Apostila 08.
Esta
apostila tem 118  paginas sobre 0 estudo
sobre a Doutrina  MÉTODO SEGUNDO KAISER

Teologia do Antigo Testamento
Parte I
 Uma das
primeiras preocupações de Walter Kaiser é discutir se de fato existe a
possibilidade de uma teologia do Antigo Testamento. Para analisar esta questão,
o autor faz uma apresentação das posições adotadas por grandes teólogos do AT
neste século, como Walter Eichrodt, Theology of the Old Testament (Londres:
SCM, 1961) e Gerhard von Rad, Teologia do Antigo Testamento, 2 vols. (SP: ASTE,
1986).
Eichrodt fez um ataque violento contra o historicismo. Alegava que a coerência
interior do AT e do NT tinha sido reduzida a um tênue fio de conexão histórica
e seqüencial, causal, entre os dois testamentos, que resultava de uma
causalidade externa.

Já von Rad não somente negava qualquer fundamento histórico genuíno para a
confissão de fé de Israel, como também tinha mudado o objeto do estudo
teológico de uma focalização sobre a palavra de Deus e sua obra para os
conceitos religiosos do povo de Deus. O objeto e enfoque da teologia do Antigo
Testamento tinham sido mudados da história como evento e da palavra como
revelação para uma abordagem tipo história da religião.

Assim, Kaiser vai mostrar que a natureza da teologia do AT não é somente uma
teologia que está em conformidade com a Bíblia inteira, mas é aquela que se
descreve e se contém na Bíblia. Essa teologia expressa uma vinculação real com
os períodos históricos que compreendem a história de Israel, onde cada contexto
antecedente e mais antigo se torna a base para a teologia que vem a seguir.
Dessa maneira, para Kaiser, na teologia do Antigo Testamento a estrutura está
colocada historicamente e seu conteúdo se encontra exegeticamente controlado. Como
conseqüência, a teologia do AT em Kaiser tem um centro e conceitualização
unificadas e traduzidas nas descrições, explanações e conexões do texto
sagrado.

Ao procurar identificar as teologias do AT, Kaiser vai trabalhar com quatro
variáveis:

1. A teologia estrutural, que descreve o esboço básico do pensamento e da
crença do AT em unidades tiradas por empréstimo da teologia sistemática, da
sociologia, ou de princípios selecionados, e depois arma seus relacionamentos
com conceitos secundários. Eichrodt e Th. C. Vriezen, An Outline of Old
Testament Theology (Newton, Mass.: Charles T. Branford Co. 1970) pode sem
enquadrados na teologia estrutural. Para Kaiser, essa teologia não tem
autonomia, existindo apenas como função heurística da teologia sistemática.

2. A teologia diacrônica que expõe a crença dos sucessivos períodos e das
estratificações da história de Israel, colocando a ênfase sobre as tradições
sucessivas da fé e da experiência da comunidade religiosa. Von Rad é seu grande
expoente. Para Kaiser, não estamos diante de uma teologia do AT, mas diante de
uma história da religião de Israel.

3. A teologia lexicográfica, que limita sua investigação a um grupo ou a grupos
de personalidades bíblicas, analisando seu vocabulário teológico especial, como
por exemplo, os sábios, o eloísta, o vocabulário sacerdotal, etc. Gerhard
Kittel, editor, G. W. Bromiley, trad., Theological Dictionary of the New
Testament, 10 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1964-74); Peter F. Ellis, The
Yahwist: the Bible’s First Theologian (Notre Dame: Fides Publishers, 1968).

4. E por fim a teologia de
temas bíblicos, que leva sua busca além do vocabulário de personagens, para
abranger uma constelação de palavras que gira ao redor de um tema chave. Aqui
se coloca o próprio Kaiser.

O enquadramento da teologia do AT

Outra questão colocada por Kaiser é a que se refere ao enquadramento da
teologia do AT. Deve-se incluir material alheio ao cânone, como apócrifos,
textos da biblioteca de Qunram ou comentários do Talmude? Para Kaiser a
utilização de material alheio ao texto debilitariam o propósito de discutir a
feição integral da teologia dentro de uma corrente da revelação. Toma como
exemplo a pregação de Jesus que, considera Kaiser, trabalhou apenas com os
textos enquadrados no cânone judaico.

Assim, para Kaiser, a teologia deve ser bíblica e não precisa repetir cada
detalhe do cânone para ser autêntica e exata. O método deve sintetizar os
detalhes que parecem discrepantes, a fim de termos, então, uma única teologia
bíblica embalada sob a etiqueta de dois testamentos.

O que move a teologia do AT?

O texto pede para ser entendido e colocado num contexto de eventos e
significados. Os estudos históricos colocam o exegeta em contato com os fluxo
de eventos no tempo e no espaço. As análises gramaticais e sintáticas
identificam a coleção de idéias no período histórico sob investigação. Assim,
as raízes históricas da mensagem em seu desenvolvimento e o julgamento das
avaliações normativas do texto traduzem o propósito e o papel da teologia
bíblica.

A motivação maior é entender o texto enquanto texto colocado num contexto de
significados. É assim, considera Kaiser, que a teologia bíblica sua grande
contribuição, especial e peculiar.

E o centro canônico, existe ou não?

Kaiser levanta algumas perguntas: existe uma chave para uma organização
metódica e progressiva de assuntos, temas e ensinos do Antigo Testamento? Os
escritores do AT tinham consciência dessa organização quando acrescentavam algo
a essa corrente histórica da revelação?

E conclui que as respostas a seus questionamentos definirão o destino e a
direção da teologia do AT. Caso seja impossível responder positivamente as duas
perguntas, então, somos obrigados a falar de diferentes teologias do AT, no
sentido de variedade ou de linhas de continuidade que acontecem dentro de
tendências de diversidade. Mas para Kaiser isso não acontece: os escritores
bíblicos reivindicam a posse da intencionalidade divina na sua seletividade e
interpretação daquilo que foi registrado e nós não podemos negar essa realidade.

Por isso Kaiser defende a realidade do centro canônico. Considera, porém, que a
maioria dos teólogos erra ao definir um centro apriorístico, externo, e tentar
enquadrar o conteúdo do AT nele. A metodologia deve partir de uma exegese
cuidadosa, evitando todo e qualquer encaixe precipitado.

Até a década de 70, a maioria dos teólogos considerava que a história era o
veículo da revelação divina no AT. Aquilo que se conhecia de Deus era conhecido
através da história. Outros, no entanto, argumentavam que a revelação verbal
tinha tanto direito quanto a história de ocupar o centro do palco teológico. A
fé de Israel, assim como a teologia bíblica, tinha de Ter como seu objeto não
os atos de Deus na história, mas aquilo que o povo confessava, não importa a
veracidade primeira dos acontecimentos. A essa afirmação, um teólogo católico,
Roland de Vaux, Historia antigua de Israel, 2 vols. (Madri, Cristiandad, 1975)
– id., Instituciones del Antiguo Testamento (Barcelona, Herder, 1976)
argumenta: “A interpretação da história dada é verdadeira e tem origem em
Deus ou não é digna da fé de Israel e da nossa”.

O mais importante, para Kaiser, é a conexão entre a reivindicação divina – o
ter anunciado muito antes de ter acontecido o curso dos eventos – e o fato de
que isso estava de acordo com seu plano e propósito. E os escritores bíblicos
tinham a palavra divina e o juramento divino de promessa.

Esse é o centro canônico que Kaiser vai devolver em sua obra, depois de uma
ampla e bem defendida exposição metodológica. Trabalhando a partir dessa
metodologia, Kaiser constrói sua teologia bíblica, organizando o cânone a
partir das promessas de Deus ou daquelas passagens onde considera que Deus
acrescentou seu compromisso ou juramento.

[Teologia do Antigo Testamento, Walter C. Kaiser Jr., tradução de Gordon Chown,
SP, Edições Vida Nova, 1997, pp. 2 a 56].

 

Parte II
O TRIUNFO DA
FÉ EM TEMPOS DE CRISE
Na época de Habacuque, reinava Jeoaquim. Seu reinado teve a
marca da violência e da ausência de uma justiça verdadeira. Habacuque vê a
maldade social crescendo e a justiça manipulada por parte dos poderosos.

No início do seu livro ele se mostra perplexo, pois a violência se alastra e
Deus parece não tomar nenhuma providência. O justo está sendo explorado e
massacrado pelo corrupto e parece que Deus se mostra completamente apático,
indiferente a tudo. Não é de admirar que o profeta clamasse em profunda
angústia: “Até quando Senhor …” (1:2).

O profeta viu Israel cair numa condição de apostasia. A nação estava se
afastando de Deus. Entregara-se à idolatria e outras buscas destituídas de
qualquer valor.

Que quadro triste! Pecado, imoralidade e vício dominavam o povo de Israel. A
lei não era aplicada com equidade e honestidade. A justiça era frouxa e
indolente. A ilegalidade campeava solta (1:3,4). A nação de Israel estava em
grave decadência espiritual, moral e social.

Realmente, era um problema e não é para estranhar que Habacuque viesse a entrar
em crise. Ele não conseguia entender porque Deus permitia tudo aquilo. Orou a
Deus a esse respeito, mas Deus parecia não responder. Daí a sua perplexidade:
“Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?” (1:2)

A questão que Habacuque levanta e que a maioria dos cristãos enfrenta é: Onde
está Deus que vê tudo isso e não faz nada para sanar o problema? Será que Deus
não vê? Não vê toda esta brincadeira humilhante com a vida humana, como o
direito está sendo pervertido, como o justo está sendo massacrado?

Vale a pena ter fé num Deus como este? Esta é a resposta que Habacuque nos dará
em seu pequeno livro. A Fé que triunfa.

O SILÊNCIO DE DEUS EM MOMENTOS DE CRISE

A primeira coisa que descobrimos quando estudamos as ações de Deus em
Habacuque, é que pode parecer que Ele esteja estranhamente silencioso e inativo
em momentos de crise.

“Até quando Senhor”. É uma tremenda ousadia fazer uma indagação desta
a Deus. O profeta vê a violência em seus dias crescer, a justiça sendo torcida,
a desonestidade ganhando espaço … e onde está Deus que não intervém e nada
faz para cassar todo este mal?

Não é esta a questão que muitos levantam hoje também? Por que Deus permite que
certas coisas aconteçam? Por que Deus permite que a enfermidade entre no lar e
comece a dizimar famílias cristãs e fiéis a Deus? Por que Ele permite que a
idolatria e o espiritismo cresçam espantosamente? Por que Ele não intervém e
fira de morte todos aqueles que proferem mentiras e negam a fé?

Sempre foi difícil entender o silêncio de Deus nos assuntos humanos. Porém, não
presumamos que esse silêncio seja indicativo de sua apatia. Longe está Deus de
ser um mero espectador desinteressado nos assuntos dos homens. Tudo está sob o
seu olhar e todas as coisas estão debaixo de suas poderosas mãos. Ele não se
apavora nem se precipita.

Deus não está com os olhos fechados, os ouvidos tapados, as mãos encolhidas, a
mente alienada, e com os pensamentos longe dos dramas que enfrentamos na vida.
A Palavra nos orienta dizendo que “Deus fará justiça aos seus escolhidos,
embora pareça demorado em defendê-los” (Lc 18:7). E ainda mais, nenhum fio
de cabelo cairá de nossa cabeça alheio a sua vontade.

O cristão vive pela fé, mesmo quando não está vendo suas orações sendo
respondidas.

RESPOSTAS INESPERADAS ÀS NOSSAS ORAÇÕES

A segunda coisa que descobrimos é que Deus, às vezes, dá respostas inesperadas
às nossas orações (1:5-11). Isto, mais do que qualquer outra coisa, foi o que
deixou Habacuque perplexo. Por um longo tempo Deus parecia não responder.
Então, quando responde, o que diz é mais misterioso até do que sua aparente
falha em ouvir as orações.

Na mente de Habacuque estava claro que Deus tinha que castigar a nação e depois
enviar um grande avivamento. Mas quando Deus disse: “Estou respondendo a
sua oração suscitando o exército Caldeu para marchar contra suas cidades e
destruí-las”, o profeta não consegue acreditar no que ouviu. Mas foi o que
Deus lhe disse, e que realmente aconteceu.

Deus responde a oração do profeta, mas de uma forma inesperada. Habacuque levou
um susto, pois Deus iria suscitar os caldeus (Babilônicos) uma nação pagã para
julgar o seu próprio povo. Habacuque queria que Deus respondesse a sua oração e
Deus respondeu, mas não do jeito que ele queria.

Todos temos a tendência de prescrever as respostas às nossas orações.
Freqüentemente, oramos dizendo a Deus exatamente como Ele tem de fazer, como se
Ele fosse um Deus que não soubesse como agir. Tem gente que chega quase ao
absurdo de ensinar a Deus como ser Deus.

Precisamos entender que Deus é livre. Ele faz o que quer, como e quando quiser.
A Fé que triunfa é aquela que descansa na liberdade divina. Pela fé e pelo
estudo das Escrituras, o cristão sabe que Deus nunca erra. Suas respostas podem
parecer estranhas, podem parecer sem sentido, mas é assim que Ele age às vezes.

Um exemplo clássico. Os irmãos de José o venderam como escravo (Gên. 37) e
assim foi ele parar no Egito. Muito mais tarde, porém José e seus irmãos se
encontraram e ele declara que não foram eles, mas Deus que o enviara para lá
(Gên. 45:7). Nossa Fé não é um sentimento positivo, nem um amontoado de conceitos
moralistas e piegas. É a firme crença num Deus que tudo encaminha para o ponto
que Ele deseja.

Pensamos que Deus pode se manifestar somente de uma forma. Mas a Bíblia ensina
que Deus, às vezes, responde as nossas orações permitindo que as coisas piorem
muito antes que possam melhorar. Ele pode, às vezes, fazer o contrário do que
prescrevemos. Ele pode sim, às vezes, nos colocar à frente de um exército
caldeu. Mas é um princípio fundamental na vida e caminhar da fé que, quando
tratamos com Deus, devemos estar sempre preparados para o inesperado.

Certa vez li o seguinte caso em um livro:

Havia um membro de uma determinada Igreja que era a “pedra no sapato”
de toda a comunidade. Era criador de casos, sempre mal-humorado, era altamente
personalista e sua palavra devia ser sempre a última em todos os assuntos. Numa
noite de vigília, não se sabe se querendo isentar-se de culpa ou transferi-la
para outros, orou dizendo: “Deus, remove desta Igreja aquele que a
atrapalha”. No dia seguinte, menos de 24 horas depois, seu corpo estava
sendo velado no templo daquela Igreja.

Orar pode ser perigoso. Queremos que Deus, realmente, responda às nossas
orações ou apenas que Ele nos beneficie?

DEUS USA OS ÍMPIOS COMO INSTRUMENTO

Eis agora um terceiro aspecto surpreendente dos caminhos de Deus. Ele usa, às
vezes, instrumentos estranhos para corrigir sua Igreja.

Os caldeus, dentre todos os povos, são os que Deus levanta para disciplinar o
seu povo. Habacuque não podia imaginar tal coisa. Mas aqui também está um fato
evidente em toda a Bíblia: Deus usa o instrumento que quiser.

No curso da história, Ele tem usado toda sorte de instrumentos estranhos e
inesperados, para a realização de seus propósitos. Usou Pilatos, usou Herodes,
usou Saul, usou uma mula. O mal não é de sua autoria, mas Ele, às vezes, o usa
para educar e corrigir os da sua Igreja.

Quantas vezes somos acometidos por uma enfermidade, desemprego, crise conjugal,
injustiças ou outras tragédias da vida?

Deus é livre para usar qualquer instrumento para disciplinar o seu povo.
“O Senhor corrige o que ama” e “Foi-me bom ter sido afligido,
para que aprendesse os teus estatutos” (Sl 119:71).

O TRIUNFO DA FÉ

“Mas o justo viverá pela sua Fé” (2:4)

Sim, o justo, o crente em Jesus, viverá pela sua fé. E esta fé no Senhor
triunfante, ressuscitado e glorioso, transmite à vida diária uma vitalidade
vibrante.

O cristão não se abate com o presente, embora o veja muitas vezes como sendo
sombrio.

“Ainda que a figueira não floresça, nem há fruto na vide; o produto da
oliveira mente e os campos não produzam mantimentos; as ovelhas foram
arrebatadas do aprisco e nos currais não há gado, todavia, eu me alegro no
Senhor, exulto no Deus da minha salvação.
(Hab. 3:17, 18).

Este texto é uma declaração de fé em um momento de crise inigualável. Faltariam
figos, uvas, azeitonas, os campos não produziriam os alimentos. O Rebanho seria
exterminado. Os currais sem gado. E qual é a atitude do profeta? Desespero?
Inconformismo? Não. Fé!.

Habacuque nos ensina que a resposta à crise é a fé. Sua segurança não brota de
emoções, mas de uma fé viva. E quem crê, não se abala. “Aqueles que
confiam no Senhor são como o monte de Sião, que não se abala, estão firmes
sempre” (Sl 125:1).

“Ainda que a figueira não floresça… e nos currais não há gado, todavia,
eu me alegro no Senhor”. (Hab. 3:17 ).

Que fé! No meio da crise, alegria. Que lição para todos os cristãos
aborrecidos, murmuradores, emburrados com Deus e com o mundo.

Façamos como Habacuque, manter a fé em Deus mesmo que Ele se mostre indiferente
às nossas orações; manter a fé mesmo que suas respostas sejam inesperadas;
manter a fé mesmo que Ele esteja usando instrumentos dolorosos para nos
disciplinar e educar e ainda que venhamos a perder tudo, todavia, devemos nos
alegrar no Senhor, pois Ele é a única riqueza que vai perdurar sempre.
Que o Senhor da Fé nos abençoe!

Parte III
O VALE DAS
SOMBRAS
Uma história
diz que o Culto se desenvolvia, e dois homens recitaram o Salmo 23. Um deles
era um grande e aplaudido ator, dono de um jogo de cena fora do comum,
magnífica oratória, dramaticidade nos gestos, leu o Salmo 23. Quando terminou
de fazê-lo, o auditório, nesse culto mais informal, quase veio abaixo de tantos
aplausos. Depois, um senhor idoso, encurvado, trêmulo, frágil, apoiado na sua
bengala foi à frente e recitou de memória o Salmo 23. Quando terminou, não
houve qualquer aplauso. Pelo contrário, houve um profundo silêncio no
santuário; e lágrimas. Nisso, o ator, foi à frente e, com a voz embargada,
disse: “Meus amigos, há uma enorme diferença entre nós dois, declamadores.
Eu conheço o “Salmo do Pastor”, mas, este piedoso homem, conhece o
Pastor do salmo”.

O Salmo 23 foi chamado de uma das criações mais sublimes de todo os tempo, como
também “a pérola do livro dos Salmos”. Houve, igualmente, quem
dissesse que é um hino de louvor à providência divina. Não é um Salmo longo,
são apenas seis versículos, e no entanto, é, sem dúvida, o capítulo mais amado
do Antigo Testamento, senão de toda a Bíblia. É conhecido pelas crianças. Dos
cento e cinqüenta salmos, é aquele que 90% dos leitores sabem de cor. Qualquer
criança que vai à Escola Bíblica o conhece. E tem sido a última leitura
solicitada por muitos cristãos neste mundo quando em seu leito de dor já
encarando a morte.

O tema do Salmo 23 é “a segurança daquele que crê em Deus”, e em cada
versículo, exceto o primeiro, que é uma introdução, apresenta duas necessidades
básicas de toda pessoa, vitais, sentidas, porém, de um modo mais profundo, mais
reflexivo, mais intimista pelo crente em Jesus Cristo. São necessidades com
promessas de absoluta satisfação, visto que “o Senhor é o meu
pastor”, razão porque nada me faltará. É um cântico de confiança
apresentado em linguagem simples, de beleza literária, e rica dos conceitos e
das lições espirituais implícitos em suas expressões. Paulo, apóstolo, escreveu
na Carta aos Filipenses uma expressão bem dentro do mesmo conceito, quando
exprimiu: “Meu Deus, suprirá todas as vossas necessitadas segundo as suas
riquezas na glória e em Cristo Jesus”. É então, esse Salmo, um cântico de
confiança numa linguagem simples, é verdade, ímpar na beleza literária, e rico
nos seus conceitos e nas lições espirituais.

O PASTOR

Quem é o Pastor? Façamos uma exposição versículo por versículo. O primeiro
versículo diz, “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”. A imagem
do pastor é muito encontrada na Escritura Sagrada, tanto no Antigo quanto no
Novo Testamento. Largamente utilizada foi essa palavra nos livros proféticos..
Os Salmos, também, têm uso abundante da imagem do pastor, e o próprio Jesus
Cristo disse sobre si próprio, “Eu sou o bom pastor”. O pastor do
Salmo 23 é Jesus Cristo, sem dúvida alguma, e disse que daria Sua vida pelas
Suas ovelhas.

O texto diz, “nada me faltará”. A verdade é que ninguém precisa estar
perdido no meio da multidão quando o Senhor é o nosso pastor. Nós temos a
segurança da Sua palavra; nós temos a segurança da Sua presença e do Seu poder,
seja na vida secular ou na espiritual, se é que alguém pode separar do cristão
a vida secular da espiritual. E Davi mostra que esse pastor resolve, completa e
definitivamente, o problema do enfado, do cansaço; dando novas provisões de
força, bem como dá solução às necessidades físicas de abrigo e de alimentação.
Diz o Salmo 37, “Eu fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado
o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão”. E melhor do que
qualquer psicoterapeuta, psicólogo ou psicanalista; ele elimina o temor, a
falta de significado na vida. E sabem o que mais? “Nada me faltará”,
diz o texto. Porque nós temos dois excelentes guarda-costas, especialíssimos
guarda-costas nominados no final do Salmo; a Bondade e a Misericórdia que nos
perseguirão todos os dias da nossa vida. E temos também um destino santo que é,
habitar na Sua casa por toda a eternidade.

O SEGREDO DA VIDA

“Nada me faltará”, porque o segredo da vida espiritual, o segredo da
vida cristã é o que Ele, Cristo, faz em nós; o que Ele faz através de nós; e o
que Ele faz e fez para nós. Então, se “nada me faltará”, por que a
ansiedade? Por que a preocupação? As palavras de Jesus Cristo nos dão tanta
serenidade, porque Ele diz:

“Não estejais ansiosos quanto à vossa vida pelo que haveis de comer; ou
pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo pelo que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai
para as aves dos céus que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros e
vosso Pai Celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
Portanto, não vos inquieteis dizendo: O que havemos de comer; ou o que havemos
de beber; ou com o que nos havemos de vestir. Mas buscai primeiro Seu Reino e a
Sua Justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas”.

Então, por que se afastar do Pastor de nossas vidas e buscar outros pastos que
julgamos até mais verdejantes? Chegamos, assim, ao verso dois “Deitar-me
faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas”. Temos aqui
duas novas promessas: a de descanso e a de paz. E Ele vos conduz dia a dia às
fontes daquilo que nós necessitamos. Mas, vamos lembrar algo. Vamos lembrar que
até chegar a esses verdes pastos, a ovelha precisa caminhar muito; não é sair
de casa e logo se chega ao pasto, não. Há que andar dias e dias, quilômetros e
quilômetros buscando água, sombra, pasto e proteção. Indefesa diante das feras
e dos ladrões, a ovelha, no entanto, não está só, porque a Bíblia declara:
“Guia-me mansamente”. Há um detalhe também aqui. Estamos lendo a
respeito de uma paisagem bucólica e romântica. Mas, a vida das ovelhas não é
assim. Talvez em uma situação destas, muita gente quisesse ser leão, ou tigre,
ou um cavalo selvagem, fogoso, ou, mesmo, um pássaro livre para voar. Mas, ser
ovelha?! Parece que são todas iguais?! Esse Salmo nada tem de romântico. Ele
fala de perigos, de dificuldades, de penhascos, há pesares, mas, também do
Senhor que guia mansamente, e Ele não leva a águas paradas, estagnadas,
infectadas, não! Ele leva a águas serenas, calmas, a águas de repouso, de
descanso, de satisfação.

E caímos na segunda promessa, no verso três, “Refrigera a minha alma;
guia-me nas veredas da justiça, por amor do seu nome”. Mais duas
promessas: saúde e orientação. Quem escreveu este Salmo foi Davi, o Rei de
Israel, que fora um tremendo pecador. Todos conhecem a sua história com Batseba
(Betsabá). Diz a Bíblia que ele, cobiçara a esposa de um dos seus oficiais
superiores. Urias era o seu nome. Com ela, adulterou, e por ela, tornou-se
mandante de um assassinato. Davi viveu uma horrorosa miséria moral, e uma ainda
mais tremenda miséria espiritual. Aliás, não podemos separar uma da outra, não.
Mas ele se arrependeu. E quando isso aconteceu, ele expressou o seu
arrependimento e o seu pedido de perdão no Salmo 51, dizendo:

“Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas
transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente
da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas
transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim”.

E foi perdoado por Deus; e foi purificado; e foi resgatado, e, agora, escreve o
Salmo 23. Ao escrevê-lo, declara que o Senhor restaura, renova e dá refrigério.
E realmente, “refrigera a minha alma” é o mesmo que dizer: restaura
minha vida; refaz o meu ser.. Quem sabe você necessita ser curado, igualmente,
de problemas íntimos tão sérios, de pecados desconhecidos dos outros mas muito
diante dos seus olhos, como Davi também tinha o seu pecado diante dos olhos e
confessou o seu próprio pecado.

Então observe esse outro, “guia-me nas veredas da justiça”. Sabe qual
é a nossa maior necessidade? É conhecer a vontade de Deus. E esse “guia-me
nas veredas”, é completamente diferente do verso 2 que diz “guia-me
mansamente”. Porque se nos desviarmos da Sua vontade, Ele nos traz de
volta. Essa é a razão porque os pastores usavam, como ainda hoje os pastores
bascos, um cajado que tem uma ponta curva como um cabo de guarda-chuva. Na
outra ponta há um aguilhão de metal. Esse bastão funciona como três coisas: com
a ponta curva, se a ovelha cair num buraco, ele a puxa para cima; mas se
começar a se desviar do grupo (não é uma vereda? se cair para o lado vai para o
despenhadeiro), ele toca de leve e ela volta para o lugar; com a ponta de
ferro, ele espanta o lobo. Aí temos a restauração por amor do Seu Nome. Apesar
de em português ser o mesmo verbo, o primeiro é uma direção devagarinho, é uma
direção calma, é uma direção mansa, mas, o segundo é um pouquinho diferente. O
verbo no original da língua hebraica significa um pouco mais, significa até
colocar um pouquinho mais de pressão para que volte a ovelha para o caminho da
justiça. Não é aquele toquezinho de leve com o bastão, não, talvez seja colocar
o bastão do lado e empurrar para refazer o caminho da justiça, porque, se nos
desviarmos da sua vontade ele nos traz de volta. E chegamos à Palavra Santa. E
a palavra diz assim: “Confirmados pelo Senhor são os passos do homem em
cujo caminho ele se deleita, ainda que caia não ficará prostrado; pois o Senhor
lhe segura a mão.” É a restauração por amor do seu nome.
O VALE SOMBRIO
Vamos ao verso 4,

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum,
porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam”.

Aqui nós temos coragem e conforto; coragem e consolação. Essa expressão:
“vale da sombra da morte”, era uma expressão coloquial para os
hebreus antigos e para nós. Nos Estados Unidos há um deserto chamado Vale da
Sombra da Morte. Quase não tem vida. Com respeito aos hebreus, todos tinham
conhecimento de um trecho da estrada entre Jerusalém e o Mar Morto, no sul da
Palestina. Estamos falando de três mil anos atrás, quando esse Salmo foi
escrito. Era um trecho tremendamente perigoso, por isso, era chamado de vale da
sombra, como apelido. Era o vale da sombra da morte, era o vale da profunda
escuridão, significado também, da expressão sombra da morte, proximidade da
morte.

Amados, há quem não goste, não tolere. Há quem não suporte falar em morte.
Talvez alguém esteja agora, começando a se inquietar com esse assunto. Há quem
fale com muita naturalidade

sobre a morte.
E não são os donos ou gerentes das casas funerárias, não. E nem são os coveiros
lá do Jardim da Saudade ou do Campo Santo, não. Tomas Mann, ele disse:
“Sem a morte haveria muito poucos poetas na terra”. Pois é,
filósofos, cantores, musicistas se expressaram sobre esse evento, sobre esse
fato na natureza humana e ninguém ignora ou contesta que morrer faz parte do
processo da vida.

O cristão tem tudo para ser natural diante da morte. Até comemoramos, ao lado
do nascimento de Jesus, o Natal, a Sua morte na Ceia Memorial. Mas, a morte nos
incomoda, não é? Por quê? Um irmão de nossa igreja passou por experiência desse
tipo; quase nos disse adeus. Ninguém desconhece isso, nem ele que é médico, ele
sabe da depressão pela qual passou, e um médico nos informou isso mesmo:
cirurgia de ponte de safena traz um processo de depressão logo em seguida. Por
que razão não gostamos de falar nesse assunto?

Há muitas opiniões sobre a vida após a morte. Aliás, será conveniente trocar a
expressão para “vida após a vida”. Os arqueólogos têm encontrado
túmulos com dois mil; dois mil e quinhentos; três mil; quatro mil anos. Túmulos
onde havia restos de comida, bebida, armas, roupas, carruagens e até escravos,
que foram ali colocados vivos para servir aquele nobre, aquele faraó, aquele
rei no outro mundo. Até os primitivos falam sobre a vida após a vida. E há um
resquício dessa idéia primitivíssima em certas correntes ditas até como ciência
que acreditam que os espíritos dos falecidos vagueiam pelo ambiente dos vivos,
interferindo até nas suas vidas.

O fato é que há em nós, em todos nós, um tremendo instinto de sobrevivência
pessoal, por uma básica razão: é que nós não fomos criados para a morte; e sim
para viver! A morte então, é um acidente num tremendo incidente que se chama
“a Queda”. É uma expressão da teologia para mostrar como toda a
humanidade está ligada de um modo único ao representante federal nosso que é o
primeiro pai, Adão. E a Bíblia não esconde, e chega a dizer com muita clareza:
“O salário do pecado é a morte”, mas, completa pela misericórdia de
Deus, “que o dom gratuito de Deus é a vida; a vida eterna em Cristo Jesus
nosso Senhor”. Sim, nós amamos a vida! Todos nós amamos e prezamos e
valorizamos tremendamente a vida! Nosso Deus é o Deus da vida. Ele é chamado na
Escritura de o Deus Vivo. É o Deus que ama a vida e por isso, ele nos sustenta
nesta vida e dá-nos a eternidade para a vindoura.

INFORMAÇÕES SOBRE A VIDA APÓS A VIDA

São difíceis as informações sobre a vida após está vida, porque quem conhece
bem o assunto não voltou para contar. No entanto, temos no maior best seller do
mundo, a Bíblia Sagrada, promessas gloriosíssimas sobre a vida após esta vida.
Aqui estão para o nosso conforto. Por exemplo, em Mateus há uma palavra de
Jesus que diz:

“Dirá o rei no juízo aos que estiverem a sua direita: Vinde benditos do
meu pai; possui por herança o reino que vos está preparado desta fundação do
mundo”.

Que promessa extraordinária! Ou, ainda, esta outra que também vem dos lábios do
Senhor,

“Quem crê no filho tem a vida eterna; o que porém desobedece ao
filho”, [você está levando Jesus a sério?] “O que desobedece ao filho
não verá a vida; mas, sobre ele permanece a ira de Deus”.

Você está levando Jesus Cristo a sério? Querem ver outra? “Eu vivo; e vós
vivereis”. E poderíamos continuar pelo resto da manhã mostrando textos e
textos, promessas e promessas, profecias e mais profecias sobre a vida depois
desta vida.

Jesus Cristo nos trouxe uma palavra tão clara, e essa palavra tão clara diz que

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço; e elas me seguem.
Eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão e ninguém as arrebatará da minha
mão”.

E ele também, ainda disse essa outra, “Que todo aquele que vê o Filho e
crê nele tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”. Pois é,
Jesus , o doador da vida eterna; Jesus, a fonte da vida; o pão da vida; a água
da vida.

Mas, há que não tema a morte? Creio que sim. A Segunda Guerra Mundial trouxe ao
cenário bélico uns idealistas com um misto de fanatismo, e eles não temem a
morte.

Aqueles que amarram bombas no corpo e entrando numa loja ou num mercado público
de modo que muita gente morre com aquela pessoa, que morreu por esse ideal,
eles não tinham medo de morrer, não.

Eram os pilotos kamicaze, eles eram jovens oficiais, pilotos japoneses que
tendo transformado o avião transformado em uma bomba, e iam pilotando
diretamente para o alvo, um porta-aviões, por exemplo; para que não se perdesse
nenhuma dessas bombas.

E aqueles homens que dirigem carros bomba, são islamitas, são muçulmanos da
linha xiita. Que também, eles não temem a morte.

Há aqueles que são plenamente realizados e justificados por Deus. Um excelente
exemplo é o do patriarca Abraão. Diz a Escritura Sagrada a respeito de Abraão o
seguinte, “Abraão expirou, morrendo em boa velhice; velho e cheio de dias
e foi congregado ao seu povo”. Foi o caso também de Simeão. Quando viu
Jesus nenenzinho no templo pata sua apresentação, Simeão agradecido orou
dizendo que agora o Senhor já podia levá-lo com as seguintes palavras,
“despedes em paz o teu servo, pois os meus olhos já viram a tua
salvação”.

Há os que foram e voltaram. A revista Vinde trouxe há algum tempo uma
reportagem sobre o tema da ressuscitação, tendo dado à matéria o título
seguinte: Quando o céu pode esperar. Foi quase o título de um filme a respeito
da reencarnação, doutrina intranqüila, e que não se encontra na Bíblia Sagrada.
O jornalista falou do Pastor João de Oliveira, que em 1966, em Pindamonhangaba,
São Paulo, foi declarado morto e voltou; Dona Luzanira Barbosa, em Maceió, em
1974; um médico, ou seja, um homem de ciência, o Dr. Joannis Garakis, em
Brasília, em 1986; Dona Hortência Conceição dos Santos, em São Gonçalo, em
1990; o administrador de empresas Renato Liro, no Rio; e também um outro, filho
da nossa igreja, a Igreja Batista Sião, o Dr. Samuel Figueira, por duas vezes
em 1949 e em 1964. Hoje, aprouve a Deus levá-lo de vez depois de ele ter
percebido que acontecia do outro lado.

Todos acharam e acham dificuldade em exprimir o inexprimível. Exatamente como o
apóstolo Paulo quando 1Coríntios 2.9 disse “As coisas que olhos não viram,
nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração do homem; são as que Deus
preparou para os que os amam”. Nesse mesmo sentido, o apóstolo Paulo declarou
em seguida que fora arrebatado ao Paraíso, tendo ouvido palavras inefáveis, as
quais não é lícito ao homem referir (cf. 2Co 12.4). Mas todos têm a santa
capacidade de exclamar com o apóstolo Paulo dizendo o seguinte, “Onde está
ó morte a tua vitória, onde está ó morte o teu aguilhão; mas, graças a Deus que
nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo”. E mesmo Jó, no Antigo
Testamento, também disse: “Eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se
levantará sobre a terra e depois de consumida esta minha pele, então, fora da
minha carme eu verei a Deus”.

Como temos passado pelo vale sombrio e frio do desânimo, da tristeza, da dor,
da necessidade, da doença incurável, do paciente terminal da sombra da morte!
No entanto, pela presença do Bom Pastor esse vale se torna esplendidamente
iluminado e o senso de absoluta e perfeita segurança, bem como o senso de
objetivo, de propósito, de finalidade, de destino, se apresenta com tanta
definição!

No verso 5, mais duas promessas: de proteção e de provisão. E o verso cinco
diz: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos; ungis
com óleo a minha cabeça, o meu cálice trasborda”.

A primeira figura, foi a de um pastor que protege, guia, cuida e orienta a
ovelha. Agora, eu temos uma outra imagem, a de um acampamento de beduínos, de
pastores, naquelas planícies do Oriente Médio, armaram suas tendas, e já caindo
a noite, ou mesmo no sol inclemente do meio dia, um viajante aparece naquele
acampamento. E então, um dos beduínos, recebe o viajante, e o coloca casa, e
não permite que um fio de cabelo de seu hóspede seja tocado. Até hoje, ainda é
assim. Se alguém vai ao Oriente próximo, descobre que a hospitalidade é uma
verdade ali entre eles. A escassa água é tornada disponível para a ablução,
para que ele lave o rosto, para que lave as mãos, para que os pés sejam também
lavados. O perfume vem em forma de um óleo, que aliás, é símbolo de alegria
festiva na Bíblia, de cura. E a proteção, a imunidade contra os inimigos é
garantida. Se o caso for, o hospedeiro chega a ponto de perder a vida para
resguardar a do seu hóspede na tenda. Ele é muito bem recebido e é isso que diz
a expressão, “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos;
unge com óleo a minha cabeça e meu cálice trasborda”.

Mas, quem são esses inimigos? O primeiro grande inimigo é Satanás, o inimigo
das nossas almas, atazanando a vida do crente por todos os lados com
enfermidades, impiedade alheia e com perturbação. São pessoas que oprimem, são
os que se levantam contra Deus, é a família iníqua, são os injustos.

Outro inimigo é a ansiedade, é o medo da morte, é o medo do futuro.

Mas, sabem quem é o último inimigo nosso? É a morte. Está em 1Coríntios 15.26:
“O último inimigo a ser destruído é a morte”. Mas nós temos proteção
e provisão bem definidas da parte do Senhor.

E no verso 6, “Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos
os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias”. Que
coisa maravilhosa, porque temos tudo o que foi dito acima e o céu também! Temos
amor e vida! Foi dito no começo que temos dois guarda-costas especiais, a
bondade e a misericórdia. O texto sagrado diz, “me seguirão”, no
original, porém, a palavra é “perseguir”. Os inimigos perseguem, mas,
a bondade e a misericórdia nos seguem bem de perto, isto é, somos perseguidos.
É exatamente o que o autor quis colocar, nós temos bondade, tov, e temos a
misericórdia, hesed. Que lindas palavras na língua hebraica. Tov, é de onde vem
o nome próprio Tobias, que quer dizer, “Deus é bom”. E, na verdade,
Davi quer falar de algo que sobrepuja toda a nossa compreensão. Ele quer falar
da paz de Deus que excede todo o entendimento. E como não encontra palavras
para falar da eternidade, ele declara: “Habitarei na casa do Senhor por
longos dias”.

Se Enoque e Elias foram arrebatados pelo Senhor, porque não seremos levados com
alegria no rosto e serenidade no coração à presença do Pai quando chegar a hora
da nossa morte? E Jesus não falou sobre isso? E não contou Ele a história do
rico e do Lázaro em Lucas 16.22?

“Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de
Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado”.

“Levado pelos anjos”, que outra promessa extraordinária na palavra de
Deus… Jesus não disse nessa história que o mendigo foi levado pelos anjos,
arrebatado pelos anjos para o seio de Abraão? Paulo não menciona isso, o
arrebatamento, em 1Tessalonicenses 4.17? Pois é, bondade e misericórdia, tov e
hesed. Aliás, essa palavrinha é, até, mais que só misericórdia, porque ela é lealdade,
a lealdade de Deus, é bondade, é salvação, é a fidelidade do Pai, é a justiça,
é a verdade. E a fidelidade de Deus está aí, até cantamos, “Tu es fiel
Senhor, meu Pai celeste”. Por isso que emoções e sentimentos perturbados
serão acalmados pelo Senhor, temor, pavor, espanto, medo, serão tranqüilizados
por Deus e perdão sempre “e habitarei na casa do Senhor”.

Estamos falando de segurança, de segurança para a vida eterna. E Jesus disse,
“Na casa de meu pai há muitas moradas; senão fosse assim eu vo-lo teria
tido”. E agora, ele assegura, “Vou prepara-vos lugar”. Nós
estamos falando de segurança eterna, de segurança verdadeira, porque nada nos
arrebatará da mão de Jesus, porque nós somos parte da casa do Senhor, da
família de Deus.

Vou lhe dizer o que fazer, e vou fazê-lo com a palavra de Deus. Nós vamos
encerrar, mas, o amigo já observou que houve um uso constante da primeira
pessoa do singular? Porque esse é um Salmo pessoal, esse é um Salmo para você
recitar: “O Senhor é o meu pastor”. O Senhor é o seu pastor? Você tem
certeza de que nada vai lhe faltar?

Que é que você pode fazer para ter este Bom Pastor na sua vida? A primeira
coisa é ter fé. Creia que só Jesus Cristo pode lhe dar soluções. Confesse a
Jesus como seu Salvador. E a ênfase é no Deus que conhece a cada um de nós, é
no Deus que conhece a você, porque você não é um anônimo diante de Deus. É o
Deus que cuida de você, é o Deus que busca ajudá-lo e você acabou de conhecer o
Salmo do Pastor comentado por este pastor. Mas, conhece o Pastor deste Salmo e
de todo o rebanho de Deus? Que pode você fazer para ter este bom Pastor na sua
vida? E eu vejo que Jesus coloca tudo na base da fé, da confiança, na
fé-adesão, na fé-compromisso com ele. Você precisa, então, crer. Essa é a
primeira coisa, fé.

Você precisa confessar, confessar a Jesus Cristo, o passado, o seu pecado,
deixá-lo para trás e obedecer-Lhe e andar com Ele. E este pastor extraordinário
lhe oferece provisões abundantíssimas porque Ele faz a vida transbordar. Nós
temos o Seu óleo, nós temos a Sua unção, nós temos a Sua bênção, a Sua
revelação, as Suas visões, a visão do céu, a visão de Deus, a visão da
eternidade, a visão do mais além, a visão da vida após esta vida. Portanto,
creia, confesse, e obedeça. E eu gostaria de ler este poema que está na capa do
boletim porque ele diz o seguinte:

O Senhor mostrou-me a vida verdadeira,
mudou meu modo de ser,
minha maneira de viver
e fez-me enxergar bem clara a vida
e na fonte do amor sua jazida
fez-me encontrar o tesouro imperecível
que as traças não destroem o combustível
para a minha viagem rumo ao céu.

Hoje, louvo ao Senhor, meu Pai, meu Deus que me disse
que eu era um ramo de Sua vinha.
Nesta hora a minha alma se aninha nos braços do Senhor,
sou filha sua; e vivo em torno dele
como a lua que vira sempre em redor do sol.
Jesus é o meu guia, o meu farol,
com a Sua luz ilumino, me projeto sem direção,
eu alcanço rumo certo,
pois, sigo o meu Jesus que é meu caminho.

Na Sua paz, busco fazer o meu ninho,
um dia assumirei o viver sã,
um dia cantarei também um canto feito de paz,
de amor, e de alegria.
Eu quero agora, ser oferta,
colocar-me no altar do Senhor,
falar-me do meu imenso amor
e abandonar-me humildemente em Suas mãos.

Acolhei e ajudai os meus irmãos
a seguir os passos Santos de Jesus,
a assumir com muito amor a minha cruz
até chegar ao alto do Calvário.
Até que ao pé do santuário
eu deposite a minha vida, o meu ser,
e diga ao Pai:
Valeu a pena o meu viver.
Amém.

 

Parte IV
RAHAB E
LEVIATAN
Encontramos
várias vezes no texto do Antigo Testamento a menção de seres dos quais não
temos certeza quanto à sua origem e espécie. Dois deles são Rahab e Leviatan.
Muitas vezes Rahab e Leviatan aparecem no texto lutando contra Yahweh.
Geralmente esta luta de Yahweh contra Rahab e Leviatan se dá em contextos
poéticos que tratam da origem do cosmos (cosmogonia). Como exemplo temos

Jó 26.10- 13 Traçou um círculo à superfície das águas, até aos confins da luz e
das trevas. 11 As colunas do céu tremem e se espantam da sua ameaça. 12 Com a
sua força fende o mar e com o seu entendimento abate o adversário. 13 Pelo seu
sopro aclara os céus, a sua mão fere o dragão veloz (serpente veloz/fugitiva)

Salmo 74.13-17 Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a
cabeça dos monstros marinhos. 14 Tu espedaçaste as cabeças do crocodilo e o
deste por alimento às alimárias do deserto. 15 Tu abriste fontes e ribeiros;
secaste rios caudalosos. 16 Teu é o dia; tua, também, a noite; a luz e o sol,
tu os formaste. 17 Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste.

O que são o Rahab e o Leviatan, citados juntamente com os monstros marinhos
nessas passagens? Como interpretar textos que citam esses elementos e fazem
referências à criação?

Mary K. Wakeman, estudando a literatura do antigo Oriente Próximo, concluiu que
a mitologia de diversas fontes antigas (Suméria, Índia, Mesopotâmia, Anatólia,
Grécia e Canaã) traz traços comuns: (1) um monstro repressivo impedindo a
criação; (2) a derrota do monstro por um deus heróico que então libera as
forças essenciais para a vida e (3) o domínio final do herói sobre estas
forças. Nesses mitos do antigo Oriente Próximo Rahab e Leviatan são sempre
identificados como estes monstros anti-criacionais.

Estariam os textos acima mencionados fazendo referência a estes elementos
mitológicos comuns às culturas do antigo Oriente Próximo? A referência feita em
Jó e Salmos teria características comuns com a mitologia? Entender estas
referências a aspectos da mitologia do antigo Oriente Próximo nos escritos
canônicos prejudica de alguma forma a nossa compreensão de inspiração,
inerrância e historicidade das Escrituras? Vejamos algumas respostas a estas
perguntas.

O simples fato de Rahab e Leviatan serem citados em literatura mítica e na
literatura bíblica não implica necessariamente que estejam falando da mesma
coisa. Porém, o contexto e o fato de não sabermos a que o texto bíblico se
refere exatamente nos leva a crer que estes elementos são os mesmos citados na
literatura mítica. Nossas traduções são a prova de que nossa lexicografia é
incerta quanto a estes vocábulos. Rahab aparece traduzido em português como
‘adversário’ (RA), ‘soberba’ (RC), ‘monstro Raabe’ (BLH). O léxico hebraico
(BDB) traz como possibilidades para a tradução ‘soberbo’, ‘arrogância’ (como
nomes), ‘nome emblemático para o Egito’, ‘monstro mítico’ (seguindo a
Septuaginta) entre outros. Leviatan aparece traduzido como ‘crocodilo’ (RA), e
‘Leviatan’ (RC e BLH). O mesmo BDB traz como possibilidades de tradução
‘leviatan’, ‘monstro marinho’, ‘dragão’ , grande animal aquático’, ‘talvez um
dinossauro extinto’, ‘significado exato desconhecido’. Em Jó 41 encontra-se uma
descrição do Leviatan que certamente não se encaixa com qualquer animal
conhecido, ou mesmo a possibilidade de algum animal extinto, mas sim com a
figura mitológica comum do dragão que lança fogo pela boca (Jó 41.19-21). No
contexto dos textos acima (Jó 26.12 e Sl 74.14) tanto Rahab quanto Leviatan
aparecem acompanhados de outros seres que lembram também elementos mitológicos,
ainda que sua presença não indique necessariamente uma fonte mitológica para os
textos (e.g. a serpente em Gênesis 3).

Em geral, este monstro está associado ao mar e o Senhor domina e derrota o
monstro, como o Salmo 89.9-10

9 Dominas a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as amainas. 10
Calcaste a Raabe, como um ferido de morte; com o teu poderoso braço dispersaste
os teus inimigos.

Salmo 104:26

25 Eis o mar vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos
e grandes. 26 Por ele transitam os navios e o monstro marinho que formaste para
nele folgar.

Isaías 27.1

1 Naquele dia, o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o
dragão, serpente veloz, e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que
está no mar.

Associar as menções de Rahab e Leviatan na Bíblia aos mitos pagãos do antigo
Oriente Próximo implica em que os autores bíblicos criam nestes mitos? Não. O
fato dos mitos serem citados implica, em primeiro lugar, que eles eram
conhecidos dos autores bíblicos e, certamente, da audiência deles. Segundo, que
usando de uma lógica clara, eles citam estes mitos dentro de literatura
reconhecidamente poética, para demonstrar que Yahweh é superior a todos estes
elementos míticos. A Escritura é muito clara em demonstrar que o politeísmo
pagão é condenável e os autores bíblicos bem sabiam disto. Afirmar que, porque
citaram a mitologia, criam nela, é ir além do que o contexto nos permite.

Waltke demonstra, convincentemente, que pelo menos três aspectos podem ser estabelecidos
a partir destas citações na literatura bíblica. Primeiro, que os autores
bíblicos estavam declarando a superioridade de Yahweh sobre os deuses pagãos na
criação, e, assim, descartando sua religião mitológica. Segundo, que ao
identificar Rahab com inimigos históricos do povo de Deus como o Egito (Is
30.7; Is 51:9-10 Rahab=Egito), sustentam a vitória de Yahweh no presente,
auxiliando o seu povo. Terceiro, ao identificar estes elementos mitológicos na
literatura apocalíptica, apresentam a vitória futura e final de Yahweh sobre
todos os seus inimigos (Is 27.1; Ap 12.7-9).

No contexto da criação os textos de Jó e Salmos nos ajudam a entender alguns
fatos importantes. Primeiro, que o Senhor é o grande criador, e não os deuses
destes relatos mitológicos (Baal, Faraó, Marduque, etc.). Segundo, que o Deus
criador do cosmos foi vitorioso no passado e será no futuro.

Segundo Waltke,

É inconcebível pensar que estes monoteistas estritos [os escritores bíblicos]
intencionaram dar suporte à sua visão a partir da mitologia pagã, que eles
indubitavelmente detestavam e abominavam, a não ser que tivessem absoluta
certeza de que seus ouvintes iriam entender que suas alusões eram usadas num
sentido puramente figurativo.

Fonte: Revista Fides Reformata

 
Parte V
RESPOSTA AOS
JUDEUS NÃO CONVERTIDOS
 “Santificai
a Cristo, como Senhor, em vosso coração, e estai sempre preparados para
responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança
que há em vós” (1 Pe 3.15-16).

Desconheço o autor das questões abaixo, que me foram remetidas recentemente.
Pelo visto, deve ser um judaizante, ou seja, seguidor do Judaísmo, talvez um
judeu não convertido, que não reconhece em Jesus o verdadeiro Messias. Em
defesa de minha fé, elaborei a devida refutação, como a seguir:

O Judaísmo afirma que Jesus não foi o Messias, pois não realizou as
esperanças messiânicas. Ele não estabeleceu a paz universal e justiça social
para toda a humanidade, nem redimiu o povo de Israel, e nem tampouco elevou as
montanhas do Senhor acima do topo das alturas. No tocante aos judeus, seu
próprio exílio e falta de um lar, e a continuação da guerra, pobreza e
injustiça são provas conclusivas de que o Messias ainda não chegou, pois sua
vinda, de acordo com promessas proféticas, apressará a redenção do povo de
Israel do exílio e a redenção de todo o mundo dos males da guerra, pobreza e
injustiça.

Resposta – Todas as profecias messiânicas se cumpriram em Jesus Cristo.
O Messias prometido, Jesus, o Ungido de Deus, veio para destruir as obras do
diabo, dar liberdade aos cativos, quebrar as algemas invisíveis, trazer Boas
Novas e preparar um povo para morar no céu (Is 61-2; Lc 4.18; Jo 3.16). Veio
para todas as nações, “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas
tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Ele [O Cristo do Senhor] “é luz para
iluminar os gentios, e para glória do teu povo Israel” (Lc 2.32). “É
Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Também dos gentios,
certamente” (Rm 3.29). O povo de Deus não é exclusivamente a nação de Israel,
mas os que estão lavados e remidos no sangue do Cordeiro. A REDENÇÃO em Jesus é
espiritual. Todos os que O recebem são espiritualmente renovados. Jó disse:
“Eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.
E depois de consumada a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus” (Jó
19.25-26). A esperança no Redentor é que Ele viria salvar seu povo do pecado e
da condenação (Rm 3.24; Gl 3.13; 4.5; Ef 1.7; Tt 2.14), livrá-lo do medo da
morte (Hb 2.14,15; Rm 8.2) e da ira vindoura (1 Ts 1.10); e dar-lhe vida eterna
(Rm 6.23). Tudo isso encontramos na pessoa do Senhor Jesus.

O reinado de Jesus será estabelecido num tempo vindouro, quando haverá plena
paz no mundo. Vejam: “Em verdade vos digo que vós os que me seguistes,
quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono de sua glória,
também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de
Israel” (Mt 19.28); “Quando vier o Filho do homem na sua majestade e
todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as
nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o
pastor separa dos cabritos as ovelhas” (Mt 25.31-32). Os judeus
“pensavam que o reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente”
(Lc 19.11). Supunham que Jesus iria comandar um exército para libertar os
judeus do jugo romano. Ficaram decepcionados quando viram o Rei humilhado
diante de Pilatos; conduzido para o Calvário; castigado, vencido, fraco e
morto. Nesse sentido, realmente Ele não realizou “as esperanças
messiânicas”. Mas trouxe vida abundante para todos os que O recebem como o
verdadeiro Messias, o Filho do Deus vivo.

A ênfase de Jesus em seus próprios ensinamentos, a maioria dos quais
contrários ao verdadeiro espírito da profecia hebraica, culminou em sua
reivindicação de possuir proximidade especial com Deus, proximidade não
compartilhada e nem mesmo semelhante à de qualquer outro ser humano. Assim ele
declarou: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho se
não o Pai, e ninguém conhece o pai, se não o filho e aquele a quem o Filho o
quiser revelar”. Deus, do modo como o judeu o conhece, está igualmente
próximo de todos os homens, e sua proximidade depende de quão próximo eles
querem que ele esteja e quão próximo eles desejam chegar dele. Nenhum profeta
judeu nem mesmo Moisés, o mestre dos profetas, alguma vez afirmou estar mais
próximo de Deus do que qualquer outro homem.

Resposta – Jesus continua junto à sua Igreja, aos seus, ao seu povo, a
todos os que O aceitam como Senhor. Ele mesmo disse que estaria conosco todos
os dias (Mt 28.20). Ele foi chamado de Emanuel, que significa “Deus
conosco” (Is 7.14). Jesus estabeleceu a diferença. Realmente, nenhum outro
teve a ousadia de dizer que era “o Cristo, o Filho do Deus Vivo” (Mt
16.16-17); nenhum profeta, em qualquer época, ouviu “uma voz dos céus,
dizendo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17;
17.5); ninguém jamais disse de si mesmo: “Eu sou o Senhor do sábado”
(Mt 12.8); nenhum profeta foi chamado de “Filho do Altíssimo” (Lc
1.32); a respeito de nenhum outro profeta se lê na Bíblia: “E estamos
naquele que é verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o
verdadeiro Deus, e a vida eterna” (1 Jo 5.20); ninguém, antes de Jesus,
teve a autoridade para declarar: “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida.
Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6). Realmente, Jesus fez a
diferença. Antes dele, ninguém pôde dizer com tanta certeza: “Eu e o Pai
somos um” (Jo 10.30). E ninguém deu tantas evidências de Sua própria divindade
quanto Ele, pois curou milhares de doentes, expulsou demônios, ressuscitou
mortos, acalmou tempestades, andou sobre as águas. Em toda a história da
humanidade, jamais um homem predisse a sua própria ressurreição: “Depois
de eu ressurgir, irei adiante de vós para a Galiléia” (Mt 26.32); “E
o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado. No
terceiro dia ele ressurgirá” (Mt 20.19). As Escrituras hebraicas, a
exemplo do Salmo 22 e Isaías 53, falam do sacrifício de Jesus na cruz, exceto
para quem ainda espera, em vão, o Messias prometido.

O Messias que os judaizantes ainda aguardam terá que cumprir totalmente as
profecias messiânicas das Escrituras hebraicas, o que é plenamente impossível.
Assim, deverá ser descendente da tribo de Judá (Gn 49.10; Lc 3.33;Mt 1.2-3);
nascer em Belém Efrata (Mq 5.2; Mt 2.1; Lc 2.4-7); nascer de uma virgem (Is
7.14; Mt 1.18); ser o principal motivo da matança dos meninos (Jr 312.15; Mt
2.16-18); ser a Galiléia o principal cenário do seu ministério (Is 9.1-2; Mt
4.12-16); ser profeta (Dt 18.15; Jo 6.14) e sacerdote (Sl 110.4; Hb 6.20);
deverá ser recebido com alegria quando entrar em Jerusalém, montado num
jumentinho (Zc 9.9; Jo 12.13-14); ser traído por um dos apóstolos (Sl 41.9; Mc
14.10; Mt 26.14-16; Mc 14.43-45) e vendido por trinta moedas de prata (Zc
11.12; Mt 26.15;Mt 27.3-10); que essas moedas sirvam para comprar um sítio (Zc
11.13; Mt 27.3-5; 8-10; 27.6-7); ser acusado por falsas testemunhas (Sl 27.12;
35.11; Mt 26.60-61).

O Messias dos judaizantes, para que as Escrituras hebraicas se cumpram, deverá
permanecer em silêncio quando for acusado (Is 53.7; Mt 26.62-63); ao ser preso,
deve ser esbofeteado e cuspido (Sl 69.4;Mc 14.65; 15.17; Jo 19.1-3; 18.22);
deve ser odiado sem justa causa (Sl 69.4; Jo 15.23-25); sofrerá em nosso lugar
(Is 53.4-5; Mt 8.16-17; Rm 4.25; 1Co 15.3); deve ser crucificado com pecadores
(Is 53.12; Mt 27.38; Mc 15.27-28; Lc 23.33); na sua crucificação, suas mãos e
pés devem ser trespassados (Sl 22.16; Jo 19.37; 20.25-27); para saciar sua
sede, receberá na cruz fel e vinagre (Sl 69.21; Jo 19.29; Mt 27.34,48); será
alvo de zombaria (Sl 22.8; Mt 27.43). O Messias aguardado deve ter seu lado
trespassado (Zc 12.10; Jo 19.34), seus ossos não serão quebrados (Sl 34.20; Jo
19.33), lançarão sortes sobre suas vestes (Sl22.18; Mc 15.24;Jo 19.24); deverá
ser sepultado com os ricos (Is 53.9; Mt 27.57-60); em cumprimento à sua própria
profecia e às profecias das Escrituras hebraicas, o Messias que os judaizantes
aguardam deverá ressuscitar ao terceiro dia, apesar de seu sepulcro receber o
selo imperial e ser guardado dia e noite por uma guarda romana fortemente
armada (Sl 16.10; Mt 20.19; 26.32; 27.40; Mt 28.9; Lc 24.36-48) e sua ascensão
deve ser vista pelos discípulos (Sl 68.18; Lc 24.50-51; At 1.9).

O Messias esperado pelos judaizantes enfrentará outro obstáculo insuperável. É
que o seu nascimento deverá ocorrer há dois mil anos (?!), exatamente na mesma
época em que nasceu Jesus, para que se cumpra a profecia de Daniel 9.24-26a.
Outra condição incômoda para o Messias dos judaizantes diz respeito à prova de
sua linhagem, pois ele deverá ser da tribo de Judá e da família de Davi, da
“raiz de Jessé” (Gn 49.10; Is 11.1,10; 2 Sm 7.12-16; Mt 1.1; 9.27; Lc
1.32; Hb 7.14; Rm 15.12; Ap 5.5). Impossível conseguir a prova dessa filiação
porque os registros genealógicos foram extintos com a destruição do templo de
Jerusalém pelos exércitos romanos, sob o comando do general Tito, em 70 d.C.

Para Jesus, a pobreza não era uma condição deplorável, necessitando de
erradicação; mas pelo contrário, a considerava como um passaporte para o reino
dos céus. E então aconselhava aos discípulos: Se desejas a perfeição, vá! venda
sua propriedade e doe o dinheiro aos pobres e gozarás de riqueza nos céus.
Depois, volte e seja meu seguidor” (Mt 19:21).

Resposta – Não se pode generalizar o que está escrito em Mt 19.21. O
coração daquele jovem estava em suas riquezas. Conhecendo sua fraqueza, Jesus
aconselhou-o a vender seus bens. E disse ser difícil um rico entrar no reino de
Deus. Jesus aproveitou a ocasião para ensinar que quem ama a Deus acima de tudo
não deve ser escravo da idolatria e avareza. Todavia, a salvação está em nEle
crê, seja rico ou pobre (Jo 3.18; Ef 2.8). Não se pode criar uma doutrina com
base nesse versículo, mas se deve examinar o conjunto dos ensinos de Jesus.
Pobreza ou riqueza, tudo deve ser para a glória de Deus. Quando Jesus se
encontrou com Zaqueu não condenou a sua riqueza; mas aquele homem, tendo ouvido
a Jesus, resolveu devolveu o que havia ganho por meio ilícito (Lc 19.8).

Para poder ser um seguidor de Jesus, entretanto, seria preciso romper todos
os vínculos com a vida social normal, pois ele exigia: “Nem um de vocês
que não se despedir de tudo o que possui não poderá ser um dos meus discípulos”
(Lucas 14:33). Essa renúncia não se estendia somente às posses materiais mas
também à eliminação das afeições mais naturais pelos membros da família.

Resposta – Em Lucas 14.26-35 Jesus estabelece as condições para quem
deseja ser Seu discípulo: renunciar a tudo quanto tem por amor a Cristo; levar
após Ele a sua cruz (v.27), avaliar o preço de segui-Lo até o fim (vv.28-32).
Em outras palavras, Jesus fez uma declaração de sua divindade, pois devemos
amar a Deus sobre todas as coisas. Jesus ensina que o preço do discipulado
verdadeiro é abrir mão de todos os relacionamentos e posses, isto é, de bens
materiais, família, nossa própria vida com suas ambições, planos e interesses.
Isto não significa que devemos abandonar tudo quanto temos, mas que tudo quanto
temos deve ser colocado a serviço de Cristo e sob sua direção, “pois para
isto Cristo morreu e tornou a viver, para ser Senhor tantos dos mortos como dos
vivos” (Rm 14.9).

Contrariamente a atitude judaica positiva em relação ao matrimonio e
família, Jesus se opunha quase que hostilmente a essas instituições. Não era
casado e dirigia palavras extremamente contundentes contra lealdade a pais,
irmãos e irmãs, considerando esses vínculos como afastadores do amor de Deus.
Jesus desmerecia e envergonhava sua mãe e irmãos em público. Assim está
registrado que quando Jesus se dirigia a uma multidão, “sua mãe e seus
irmãos e permaneciam fora dela, desejando falar com ele. Mas, dizia a quem o
avisava, ‘quem é a minha mãe e quem são meus irmãos?’ Apontava aos discípulos e
dizia ‘aqui estão minha mãe e meus irmãos! Todo aquele que realiza a vontade de
meu Pai do céu é meu irmão e minha irmã e mãe” (Mt 12:46-50). Em outra
ocasião, quando um dos ouvintes exclamou, ” abençoada seja a mãe que o gerou e
nutriu!” Jesus respondeu: ‘Você poderia se expressar-se melhor, abençoados
sejam aqueles que ouvem a mensagem de Deus e as observa! ” (Lucas 11:27). E
ele também ensinava: Não deves chamar qualquer um na terra de seu Pai, pois
tens somente um, o Pai dos céus (Mt 23:9).

Resposta – Em Mateus 12.46-50 vemos Jesus aproveitando a ocasião para,
mais uma vez, dizer que em primeiro lugar está a obediência a Deus, e que sua
mãe e seus irmãos não deveriam ser idolatrados. Jesus colocou um ponto final em
qualquer tentativa de endeusar sua mãe (Lc 11.27-28). Nivelou sua família,
principalmente sua mãe, a todos os tementes a Deus. Com coerência, Ele deu o
exemplo de que devemos amar menos as coisas terrenas e MAIS a Deus. A divina
missão de Jesus, definida desde a eternidade (Jo 1.1,2,14; 3.16), não incluía o
vínculo matrimonial. É uma inverdade dizer que Jesus, de forma hostil, se
opunha ao casamento, pois Ele confirmou o mandamento de “honrar pai e
mãe” (Mt 15.4), manifestou-se a favor da pureza do matrimônio, condenando
o adultério (Mt 5.27-28); e, na cruz, já perto da morte, demonstrou seu grande
amor filial ao entregar Maria aos cuidados do apóstolo João.

A maneira pela qual Jesus aplicava esses princípios a situações da vida real
pode ser vista por seus rompantes de ira para com os discípulos que desejavam
se desvincular de certas obrigações familiares antes de segui-lo. Quando um
futuro discípulo dizia a Jesus: Mestre, vou segui-lo, mas deixe-me
primeiramente dizer adeus aos que estão em minha casa”, ele o reprovava: Quem
coloca sua mão no arado e olha para trás, é inadequado para o reino de Deus
(Lucas 9:61).

Resposta – Nessa passagem, Jesus disse que devemos deixar os
espiritualmente mortos, cujos interesses estão somente nesta vida. Veja:
“Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir
primeiro dos que estão em minha casa. Disse Jesus: Ninguém que lança mão do
arado e olha para trás é ato para o Reino de Deus” (Lc 9.61-62). Jesus
aproveitou a oportunidade para dizer que segui-Lo é tarefa para quem deseja amá-Lo
sobre todas as coisas, capaz de deixar família, nação e bens por Sua causa.
Espiritualmente falando, vale dizer que todos nós devemos amar MENOS as coisas
deste mundo. Os não crentes estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1,5).
Jesus considerou que a família daquele homem estava espiritualmente morta;
então usou essa expressão: deixe que os [espiritualmente] mortos sepultem seus
mortos. As palavras para aquele seguidor naquele momento foram amargas, mas
serviram como lição para o resto de sua vida. Esta verdade serve para os dias
de hoje. Muitos missionários, colocando em risco a própria vida, largam família
e bens e vão habitar em lugares hostis, por amor a Cristo. Em nada Jesus pode
ser julgado por isso. Ele continuou sendo coerente em suas sábias palavras.

Jesus exigiu de seus seguidores que odiassem seu semelhante para serem
melhores discípulos. Portanto ensinava: ”Aquele que se aproxima de mim sem
odiar seu próprio pai e mãe, esposa e filhos, irmãos e irmãs e também a sua
vida não pode ser dos meus discípulos” (Lucas 14:26).

Resposta – Quem nos ensinou a amar nossos inimigos e orar por eles, e a
honrar pai e mãe, não nos ensinaria a odiar nossos familiares. Portanto, a
passagem sob análise deve ser interpretada no seu contexto. Leia-se: “Se
alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e
irmãos, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc
14.26-ARC). Mais uma vez, guardando coerência com as palavras já expostas,
devemos entender “aborrecer” ou “odiar”, neste versículo,
como “amar menos”. Ou seja, nossa lealdade e amor a Ele devem ficar
acima de todos e de tudo. Todavia, a explicação bastante clara de Lucas 14.26
está em Mateus 10.37-38: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é
digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de
mim; e quem não toma a sua cruz, e não vem após mim, não é digno de mim”.

O quanto Jesus estava longe de ser piedoso e isento de desejo de vingança
pode ser avaliado pelo fato de que ele amaldiçoou até mesmo uma árvore que não
produziu os frutos que ele esperava!

Resposta – Jesus transmitiu suas verdades em diversas situações e de
diversos modos. O contexto de Mateus 21.18-22 revela que a intenção de Jesus
não era apenas de amaldiçoar uma árvore, mas o de ensinar que “se tiverdes
fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira…”. Afirmar
que Jesus era vingativo e falto de piedade é desconhecer por completo o texto
dos quatro evangelhos.

Existe também uma contradição sem solução entre a beatitude de Jesus:
“Bem- aventurado os que promovem a paz por que serão chamados filhos de
Deus”’ (Mt 5:9) e sua declaração: “Não penseis que vim trazer paz a
terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito vim contrapor o homem ao seu
pai, a filha a sua mãe e a nora a sua sogra. Em suma, os inimigos do homem
serão os seus próprios familiares” (Mt 10:34-37).

Resposta – “Contradição sem solução” há para quem não sabe ou
não quer aprender a interpretar corretamente as palavras de Jesus. O que Jesus
disse é uma verdade. Vemos todos os dias cumprir-se essa palavra. Um jovem se
converte e de imediato seus pais e seus irmãos ficam contra ele. Jesus promove
a divisão entre as trevas e a luz porque: (a) o crente está separado do mundo e
morto para o pecado (Lc 12.51-53; Rm 12.2); (b) A pregação da verdade enseja
perseguição, divisão, zombaria e desprezo (Mt 5.10,11; 12.24; 14.4-12; 27.1; At
5.17; 7; 54-60; 14.22). É dessa forma que se deve entender a aparente
contradição em Jesus ser o “Príncipe da Paz” (Is 9.6) e declarar que
veio trazer divisão.

A Bíblia hebraica considera todos os homens como irmãos por parte do Pai do
céu. Portanto os profetas eram mensageiros de Deus para toda a humanidade e não
somente para seu próprio povo. Jesus por outro lado apresentou uma atitude
definitivamente exclusivista ao enfatizar que fora enviado somente para
“as ovelhas desgarradas do povo de Israel. Esse aspecto ainda é mais
enfatizado na recusa de Jesus em curar a filha de uma cananita. A Bíblia hebraica
é repleta de exemplos de gestos de bondade dirigidos a não judeus, para citar
um exemplo: Naamã. A dura resposta de Jesus à cananita não foi menos contrária
à tradição judaica do que aos padrões éticos aceitos. Pois quando a mulher
implorou: tenha piedade de mim, Senhor! Minha filha está terrivelmente possuída
pelo demônio!’ Jesus não reconfortou e também instruiu seus discípulos: mande-a
embora pois fica implorando’, acrescentando: “Fui enviado somente para as
ovelhas desgarradas da casa de Israel. Quando a mãe alterada continuou
implorando, ele exclamou as cruéis palavras: ”Não é certo tirar o pão das
crianças e jogar aos cães! Querendo dizer com isso que os não judeus são cães e
conseqüentemente sem direito a misericórdia divina. Somente quando a pobre mulher
se humilhou, a ponto de aceitar o papel de uma cadela, dizendo: até os cães
comem as migalhas que caem da mesa de seu dono, é que Jesus considerou e
prometeu ajudá-la porque você possui grande fé (Mt 15:22-28). Mas mesmo ao
ajudá-la, ele o fez sem humanidade ou piedade mas como retribuição à grande fé
da mulher em sua pessoa.

Respostas – Exemplos maiores de “crueldade” e
“desprezo” pela vida humana vemos nas Escrituras hebraicas, dadas por
Deus Pai. (1) Para provar a fé de Abraão, ordenou que este sacrificasse seu
único filho Isaque, fazendo-o percorrer um longo caminho; somente no último
momento, suspendeu sua ordem (Gn 22.1-12); (2) Após ter demonstrado grande zelo
pelo seu povo, que tirou da escravidão do Egito, desejou matar todos eles em
pleno deserto, por causa da idolatria do bezerro de ouro.Tal intento não se
consumou por causa da intercessão de Moisés (Êx 3.7-9; 32.4,6,10). Por causa
desse incidente, Moisés, num ato de “crueldade” passou a fio de
espada cerca de três mil homens (Êx 32.28); (3) Por ordem de Deus, a cidade de
Jericó foi totalmente destruída pelo fogo, sob o comando do servo Josué: as
casas, os animais, homens, mulheres e crianças foram consumidos (Js 6.2; 7.17,
24); (4) Ao tomarem a cidade de Ai, por ordem do Senhor, mataram doze mil entre
homens e mulheres (Js 8.1,2,25,26,28,29); (5) Jó era homem “íntegro e
reto, temia a Deus e se desviava do mal”, mas isso não evitou que perdesse
todos os seus filhos e bens, e ainda ficasse coberto de chagas, tudo por
permissão do Altíssimo, e tudo conforme as Escrituras hebraicas. São muitos os
casos em que Deus Pai, como Senhor dos vivos e dos mortos, usou de Sua soberana
e infinita vontade para pôr em prática seu plano de redenção. Podemos censurar
Deus? Como admitir, portanto, que o Cristo, “Senhor dos vivos e dos
mortos”, “Pai da Eternidade”, “Deus Forte” (Is 9.6; Rm
14.9) não agiu corretamente ao provar a fé da referida mulher? O texto não fala
que Jesus ordenou aos discípulos que expulsassem a mulher. Os discípulos é que
pediram a Jesus que assim procedesse, mas não foram atendidos (Mt 15.23-24).
Com isso, Jesus ensinou que devemos ser perseverantes na fé. Ao atender ao
clamor da Cananéia, libertando sua filha dos demônios, Jesus mais uma vez
afirmou que veio libertar os cativos.

Apesar de Jesus ter apregoado que nenhum pingo no i ou traço no t deveriam
ser retirados da lei, ele próprio desconsiderou e violou várias leis
importantes. A autorização a seus discípulos de apanharem as espigas de milho
no sábado, pois estar faminto não se trata de emergência que justifique
transgressão do sábado. Em várias ocasiões ele curou pessoas no sábado, que não
estavam em situação emergencial, alegando que poderia fazê-lo, em oposição aos
rabinos que sustentavam que o sábado pode e deve na verdade ser transgredido
somente com vistas a salvar e preservar uma vida, mas não para tratar de
pessoas com enfermidades crônicas cujo estado se prolonga por anos e que sem
qualquer perigo de vida e saúde podem aguardar algumas horas até o término do
sábado.

Resposta – Ninguém melhor do que Jesus para dar a correta interpretação
à lei que Ele mesmo formulou, na qualidade de Pessoa da Trindade. João Batista
deu testemunho da divindade de Jesus, dizendo: “Aquele que vem do céu é
sobre todos. Aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus…” (Jo
3.31,34). Jesus confirmou as palavras do seu precursor, afirmando que Seu
ensino vinha daquele que O enviou, ou seja, de Deus (Jo 7.16,17). Nós,
cristãos, cumprimos os princípios éticos e morais do Antigo Testamento (Mt
7.12; 22.36-40) e os ensinamentos de Cristo e dos apóstolos. Ouçam as palavras
do nosso Salvador: “Ide e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os
em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as
coisas QUE EU VOS TENHO MANDADO” (Mt 28.19-20). Do contrário, ainda
estaríamos cumprindo o ritual da circuncisão (1 Co 7.19). Para nós, a fé em
Cristo é o ponto de partida para o cumprimento da lei, pelo que nos tornamos
filhos de Deus (Jo 1.12). Segue-se que não somos salvos pelo mérito de
cumprirmos a lei, mas “pela graça mediante a fé” (Ef 2.8). Libertos
do poder do pecado e selados com o Espírito Santo, estamos debaixo da “lei
de Cristo” (Gl 6.2;1 Co 9.21). O apóstolo Paulo declarou de forma clara
que não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça (Rm 6.14). Jesus colocou o
sábado no seu devido lugar, ensinando que esse dia foi instituído para
benefício do homem, a seu favor, e não contra o homem (Mc 2.27). Jesus não
censurou os discípulos acusados de não cumprirem a lei do sábado, por haverem
apanhado espigas para comer (Mt 12.1-7), e afirmou que é lícito fazer o bem
nesse dia (Lc 6.9). Por último, Ele declarou que “o Filho do homem é
Senhor do sábado” (Mt 12.8).

A lei judaica aprova e recomenda o divórcio como meio de findar um matrimônio
infeliz e insustentável. De fato a lei é notavelmente liberal pois aceita como
justificativa para o divorcio a incompatibilidade, o que não é admitido por
várias religiões progressistas. Jesus em clara oposição às leis talmúdicas e
bíblicas proibiu o divórcio, exceto em caso de adultério por sua própria conta.

Resposta – São válidos para este caso os mesmos argumentos apresentados
na questão anterior. É bom entendermos que estamos sob a égide de uma nova
aliança. Ao instituir a ceia do Senhor, Jesus disse que o Seu sacrifício na
cruz representava o novo concerto, a Nova Aliança (Mt 26.28).”Dizendo nova
aliança, Ele tornou antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquada e
envelhecida, perto está de desaparecer” (Hb 8.13). Jesus Cristo é o Mediador
desse novo concerto ou novo testamento. “Se a aspersão do sangue de bodes
e de touros, e das cinzas de uma novilha santifica os contaminados, quanto mais
o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a
Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus
vivo?” (Hb 9.13-14). Com esta compreensão e certeza, podemos entender
melhor a explicação dada por Jesus, quanto ao divórcio: “Também foi dito:
Aquele que deixar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que
qualquer que e repudiar sua mulher, a não ser por causa de infidelidade
conjugal, faz que ela cometa adultério, e aquele que casar com a repudiada,
comete adultério” (Mt 5.31-32). O que vale para nós, hoje, nós que estamos
debaixo da lei de Cristo, é essa palavra. Na questão formulada, está o
reconhecimento de que a lei do divórcio era “notavelmente liberal”.
Por isso, a lei é aperfeiçoada na Nova Aliança.

Ainda mais grave foi a atitude negativa de Jesus quanto às leis dietéticas
expressas em seus ensinamentos: “Ouvi e entendei! Não é o que entra pela
boca que torna o homem impuro!” (Mt 15:11). Isto era uma clara e
inequívoca desaprovação da importância das leis dietéticas. Os discípulos de
Jesus, indignados com esse ataque a uma das mais importantes observâncias
judaicas, perguntaram a seu Mestre: “Você sabia que os fariseus se
escandalizaram ao ouvir o que disseste?” Ao que ele respondeu: ‘Qualquer
planta que meu pai celeste não plantou será arrancada. Deixai-os. São cegos conduzindo
cegos! Ora, se um ofuscado conduz outro, ambos acabarão caindo num buraco’. A
pedido dos discípulos para explicar a parábola Jesus disse: “Não entendeis
que tudo o que entra pela boca vai para o ventre e daí para a fossa? Mas o que
sai da boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro” (Mt
15:12-18). De maneira bastante natural Jesus declarou que “todos os
alimentos são puros” (Mc 7.19). Claro que esse ataque frontal à totalidade
das leis dietéticas constitui-se em estranho contraste à colocação de Jesus de
que ele não havia vindo para abolir nada da lei ou dos profetas.

Resposta – Os argumentos apresentados na questão anterior, quanto à
autoridade de Jesus para alterar ou explicar a lei, são válidos para este caso.
Continuam em vigor as palavras de Jesus, pois ainda temos cegos guiados por
outros cegos. Os fariseus observavam com rigor os mínimos detalhes de sua
tradição, até o “lavar as mãos quando comem pão” (Mt 15.2). Estavam
convictos – e muitos ainda estão – de que a salvação deles dependia do
cumprimento dessas obrigações. Jesus dá exemplo de que eles transgrediam os
mandamentos, e revela: “E assim invalidastes, pela vossa tradição, o
mandamento de Deus… ensinando doutrinas que são preceitos dos homens”
(Mt 15.6,9). Jesus aproveitou o momento para declarar que os propósitos do
coração são mais importantes para Deus, do que o lavar as mãos antes das
refeições ou praticar outros rudimentos, porque do coração procedem os maus
pensamentos…” (Mt 15.19,20). Em outra oportunidade Jesus criticou
duramente os fariseus:

“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais o exterior do copo
e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Ai de vós,
escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados, que
por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de
mortos, e de toda imundícia. Exteriormente pareceis justos aos homens, mas
interiormente estais cheios de hipocrisia e iniqüidades. Serpentes, raça de
víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23.25-28).

Para finalizar, ouçamos o apóstolo Paulo: “Portanto, ninguém vos julgue
pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou
dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo. Se
estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam
ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não
proves, não manuseies? {Estas coisas] não são de valor algum, senão para a
satisfação da carne” (Cl 2.16,17,20,21,23).

O Messias será Rei sobre toda a terra

Todas as profecias messiânicas tiveram cabal cumprimento na Pessoa de Jesus de
Nazaré. As expectativas dos judeus apontavam para o surgimento de um rei
político/militar, capaz de livrá-los do jugo romano. Jamais admitiam a hipótese
de um rei sofredor, humilde, sem armas. Por certo não atentaram bem para o
texto do “servo sofredor”, conforme Isaías 53, Aquele que seria
“traspassado por nossas transgressões e moído por nossas iniqüidades”.
Por isso, não sem razão Paulo afirmou que a cruz de Cristo era “escândalo
para os judeus” (1 Co 1.23).

Todas as profecias da Bíblia foram, serão ou estão sendo cumpridas. O exemplo
mais recente é a reconstituição do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, por
resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), após quase dois mil anos de
dispersão por todo o mundo. Esse retorno à Terra Prometida foi predito há cerca
de 2.500 anos. Vejam:

“Eis que os trarei da terra do Norte e os congregarei das extremidades da
terra; e, entre eles, também os cegos e aleijados, as mulheres grávidas e as de
parto; em grande congregação, voltarão para aqui” (Jr 31.8). O profeta
Ezequiel foi ainda mais preciso: “Tornar-vos-ei de entre as nações, e vos
congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra” (Ez
36.24). Outra profecia cumprida é a de que o deserto de Israel seria lavrado,
agricultável, e que todos, surpresos, iriam dizer que “esta terra desolada
ficou como o jardim do Éden” (Ez 36.33-36). Sabe-se que Israel tem
superado a grande escassez de água na agricultura, utilizando sistema de
irrigação de alta tecnologia.

Israel deve atentar muito bem para a seguinte profecia, a ser cumprida:

“E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o
Espírito de graça e de súplicas; olharão para mim, a quem traspassaram;
pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito, e chorarão por ele,
como se chora amargamente pelo primogênito” (Zc 12.10). Não é preciso
muito esforço para concluir que esta profecia está falando de Jesus, o
unigênito de Deus (Jo 1.14; 3.16; 1 Jo 4.9), o primogênito de Maria (Lc 2.7a),
o traspassado na cruz (Jo 19.34,37).
O povo que rejeitou o enviado de Deus chorará amargamente, e “o SENHOR
será Rei sobre toda a terra” (Zc 14.9).

Parte VII
ADVENTISTAS
DECLARAM QUE NÃO É PECADO GUARDAR O DOMINGO
 
cinqüenta anos, líderes adventistas, ao admitirem que os
“domingueiros” não estavam em pecado, concluíram que qualquer dia da
semana poderia ser guardado. Vejam na matéria a seguir que o Dr. Walter Martin
não entrevistou gente miúda, pequenos adventistas, homens comuns da crença.
Entrevistou “conceituadíssimos líderes”. O livro com essas
entrevistas foi exaustivamente revisado por “250 líderes
adventistas”. Vejam bem, a palavra vem da cúpula adventista, de homens que
exercem ou exerciam liderança no seio dessa religião.

Houve realmente um consenso em torno dessa questão. Se há adventistas radicais
que discordam dessa importante decisão, precisam primeiramente explicar por
que, onde e como aqueles próceres erraram. Ao admitir que os domingueiros não
estão em pecado, admitiram, também, que os adventistas poderiam guardar o
domingo. Num e noutro caso não haveria pecado.

O foco da discussão deveria ser dirigido nessa direção. Por que esses
proeminentes adventistas cederam? O que realmente aconteceu no seio adventista?
Qual o pensamento predominante no adventismo brasileiro? Vejamos a matéria.

Extraída do Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo, de George A. Mather
& Larry A. Nichols, Vida, 2000, pg.194::

“Entre 1955 e 56, Dr. Walter Martin, um dos grandes apologistas da fé cristã em
nossos dias e fundador do Christian Research Institute, EUA, entrevistou
conceituadíssimos líderes adventistas em sua associação Geral (o órgão máximo
do grupo), naquela época localizada em Takoma Park, Maryland, EUA. O resultado
final da entrevista deu origem ao livro Seventh-day adventists answer questions
on doctrine (Adventistas do sétimo dia respondem perguntas sobre doutrina),
lançado em 1957 pela editora adventista Review and Harald Publishing
Association. Antes de ser publicado, o manuscrito de 720 páginas foi revisado
por 250 líderes adventistas. Foi destacado o seguinte”:

1. Sabatismo: a guarda do sábado não propicia salvação; o cristão que observa
o domingo não está em pecado; não é cúmplice do papado.

2. Ellen G. White: seus escritos não devem ser colocados em pé de
igualdade com a Bíblia; não são de valor universal, mas restritos à IASD.

3. Santíssimo: Cristo entrou no Lugar Santíssimo por ocasião de sua
ascensão, e não em 22 de outubro de 1844. Assim, as doutrinas do santuário
celestial ser purificado e do juízo investigativo não tinham base bíblica.

“Houve, contudo, sérias controvérsias no seio da IASD devido ao livro,
dando origem a dois movimentos: o tradicional e o evangélico. O primeiro
recusava-se a abrir mão das posições acima, pois aceitá-las comprometeria a
exclusividade da IASD como o remanescente, a única e verdadeira igreja de
Cristo. O segundo advogava os conceitos expressos no Questions on doctrine.
Estes não queriam deixar a IASD, apenas queriam uma reforma nas questões
teológicas nada ortodoxas. Muitos desses, porém, por pressões internas,
deixaram a IASD. Diante de tudo o que foi dito acima, concluiu-se que o
adventismo com o qual o Dr. Walter Martin dialogou e aceitou como cristão não é
mais o mesmo que presenciamos aqui no Brasil, pois rompeu com tudo aquilo
abordado no Questions on Doctrine. Entretanto, não se pode negar que há dentro
da IASD aqueles que almejam o retorno às formulações esboçadas e defendidas no
Questions on Doctrine”.

Parte VII
A CEIA
MESSIÂNICA
 “Ao
ouvir isso um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele
que comer pão no reino de Deus. Jesus, porém, lhe disse: Certo homem dava uma
grande ceia, e convidou a muitos. E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos
convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Mas todos à uma começaram a
escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo: rogo-te
que me dês por escusado. Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou
experimentá-los; rogo-te que me dês por escusado. Ainda outro disse: Casei-me e
portanto não posso ir. Voltou o servo e contou tudo isto a seu senhor: Então o
dono da casa, indignado, disse a seu servo: Sai depressa para as ruas e becos
da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Depois
disse o servo: Senhor, feito está como ordenaste, e ainda há lugar. Respondeu o
senhor ao servo: Sai pelos caminhos e valados, e obriga-os a entrar, para que a
minha casa se encha. Pois eu vos digo que nenhum daqueles homens que foram
convidados provará a minha ceia” (Lc 1 4.15-24)

Os antigos judeus utilizaram imagens variadas para descrever o que aconteceria
quando chegassem os dias da Era Messiânica. Era um tema constante não somente
na mensagem dos profetas, mas nos dias de Jesus havia muita especulação sobre
quando seria, e o que aconteceria por ocasião desse abençoado tempo.

Entre as muitas figuras que foram usadas para descrevê-la, havia a de um
banquete. Quando lemos no Antigo Testamento o Salmo 23, o seu penúltimo
versículo, ele diz “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus
inimigos”. É essa figura da ceia a que foi utilizada por Jesus Cristo. E,
se vamos ao profeta Isaías, aquele que mais falou acerca do Messias, também
leremos: “E, o Senhor dos exércitos dará neste monte a todos os povos um
banquete”, e, continua dizendo, “e destruirá neste monte a coberta
que cobre todos os povos, e o véu que está posto sobre todas as nações.
Aniquilará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de
todos os rostos, e tirará de toda a terra o opróbrio do seu povo; porque o
Senhor o disse” (Is 25.6a, 7, 8).

No relato de Lucas houve um homem que fez referência a essa Ceia Messiânica,
dizendo a Jesus o seguinte: “Bem-aventurado aquele que comer pão no reino
de Deus”. Com essa palavra, ele deu ocasião para que Jesus contasse um
midrash, uma parábola, uma pequena história, uma ilustração sobre quem tem
direito de participar do futuro banquete com o Messias. E aqui está a história
que Jesus contou: um homem quis dar um banquete, convidou os amigos, e eles
começaram a dar desculpas. Um não podia ir porque havia comprado um campo; o
outro, porque havia comprado cinco juntas de boi e precisava experimentá-los; o
outro não podia ir porque havia casado. É; cada um apresentou o que considerava
ser uma importante desculpa.

É necessário explicar que o homem ficara indignado porque o convite era feito
muito antecipadamente. Mas havia um detalhe: não se sabia a hora da festa.
Quando chegasse a ocasião, o convidado seria comunicado, e foi o que aconteceu
: “E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, porque
tudo já está preparado”. Aceitar o convite, e não comparecer, seria
considerado uma grave injúria ao anfitrião, um sério insulto.

Na história, os convidados deram suas excusas: um estava com suas terras, o
outro estava envolvido com o seu gado, e o terceiro com a família.
Naturalmente, para eles os envolvimentos particulares tinham prioridade sobre o
convite, e deram desculpas. Razões tremendamente ilógicas, fracas de argumento,
e, até, insultuosas, porque dizer “Não vou ao seu banquete porque eu
preciso ver as terras; não vou ao banquete porque vou olhar o boi que comprei”
era um insulto! E vejam a razão:

“Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; peço que me desculpe”. A
desculpa é fraca porque esse homem era um mentiroso. É uma questão de senso
comum tanto aqui quanto no Oriente Médio, pois ninguém compra uma fazenda, um
trato de terra sem antes conhecer cada metro quadrado. Ninguém compra terreno
sem olhar antes, e foi o que esse homem fez. Um certo comentarista da Palavra
de Deus até diz que muitas vezes a compra de uma fazenda requer, no Oriente,
anos de negociação, mesmo porque os orientais são extremamente pechincheiros.
Comprar no Oriente, é uma mão de obra, uma verdadeira arte. É como se hoje
alguém dissesse, “Não posso ir a sua festa porque eu comprei uma casa pelo
telefone”, sem olhá-la, sem saber se prestava, suas divisões internas.
Além disso, as ceias eram realizadas no fim da tarde, de modo que haveria tempo
suficiente durante o dia para que o homem fosse olhar a fazenda que havia
comprado.
Mentiroso!…

O outro homem disse, “Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los;
peço que me desculpe”. Essa é outra desculpa ridícula! Porque ninguém vai
comprar juntas de boi (são dois bois trabalhando num arado), sem testar antes
se os animais poderiam trabalhar um com o outro. Ninguém pegava um boi aqui e
outro ali e os colocava juntos, não, porque nem sempre podiam trabalhar em
harmonia, um ajustado ao outro. É como se alguém ligasse para casa, e dissesse:
“Não vou jantar hoje em casa porque comprei cinco carros usados pelo
telefone, e vou olhar para ver se prestam”. Ninguém faz isso!

A terceira desculpa (“Casei-me e portanto não posso ir”) parece ser a
mais coerente, e até ficamos querendo desculpar o homem que se casou e disse
que não podia ir ao banquete do outro porque, naturalmente, o lar é de suprema
importância no ensino do evangelho. Mas, a família não foi instituída para ser
utilizada de modo egoísta. Jesus, de qualquer modo, mostrou na história que
essa desculpa não era a mais adequada.

AS LIÇÕES DA PARÁBOLA

Ela nos lembra que o convite do Senhor é para uma festa tão alegre quanto um
banquete pode ser. Estamos sendo convidados para a Ceia Messiânica! Quando
celebramos a Ceia do Senhor temos uma prévia desse banquete em apenas dois
elementos: um pedacinho de pão e um calicezinho de fruto da videira; só! No
entanto, ficamos tão felizes com esses poucos elementos, que podemos imaginar
como será na Ceia Messiânica com todos os quitutes à nossa frente, com aquelas
iguarias à nossa disposição! É a festa da salvação!

Na realidade, esse é um convite para a alegria! Não entendemos como pode alguém
participar da Ceia do Senhor com o rosto triste… Aliás, há quem pense que a
Ceia do Senhor é uma recepção fúnebre. É; há lugares onde há recepção; quando
alguém falece, e se vai fazer a “sentinela”, o velório, há uma mesa
onde os participantes vão se deliciar. A Ceia, apesar de Memorial, não é uma
festa fúnebre: é a ceia da alegria! E temos nela uma pré-estréia do que vai
acontecer na Ceia Messiânica! Evangelho de tristeza, de penúria não pode ser o
evangelho do reino de Deus!

A história lembra também que as coisas que tornam uma pessoa surda ao convite
não são más em si mesmas. Todos compreendem que o homem que disse ir olhar a
fazenda faria algo considerado correto. Todos entendem que aquele que foi olhar
a junta de bois, fez algo adequado. E menos, ainda, o casamento. São as terras
de um, os negócios de outro, a indústria de alguém, a casa de praia de mais
outra pessoa, mas é tão fácil alguém ficar por demais ocupado, e diria mais tão
preocupado com essa coisas boas que Deus concede, com o agora que se esquece da
eternidade, que se esquece do Deus-que-concede, que se preocupa tanto com o
visível, que se esquece daquele que ele não vê!

A história nos lembra, igualmente, que Jesus exemplifica o que nós perdemos
quando não O seguimos E a real tragédia é perder a alegria do banquete
messiânico, a alegria da presença de Jesus Cristo, a alegria da eternidade.

A história nos recorda outra coisa; é que o convite é o da graça do Criador. E
o conceito que Jesus enfatizou é a oferta gratuita da misericórdia de Deus, e,
por isso, a porta é aberta, e nesse momento em que a porta se tornou aberta,
foram convidados aqueles que antecipadamente não tinham sido convidados.

Ah, meu amigo querido, tudo está pronto! É o que diz a Bíblia. A você nada
resta a fazer a não ser aceitar participar desse banquete messiânico. O dever
dos servos (e aqui estamos nós, os servos do Senhor) é chamar, é insistir, é
dizer a todos, é enfatizar o “vinde!” que está no verso 17:
“Vinde, porque tudo já está preparado”. Esse é o nosso dever; a você
só compete o atender esse convite!

Parte VIII
A DOUTRINA
DA ELEIÇÃO – III

Na eleição Deus não é parcial e
não faz acepção de pessoas
 Alguém
que “faz acepção de pessoas”, é alguém que, atuando como juiz, não
trata aqueles que vêm ante ele conforme seu caráter, senão que nega a uns o que
justamente lhes pertence e dá a outros o que não é justamente deles – isto é, é
alguém governado pelo prejuízo e por motivos sinistros, e não pela justiça e
pela lei. As Escrituras negam que Deus faça acepção de pessoas neste sentido; e
se a doutrina da predestinação apresenta Deus atuando desse modo, teremos que
admitir que Deus é injusto.

As Escrituras ensinam que Deus não faz acepção de pessoas, porque Ele não
escolhe um e rejeita outro com base em circunstancias externas como raça,
nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. Pedro diz que Deus não faz
acepção já que Ele não faz distinção entre judeus e gentios. Sua conclusão após
ser divinamente enviado a pregar ao centurião romano, Cornélio, foi,
“Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; pelo
contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é
aceitável” (At 10.34,35). Através de toda sua história os judeus creram
que como povo eram objetos exclusivos do favor de Deus. Uma leitura cuidadosa
de Atos 10.1 a 11.18 revelará quão revolucionária era a idéia de que o
evangelho haveria de ser pregado aos gentios também.

Paulo, igualmente, diz, “glória, porém, e honra e paz a todo aquele que
pratica o bem; ao judeu primeiro, também ao grego. Porque para com Deus não há
acepção de pessoas” (Rm 2.10.11). E, novamente, “Já não há judeu nem
grego; não há escravo nem livre; não há varão nem mulher; porque todos vós sois
um em Cristo Jesus”. Logo acrescenta que não são os judeus externamente,
mas aqueles que são de Cristo os que, no sentido mais profundo, pertencem a
“linhagem de Abraão”, e “herdeiros segunda a promessa” (Gl
3.28,29). Em Efésios 6.5-9 ordena os servos e senhores a se tratarem com justiça;
por que Deus, que é Senhor de ambos, não faz acepção de pessoas; e em
Colossenses 3.25 inclui igualmente as relações entre pais e filhos e entre
esposas e esposos. Tiago diz que Deus não faz acepção de pessoas porque não faz
distinção entre rico e pobre, nem entre aqueles que usam vestiduras finas e os
que se vestem com simplicidade (Tg 2.1-9). O termo “pessoa” nestes
versículos significa, não o homem interior, ou a alma, mas a aparência externa,
que tão freqüentemente influi tanto em nós. Portanto, quando as Escrituras
afirmam que Deus não faz acepção de pessoas, isto não significa que Deus trata
a todos por igual, senão que a razão pela qual Ele salva um e rejeita outro não
é porque um seja judeu e o outro gentio, ou porque um seja rico e o outro pobre,
etc.

Se todas as pessoas fossem inocentes, Deus seria injusto e se deixaria levar de
respeitos humanos se as tratasse de maneira desigual, salvando umas e
condenando as demais. O fato, no entanto, é que todos são pecadores e nada
merecem de Deus.

Deus é misericordioso para com aqueles a quem salva, sem ser injusto para com
aqueles a quem condena, visto como podia ter condenado a todos sem ser injusto.
Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas, não quer dizer que Ele
não distingue pessoas, dando a uns o que nega a outros. Que todas as pessoas
não têm os mesmos dons e as mesmas oportunidades é um fato inegável. Sabemos
existir muita gente que nunca teve oportunidade de ouvir o Evangelho, e nações
inteiras, durante séculos, foram privadas desse privilégio. Quando a Bíblia diz
que Deus não faz acepção de pessoas quer dizer que ele não faz distinção por
motivo de raça, riqueza, condição social, etc., e também que Ele recompensará
cada um de acordo com as suas obras. Veja-se Atos 10.34; Romanos 2.11; Tiago
2.9 e 1 Pedro 1.17. Nenhuma diferença faz entre judeus e gentios; julgará a
todos de conformidade com as obras de cada um, visto como não faz acepção de
pessoas. Mas nossa salvação não é algo devido aos nossos méritos; procede da
graça divina. A este respeito Deus pode dizer o que o proprietário,
respondendo, disse: “Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo
um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último tanto
quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são
maus os teus olhos porque os meus são bons?” (Mt 20.13-15).

O decreto divino da eleição não pode ser acusado de parcialidade, porque isto
só é cabível quando uma parte tem o que exigir de outra. Se Deus fosse obrigado
a perdoar e salvar o mundo inteiro, seria parcial se salvasse apenas alguns e
não todos. Parcialidade é injustiça. Um pai é imparcial e injusto se
desconsidera direitos e exigências iguais de todos os seus filhos. Um devedor é
parcial e injusto se, no ato de pagar a seus credores, favorece uns às custas
dos outros. Nestes casos uma parte tem certa reivindicação a fazer sobre a
outra. Mas é impossível Deus mostrar parcialidade em salvar do pecado, porque o
pecador não tem qualquer direito ou reivindicação a apresentar.

A afirmativa de que Deus é obrigado, seja nesta vida, seja na outra, a oferecer
perdão de pecados mediante Cristo a todo o mundo, não apenas não tem apoio na
Escritura, como é contrário à razão, visto como transforma a graça em dívida,
envolvendo o absurdo de que, se o juiz não oferece perdão ao criminoso, contra
quem lavrou sentença condenatória, não o trata com eqüidade.

IV. CONCLUSÃO

A eleição ou predestinação é a missão resgate de Deus, pois Deus não deixou
todo o gênero humano perecer no estado de pecado e miséria que merecia. A
doutrina da eleição não é uma filosofia cega. É construída, sustentada e
revelada pela Palavra de Deus. Veja por exemplo Deuteronômio 7.6-9; Atos 13.48;
Romanos 8.29,30; Efésios 1.4,5; 2 Tessalonicenses 2.13; 2 Timóteo 2.10; Tito
1.2, etc. Esta eleição, conforme dizem corretamente os teólogos calvinistas, é
“incondicional”, isto é, Deus elege independente de méritos, fé ou
obras do indivíduo. E isto só é possível porque a eleição é um ato gracioso de
Deus (Rm 11.5). Sendo assim, devemos compreender que a eleição divina nunca é
uma questão de justiça. Portanto, erram aqueles que dizem que Deus seria
injusto se escolhesse alguns e não todos para a salvação. A eleição é questão
de graça. A condenação sim, é questão de justiça.

Mas ninguém poderá entender a doutrina bíblica da eleição se não compreender
adequadamente a doutrina bíblica do pecado. Porque “a pressuposição do
eterno decreto divino da eleição é que a raça humana é caída; a eleição envolve
o plano gracioso de Deus para o resgate” (Fred H. Klooster). Você acredita
realmente que todos pecaram em Adão (cf. Rm 5.12) e que ninguém é merecedor da
vida eterna? (cf. Rm 3.23). Se a sua resposta for afirmativa, então esteja
certo de que nunca poderá entender a eleição como sendo injustiça. Deus teria
sido perfeitamente justo se não elegesse ninguém (cf. Mt 20.14,15; Rm 9.14,15);
no entanto, Ele quis, soberanamente, mostrar para alguns o Seu favor imerecido.
Por isso, Paulo fala da “eleição da graça” (Rm 11.5). Na verdade,
tudo que recebemos de bom é pura expressão da graça de Deus para conosco, como
por exemplo, o arrependimento para a vida eterna (At 11.18), a salvação em
Cristo (At 15.11; Ef 2.8,9) e o serviço cristão (1 Co 15.10; Ef 2.10).

Deus também não faz acepção de pessoas, porque Ele não escolhe uma pessoa e
rejeita outra com base em circunstâncias externas como raça, nacionalidade,
riquezas, poder, nobreza, etc. O fato de Deus não salvar todo mundo só confirma
a tese de que Ele não é obrigado a salvar todo mundo. Graça não é dívida; é
graça!

É importante esclarecer que a eleição divina não é a salvação; é para a
salvação (2 Tm 2.13; 2 Tm 2.10). E entre ambas (eleição e salvação) está a
evangelização, servindo de ponte para ligar duas partes inseparáveis (Rm
10.14-17; cf. At 18.9-11). Com isto aprendemos que não procede o falso conceito
de que se uma pessoa é eleita, ela será salva independentemente de crer ou não
em Cristo pelo evangelho. Pensar assim seria simplesmente um absurdo! Como
também não procede a idéia de que esta doutrina da eleição “acomoda o
crente para a evangelização”. A eleição, conforme a Bíblia também ensina,
é para serviço (cf. 1 Pe 2.9; 2 Pe 1.10). “Serviço” aqui deve ser
entendido no mais amplo sentido do termo: evangelização, ação social, etc;
portanto, somente os desavisados acreditariam que a eleição acomoda o crente
para a obra de Deus. Lendo 2 Timóteo 2.10, aprendemos que para Paulo a eleição
incentivava a evangelização (“tudo suporto por causa dos eleitos”,
dizia) e garantia os bons resultados da evangelização (“para que também
eles [como os demais crentes] obtenham a salvação que está em Cristo Jesus com
eterna glória”). Não é verdade que o apóstolo que mais defendeu a doutrina
da predestinação foi um dos que mais trabalhou na obra de Deus? (1 Co 15.9,10).

Além da salvação e o serviço propriamente ditos, a eleição tem, ainda como
finalidade, a santidade de vida (Ef 1.4). A eleição é “para sermos
santos”. Deste modo, também não tem sentido a objeção de que a certeza de
salvação que a eleição produz leva à libertinagem. A vida que não se expressa
em santidade é incompatível com a doutrina bíblica da eleição (cf. 2 Pe
1.3-11).

PERGUNTAS PARA RECAPITULAÇÃO

Conforme R. B. Kuiper, o que é uma eleição?
Por que a eleição divina é incondicional?
Por que a eleição exige a evangelização?
De que modo a eleição auxilia na evangelização?
Por que na eleição não há injustiça?
Como é possível Deus eleger sem fazer acepção de pessoas?
NOTAS

(1). Em 2 Tessalonicenses 3.2 Paulo diz que “a fé não é de todos” e
em Tito 1.1 que a fé “é dos eleitos de Deus”.
(2). Leia 2 Tessalonicenses 2.13.
(3). Veja Atos 13.48.

Parte IX
A DOUTRINA
DA ELEIÇÃO – II

A Eleição e a Evangelização
Vez por outra
se ouve a idéia de que a eleição torna supérflua a ação evangelizadora. Pergunta-se
“Se o decreto da eleição é imutável e, portanto, torna absolutamente certa
a salvação dos eleitos, que necessidade têm eles do Evangelho? Os eleitos não
vão ser salvos mesmo, ouçam ou não o Evangelho?”.

A premissa desse argumento é inteiramente verdadeira. A eleição divina torna a
salvação dos eleitos inalteravelmente certa. Mas a conclusão derivada dessa
premissa revela grave incompreensão da soberania divina como expressa no
decreto da eleição.

Enquanto que a eleição é feita na eternidade, não se pode perder de vista a
verdade de que sua concretização é um processo que se dá no tempo, ou seja,
dentro da história. Muitos fatores tomam parte nesse processo. Um deles é o
Evangelho. E por sinal é um fator da maior significação (3).

Não se confunda a soberania de Deus com a Sua onipotência. Certamente Deus é
todo-poderoso. Significativamente, o conciso Credo Apostólico se refere a este
atributo de Deus, não uma, porém duas vezes. Se Deus quisesse, poderia pelo
emprego da simples força levar para o céu os eleitos, e igualmente pelo emprego
da simples força lançar ao inferno os não eleitos. Mas Ele não faz nada disso.
Preordenação não é compulsão e a certeza não exclui a liberdade. Ninguém jamais
foi convertido ao cristianismo à força. Todo verdadeiro convertido volta-se
para Cristo porque quer – embora seja certo que este querer é dom de Deus,
transmitido a ele por ocasião do seu novo nascimento. Deus trata os seres
humanos como criaturas racionais, capazes de agir livremente. Por isso, Ele
arrazoa e dialoga com os não salvos por meio do Evangelho. Quer
“persuadir” os homens (2 Co 5.11). E no caso dos eleitos, Ele aplica
o Evangelho aos corações deles de maneira salvadora, mediante o Espírito Santo.

Não se vá supor que o soberano decreto de Deus só se refere aos fins, com a
exclusão dos meios. Por mais ênfase que se dê, não será suficiente para
expressar que Deus preordenou tudo que sucede. Tudo abrange os meios, como os
fins. Para ilustrar, Deus não somente predeterminou que dado fazendeiro colhesse
este ano dez mil arrobas de trigo; predeterminou também que colhesse aquela
quantidade como resultado de muito trabalho duro. Do mesmo modo, Deus não
decretou apenas que certo pecador herde a vida eterna, mas decretou que esse
pecador receba a vida eterna por meio da fé em Cristo, e que obtenha a fé em
Cristo por meio do Evangelho.

Não se pode imaginar a soberania de Deus como se ela eliminasse a
responsabilidade do homem. Como os mais cultos e competentes teólogos e
filósofos se mostraram incapazes de conciliar a soberania divina com a
responsabilidade humana perante o tribunal da razão, sempre se corre o risco de
dar ênfase a uma delas em detrimento – ou mesmo com a exclusão – da outra. Mas
a Bíblia ensina as duas verdades com grande ênfase. Aquele que aceita com
humilde fé a Bíblia como a infalível Palavra de Deus, dará vigoroso destaque
tanto a uma como à outra. Portanto, o pregador do Evangelho tem de dizer ao
pecador, não apenas que a salvação é só pela graça soberana, mas também que,
para ser salvo, ele precisa crer em Jesus como Salvador e Senhor. Por um lado,
deve pregar que os eleitos de Deus serão salvos com toda a segurança; por outro
lado, deve proclamar a advertência de que aquele que não crê no Filho não verá
a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele (João 3.36). Mesmo os eleitos
precisam desta admoestação, pois faz parte integrante do método que Deus adotou
para levá-los à salvação.

Agora fica assegurada uma conclusão das mais significativas. Em vez de tornar
supérflua a evangelização, a eleição requer a evangelização. Todos os eleitos
de Deus têm que ser salvos. Nenhum deles pode perecer. E o Evangelho é o meio
pelo qual Deus lhes comunica a fé salvadora. De fato, é o único meio que Deus
emprega para esse fim. “A fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de
Deus” (Romanos 10.17).

Observe-se que, por paradoxal que pareça, a eleição é universal. Certamente, a
eleição é a escolha de certas pessoas, dentre um maior número, para a vida
eterna. Assim a eleição reflete particularismo. Contudo, num sentido real, a
eleição é universal. Deus tem os Seus eleitos em todas as nações e em todas as
épocas. A igreja é composta de “eleitos de toda nação”, e em nenhum
período da história os eleitos pereceram na terra, e jamais acontecerá isto no
futuro. Deus quer que o Evangelho seja proclamado no mundo todo e em todo o
tempo para que seja congregada a soma total dos eleitos. É bom repetir, pois: a
eleição exige a evangelização.

A mesma verdade pode-se ver de outro ângulo. A Escritura ensina que a eleição
foi feita com vistas às boas obras. Disse Paulo: “Somos feitura dele,
criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou
para que andássemos nelas” (Efésios 2.10). E a Escritura ensina
especificamente que a eleição foi feita com vistas ao testemunho. Disse Pedro:
“Vós sois raça eleita … a fim de proclamardes as grandezas daquele que
vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2.9). Deus
escolheu determinadas pessoas, não só para irem para o Céu quando morrerem, mas
também para serem Suas testemunhas enquanto estiverem na terra. Digamos outra
vez: a eleição exige a evangelização.

Eis outra conclusão igualmente significativa: a eleição assegura que a
evangelização resulte em conversões genuínas. O pregador do Evangelho não tem
como dizer quem em seu auditório pertence aos eleitos e quem não pertence. Mas
Deus sabe. E Deus está pronto para aplicar e abençoar Sua Palavra nos corações
dos Seus eleitos para a salvação. O momento preciso em que apraz a Deus fazer
isso no caso de um eleito individual, não sabemos, mas é certo e seguro que o
fará antes da morte da pessoa. Exatamente tão certo como todos os eleitos de
Deus serão salvos, é certo que a palavra do Evangelho não tornará a Deus vazia
(Isaías 55.11).

A preterição e o oferecimento do Evangelho

A eleição tem seu reverso. Se Deus escolheu da raça humana decaída certo número
para a vida eterna, é óbvio que passou outros por alto, deixando-os em seu
estado de perdição e decretando sua condenação por seus pecados. Teologicamente,
este aspecto da predestinação é conhecido como preterição, rejeição ou
reprovação. Tem-se alegado que esta doutrina elimina o sincero e universal
oferecimento do Evangelho. Se Deus decretou desde a eternidade que certos
homens pereçam eternamente, dizem os oponentes, é inconcebível que Ele, dentro
da história, convide sinceramente a todos, sem distinção, para a vida eterna.

Numa tentativa para refutar esse argumento, às vezes se faz a observação de que
o pregador humano não tem meios para saber quem é eleito e quem não é, e que,
portanto, ele não tem outro recurso senão proclamar o Evangelho a todos,
indiscriminadamente. Embora válida, essa observação não atinge o ponto. A
questão é se Deus, que sabe infalivelmente quais são os Seus eleitos e quais não
são, faz sincero oferecimento da salvação a todos os que são alcançados pelo
Evangelho.

Fato da maior importância é que a Palavra de Deus ensina inequivocamente, tanto
a reprovação divina, como a universalidade e a sinceridade do oferecimento do
Evangelho. É inegável que Romanos 9.21,22 ensina a doutrina da reprovação:
“Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um
vaso para honra e outro para desonra? Que diremos, pois, se Deus querendo
mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência
os vasos de ira, preparados para a perdição…?”. Também a ensina 1 Pedro
2.8, onde se faz menção dos “que tropeçam na palavra, sendo desobedientes,
para o que também foram destinados”. (…) o universal e sincero oferecimento
do Evangelho é firme e certamente ensinado em Ezequiel 33.11, 2 Pedro 3.9 e em
outras partes mais.

Também podemos admitir – ou melhor, tem que ser admitido – que estes ensinos
não podem ser conciliados entre si pela razão humana. Tanto quanto possa
interessar à lógica humana, um exclui o outro. Todavia, a aceitação de um deles
com a exclusão do outro é condenada como racionalismo. A norma da verdade não é
ditada pela razão humana, e sim pela infalível Palavra de Deus.

É digno de nota que, na história da igreja cristã, os teólogos que têm
insistido mais na verdade da rejeição divina, são os que têm defendido também,
e da maneira mais enfática, o universal e sincero oferecimento do Evangelho.
Seguem alguns exemplos.

É do conhecimento geral que João Calvino ensinava a doutrina da reprovação
divina. Às vezes ele até assumia a posição supralapsária, assim chamada. Quer
dizer, defendia a idéia de que o decreto da predestinação precedeu logicamente
os decretos da criação e da queda. No entanto, ao comentar Ezequiel 18.23,
passagem paralela a Ezequiel 33.11, disse ele: “Não há nada que Deus
deseja mais ardentemente do que, que aqueles que estejam perecendo e correndo
para a destruição retomem o caminho da segurança”. E continuou: “Se
alguém objetar – bem, neste caso não há nenhuma eleição de Deus pela qual Ele
tenha predestinado um número fixo para a salvação – a resposta está à mão: o
profeta não fala aqui do secreto conselho de Deus, mas somente evoca aos homens
em desgraça o seu desespero, para que aprendam a esperança de perdão,
arrependam-se e abracem a salvação oferecida. Se alguém mais contestar – isso é
fazer Deus agir com duplicidade – a resposta está preparada, que Deus sempre
quer a mesma coisa, embora por diferentes meios e de modo inescrutável para
nós. Portanto, embora a vontade de Deus seja simples, grande variedade a
envolve, no que diz respeito aos nossos sentidos. Além disso, não é
surpreendente que nossos olhos sejam cegados por luz intensa, de modo que,
certamente, não podemos julgar como é que Deus quer que todos se salvem e,
contudo, destinou todos os reprovados à destruição eterna, e quer que eles
pereçam. Enquanto olhamos através de um vidro, obscuramente, devemos
satisfazer-nos com a medida do nosso entendimento”.

Os Cânones de Dort ensinam inconfundivelmente a doutrina da reprovação. Dizem
eles: “O que peculiarmente tende a ilustrar e a recomendar-nos a eterna e
imerecida graça da eleição é o expresso testemunho da Sagrada Escritura de que
não todos, mas somente alguns são eleitos, enquanto que outros são deixados de
lado no decreto eterno. A estes Deus, por seu soberano, justíssimo,
irrepreensível e imutável beneplácito, decidiu deixar caídos em sua miséria
comum à qual se tinham lançado voluntariamente, e não lhes dar a fé salvadora e
a graça da conversão. Mas, permitindo em seu justo julgamento que sigam os seus
próprios caminhos, decidiu afinal, para a manifestação da sua justiça,
condená-los e puni-los para sempre, não somente por causa da incredulidade
deles, mas também por todos os seus outros pecados” (I, 15). Todavia, os
Cânones insistem: “Todos quantos são chamados pelo Evangelho, são chamados
com sinceridade. Pois Deus declarou ardorosa e verdadeiramente em Sua Palavra o
que é aceitável a Ele, a saber, que aqueles que são chamados, venham a
Ele” (III, IV, 8).

Em apoio do ensino de Dort que transcrevemos acima, Herman Bavinck negou tanto
que a fé seja a causa da eleição como que o pecado seja a causa da rejeição, e
insistiu em que a eleição e a rejeição têm suas raízes no soberano beneplácito
de Deus. Para ser exato, ele ensinou que Deus decretou soberanamente, desde a
eternidade, que alguns homens escapariam da punição dos seus pecados, e outros
não (Gereformeerde Dogmatick, II, 399). Mas na mesma obra clássica, aquele
calvinista bem equilibrado afirmou também: “Embora através do chamamento a
salvação se torne a porção de apenas uns poucos… ele /o chamamento/, não
obstante, é de grande valor e significação também para aqueles que o rejeitam.
Para todos, sem exceção, é prova do infinito amor de Deus, e sela a declaração
de que Ele não tem prazer na morte do pecador, mas que ele se volte e
viva” (IV, 7).

A apresentação da eleição aos não salvos

Não se pode simplesmente suprimir a pergunta sobre que lugar, se há algum, a
doutrina da eleição deve ocupar na pregação aos não salvos.

A Escritura e as confissões calvinistas dizem-nos que a verdade da eleição visa
primariamente os crentes. O propósito ao qual ela serve em benefício deles foi
admiravelmente resumido nos Cânones de Dort. Dizem eles: “O senso e a
certeza desta eleição comunicam aos filhos de Deus matéria adicional para a sua
humilhação diária diante dele, para adorarem a profundidade das Suas
misericórdias, para se purificarem e para oferecerem gratas retribuições de ardente
amor a Ele, que manifestou primeiro tão grande amor para com eles” (I,
13).

Uma velha ilustração torna bem claro o uso que não deve ser feito da doutrina
da eleição ao lidarmos com pessoas não salvas. Pode-se falar da casa da
salvação. Seu alicerce é o decreto divino da eleição, e sua entrada é Cristo.
Ele disse: “Eu sou a porta” (João 10.9). Quando os que pela graça de
Deus se acham dentro convidam os de fora para entrar, indicam para eles o
alicerce ou a porta? A resposta é mais que evidente. Assim, quando o carcereiro
de Filipos perguntou a Paulo e a Silas o que devia fazer para salvar-se, eles
não o aconselharam a que procurasse descobrir se estava na lista dos eleitos;
mandaram-no crer no Senhor Jesus Cristo (Atos 16.31).

Vamos concluir que os homens devem ser mantidos na ignorância da eleição
enquanto não receberem a Cristo pela fé? Naturalmente a resposta a esta
pergunta deve ser negativa. Sem dúvida, a Assembléia de Westminster estava bem
fundamentada ao advertir que “a doutrina deste alto mistério de
predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado”
(Confissão de Fé de Westminster, III, 8), mas isto não pode significar que deva
ser mantida oculta dos não salvos. Muito ao contrário, eles devem ser
advertidos que não torçam esta verdade e exortados a fazerem uso apropriado
dela.

Especificamente, deve-se dizer a eles que a eleição dá lugar à salvação pela
graça divina, que os méritos humanos estão fora de cogitação, e que, portanto,
há esperança para o maioral dos pecadores; que o Deus da eleição convida com
sinceridade, cordialmente e mesmo com urgência, todo pecador para a salvação;
que a predestinação longe de excluir a responsabilidade humana, definitivamente
a inclui, de modo que todos os que ouvem a proclamação do Evangelho estão, por
dever sagrado, moralmente obrigados a crer, e, não sendo Deus a causa da
incredulidade como é a causa da fé, os que persistem na incredulidade perecem
por inteira culpa deles mesmos; que o decreto da eleição não é secreto no
sentido de que ninguém pode estar certo de pertencer aos eleitos, mas que, ao
contrário, visto que a fé em Cristo é o fruto e também a prova da eleição, a
pessoa pode ter tanta certeza de que está incluída no número dos eleitos como
de que é crente em Cristo Jesus; que a casa para a qual eles são convidados tem
alicerce imutável e eterno, de sorte que aquele que entra, ainda que o inferno
todo o ataque, não terá a mínima possibilidade de perecer, mas, com absoluta
certeza herdará a vida eterna.

Parte X
A DOUTRINA
DA ELEIÇÃO – I
A eleição,
conhecida também como predestinação e eleição incondicional, é um ato da livre
graça de Deus. Com isto em mente procuraremos responder, com a colaboração de
vários autores, algumas das perguntas mais comuns sobre a doutrina da eleição e
tentar esclarecer as principais dúvidas de crentes sinceros, desejosos de
aprenderem um pouco mais desta doutrina bíblica tão enriquecedora.

Minha oração é que o estudo desta doutrina seja uma benção para você como tem
sido para mim.

Obs: As notas adicionais e a tradução de alguns textos são de minha
autoria.

I. A VERACIDADE BÍBLICA DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO POR W. J. SEATON

Esta não é uma filosofia cega, mas é retirada da Palavra de Deus, é construída,
sustentada e revelada por ela. O assunto é tão vasto quanto o oceano; mas não
podemos fazer mais do que citar alguns versículos chaves das Escrituras que
agem como mapa e compasso através desses mares imensos.

A história da Bíblia é a história da eleição incondicional. É estranho que
aqueles que se opõem a essa doutrina não reconheçam isso. Alguns crentes têm
dificuldade em crer que Deus poderia preterir certas pessoas e escolher outras
e, no entanto, aparentemente não têm dificuldade em crer que Deus chamou a
Abraão dentre os pagãos de Ur dos Caldeus deixando os outros no paganismo. Por
que razão Deus escolheu a nação de Israel como Seu “povo peculiar”?
Não há necessidade de especular, pois Deuteronômio 7.7 nos dá a resposta:
“O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão
era mais do que a de todos os outros povos: Mas porque o Senhor vos
amava…”. Por que razão Deus, desrespeitando completamente as leis de
família de Israel, escolheu o filho mais novo, Jacó, em lugar do primogênito
Esaú? Mais uma vez, “à lei e ao testemunho”. Romanos 9.11-13:
“… Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme…
Amei Jacó, e aborreci Esaú”.

Qual era a doutrina pregada por Jesus na sinagoga em Nazaré, se não a doutrina
da eleição incondicional? “Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam
em Israel nos dias de Elias… E a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a
Serepta de Sidom, a uma mulher viúva… E muitos leprosos havia em Israel no
tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o
siro” (Lc 4.25-27). Sabemos o resultado da pregação dessa mensagem por
nosso Senhor: “o levaram até o cume do monte para dali o
precipitarem”.

Concedemos que há um “tipo de eleição” que é mantida por muitos
crentes hoje. De modo geral baseiam-se em Romanos 8.29: “Porque os que
dantes conheceu também os predestinou…”. A causa se desenvolve
aproximadamente da seguinte maneira: Deus previu aqueles que aceitariam a
Cristo, “elegendo-os” portanto para a vida eterna. Contra esse ponto
de vista salientamos que:

1. A presciência de Deus refere-se a um povo e não a qualquer ação desenvolvida
pelo povo. A Bíblia diz: “… os que dantes conheceu…”, etc. De
novo Deus fala através de Amós: “De todas as famílias da terra a vós
somente conheci”. Isto é, independente de qualquer ação, boa ou má, Deus
os “conheceu” no sentido que os amou e escolheu para serem dEle. É
assim que predestinou a Seus eleitos.

2. Não adianta dizer que Deus nos elegeu por ver algo que faríamos – isto é,
“aceitar” a Cristo, mas somos escolhidos para que possamos “aceitá-lO”.
“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as
quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).

3. Também não resolverá dizer que Deus previu aqueles que acreditariam. Atos
13.48 torna esse ponto completamente claro: “… e creram todos quantos
estavam ordenados para a vida eterna”. Eleição não resulta de
acreditarmos, mas nossa crença resulta de sermos eleitos – “ordenados para
a vida eterna”.

4. Além disso, dizer que exercitamos fé ao aceitar a Cristo e que Deus previu
essa fé e, portanto, nos elegeu, somente nos leva mais um passo para traz; pois
onde encontramos a fé para exercitar? As Escrituras fornecem a resposta:
“É dádiva de Deus, não de nós mesmos”. (1).

Certamente, em vez de argumentarmos contra essas coisas, deveríamos estar
praticando aquilo que o Espírito Santo, através do apóstolo Pedro, recomenda:
“Procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição ” (2 Pe
1.10).

II. A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO POR R. B. KUIPER

OS ESCOLHIDOS DE DEUS

A igreja consiste dos escolhidos de Deus. Certamente nem todos que estão na
lista de membros da igreja visível foram escolhidos por Deus para a vida
eterna. Há alguns dentro da igreja que são cristãos nominais e que nunca serão
crentes. Estes não estão entre o número dos escolhidos. Porém todos os
verdadeiros membros da igreja de Cristo pertencem aos escolhidos.

É possível que não haja outro ensinamento da Palavra de Deus tão impopular como
a eleição. Inclusive alguns crentes bíblicos e amantes da Palavra de Deus estão
mui próximo de detestá-la. Isto é difícil de entender. Não só se ensina
inequivocamente a eleição na Escritura senão que esta doutrina declara enfática
e belamente o amor infinito e eterno de Deus pelos seus.

Assim, pois, o fato de que a igreja consiste dos escolhidos de Deus torna mais
refulgente sua glória.

Especificados por Deus Pai

Suponhamos que uma congregação vá construir um templo, uma casa de adoração. O
primeiro passo para a realização de tal projeto é contratar um arquiteto, que
desenhará um plano para o edifício proposto e especificará que material se
usará em dita construção. Como o arquiteto de sua igreja, o Deus Pai a planejou
desde a eternidade e especificou precisamente quais pessoas seriam as que a
comporiam. Ele a escolheu dentre toda raça humana para esse fim.

Deus falou acerca da igreja do Antigo Testamento como “meu servo
Jacó” e “Israel meu escolhido” (Is 45.4). Na saudação de sua
carta aos efésios Paulo se regozijou dizendo: “Bendito o Deus e Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção
espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes
da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em
amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus
Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade…” (Ef 1.3-5). E Pedro se
dirigiu àqueles a quem escreveu sua carta como “eleitos, segundo a
presciência de Deus Pai…” (1 Pe 1.2).

Há quem diga que Deus elegeu a todos os homens para que sejam membros do corpo
de Cristo. Nada poderia ser mais absurdo. A própria palavra eleição significa a
escolha de alguns dentre um número maior, e escolher a todos de um certo número
simplesmente não é escolher. Citemos um exemplo: três homens lançam sua
candidatura para o cargo de governador de uma província. Certo eleitor, que não
pode decidir qual é o melhor candidato para o cargo, decide votar nos três. É
claro que o que fez foi perder seu voto! E não é menos lógico que se todos os
outros eleitores fizessem o mesmo, não haveria eleição. Disso concluímos que se
Deus elegesse todos os homens para que sejam membros de sua igreja não teria
elegido nenhum. É iniludível esta conclusão.

É interessante que alguns que sustentam que Deus elegeu todos os homens chegam
exatamente a essa conclusão: dizem que a única razão por que uma pessoa chega a
ser membro da igreja de Cristo é porque por sua própria vontade escolhe unir-se
à igreja. Em outras palavras, alguém chega a ser membro da igreja, não porque
Deus o escolhe, mas porque a própria pessoa decide fazê-lo. Assim a eleição é
do homem, não de Deus. É difícil imaginar uma contradição mais flagrante da
Escritura.

Karl Barth ensina que todos os homens são escolhidos por e em Cristo para a vida
eterna. Havendo tomado esta posição, que está abertamente em desacordo com a
Escritura, enfrenta um sério dilema. Ele deve, de acordo com o universalismo,
concluir que no final todos os homens serão salvos, ou, de acordo com o
arminianismo, fazer com que a salvação dependa, no final, da vontade do homem.
Não obstante, ele recusa em reconhecer estas alternativas. Deste modo sua
doutrina da eleição chega a ser em extremo confusa.

Apresenta-se, então, a importante pergunta: Por que Deus designou certas pessoas
dentre as demais para que sejam membros de sua igreja? Têm-se dado duas
respostas contraditórias. O arminianismo ensina que Deus escolheu certos
indivíduos porque sabia de antemão que eles creriam em Cristo. A teologia
reformada insiste que a única razão da eleição de Deus era o divino amor
soberano. Isto é, desde a eternidade Deus viu os objetos de sua eleição em
Cristo, seu Escolhido. Segundo o arminianismo, a base para a eleição de Deus
reside no homem; segundo o calvinismo, reside em Deus. Dito de outro modo, o
arminianismo sustenta que a fé é a base para a eleição, enquanto que a fé
reformada sustenta que a fé é o fruto da eleição e também sua prova.

Comprados por Deus Filho

Suponhamos de novo que uma congregação planeja construir um templo. Os planos e
as outras especificações já foram adotados; o segundo passo é a compra de
materiais de construção. Isso é o que também Deus fez para construir sua
igreja. Deus, o Filho, comprou os escolhidos, aqueles a quem o Pai havia
designado como membros de sua igreja. Paulo relembrou os anciãos da igreja de
Éfeso de seu dever de pastorear a igreja de Deus, a qual, disse, “ele
comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

Alguns dos primeiros pais da igreja sustentaram a opinião que Cristo pagou a
Satanás o preço com o qual ele comprou os escolhidos. É uma interpretação de
todo errônea. Se Cristo tivesse feito isso, teria constituído um reconhecimento
de que Satanás havia sido antes o dono legítimo dos pecadores escolhidos. É
evidente que Satanás nunca teve tal coisa. As coisas são bem assim: quando o
homem pecou, Deus como Juiz sentenciou a raça humana à prisão. Satanás foi, por
assim dizer, carcereiro da prisão. Cristo veio para dar sua vida em resgate por
certos prisioneiros. Dito em uma maneira mais clara, Ele apresentou o resgate
não ao carcereiro, mas ao Juiz. O Juiz aceitou o resgate e ordenou a liberdade
daqueles prisioneiros. Assim os prisioneiros são libertados do poder das trevas
e transportados para o reino de seu amado Filho (Cl 1.13).

Em nossos dias é muito comum outra falsa interpretação dessa transação. Diz-se
que Cristo comprou não só aos escolhidos, mas a todos os homens com seu sangue
e que, havendo feito isso, Ele deixou que cada indivíduo escolhesse aceitar ou
não o benefício salvífico de sua morte. Essa interpretação fracassa
completamente em compreender o amor do Salvador moribundo para com os seus. Sem
dúvida, a morte de Cristo é suficiente para a salvação de todos os homens.
Contudo, há de se afirmar enfaticamente que nenhum dos que Cristo comprou com
seu sangue permanecerá sob o domínio do diabo. Seu amor assegura que todos
aqueles que Ele comprou chegarão a ser crentes nEle e membros de sua igreja.
Ele fará que tal coisa suceda, não por uma compulsão externa, porém pela
influência graciosa de seu Espírito Santo. “O bom pastor dá a vida pelas
ovelhas” (Jo 10.11). E Ele verá que até a última ovelha pela qual deu sua
vida será trazida ao rebanho.

A Escritura com freqüência fala em termos superlativos acerca do amor de Deus
por sua igreja. Diz por exemplo: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do
filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas
ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.
Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente
perante mim” (Is 49.15,16). Esta linguagem é ao mesmo tempo forte em
extremo e supremamente terna. Todavia, a revelação do amor de Deus por sua
igreja alcança seu cume na compra dessa igreja pelo Filho de Deus com seu próprio
sangue. Olhando para o Cristo crucificado, todo membro de sua igreja sussurra:
“O qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20). Em
uníssono a igreja lê: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco,
pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito
mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.
Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte
do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua
vida” (Rm 5.8-10). E canta:

De sua cabeça, mãos, pés,
Precioso sangue ali verteu;
Coroa vil de espinhos foi
A que Jesus por mim levou.

Reunidos por Deus Espírito Santo

Suponhamos uma vez mais que uma congregação está no processo de levantar um
templo. Os planos e as especificações foram aprovados e o material comprado. É
obvio que fica mais uma coisa para fazer – construir, ou seja, o processo de
colocar o material. Uma vez feito isso, a construção ficará completa. Isso
também Deus faz ao edificar sua igreja. Os escolhidos, aqueles que foram
designados desde a eternidade pelo Deus Pai e comprados pelo Deus Filho quando
morreu na cruz do Calvário, são no curso da história reunidos como igreja
cristã pelo Deus Espírito Santo.

O Espírito realiza isso quando concede aos escolhidos a graça da regeneração.
Por natureza eles estão mortos em seus delitos e pecados, mas o Espírito de
Deus lhes dá vida (Ef 2.1). É uma conclusão segura que em conseqüência crerão
no Senhor Jesus Cristo. Alguns dos escolhidos estão predestinados a morrer na
infância. Todos estes, certamente, são regenerados antes que partam desta vida,
e desde o próprio momento da regeneração possuem o que os teólogos chamam de
habitus, a disposição da fé salvadora. Isso os torna membros do corpo de
Cristo. E quanto aos escolhidos a quem são concedidos chegar à idade do juízo,
seguramente nascerão de novo, embora nenhum ser humano pode dizer a que idade
pudesse o Espírito querer conceder-lhe o nascer de novo; e em seu caso a regeneração
resultará em uma consciente recepção do Salvador como Ele está apresentado no
evangelho. Isso é outra forma de afirmar que cedo ou tarde, pela graça do
Espírito Santo, serão membros viventes da igreja de Cristo.

A noção ampliada difundida nos círculos cristãos é que todos os seres humanos,
incluindo os não-regenerados, são capazes por sua própria vontade de aceitar a
Cristo como Salvador e ao fazer isso unir-se à igreja de Cristo. Com efeito,
diz-se que Deus tem deixado essa parte da salvação para o homem. E declara-se
que o novo nascimento é uma conseqüência, não um requisito, do ato de fé do
homem. Este é um dos erros mais correntes, para não dizer um dos mais sérios do
fundamentalismo atual. Por fazer do homem, em última instância, seu próprio salvador,
esta heresia comete a maior violência à doutrina cardial da Palavra de Deus, a
saber: a salvação pela graça de Deus. A Escritura ensina inequivocamente que
ninguém pode vir a Cristo em fé se o Pai não lhe trouxer (Jo 6.44); que antes
que a fé chegue a ser um ato do homem, é um dom de Deus (Fp 1.29); e que
“ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo” (1 Co
12.3). A Escritura ensina com a mesma clareza que é Deus quem reúne seus
escolhidos na igreja. Foi Deus o Espírito Santo quem, ao aplicar o sermão de
Pedro nos corações, reuniu três mil homens e mulheres na igreja no dia de
Pentecostes. E foi “o Senhor” quem posteriormente “acrescentava
diariamente à igreja os que haviam de ser salvos” (At 2.47).

Que gloriosa manifestação do amor divino é a reunião dos escolhidos na igreja!
Se Deus tivesse escolhido certos indivíduos para constituir o corpo de seu
Filho, mas tivesse feito com que a realização dessa seleção dependesse do
consentimento deles, nenhum deles seria salvo. Se, além de escolhê-los, Deus os
comprasse com seu sangue para que fossem membros de sua igreja, mas tivesse
feito com que o cumprimento dessa transação dependesse da aceitação de suas
condições, todos estariam perdidos. Tão grande é o amor de Deus pelos seus que
Ele realiza sua salvação exclusivamente. Não só os escolheu desde a fundação do
mundo e os comprou no Calvário, como também é Ele quem torna válidas essa
eleição e essa compra por meio da operação de seu Espírito dentro deles. O
Espírito Santo os traz da morte para a vida, concedendo-lhes a fé salvadora e
assim os torna membros de Cristo. Desde o princípio até o fim, sua salvação
depende exclusivamente da graça soberana e do amor infinito de Deus.

A igreja consiste daqueles que Deus ama imensamente.

Salvos para servir

Agora é necessário chamar a atenção para um aspecto da eleição que às vezes é
descuidado por aqueles que confessam esta doutrina. Indubitavelmente a eleição
é para a salvação (2), mas a Escritura ensina em uma forma não menos enfática
que é também para serviço. A salvação e o serviço são inseparáveis. A salvação
é para servir.

Os membros da
igreja de Cristo são feitura de Deus, “criados em Cristo Jesus para as
boas obras” (Ef 2.10). Porque foram comprados, estão sob a solene
obrigação de glorificar a Deus em seus corpos e em seus espíritos, que são de
Deus (1 Co 6.20). Cristo se entregou por eles para redimi-los de toda
iniqüidade e purificar para Si mesmo um povo peculiar, zeloso de boas obras (Tt
2.14). E digamos com toda a ênfase de que somos capazes – Deus Pai escolheu a
sua igreja em seu amor soberano, o Filho a comprou com seu precioso sangue, e o
Espírito Santo veio para morar nela com o fim de que testificasse. É raça
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus para que anuncie
as virtudes daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe
2.9).

A igreja consiste daqueles que amam e servem ao Deus trino, porque Ele os amou
primeiro.

Parte XI
A DOUTRINA
REFORMADA

Da Autoridade suprema das
Escrituras
 A doutrina
que me proponho a considerar neste artigo foi de fundamental importância na
Reforma Protestante do Século XVI. Em contraposição, por um lado, à doutrina
católica romana de uma tradição oral apostólica e, por outro lado, ao
misticismo dos assim chamados entusiastas ou reformadores radicais, os
Reformadores defenderam a doutrina da autoridade suprema das Escrituras. Essa
foi, portanto, a sua resposta à autoridade da tradição eclesiástica e do
misticismo pessoal.

A autoridade suprema das Escrituras também é uma doutrina
puritano-presbiteriana. A ela os puritanos tiveram que apelar freqüentemente na
luta que foram obrigados a travar contra as imposições litúrgicas da Igreja
Anglicana.1 A Confissão de Fé de Westminster professa a referida doutrina em
três parágrafos do seu primeiro capítulo. No quarto parágrafo, ela trata da
origem ou fundamento da autoridade das Escrituras:

A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida,
não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de
Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida,
porque é a Palavra de Deus.

O parágrafo quinto aborda a questão da certeza ou convicção pessoal da
autoridade das Escrituras:

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente
apreço pela Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia
da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes,
o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que
faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências
incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente se
evidencia ser ela a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza
da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do
Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações.

O décimo e último parágrafo desse capítulo confere às Escrituras (a voz do
Espírito Santo) a palavra final para toda e qualquer questão religiosa,
reconhecendo-a como supremo tribunal de recursos em matéria de fé e prática:

O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser
determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas
as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões
particulares; o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser
outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.

Em dias como os que estamos vivendo, em que cresce a impressão de que o
evangelicalismo moderno (particularmente o brasileiro) manifesta profunda crise
teológica, eclesiástica e litúrgica,2 convém considerar novamente essa
importante doutrina reformado-puritana. Convém uma palavra de alerta contra
antigas e novas tendências de usurpar ou limitar a autoridade da Palavra de
Deus. Tal é o propósito deste artigo.

I. Definição

O que queriam dizer os Reformadores ao professarem a doutrina da autoridade das
Escrituras? Que, por serem divinamente inspiradas, elas são verídicas em todas
as suas afirmativas. Segundo esta doutrina, as Escrituras são a fonte infalível
de informação que estabelece definitivamente qualquer assunto nelas tratado: a
única regra infalível de fé e de prática, o supremo tribunal de recursos ao
qual a Igreja pode apelar para a resolução de qualquer controvérsia religiosa.

Isto não significa que as Escrituras sejam o único instrumento de revelação
divina. Os atributos de Deus se revelam por meio da criação: a revelação
natural (cf. Sl 19:1-4 e Rm 1:18-20). Uma versão da sua lei moral foi
registrada em nosso coração: a consciência (cf. Rm 2:14-15), “uma espiã de
Deus em nosso peito,” “uma embaixadora de Deus em nossa alma,”
como os puritanos costumavam chamá-la.3 A própria pessoa de Deus, o ser de
Deus, revela-se de modo especialíssimo no Verbo encarnado, a segunda pessoa da
Trindade (cf. Jo 14.19; Cl 1.15 e 3.9).

Mas, visto que Cristo nos fala agora pelo seu Espírito por meio das Escrituras,
e que as revelações da criação e da consciência não são nem perfeitas e nem
suficientes por causa da queda, que corrompeu tanto uma como outra, a palavra
final, suficiente e autoritativa de Deus para esta dispensação são as
Escrituras Sagradas.

II. Base Bíblica

A base bíblica da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras é
tanto inferencial como direta.

A. Base Inferencial

É inferencial, porque decorre do ensino bíblico a respeito da inspiração divina
das Escrituras. Visto que as Escrituras não são produto da mera inquirição
espiritual dos seus autores (cf. 2 Pe 1.20), mas da ação sobrenatural do
Espírito Santo (cf. 2 Tm 3.16 e 2 Pe 1.21), infere-se que são autoritativas. Na
linguagem da Confissão de Fé, a autoridade das Escrituras procede da sua
autoria divina: “porque é a Palavra de Deus.”

Isto não significa que cada palavra foi ditada pelo Espírito Santo, de modo a
anular a mente e a personalidade daqueles que a escreveram. Os autores bíblicos
não escreveram mecanicamente. As Escrituras não foram psicografadas, ou melhor,
“pneumografadas.” Os diversos livros que compõem o cânon revelam
claramente as características culturais, intelectuais, estilísticas e
circunstanciais dos diversos autores. Paulo não escreve como João ou Pedro.
Lucas fez uso de pesquisas para escrever o seu Evangelho e o livro de Atos.
Cada autor escreveu na sua própria língua: hebraico, aramaico e grego. Os
autores bíblicos, embora secundários, não foram instrumentos passivos nas mãos
de Deus. A superintendência do Espírito não eliminou de modo algum as suas
características e peculiaridades individuais. Por outro lado, a agência humana
também em nada prejudicou a revelação divina. Seus autores humanos foram de tal
modo dirigidos e supervisionados pelo Espírito Santo que tudo o que foi
registrado por eles nas Escrituras constitui-se em revelação infalível,
inerrante e autoritativa de Deus. Não somente as idéias gerais ou fatos
revelados foram registrados, mas as próprias palavras empregadas foram
escolhidas pelo Espírito Santo, pela livre instrumentalidade dos escritores.4

O fato é que, por procederem de Deus, as Escrituras reivindicam atributos
divinos: são perfeitas, fiéis, retas, puras, duram para sempre, verdadeiras,
justas (Sl 19.7-9) e santas (2 Tm 3.15).5

B. Base Direta

Mas a doutrina reformada da autoridade das Escrituras não se fundamenta apenas
em inferências. Diversos textos bíblicos reivindicam autoridade suprema.

Os profetas do Antigo Testamento reivindicam falar palavras de Deus,
introduzindo suas profecias com as assim chamadas fórmulas proféticas, dizendo:
“assim diz o Senhor,” “ouvi a palavra do Senhor,” ou
“palavra que veio da parte do Senhor.”6 No Novo Testamento, vários
textos do Antigo Testamento são citados, sendo atribuídos a Deus ou ao Espírito
Santo. Por exemplo: “Assim diz o Espírito Santo…” (Hb 3:7ss).7

A autoridade apostólica também evidencia a autoridade suprema das Escrituras. O
Apóstolo Paulo dava graças a Deus pelo fato de os tessalonicenses terem
recebido as suas palavras “não como palavra de homens, e, sim, como em
verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em
vós, os que credes” (1 Ts 2:13). Que autoridade teria Paulo para exortar
aos gálatas no sentido de rejeitarem qualquer evangelho que fosse além do
evangelho que ele lhes havia anunciado, ainda que viesse a ser pregado por
anjos? Só há uma resposta razoável: ele sabia que o evangelho por ele anunciado
não era segundo o homem; porque não o havia aprendido de homem algum, mas
mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1:8-12).

Jesus também atesta a autoridade suprema das Escrituras: pelo modo como a usa,
para estabelecer qualquer controvérsia: “está escrito”8 (exemplos: Mt
4:4,6,7,10; etc.), e ao afirmar explicitamente a autoridade das mesmas, dizendo
em João 10:35 que “a Escritura não pode falhar.”9

III. Usurpações da Autoridade das Escrituras

Apesar da sólida base bíblico-teológica em favor da doutrina reformada da
autoridade suprema das Escrituras, hoje, como no passado, deparamo-nos com a
mesma tendência geral de diminuir a autoridade das Escrituras. E isso ocorre de
duas maneiras: por um lado, há a propensão em admitir fontes adicionais ou
suplementares de autoridade, que tendem a usurpar a autoridade da Palavra de
Deus. Por outro lado, há a tendência de limitar a autoridade das Escrituras,
negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo.

Com relação à primeira dessas tendências, pelo menos três fontes suplementares
usurpadoras da autoridade das Escrituras podem ser identificadas: a tradição
(degenerada em tradicionalismo), a emoção (degenerada em emocionalismo) e a
razão (degenerada no racionalismo). Sempre que um desses elementos é
indevidamente enfatizado, a autoridade das Escrituras é questionada, diminuída
ou mesmo suplantada.

A. A Tradição Degenerada em Tradicionalismo

Este foi um dos grandes problemas enfrentados pelo Senhor Jesus. A religião
judaica havia se tornado incrivelmente tradicionalista. Havendo cessado a
revelação, os judeus, já no segundo século antes de Cristo, produziram uma
infinidade de tradições ou interpretações da Lei, conhecidas como Mishnah.
Essas tradições foram cuidadosamente guardadas pelos escribas e fariseus por
séculos, até serem registradas nos séculos IV e V A.D., passando a ser
conhecidas como o Talmude,10 a interpretação judaica oficial do Antigo
Testamento até o dia de hoje. Muitas dessas tradições judaicas eram,
entretanto, distorções do ensino do Antigo Testamento. Mas tornaram-se tão
autoritativas, que suplantaram a autoridade do Antigo Testamento. Jesus acusou
severamente os escribas e fariseus da sua época, dizendo:

Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.
Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E
disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa
própria tradição… invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição
que vós mesmos transmitistes… (Mc 7.7-9,13).11

O Apóstolo Paulo também denunciou essa tendência. Escrevendo aos colossenses,
ele advertiu:

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas,
conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo
Cristo… Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se
vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies isto, não proves
aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? (Cl
2.8,20-22).

Quinze séculos depois, os Reformadores se depararam com o mesmo problema: as
tradições contidas nos livros apócrifos e pseudepígrafos, nos escritos dos pais
da igreja, nas decisões conciliares e nas bulas papais também degeneraram em
tradicionalismo. As tradições eclesiásticas adquiriram autoridade que não
possuíam, usurpando a autoridade bíblica. É neste contexto que se deve entender
a doutrina reformada da autoridade das Escrituras. Trata-se, primordialmente,
de uma reação à posição da Igreja Católica.

Isto não significa, entretanto, que a tradição eclesiástica seja
necessariamente ruim. Se a tradição reflete, de fato, o ensino bíblico, ou está
de acordo com ele, não sendo considerada normativa (autoritativa) a não ser que
reflita realmente o ensino bíblico, então não é má. Os próprios Reformadores
produziram, registraram e empregaram confissões de fé e catecismos (os quais
também são tradições eclesiásticas). Para eles, contudo, esses símbolos de fé
não têm autoridade própria, só sendo normativos na medida em que refletem
fielmente a autoridade das Escrituras.

O problema, portanto, não está na tradição, mas na sua degeneração, no tradicionalismo,
que atribui à tradição autoridade inerente. O tradicionalismo atribui
autoridade às tradições, pelo simples fato de serem antigas ou geralmente
observadas, e não por serem bíblicas. Essa tendência acaba sempre usurpando a
autoridade das Escrituras.

B. A Emoção Degenerada em Emocionalismo

Outra fonte de autoridade que sempre ameaça a autoridade das Escrituras é a
emoção, quando degenerada em emocionalismo. Isto quase inevitavelmente conduz
ao misticismo. Na esfera religiosa, freqüentemente é dado um valor exagerado à
intuição, ao sentimento, ao convencimento subjetivo. Quando tal ênfase ocorre,
facilmente esse sentimento subjetivo de convicção, pessoal e interno, é
explicado misticamente, em termos de iluminação espiritual e revelação divina direta,
seja por meio do Espírito, seja pela instrumentalidade de anjos, sonhos,
visões, arrebatamentos, etc.

Não é que Deus não tenha se revelado por esses meios. Ele de fato o fez. Foi,
em parte, através desses meios que a revelação especial foi comunicada à Igreja
e registrada no cânon pelo processo de inspiração. O que se está afirmando é
que o misticismo copia, forja essas formas reais de revelação do passado, para
reivindicar autoridade que na verdade não é divina, mas humana (quando não
diabólica). Essa tendência não é de modo algum nova. Eis as palavras do Senhor
através do profeta Jeremias:

Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvido às palavras dos profetas que
entre vós profetizam, e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu
coração, não o que vem da boca do Senhor… Até quando sucederá isso no coração
dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio
coração?… O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em
quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha
com o trigo? diz o Senhor (Jr 23.16,26,28).

Séculos depois o Apóstolo Paulo enfrentou o mesmo problema. Ele próprio foi
instrumento de revelações espirituais verdadeiras, inspirado que foi para
escrever suas cartas canônicas. Nessa condição, ele sabia muito bem o que eram
sonhos, visões, revelações e arrebatamentos. Mas, ainda assim, advertiu aos
colossenses, dizendo: “Ninguém se faça árbitro contra vós outros,
pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado sem
motivo algum na sua mente carnal” (Cl 2:18). Tanto Jesus como os apóstolos
advertem a Igreja repetidamente contra os falsos profetas, os quais ensinam
como se fossem apóstolos de Cristo, mas que não passam de enganadores.

Pois bem, sempre que tal coisa ocorre, a autoridade das Escrituras é ameaçada.
O misticismo, como degeneração das emoções (não se pode esquecer que também as
emoções foram corrompidas pelo pecado) tende sempre a usurpar, a competir com a
autoridade das Escrituras, chegando mesmo freqüentemente a suplantá-la. Na
época dos Reformadores não foi diferente. Eles combateram grupos místicos por
eles chamados de entusiastas12 que reivindicavam autoridade espiritual
interior, luz interior, revelações espirituais adicionais que suplantavam ou
mesmo negavam a autoridade das Escrituras. Esta tem sido igualmente uma das
características mais comuns das seitas modernas, tais como mormonismo,
testemunhas de Jeová, adventismo do sétimo dia, etc. Entre os movimentos
pentecostais e carismáticos também não é incomum a emoção degenerar em
emocionalismo, produzindo um misticismo usurpador da autoridade das Escrituras.

C. A Razão Degenerada em Racionalismo

A ênfase exagerada na razão também tende a usurpar a autoridade das Escrituras.
O homem, devido a sua natureza pecaminosa, sempre tem resistido a submeter sua
razão à autoridade da Palavra de Deus. A tendência é sempre tê-la (a razão)
como fonte suprema de autoridade. Isto foi conseqüência da queda. Na verdade,
foi também a causa, tanto da queda de Satanás como de nossos primeiros pais.
Ambos caíram por darem mais crédito às suas conclusões do que à palavra de
Deus. Desde então, essa soberba mental, essa altivez intelectual tem tendido
sempre a minar a autoridade da Palavra de Deus, oral (antes de ser registrada)
ou escrita.

Por que o ser humano, tendo conhecimento de Deus, não o glorifica como Deus nem
lhe é grato? O Apóstolo Paulo explica: porque, suprimindo a verdade de Deus (Rm
1:18), “…se tornaram nulos em seus próprios raciocínios,
obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se
loucos… pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a
criatura, em lugar do Criador…’’ (Rm 1:21-22,25).

Esta tem sido, sem dúvida, a causa de uma infinidade de heresias e erros
surgidos no curso da história da Igreja. A heresia de Marcião, o gnosticismo, o
arianismo, o docetismo, o unitarianismo, e mesmo o arminianismo são todos erros
provocados pela dificuldade do homem em submeter sua razão à revelação bíblica.
Todos preferiram uma explicação racional, lógica, em lugar da explicação
bíblica que lhes parecia inaceitável. Assim, Marcião concebeu dois deuses, um
do Antigo e outro do Novo Testamento. Por isso, também o gnosticismo fez
distinção moral entre matéria e espírito. Já o arianismo originou-se da
dificuldade de Ario em aceitar a eternidade de Cristo. Do mesmo modo, o
docetismo surgiu da dificuldade de alguns em admitir um Cristo verdadeiramente
divino-humano. O unitarianismo, por sua vez, decorre da recusa em aceitar a
doutrina bíblica da Trindade, enquanto que o arminianismo surgiu da dificuldade
de Armínio em conciliar a doutrina da soberania de Deus com a doutrina da
responsabilidade humana (rejeitando a primeira).

A tendência da razão em usurpar a autoridade das Escrituras tem sido
especialmente forte nos últimos dois séculos. O desenvolvimento científico e
tecnológico instigou a soberba intelectual do homem. Assim, passou-se a
acreditar apenas no que possa ser constatado, comprovado, pela razão e pela
lógica. A ciência tornou-se a autoridade suprema, a única regra de fé e
prática. E a Igreja passou a fazer concessões e mais concessões, na tentativa
de harmonizar as Escrituras com a razão e com a ciência. O relato bíblico da
criação foi desacreditado pela teoria da evolução; os milagres relatados nas
Escrituras foram rejeitados como mitos; e muitos estudiosos das Escrituras
passaram a assumir uma postura crítica, não mais submissa aos seus ensinos. Foi
assim que surgiu o método de interpretação histórico-crítico em substituição ao
método histórico-gramatical. Nele, é a suprema razão humana que determina o que
é escriturístico ou mera tradição posterior, o que é milagre ou mito, o que é
verdadeiro ou falso nas Escrituras.

Mas antes de se atribuir tanta autoridade à ciência, convém considerar a sua
história. Quão falível e mutável é! A grande maioria dos “fatos”
científicos de dois séculos atrás já foram rejeitados pela própria ciência.
Além disso, com que freqüência meras teorias e hipóteses científicas são
tomadas como fatos científicos comprovados!13

IV. Limitações da Autoridade das Escrituras

Além das tendências que acabei de considerar, propensas a usurpar a autoridade
das Escrituras, existem outras, que tendem a limitar a autoridade bíblica,
negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo. É o que têm feito a
teologia liberal, a neo-ortodoxia e o neo-evangelicalismo, com relação a três
dos principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras. Estas três
concepções de “autoridade” bíblica precisam ser entendidas. Elas
estão sendo bastante divulgadas em nossos dias, e são, em certo sentido, até
mais perigosas do que as tendências anteriormente mencionadas, por serem mais
sutis. Este assunto pode ser melhor entendido considerando-se os três
principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras: sua origem (ou
base), certeza (ou convicção) e escopo (ou abrangência).

A. Origem ou Base da Autoridade das Escrituras

A origem ou base da autoridade das Escrituras, como já foi mencionado,
encontra-se na sua autoria divina. As Escrituras são autoritativas porque são
de origem divina: o Espírito Santo é o seu autor primário. Para os
Reformadores, as Escrituras são autoritativas porque são a Palavra de Deus
inspirada. Por isso são infalíveis, inerrantes, claras, suficientes, etc.

A teologia liberal (racionalista) nega a própria base da autoridade da
Escritura, negando a sua origem divina. Para ela, as Escrituras são mero
produto do espírito humano, expressando verdades divinas conforme discernidas
pelos seus autores, bem como erros e falhas características do homem. Sua
autoridade, portanto, não é divina nem inerente, mas humana, devendo ser
determinada pelo julgamento da razão crítica. Eis o que afirmam: “A
verdade divina não é encontrada em um livro antigo, mas na obra contínua do
Espírito na comunidade, conforme discernida pelo julgamento crítico
racional.”14 De acordo com a teologia liberal, “nós estamos em uma
nova situação histórica, com uma nova consciência da nossa autonomia e
responsabilidade para repensar as coisas por nós mesmos. Não podemos mais
apelar à inquestionável autoridade de um livro inspirado.”15

B. Certeza da Autoridade das Escrituras

A certeza ou convicção da autoridade das Escrituras16 provém do testemunho interno
do Espírito Santo. A excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina e a
sua extraordinária unidade são algumas das características das Escrituras que
demonstram a sua autoridade divina. Contudo, admitimos que “a nossa plena
persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da
operação interna do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra, testifica
em nossos corações.”17

O testemunho da Igreja com relação à excelência das Escrituras pode se
constituir no meio pelo qual somos persuadidos da sua autoridade, mas não na
base ou fundamento da nossa persuasão. A nossa persuasão da autoridade da
Bíblia dá-se por meio do testemunho interno do Espírito Santo com relação à sua
inspiração. Na concepção reformada, se alguém crê, de fato, na autoridade
suprema das Escrituras como regra de fé e prática, o faz como resultado da ação
do Espírito Santo. É ele, e só ele, quem pode persuadir alguém da autoridade da
Bíblia.

Essa persuasão não significa de modo algum uma revelação adicional do Espírito.
Significa, sim, que a ação do Espírito na alma de uma pessoa, iluminando seu
coração e sua mente em trevas, regenerando-a, fazendo-a nova criatura, dissipa
as trevas espirituais da sua mente, remove a obscuridade do seu coração, permitindo
que reconheça a autoridade divina das Escrituras. O Apóstolo Paulo trata deste
assunto escrevendo aos coríntios. Ele explica, na sua primeira carta, que,
“o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são
loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente”
(1 Co 2.14). O homem natural, em estado de pecado, perdeu a sua capacidade
original de compreender as coisas espirituais. Ele não pode, portanto,
reconhecer a autoridade das Escrituras; ele não tem capacidade para isso. Na
sua segunda carta aos coríntios o Apóstolo é ainda mais explícito, ao observar
que,

…se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está
encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos,
para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é
a imagem de Deus… Porque Deus que disse: de trevas resplandecerá luz —, ele
mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da
glória de Deus na face de Cristo (2 Co 4.3-4,6).

O que Paulo afirma aqui é que o homem natural, o incrédulo, está cego como
resultado da obra do diabo, que o fez cair. Nesse estado, ele está como um
deficiente visual, que não consegue perceber nem mesmo a luz do sol. Pode-se
compreender melhor o testemunho interno do Espírito com esta ilustração. O
testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação através da
qual ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que
lá estava, mas não podia ser vista por causa da sua cegueira espiritual.

Deve-se ter em mente, entretanto — e esse é o ponto enfatizado aqui —, que esse
testemunho interno do Espírito Santo diz respeito à certeza do crente com
relação à plena autoridade das Escrituras, e não à própria autoridade inerente
das Escrituras. A convicção de um crente de que as Escrituras têm autoridade é
subjetiva, mas a autoridade das Escrituras é objetiva. Esteja-se ou não
convencido da sua autoridade, a Bíblia é e continua objetivamente autoritativa.
A neo-ortodoxia existencialista confunde estas coisas e defende a subjetividade
da própria autoridade da Bíblia. Para eles, a revelação bíblica só é verdade
divina quando fala ao nosso coração. Como dizem, “as Escrituras não são,
mas se tornam a Palavra de Deus” quando existencializadas.18

C. Escopo da Autoridade das Escrituras

Essas posições da teologia liberal e da neo-ortodoxia com relação à origem e à
certeza da autoridade das Escrituras são seríssimas. Contudo, talvez mais séria
ainda (por ser mais sutil) é a questão relacionada ao escopo da autoridade das
Escrituras.

Uma nova concepção da autoridade das Escrituras tem surgido entre os eruditos
evangélicos (inclusive reformados de renome, tais como G. C. Berkouwer19),
conhecida como neo-evangélica. O neo-evangelicalismo limita o escopo (a área)
da autoridade das Escrituras ao seu propósito salvífico. Segundo essa
concepção, a autoridade das Escrituras limita-se à revelação de assuntos
diretamente relacionados à salvação, a assuntos religiosos.20

A doutrina neo-evangélica faz diferença entre o conteúdo salvífico das
Escrituras e o seu contexto salvífico, reivindicando autoridade e inerrância
apenas para o primeiro. Mas tal posição não reflete nem se coaduna com a
posição reformada e protestante histórica. Para esta, o escopo da autoridade
das Escrituras é todo o seu cânon. É verdade que a Bíblia não se propõe a ser
um compêndio científico ou um livro histórico. Mas, ainda assim, todas as
afirmativas nelas contidas, sejam elas de caráter teológico, prático, histórico
ou científico, são inerrantes e autoritativas.21

Os principais problemas relacionados com a posição neo-evangélica quanto à
autoridade das Escrituras são os seguintes: Primeiro, como distinguir o
conteúdo salvífico do seu contexto salvífico? É impossível. As Escrituras são a
Palavra de Deus revelada na história. Segundo, como delimitar o que está ou não
está diretamente relacionado ao propósito salvífico, se o propósito da obra da
redenção não é meramente salvar o homem, mas restaurar o cosmo? Que porções das
Escrituras ficariam de fora do escopo da salvação? Como Ridderbos admite,
“a Bíblia não é apenas o livro da conversão, mas também o livro da
história e o livro da Criação…”22 Que áreas da vida humana ficariam de
fora da obra da redenção? A arte, a ciência, a história, a ética, a moral? Quem
delimitaria as fronteiras entre o que está ou não incluído no propósito
salvífico? Admitir, portanto, o conceito neo-evangélico de autoridade das
Escrituras é cair na cilada liberal do cânon dentro do cânon, e colocar a razão
humana como juiz supremo de fé e prática, pois neste caso competirá ao homem
determinar o que é ou não propósito salvífico.

Conclusão

Em última instância, a questão da autoridade das Escrituras pode ser resumida
na seguinte pergunta: quem tem a última palavra, Deus, falando através das
Escrituras, ou o homem, por meio de suas tradições, sentimentos ou razão? A
resposta dos Reformadores foi clara. Embora reconhecendo que o propósito
especial das Escrituras não é histórico, moral ou científico, mas salvífico,
eles não diminuíram a sua autoridade de forma alguma: nem por adições ou
suplementos, nem por reduções ou limitações de qualquer natureza. A fé
reformado-puritana reconhece a autoridade de todo o conteúdo das Escrituras, e
sua plena suficiência e suprema autoridade em matéria de fé e práticas
eclesiásticas.

Tão importante foi a redescoberta destas doutrinas pelos Reformadores, que
pode-se afirmar que, da aplicação prática das mesmas, decorreu, em grande
parte, a profunda reforma doutrinária, eclesiástica e litúrgica que deu origem
às igrejas protestantes. Todas as doutrinas foram submetidas à autoridade das
Escrituras. Todos os elementos de culto, cerimônias e práticas eclesiásticas
foram submetidos ao escrutínio da Palavra de Deus. A própria vida (trabalho,
lazer, educação, casamento, etc.) foi avaliada pelo ensino suficiente e
autoritativo das Escrituras. Muito entulho doutrinário teve que ser rejeitado.
Muitas tradições e práticas religiosas acumuladas no curso dos séculos foram
reprovadas quando submetidas ao teste da suficiência e da autoridade suprema
das Escrituras. E a profunda reforma religiosa do século XVI foi assim
empreendida.

Mas muito tempo já se passou desde então. O evangelicalismo moderno recebeu,
especialmente do século passado, um legado teológico, eclesiástico e litúrgico
que precisa ser urgentemente submetido ao teste da doutrina reformada da
autoridade suprema das Escrituras. É tempo de reconsiderar as implicações desta
doutrina. É tempo de reavaliar a nossa fé, nossas práticas eclesiásticas e
nossas próprias vidas à luz desta doutrina. Afinal, admitimos que a Igreja
reformada deve estar sempre se reformando — não pela conformação constante às
últimas novidades, mas pelo retorno e conformação contínuos ao ensino das
Escrituras.

Sabendo que a nossa natureza pecaminosa nos impulsiona em direção ao erro e ao
pecado, conhecendo o engano e a corrupção do nosso próprio coração,
reconhecendo os dias difíceis pelos quais passa o evangelicalismo moderno
(particularmente no Brasil), e a ojeriza doutrinária, a exegese superficial e a
ignorância histórica que em grande parte caracterizam o evangelicalismo moderno
no nosso país, não temos o direito de assumir que nossa fé e práticas
eclesiásticas sejam corretas, simplesmente por serem geralmente assim
consideradas. É necessário submeter nossa fé e práticas eclesiásticas à
autoridade suprema das Escrituras.

Assim fazendo, não é improvável que nós, à semelhança dos Reformadores, também
tenhamos que rejeitar considerável entulho teológico, eclesiástico e litúrgico
acumulados nos últimos séculos. Não é improvável que venhamos a nos
surpreender, ao descobrir um evangelicalismo profundamente tradicionalista,
subjetivo e racionalista. Mas não é improvável também que venhamos a presenciar
uma nova e profunda reforma religiosa em nosso país. Que assim seja!

Notas
1 Ver, por exemplo, William Ames, A Fresh Suit against Human Ceremonies in
God’s Worship (Rotterdam, 1633); David Calderwood, Against Festival Days, 1618
(Dallas: Naphtali Press, 1996); George Gillespie, Dispute against the English
Popish Ceremonies Obtruded on the Church of Scotland (Edinburgh: Robert Ogle
and Oliver & Boyd, 1844); e John Owen, “A Discourse concerning
Liturgies and their Impositions,” em The Works of John Owen, vol. 15
(Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1965).

2 Cf. John MacArthur Jr.,
Com Vergonha do Evangelho: Quando a Igreja se torna como o Mundo (São José dos
Campos: Editora Fiel, 1997) e Paulo Romeiro, Evangélicos em Crise: Decadência
Doutrinária na Igreja Brasileira (São Paulo: Mundo Cristão, 1995).

3 Ver capítulo sobre a “Consciência Puritana,” em J. I. Packer, Entre
os Gigantes de Deus: Uma Visão Puritana da Vida Cristã (São José dos Campos:
Editora Fiel, 1991), 115-132.

4 Sobre o conceito reformado de inspiração e infalibilidade (inerrância)
das Escrituras, ver L. Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática (Grand
Rapids: The Evangelical Literature League, [1973]), 159-190; A. A. Hodge,
Evangelical Theology: A Course of Popular Lectures (Edinburgh and Pennsylvania:
The Banner of Truth Trust, 1976), 61-83; Loraine Boettner, Studies in Theology
(Phillipsburg and New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company,
1978), 9-49; e J. C. Ryle, Foundations of Faith: Selections From J. C. Ryle’s
Old Paths (South Plainfield, New Jersey: Bridge Publishing, 1987), 1-39.

5 Cf. também Salmo 119.39,
43, 62, 75, 86, 89, 106, 137, 138, 142, 144, 160, 164, 172; Mateus 24.34; João
17.17; Tiago 1.18; Hebreus 4.12 e 1 Pedro 1.23,25.

6 Lloyd-Jones afirma que essas expressões são usadas 3.808 vezes no Antigo
Testamento; e que os que assim se expressavam estavam deixando claro que não
expunham suas próprias idéias ou imaginações. D. Martin
Lloyd-Jones, Authority (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust,
1984), 50.

7 Ver também Atos 28.25 e
Hebreus 4.3, 5.6 e 10.15-16.

8 O termo empregado é gegraptai (gegraptai). O tempo (perfeito) indica uma ação
realizada no passado, cujos resultados permanecem no presente: foi escrito e
permanece válido, falando com autoridade.

9 Outras evidências da autoridade divina das Escrituras são apresentadas por
Lloyd-Jones, Authority, 30-50; e por John A. Witmer, “The Authority of the
Bible,” Bibliotheca Sacra 118:471 (July 1961): 264-27.

10 O Talmud inclui também a Gemara, comentários rabínicos sobre o Mishnah,
escritos entre 200 e 500 AD (C. L. Feinberg, “Talmude e Midrash,” em
J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário da Bíblia, vol. 3 (São Paulo: Edições
Vida Nova, 1979), 1560-61.

11 Conferir também Mt 15.3ss.

12 Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática, 207.

13 Um exemplo bem atual: há
poucos dias atrás, cientistas anunciaram que pesquisas feitas com o DNA dos
fósseis do assim chamado homem de Neanderthal — até então
“inquestionavelmente” considerado um dos antepassados mais recentes
do homem na cadeia evolutiva —, revelam que esses ossos nada têm a ver com a
raça humana. Exemplos como estes repetem-se continuamente, e deveriam
tornar-nos cautelosos em atribuir à ciência autoridade maior do que a da
revelação bíblica.

14 C. Pinnock, citado por Keun-Doo Jung, “A Study of the Authority
with Reference to The Westminster Confession of Faith.” (Tese de Mestrado,
Potchefstroom [South Africa] University for Christian Higher Education, 1981),
45.

15 G. D. Kaufman, ibid., 45.

16 Ensinada no parágrafo V
do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster.

17 Ibid.

18 Outros dados sobre a importância da doutrina reformada da autoridade das
Escrituras em relação à teologia liberal e à neo-ortodoxia podem ser obtidos em
Lloyd-Jones, Authority, 30-61; John A. Witmer, “Biblical Authority in
Contemporary Theology,” Bibliotheca Sacra 118:469 (January 1961), 59-67; e
Kenneth S. Kantzer, “Neo-Orthodoxy and the Inspiration of Scripture,”
Bibliotheca Sacra 116:461 (January 1959), 15-29.

19 Ver G. C. Berkouwer, Studies in Dogmatics: Holy Scripture (Grand
Rapids: Eerdmans, 1975) e Ronald Gleason, “In Memoriam: Dr. Gerrit
Cornelius Berkouwer,” Modern Reformation 5:3 (May/June 1996), 30-32.

20 Alguns eruditos têm
considerado a doutrina reformada tradicional da autoridade das Escrituras
conforme ensinada pelos teólogos de Princeton, tais como Charles Hodge
(1797-1878), Alexander Hodge (1823-1886) e B. B. Warfield (1851-1921), como um
desvio do ensino dos Reformadores e da Confissão de Fé de Westminster.
Ver,
por exemplo, Ernest Sandeen, The Roots of Fundamentalism: British and American
Millenarianism, 1800-1930 (Chicago: University of Chicago Press, 1970).
Alguns, como Jack Rogers e Donald McKim,
The Authority and Interpretation of the Bible: A Historical Approach (San
Francisco: Harper & Row, 1979), chegam a defender que a doutrina reformada
das Escrituras encontra seus legítimos representantes em Abraham Kuyper
(1837-1920) e Herman Bavinck (1854-1921), os quais teriam se antecipado aos
esforços de Karl Barth e G. C. Berkouwer no sentido de restaurar a verdadeira
tradição reformada. Outros, entretanto, têm demonstrado que estas teses não
procedem, visto que os teólogos de Princeton estão em substancial harmonia com
outros que os antecederam, e com Kuyper e Bavinck.
Ver Randall H.
Balmer, “The Princetonians and Scripture: A Reconsideration,”
Westminster Theological Journal 44:2 (1982): 352-365; e Richard B. Gaffin, Jr.,
“Old Amsterdam and Inerrancy?,” Westminster Theological Journal 44:2
(1982), 250-289; 45:2 (1983): 219-272.

21 Uma demonstração da
posição reformada e protestante histórica da inerrância das Escrituras em
português pode ser encontrada em John H. Gerstner, “A Doutrina da Igreja
sobre a Inspiração Bíblica,” em James Montgomery Boice, ed., O Alicerce da
Autoridade Bíblica, 2a ed. (São Paulo: Vida Nova, 1989), 25-68.

22 Herman Ridderbos, Studies in Scripture and its Authority (Grand
Rapids: Eerdmans, 1978), 24.

Parte XIII
A GUARDA DE
SÁBADO
 Pretendemos
dissertar a respeito do sábado judaico. Por que sábado judaico? Porque se trata
de uma ordenança cumprida pelos judeus, mas propriamente pelos judaizantes,
cuja crença está baseada no Antigo Testamento. Os adventistas também são
pró-sabáticos. A guarda do sábado, que foi um sinal para o povo da Antiga
Aliança, é obrigatória aos que estão sob a égide da Nova Aliança? Quem guarda o
domingo está em pecado e não será salvo? O cumprimento da ordenança sobre o
sétimo dia garante a salvação? Tentarei responder a estas e a outras perguntas.

A Igreja de Cristo, desde o início, principalmente pelo Apóstolo Paulo, sempre
dispensou estreita atenção às heresias, chamadas por Pedro de “heresias de
perdição” (2 Pe 2.1), por tratar-se de ensinos contrários às doutrinas
bíblicas.

A Igreja, como fazem as sentinelas, deve manter-se em constante vigilância para
denunciar a aproximação ou o surgimento de elementos estranhos ao Evangelho. É
seu dever combater as heresias: “Retendo firme a fiel palavra, que é
conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã
doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tt 1.9).

Sábado, grego sabbaton, hebraico shãbath, tem em sua raiz o significado de
cessação de atividade. Segundo o Dicionário VINE, “a idéia não é de
relaxamento ou repouso, mas cessação de atividade”. A conotação com o
descanso físico vem pelo fato de que a suspensão dos trabalhos proporciona
descanso, e porque Deus destinou o sétimo dia não só para repouso e memorial do
término de sua criação, mas como dia de culto, adoração e comunhão com Ele (Ex
16.27; 31.12-17).

A primeira referência bíblica sobre o sétimo dia está em Gênesis 2.2-3 que fala
do descanso de Deus no shãbath. O “descanso” de Deus não quer dizer
que Ele ficou cansado, mas que suspendeu sua atividade criadora. O princípio da
criação do shãbath é destinar um dia ao repouso e ao exclusivo culto ao Senhor:
“Seis dias trabalharás, mas o sétimo dia será o sábado do descanso solene,
santo ao Senhor” (Êx 31.15).

Deus incluiu o sábado nos Dez Mandamentos, lembrando que “em seis dias fez
o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia
descansou” (Êx 20.8-11). O castigo para quem violasse o sábado era a morte
(Ex 31.12-17). Portanto, o castigo está associado à guarda do sábado. Para que
haja coerência de procedimentos, quem guarda o sábado deveria, no caso de
violação, aceitar o castigo correspondente. A guarda desse dia e o castigo pela
desobediência são ordenanças de Deus e fazem parte da Antiga Aliança.

O sábado era um sinal, como o foi a circuncisão, entre Deus e os filhos de
Israel, assim como o arco era um sinal do pacto com Noé. Vejam a similitude que
há nessas ordenanças: Arco: “Este é o sinal da aliança que ponho entre mim
e vós, e entre toda a alma vivente, que está convosco, por gerações
eternas…será por sinal entre mim e a terra” (Gn 9.12-13). Circuncisão:
“Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua
descendência depois de ti… e circundareis a carne do vosso prepúcio, e isto
será por sinal da aliança entre mim e vós. E o homem incircunciso…será
extirpado do seu povo” (Gn 17.10,11,13). Sábado: “Tu, pois, fala aos
filhos de |Israel, dizendo: Certamente guardareis meus sábados, porquanto isso
é um sinal entre mim e vós nas vossas gerações, para que saibais que eu sou o
Senhor, que vos santifica. Portanto, guardareis o sábado…aquele que o
profanar, certamente morrerá” (Êx 31.13-14). A instituição do sábado está
associada à lembrança da libertação da escravidão egípcia (Dt 5.15; Ez
20.10-20).

Tais leis foram sombras das coisas futuras. Embora estabelecidas como estatuto
perpétuo, como também a páscoa, a queima de incenso, o sacerdócio levítico e
ofertas de paz, vigoraram até o estabelecimento do novo pacto em Cristo Jesus.
Vejamos:

“E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa
carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas”
(Cl 2.13).

O homem não pôde, pela lei, livrar-se da morte do pecado. Ninguém, até hoje,
conseguiu cumprir fielmente toda a vontade de Deus expressa na lei. Cristo veio
para nos livrar das penalidades da lei, visto que estamos não debaixo da lei,
mas debaixo da graça (Rm 6.14).

“Havendo riscado a cédula que era de alguma maneira contra nós nas suas
ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, a tirou do meio de nós,
cravando-a na cruz” (Cl 2.14).

O “ministério da morte”, como é chamada a lei mosaica (2 Co 3.7), não
deu vida ao homem; apenas revelava o seu estado pecaminoso “Logo, para que
é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade
a quem a promessa tinha sido feita. Porque, se fosse dada uma lei que pudesse
vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei. Mas a Escritura encerrou
tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada
aos crentes. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e
encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que a lei nos
serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos
justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo da lei. Porque
todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3.19-26).

A lei de Moisés serviu para nos conduzir a Cristo. As palavras do Apóstolo,
como acima, falam por si sem necessitar muitos esclarecimentos. A lei foi um
estágio necessário, como necessários são os primeiros degraus de uma escada
pelos quais alcançamos o ponto mais elevado. Ao morrermos com Cristo, morremos
para a lei. A lei não alcança os mortos. “Agora estamos livres da lei,
pois morremos para aquilo em que estávamos retidos, a fim de servirmos em
novidade de espírito, e não na velhice da lei” (Rm 7.1,4,6). Por isso,
Jesus cravou na cruz as ordenanças que de certo modo eram contra nós. Agora
vivemos não segundo o ministério da condenação, mas segundo o do Espírito.
“Se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória
o ministério da justiça”. O Apóstolo diz que as antigas ordenanças eram
transitórias, e foram abolidas por Cristo (2 Co 3.7-14). Os crentes da
atualidade não são guiados pela lei, mas pelo Espírito.

“Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos
dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas
futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2.16-17). A guarda do sábado
semanal, sombra do que viria, apontava para Cristo. Se a instituição do sábado
nos fazia lembrar da saída do Egito, nossa atenção agora está centralizada na
libertação que há em Jesus. Os “sábados” de Colossenses 2.16 não são
sábados festivos; são sábados semanais, sem dúvida. Os festivos estão inclusos
em “dias de festa”. Em Ezequiel 20.12 e 44.24 também encontramos
“meus sábados” referindo-se aos sábados semanais. De igual modo,
Êxodo 31.13 alude aos “meus sábados”, numa referência ao sétimo dia
de descanso e culto. Então, a guarda do sábado foi uma “sombra das coisas
futuras”, mas a realidade está em Cristo. De acordo com isso está o
teólogo adventista Samuele Bacchiocci, que afirmou:

“O consenso unânime de comentaristas é que essas três expressões
[“dias de festa”, “lua nova” e “sábados”]
representam uma lógica e progressiva seqüência (anual, mensal e semanal). Este
ponto de vista é válido pela ocorrência desses termos…Um outro significativo
argumento contra os sábados cerimoniais é o fato de que estes já estão
incluídos nas palavras dias de festa (ou festividades – no original)… esta
indicação positivamente mostra que a palavra SABATON como é usada em Cl 2.16
não pode referir-se aos sábados cerimoniais anuais (From Sabbath Sunday – Do
Sábado para o Domingo – Samuele Bacchiocci, 1977, p. 359-360. Fonte: Bíblia
Apologética).

Leiam a seguinte promessa: “E farei cessar todo o seu gozo, as suas
festas, as suas luas novas, e os seus sábados, e todas as suas festividades”
(Os 2.11; cf. Cl 2.14,16). Vamos ver o que mais a Nova Aliança diz a respeito
da anterior:

“O mandamento anterior é anulado por causa da sua fraqueza e inutilidade.
Pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma, e desta sorte é introduzida uma
melhor esperança, pela qual chegamos a Deus” (Hb 7.18-19). Só chegaremos a
Deus pela aceitação dos termos da Nova Aliança, isto é, pela graça, mediante a
fé em Jesus (Jo 3.15-18; Rm 10.9; Ef 2.8-9). A salvação do ladrão na cruz é
exemplo. Foi salvo não pelo cumprimento da lei, mas por graça e fé (Lc 23.46).

O Novo Testamento diz que Cristo “alcançou ministério tanto mais
excelente, quanto é mediador de um melhor concerto que está confirmado em
melhores promessas. Porque, se aquela primeira fora irrepreensível, nunca se
teria buscado lugar para a segunda. Dizendo Nova Aliança, envelheceu a
primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de
acabar” (Hb 8.6,7,13).

Mas, se a lei foi abolida em Cristo, então podemos matar, cometer adultério,
desobedecer a nossos pais? A resposta precisa ser encontrada no Novo Concerto,
que ratificou os Dez Mandamentos, exceto a guarda do sábado. Em nenhuma parte
do Novo Testamento encontraremos a ordem para reservar o sétimo dia. Vejamos o
Decálogo e a correspondente instrução na Nova Aliança: “Não terás outros
deuses diante de mim” (At 14.15); “não farás para ti imagem de
escultura” (1 Ts 1.9; 1 Jo 5.21); “não tomarás o nome do Senhor teu
Deus em vão” (Tg 5.12); “Lembra-te do dia do sábado para o
santificar” (não mencionado no NT); “honra teu pai e a tua mãe”
(Ef 6.1); “não matarás” , “não adulterarás”, “não
furtarás”, “não cobiçarás” (Rm 13.9); “não dirás falso
testemunho” (Cl 3.9).

Quanto ao mandamento de não fazer imagem de escultura, sabatistas por vezes
alegam não haver mandamento correspondente e explícito no Novo Testamento,
porquanto, dizem, a palavra “ídolo” (1 Jo 5.21) não significa imagem
de escultura. Quanto a isso, observem o que diz o conceituado Dicionário VINE: “Ídolo
(eidolon), primariamente “fantasma” ou “semelhança”
(derivado de eidos, “aparência”, literalmente, “aquilo que é
visto”), ou “idéia, imaginação”, denota no Novo Testamento; (a)
“ídolo”, imagem que representa um falso deus (At 7.41; 1 Co 12.2; Ap
9.20); (b) “o falso deus” adorado numa imagem (At 15.20; Rm 2.22; 1
Co 8.4,7; 10.19; 2 Co 6.16; 1 Ts 1.9; 1 Jo 5.21)”.

Cabe salientar que prevalecem os princípios éticos e morais do Antigo
Testamento, ratificados e, em alguns casos, aperfeiçoados no Novo Concerto.
“Cada um desses princípios contidos nos Dez Mandamentos é restabelecido
num outro contexto no Novo Testamento, exceto, é claro, o mandamento para
descansar e cultuar no sábado”. Jesus não fazia distinção entre leis
morais e leis cerimoniais. É possível fazer-se esta divisão para melhor compreensão,
mas ela não está definida na Bíblia. Ele afirmou que não veio anular a lei, mas
cumpri-la (Mt 5.17). Em seguida, cita o sexto mandamento, “não
matarás” (v.21); o sétimo, “não adulterarás” (v.27); o nono,
“não dirás falso testemunho” (v.33); cita Levítico 24.20 “olho
por olho, dente por dente”; cita Levítico 19.18 sobre o “amor ao
próximo”. Logo, a “lei” a que se referiu Jesus não diz respeito
somente aos Dez Mandamentos, mas abrange o Pentateuco. “A lei é termo
comum entre os judeus para a primeira das três divisões das Escrituras
hebraicas, isto é, os cinco livros do Pentateuco.

Jesus cumpriu cabalmente a lei, em Sua vida, pela observação constante de seus
preceitos; em Seus ensinos, pela pregação da ética do amor que cumpre a lei (Rm
13.10) e em Sua morte, pela satisfação de suas exigências” (O Novo
Comentário da Bíblia – Vol. II, Edições vida Nova, 1990, p. 953). Porque em sua
vida cumpria a lei, era costume de Jesus participar dos cultos, aos sábados,
nas sinagogas de sua cidade natal (Lc 4.16). Após a cruz, “pela lei
ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Cristo
nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós” (Gl
3.11,13).

Se alguém deseja guardar o sábado, que o faça segundo prescreve o Antigo
Testamento, assim: não ferver ou assar comida (Êx 16.23); não sair de casa
nesse dia (Êx 16.29); não acender fogo (Êx 35.3); não viajar (Ne 10.31); não
carregar peso (Jr 17.21); não exercer o comércio (Am 8.5). A violação de tais
preceitos torna o infrator sujeito à maldição da lei e à pena de morte (Êx
31.15; Dt 27.11-28; Gl 5.1-5; Tg 1.23; 2.10).

Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada, porque pela lei vem o
conhecimento do pecado. Ela revela o pecado e condena o homem. Em Cristo, se
manifestou a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo. Foi impossível ao homem
cumprir totalmente os itens da lei, sem qualquer fracasso, pois “maldito
todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro
da lei, para fazê-las”. Cristo, com sua morte expiatória, fez-se maldição
em nosso lugar (Gl 3.10-13). Por isso, a Bíblia diz que todos pecaram (Rm
3.20-23). No antigo concerto, a salvação tinha por base a fé expressa pela
obediência à lei de Deus e ao sistema sacrificial.

Mas um novo concerto ou novo testamento, com melhores promessas, foi levado a
efeito por Jesus Cristo mediante sua morte e ressurreição (Jr 31.31-34).

Os adventistas, regra geral, são sabatistas, mas parece não haver um consenso.
Entre 1955 e 1956, o dr. Walter Martin, apologista da fé cristã, entrevistou
250 conceituadíssimos líderes adventistas. O resultado dessas entrevistas foi
publicado no livro “Adventistas do Sétimo Dia Respondem Perguntas sobre
Doutrina”, de 720 páginas. Esses destacados líderes concluíram o seguinte:
1) Sabatismo: A guarda do sábado não propicia salvação. O cristão que observa o
domingo não está em pecado. Não é cúmplice do papado. 2) Ellen G. White: Os
escritos de Ellen White [profetiza do adventismo] não devem ser colocados em pé
de igualdade com a Bíblia. 3) Santíssimo: Cristo entrou no Lugar Santíssimo por
ocasião de sua ascenção, e não em 22 de outubro de 1844. Assim, as doutrinas do
santuário celestial ser purificado e do juízo investigativo não tinham base
bíblica.

Em decorrência dessa posição, “houve sérias controvérsias no seio da
Igreja Adventista do Sétimo Dia, dando origem a dois movimentos: o tradicional
e o evangélico. O primeiro recusava-se a abrir mão das posições acima, pois
aceitá-las comprometeria a exclusividade da IASD como o ´remanescente´, a única
e verdadeira igreja de Cristo. O segundo advogava os conceitos expressos no
Questions on doctrine. Estes não queriam deixar a IASD, apenas queriam uma
reforma nas questões teológicas nada ortodoxas. Conclui-se que o Adventismo com
o qual o Dr. Walter Martin dialogou e aceitou como cristão não é mais o mesmo
que presenciamos aqui no Brasil, pois rompeu com tudo aquilo abordado no
Questions on doctrine. Entretanto, não se pode negar que há dentro da IASD
aqueles que almejam o retorno às formulações esboçadas e defendidas no referido
livro” (Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo – George A. Mather,
Vida, 2.000, p. 194).

Os apóstolos elegeram o primeiro dia da semana como o dia do Senhor: “No
primeiro dia da semana, reunindo-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que
havia de sair no dia seguinte, falava com eles, e prolongou o seu discurso até
à meia noite (At 20.7; v. 1 Co 16.2). Aqui vemos o registro da celebração da
Ceia do Senhor num domingo, um dia de culto. O Apóstolo João revela que foi
“arrebatado em espírito no dia do Senhor” (Ap 1.10), referindo-se ao
domingo, dia da ressurreição de Jesus (Lc 24.1) e do seu aparecimento aos
discípulos (Jo 20.19; Lc 24.13,33,36).

A vontade de Deus é que aceitemos e vivamos segundo os termos do novo concerto.
As provisões necessárias à nossa salvação não estão na antiga aliança, nem na
obediência às suas leis e ao seu sistema de sacrifícios. A lei funcionou como
tutor do povo até que viesse a salvação pela fé em Cristo. Desprezar a lei?
Não. O Novo Testamento cuidou de revitalizar os princípios éticos e morais da
lei, modificando uns, confirmando letra por letra outros, excluindo muitos. A
salvação na nova aliança está consolidada na morte expiatória de Cristo, na sua
ressurreição gloriosa e no privilégio de, pela fé, pertencermos a Ele.

Quase toda a instrução dos capítulos 3, 4 e 5 de Gálatas aborda a questão da
lei e do evangelho, donde se conclui que: 1) A lei foi ordenada por causa das
transgressões, ATÉ que viesse a posteridade (3.19). 2) A lei não pôde comunicar
vida; por isso, a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a
promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. 3) A lei serviu para
nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados, não pela fé na
obediência à lei. 4) Depois que a fé veio, já não estamos debaixo da lei, mas
da graça (3.25).

5) Cristo veio para libertar os que estavam debaixo da lei. Não somos mais
meninos necessitados de tutores, reduzidos à escravidão. Agora somos filhos de
Deus (4.1-7). 6) Não mais estamos sujeitos a guardar dias, meses e anos,
rudimentos fracos e pobres aos quais alguns querem continuar servindo (4.9-10).
7) Somos filhos não da escrava Agar, que simboliza o velho concerto. Somos
filhos da promessa, como Isaque. Lancemos fora a escrava e seu filho, porque,
“de modo algum, o filho da escrava herdará com o filho da livre”
(4.21-31). 8) Não devemos retornar ao jugo da servidão, pois Cristo nos
libertou (5.1). 9) Os que buscam justificação na lei, separados estão de Cristo
(5.4).
(08.01.2004)

Parte XIV
DESVIOS
DOUTRINÁRIOS DA CONFISSÃO POSITIVA
 Os
seguidores das doutrinas da Confissão Positiva dizem que não devemos submeter
nossos pedidos à vontade de Deus. Não questiono a qualidade do caráter das
pessoas mencionadas neste trabalho. Questiono a qualidade de seus ensinos,
comparados com a Bíblia Sagrada. Vejamos:

“Usar a frase `se for a Tua vontade´ em oração pode parecer espiritual, e
demonstrar atitude piedosa de quem é submisso à vontade do Senhor, mas além de
não adiantar nada, destrói a própria oração” (R.R.Soares, livro O Direito de
Desfrutar Saúde, p. 11, citado por Paulo Romeiro, Supercrentes, p.37).

Essa infeliz declaração é cópia fiel do que disse Benny Hinn, como está
registrado mais adiante. Ora, submeter-se à vontade de Deus é bíblico, não
anula nossas orações e é uma atitude espiritual. Se anulasse, a oração-modelo
do Pai Nosso, ensinada por Jesus, para nada serviria; Jesus não teria sido um
bom Mestre; milhões de orações nesses últimos dois mil anos foram ineficazes;
nenhum crente em dois mil anos teria recebido qualquer bênção divina. Deus não
respondeu a nenhuma delas? Logo de início vê-se o absurdo de tal declaração.
Devemos confiar em quem? “Maldito o homem que confia no homem. Bendito o homem
que confia no Senhor, e cuja esperança é o Senhor” (Jr 17.5,7). O cristão nunca
deve esquecer o exemplo dos bereanos, que examinavam nas Escrituras se as
coisas que Paulo e Silas ensinavam estavam corretas (At 17.10-12).

“Jesus me apareceu e disse que se alguém, em qualquer lugar, quiser tomar esses
quatro passos ou pôr em operação esses quatro princípios, sempre receberá o que
quiser de mim ou da parte de Deus Pai: Passo 1 – Diga a coisa: positiva ou
negativamente, tudo depende do indivíduo.

Passo 2 – Faça a coisa: Os atos derrotam-no ou lhe dão vitória. Passo 3 –
Receba a coisa: Compete a nós a conexão com o dínamo do céu. Passo 4 – Conte a
coisa: Contar para que outros também possam crer” (Kenneth Hagin, Como
Registrar Seu Próprio Bilhete com Deus, p.5, citado por Hank Hanegraaaff, em
Cristianismo em Crise, p. 81). Referindo-se a João 14.14, Hagin ensina que “a
palavra `pedir´ também significa `exigir´: `E tudo quanto exigirdes em Meu
nome, isso [Eu, Jesus] farei”.

“Nunca jamais, em tempo algum vão ao Senhor e digam: `Se for da tua vontade…´
Não permitam que essas palavras destruidoras da fé saiam da boca de vocês.
Quando vocês oram `se for da tua vontade, Senhor´ a fé é destruída. A dúvida
espumará e inundará todo o seu ser. Resguardem-se de palavras como essas, que
lhes roubarão a fé e os puxarão para baixo, ao desespero” (Benny Hinn,
Levante-se e Seja Curado, ibid, p.295). Frederic Price, outro arauto da
Confissão Positiva, segue no mesmo diapasão: “Se você tem de dizer: `Se for da
tua vontade´ ou `Que se faça a tua vontade´, então você está chamando Deus de
idiota. É deveras estupidez orar para que a vontade de Deus seja feita. Isto é
uma farsa, um insulto à inteligência de Deus”.

“Sereis semelhantes a Deus”

É este um dos itens fundamentais da doutrina desses mestres da fé: o homem deve
exigir seus direitos e não se submeter à vontade de Deus. Essa aberração
teológica rebaixa o Criador, que fica à mercê das vontades e caprichos humanos,
e exalta o homem, colocando-o em condições de igualdade com Cristo. Eles falam
e ensinam o que o Senhor não mandou falar nem ensinar. Apresentam um
cristianismo particular, muitas vezes fruto de experiências particulares, de
visões e aparições.

“O homem foi criado em termos de igualdade com Deus… O crente é chamado de
Cristo… Eis quem somos: somos Cristo… Você é tanto uma encarnação de Deus
quanto Jesus Cristo o foi”. O Senhor fez o homem como o Seu substituto aqui na
terra… O homem era Senhor… vivia em termos de igualdade com o Criador.
Muitos não sabem ainda que são filhos e filhas de Deus tanto quanto o próprio
Jesus… Nem o próprio Senhor Jesus tem uma posição melhor diante de Deus do
que você e eu temos” (Kenneth Hagin, citado por Hank Hanegraaaff, Cristianismo
em Crise, p. 116/7).

Essas palavras são um testemunho de que não podemos confiar na doutrina da
Confissão Positiva. Afirmar em alto e bom som que o Príncipe da Paz tem posição
inferior ao homem diante do Pai soa como uma blasfêmia contra o Filho Unigênito
de Deus, o Verbo encarnado, o “Alfa e Ômega, o primeiro e o último, o princípio
e o fim”. Observem que Hagin rebaixa Jesus a uma condição de desigualdade com o
Pai, ao mesmo tempo em que promove a deificação do homem. Essa doutrina é a da
serpente (Gn 3.5).

“A razão para Deus criar Adão foi seu desejo de reproduzir a si mesmo. Adão não
era um deus pequenino. Não era um semideus. Nem ao menos estava subordinado a
Deus” (Kenneth Copeland).
“Deus está duplicando a si próprio na Terra” (John Avanzini). “Vocês sabiam que
desde o começo do tempo o propósito inteiro de Deus era reproduzir-se?… e
quando estamos aqui de pé, vocês não estão olhando para Morris Cerullo; vocês
estão olhando para Deus, estão olhando para Jesus” (Morris Cerullo). “Deus
duplicou a si mesmo em espécie. Adão foi uma exata duplicata do tipo de Deus”
(Charles Capps). “Jesus foi recriado nas portas do inferno” (Valnice
Milhomens).

Notaram a tentativa de colocar o homem em condições de igualdade com Deus?
Notaram como os componentes da orquestra da Confissão Positiva estão afinados?
Essa orquestra está sob a batuta de quem? De Deus? Estão afirmando que o homem
é uma clonagem do Criador. São esses os mestres que estão ensinando
diariamente, pela televisão e por livros, a milhões de desavisados irmãos,
ávidos por novidades e declarações chocantes. Eles estão repetindo a fórmula
mágica apresentada pelo diabo a Eva, no Éden: “Sereis como Deus” (Gn 3.5).

Loucos por dinheiro

Entre Hagin, Hinn, Copeland, Jorge Tadeu, Robert Tilton, Morris Cerullo,
Charles Capps e outros, parece haver uma disputa para ver quem cria mais
desvios doutrinários. Qual a razão de tanto empenho? Amor pelas almas perdidas
ou amor ao dinheiro? A resposta vem de um dos componentes da orquestra, que
desta vez saiu do tom. Leiam:
“Eu estava muito influenciado por Kenneth Hagin e Kenneth Copeland. Nenhum
deles fala de salvação. Só de fé. A mensagem da fé é vazia sem o Espírito. A
própria palavra [prosperidade] foi distorcida e tornou-se de importância
fundamental no ministério. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. É quase como ir a um
cassino jogar” (Benny Hinn, citado por Paulo Romeiro, em Evangélicos em Crise,
p.43-44). Hinn reconhece os erros doutrinários da Confissão Positiva, mas,
parece, não consegue livrar-se das “concupiscências loucas e nocivas” que arrastam
os homens à “ruína e perdição”, por causa do desejo ardente de ficarem ricos (1
Tm 6.9). Leiam o que ele declarou: “Anos atrás costumavam pregar: Ó, nós
andaremos por ruas de ouro. Hoje eu digo: Não preciso de ouro lá em cima. Quero
o ouro aqui embaixo”.

Benny Hinn tem razão. O cristianismo não é um cassino, em que quem arriscar
mais, tem chance de levar mais. Se até agora nada deu certo; se não choveram
dólares sobre você, é hora de arriscar tudo, numa última cartada. Entregue aos
mestres a sua bolsa, seu salário, seus bens. Sabendo disso, o próprio Hinn
ensinou: “Você quer prosperar? O dinheiro vai cair sobre você da esquerda, da
direita e do centro. Deus começará a fazê-lo prosperar, pois o dinheiro sempre
se segue à retidão… Diga comigo: Tudo que eu possa desejar já está em mim”.
Alguém tem dúvida de que no Brasil as igrejas filiadas ao ministério dos
Kenneth`s tocam a mesma música? Outra de Hinn: “O dinheiro sempre se segue à
retidão” Traduzindo, significa que a pessoa justa, correta, honesta terá muito
dinheiro. E o pobre? Não tem dinheiro porque não leva uma vida de retidão? É
possível que o vil metal esteja provocando distúrbios mentais em muita gente.

Se Deus quiser

Conforme ensina a Confissão Positiva, submeter-se à vontade de Deus anula a
oração; dizer “seja feita a tua vontade” é ser estúpido e chamar Deus de
idiota. A estupidez e idiotice estão em quem ensina heresias. O “Jesus” que
apareceu a Hagin e ensinou os passos decisivos para conseguir tudo o que
desejar entrou em contradição com o Jesus da Bíblia. Na oração-modelo do Pai
Nosso, Ele nos ensinou a pedir, e não exigir de Deus, e que em tudo “seja feita
a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10); ensinou que devemos
sempre fazer a vontade do Pai (Mt 7.21; 12.50); Ele mesmo dava o exemplo (Jo
4.34; 5.30; 6.38,39). Até no momento de maior dor, na última noite em que
passou com os apóstolos, Jesus foi submisso à vontade do Pai: “Pai, se queres,
passa de mim este cálice, todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42).

Os mestres da prosperidade ensinam o oposto. Dizem que a nossa vontade é que
deve prevalecer. Os apóstolos, que tinham o ensino de Jesus no coração, não
pensavam do mesmo modo. Diante da recusa de Paulo em cancelar sua viagem para
Jerusalém, eles se renderam aos fatos e disseram: “Faça-se a vontade do Senhor”
(At 18.21; 21.14; cf. Sl 40.8; 143.10; Rm 1.10; 15.32; 1 Co 4.19; Hb 10.7; 1 Pe
2.15; 3.17; 4.2,19; 1 Jo 2.17).

A expressão `se Deus quiser` não entra no vocabulário dos mestres da
prosperidade. A doutrina deles aponta para “eu digo, eu faço, eu recebo”. É o
mesmo que dizer: Eu posso, eu mando, eu sou Senhor de mim mesmo. Isto é
egolatria. A exemplo de `se for da tua vontade`, dizer `se Deus quiser´ é
chamar Deus de idiota. Deveriam editar uma Bíblia particular, com
interpretações próprias, ajustadas aos seus ensinos, como fizeram os
testemunhas-de-jeová. Vejam o que diz a Palavra:

“Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará. Vós que dizeis: Hoje ou
amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos.
Ora, não sabeis o que acontecerá amanhã… Em lugar disso, devíeis dizer: Se o
Senhor quiser [ou se for da Sua vontade], viveremos e faremos isto ou aquilo.
Vós vos jactais das vossas presunções. Ora, toda jactância tal como esta é
maligna” (Tg 4.10,13-16).

É indiscutível o desencontro entre a Palavra de Deus e a doutrina da Confissão
Positiva. Há declarações que chegam a ser uma blasfêmia: “Acredito que a oração
do Pai Nosso não é para os crentes hoje em dia” (Frederic Price). Ora, o crente
é que deve adaptar-se à vontade de Deus expressa na Bíblia, e não o contrário.
Pelo visto, os fiéis da Confissão Positiva rejeitam por completo a oração
ensinada por Jesus, porque nela os cristãos se colocam à mercê da soberana vontade
do Senhor.

Pedir ou exigir?

Com relação à substituição do “pedir” pelo “exigir”, vejam
o seguinte. Pedir, do grego aiteõ, sugere a atitude de um suplicante que se
encontra em posição inferior àquele a quem pede.
É esse o verbo usado em João 14.13 – “E tudo quanto pedirdes em meu nome…” –
e 14.14 – “Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei”. “Pedir”, do grego
erõtaõ, indica com mais freqüência que o suplicante está em pé de igualdade ou
familiaridade com a pessoa a quem ele pede, como, por exemplo, um rei fazendo
pedido a outro rei. “Sob este aspecto, é significativo destacar que o Senhor
Jesus nunca usou o verbo aiteõ na questão de fazer um pedido ao Pai”, por ter
dignidade igual Àquele a quem pedia. (Jo 14.16; 17.9,15,20 – Fonte: Dic. VINE).
Como a Confissão Positiva diviniza o homem, colocando-o no mesmo nível de Deus,
não há porque pedir, mas exigir. Alguns falam em “reivindicar direitos”, da
mesma forma como fazemos nos requerimentos endereçados às autoridades
constituídas.

A Soberania de Deus

Um dos textos usados pelos mestres da Confissão Positiva é o seguinte: “E tudo
o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis” (Mt 21.22; cf. Mc 11.24; Jo
14.13; 15.7; 1 Jo 5.15). Alegam que, pela Palavra, Deus obriga-se a nos
atender. Daí concluem que não precisamos pedir, mas exigir o direito a que
fazemos jus. Dizem, também, que, em razão disso, é ocioso dizer `se Deus
quiser´ ou `que seja feita a Sua vontade´. Esses desvios não são os únicos da
Confissão Positiva.
Se a palavra acima funcionasse automaticamente, isto é, se de forma literal
Jesus nos desse qualquer coisa que lhe pedíssemos com fé, nosso destino e
nossas lutas estariam sob nosso próprio controle, o que seria desastroso, pois
somos incapazes de conhecer o que nos aguarda o futuro e o que é melhor para
nossa vida. Todavia, nosso “Pai sabe do que necessitais, antes de lho pedirdes”
(Mt 6.8; cf. Ef 3.20). Ele nos dará o que for melhor, e nem sempre pedimos o
que é melhor. Deus poderá responder SIM ou NÃO, visto que Ele é soberano para
fazer somente o que lhe apraz. Paulo orou com fé para que Deus o livrasse de um
espinho na carne, e Deus não o atendeu (2 Co 12.8-9). Ele também estava
capacitado por Deus para curar enfermos (Mc 16.18; At 28.9)), mas não pôde
curar Epafrodito (Fp 2.25-27) nem Trófimo (2 Tm 4.20) nem Timóteo (1 Tm 5.23).

A interpretação de Mateus 21.22 não pode ser literal porque Deus não pode nos
dar qualquer coisa. Por exemplo, Deus não perdoa nossos pecados sem que
tenhamos perdoado as ofensas recebidas, ainda que Lho peçamos com fé (Mc
11.23-26). Deus não me atendeu quando lhe pedi, em lágrimas e profunda dor,
durante sete meses, que curasse a minha mulher. Também lhe pedi que tirasse a
minha vida, mas a deixasse viver, mas não fui atendido. Minhas petições foram negadas.
Os planos de Deus excediam a minha capacidade de compreensão.

Deus também não cura todas as pessoas, pelas quais oramos com fé. O mais certo
é seguirmos o exemplo de Jesus: “Não seja, porém, o que eu quero, e, sim, o que
tu queres” (Mc 14.36); e o de Paulo: “Se Deus quiser, outra vez voltarei a vós”
(At 18.21; 1 Co 4.19); “A fim de que, pela vontade de Deus, chegue a vós…”
(Rm 15.32). Deus tem razão em cem por cento das vezes em que Ele nos responde
com um não. Depois de um certo tempo é que vamos entender que foi melhor assim.

A soberania de Deus, absoluta e universal, decorre de seus atributos
incomunicáveis (onipotência, onisciência, onipresença, infinitude e
imutabilidade). Deus é supremo sobre todas as coisas, em governo e autoridade.
Ele faz o que quer com o que é seu (Mt 20.15) e se compadece de quem quer se
compadecer, e terá misericórdia de quem quiser ter misericórdia. “Ou não tem o
oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e
outro para desonra?” (Rm 9.15,16,18,21). Não se pode pôr limites à sua
autoridade. “Deus não é menos soberano na distribuição de seus favores. A
alguns dá riquezas, a outros, honra; a outros, saúde; enquanto outros são
pobres, ignorados ou vitimados pela enfermidade. A alguns, ele envia a luz do
evangelho; a outros, ele deixa nas trevas. Alguns, pela fé, são conduzidos à
salvação; outros perecem na incredulidade. À pergunta “Por que isso é assim?”,
a única resposta é aquela dada por nosso Senhor: “Assim foi do teu agrado, ó
Pai” – Mt 11.26” (Teologia Sistemática Strong).

Por isso, devemos sempre dizer: seja feita a tua vontade, porquanto é o Senhor
que “esquadrinha o coração, e provo a mente, e isto para dar a cada um segundo
os seus caminhos, e segundo o fruto das suas ações” (Jr 17.10). O salmista
aconselha: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e ele tudo fará” (Sl
37.5). Jó, um herói da fé, declarou: “Ainda que ele me mate, nele esperarei”
(Jó 13.15).

Parte XV
INDUGÊNCIA
É um conceito
católico usado para referir-se à remissão das penas devidas ao pecado, mediante
determinados atos de devoção e piedade. Tem dois tipos de indulgência:
1. plenária quando abrange a totalidade das penas temporais
2. parcial quando perdoa somente uma parte das penas.
A indulgência pode-se também aplicar em benefício de outras pessoas, nas
devidas condições.
A doutrina sobre as indulgências foi exposta na Constituição Apostólica de
Paulo VI Indulgentiarum Doctrina, de 12 de janeiro de 1967, onde também se
incluíam algumas normas que reformavam o disposto no Código a esse respeito.
Posteriormente, por Decreto da Sagrada Penitenciaria Apostólica, de 29 de junho
de 1968, aprovado especificamente pelo mesmo Papa, foi promulgado o novo
Enchiridion Indulgentiarum, onde se reformava totalmente a disciplina das
indulgências, recolhendo inclusive as normas contidas na citada Constituição
Apostólica. 0 novo Código reproduz, quase literalmente algumas das Normas que
se encontram no Enchiridion, remetendo, para maiores especificações a essa
legislação especial.
Para ganhar indulgência requer-se:
1) perdão dos pecados cometidos e estado de graça. Por isto a Igreja inclui a
Confissão sacramental entre os requisitos necessários para lucrar indulgência;
2) realização da obra prescrita (visita a uma igreja, orações, mortificações)
com todo o desapego do pecado e o máximo amor a Deus de que a pessoa seja
capaz; o cristão deve achar-se em estado de graça ao realizar tal obra;
3) Comunhão Eucarística. Esta e a Confissão sacramental podem ser efetuadas
alguns dias antes ou depois da realização da obra indicada,
4) orações pelas intenções do S. Padre (pode ser um Pai Nosso ou uma Ave
Maria). O instituto das indulgências assim concebido está longe de ser algo de
mecânico ou mágico, mas é um estímulo poderoso para afervorar a vida dos
cristãos. Paulo VI quis que, de modo geral, o trabalho, o serviço ao próximo e
o sofrimento aceito ou praticado em união com Cristo sejam indulgenciados. Há
nisto um incentivo a que os fiéis façam e sofram tudo com o máximo amor a Deus e
desapego do pecado.
Foi contra o sistema de indulgencias defendido e praticado pela Igreja Católica
na Idade Média que os Reformadores se levantaram, especialmente Martinho
Lutero. Mais recentemente, apesar de católicos e luteranos terem firmado um
acordo sobre a justificação pela fé, a Igreja Católica publicou um novo Manual
de Indulgências, que continua na mesma linha do ensino católico.
Parte 15
O TITANIC E
A PREDESTINAÇÃO
Autor(a): PR.
AIRTON EVANGELISTA DA COSTA
E-Mail:
aicosta@secrel.com.br – www.palavradaverdade.com
Homens de todas
as tribos sempre gostaram de construir colossos, prédios, pontes, torres,
arranha-céus, monumentos cada vez maiores. Sejam quais forem os objetivos,
essas construções representam sinais exteriores de riqueza e poder, produto do
orgulho e da vaidade. A primeira materialização desse desejo nato ocorreu com a
construção da Torre de Babel, com o que pretendiam chegar aos céus. Deus não
permitiu essa afronta.

Torre de Babel

“E disseram [os descendentes de Noé] uns aos outros: Edifiquemos uma
cidade e uma torre cujo cume toque nos céus e façamo-nos um nome, para que não
sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (Gênesis 11.4). Desejavam
construir uma cidade-império, dominadora, poderosa, única: uma só língua, um só
governo. Mas Deus não quis que o mundo ficasse sob a direção de um só homem, ou
de uma elite. Ainda hoje nações econômica e militarmente poderosas esforçam-se
por exercer domínio sobre o resto do mundo. A intenção de Deus é que haja
equilíbrio de forças, equilíbrio nas economias, na distribuição de rendas, com
oportunidades para todos. Há alguns anos havia duas potências mundiais, duas
torres de Babel, dirigindo os destinos da humanidade: a antiga União soviética
e os Estados Unidos. A primeira, desmantelou-se, fragmentou-se o temível
império em várias nações independentes e autônomas, com suas bandeiras, hinos,
cultura, governos. A segunda, os Estados Unidos da América, tem pago um preço
altíssimo por sua supremacia política, econômica e militar.

Colosso de Rhodes

A começar pelas Sete Maravilhas do Mundo Antigo, destacamos “O Colossos de
Rhodes”, em bronze com base de mármore branco, na Ilha de Rhodes, Grécia,
com 46 metros de altura. Concluída em 282 a.C., após doze anos de trabalho, a
gigante estátua foi destruída juntamente com a cidade, por um forte terremoto,
em 226 a.C.

Estátua de Zeus

A majestosa “Estátua de Zeus”, “deus dos deuses”, com
quinze metros, feita de marfim e ébano com incrustações de ouro e pedras
preciosas, em cuja homenagem os Jogos Olímpicos da Antiguidade eram festejados.
Localizava-se no Templo de Olímpia, na Grécia. A obra foi concluída em 447 a.C.
e destruída por um incêndio 922 anos mais tarde.

O Farol de Alexandria

Monumento dedicado aos deuses salvadores Ptolomeu Soter e sua esposa Berenice.
Servia de auxílio aos navegantes. Inaugurado em 270 a.C., na antiga ilha de
Faros, agora um promontório na cidade de Alexandria no Egito. Durou 1.750 anos.
Seriamente danificado por terremotos, foi finalmente destruído em 1.480. Esse farol
era útil aos navegantes.

Templo de Ártemis (Diana)

Esse templo, em homenagem à deusa dos bosques (Ártemis), localizava-se na
cidade grega de Efésio, na Turquia; foi concluído no ano de 550 a.C. e levou
120 anos para ficar completamente pronto. A sua altura é desconhecida, mas
tinha 80 metros de largura e 130 metros de profundidade. A escultura da deusa
Ártemis era em ébano, ouro, prata e pedra preta. Durou 194 anos, até ser
destruído pelos godos.

Túmulo de Mausoléu

Com 50 metros de altura, construído em mármore e bronze por Artemísia, viúva de
Mausolo, em Halicarnasso, Caria, hoje Turquia. A construção durou dez anos e
nela trabalharam 30.000 homens. Provavelmente, destruído por um terremoto entre
os séculos XI e XV.

Pirâmides do Egito

Sepulturas dos faraós construídas há mais de 40 séculos na Planície de Gizé, a
15 km do Cairo, capital do Egito. As mais célebres são as de Quéops (137,2m),
Quéfrem (136,5m) e Mikerinos (66m), nomes de três reis (pai filho e neto). Das
sete maravilhas da antiguidade somente as pirâmides do Egito ainda existem,
apesar dos estragos causados pela ação do tempo. Serviram de sepultura dos
faraós, que acreditavam poder subir até os seus deuses, no céu, se seus corpos
fossem assim sepultados. As pirâmides continuam sendo objeto de estudos, pois
abrigam muitos mistérios.

Jardins Suspensos da Babilônia

Segundo uma das versões, os Jardins foram construídos em 605 a.C. por
Nabucodonosor II em homenagem a sua mulher, Amitis, no sul do Iraque. Outra
versão diz que foram construídos por Semíramis. Na verdade, eram seis montanhas
artificiais, no sul do Rio Eufrates, 50 km ao sul da atual Bagdá, Capital do
Iraque. Nos terraços, construídos com trabalho escravo, foram plantadas
palmeiras e flores tropicais, para deleite de seus proprietários. Hoje, não
existe qualquer vestígio desses jardins.

Os homens continuaram dando expansão aos seus desejos de mostrar ao mundo
sinais de riqueza, poderio militar e econômico. Na era da modernidade,
destacam-se os arranha-céus, as grandes estruturas. Algumas dessas obras são
apreciadas pelo bom gosto de seus idealizadores, pela beleza de suas formas;
outras, apenas por suas gigantescas proporções. Algumas, necessárias; outras,
como na Antiguidade, apenas um bem supérfluo, sem nenhuma utilidade prática.
Vejamos algumas dessas obras dos tempos modernos.

Torre Eifell

A Torre Eifell de Paris, conhecida como “A Dama de Ferro”, 10.100
toneladas, 320 metros de altura, incluindo a antena, duas vezes mais alta do
que a grande pirâmide do Egito, foi construída em alguns meses, em 1889, e
consumiu 15.000 barras de ferro. Seu nome é uma homenagem ao engenheiro civil
francês Gustave Alexandre Eifell, projetista e construtor da obra.

O Muro de Berlim

A construção do Muro de Berlim, de 155 quilômetros, que separava Berlim
Ocidental de Berlim Oriental, iniciou-se em 13 de agosto de 1961, e começou a
ser derrubado a partir de 9 de novembro de l989, quando pela primeira vez, em
28 anos, os cidadãos da antiga União Soviética puderam visitar seus irmãos do
lado ocidental e democrático. A queda do Muro, símbolo da guerra fria e da
divisão do mundo em duas potências antagônicas, marcou a falência do sistema
comunista soviético. Dados revelam que durante a existência do “Muro da
Vergonha”, como ficou conhecido, 75.000 alemães foram presos, e 809 mortos
durante tentativa de atravessar na direção oriente-ocidente.

Empire State Building

Com 381 metros de altura. Em 1950 foi colocada na estrutura uma antena de
televisão de 67 metros, fazendo com que a altura total do edifício atingisse
448 metros. O Empire State continuou sendo o prédio mais alto do mundo até
1971, quando foi terminada a primeira torre do World Trade Center, também em
Nova York. Com a destruição das torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, por
atos terroristas, o Empire voltou a ser o mais alto edifício do mundo.

World Trade Center

As torres gêmeas de Nova York – Com uma altura, cada uma, de 411 metros, com
110 andares, simbolizavam, em Nova York, o poder econômico da mais poderosa
nação do mundo, os Estados Unidos da América. Superava o Empire State Building,
com 381 metros, sem a antena. Terça-feira, 11 de setembro de 2001, uma data que
jamais será esquecida, essas torres foram destruídas, deixando um saldo de
2.823 vítimas, trinta por cento das quais jamais poderão ser identificadas,
tamanho o calor da explosão do combustível nos aviões utilizados pelos
seqüestradores.

Titanic

Repousa no Oceano Atlântico, a 4.126 metros de profundidade, desde a madrugada
do dia 15.04.1912, o que restou das 46,329 toneladas do navio Titanic, 270
metros de comprimento, 28 metros de largura, o “Navio dos Sonhos”, o
“Palácio Flutuante”. Sua construção foi concluída em maio de 1911, em
que foram empregados os mais modernos sistemas de segurança, ao custo de 400
milhões de dólares. Antes de iniciar sua viagem inaugural da Inglaterra para
Nova York, alguém teria feito um infeliz prognóstico: “Nem Deus afunda o
Titanic”. Não desejamos concluir, e não podemos fazê-lo, que Deus foi o
autor da tragédia. Mas asseguramos com certeza que bastou a ponta de um iceberg
para nocautear o gigante, e fazer naufragar com ele 1.522 almas.
A maioria dessas obras gigantescas, a começar pela Torre de Babel, caiu por
terra. Muitas delas foram produto da vaidade humana, uma vaidade que exige
demonstração pública de poder e riqueza. Nos tempos modernos, há uma corrida
entre nações ricas para ver quem constrói torres cada vez mais elevadas,
complexos comerciais cada vez maiores. A verticalização dos edifícios
comerciais decorre, também, de uma exigência do mercado imobiliário,
considerando as limitações de espaços nas grandes metrópoles. Contudo, por trás
dessa imperiosa necessidade de ampliação dos espaços para atender a demanda, há
o desejo de colocar o nome da empresa, da família, da nação num lugar bem alto,
mais alto do que todos, para que todos vejam, admirem, reverenciem, aplaudam.

Noventa anos separam o naufrágio do navio Titanic, no Oceano Atlântico, da
tragédia do World Trade Center, em Nova York, e milhares de anos separam estes
da Torre de Babel. Tais fatos revelam-nos que não há um só lugar completamente
seguro em nosso planeta. Por isso devemos fazer tudo para glória de Deus,
porque “se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela”
(Salmos 127.1). Os homens têm construído casas e edifícios com todos os
requisitos de segurança: portas de aço, guardas, sistema de alarme, grades de
fero, cães amestrados, mas se esquecem de fazer um seguro para a vida eterna;
temem os que podem matar o corpo e não podem matar a alma, mas não temem Aquele
que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo (Mt 10.28).

Resgato a imagem do Titanic para ajudar numa outra reflexão. Há muitos séculos
fazemos a seguinte pergunta: o crente pode perder a salvação? E há muitos
séculos uns dizem que pode, outros, que não pode. De um lado, os que consideram
a salvação imperdível; do outro, os que consideram plenamente possível o cair
da graça. Vejamos um resumo dessas doutrinas.

CALVINISMO – Sistema teológico elaborado pelo teólogo francês João Calvino
(1509-1564). Os pontos fundamentais do seu ensino são:

(1) Depravação total: Os homens nascem depravados, não lhes sendo possível,
nesse estado, escolher o caminho da salvação.

(2) Eleição incondicional – Somos escolhidos por Deus para salvação,
independente de qualquer mérito de nossa parte.

(3) Graça irresistível – Os escolhidos não resistirão à graça salvadora do
Criador, em razão da atuação do Espírito Santo, convencendo-os do pecado.

(4) Expiação limitada aos eleitos – O alto preço do resgate, pago por Jesus na
cruz, alcançou apenas os eleitos.

(5) Perseverança dos crentes – Nenhum dos eleitos perderá a salvação; irão
perseverar até o fim, pois estão predestinados ao céu desde a fundação do
mundo. Em resumo, o movimento teológico calvinista defende a absoluta soberania
de Deus, e a exclusão do livre-arbítrio. Deus concede aos eleitos graça eficaz
e irresistível, que permite ao homem continuar perseverante por toda a vida.

ARMINIANISMO – Sistema teológico formulado pelo teólogo holandês Jacobus
Arminius (1560-1609), em oposição à doutrina calvinista da predestinação, assim
exposto:

1) Livre-arbítrio – Deus concedeu ao homem a capacidade de aceitar ou recusar a
salvação que lhe é oferecida.

2) Eleição condicional – Deus elege ou reprova com base na fé ou na incredulidade
em Jesus Cristo.

3) Expiação ilimitada – Cristo morreu por todos, e não somente pelos eleitos.

4) Graça resistível – É possível ao homem rejeitar a Graça de Deus e, em
conseqüência, perder a salvação.

5) Decair da Graça – Os salvos podem perder a salvação se não perseverarem até
o fim.

Agora, tomemos por empréstimo a imagem do Titanic para melhor compreendermos a
eleição incondicional e prévia dos salvos, a restrição ao acesso da cruz de
Cristo, por um lado; e por outro, o livre-arbítrio, a eleição condicional, o
acesso à cruz a todos os que aceitarem o Evangelho. A vida aqui na terra é uma
viagem inaugural que tem começo e fim. O homem está avariado pelo iceberg do
pecado; se continuar no mesmo rumo, sem mudar de atitude, sem mudar a rota,
fatalmente será destroçado.

Em determinado momento, um enorme navio, o navio dos predestinados, mais belo e
mais possante, baixa âncoras junto ao Titanic dos condenados. O Comandante, de
posse de um potente megafone, anuncia que está ali para salvar vidas. Imediatamente,
com auxílio de roldanas, faz descer uma enorme prancha de madeira em forma de
cruz, a fim de permitir o acesso dos condenados ao navio da predestinação.
“Venham! Venham, meus escolhidos; aqui encontrarão descanso para suas
almas”, diz o Comandante.

A água, que inicialmente invadira cinco dos 16 compartimentos estanques, agora
toma conta das fornalhas, invade os alojamentos da terceira classe e faz
submergir um terço da proa. As 1.954 janelas com vidro vão-se quebrando pouco a
pouco, e os estilhaços provocam profundos ferimentos nas pessoas. Ao ouvirem o
chamado, nem todos atendem. São os que ainda alimentam vãs esperanças, um bom
número corre para iniciar a travessia. Todavia, ouvem uma ordem: “Não! Não
venham todos! Só os escolhidos poderão passar por essa cruz. Por alto preço os
comprei. Minha cruz não suporta o peso de tantas vidas, e o meu barco tem
capacidade limitada”.

Então, o Comandante foi chamando um a um pelo nome; “Pedro, Wagner,
Marcos, Marcelo, Norberto, venham, vocês são os meus escolhidos desde o começo,
desde a partida do navio do porto de Southampton, na Inglaterra, no dia 10 de
abril”. E assim, os devidamente chamados e previamente escolhidos, fizeram
a travessia, e agora estavam fora de perigo no barco da predestinação.

Um dos salvos, já acomodado no navio dos eleitos, perguntou: “O Senhor
deixará morrer aqueles?”. E ouviu a seguinte explicação:

“Meu bom eleito. Aqueles que agora descem às águas profundas já estavam
condenados de há muito. Com você e com todos que estão aqui comigo usei de
misericórdia, porque uso de misericórdia com quem quero. Com aqueles usei de
justiça. Agora você sabe que uso de justiça e de misericórdia. Eu não os
afoguei; eles é que se afogaram em suas iniqüidades”.

O predestinado ainda tentou conseguir mais explicação, mas o Comandante cortou
a conversa, categórico. Olhou-o nos olhos, colocou a mão sobre seu ombro, e
disse: “É a minha Soberania, filho, a minha Soberania”.

Em seguida, o Comandante deu partida ao enorme navio, rumo a um porto seguro.
Os eleitos ainda tiveram tempo de olhar para trás e ver o Titanic partir-se ao
meio, ficar com a popa na vertical e iniciar seu sinistro caminho nas águas
geladas, rumo às fossas abissais.

Numa outra versão, o navio da predestinação se aproxima do Titanic; a cruz é
estendida, e o Comandante convida todos, e todos os que ouviram e aceitaram o
convite ficam perfilados e começa a travessia. “Venham todos – diz o
Comandante. Todos serão acolhidos no meu navio. Minha cruz suporta o peso de
todas as almas, as quais resgatei por alto preço. Usarei de justiça com os que
rejeitarem o meu convite, mas com misericórdia com os que atravessarem essa
cruz. No meu navio vocês estarão predestinados à salvação. Venham, benditos;
todos os que vierem são meus eleitos. O navio em que vocês estão está avariado,
prestes a afundar. É o tempo do fim. Coloco diante de vocês o caminho estreito
e difícil da cruz. Não será fácil a travessia. Os ventos são contrários, mas eu
lhes sou favorável; tenham os olhos fixos em mim; não olhem para trás; cada
passo à frente é uma conquista; venham! Muitos já chegaram até aqui; não
desanimem; prossigam”.

Um dos salvos, indagou: “Comandante, por que ficaram aqueles?”. O
Comandante respondeu: “Porque não deram ouvidos ao meu chamado. Aquele
navio carrega muito ouro, prazeres e fantasias. O coração deles está nessas
coisas. Usam do direito do livre-arbítrio para recusar a minha oferta de
salvação. Com vocês, manifestei a minha misericórdia; com eles, minha
justiça”.

A água, depois de invadir as 159 fornalhas, chegou à primeira classe, a dos
milionários. Caem as quatro chaminés de 19 metros. Diante da situação
incontrolável e da iminente morte, ecoam gritos de desespero na escuridão. O
gigante Titanic, nome dado em homenagem aos titãs da mitologia grega, partido
ao meio e vencido, aponta sua popa na posição vertical, como que olhando de
joelhos para o céu, e logo depois desaparece nas águas geladas.

O quadro apresentado revela no primeiro instante a posição calvinista da
expiação limitada de Jesus, em que apenas os previamente eleitos serão salvos.
O segundo quadro representa a posição oposta, o da expiação ilimitada, em que
todos podem obter a graça da salvação.

Parte XVI
OS SACRAMENTOS NO BREVE CATECISMO DE WESTMINISTER – III
Elaborado no século XVII pela
famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma,
juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade
teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e
presbiterianas.
Antes de estudarmos a Ceia do Senhor no Breve Catecismo, propriamente dito,
faremos um breve histórico acerca da presença de Cristo na Ceia. Esse pano de
fundo nos ajudará a compreender, de certa forma, o que o Breve Catecismo diz
sobre a Ceia do Senhor. Em espírito de oração, estudemos este assunto na
certeza de sermos ensinados por Deus.

A presença de Cristo na Ceia

As palavras de Cristo “isto é o meu corpo, isto é o meu sangue” (Mt
26.26,28; Mc 14.22,24), foram o ponto de divergência entre os reformadores do século
XVI quanto à interpretação da presença de Cristo na Ceia, embora eles fossem
unânimes em rejeitar o conceito católico romano sobre este assunto.

• O conceito católico romano

Mediante a consagração do pão e do vinho pelo sacerdote, esses elementos transformam-se
na substância da carne e sangue de Cristo, respectivamente.
Objeção: A expressão “isto é o meu corpo, isto é o meu sangue” não
pode ser tomada literalmente. Visto que Jesus estava diante dos seus discípulos
em carne e osso, Ele não podia dizer que eles estavam com o seu corpo e o seu
sangue nas mãos, e que deviam comê-lo e bebê-lo, respectivamente, de forma
literal. A expressão “isto é o meu corpo, isto é o meu sangue”, deve
ser interpretada como “representa”, “simboliza”. Além
disso, “É contrário ao senso comum crer que o que parece, cheira e tem
gosto de pão e vinho seja, de fato, carne e sangue”.[1].

• O conceito luterano

Objeção: Este conceito não melhora muito a doutrina romana. Faz as palavras de
Jesus significar “isto acompanha meu corpo”, que é uma interpretação
muito estranha.

• O conceito zwingliano

Zwínglio, reformador suíço, rejeitou os dois conceitos anteriores da presença
física de Cristo na Ceia. Para ele a Ceia do Senhor é tão somente uma lembrança
da morte de Cristo, um memorial. Esse conceito é adotado pelas igrejas
batistas.

Objeção: A Ceia não está relacionada apenas à obra passada de Cristo, mas
também à sua obra atual de Mediador.

O significado da Ceia do Senhor no conceito presbiteriano

“A Ceia do Senhor é o sacramento no qual, dando-se e recebendo-se pão e
vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a Sua morte; e aqueles que
participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela
fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para
o seu alimento espiritual e crescimento em graça (Resposta 96; cf. 1Co 10.16;
11.23-26; Ef 3.17).

Os presbiterianos não negam o conceito da presença real de Cristo na Ceia. No
entanto, entendem que a presença de Cristo não é em substâncias materiais,
porém, presença espiritual, conforme afirmava o reformador francês João
Calvino. A presença espiritual de Cristo na Ceia é tão real quanto a presença
física do pão e do vinho. Pela fé o crente se alimenta do corpo de Cristo, tão
real e verdadeiramente, como come do pão e bebe do cálice.

Quando falamos da “presença espiritual” de Cristo na Ceia, devemos
entender que o corpo e o sangue de Cristo não estão espiritualmente presentes
nos elementos da Ceia, mas sim, “espiritual e realmente presentes à fé dos
crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos
corporais”.[2].

A Ceia é um momento de profunda comunhão com o Senhor (1Co 10.16) e um anúncio
ao mundo da morte de Cristo, “até que ele venha” (1Co 11.26). A Ceia
é uma dádiva de Deus a nós, ou como a expressou Leon Morris, “Na comunhão
recebemos a Cristo. Não O apresentamos nem Seu sacrifício ao Pai. Apresentamos,
e podemos apresentar, somente a nós mesmos”.[3]. É assim que devemos
entender a expressão “dando-se e recebendo-se pão e vinho” no Breve
Catecismo.

Finalmente, aqueles que participam da Ceia do Senhor são abençoados com
verdadeiro alimento espiritual e crescimento na graça.

Exigência para participar dignamente da Ceia do Senhor

“Que se exige para participar dignamente da Ceia do Senhor? Exige-se
daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examinem
sobre o seu conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se
alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, amor e nova obediência, para não
suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação”
(Pergunta e Resposta 97; cf. Rm 6.17,18; 1Co 11.27,31,32).

A Ceia do Senhor é um ato de fé e discernimento, conforme o ensino do Breve
Catecismo à luz da Bíblia. A razão pela qual um descrente ou uma criança não
possa participar da Ceia do Senhor é porque aquele não tem fé em Cristo e esta
não tem discernimento quanto ao corpo e o sangue do Senhor.

Para que o crente participe dignamente da Ceia do Senhor é necessário que ele
observe o seguinte: 1) Tenha consciência do valor e importância da Ceia do
Senhor (1Co 11.27,29).

Participar com dignidade e discernimento é receber com fé aquele ato solene; 2)
Faça um auto-exame de sua pessoa e conduta perante Deus (1Co 11.28).
“Antes de tomarmos parte em tal serviço, o mínimo que podemos fazer é um
rigoroso auto-exame. Deixar de fazê-lo resultará em comungar ‘indignamente’
(v27)”.[4]. Esse é o momento em que a hipocrisia não tem vez, visto que
não se estará julgando os outros, mas cada um a si mesmo, sob os olhares
atentos de Deus. É uma ocasião solene de “arrependimento, amor e nova
obediência” (Resposta 97); 3) Evite a condenação divina (1Co 11.29-32).
Que condenação é essa? Morris diz com muita propriedade: “Paulo não quer
dizer que a pessoa que comunga erroneamente incorre na pena eterna, mas cai sob
a medida de condenação apropriada a seu ato”.[5].

“Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do
cálice” (1Co 11.28). Que a nossa participação na Ceia do Senhor promova a
glória de Deus.

NOTAS

[1] Louis Berkhof, Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio: Luz Para o
Caminho/Ceibel, 1985, p. 292.
[2] Confissão de Fé de Westminster, XXIX,7.
[3] Leon Morris, 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica.
São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1992, p. 130.
[4] Idem, p. 131.
[5] Ibidem.

Parte XVII
OS
SACRAMENTOS NO BREVE CATECISMO DE WESTMINISTER – II

(O Batismo)
 Elaborado
no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve
Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de
Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das
igrejas reformadas e presbiterianas.

O que é o batismo cristão e qual o modo correto de aplicá-lo? Que critérios são
utilizados para se batizar adultos e crianças? De acordo com o Breve Catecismo,
“Batismo é um sacramento no qual o lavar com água em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo significa e sela a nossa união com Cristo, a participação
das bênçãos do pacto da graça, e a promessa de pertencermos ao Senhor”
(Resposta 94; cf. Mt 28.19; Jo 3.5; Rm 6.1-11; Gl 3.27).

Quanto ao modo ou forma de batismo

A forma de batismo indicada pelo Breve Catecismo é “o lavar com
água”. O uso da preposição “com” ao invés de “em”
significa que por “lavar” o Breve Catecismo não quer dizer
“banhar-se” ou “imergir”. Pelo contrário, a preposição
“com” é utilizada propositalmente para reafirmar o batismo por
aspersão ou efusão. O que significa dizer, em outras palavras, que “Não é
necessário imergir o candidato na água, mas o batismo é corretamente
administrado derramando ou aspergindo água sobre a pessoa”.[1]. O
entendimento da expressão “lavar com água” no Breve Catecismo fica
ainda mais claro quando vemos o que a Bíblia diz sobre batismo.

Nas Escrituras o verbo grego baptízo (batizar) não é um verbo de movimento, por
isso geralmente é usado com a preposição grega en (dativo instrumental),
denotando meio ou método, podendo significar “com”, “por”
ou “em”. Raras vezes é usado com a preposição eis, que indica
movimento (1Co 10.2; Gl 3.27). Essa preposição significa “para dentro
de”, “para”. Se o sentido original do termo fosse realmente
“imergir”, era de se esperar que a preposição usada fosse eis, a
indicativa de movimento. Isso, porém, não é o que ocorre.

O verbo baptízo vem de bápto, cujo sentido predominante é “tingir”. O
sentido de “imergir” vem da implicação de se submergir ou envolver
completamente no líquido para o tingimento. Daí vem também a idéia de
“purificar”, que é o resultado da ação de “lavar” ou
“tingir”. No seu uso clássico baptízo significa a) lavar um objeto
por mergulhá-lo em água ou qualquer outro líquido, para qualquer fim; b) a
submersão ou afundamento de algum objeto; c) a cobertura de um objeto pelo
derramamento de qualquer líquido sobre ele – daí o uso metafórico de
“estar oprimido” ou “coberto”, “inundado (de
problemas)”; d) molhar (ensopar) completamente um objeto, quer por imersão
ou por aspersão. Pelo uso clássico, portanto, não se pode fixar o modo pelo
qual o “batismo” é realizado, isto é, como é que o elemento batizante
é aplicado ao objeto batizado.

Tudo o que é indicado é que o primeiro está intimamente em contato com o
segundo, ou que o segundo está inteiramente no primeiro.

Na Septuaginta (LXX) o verbo baptízo ocorre apenas quatro vezes. Duas vezes nos
canônicos (2 Rs 5.14; Is 21.4) e duas nos apócrifos (Judite 12.7; Eclesiástico
34.30). Nestes dois últimos usos o sentido é apenas o de “lavar”, sem
indicação de qualquer método. Em Números 19.19,20, porém, lemos que essa
purificação ou “lavagem” não era feita por imersão, mas por aspersão
primeiro, e depois, um banho (verbo lúo). A água purificadora era aspergida
(cf. Ez 36.25). No grego da LXX, portanto, baptízo significa
“submergir”, “banhar”, “estar tomado de”. Nunca é
usado no sentido de descrever o ato de alguém mergulhar um objeto ou uma pessoa
em qualquer líquido.

No Novo Testamento a preposição eis mantém seu sentido próprio, indicando a
finalidade pela qual uma coisa é feita. Assim, “ser batizado para
Moisés” significa ser batizado com o propósito de tornar-se sujeito à lei
de Moisés. Ser batizado para Cristo significa ser batizado com o propósito de
se tornar um verdadeiro seguidor de Cristo.

Em suma, no uso grego clássico o verbo baptízo pode significar
“imergir”, “molhar”, “estar possuído de”. No uso
bíblico significa geralmente “purificar” pela aplicação de água. O
método de aspersão está ligado às purificações dos judeus, que eram feitas
através da aspersão ou borrifamento de água (Is 52.13; Ez 36.25; Hb
9.10,13,14;). Também o modo como as influências do Espírito são descritas como
“descendo” sobre as pessoas, está mais de acordo com o
“derramamento” como modo de administração do batismo, uma vez que
representa ou é sinal dessas influências.[2].

Quanto à fórmula e significado do batismo

O batismo deve ser feito “em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo” (Resposta 94; cf. Mt 28.19). Em Mateus 28.19 a preposição grega eis
(na expressão eis to onoma = em nome), indica finalidade e pode ser
interpretada como “em relação a”, ou “na profissão de fé em
alguém e na sincera obediência a alguém”. A palavra onoma (nome) é usada
no mesmo sentido do hebraico shem como indicativo de todas as qualidades por
meio das quais Deus se dá a conhecer, e que constitui a soma total de tudo o
que Ele é para quem o adora. A fórmula batismal indica que mediante o batismo
(isto é, mediante tudo o que o batismo significa) aquele que o recebe
encontra-se em uma relação especial com Deus.[3].

Quanto ao seu significado, o batismo é um sacramento do Novo Testamento,
instituído por Jesus Cristo (Mt 28.19; Mc 16.16) não só para admitir na igreja
visível a pessoa batizada (1Co 12.13; Gl 3.27,28), mas também para que seja
para ela um sinal e selo do pacto da graça (Rm 4.11; Cl 2.11,12), de sua união
com Cristo (Rm 6.5; Gl 3.27), de sua regeneração (Tt 3.5), da remissão de seus
pecados (Mc 1.4; At 2.38; 22.16) e de sua submissão a Deus por meio de Jesus
Cristo para andar em novidade de vida (Rm 6.3,4).[4]. O batismo deve
representar a morte completa como de uma pessoa que foi sepultada; mas, também,
deve representar uma vida inteiramente nova, como de alguém que venha da
ressurreição.

Convém salientar que tanto em Romanos 6.4 quanto em Colossenses 2.12, Paulo não
trata de um batismo com água (como parece entender a maioria dos
imersionistas), mas de um batismo espiritual representado desta maneira, isto
é, representa, como já foi mencionado, o novo nascimento sob a figura de sermos
sepultados (morrer para o pecado) e ressuscitados (viver para Cristo).

Quanto aos objetos do batismo

“A quem o batismo deve ser ministrado? O batismo não deve ser ministrado
àqueles que estão fora da igreja visível, enquanto não professarem sua fé em
Cristo e obediência a ele, mas os filhos daqueles que são membros da igreja
visível devem ser batizados” (Pergunta e Resposta 95, cf. Gn 17.7-14; At
2.38,39; 18.8; 1Co 7.14).

Depois da extraordinária pregação evangelística de Pedro no dia de Pentecostes
(At 2.14-36), Lucas relata a reação dos ouvintes assim: “Ouvindo eles
estas cousas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais
apóstolos: Que faremos, irmãos?” (At 2.37). Pedro diz que o critério para
serem recebidos como filhos de Deus deveria ser o arrependimento de pecados e o
batismo como evidência externa do arrependimento. De acordo com o Breve
Catecismo, ninguém pode ser batizado enquanto não professar sua fé em Cristo e
obediência a Ele. O batismo exige a pública profissão de fé.

Mas se para alguém ser batizado é necessário primeiro professar a fé, então por
que as igrejas presbiterianas batizam crianças? O Breve Catecismo responde
parcialmente essa pergunta assim: “… os filhos daqueles que são membros
da igreja visível devem ser batizados” (Resposta 95).

Talvez o primeiro passo para se compreender porque as crianças devem ser
batizadas, é respondendo a pergunta: Por que os adultos são batizados? É porque
são estranhos ao pacto da graça e somente o arrependimento de seus pecados e o
selo do batismo introduzem-nos dentro do pacto. Os filhos de pais crentes já
estão naturalmente dentro do pacto. O batismo é o sinal e selo externo desse
pacto. O batismo é “um sinal da aliança (como a circuncisão, mas sem
derramamento de sangue) e, portanto, um sinal da obra de Deus realizada a nosso
favor, que antecede e possibilita nossa própria atuação
correspondente”.[5]. Por isso, “Enquanto houver oração no Espírito e
uma disposição de pregar a palavra evangélica quando vier a oportunidade, as
crianças pequenas podem ser incluídas dentro da esfera desta obra vivificante
da qual o batismo deve ser o sinal e o selo”.[6].

A base bíblica para o batismo de infantes está em Gênesis 17. Do mesmo modo
como a circuncisão introduzia a criança no pacto, assim o faz o batismo. Não
temos certeza se nas casas de Atos 16.15,33 e 1Co 1.16, por exemplo, havia
crianças, mas se havia, então com certeza foram batizadas por causa da aliança
de Deus. “Visto que o batismo tomou o lugar da circuncisão (Cl 2.11-13),
as crianças devem ser batizadas como herdeiras do reino de Deus e de Seu
pacto” (Form for the Baptism of Infants). Que os filhos de pais crentes,
ou aqueles que têm um dos pais crentes, devem ser batizados sobre a base de
suas relações de pacto, pode ser visto ainda em Atos 2.39 e 1Coríntios 7.14.

Portanto, façamos do batismo que recebemos verdadeira expressão de vida cristã
para nós e nossos filhos.

NOTAS

[1] Confissão de Fé de Westminster (CFW), XXVIII,3.

[2] Cf. João Alves dos Santos, Comentários de Atos 1.1-8. São Paulo: Obra não
publicada, 1981, p. 9-14; Charles Hodge, O Batismo Cristão: Imersão ou
Aspersão?. 2a ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 7-34.

[3] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed.
Mexico: La Antorcha , 1987, p. 746-47; Charles Hodge, Teologia Sistemática.
São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p.
1419-20.

[4] Cf. CFW, XXVIII,1.

[5] G. W. Bromiley, Batismo Infantil. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da
Igreja Cristã, vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 158.

[6] Idem, p. 159. V. t. Elias Dantas Filho, Filhos e Filhas da Promessa. Curitiba:
Editora Descoberta, 1998, p. 125-140; Guillermo Hendriksen, El Pacto de Gracia.
Grand Rapids:
Subcomisión Literatura Crist

Parte XVIII
OS
SACRAMENTOS NO BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER – I

(Considerações Gerais)
Elaborado no
século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve
Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de
Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das
igrejas reformadas e presbiterianas.

Segundo o Breve Catecismo, o que é um sacramento? De que maneira ele se torna
eficaz para a salvação? Quantos e quais são os sacramentos do Novo Testamento?
Para muitos evangélicos é provável que não haja dificuldade em responder essas
perguntas. Mas para outros é possível existir uma vaga lembrança acerca do
presente tema ou, até mesmo, desconhecimento total.

Os sacramentos não devem ser vistos como mera formalidade pública. Estudá-los
(e principalmente vivenciá-los) é uma das tarefas mais gratificantes e
enriquecedoras que possa existir. Portanto, o estudo dos sacramentos deve ser
feito no intuito de crescermos na graça e no conhecimento de nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18). Que o Espírito de Deus nos oriente nesse
sentido.

Definição, importância e bênçãos dos sacramentos

Muitas definições poderiam ser dadas sobre um sacramento, mas nenhuma é tão
direta e objetiva quanto a definição do Breve Catecismo: “Um sacramento é
uma santa ordenança, instituída por Cristo, na qual, por sinais sensíveis,
Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos
crentes” (Resposta 92). As referências bíblicas que sustentam a excelente
definição do Breve Catecismo são: Mateus 26.26-28; 28.19; Romanos 4.11, dentre
outras. A importância do sacramento está no fato de ser “uma santa
ordenança, instituída por Cristo”.

Indubitavelmente a Palavra de Deus é o mais importante meio de graça, porém,
não podemos subestimar ou diminuir o valor de um sacramento, visto que foi o
próprio Deus quem instituiu os dois (a Palavra e os sacramentos) como meios de
graça.

Cristo é o conteúdo central tanto da Palavra quanto dos sacramentos. E do modo
como recebemos a Cristo em nosso coração pela fé, assim devemos receber a Palavra
e os sacramentos. E receber a Palavra de Deus e os sacramentos pela fé é,
segundo Berkhof, “o único modo no qual o pecador pode chegar a ser
participante da graça que nos é oferecida na Palavra e nos sacramentos”.
[1].

O sacramento, além de ser um privilégio do crente, é um meio de bênçãos
espirituais. É por isso que a negligência voluntária dos sacramentos, por parte
do crente, resulta em sérios prejuízos espirituais, conforme 1Coríntios
11.29,30.

De que maneira somos beneficiados pelos sacramentos? O Breve Catecismo nos
ensina que “por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são
representados, selados e aplicados aos crentes”. Segundo Agostinho
(354-430), os elementos sensíveis dos sacramentos são “sinais visíveis de
uma graça invisível”, pois representam a purificação espiritual que é
feita no sangue de Cristo, o sacrifício remidor (cf. At 22.16; 1Jo 1.7). Os
sacramentos selam a nossa união e vivificação com Cristo. Aplicam as bênçãos da
promessa de pertencermos ao Senhor e nos sustentam, alimentando-nos de Cristo.

A eficácia dos sacramentos

“Como os sacramentos se tornam meios eficazes para a salvação? Os
sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação, não por alguma virtude
que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas somente pela bênção de Cristo
e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem” (Pergunta e
Resposta 91; cf. 1Pe 3.21; Rm 2.28,29; 1Co 12.13; 10.16,17).

Veja que antes de dizer em que consiste a eficácia dos sacramentos, o Breve
Catecismo é cuidadoso ao nos informar sobre o que não torna os sacramentos
eficazes. Em primeiro lugar, os elementos sensíveis ou visíveis dos sacramentos
não têm, em si mesmos, virtude ou poder algum.

Sem dúvida a Assembléia de Westminster tinha católicos e luteranos em mente
quando fez a afirmação acima. Porque ambos (católicos e luteranos) defendem,
quanto ao batismo, a chamada “regeneração batismal”, atribuindo poder
regenerador à água do batismo. Quanto à ceia do Senhor, os primeiros falam de
uma “transubstanciação”, isto é, uma transformação do pão em carne de
Cristo e do vinho em sangue de Cristo. Os luteranos, mais amenos, mas não menos
equivocados, enfatizam uma “consubstanciação”, isto é, ensinam que os
elementos da ceia não se transformam em substâncias de carne e sangue, porém,
Cristo está com e nos elementos da ceia, humanamente glorificado.

Em segundo lugar, a eficácia dos sacramentos também não está na virtude
daqueles que os ministram (ex: os pastores). Para os católicos romanos, que
consideram o batismo absolutamente essencial para a salvação, é cruel fazer a
salvação de alguém depender da presença ou ausência acidental de um sacerdote;
então, permitem em caso de emergência que outros batizem, particularmente as
parteiras. Nós evangélicos consideramos válido um batismo quando é celebrado
por um ministro devidamente credenciado. Mas a eficácia do batismo não está
nele e não depende dele. Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a
salvação “somente pela benção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles
que pela fé os recebem” (Resposta 91). E assim os sacramentos fortalecem,
confirmam e aumentam a nossa fé e dão testemunho de nossa religião perante os
homens.

Os sacramentos do Novo Testamento

Quando se fala em sacramentos do Novo Testamento, subentende-se que há também
os sacramentos do Antigo Testamento. Os sacramentos do Velho Testamento foram a
páscoa e a circuncisão. “Os sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e
a Ceia do Senhor” (Resposta 93, cf. At 10.47,48; 1Co 11.23-26). A igreja
romana aumentou, de maneira injustificada, o número dos sacramentos para sete.
Além dos que foram instituídos por Cristo acrescentaram a confirmação, a
penitência, as ordens, o matrimônio e a extrema-unção. As igrejas evangélicas
não reconhecem os sacramentos de Roma, porque não existe ordem expressa do
Senhor para a prática dos mesmos como sacramentos. Por exemplo: O crente pode
casar-se, mas não recebeu uma ordem de Cristo, através do Evangelho, para se
casar. E embora o matrimônio tenha sido instituído por Deus, não tem a
finalidade de ser um meio de graça. O sacramento verdadeiro exige uma cerimônia
externa, ordenada por Cristo para confirmação de alguma promessa.

Devemos entender que entre os sacramentos do Antigo e Novo Testamentos existe
uma diferença de grau e não de essência. Os sacramentos do Antigo Testamento
tiveram um caráter nacional, apesar de sua significação espiritual. Apontavam
para frente, para Cristo, e eram selos de uma graça que ainda seria adquirida;
enquanto que os sacramentos do Novo Testamento apontam para trás, para Cristo,
e para Sua obra consumada. Os sacramentos do Novo Testamento transmitem aos
crentes uma medida ainda mais rica de graça espiritual. [2].

Qual a aplicação prática dos sacramentos para a nossa vida? Coates interpreta
bem o pensamento do Breve Catecismo quando diz: “Os sacramentos, quando
administrados de conformidade com os princípios estabelecidos nas Escrituras,
nos fazem relembrar continuamente a grande base de nossa salvação, a saber,
Jesus Cristo em Sua morte e ressurreição, e nos fazem lembrar as obrigações que
temos de andar de modo digno da chamada mediante a qual fomos chamados”. [3].

NOTAS

[1] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed. Mexico: La Antorcha , 1987, p.
736. [2] Quanto à unidade
essencial dos sacramentos do Antigo e Novo Testamentos, veja o testemunho do
apóstolo Paulo em Romanos 4.11; 1Coríntios 5.7; 10.1-4 e Colossenses 2.11. [3]
R. J. Coates, Sacramentos. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo:
Vida Nova, 1986, p. 1435.

Parte XIX
OS SACRAMENTOS
NO BREVE CATECISMO DE WESMINSTER
 Elaborado
no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve
Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de
Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das
igrejas reformadas e presbiterianas.

Segundo o Breve Catecismo, o que é um sacramento? De que maneira ele se torna
eficaz para a salvação? Quantos e quais são os sacramentos do Novo Testamento?
Para muitos evangélicos é provável que não haja dificuldade em responder essas
perguntas. Mas para outros é possível existir uma vaga lembrança acerca do
presente tema ou, até mesmo, desconhecimento total. Os sacramentos não devem
ser vistos como mera formalidade pública. Estudá-los (e principalmente
vivenciá-los) é uma das tarefas mais gratificantes e enriquecedoras que possa
existir.

Portanto, o estudo dos sacramentos deve ser feito no intuito de crescermos na
graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18).
Que o Espírito de Deus nos oriente nesse sentido.

Definição, importância e bênçãos dos sacramentos

Muitas definições poderiam ser dadas sobre um sacramento, mas nenhuma é tão
direta e objetiva quanto a definição do Breve Catecismo: “Um sacramento é
uma santa ordenança, instituída por Cristo, na qual por sinais sensíveis,
Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos
crentes” (Resposta 92). As referências bíblicas que sustentam a excelente
definição do Breve Catecismo são: Mateus 26.26-28; 28.19; Romanos 4.11, dentre
outras.

A importância do sacramento está no fato de ser “uma santa ordenança,
instituída por Cristo”. Indubitavelmente a Palavra de Deus é o mais
importante meio de graça, porém, não podemos subestimar ou diminuir o valor de
um sacramento, visto que foi o próprio Deus quem instituiu os dois (a Palavra e
os sacramentos) como meios de graça. Além disso, Cristo é o conteúdo central
tanto da Palavra quanto dos sacramentos. Um e outro devem ser recebidos pela
fé. E receber a Palavra de Deus e os sacramentos pela fé é, segundo Berkhof,
“o único modo no qual o pecador pode chegar a ser participante da graça
que nos é oferecida na Palavra e nos sacramentos”. O sacramento, além de
ser um privilégio do crente, é um meio de bênçãos espirituais. É por isso que a
negligência voluntária dos sacramentos, por parte do crente, resulta em sérios
prejuízos espirituais, conforme 1Coríntios 11.29,30. De que maneira somos
beneficiados pelos sacramentos? O Breve Catecismo nos ensina que “por
sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados
e aplicados aos crentes”. Segundo Agostinho (354-430), os elementos
sensíveis dos sacramentos são “sinais visíveis de uma graça
invisível”, pois representam a purificação espiritual (At 22.16) que na
realidade é feita no sangue de Cristo (1Jo 1.7), o sacrifício remidor. Selam a
nossa união e vivificação com Cristo. Aplicam as bênçãos da promessa de
pertencermos ao Senhor e nos sustentam, alimentando-nos de Cristo.

A eficácia dos sacramentos

“Como se tornam os sacramentos meios eficazes para a salvação? Os
sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação, não por alguma virtude
que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas somente pela bênção de Cristo
e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem” (Pergunta e
Resposta 91, cf. 1Pe 3.21; Rm 2.28,29; 1Co 12.13; 10.16,17).

Veja que antes de dizer em que consiste a eficácia dos sacramentos, o Breve
Catecismo é cuidadoso ao nos informar sobre o que não torna os sacramentos
eficazes. Em primeiro lugar, os elementos sensíveis ou visíveis dos sacramentos
não têm, em si mesmos, virtude ou poder algum. Sem dúvida a Assembléia de
Westminster tinha católicos e luteranos em mente quando fez a afirmação acima.
Porque ambos (católicos e luteranos) defendem, quanto ao batismo, a chamada
“regeneração batismal”, atribuindo poder regenerador à água do
batismo. Quanto à ceia do Senhor, os primeiros falam de uma
“transubstanciação”, isto é, uma transformação do pão em carne de
Cristo e do vinho em sangue de Cristo. Os luteranos, mais amenos, mas também
anti-bíblicos, enfatizam uma “consubstanciação”, isto é, ensinam que
os elementos da ceia não se transformam em substâncias de carne e sangue,
porém, Cristo está com e nos elementos da ceia, humanamente glorificado.

Em segundo lugar, a eficácia dos sacramentos também não está na virtude
daqueles que os ministram (ex: os pastores). Para os católicos romanos, que
consideram o batismo absolutamente essencial para a salvação, é cruel fazer a
salvação de alguém depender da presença ou ausência acidental de um sacerdote;
então, permitem em caso de emergência que outros batizem, particularmente as
parteiras. Nós evangélicos consideramos válido um batismo quando é celebrado
por um pastor devidamente credenciado. Mas nem por isso a eficácia do batismo
depende do pastor, propriamente dito. Os sacramentos tornam-se meios eficazes
para a salvação “somente pela benção de Cristo e pela obra do seu Espírito
naqueles que pela fé os recebem” (Resposta 91). E assim os sacramentos
fortalecem, confirmam e aumentam a nossa fé e dão testemunho de nossa religião
perante os homens.

Os sacramentos do Novo Testamento

Quando se fala em sacramentos do Novo Testamento, subentende-se que há também
os sacramentos do Antigo Testamento. Os sacramentos do velho Testamento foram a
páscoa e a circuncisão. “Os sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e
a Ceia do Senhor” (Resposta 93, cf. At 10.47,48; 1Co 11.23-26). A igreja
romana aumentou, de maneira injustificada, o número dos sacramentos para sete.
Além dos que foram instituídos por Cristo acrescentaram a confirmação, a
penitência, as ordens, o matrimônio e a extrema-unção. As igrejas evangélicas
não reconhecem os sacramentos de Roma, porque não existe ordem expressa do
Senhor para a prática dos mesmos como sacramentos.

Por exemplo: O crente pode casar-se, mas não recebeu uma ordem de Cristo,
através do Evangelho, para se casar. E embora o matrimônio tenha sido
instituído por Deus, não tem a finalidade de ser um meio de graça. O sacramento
verdadeiro exige uma cerimônia externa, ordenada por Cristo para confirmação de
alguma promessa.

Devemos entender que entre os sacramentos do Antigo e Novo Testamentos existe
uma diferença gradual, mas nunca essencial. Quanto à unidade essencial dos
sacramentos do Antigo e Novo Testamentos, veja o testemunho do apóstolo Paulo
em Romanos 4.11; 1Coríntios 5.7; 10.1-4 e Colossenses 2.11.

A diferença entre os sacramentos do Antigo e do Novo Testamentos é apenas em
grau porque 1) os sacramentos do Antigo Testamento tiveram um caráter nacional,
apesar de sua significação espiritual; 2) apontavam para frente, para Cristo, e
eram selos de uma graça que ainda seria adquirida, enquanto que os sacramentos
do Novo Testamento apontam para trás, para Cristo, e para Sua obra consumada;
3) os sacramentos do Novo Testamento transmitem aos crentes uma medida mais
rica de graça espiritual.
Aplicação

Qual a aplicação prática dos sacramentos para a nossa vida? Coates interpreta
bem o Breve Catecismo quando diz: “Os sacramentos, quando administrados de
conformidade com os princípios estabelecidos nas Escrituras, nos fazem
relembrar continuamente a grande base de nossa salvação, a saber, Jesus Cristo
em Sua morte e ressurreição, e nos fazem lembrar as obrigações que temos de
andar de modo digno da chamada mediante a qual fomos chamados”.

Perguntas Para Recapitulação
1. Que bênçãos os crentes recebem através dos sacramentos?
2. De que maneira os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação?
3. Em quê os sacramentos do AT e NT são iguais? Em quê são diferentes?

Parte XX
SÁBADO OU
DOMINGO: A OPÇÃO CRISTÃ
Milhares de
estudos já foram realizados sobre esse tema de certa forma polêmico. As
opiniões se dividem: de um lado, os que defendem a sacralidade do sábado,
exemplo dos Adventistas do Sétimo Dia; do outro, os demais cristãos, que
consideram o domingo como o dia do Senhor, tendo como principal razão a
ressurreição de Jesus, nesse dia. Vejamos quais os principais argumentos
apresentados pelos dois grupos (sábado, do hebraico shabbath, dia de cessação
do trabalho, de descanso). Em primeiro lugar vamos conhecer o que dizem os
pró-sabáticos:

O sétimo dia foi abençoado e santificado por Deus e marcou o término de toda a
Sua obra criadora (Gn 2.2-3).

O Quarto Mandamento declara que “o sétimo dia é sábado do Senhor teu Deus.
Não farás nenhum trabalho…pois em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o
mar e tudo o que neles há, mas no sétimo dia descansou” (Êx 20.8-11).

Jesus não aboliu a Lei Moral, os Dez Mandamentos, escrita por Deus (Êx 31.18).
A que foi cravada na cruz (Ef 2.15) foi a lei cerimonial composta de ordenanças
e ritualismo, escrita por Moisés num livro (Dt 31.24-26; 2 Cr 35.12; Lc
2.22-23). Os mandamentos morais são irrevogáveis porque perpétuos. Os
mandamentos cerimoniais, para observância de certos ritos, foram ab-rogados
(holocaustos, incenso, circuncisão).

O fato de estarmos sob a graça não nos desobriga da observância da Lei de Deus.
Não é correto dizermos que a graça existiu apenas a partir de Jesus: “…
e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos” (2 Tm
1.9). Não existisse a graça no Antigo testamento, teriam sido salvos pelas
obras Adão, Noé, Moisés, Abraão, Enoque, Isaías, Daniel e outros?

O novo mandamento dado por Jesus (Jo 13.34) não ocupa o lugar do Decálogo, mas
provê os crentes com um exemplo do que é o amor altruísta. Jesus, na qualidade
do grande EU SOU, proclamou Ele próprio a Lei Moral do Pai, no Monte Sinai (Jo
8.58). Ao jovem curioso, Ele disse: “Se queres, porém, entrar na vida,
guarda os mandamentos” (Mt 19.17).
Os que defendem a sacralização do primeiro dia da semana – o domingo – como um
dia santo, de descanso, dedicado ao Senhor, apresentam os seguintes argumentos:

Com a Sua morte Jesus inaugurou uma Nova Aliança. Durante Sua vida terrena,
Ele, judeu nascido sob a lei (Gl 4.4), foi circuncidado e apresentado ao Senhor
(Lc 2.21-22)) cumpriu a Páscoa (Mt 26.18-19), e assim por diante. Todavia, a
partir da cruz, a lei não mais tem domínio sobre nós.

A lei serviu para nos conduzir a Cristo: “Portanto, ninguém vos julgue
pelo comer, ou pelo beber ou por causa dos dias de festas, ou de lua nova, ou
de sábados. Estas coisas são sombras das coisas futuras; a realidade, porém,
encontra-se em Cristo” (Cl 2.16-17). “Mas, antes de chegar o tempo da
fé, a Lei nos guardou como prisioneiros, até ser revelada a fé que devia vir.
Portanto, a lei tomou conta de nós até que Cristo viesse para podermos ser
aceitos por Deus por meio da fé. Agora chegou o tempo da fé, e não precisamos
mais da Lei para tomar conta de nós” (Gl 3.23-25, Bíblia Linguagem de
Hoje).

Diversas passagens bíblicas são citadas pelos defensores da adoração dominical,
para reforçar sua tese de que vivemos sob uma Nova Aliança. A antiga Aliança
cumpriu sua finalidade. Exemplo: “O mandamento anterior é ab-rogado por
causa da sua fraqueza e inutilidade (pois a lei nunca aperfeiçoou coisa
alguma), e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a
Deus” (Hb 7.18-19). E mais: “Pois se aquela primeira aliança tivesse
sido sem defeito, nunca se teria buscado lugar para a Segunda… ela não será
segundo a aliança que fiz com seus pais no dia em que os tomei pela mão, para
os tirar da terra do Egito, porque não permaneceram naquela minha aliança, e eu
para eles não atentei, diz o Senhor. Dizendo nova aliança, ele tomou antiquada
a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido, perto está de
desaparecer” (Hb 8.7-13).

Prestem atenção no seguinte: “Pois Ele [Cristo Jesus] é a nossa paz, o
qual de ambos os povos fez um, e destruiu a parede de separação, a barreira de
inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne a lei dos mandamentos,
que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo
homem…” (Ef 2.14-15). Os pró-sabáticos vêem aí uma distinção entre as
leis cerimoniais de Moisés, e os Dez Mandamentos. Estes não teriam sido
revogados. Os anti-sabáticos, regra geral, não fazem diferença, mas consideram
que os princípios morais dos Dez Mandamentos continuam sendo pertinentes aos
crentes de hoje, porém em outro contexto. Dizem, ainda, que em diversas
ocasiões “mandamentos cerimoniais” eram chamados de lei do Senhor.
São exemplos: holocaustos dos sábados e das Festas da Lua Nova (2 Cr 31.3-4);
Festa dos Tabernáculos (Nm 8.13-18); consagração do primogênito (Lc 2.23-24).

Não prevalece o argumento da perpetuidade da guarda do sábado (“Os filhos
de Israel guardarão o sábado, celebrando-o nas suas gerações por aliança
perpétua” – Êxodo 31.16-17). Outras leis foram classificadas de
“perpétuas” e nem por isso se perpetuaram, como exemplo: a páscoa (Êx
12.24), a queima de incenso (Êx 30.21), o sacerdócio Levítico (Êx 40.15),
ofertas de paz (Lv 3.17), sacrifício anual de animais (Lv 16.29,31,34), e
outros.

Os anti-sabáticos levantam ainda os seguintes argumentos a seu favor: a) os
primeiros cristãos se reuniam e adoravam no domingo (At 20.7; 1 Co 16.1-2); b)
Cristo ressuscitou no primeiro dia da semana (Mc 16.9); c) as aparições de
Jesus pós-ressurreição ocorreram seis vezes no primeira dia da semana (Mt
28.1-8, Mc 16.9-11, 16.12-13, Lc 24.34, Mc 16.14, Jo 20.26-31); d) a visão
apocalíptica de João se deu no dia do Senhor, assim considerado o primeiro dia
da semana (Ap 1.10); o Espírito Santo desceu sobre a Igreja no domingo (At
2.1-4).

Nove dos Dez Mandamentos foram ratificados no Novo Testamento, mas a guarda do
sábado foi excluída. Vejamos: 1) “Não terás outros deuses diante de
mim”(Êx 20.3) = “Convertei-vos ao Deus vivo”(At 14.15); 2)
“Não farás para ti imagem de escultura”(Êx 20.4) = “Filhinhos,
guardai-vos dos ídolos”(1 Jo 5.21); 3) “Não tomarás o nome do Senhor
teu Deus em vão”(Êx 20.7) = “Não jureis nem pelo Céu, nem pela
terra”(Tg 5.12); 4) “Lembra-te do dia do sábado, para o
santificar”(Êx 20.8) = Sem ratificação no NT; 5) “Honra teu pai e a
tua mãe”(Êx 20.12) = “Filhos, obedecei vossos pais”(Ef 6.1); 6)
“Não matarás”(Êx 20.13) = “Não matarás”(Rm 13.9); 7)
“Não adulterarás”(Êx 20.14) = “Não adulterarás”(Rm 13.9);
8) “Não furtarás”(Êx 20.15) = “Não furtarás”(Rm 13.9); 9)
“Não dirás falso testemunho”(Êx 20.16) = “Não mintais uns aos
outros”(Cl 3.9)); 10) “Não cobiçarás”(Êx 20.17) = “Não
cobiçarás”(Rm 13.9). Diante disso, os anti-sabáticos afirmam que a Nova
Aliança não indica um dia especial da semana para o descanso.

Há quem divide o Decálogo em duas partes: 1) Leis cerimoniais ou religiosas, as
que tratam dos deveres dos homens para com Deus (não ter outros deuses; não
fazer imagens, nem adorá-las; não blasfemar, e lembrar do sábado. 2) Leis
morais ou sociais, as que tratam da relação dos homens entre si (honrar os
pais; não matar; não adulterar; não furtar; não proferir falso testemunho, e
não cobiçar os bens e mulher do próximo. A guarda do sábado, como cerimônia,
fora anulada na cruz (Ef 2.14-15; Cl 2.14).

As leis do Antigo testamento, de um modo geral, foram feitas para os judeus,
especialmente para eles. São exemplos: a) “Tu, pois, fala aos filhos de
Israel, dizendo: Certamente guardareis meus sábados, porquanto isso é um sinal
entre mim e vós nas vossas gerações”(Êx 31.12-18); b) “O Senhor,
nosso Deus, fez conosco concerto, em Horebe…com todos os que hoje aqui
estamos vivos” (Dt 5.2-3).

CONCLUSÃO

Na sua Carta Apostólica DIES DOMINI, João Paulo II adota uma postura
conciliadora. Ele não toma partido na discussão dos aspectos moral e cerimonial
dos mandamentos; não alimenta a tese da revogação do sábado na cruz, e
sintetiza: “Mais que uma substituição do sábado, portanto, o domingo é seu
cumprimento, em certo sentido sua extensão e expressão completa no encomendado
desenvolvimento da história da salvação, que alcança real culminância em
Cristo”.

Samuele Bacchiocchi, Ph.D., professor de História da Igreja e de Teologia, na
Universidade Andrews, Estados Unidos, questionou a posição do papa, com o
seguinte comentário: “Nenhuma das alocuções do Salvador ressurreto revela
alguma intenção de instituir o domingo como o novo dia cristão de repouso e
culto. Instituições bíblicas tais como sábado, batismo e ceia têm origem em um
ato divino que as estabeleceu. Mas não existe ato semelhante para sancionar um
domingo semanal como memorial da ressurreição”.

O mandamento do sábado está associado à obra da criação, à saída do povo de
Israel do Egito, e à necessidade de descanso do homem. Vejam: “Pois em
seis dias fez o Senhor o céu e a terra…mas no sétimo dia descansou”(Êx
20.11); “Seis dias trabalharás…mas no sétimo dia não farás nenhuma
obra”(Êx 20.9-10); “Lembra-te de que foste servo na terra do Egito e
que o Senhor, teu Deus, te tirou dali…e te ordenou que guardasses o dia de
sábado”(Dt 5.15).

Sabemos que Deus manifestou sua vontade e promulgou suas leis de forma gradual,
escrevendo-as na consciência (Rm 2.15), em tábuas de pedra (Ex 24.12), mediante
Cristo, a Palavra vivente (Jo 1.14), nas Escrituras (Rm 15.4; 2 Tm 3.16-17), e
em nós, como cartas vivas (2 Co 3.2-3). Tudo dentro do seu tempo e dentro do
contexto do Seu superior plano de salvação. Era imperioso que a saída daquele
povo do Egito e os grandiosos feitos de Deus fossem lembrados de geração em
geração. De igual modo a instituição da páscoa serviu para idêntica recordação.

Em nenhum momento o Novo Testamento ordena o descanso sabático, apesar de
ratificar os demais mandamentos. Aliás, não nomeia diretamente qualquer dia da
semana para adoração e culto. Jesus em várias ocasiões passou por cima da lei
sabática, curando enfermos e permitindo que seus discípulos colhessem espigas
para comer, no dia santo (Lc 13.14; 14.1-6; Mt 12.1,10). Interrogado por isso,
Ele disse: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem por causa do
sábado” (Mc 2.27). Também disse: “Porque o Filho do homem até do
sábado é Senhor” (Mt 12.8).

Os primeiros cristãos adotaram o domingo para descanso, recolhimento espiritual
e adoração a Deus, e chamaram-no de “o dia do Senhor” (At 20.7; 1 Co
16.1-2; Ap 1.10), clara referência ao dia em que o “Senhor do sábado”
ressuscitou. Nada melhor do que seguirmos o exemplo dos apóstolos, guiados como
foram pelo Espírito Santo.

Se judeus ainda não convertidos recolhem-se no sábado para recordarem a
libertação do Egito, motivos bem maiores temos nós para nos recolhermos em
Cristo, no dia de Sua vitória sobre a morte, para darmos graças pela remissão
de nossos pecados e libertação de nossas almas do domínio do diabo.

Sopesados os prós e os contras, entendemos que o dia de descanso e culto pode
recair no sábado ou no domingo, observado o princípio de trabalhar seis dias e
descansar um. Não vemos pecado na consagração do sábado ou do domingo, desde
que o dia escolhido não seja apenas um formalismo. Sábado ou domingo, sem
propósito, não passam de mais um dia de lazer. Da mesma forma, jejum sem
propósito é dieta. Julgamos que a opção pela escolha do dia ficou manifesta nas
seguintes palavras de Paulo:

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou antes, sendo conhecidos por Deus, como
tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis
servir? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos”
(Gl 4.9-10).

“Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber ou por causa dos
dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados. Estas são sombras das coisas
futuras; a realidade, porém, está em Cristo” (Colossenses 2.16-17).

Parte XXI
ORIGENS
TEOLÓGICAS DO PENSAMENTO BATISTA

Definição de ortodoxia:
Aula
apresentada por Elisa Rodrigues, graduada em Educação Religiosa, no curso de
Teologia Contemporânea, ministrado pelo professor Jorge Pinheiro na Faculdade
Teológica Batista de São Paulo, no segundo semestre de 1999
Qualidade de ortodoxo

Doutrina Religiosa considerada como verdadeira
Conformidade de uma opinião com uma doutrina verdadeira.
(MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos,
1998. p. 1510).

Ortodoxia cristã

O cristianismo ortodoxo essencialmente descritivo, trata das bases comuns da fé
cristã reveladas na Bíblia, a despeito das diferenças teológicas criadas a
partir de reflexões humanas. Nesse sentido a ortodoxia na fé cristã, conta com
elementos históricos necessários para a conservação de uma fé comum, que se
caracteriza nos eventos máximos do cristianismo:

Encarnação
Morte
Ressurreição
Ascensão de Cristo
E, se Cristo não ressuscitou logo é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos
vossos pecados. I Cor 15.17.

A ressurreição de Jesus constituía-se em convicção tal que não se podia admitir
que alguém se recusasse a aceitá-la e continuasse a considerar-se como pessoa
cristã. A ressurreição de Jesus constituía-se a rocha da fé confessada por
aqueles crentes. (HORDERN, William. Teologia Protestante ao alcance de todos.
Rio de Janeiro: Junta Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira,
1982. p. 20-21)

A ortodoxia clássica relacionou-se com uma grande teologia. Poderíamos chamá-la
de escolástica prostestante, com todos os refinamentos e métodos que a palavra
escolástica inclui. Assim, quando eu falo de ortodoxia, refiro-me à maneira
como a Reforma estabeleceu-se, enquanto forma eclesiástica de vida e
pensamento(…). É a sistematização e a consolidação das idéias da Reforma,
desenvolvidas em contraste com a Contra-Reforma. A teologia ortodoxa foi, e
ainda é, a base sólida de onde emanaram todos os desenvolvimentos
posteriores(…). A teologia liberal até hoje tem sido dependente da ortodoxia
contra a qual constantemente se rebela. (TILLICH, Paul. História do Pensamento
Cristão. São Paulo: ASTE, 1988. p. 251.)

Cada grupo/divisão cristã apresenta sua própria doutrina, que exprime uma
regulamentação do que seja um modus operandi da vida cristã segundo a
cosmovisão desse grupo em relação a revelação de Deus para o homem.

A ortodoxia conforme o que se disse anteriormente, é o âmago da fé cristã que
contém as bases do pensamento teológico e que, no segundo e terceiro séculos,
expressou-se de modo mais sistemático nos Credos organizados em concílios, como
por exemplo o Credo Apostólico uma refutação ao pensamento gnóstico que
deturpava os ensinamentos a respeito da Revelação de Deus na Criação (matéria)
e em Cristo.

Outros credos foram desenvolvidos em face da necessidade de estruturar e
fundamentar a fé cristã, por isso, os conhecidos credos de Nicéia e Calcedônia.

O pensador, no Ocidente, mais respeitado por sua ortodoxia bem elaborada,
também com caráter de refutação, foi Agostinho que opôs-se a Pelágio.
Basicamente Pelágio defendia a tese que o pecado de Adão prejudicara ninguém
mais do que ele mesmo e, todo homem é livre para escolher entre bem e mal a
qualquer tempo durante sua vida. Contrário a esse conceito, Agostinho afirmou
que o homem tem total propensão ao pecado e que só é livre mediante o ato de
graça de Deus que conduz a libertação.

Essa teoria agostiniana levou à doutrina da predestinação que ganhou ainda mais
força com o advento da Reforma.

Ao surgir da Reforma, a maioria de seus líderes deixou de por em dúvida
qualquer das doutrinas consideradas ortodoxas até aqui delineadas. Lutero, por
exemplo, retomou a doutrina da salvação pela graça, ressaltando-a de modo como
não o fora desde os dias de Paulo. Sua atitude o colocou em conflito aberto com
a doutrina católica concernente à natureza da Igreja e da autoridade de sua
hierarquia. Recusando-se a submeter-se às pretensões de supremacia do Papa,
Lutero entendia residir a autoridade última na Bíblia, interpretada pelo
Espírito Santo operando dentro do coração do crente. Em lugar da hierarquia
católica, ele passou a ensinar a doutrina do sacerdócio de todos os que crêem.
Isto é, nenhum crente precisaria de sacerdote para servi-lhe de intermediário
diante de Deus, com exceção de Cristo, que é o mediador perfeito(…) Calvino
concordou com Lutero e nos legou a primeira Teologia Sistemática. (HORDERN,
William. Teologia Protestante ao alcance de todos. Rio de Janeiro: Junta
Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira, 1982. p. 38).

A Reforma Protestante e o Renascimento:
um contexto de mudanças
Por esse tempo, em que a Reforma fazia estremecer as bases do pensamento
teológico e a igreja, eclodia, já a duzentos anos, o ilustre período histórico
denominado Renascimento que, basicamente, evocava elementos da Roma e Grécia
antiga, contrariando os padrões de conduta e valores da Idade Média. Nesse
sentido, a igreja e a ordem vigente que lhe era outorgada, passava por um duplo
risco: Reforma Protestante e Renascimento.

Em ambos movimentos a autoridade da igreja católica era contestada, sofrendo
grandes críticas quanto a supremacia e a mediação, facilitada pela questão do
latim que só compreendiam os clérigos e, portanto, monopolizavam o conhecimento
de Deus. Com a expansão marítima e o advento dos descobrimentos e o
desenvolvimento da imprensa, a informação tornou-se acessível a uma
considerável gama de pessoas e, tendo sido traduzida a Bíblia em outras línguas
e publicada, o clero já não se fazia imperativo para que a vontade de Deus
fosse sabida e comunicada ao homem. Todos podiam ter acesso ao conhecimento de
Deus por meio da leitura pessoal das Sagradas Escrituras.

Enquanto isso, o Renascimento originou o racionalismo, cosmovisão que
compreende os problemas e situações humanas à luz da razão, dando ao homem
status de auto-suficiência. O homem desse período deixa de pensar e ser
teocêntrico para pensar e ser antropocêntrico. Por esse tempo, séculos XVI e
XVII, a fé cristã ortodoxa é confrontada com os pensadores racionalistas que
depositavam na razão, a confiança de que era a autoridade instiutída mais
provável no processo de conhecimento da verdade.

Os racionalistas, também chamados iluministas por serem contemporâneos do
século das luzes quando idéias brilhantes faiscavam a todo tempo nas mentes
aguçadas dos pensadores não eram irreligiosos, ao contrário do que afirmam,
entretanto, não sendo um movimento de oposição à religião, o Renascimento se
insurgia, de fato, contra a ortodoxia. Desejava-se uma religião, como Kant teve
oportunidade de ressaltar, dentro dos limites da razão. (HORDERN, p. 45).

Mas, como se não bastassem os constantes ataques à ortodoxia por parte dos
iluministas, figura no cenário uma personagem não menos importante: a ciência.

A ciência foi representada inicialmente por dois grandes homens Copérnico e
Darwin que, desfilaram suas teorias científicas impactando o meio religioso.
Respectivamente, a Terra e o homem deixam de ocupar o centro do universo,
tornando-se nada mais que um grão de poeira cósmica e, o homem, detentor de
autoridade provinda de superioridade, foi relegado a posição de animal em
processo evolutivo, nada mais que uma ameba.

A ortodoxia, portanto, defensora do homem enquanto ser criado a imagem de Deus
para glorificá-lo e servi-lo, passa por uma difícil contestação, reforçada
ainda, posteriormente, por Freud no domínio da psicanálise e Nietzche em
filosofia.

Nesse contexto de efervescência intelectual, onde verdades absolutas eram
contestadas e crenças ridicularizadas pela razão exaltada, é que o pensamento
teológico protestante adquire força e começa a desenvolver-se com autoridade,
caráter de resposta as questões levantadas e atitude de contestação.

Considera-se que existem três grupos religiosos originários dos reformadores do
século XVI, são eles:

Os matrizes: luteranos, presbiterianos (calvinistas e zwinglianos), anglicanos
e anabatistas.
Os herdeiros: congregacionais, batistas e metodistas.
Os vice-herdeiros: adventistas, pentecostais.

Dessa forma, podemos considerar fio condutor ou, conjunto de princípios que
lhes são gerais o Solus Christus, Sola Fide e Sola Scriptura de Martinho Lutero
(1483-1546).

As influências sobre o pensamento contemporâneo
Segundo Israel Belo de Azevedo, Denominação(…), é uma forma específica e
histórica que uma igreja toma. No interior do cristianismo, as denominações
podem ser vistas como conjuntos de tradições seguidas por igrejas. Os batistas
integram uma denominação. (AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo:
A formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba: Editora Unimep; São
Paulo: Exodus, 1996. p. 18).

As bases do pensamento teológico contemporâneo devem ser compreendidas à luz do
liberalismo do século XVII que conta com elementos formativos diversos e por
isso, considera-se um sistema de pensamento que prioriza a livre expressão do
ser como exercício prático de uma existência validada nos níveis individual e
social, a partir dos domínios sócio-político-cultural que favorecem por meio da
liberdade, o estado de conscientização que gera o sentimento de realização.
Basicamente, a plataforma teórica desse pensamento encontra-se nas teses do
naturalismo, do racionalismo, do individualismo, do progressismo e do
relativismo… (AZEVEDO, Israel Belo de. ob. cit. p. 19).

Esse pensamento bifurcou-se em várias vias: o liberalismo teológico,
liberalismo político e econômico, diretamente influenciados pelas tendências
daquele momento histórico tudo submetido a crítica da razão e experiência.

Essa nova cosmovisão, como dito anteriormente, legava ao homem não o centro do
universo, mas, à razão, a supremacia capaz de compreender e desvendar todos os
mistérios dos cosmos.

Portanto, os batistas organizaram-se como denominação plantados nos princípios
liberais do século XVII. O resultado dessa reflexão, basicamente,
caracteriza-se na estruturação de igrejas livres em sociedades livres (AZEVEDO,
Israel Belo de. ob. cit. p. 20), que constitui também uma proposta política.

Os batistas ingleses e a busca pela liberdade religiosa

Quadro histórico:
1603
Uma nova era caracterizada pela troca de dinastias: Tudors por Stuarts.
Mudanças no pensamento contemporâneo: Renascimento (mentalidade desperta)
Ampla difusão das Escrituras Sagradas
Crescimento comercial
Ação puritana contra a igreja oficial. Atitude de repúdio as influências do
clero na autoridade monárquica em nome de Deus ; oposição ao totalitarismo
oligárquico da igreja.
Igreja Anglicana dividida.
1604
O rei James I persegue as igrejas protestantes
O rei exige a uniformidade religiosa para manter a ordem social
Afirma-se como autoridade máxima na igreja e estado.
1625
Sucessão imperial: Charles I nova esperança para puritanos e dissidentes
1633
William Laud assume como Arcebispo da Cantuária tornando-se a maior autoridade
eclesiástica inglesa; é também nomeado um dos primeiros ministros e, apoia a
supremacia do rei sobre a igreja e estado
São acirradas as perseguições aos puritanos
1640
Crescem as tensões entre o Parlamento e o rei
1642
A discórdia entre o rei e o Parlamento resultam em revolução armada Exército
Modelo vrs. Partido Puritano (Presbiterianismo) vitória do último
As igrejas separatistas decepcionam-se; princípios de liberdade religiosa não
são adotados
1648
Formação do Protetorado de Cromwell; propaganda das igrejas batistas dão início
às mudanças a favor da liberdade religiosa.

A formação dos princípios da igreja batista
O princípio da liberdade religiosa foi parte integrante da vida e fé dos
primeiros batistas.

(OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Liberdade e Exclusivismo: Ensaios sobre os
Batistas Ingleses. Rio de Janeiro: Horizonal; Recife: STBNB Edições, 1997. p.
78).

Uma das hipóteses em relação a citação anterior, é que a luta pela liberdade
como um bem precioso para o ser humano, é conseqüência das cruéis perseguições
e injustiças cometidas pelo rei para com as igrejas dissidentes; isso porque,
conforme já visualizado no quadro histórico, o poder do estado centralizado na
figura do rei e indiscutivelmente apoiado pela igreja oficial (católica),
intentavam a uniformidade da religião objetivando a supremacia da autoridade.

As chamadas igrejas dissidentes opunham-se a esse intento, buscando exatamente
o contrário: a liberdade religiosa. Por motivos político-econômicos óbvios
detenção e monopolização dos meios de produção e organismos sociais tanto o rei
quanto a igreja não desejam a alteração da ordem vigente.

Por essa época (1610-1612), John Smyth, primeiro pastor batista na Inglaterra,
levantou a bandeira da liberdade de consciência absoluta (OLIVEIRA, Zaqueu
Moreira de. ob. cit. p. 83), eis o início da trajetória batista de interesse e
ação política engajada na busca pela liberdade religiosa.

Origens do pensamento batista
Com relação as origens do pensamento batista, não existem evidências históricas
devidamente documentadas que especifiquem de onde nasceu a reflexão teológica
batista. Na verdade, existem hipóteses divergentes a respeito de suas origens;
conquanto, sabe-se que a Reforma se dera a partir da ação efetiva de Lutero,
Calvino e Zwinglio, logo outros nomes e movimentos foram acrescidos o
anabatismo, o puritanismo e o metodismo (AZEVEDO, Israel Belo de. ob. cit. p.
58) ao protestantismo. Tendo como base os três princípios Sola Fide, Solus
Christus e Sola Scriptura, as teologias desenvolveram-se de acordo com as
interpretações dos diferentes grupos, todavia, o eixo central (…) era
praticamente o mesmo. Todos aceitaram o princípio básico da justificação pela
fé, nada cabendo ao mérito humano, já que a fé é um Dom de Deus e não uma
conquista humana. Mesmo os anabatistas, que tinham preocupações teológicas
menos sistemáticas, concordavam que a salvação era pela fé, embora
reinterpretassem o conceito para incluir nele a noção (um pouco mais mística)
de uma nova vida habitada por Cristo. (AZEVEDO, Israel Belo de. ob. cit. p.
60).

Algumas ênfases teológicas:

Lutero: Teologia Cristológica; Predestinação dos eleitos; igreja como
comunidade dos santos em Cristo; estado como ordenança.
Calvino: Bíblia suprema autoridade; Doutrina da predestinação dupla e
incondicional; igreja como comunidade dos santos em Cristo; estado como
ordenança, sendo dever do estado proteger a religião.
Zwinglio: Interpretação normativa da Bíblia; Predestinação simbólica; Pecado
original como doença moral perdoável a qualquer tempo, salvação pela razão;
igreja como comunidade dos santos em Cristo; aliança entre igreja e estado.
Anabatistas: A Palavra de Deus como fonte experimentada pela iluminação do
Espírito Santo; Regeneração necessária para a vida nova; igreja associação
voluntária de santos; completa separação entre a igreja e o estado. (Baseado em
AZEVEDO, Israel Belo de. ob. cit. p.62).

Anexo 1

Declaração doutrinária (Convenção Batista Brasileira) sobre a Eleição:

Segundo Sua graça imerecida, Deus opera a salvação em/através de Cristo, de
pessoas eleitas (desde a eternidade), chamadas, predestinadas, justificadas e
glorificadas à luz de Sua presciência e de acordo com o livre arbítrio de cada
um e de todos.
I Pe 1.2; Rm 9.22-24; I Ts
1.4; Rm 8.28-30; Ef. 1.3-14.

Todos são eleitos
Deus opera a salvação em/através de Cristo pela sua graça (favor imerecido)
Deus é pré-ciente
De acordo com o livre-arbítrio, desde a eternidade, Deus elege, chama,
predestina, justifica e glorifica

Anexo 2

GUILHERME DELL

Conhecido por suas fortes convicções teológicas a respeito da livre expressão
do ser e defensor ferrenho dos princípios batistas, apesar de não ter ligação
com nenhuma congregação, em 1646, destacou-se pela sua luta a favor da
liberdade religiosa na Inglaterra.

Escreveu o livro entitulado Uniformidade Examinada (…) que postulava a tese
de que a unidade deve existir sem uniformidade, uma vez a última era má e
intolerável excluindo toda a liberdade concedida por Deus. Essa era uma nova
argumentação favorável a liberdade religiosa.

Outra questão estava no fato de que a uniformidade contraria a própria mensagem
de Cristo e forçava a igreja, que é o corpo de Cristo, a portar-se de maneira
externa aos seus princípios, por meio de um poder estabelecido e, sem o aval de
Deus, a religião configuraria-se num movimento anticristão, considerado por
Dell, pior que o paganismo.

Dell usou cada oportunidade que teve para defender liberdade de consciência.
Ele considerou o uso de coação uma invenção humana, algo deletério que não
tinha lugar no reino de Cristo. (OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Liberdade e
Exclusivismo: Ensaios sobre os Batistas Ingleses. Rio de Janeiro: Horizonal;
Recife: STBNB Edições, 1997. p. 104-106).

[Aula apresentada por Elisa Rodrigues, graduada em Educação Religiosa, no curso
de Teologia Contemporânea, ministrado pelo professor Jorge Pinheiro na
Faculdade Teológica Batista de São Paulo, no segundo semestre de 1999].

Parte XXII
A MÃE DO MEU
SALVADOR
“Naqueles dias levantou-se Maria, foi apressadamente à
região montanhosa, a uma cidade de Judá, entrou em casa de Zacarias e saudou a
Isabel. Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, saltou a criancinha no seu ventre,
e Isabel ficou cheia do Espírito Santo, e exclamou em alta voz: Bendita és tu
entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre! E donde me provém isto,
que venha visitar-me a mãe do meu Senhor? Pois logo que me soou aos ouvidos a
voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria dentro de mim.
Bem-aventurada aquela que creu que se hão de cumprir as coisas que da parte do
Senhor lhe foram ditas. (Lc 1.41-45)

O evangelista Mateus cita cinco mulheres na genealogia de Jesus (Mt 1.1-17).
São elas: Tamar, mãe de Farés (v. 3); Raabe, de quem nasceu Boaz (v. 5a); Rute,
mãe de Obede (v. 5b); Bate-Seba, cujo filho foi Salomão (v. 6b), e, por fim,
Maria, a mãe do meu Salvador (v. 16).
É interessante verificar o significado do seu nome. Até porque, entre os
antigos hebreus, a escolha do nome encerra um fato na história pessoal, ou uma
promessa. Assim, Moisés não teve seu nome colocado aleatoriamente. Seu nome tem
sentido. O maravilhoso da história é que tanto tem sentido para o egípcio
quanto para o hebraico. Na língua egípcia, a raiz ms significa “filho” (cf.
Ramsés = “filho de Ra”; Tutmoses = “filho de Tut”); no hebraico, é “retirado”,
no caso, “tirado das águas” segundo o texto bíblico (Ex 2.10). Jesus, que significa
“salvação do Senhor” (Mt. 1.21). Sabiam que Esdras é “socorro, auxílio, ajuda”,
Davi é “amado” e Salomão é “pacífico”? Tinha idéia de que os nomes das noras de
Noeme (cf. Livro de Rute) são, igualmente, muito significativos? A que voltou
para Sodoma, Orfa, era “desleal”; Rute quer dizer “companheira”.

O significado do nome Maria (também grafado Mariam e Miriam) é discutível:
? Há quem identifique duas raízes: uma egípcia e outra hebraica. A egípcia é
MYR, ou seja, “amada”; a hebraica, YA(M) do nome “Senhor”. Seu nome seria,
então, “amada do Senhor”. ? Há quem veja uma raiz descoberta em Ugarite (atual
Ras Shamra), na região costeira da Síria: MRYM significa “altura”, ou, ainda,
“exaltada, excelsa, sublime”. A propósito, em hebraico existe a palavra marom,
que quer dizer, “elevação, importante, alto escalão e excelência”. A partir
desta suposição, seu nome seria “A Exaltada”.

? Outra idéia vem a partir do nome Maryam (Maria) que apresenta duas raízes:
mar = “amargo” (cf Rt 1.20: “Não me chameis Noêmi; chamai-me Mara, porque o
Todo-Poderoso me encheu de amargura”), e yam = “mar”. Daí que Maryam
significaria “mar de amargura”, fazendo alusão ao seu sofrimento como mãe à luz
da Paixão, do padecimento de seu Filho.

? Uma quarta idéia vê a raiz Miry’ com o significado de “gorda”. Que tem
“gorda” com Maria? Muita coisa: para os árabes, ainda hoje, a mulher bonita é a
gordinha, cheinha de carne, pois passa a idéia de que é bem tratada, bem
cuidada pelo marido ou pelo pai. O padrão de beleza não é o da mulher enxuta,
esbelta, corpo de modelo a modo ocidental. Como ser gorda para os semitas é ser
bela, então, “Maria, a que é bela”.

Continuamos sem muita certeza do significado do seu nome, mas uma importante
coisa sabemos: é que há textos no Antigo Testamento que falam profeticamente
desta extraordinária mulher, serva do Deus Vivo, irmã nossa na fé em Jesus
Cristo, e mãe do prometido Messias, mãe do meu Salvador. É o caso de Gênesis
3.15, “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua
descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”; Isaías
7.14, “Portanto o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá,
e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” (texto repetido em Mateus
1.23), e Miquéias 5.2,3, “Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar
entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em
Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da
eternidade. Portanto os entregará até o tempo em que a que está de parto tiver
dado ã luz; então o resto de seus irmãos voltará aos filhos de Israel”.

MÃE DE JESUS – HOMEM (1TM 2.5; GL 4.4)

Sob a inspiração do Espírito Santo, Isabel deu a Maria uma tríplice bênção. O
texto encontra-se em Lucas 1.42,45: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito
é o fruto do teu ventre!… Bem-aventurada aquela que creu que se hão de
cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas.” Por sua destacada,
proeminente, saliente posição entre as demais mulheres, ela seria sempre lembrada.
E sem dúvida alguma, Maria é a mulher mais lembrada do mundo em todas as
épocas. Basta lembrar que na Outra Igreja há toda uma devoção Mariana, ou seja,
em torno desta extraordinária mulher, a mãe do meu Salvador (v.42a); por vir a
ser a mãe do Messias de Israel, do Salvador (v. 42b) e por sua fé nas promessas
de Deus que nela seriam cumpridas(v. 45).

No entanto, a Bíblia não referenda, não homologa, não aceita, não dá o seu aval
a algumas idéias correntes na teologia oficial da Igreja majoritária, nem da
teologia popular (estas observações não visam a atacar a doutrina de outros
grupos religiosos, mas servem de referência ao que se diz e o que se cultua no
nome de Maria):

A expressão de Isabel no verso 43, “…mãe do meu Senhor”, não autoriza a que
seja chamada “mãe de Deus”, “mãe da Igreja”, “mãe da vida nova”, “mãe da
América Latina” ou “Maria Santíssima”, ou seja,
“mais-santa-que-todos-os-demais-santos-de-Deus”. São expressões que não
encontram guarida na Escritura Sagrada,
É agraciada (“cheia de graça”), no entanto, a graça em Maria não é qualidade
particular dela, mas foi-lhe dada pelo Deus da graça.
É “cheia de graça”, mas não “co-redentora”, título, aliás, associado ao tema da
“nova Eva”: já que Jesus é o “novo Adão” de uma nova humanidade (cf. Rm
5.14,17; 1Co 15.21,22,45), ela seria a “nova Eva” dessa nova criação, um
antítipo de nossa primeira mãe.

Maria é a mãe de Jesus, o Messias, é a mãe de Jesus Cristo, é a mãe do homem
Jesus, é a mãe do Filho de Deus, mas não de Jesus-Deus. Pelo contrário, Jesus
rechaçou, com rapidez e veemência, o que poderia ser o início do culto prestado
a Maria. Como diz a tradução do Pontifício Instituto Bíblico “Enquanto ele
assim falava, uma mulher, erguendo a voz do meio da multidão, disse-lhe:
‘Ditoso o seio que te trouxe e os peitos a que foste amamentado!’ Ele, porém,
disse: ‘Ditosos antes os que ouvem a palavra de Deus, e a guardam’” (Lc
11.27,28). Não permitiu que essa devoção fosse adiante.

PARADIGMAS

A mãe cristã tem padrões pelos quais se pautar: O Deus Vivo e Verdadeiro, o
Eterno, que diz, “Sereis santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.16; cf. Lv 11.44;
19.2; 20.7). Sim, Ele diz às mães cristãs, “Cultivareis a santidade em vossos
lares, porque Eu sou santo”.Diz também “Sede vós, pois, perfeitos, como é
perfeito o vosso Pai celestial” (Mt 5.48; cf. Tg 1.3,4; Ef 5.1).

Jesus Cristo. Este é o próximo paradigma, pois “Cristo em vós, a esperança da
glória; o qual nós anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando a todo
homem em toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo”
(Cl 1.27b, 28; cf. Rm 8.29).

As santas mulheres da Antiga Aliança. Esta é uma expressão rigorosamente
bíblica (cf. 1Pe 3.5). Quem são elas? Sara, mãe de Isaque, matriarca do povo de
Israel, que esperou sempre e sempre na fidelidade do Deus das promessas (Hb
11.11), e debaixo da mesma missão do seu marido (1Pe 3.6). É possível que a
irmã venha lutando durante tantos anos com um filho rebelde, fora do evangelho,
com o marido pródigo que abandonou a casa e precisa retornar. Não esmoreça,
minha irmã! Olhe para Sara que esperou, e esperou e esperou até que veio o
cumprimento da promessa. Joquebede, mãe de Moisés, previdente e providente.
Podia ter perdido seu filho na matança dos meninos promovida pelo faraó conforme
relata Êxodo 1.15ss. Com um tremendo senso de oportunidade, preservou a vida do
seu filho. Escondeu-o, soltou-o no rio, e o viu ser levado ao palácio real,
onde foi criado como neto do próprio faraó. Que coisa absurda para o pensamento
humano! (Ex 2.1-4). Ana, mãe de Samuel, a qual, tendo o Senhor ouvido sua
oração (1Sm 1.9-11), consagrou o filho e o entregou a Deus. (1Sm 1.21ss). Foi
considerada uma mulher embriagada, quando estava orando pelo filho que tanto
desejava.

As santas mulheres do Novo Testamento, como Eunice e Lóide, mãe e avó de
Timóteo, portadoras de uma “fé não fingida” (2Tm 1.5). Maria, a mãe de Jesus,
paradigma da mãe cristã por uma série de razões.

Aqui temos Maria, nossa irmã na fé, esposa e mãe. Sim, nossa irmã na fé, pois
não afirmou em Lucas 1.47, “o meu espírito exulta em Deus meu Salvador”? Nosso
comum Salvador? Maria, a esposa: por que a insistência em querer ver em José um
homem idoso casado com uma jovem de 14 ou 15 anos? Essa a idade aproximada de
casamento das jovens no Oriente. Ou, colocando de outro modo, que desonra
haveria em, após o nascimento de seu primogênito, Jesus, como diz o Novo
Testamento (Lc 2.7) ter assumido suas normalíssimas funções de esposa e de mãe
de outros filhos, como também se refere o Novo Testamento (Mt 1.25; 12.47; Jo
7.5). Querem ensinar que os irmãos de Jesus são seus primos. Esquecem-se ou não
sabem que há na língua grega três palavras que não podem ser confundidas uma é
adelfós (irmão), outras são anepsiós (sobrinho) e xederfos (primo). A palavra
utilizada no texto do Evangelho é adelfós, irmão de sangue. Maria como mãe. A
Escritura Sagrada faz referência à unção do Espírito Santo sobre homens desde o
ventre materno, como Sansão (Jz 13.5), Jeremias (1.5), o Servo Sofredor (Is
49.1), João Batista (Lc 1.15), Paulo (Gl 1.15). Mas Lucas ensina que no caso de
Jesus foi além, muito além da unção: foi a Sua própria geração. Jesus não era
um homem ungido pelo Espírito Santo como ocorreu com os outros. Foi, porém, a
própria geração do Espírito. O Espírito Santo não repousou sobre o ventre de
Maria, mas sobre ela mesma, sobre a filha de Sião, a mãe do meu Salvador.
Assim, foi ela mesma alvo dessa graça, da sombra do Espírito sobre si:

“Canta alegremente, ó filha de Sião; rejubila, ó Israel; regozija-te, e exulta
de todo o coração, ó filha de Jerusalém. O Senhor afastou os juízos que havia
contra ti, lançou fora o teu inimigo; o Rei de Israel, o Senhor, está no meio
de ti; não temerás daqui em diante mal algum. Naquele dia se dirá a Jerusalém:
Não temas, ó Sião; não se enfraqueçam as tuas mãos. O Senhor teu Deus está no
meio de ti, poderoso para te salvar; ele se deleitará em ti com alegria;
renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sf 3.14-17).

Então, fica a lição: a plenitude da graça não vem dela mesma, mas da presença
do Espírito Santo em sua vida.

A MÃE DO MEU SALVADOR ]

Quais as destacadas qualidades de Maria?

Mulher de louvor – Guardo com muito carinho a lembrança de, quando criança,
garotinho, ouvir a minha mãe cantando. Ela sempre gostou de cantar: no coro, em
duetos ou em casa nas lides domésticas. São memórias que não se apagam. Não é
para menos no caso de Maria que fosse uma mulher de louvor: pertencia à tribo
de Judá, palavra que quer dizer “louvor” (cf. Lc 2.3-5). Sua sensibilidade
poética fê-la cantar o lindíssimo e inspiradíssimo cântico conhecido como o
Magnificat, o “Cântico de Maria” (Lc 1. 46-55), e que tem sido denominado de “O
Evangelho de Maria”, por representar um resumo da história da salvação. A
propósito, o Magnificat fala mais do que qualquer outra coisa, do caráter da
mãe de Jesus, e de sua capacidade espiritual para seu destino de mulher
agraciada. É, outrossim, exemplo de como a alguém fundamentado, enraizado nas
Sagradas Escrituras são dados olhos e lábios para contar e cantar o que Deus
fez, faz, e continuará fazendo na sua vida como indivíduo e na de seu povo. Só
porque o Senhor poderoso tem feito coisas poderosas é que há boas novas para
serem narradas, e um evangelho a ser proclamado. Foram contadas doze passagens
do Antigo Testamento, sendo que, basicamente, é o “Cântico de Ana” o seu
modelo. Isso reflete profunda piedade e conhecimento das Escrituras, qualidade
adequadíssima à mãe do meu Salvador.

Mulher piedosa – Aceita sem reservas a missão de conceber e dar à luz do Filho
do Altíssimo, o Filho de El Elyon (cf. Lc 1.31,32,38). E, ainda, expressou essa
alegria messiânica do ponto de vista de quem recebeu um imerecido favor. Aliás,
isso é chamado pelos teólogos de graça, o favor que não merecemos mas recebemos
da parte de Deus, palavra que se encontra nos lábios do mensageiro de Deus (Lc.
1.28,30). De profundíssima piedade, segue fielmente todos os atos de sua fé: a
apresentação e a b’rit milah (circuncisão) de seu filho ao oitavo dia (cf. Lc
2.21-24); a aliah (peregrinação) a Jerusalém todos os anos durante a festa do
Pessach (Páscoa) para que Jesus pudesse passar pela cerimônia de ser um bar
miztvah, a profissão de fé judaica (Lc 2.41).

Mulher de oração – Atos 1.14 relata que “Todos estes [os apóstolos] perseveravam
unanimemente em oração, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos
dele”. Precisava ela de energia espiritual, razão porque perseverava com os
irmãos de Jesus, com as outras mulheres (Maria Madalena, Joana, Maria, mãe de
Tiago e outras) e com os apóstolos em intensa e fervente oração.

Que extraordinário ministério das mães (e avós) é o da oração. A propósito, já
fez a oração de entrega de seu filho a Deus? Quer um precedente bíblico?
1Samuel 1.27, 28: “Por este menino orava eu, e o Senhor atendeu a petição que
eu lhe fiz. Por isso eu também o entreguei ao Senhor; por todos os dias que
viver, ao Senhor está entregue. E adoraram ali ao Senhor.” Tem orado pelo filho
rebelde? Veja a promessa de Jó 22.30: “E livrará até o que não é inocente, que
será libertado pela pureza de tuas mãos.” Quantos filhos rebeldes, revoltados,
têm retornado aos caminhos do Senhor pro causa da pureza das mãos e da oração
de suas mães! Por um jovem chamado Franklin, orava a esposa do Pr. Billy
Graham. Ele estava entregue aos maus caminhos. A mãe orava e orava. Ocorreu que
ele abandonou a vida que levava, voltou para Cristo, para a igreja. Hoje é o
Pr. Franklin Graham, que ficou no lugar do seu pai na direção da grande
Associação Evangelística Mundial Billy Graham. Mônica, piedosa cristã da Igreja
Antiga, orou intensamente pelo filho, que era um filósofo. Era também
extremamente entregue à vida mundana. Um dia, Deus colocou diante dele a Carta
aos Romanos. Ele a leu e se converteu. Estou falando de Agostinho, teólogo da
Igreja Antiga e pastor na cidade de Hipona, no norte da África, conhecido como
Santo Agostinho. Escreveu As Confissões, Da Verdadeira Religião, A Cidade de
Deus, Da Trindade, Da Mentira. Lendo as suas confissões, é possível entender o
que ele experimentou na vida, e como teve uma sede tão intensa de Deus que não
pode deixar de mencioná-Lo em praticamente cada página dessa obra.

Tem orado por seu filho que anda com fidelidade nas avenidas da fé, o filho
consagrado? É preciso olhar para o filho que nunca se afastou do evangelho.
Sempre fiel, firme, constante e abundante na obra do Senhor. Se ora pelo filho
rebelde, ore e agradeça a Deus pelo filho que nunca lhe deu trabalho. Afinal,
“desde o dia em que ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que
sejais cheios do pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e
entendimento espiritual; para que possais andar de maneira digna do Senhor,
agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra, e crescendo no
conhecimento de Deus” (Cl 1.9b, 10).

Os quatro Evangelhos, como de resto todo o Novo Testamento, são extremamente
lacônicos sobre Maria, a mãe do meu Salvador. Esse fato deixa claro que
ressaltado deve ser apenas o Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. Maria foi o
canal pelo qual o Filho de Deus veio ao mundo, veio estar entre nós, o
Deus-em-nosso-meio o Emanuel. Somente ao Seu Nome deve se dobrar “todo joelho
dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse
que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.10, 11).

Múcio Teixeira escreveu um inspirado poema onde diz:

Ó mães! Da mãe de Cristo despertais lembranças,
Nessa augusta missão tão cheia de poesia;
Quando embalais ao colo as tímidas crianças,
Eu penso ver Jesus nos braços de Maria.

Vós sois uns anjos bons de amor e de piedade!
Tendes um ninho em flor nos seios virtuosos;
Nos filhos refletis vossa felicidade,
Como um límpido espelho os corpos luminosos.

Vós sois a inspiração primeira dos poetas;
Vós sois o pensamento extremo dos doentes…
Quem antes osculou a fronte dos profetas,
Vindo a cerrar, mais tarde, os olhos dos videntes,
Ó mães! Da minha mãe vós me trazeis lembranças…
Encheis-me de saudade! Eu amo-vos por isto…
Quando embalais, cantando, aos seios, as crianças,
Eu sonho, ver Maria, acalentando o Cristo!

Parte XXXIII
MARIA
(Lucas 1.26-28)
 Desejamos
saudar as mães cristãs ao meditar sobre a mãe de Jesus, nosso Salvador, modelo
de mulher cristã, modelo de mãe, modelo de mãe cristã. Falamos tanto em Pedro,
Paulo, João, Barnabé, ou nas santas mulheres da Bíblia como Sara, Miriã,
Débora, Ester, Maria Madalena, Marta e Maria, Priscila, mesmo a anônima
samaritana, mas esquecemos de voltar os olhos, a mente e o coração para a
mulher de coragem, submissa, dedicada, agraciada, serva de Deus que foi Maria
de Nazaré!

Por outro lado, tentaremos desfazer a idéia errônea de não-evangélicos a
respeito do relacionamento entre os cristãos evangélicos e Maria, nossa irmã na
fé, e mãe do Redentor.

SUA PESSOA

O Novo Testamento tem pouco a dizer sobre Maria. É, na verdade, extremamente
lacônico ao falar de sua vida. Não tem ela lugar de proeminência nos
Evangelhos. Como diz uma autora católica “Parece até ausente do ministério
de Jesus, seu filho” Dois dos evangelistas até deixam de colocá-la no
início do relato (Marcos e João), pois a história da infância de Jesus, os
chamados “Evangelhos da Infância”, somente é relatada em Mateus e
Lucas.

Suas últimas palavras registradas foram as do casamento em Caná da Galiléia
(João 2.3). Fora esse episódio, quantas anotações temos do que falou? Em Mateus
e em Marcos nada foi registrado. Em Lucas, (1) na cena da anunciação (1.34,38),
(2) no Magnificat (1.46-55), e (3) em 2.48 quando Jesus já está com doze anos e
fora levado para se tornar um bar mitzvá . E apesar de todo esse silêncio, a
Outra Igreja procura construir um elaborado sistema de obras de Maria e de
devoção à sua pessoa?!

Seu nome é a forma greco-latina do hebraico Miriam, nome da irmã de Moisés. No
Novo Testamento, é registrada a presença de várias Marias: Maria Madalena,
Maria, irmã de Lázaro e de Marta, Maria, a mãe de João Marcos, Maria, membro da
igreja em Roma, e Maria de Nazaré.

De fato, morava em Nazaré. O Novo Testamento não o afirma, mas o chamado
Proto-evangelho de Tiago declara terem sido seus pais Joaquim e Ana. Tinha
cerca de quatorze anos quando ficou noiva de José, carpinteiro de profissão e
descendente da casa real de Davi, da qual haveria de nascer o Messias.

Lucas descreve a cena do anúncio de haver sido escolhida para mãe do Messias (1.26ss).
O mensageiro de Deus a chama de “agraciada”, ou seja, que ela era
alvo de um favor especial de Deus, e não que fosse fonte de graça. Esse favor,
essa graça especial era ser mãe do “Filho do Altíssimo”, mãe do filho
do El Elyon (cf. 1.32)! Ora, senhoras e moças judias ansiavam pelo privilégio
de ser a mãe do Ungido de Deus, porém Ele não buscou essa moça no palácio de
Herodes nem nas camadas altas da sociedade entre os saduceus; fê-lo entre o
povo, e agraciou uma jovem simples, pobre, surpreendendo, deste modo, a
expectativa e mente de todos (cf. 1Co 1.27). Maria era tão humilde, simples e
pobre que ao levar Jesus bebê a Jerusalém para o consagrar, e fazer o
sacrifício ordenado pela Lei de Moisés (Ex 13 .2; Lv 12.1-3, 6-8), ofereceu
dois pombinhos em vez de um cordeiro (Lc 2. 24).

Aliás, poderia ter dito “não” quando do anúncio, mas não o fez;
poderia ter evitado todo o futuro sofrimento, aceitou-o, porém, com resignação
e entrega absolutas. Suas Palavras o atestam: “Disse então Maria: Eis aqui
a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”. (Lc 1.38a).

Concebeu do Espírito Santo como o diz Mateus 1.18 (cf. Lc 1.35) tornando-se
entre as mulheres a única que pode ser chamada, como o foi por Isabel,
“bendita” por trazer no ventre o “bendito fruto” do Eterno
(cf. Lc 1.42).

IDÉIAS SOBRE MARIA

Dói-nos ter que abordar o que segue; preferiróamos não precisar mencionar
certas questões de teologia popular e, lamentavelmente, também de teologia
oficial a respeito da mãe de Jesus. Nosso objetivo não é atacar ou hostilizar a
crença de ninguém. Mas, sim, examinar o que diz a Bíblia sobre certas atitudes,
doutrinas, dogmas que desvirtuaram o lugar dessa extraordinária mulher cristã,
bendita entre as demais.

As idéias não encontradas na Bíblia são: a imaculada conceição, a sua
virgindade perpétua, a co-redenção, a sua assunção corporal aos céus, o título
“Mãe de Deus”, o culto a Maria. Tudo nasce da pergunta se Maria é
salva ou salvadora. Diz a Bíblia que precisou ser salva, pois a própria Maria o
afirma: “o meu espírito exulta em Deus meu salvador” (Lc 1.47).
Pensar diferentemente leva aos dogmas que a Igreja majoritária tem formulado.

A imaculada conceição. É a idéia que para ser mãe do Salvador que não tinha
pecado, ela mesma teria que ser isenta de pecado. Deus a teria, portanto,
preservado já na sua fecundação da mancha do pecado original. Essa é uma idéia
que não combina com a doutrina da Bíblia que ensina “Porque todos pecaram
e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela
sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.23, 24).

Ter sido escolhida para gerar o Messias não significa ter sido concebida e
nascida sem pecado, nem ter sido a mais perfeita mulher que já viveu. Esse
dogma foi promulgado em 1854 pelo Papa Pio IX.

A virgindade perpétua ensina que a mãe de Jesus foi virgem antes, durante,
depois do parto, e continuou a sê-lo durante sua vida de casada, de esposa e
mãe. Tal doutrina foi definida pelo Concílio Constantinopla II em 553, e
nasceu, sobretudo, do apreço à vida monástica (em franco progresso o
ascetismo), e do menosprezo ao casamento considerado como estado inferior ao
celibato. A insistência católico-romana na virgindade perpétua de Maria
objetiva justificar o celibato dos seus sacerdotes e freiras. A Bíblia, no
entanto, fala diferentemente: chama a Jesus de seu filho
“primogênito” e não de “unigênito” .

Grávida virgem, deu à luz virgem, porém Mateus 1.25 ensina que após o
nascimento (e a purificação subseqüente), passou a ter vida matrimonial
perfeita e absolutamente normal:

“… e não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho; e pôs-lhe o
nome de Jesus”. (Mt 1.25).

E porque não é desdouro ser a mãe do Messias e mãe de outros filhos com seu
marido, o Novo Testamento apresenta os nomes de seus filhos: Tiago, José, Simão
e Judas, além das irmãs não nomeadas (cf. Mc 6. 3). Que divina sabedoria, o
Espírito Santo ter permitido registrar o nome de seus irmãos! Há quem queira
dizer que (1) seriam filhos de José de um casamento anterior, não há, porém,
registro disso; ou primos de Jesus, no entanto, a palavra usada foi adelphos,
pois existe outra, anepsiós que quer dizer “primo, sobrinho”, não
usada aqui pelos evangelistas.

Co-redenção de Maria junto à cruz do Calvário, ou seja, “sócia na obra da
salvação”. Uma coisa é dizer que Maria teve um papel único, exclusivamente
seu na realização do plano de Deus para a salvação da pessoa humana; é dizer
que os fatos da encarnação e do nascimento virginal são de tremendo significado
para a Cristologia. Mas outra coisa é atribuir-lhe função salvífica, papel de
salvadora e obra co-redentora.

Muita lenda tem surgido por falta de informação e estudo da Bíblia. Jesus
ensinou que “errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de
Deus” (Mt 22.29), e por falta de conhecimento da Palavra Santa, há quem
participe da Ceia (Eucaristia) nos cinco primeiros sábados (pois sábado é o dia
do calendário que lhe é dedicado), esperando escapar do inferno sem que se
preocupe com uma conduta digna do nome de cristão. E há quem dedique o dia de
Sábado ao louvor de Maria que, segundo ensinam, visita o purgatório de onde
leva muitas almas para o céu com ela. Quantos erros?! O purgatório?! a salvação
após a morte?! Maria salvadora?!

Diz, no entanto o Novo Testamento: “Porque há um só Deus, e um só Mediador
entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”( 1Tm 2.5).

“Seja conhecido de vós, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus
Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou
dentre os mortos, nesse nome está este aqui, são diante de vós. Ele é a pedra
que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra
angular. E em nenhum outro há salvação; porque deibaixo do céu nenhum outro
nome há, dado entre os homens, em quem devamos ser salvos” (At 4. 10-12).

Assunção. A doutrina é que Maria após a morte teria sido levada corporalmente
para o céu, dogma que foi promulgado em 1950 pelo Papa Pio XII. Nenhum ensino
bíblico há sobre isso.

Maria, “Mãe de Deus”. Dogma definido no Concílio de Éfeso em 431, e
baseado na idéia de que a sua maternidade diz respeito à pessoa inteira de
Jesus. Portanto, se Jesus é homem e é Deus, Maria é mãe do homem Jesus e Mãe de
Deus (?!) Fiquemos alerta que em lugar algum, o Novo Testamento a chama “Mãe
de Deus”. É mãe, sim, do filho de Deus. Nem “Mãe da Igreja”. São
ensinos estranhos ao evangelho. Mas foi “agraciada”, bendita entre as
mulheres, e exemplo corretíssimo de aceitação, obediência, dependência,
submissão, subordinação e serviço a Deus.

O culto a Maria. Diz a doutrina da Outra Igreja que há três tipos de culto:
latria (adoração exclusiva a Deus); hiperdulia (alta veneração só prestada a
Maria); dulia

(veneração aos santos, a lugares e objetos considerados santos). A Bíblia não
se pronuncia sobre nada disso nisso! Ao contrário:

“Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem
esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra,
nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás;
porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais
nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Ex
20.3-5).

A Bíblia não admite adoração a astros, estrelas, seres animais, pessoas humanas
(At 10.25, 26), anjos (Ap 22. 8,9). E cada vez que isso acontecia, Deus exercia
Seu julgamento: é só ler o Livro de Juízes, os sermões dos profetas, ou casos,
como a morte de Herodes (At 12.21-23).

O culto a Maria é uma desonra a Deus por causa da proibição do uso de imagens.
É o problema de se acrescentar algo mais à verdade da Bíblia.

Pois não há sinais de veneração, culto, ou hiperdulia a Maria no Novo
Testamento. Os magos do Oriente não prestaram adoração à estrela, nem a José ou
a Maria, mas a Cristo (Mt 2.11); seus presentes foram dados não a Maria ou a
José, mas a Jesus; os apóstolos nunca oraram à mãe de Jesus nem lhe prestaram
honras especiais; Pedro chamado o primeiro papa, Paulo e Tiago não a mencionam
em suas cartas; mesmo João, que dela cuidou até sua morte, não a menciona (Jo
19.27). Instalada a Igreja no Pentecoste, o nome “dado entre os homens, em
que devamos ser salvos” é o de Jesus (At 4.12). Um caso que poderia ter
sido o primeiro de veneração a Maria foi rechaçado e corrigido na hora por Jesus:

“Ora, enquanto ele dizia estas coisas , certa mulher dentre a multidão
levantou a voz e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos
em que te amamentaste. Mas ele respondeu: Antes bem-aventurados os que ouvem a
palavra de Deus, e a observam” (Lc 11.27, 28).

É chamada “Rainha dos Céus” (Regina Coeli) título monstruoso porque
era dado à deusa da fertilidade de Canaã, Astarte: “Os filhos apanham a
lenha, e os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha para fazerem
bolos à rainha do céu, e oferecem libações a outros deuses, a fim de me
provocarem à ira” (Jr 7.18; cf. 44.17-19, 25).

O culto de Maria iniciou-se após o quarto século.

COMO OS EVANGÉLICOS A VEMOS

Honramos a Maria, mãe de Jesus, com a mesma homenagem que a Bíblia lhe presta:
“bendita entre as mulheres” (Lc 1.42), e reconhecemos que ela foi o
vaso que trouxe a água da vida, Ela não é a água da vida, o pão da vida, o
caminho, a verdade, ou a ressurreição e a vida.

Com todas as gerações nós a chamamos “bem-aventurada” porque cria na
palavra de Deus (Lc 1.48), mas não a deificamos, cultuamos ou oramos a ela. Ao
contrário, com ela cultuamos o Filho de Deus; não cultuamos através dela como
se medianeira fosse. Essa é a ilusão do movimento “Peça à mãe que o filho
atende”, que não tem base na Bíblia, que, contrariamente, ensina “…
tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (Jo 15.16; cf.
14.13, 14). Ou seja, “Peça ao Pai em nome do Filho, que Ele atende”.

Nós a reconhecemos como “bem-aventurada”, ainda, porque na sua
dedicação à vontade de Deus, na sua fé, na sua obediência, é exemplo para nós.
É exemplo e modelo a ser imitado não mais, porém, que outros do Antigo ou do
Novo Testamento.

Nós a vemos como mulher de louvor, oração e piedade. Seu cântico em Lucas
1.46-55, e que se assemelha em forma e conteúdo ao de Ana (1Sm 2. 1-10), é uma
linda página de sensibilidade e profunda espiritualidade.

Atos 1.14 apresenta Maria em oração com outros crentes, sem ter, porém,
autoridade e prioridade sobre o grupo. Piedosa, realizou todos os ritos fixados
pela Lei: a circuncisão, a purificação, a apresentação no Templo, e ano a ano
realizava uma peregrinação a Jerusalém na Páscoa. Após o nascimento de Jesus,
trouxe duas ofertas. Uma era queimada (simbolizava completa rendição à vontade
de Deus); a outra era oferta pelo pecado (cf. Lv 2.22-24; 12.6-8).

Queremos insistir no fato que Maria foi mulher de profunda sensibilidade
espiritual. Sua fé e sua disposição de servir a Deus nos chamam a atenção, por
isso deu uma atenção cuidadosa, à educação de seu filho nas tradições
religiosas do seu povo, o povo judeu.

Mas ela sabia que precisava de um Salvador (Lc 1. 47). Tinha absoluta
consciência de que Jesus era, não só humano, mas também divino e enviado por
Deus (Gl 4.4) . Lucas 2.18 e 51 nos mostram que ela meditava cuidadosa,
profunda e assiduamente sobre seus deveres. É o protótipo da mulher de
reflexão; é o modelo, exemplo da esposa cristã ideal.

Maria deixou um mandamento: “Fazei tudo quanto Ele [Cristo] vos
disser” (Jo 2.5). Confessa ter confiança plena no poder divino do seu
filho.

“FAZEI TUDO QUANTO ELE VOS DISSER”

Que é o que Ele diz? Entre outros ensinos:

“Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, desobedece ao Filho
não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3. 36).

“Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna
e não entra em juízo mas já passou da morte para a vida” (Jo 5.24).

“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e
siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua
vida por amor de mim e do evangelho, salvá-la-á” (Mc 8. 34,35).

Isso significa que é preciso um Salvador pessoal, fé nesse Salvador e
obedecer-Lhe.

Parte XXIV
A Trindade
A palavra “Trindade”
é usada para expressar a verdade bíblica de que o ser divino existe em três
pessoas distintas. Embora o vocábulo “trindade” não apareça na Bíblia, a idéia
percorre todos os livros da mesma.

O primeiro a usar o termo foi o teólogo Tertuliano de Cartago em seu tratado
“Contra Práxeas”, na última década do 2o século da era cristã, além de ter sido
também o primeiro a formular esta doutrina. No entanto, sua definição foi
deficiente, posto que ensinava uma injustificada subordinação do Filho ao Pai.

Não seria demais ressaltar que o verdadeiro sentido da doutrina da Trindade só
pode ser entendido pelo estudo da Bíblia. E foi mediante o estudo sério da
Palavra de Deus que encontramos a seguinte definição do Breve Catecismo de
Westminster: “Há três pessoas na Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo,
e estas três são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória”.

1. A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA

Conforme a definição do Breve Catecismo, Deus é uma Divindade única, existente
em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo.
Estas pessoas não são, como tantas pessoas entre os homens, três indivíduos
inteiramente separados. “São antes três modos ou formas em que existe a
essência divina” (L. Berkhof). “O termo ‘essência’ descreve Deus como uma soma
total de infinitas perfeições” (W. G. T. Shedd).

O mistério real da Trindade consiste no fato de que as três pessoas são um em
seu ser essencial e que a essência divina não está dividida entre as três
pessoas, mas inteiramente, com todas as suas perfeições ou atributos em cada
uma delas. Além disso, em seu ser essencial as três pessoas não estão
subordinadas uma à outra, ou seja, o Pai não é o Filho, o Filho não é o
Espírito Santo, e vice-versa, ao contrário do que ensinava a heresia conhecida
como “patripassionismo”, combatida por Tertuliano. Pode-se dizer, no entanto,
que na ordem de existência o Pai é o primeiro, o Filho o segundo e o Espírito
Santo o terceiro, e essa ordem se reflete também na obra da criação e da
redenção; a saber, na economia da Trindade.

As três pessoas se distinguem por certas características pessoais: O Pai gera o
Filho, o Filho é gerado pelo Pai e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
Esta doutrina é um dos grandes mistérios da fé, e por isso está muito além de
nossa compreensão humana. Portanto, não está ao alcance da Igreja explicar o
mistério da Trindade; ela apenas sistematiza o que a Bíblia diz, formulando a
doutrina de tal modo que se evite os erros e as heresias.

2. PROVAS BÍBLICAS DA TRINDADE

a) No Antigo Testamento
Alguns são de opinião que o Antigo Testamento não contém quaisquer indicações
da Trindade, mas isso não é verdade. É mais correto dizer que o Antigo
Testamento não contém uma revelação completa da existência trinitária de Deus
em relação ao Novo Testamento. Todavia, que o Deus Triúno está presente no AT é
inquestionável.
Há passagens que indicam que existe mais de uma pessoa em Deus, como por
exemplo, naquelas em que Deus fala de si mesmo no plural (Gn 1.26; 11.7);
quando o Anjo do Senhor é apresentado como uma pessoa divina, recebendo
adoração (Ex 3.2-6; Jz 13.12-22; Ml 3.1); e também nas passagens em que se
personifica a Palavra ou Sabedoria de Deus (Sl 33.4,6; Pv 8.12-31). Em alguns
casos menciona-se mais de uma pessoa (Sl 33.6; 45.6,7, compare com Hb 1.8,9), e
em outros Deus fala acerca do Messias e do Espírito Santo, ou o Messias fala de
Deus e do Espírito (Is 48.16; 61.1; 63.9,10). Desse modo, o Antigo Testamento
contém uma clara antecipação da revelação da Trindade, que no Novo Testamento
aparece plenamente desenvolvida.

b) No Novo Testamento
É perfeitamente natural que as provas neotestamentárias sejam ainda mais claras
que as do Velho Testamento, uma vez que o Novo registra a encarnação do Filho
de Deus e o derramamento do Espírito Santo. Há diversas passagens em que as
três pessoas são expressamente mencionadas, como em relação ao batismo de Jesus
(Lc 3.21,22); no discurso de despedida de Jesus (Jo 14.16); na Grande Comissão
(Mt 28.19); na bênção apostólica (2Co 13.13), e também em passagens como estas:
Lucas 1.35; 1Coríntios 12.4-6; 1Pedro 1.2.
O Novo Testamento oferece a revelação clara do Deus que envia seu Filho ao
mundo (Jo 3.16; Gl 4.4; Hb 1.6; 1Jo 4.9); e os dois, Pai e Filho, enviam o
Espírito Santo (Jo 14.26; 15.26; 16.7; Gl 4.6). Encontramos o Pai dirigindo-se
ao Filho (Mc 1.11; Lc 3.22), o Filho se comunicando com o Pai (Mt 11.25,26;
26.39; Jo 11.41; 12.27,28) e o Espírito Santo orando a Deus nos corações dos
crentes (Rm 8.26). Dessa maneira, as pessoas da Trindade se perfilam melhor em
nosso entendimento.

c) Comparação entre o Antigo e o Novo Testamentos
No Antigo Testamento Deus é apresentado como o Redentor e Salvador do seu povo
(Jó 19.25; Sl 19.14; 78.35; 106.21; Is 41.14; 43.3,11,14; 47.4; 49.7,26; 60.16;
Jr 14.3; 50.14; Os 13.3). No Novo Testamento o Filho de Deus claramente se
destaca nessa obra (Mt 1.21; Lc 1.76-79; Jo 4.42; At 5.3; Gl 3.13; 4.5; Fp
3.30; Tt 2.13,14). No Antigo Iaveh habita no meio de Israel e nos corações dos
que o temem (Sl 74.2; 135.21; Is 8.18; 57.15; Ez 43.7-9; Jl 3.17,21; Zc
2.10,11). No Novo o Espírito Santo é quem habita nos crentes (At 2.4; Rm
8.9,11; 1Co 3.16; Gl 4.6; Ef 2.22; Tg 4.5).

3. CONCEITOS ERRADOS SOBRE A TRINDADE

Na Igreja Cristã Primitiva alguns apresentaram as três pessoas da Trindade como
sendo três deuses.

Os sabelianos do 3o século negaram a existência das três pessoas na divindade,
e afirmaram que Deus se revelou como Pai na criação e na transmissão da lei,
como Filho na encarnação e como Espírito na regeneração e santificação. As três
pessoas eram reduzidas em uma.

Paulo de Samosata, também do 3o século, os socinianos da época da Reforma e as
Testemunhas de Jeová do presente, representam a Trindade como consistindo em
Deus Pai, o homem Jesus Cristo e a influência divina chamada Espírito de Deus.
Essa opinião também representa Deus como um, não só no ser, mas igualmente em
pessoa; por isso ignoram o verdadeiro conceito de Trindade.
Que o Espírito Santo nos ajude a viver de maneira que expressemos o significado
do Deus Trino de forma autêntica e segura.

Perguntas de Recapitulação

1. Em que consiste o mistério real da Trindade?
2. Qual deve ser a atitude da Igreja em relação a esta doutrina?
3. Quais são os erros cometidos em relação a esta doutrina?

Parte
XXVCristianismo e Mediunidade
A mediunidade não é doutrina cristã. O Senhor Jesus nunca
ensinou que determinadas pessoas podem ser intermediárias entre os vivos e os
mortos. A Bíblia Sagrada não dá respaldo à tese de que o homem possa “receber”
espíritos humanos superiores ou inferiores para possibilitar comunicação com os
vivos.

Jesus foi médium?

O Senhor Jesus não foi dirigido nem instruído por guias espirituais. Nunca
precisou entrar em transe para falar as verdades que falou. Também nada deixou
psicografado. Suas palavras, ao fluírem de uma mente sã, não entorpecida,
revelavam extrema sabedoria e coerência. Para que Jesus recebesse “espíritos”,
o Pai teria que fazer o mesmo. Disse Jesus: “Porque tudo quanto ele [o Pai]
faz, o Filho o faz igualmente” (Jo 5.19). A recíproca é verdadeira: tudo quanto
o Filho faz, o Pai também faz. Se não consideramos Jesus um mentiroso, devemos
admitir que se o Pai é Criador, o Filho também o é; se o Pai perdoa pecados, o
Filho também perdoa; se o Pai é o Salvador, o Filho da mesma forma, O Pai e o Filho
sabem e conhecem todas as coisas (onisciência e onipresença). Logo, o Pai é
Deus, o Filho também é Deus. Se o Filho, como médium, recebesse “espíritos”,
estaria em desigualdade com o Pai, pois Deus, como espírito, não pode receber
espírito.

O Senhor Jesus resume Sua igualdade com o Pai em poucas palavras: “Eu e o Pai
somos um” (Jo 10.30) e “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Pai e Filho são
uma unidade, semelhantes em natureza, essência e substância. Somente a Trindade
(Pai, Filho e Espírito Santo) possui os atributos incomunicáveis de
onisciência, onipresença, onipotência, eternidade e imutabilidade. Ainda mais:

Pai e Filho são chamados de Criador (Is 40.28; Jo 1.3); Salvador (Is 45.22;
43.11; Jo 4.42); ressuscitador de mortos (1 Sm 2.6; Jo 5.21); Juiz (Jl 3.2; Jo
5.27); Luz (Is 60.1.-20; Jo 8.12); Eu Sou (Êx 3.14; Jo 8.58); Pastor (Sl 23.1;
Jo 10.11); Glória de Deus (Is 42.8; Jo 17.1,5); O Primeiro e o Último (Is 41.4;
44.6; Ap 1.17; 2.8); Redentor (Os 13.14; Ap 5.9); Noivo (Is 62.5; Ap 21.2. cf.
Mt 25.1ss); Rocha (Sl 18.2; 1 Co 10.4); Perdoador de pecados (Jr 31.34; Mc
2.7,10); Adorado pelos anjos (Sl 148.5; Cl 1.16); Senhor (Is 45.23; Fp 2.11).

A identidade por excelência entre Pai e Filho levou o Senhor Jesus a dizer: “Se
vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o
conheceis e o tendes visto” (Jo 14.7). Essas três declarações (Jo 5.19; 10.30;
14.7), dentre tantas outras, como visto acima, são provas inequívocas de Sua
divindade. Nessa condição, imaginar que Ele tenha recorrido a “espíritos” para
ministrar a Verdade é algo impensável. Ele não precisava de verdades vinda do
mundo dos mortos. Ele próprio assegurou: “Eu sou a verdade” (Jo 14.6). Chega às
raias do absurdo acreditar que Jesus e seus discípulos viveram em ambiente de
transes mediúnicos para ouvir as vozes do além.

A Transfiguração foi uma sessão espírita?

Não. Jesus apareceu em glória: “Transfigurou-se a aparência do seu rosto, e a
sua roupa ficou branca e mui resplandecente” (Lc 9.29). Nessa condição, com
corpo glorioso, diferente do seu corpo carnal, Ele conversou com Moisés e Elias
(Mt 17.2). Estes não conversaram com os apóstolos Pedro, João e Tiago: “Eis que
lhes apareceram Moisés e Elias, falando com Ele” (v.3). Os três discípulos
viram a glória celestial de Jesus, ou seja: Deus em corpo humano. Não houve
invocação dos “espíritos”, nem experiências mediúnicas. Transfigurado, Jesus
falou com Moisés e Elias como se estivessem no céu.

Jesus conversou com “espíritos” humanos?

Não. Os seres espirituais são: Deus (Pai, Filho e Espírito Santo), os anjos, os
espíritos humanos, Satanás e os demônios (anjos decaídos). A Bíblia Sagrada
registra conversa de Jesus com Satanás e com os demônios. A conversa mais longa
está no capítulo quatro do Evangelho de Mateus, quando Jesus foi tentado. Ao
final, Jesus sentencia: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu
Deus adorarás, e só a ele servirás” (v.10). Seria Satanás [adversário] um
espírito humano necessitado de ajuda para prosseguir rumo à perfeição? Não. Se
fosse, Jesus o trataria de forma amistosa e o aconselharia a compreender sua
situação de rebeldia: “Tenha calma, espírito desobediente. Chegará o dia em que
alcançarás o clímax e serás tão perfeito quanto eu sou. Largue essa idéia de
querer que eu o adore”. Se os demônios expulsos por Jesus fossem espíritos
humanos, Ele não teria dito: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno,
preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41). Ao dizer “o diabo”, Jesus
definiu e individualizou esse espírito como diferente dos que estava mandando
para o inferno.

Jesus não ressuscitou a Lázaro?

Ressuscitou. Lázaro, que estava morto, voltou a viver. “Então, Jesus disse-lhes
claramente: Lázaro está morto” (Jo 11.14). Desculpem-me pelo óbvio, mas morto
quer dizer morto mesmo, sem vida; quer dizer que o espírito já se separou do
corpo. E depois: “Lázaro, vem para fora. E o defunto saiu…” (vv. 43, 44).
Aquele que estava morto voltou a viver. Lázaro não sofrera um ataque de
catalepsia, estado em que o enfermo fica imóvel, sem atividade motora, mas não
morto. Somente Deus pode dar vida a um corpo morto. Jesus fez isso porque tudo
quanto o Pai faz o Filho faz igualmente. Jesus não precisou de dons mediúnicos.
A mesma coisa aconteceu com o filho da viúva de Naim.

Os homens de Deus mantinham estreita e constante comunicação com os mortos via
mediunidade?

Não. Eles consultavam o Senhor, em obediência ao Senhor: “Quando, pois, vos
disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que
chilreiam e murmuram: Porventura não consultará o povo a seu Deus? A favor dos
vivos consultar-se-á aos mortos?” (Is 8.19). Quem não crê nessa palavra,
procura outros deuses. Os profetas não serviam de canais entre mortos e vivos;
não consultavam espíritos familiares. Os verdadeiros cristãos seguem o mesmo
caminho. Jesus convida os oprimidos para irem a Ele (Mt 11.28).

Os “espíritos” ajudaram José a interpretar sonhos

Não. José deixou claro que a interpretação seria dada por seu Deus: “Isso não
está em mim; Deus dará resposta de paz a Faraó” (Gn 41.16). O mesmo raciocínio
vale para Daniel. Ele interpretou sonhos e decifrou enigmas, não porque tenha
sido ajudado pelo algum “espírito”, mas porque Deus lhe deu graça,
misericórdia, conhecimento, inteligência em todas as letras, sabedoria e
capacidade de interpretar visões e sonhos (Dn 1.9, 17). Convém lembrar que os
homens, em vida ou na morte, não possuem poderes para conhecer o futuro, exceto
se por revelação divina.

A ressurreição de Jesus foi corporal?

Sim. Ressurreição significa voltar a viver. Todos os filhos de Deus que
estiverem mortos por ocasião da vinda do Senhor ressuscitarão (1 Ts 4.16-17).
Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja
morto, viverá. E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu
nisso?” (Jo 11.25-26). Ressurreição corporal significa voltar a viver com o
corpo original. Jesus confirmou tal doutrina. Depois de sua ressurreição, disse
aos discípulos: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo;
apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu
tenho” (Lc 24.39). Depois, como prova adicional, comeu peixe assado com mel
(v.41-43).

As aparições de Jesus ressuscitado não foram manifestações espirituais.
Ressurreto, Ele não mais estava sujeito às limitações da carne. Em corpo
glorioso, podia entrar numa casa e dela sair sem necessidade de abrir portas.
Sabemos que o mistério da encarnação do Verbo excede nosso entendimento.
“Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora
conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (1 Co 13.12).

      

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *