediários, pensavam, se Jesus era Todo-Poderoso e
Auto-Suficiente contra os ataques dos maus espíritos?
Os primeiros cristãos, ao que percebe-se, lutavam principalmente contra a
idolatria. Tudo o que tivesse apenas aparência de idolatria era de imediato
abandonado por eles. Um exemplo claro quanto a isso foi a perseguição de Nero
aos cristãos que não declaravam que o Imperador era “Senhor” (Kyrios no grego).
Os primeiros cristãos consideravam que se chamassem César de “Senhor” estariam
tirando o senhorio absoluto de Jesus Cristo! Isto lhes seria abominável! É
claro que historicamente falando, César não exigia apenas a proclamação dele
como “Senhor”, mas, como mostra-nos historiadores como Eusébio de Cesaréia,
exigia até mesmo sacrifícios e cultos a ele mesmo. Estes primeiros cristãos
sabiam que toda e qualquer semelhança com o mal prejudicaria suas vidas,
concernente à salvação, como também a proclamação do Evangelho. O que estamos
esperando para sermos diferentes também em nossa época?

O cristianismo sempre foi ousado! Sempre se arriscou! E isto fez com que o
Reino dos Céus lucrasse. Os cristãos primitivos se arriscavam bastante, mesmo
que olhando para as lutas impostas pelo mundo. Com tudo isto, Jesus foi
anunciado até os confins da terra, pois a Palavra de Deus nunca volta vazia. As
tribulações que pareciam servir de derrota para a mensagem cristã, foram na
verdade usadas por Deus como meio para chamar a atenção de todos os povos ao
Evangelho. Os mártires cristãos, que talvez até pensavam alguns que
tornariam-se em escândalo para as pessoas da época, exterminando até mesmo o
desejo de servir a Cristo dos que assistiam seus martírios, acabaram por
incentivar muitos que iam nas arenas para ver sangue e sofrimento por diversão,
a também aceitarem o Grande e Único Deus – Jesus Cristo – por Quem esses homens
e mulheres corajosos morriam! Ninguém morreria por uma farsa, por um deus que
não fosse menos do que o Único e Verdadeiro! Isto não aconteceu com os
japoneses Kamikazes e nem ocorre com os muçulmanos, pois os que morriam por
Cristo sabiam que não eram eles mesmos quem impetravam sobre si a morte, mas
que eram levados ao matadouro para serem oferecidos como oferta com cheiro
suave ao Deus que tudo aquilo permitia por causa de seu Plano Eterno da
Salvação. Não morriam para serem salvos, porque já eram salvos em Cristo Jesus!
Não morriam para salvar, pois sabiam que eles mesmos necessitaram da salvação
outorgada por Cristo no Calvário.

V. A CONVERSÃO NA IGREJA PRIMITIVA E NA ATUAL

A conversão foi uma questão difícil de conscientização para os primeiros
séculos da Era Cristã. Foi um assunto que levou muitos pensadores a quebrarem a
cabeça sobre a natureza dessa exigência. Tudo ficava mais difícil ainda de se
compreender quando falava-se em batismo nas águas! Alguns pensavam que este ato
de batismo era como as iniciações feitas nas religiões de mistério da época.
Haviam também os que achavam que o batismo tinha um certo poder mágico que
capacitava as pessoas a alcançarem a salvação. Em nossa época, não muito
diferente dos primeiros séculos do cristianismo, também devemos trabalhar a
compreensão das pessoas quanto ao valor do batismo nas águas. Saber explicar
que tal ato não salva, mas sim, que é para os salvos é de fundamental
importância às nossas igrejas.
A pregação dos nossos primeiros evangelistas não era extremista quanto a
questões de costumes, não visavam ganhar o povo pela emoção, fazendo com que
dessem passos no escuro, fazendo uso abusivo da palavra “mistério”, sem a real
compreensão e conscientização da Verdade. Os filósofos ensinavam que as pessoas
não podiam dar “passos no escuro”, referindo-se às religiões que pregavam uma
fé cega, onde as pessoas seguiam suas crendices sem ao menos terem explicações
um pouco mais concretas do “por quê” as seguiam! Diferentemente de tais
religiões cegas, Jesus não é só uma Luz, mas um Farol aceso nas densas trevas
do pecado. Os primeiros evangelistas pregavam com a ajuda do Espírito Santo,
que fazia com que as pessoas aplicassem e compreendessem o Evangelho em suas
próprias vidas. A pregação do Evangelho era a luz num caminho de trevas, e não
uma porta de mistérios às muitas dúvidas! O Evangelho explica, e não complica a
vida do ouvinte.

Hoje, infelizmente, alguns têm como visão primordial na pregação do Evangelho o
emocionalismo. Muitas igrejas não são mais o veículo do Evangelho para a
salvação das almas, mas sim, “o Clube do Bolinha”, onde procuram somente
evidências pessoais visíveis e materialistas da “presença” de Deus, e quem não
consegue tais evidências, por favor, se quiserem participar de outro grupo,
quem sabe “o Clube da Luluzinha”, façam o favor! Acreditem se quiser, existem
igrejas onde a frase que mais se ouve do púlpito é: “Quem não quiser seguir a
nossa cartilha, a porta da rua é a serventia da casa!” O interessante é que
Jesus não ordenou à Sua Igreja seguir cartilhas de homens, mas Sua Santa
Palavra – A Bíblia Sagrada, como vemos em Marcos 7:

Então os fariseus e os mestres da lei perguntaram a Jesus: “Por que os seus
discípulos não vivem de acordo com a tradição dos líderes religiosos…?” Ele
respondeu: “Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas; como está
escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de
mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por
homens’. Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos
homens”. E disse-lhes: “Vocês estão sempre encontrando uma boa maneira de pôr
de lado os mandamentos de Deus, a fim de obedecerem às suas tradições!… Assim
vocês anulam a palavra de Deus, por meio da tradição que vocês mesmos
transmitiram. E Fazem muitas coisas como essa”. (Mc 7.5-9,13)

A conversão é uma mudança total de vida. É nascer de novo. O batismo não é
objeto salvador, mas selo de autenticação da Salvação, pois, tomando o lugar da
circuncisão outorgada por Deus a Abraão, ao qual sabemos que não foi
justificado por esse ato cerimonial e figurativo, mas pela fé, do mesmo modo, o
batismo é para quem já é salvo, para quem já foi justificado por Cristo Jesus.
Muitos pensadores da época da Igreja Primitiva se converteram a Jesus Cristo.
Tais conversões não se baseavam no emocionalismo, como também não tinha uma
visão materialista. Quando tais pessoas se convertiam, era porque compreenderam
e assimilaram Jesus Cristo como o Único e Suficiente Salvador. O que salva não
são os rituais, as iniciações, o Rock in Roll Gospel, o barulho pentecostal, as
profecias, etc., mas o que leva as pessoas à Salvação, é a pregação genuína da Palavra
de Deus, pois “…a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida
mediante a palavra de Cristo.” (Rm 10.17).

O autor Jorge A. Leon, em seu livro “La Comunicación Del Evangelio en el Mundo
Actual”, afirma que: “1º A evangelização deve ser tensora – o ponto em que a
pessoa se decide por Cristo; 2º Deve haver constante evangelização, tanto para
os que não conhecem a Cristo, como àqueles que já conhecem, devido exatamente
às conversões erradas.”
VI. O ENTUSIASMO DOS EVANGELISTAS DE ONTEM E DOS DE HOJE
Os evangelistas da Igreja Primitiva usavam um meio muito eficaz na proclamação
do Evangelho: seus próprios testemunhos de vida. Eles não somente pregavam o
Evangelho – eles eram o Evangelho. Eles não somente pregavam a mensagem da cruz
– eles tomavam cada um a sua cruz. Não somente pregavam a Jesus Cristo – eram
verdadeiros imitadores de Cristo.

A pregação do Evangelho não estava limitada apenas aos homens. As Sagradas
Escrituras mostra-nos que mulheres valorosas também tomaram parte nessa missão
mundial ordenada por Cristo. Os evangelistas do primeiro século pregavam o
Evangelho com toda a ousadia, mesmo que para tal fosse preciso perder a própria
vida! A vida dos evangelistas era um grande exemplo de fé, coragem e
desprendimento material. Sua devoção fazia com que outros se contagiassem e
acabassem também se convencendo de que Cristo é real e verdadeiramente
ressuscitou!

Havia entre eles uma comunhão muito grande. Ninguém naquela época passava
necessidades enquanto outros tinham de sobra, pois todas as coisas eram comuns
entre eles. Quem tinha muito, não suportava ver o sofrimento do que nada tinha!
Como já ouviu-se em um hino cristão, éramos conhecidos pelo amor. Muitos até
diziam: “Vejam como se amam!”, mas infelizmente hoje, somos conhecidos de forma
diferente. Atualmente ouvimos pessoas dizendo: “Vejam com se separam!”

O caráter dos cristãos daquela época era totalmente modificado. Enquanto isso,
muitos evangelistas de hoje não ensinam que o “barro” deve ser moldado pelo
“Oleiro”. Muitas vezes tentamos encaixar a Palavra de Deus em nossas maneiras
mesquinhas e exclusivistas de viver, e ainda chamamos a isso de liberdade
cristã! Porém, não somos livres para fazer o que quisermos da maneira que
queremos, como se houvesse um tipo de ética cristã individualista. Somos livres
para servirmos a Deus através da “Ética Absoluta Univérsica” por meio de Sua
Palavra. Além de tudo, os primeiros cristãos eram felizes, mesmo numa arena
cheia de leões famintos querendo devorá-los, envoltos em faixas embebidas em
azeite ou piche amarrados a um poste pegando fogo, ou em qualquer outro lugar
de martírio. Eles sentiam-se lisonjeados quando surrados por causa da fé
cristã. A alegria deles, mesmo diante de tais circunstâncias, fazia com que
muitos espectadores se convertessem ao Evangelho.

Os evangelistas eram pessoas perseverantes. Não se deixavam vencer facilmente.
Não ouvia-se de suas bocas nenhum tipo de murmúrio ou reclamação por estarem
sofrendo. Diferente de alguns contemporâneos a nós, participantes da “geração
microondas”, onde tudo é imediato, da “geração procon”, onde Deus é a loja e
nós os consumidores insatisfeitos. Muitas teologias baratas nos são ensinadas
por alguns televangelistas, tentando nos mostrar que cristianismo é somente
riquezas e alegrias externas. Acham que Deus está somente nos prazeres da vida.
Enquanto os evangelistas da Igreja Primitiva mostravam que somos peregrinos na
terra, e que as demais coisas nos seriam acrescentadas conforme a necessidade
real e a vontade de Deus, muitos evangelistas atuais tentam nos convencer de
que esta terra é um lugar definitivo e que nossa maior alegria está em tirarmos
o maior proveito daqui.

Preguemos com a convicção e com o entusiasmo que pregaram os evangelistas da
Igreja Primitiva. Não estamos aqui ensinando “primitivismo”, mas relembrando o
que fez a Igreja Primitiva de positivo. Se a História da Igreja não nos servir
de apoio para a conscientização, então nunca passará de uma matéria técnica
onde guardamos apenas nomes e datas. Não façamos da vida cristã uma monotonia,
através de nossas tradições dogmatizadas. Nosso Deus não depende do tempo, mas
também não significa que Ele seja um Ser “anacrônico”. Quando aquelas mulheres
foram ao sepulcro de Jesus, viram que Ele não estava lá, isto é, Ele está vivo,
não é Deus de mortos!

O Evangelho deve ser para nós o que foi para os primeiros evangelistas: a razão
da estada da Igreja aqui na terra, a razão de sermos luz, sal e imitadores de
Cristo. O Evangelho deve ser uma chama ardendo em nossos corações, e o amor às
almas a lenha que ajuda esse fogo a queimar!

VII. MODOS DE PREGAÇÃO DA IGREJA PRIMITIVA E CONTEMPORÂNEA

Os evangelistas da Igreja Primitiva não faziam grandes congressos
evangelísticos com temas pré-determinados. Não que isto seja errado. Apenas lembramos
que muitos evangelistas contemporâneos ocupam-se de tais coisas como se o foco
principal dos grandes congressos fosse a satisfação pessoal do pregador e a dos
crentes que lá estão. Parece que alguns congressos evangelísticos
contemporâneos são mais congressos “evangelásticos”, onde o intuito é juntar a
maior quantidade de pessoas que puderem, e o pior, só vai crente, e não almas
perdidas para serem ganhas pela pregação do Evangelho.

Os primeiros evangelistas da História da Igreja, evangelizavam através de
métodos dados por Deus. Um desses métodos era a evangelização ao ar livre.
Método este bem improvisado. Este tipo de evangelização era feito em locais
onde não eram de uso exclusivo para pregadores, mas sim, locais improvisados na
hora, por uma mente fértil e preocupada não com a aparência, mas com as almas.
Não faziam isto apenas como tarefa, como algumas igrejas contemporâneas que
marcam seus cultos ao ar livre apenas para depois ficarem se gabando de que
fazem isto enquanto outras não. Escolhiam lugares não evangelizados e levavam a
Igreja ao povo, mas já que seria mais difícil o povo ir à Igreja. O evangelismo
ao ar livre pode ser improvisado na polpa de um barco, em uma montanha, em uma
carruagem, na carteira de uma escola, na mesa de uma casa, na poltrona de um
ônibus, etc.

Em muitas de suas pregações, davam lugar também à profecia, mas, mas percebe-se
que essas eram totalmente baseadas nas Escrituras Sagradas (Is 8.20). Quando
alguém era usado no dom de profecia, não se via Deus prometendo carro, casa,
boa situação financeira, marido, dor de cabeça, etc. A profecia tinha em sua
essência a vontade salvadora de Deus na vida do ser humano. E isto, porque
“quem profetiza o faz para edificação, encorajamento e consolação dos homens”
(1ª Co 14.3), e não para a mera satisfação material, passageira e
individualista de cada um!

Na verdade, a pregação teve um valor imensurável na Igreja Primitiva. E para
tal, o ensino foi um método muito utilizado por eles pois, tinham em mente que
o Evangelho deveria ser compreendido e não seguido cegamente como se fosse uma
religião de mistérios só para “iniciados”. Entristece perceber que hoje alguns
preocupam-se só com barulho, esquecendo-se da eficácia regeneradora do
Evangelho. A evangelização pelo método do ensino não produz pessoas que sempre
necessitarão de alguém para ser uma “muleta espiritual” para fazê-las caminhar.
O ensino produz na vida do ser humano a fé e o sustento necessário para que nos
tornemos discípulos e discipuladores. O ensino evangelístico mostra o que Deus
quer de cada um e o que quer da sociedade evangélica: um corpo bem ajustado,
pela ligação de cada uma das partes.

O testemunho da Obra Salvadora de Cristo feita em suas vidas também era um meio
de evangelização. Era o método evangelístico que mostrava a prova de que o que
pregavam realmente era verdade. Os lares eram pontos estratégicos do
evangelismo. Quando se ganhava uma alma em um lar, principalmente quando se
tratava do cabeça da família, este poderia evangelizar o restante da casa, através
de seu testemunho pessoal. Contudo, quando era a esposa quem aceitava a Cristo,
e não o marido, normalmente passava por grandes lutas quando este não
simpatizava com o Evangelho. Mas isto não era um fator impedidor para essas
mulheres valorosas, porque lembravam-se das palavras de Cristo dizendo-lhes a
que amassem mais a Ele do que a família.
O evangelismo pessoal teve destaque nos primórdios da Igreja. Os amigos e os
familiares eram os ouvintes. Esses evangelistas não se preocupavam somente com
a quantidade, pois uma única alma tinha um valor extraordinário. Felipe e o
Eunuco de Candace foram um exemplo disto. Hoje, porém, o que importa a alguns é
o “movimento” e não o “avivamento”. E avivamento, em seu sentido real, parece
ser “geração de novas vidas na igreja” e não “barulhão” de velhos crentes da
igreja.

Enfim, o último método utilizado que descreveremos aqui, apesar de muitos
outros utilizados pela Igreja Primitiva, foi o da evangelização literária. Um
tipo de evangelização diferente da oral, no sentido que não mudava-se o teor da
mensagem quando era passada de pessoa a pessoa, pois o que está escrito não se
muda. A escrita foi um método que muito ajudou, e ainda ajuda, a examinar-se
com detalhes o quer-se dizer com a mensagem. E isto de uma maneira bem mais
hermenêutica, pois temos o texto ali diante de nós para inquirirmos sobre ele.
Os crentes de Beréia por exemplo foram evangelizados por tal método, ao que
parece! Porque não conhecermos mais a Bíblia para podermos fazer como o
apóstolo Paulo diante do povo bereano? Qual o valor dado ao estudo minucioso da
Palavra de Deus em cursos e seminários pelos nossos atuais evangelistas?
Esperamos que a resposta seja positiva!

VIII. A MOTIVAÇÃO PARA SE PREGAR O EVANGELHO ENTRE OS PRIMEIROS EVANGELISTAS
ERAM AS MESMAS DOS DE HOJE?

Todas as pessoas têm motivações para fazerem algo! Então, os primeiros
evangelistas da Igreja tiveram suas motivações para evangelizar o mundo de sua
época. Quais eram tais motivos? Em primeiro lugar, eles eram motivados pelo
sentimento de gratidão. Eles sabiam que Deus havia provado Seu amor para com
eles, que sendo ainda pecadores, enviou-lhes Seu Único Filho para morrer pela
humanidade, incluindo eles! Assim, percebiam que a Graça de Deus era manifesta
em suas vidas. Era favor imerecido! Com isto, em forma de agradecimento,
levavam o Evangelho a toda criatura, até os confins da terra, nem que isto lhes
custasse a vida! Eles tinham sentimento agradecido pela salvação até mesmo
diante de uma perseguição ou agravos físicos sofridos nesta vida. Não
murmuravam, não reclamavam a vida financeira, dos cultos que não estavam como
eles queriam, a falta de um meio de transporte para levá-los aos locais de
evangelismo, etc. Parece que mesmo diante de muitas dificuldades, se lhes
perguntássemos como estavam passando, a resposta seria: “melhor do que mereço”!

A segunda motivação era o sentimento de responsabilidade. Eles sabiam que eram
os “atalaias” de Deus. A função do atalaia era ficar de guarda no ponto mais
alto dos muros do reino. Conforme o toque de sua trombeta o povo se comportava
de maneira diferente. Por exemplo, se o atalaia percebia que um reino inimigo
se aproximava, tocava a trombeta no ritmo de guerra para que o povo se
preparasse para tal. Se fosse uma visita cordial de um reino amigo, o toque da
trombeta seria em ritmo amistoso, e assim por diante. Os evangelistas dos
primeiros séculos tinham semelhante responsabilidade concernente à pregação do
Evangelho. Sabiam que se eles não dessem o “sonido da trombeta” ou se este
fosse incerto, muitas pessoas seriam dizimadas ao inferno. Toquemos a trombeta
em Sião!
A terceira motivação era o sentimento de preocupação, que é semelhante ao de
responsabilidade. Eles preocupavam-se com o futuro das pessoas. Não o futuro
temporal, com o que se vestiriam ou o que comeriam. A preocupação primária
deles era com a eternidade do ser humano. Por causa disto alguns até acham que
os evangelistas da Igreja Primitiva tentavam ganhar as pessoas através do medo
quanto a vida após a morte, mas não era esta a causa do evangelismo deles –
ganhar as pessoas – como se fosse um jogo de quem convence mais. Não é uma
questão de quem tem mais seguidores, de qual a maior religião do mundo, mas
sim, uma questão de amor e compaixão pela vida do próximo. É uma preocupação
que vem pelo fato de sabermos o que o futuro sem Cristo reserva para a
humanidade descrente. Eles choravam com os que choram. Não se conformavam em
saber que seu Imperador, seu vizinho, seu irmão, seu pai ou mãe iriam para o
inferno! Sabiam que isto era um fato, e não um “conto de fadas”. Será que
muitos de nós, atualmente, não nos acomodamos a ponto de sermos passivos quanto
a salvação do próximo? Moisés colocou sua vida em risco por causa de um povo
pecador! Não colocamos nem mesmo nosso tempo, nosso nome, nossa vida
financeira, nosso cargo eclesial, etc. em risco por causa de uma alma. Será que
não seremos culpados de muito sangue? Não estaria na hora de despertarmos do
sono? Não está na hora de pregarmos o Evangelho a todo o mundo?
O mundo, às vezes, não está tão longe de nós! Pode estar em nossa volta, isto
é, no serviço, na escola, na rua, ou mesmo em nossa casa. Evangelizemos a tempo
e fora de tempo. Mas, preguemos a Palavra de Deus, e não conceitos humanos,
passageiros e exclusivistas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A história deve servir-nos como alerta. O que aconteceu de ruim no passado deve
valer-nos como disciplina para não mais errarmos como antes. O que aconteceu de
bom deve servir-nos como auxílio para a compreensão de nossa tarefa e para que
possamos continuar a desenvolvermo-nos na “economia divina”. A História é
linear, e não circular como pensa as religiões orientais. Assim, devemos sempre
nos perguntar: como posso melhorar na linha do tempo? Olhando a linha e
aprendendo através dela parece ser um bom começo!

O evangelismo de “Ontem” pode auxiliar bastante no desenvolvimento e no
aprimoramento do evangelismo de “Hoje”. A nossa História não é uma História Sem
Fim. Vivemos a História promulgada por Deus: a História com começo, meio e fim.
Não sejamos meros espectadores da História da Humanidade. Deus nos conclama a
participarmos dela com mais responsabilidade. Que o “Ontem” de desperte para
“Hoje”, pois devemos nos preocupar com o “Amanhã”!

NOTA BIBLIOGRÁFICA

CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. São Paulo: Novo Século, 1999;
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1995;
GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova,
1989;
LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. 1ª ed. São Paulo: Exodus,
1997;
PENHA, João da. Períodos Filosóficos. Série Princípios. 3ª ed. São Paulo:
Ática, 1994.

              

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