Apostila
(29)
Novo
Testamento
Estudo
Teológico Sobre o Novo Testamento Dividido em XXXI Parte apostila com 160
paginas “… O ANO ACEITÁVEL DO SENHOR”
“…
O ANO ACEITÁVEL DO SENHOR”
Parte
I
 Então,
pelo poder do Espirito, voltou Jesus para a Galiléia, e sua fama correu por
todas as regiões circunvizinhas. Ele ensinava nas suas sinagogas, e por todos
era louvado. Chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou, num dia de sábado, na
sinagoga, segundo os eu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro
do profeta Isaías. Ao abrir o livro, achou o lugar onde estava escrito: O
Espirito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos
pobres. Enviou-me para apregoar liberdade aos cativos, dar vistas aos cegos, por
em liberdade os oprimidos, e anunciar o ano aceitável do Senhor. Fechando o
livro, devolveu-o ao assistente, e assentou-se. Os olhos de todos na sinagoga
estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura
em vossos ouvidos.”
(Lc 4.14-21).
Começa no versículo quatorze uma das extraordinárias narrativas de todo o
evangelho. Jesus está no culto da sinagoga, onde lê Isaías 61.1,2 (acrescido de
58.6). Com essa narrativa, única nos Evangelhos, enquanto Mateus e Marcos dizem
que Jesus anuncia o reino, Lucas mostra que o reino é a Sua realidade, é o
Messias, o Cristo, o Ungido de Deus.

UMA ANÁLISE BREVE

Diferentes critérios podem ser utilizados passar estudar este trecho. Pode
acontecer que alguém tenha uma veia literária, e através dela veja apenas o
aspecto poético de Isaías 61. Observe-se o paralelismo entre os termos
apresentados, entre os versos, por exemplo:

“Porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres”, e
“Restauração de vista aos cegos”.

Porque, praticamente, é a mesma coisa que está sendo dita. Quando diz:

“enviou-me para proclamar libertação aos cativos”, isso é paralelo a
“para por em liberdade os oprimidos”.

É a mesma idéia, portanto. E todo esse paralelismo, encontra o seu ponto
culminante na expressão final: “para proclamar o ano aceitável do
Senhor”, que é o objeto da nossa reflexão.

Pode ser que alguém deixe de lado o aspecto literário, mas queira destacar o
apelo político do que Jesus afirmou, o que, aliás, tem sido bastante explorado.
Busca-se ver o lado político de expressões tão fortes como, “anunciar boas
novas aos pobres”, “libertação aos cativos”, “restauração
de vista aos cegos”, “por em liberdade os oprimidos”. O apelo
político é muito do agrado dos radicais de plantão.

Desejamos, porém, ver a extraordinária lição de apostolado que se encontra no
que Jesus Cristo disse, aplicando a Si mesmo. Enfocamos o embasamento de um
ministério que é repassado à Igreja de Jesus Cristo. Queremos analisar a missão
quer nos foi entregue pelo Senhor, porque vejo que tudo começa com a unção,
visto que nenhum empreendimento em nome de Jesus Cristo subsiste sem a unção do
Espírito Santo; nenhuma empresa em nome do evangelho, nenhuma campanha, nada,
movimento algum pode subsistir em nome de Jesus Cristo se não tiver a unção do
Espirito Santo sobre si. Por essa razão, Jesus leu: “O Espirito do Senhor
está sobre mim”, e daí em diante Ele explica para quê.

Pedro num culto de proclamação do evangelho, na casa de um militar, um oficial
do exército romano, refere-se ao ministério de Jesus Cristo, e afirma:
“Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o
qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus
era com ele.” (At 10:38), o que vai nos conduzir às expressões que definem
a plataforma que vai ser seguida por Jesus Cristo, o Seu programa.

“O Espirito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar
aos pobres. Enviou-me para apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos,
por em liberdade os oprimidos.” (Lc 4.18).

PROFUNDA CARGA EMOCIONAL

“Pobres”. falar de pobreza é uma carga emocional fortíssima. O jornal
A Tarde (de Salvador) vem falando sobre a fome e a desnutrição no estado da
Bahia. Falar de pobreza traz para nós sentimentos tremendamente emocionais;

“Cativos”. Falar de prisão é a mesma coisa. É pesado, é triste, traz
mágoa.

“Opressão”. Há opressão demoníaca neste mundo. O crente é oprimido,
mas não possuído.

Jesus fala de cegueira, e lê essas palavras em Isaías 61, capítulo considerado
como o cerne da mensagem desse profeta. Jesus se identifica com o fato
profético descrito, e demonstra ser Ele mesmo as boas novas; o profeta
escatológico, o proclamador do evangelho; demonstra ser Aquele que traz
libertação para os oprimidos, função eminentemente messiânica.

Para os pobres, para os cativos, para os cegos, e para os oprimidos que são,
não apenas os desafortunados deste mundo, mas todos os que têm necessidade
especial de dependência de Deus (Lc 1.53; 6.20). Ou na expressão do
comentarista de Lucas da

Bíblia do Intérprete,

“o cativeiro a que Jesus se refere (Lc 4.18, 19) é evidentemente moral e
espiritual. O pensamento não se move no plano de abrir portas físicas, para que
os presos saiam], mas livrar os homens da invisível, porém terrivelmente real
prisão de suas almas”.

Na verdade essas palavras de tão forte carga emocional descrevem a falência
espiritual à qual Jesus dá especial atenção.

E no verso 19: “e para proclamar o ano aceitável do Senhor”. Esse ano
a ser proclamado é a era messiânica iniciada nele mesmo, na pessoa e na obra de
Cristo.

No verso 21, verificamos: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu
esta Escritura em vossos ouvidos”. Os contemporâneos de Jesus não
duvidavam que o reino de Deus viria algum dia. Todos criam no reino de Deus.
Mas Jesus está ensinando que Deus está agindo agora, naquele mesmo momento, no
presente, na obra dEle mesmo. E, assim, Ele se torna o centro da História, e
até a História, porque a partir dEle ela passou a ser antes de Cristo (a. C.) e
depois de Cristo (d. C.). O propósito de Deus é tudo colocar sob a autoridade
de Jesus Cristo.

E aqui O temos Senhor da História, agora com a vinda do reino, exaltado,
glorificado nos termos de Mateus 28, final do verso 18 que diz: “foi-me
dado todo o poder no céu e na terra”. E porque recebemos a graça da
libertação, podemos encontrar esta expressão do apóstolo Paulo: “Seja
Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o
presente, seja o futuro, tudo é vosso” (1 Co 3.22), autoridade que nos é
passada por Jesus Cristo.

AS LIÇÕES

O ser humano vive preocupado com o seu salário, com a inflação que parece
querer voltar; com os aumentos das passagens dos ônibus (verdade que agora mais
espacejados), o avanço e engodo das seitas, com o desenvolvimento do país, com
a paz mundial. Pois Jesus traz uma nova compreensão da vida humana, por isso
que, plenamente de acordo com sua plataforma de ação, é o portador da obra
redentora de Deus, e oferece Sua palavra e Suas ações como desafio à nossa
própria fé.

Muitos contemporâneos de Jesus criam que o reino de Deus era só comida e bebida
(Rm 14.12), ou libertação política (Mt 27.39-44; Jo 6.14ss; At 1.6); ou, ainda,
poder temporal (Lc 22.24-30; Mt 20.20). Até os discípulos caíram nesse erro?!
Mas Jesus diz que o reino de Deus já veio em Sua pessoa e dá prova disso (Mt
4.17; 11.1-6; 12.28; Lc 17.20ss). Pois a fraqueza de algumas pregações está na
idéia de que o reino de Cristo ainda virá (pregação do premilenismo e dos
posmilenismo ). Não é isso o que Jesus Cristo nos ensina, e permitam-me voltar
a Lucas 17.20,21 : “Interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o
reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência visível.
Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de
vós.” (Mt 12.28; 3.2). É o reino inaugurado, apesar de que será plenamente
cumprido na Parousia, na Segunda Vinda (Lc 22.18). É aquilo que C. H. Dodd
chamou de “escatologia realizada”, as coisas dos últimos dias já estão
acontecendo e aconteceram na Pessoa de Jesus Cristo.

Quais são as lições que tiramos desses fatos? A primeira é que Jesus Cristo é o
cumprimento das antigas profecias. Apesar de Suas palavras fazerem nascer
opiniões diferentes ou de admiração (Lc 4.22), ou de repulsa (v. 28), Jesus
cumpre as profecias! Apesar se quererem os Seus contemporâneos os sinais do
shalom que Ele traz (v. 23), Jesus Cristo traz a salvação integral, o
verdadeiro shalom, a paz. O apóstolo Paulo diz que “Ele é a nossa
paz” (Ef 2.14).

A segunda lição é que o reino de Deus é Jesus Cristo entre nós, é o Emanuel.
Emanuel é toda uma expressão hebraica, que significa “Deus entre
nós”, “Deus no nosso meio”, “Deus habitando no nosso
meio”, “Deus conosco”. Não é libertação para o futuro, para os
últimos dias, mas Jesus é hoje a boa notícia, a graça , a redenção dos homens.
Jesus glorificado, Jesus Salvador, Jesus senhor, Jesus, o Cristo, é poder
renovador sobre a terra, é salvação para a pessoa humana individual, razão
porque o livro dos Atos dos Apóstolos repete até o fim que a verdade está em
Cristo Jesus, e mostra o modelo da “Plataforma de Nazaré” na
defesa/sermão de Paulo quando fala ao rei Agripa em Atos 26.17,18 :

“Eu te livrarei deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio, para
lhes abrir os olhos, e das trevas os converter à luz, e do poder de Satanás a
Deus, a fim de que recebam remissão dos pecados e herança entre aqueles que são
santificados pela fé em mim”. Tocado por isso, Agripa diz a Paulo,
“Ora, Paulo quase que eu viro cristão” (v. 28 BLH),

e esse foi o seu grande erro, perto do reino, mas sem salvação: “Quase
aceito o evangelho”. O erro de muita gente é um “quase”.

A terceira lição a destacar é que a missão da Igreja é dada por Deus. “A
missão de Cristo [é] padrão e modelo para missão de sua igreja”, diz
Grellert em Os Compromissos da Missão.

“Disse-lhes Jesus de novo: Paz seja convosco! Assim como o pai me enviou,
eu vos envio.” (Jo 20.21). Isso quer dizer que para igrejas que têm como
modelo a missão de Jesus, há necessidade de vidas modeladas pelo mesmo Jesus. E
assim disse João em sua Primeira Carta: “aquele que diz que está nele,
também deve andar como ele andou” (1 Jo 2.6).

“Pois quem conheceu a mente do Senhor, para que o possa instruir? Mas nós
temos a mente de Cristo” (1 Co 2.16);

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus,
que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a si
mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.
E, achando na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a
morte, e morte de cruz.” (Fp 2.5-8);

“Pois os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conforme a
imagem de seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos
irmãos” (Rm 8.29).

Assim, temos que moldar a nossa vida pela de Jesus Cristo. Então, se como nós
afirmamos, Missões é o nosso braço para alcançar este mundo para o Senhor.
Temos o fato de que o Deus vivo é um Deus que envia. Os povos pagãos, vizinhos
de Israel, não tinham deuses que enviavam a qualquer lugar pessoas com uma
mensagem. Mas o nosso Deus é um Deus que envia: Ele enviou Seu Filho ao mundo,
diz a Bíblia; enviou os apóstolos; Jesus Cristo enviou os setenta; e envia a
Igreja; ele mesmo manda o Espírito Santo à Igreja para a unção, e a nossos
corações, por isso Ele nos envia, também ao mundo perdido. “Disse-lhes
Jesus de novo: Paz seja convosco! Assim como o pai me enviou, eu vos
envio.” (Jo 20.21) , “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu
vos enviei ao mundo.” (Jo 17.18).

E aí vem, a quarta lição: é preciso redescobrir a importância da escatologia,
que é o ponto de contato entre a teologia (aquilo que nós cremos), e a missão
(aquilo que nós fazemos). É preciso centralizar tudo na escatologia, porque do
ponto de vista da teologia, se não tivermos uma dimensão de futuro, o evangelho
deixa de ser evangelho e se torna ética: um clube ético, e só. Se não olharmos
para a Segunda Vinda de Cristo, teremos um grupo de idealistas que toda manhã
de domingo vem para cantar, orar, e pronto, idealismo apenas e nada mais.

Agora do ponto de vista de Missões, a escatologia é a sua razão. O Povo de Deus
não pode ter crise de identidade, pois sabe quem Deus é, e sabe que é o povo
desse Deus maravilhoso, Vivo e Verdadeiro! É povo que sabe o que faz! E sabe
para que vive, porque a identidade da igreja como povo de Deus é uma identidade
missionária!

Além disso, o povo de Deus não pode perder a memória. Quanta gente desmemoriada
lá fora! De vez em quando é dito que “O Brasil está perdendo a memória,
destruindo os seus monumentos, e seu passado”. A nossa memória é o Novo
Testamento, é a Escritura Sagrada! A nossa memória são as ações apostólicas, o
que eles fizeram no passado! A nossa memória são os atos da Igreja Primitiva;
como agia, assim queremos agora! O Povo de Deus há de estar padrões acima do
mundo. Que história é essa de querermos nos igualar ao mundo?! E damos um
exemplo: se o mundo vem à Igreja e ouve sua própria música aqui sendo tocada,
onde está o fermento levedando a massa? Se nos colocamos no mesmo pé de
igualdade, ou até abaixo, como vamos elevar os padrões do mundo? Mas Jesus, o
Cristo de Deus, é decisivo e normativo para os assuntos de fé e prática.

Afunilando o assunto um pouco mais, isso vai trazer mais uma lição: é a de que
ninguém pode obedecer às ordens de “ir” ou de “servir” se
não tiver amor. Porque a obra de expansão do reino de Deus não pode ser
realizada com carência de amor. Aí Jesus perguntou a Pedro: “Simão, filho
de João, [verdadeiramente] tu me amas?” (Jo 21.16). E Jesus perguntou
tantas vezes porque Pedro nunca respondia “[verdadeiramente] eu te
amo”, mas tão somente “eu te amo, eu tenho significativa amizade por
ti”. Que significa isso hoje? Sem dúvida, temos três passos no compromisso
nosso com Cristo. Quando Jesus nos pergunta, “Fulano, você verdadeiramente
me ama?”, temos um convite à autoconsciência. Você tem que tomar
consciência de quem é diante de Deus, e deste mundo também. Você representa as
mãos de Deus, os pés de Deus e os olhos de Deus; você é um instrumento de Deus,
um agente do reino de Deus. A segunda coisa é que você tem um convite à
consciência da Pessoa de Jesus Cristo que é o Senhor do nosso futuro, é o
Messias de Deus, é o ungido do Pai, é o Filho de Deus, é o Senhor de nossas
almas, é o Salvador de nossas vidas. Você tem, igualmente, um compromisso. Há
um hino que diz,

“Eis-me submisso pra teu serviço”.

Bonito, não é? Porém, há crentes que parecem que cantam assim:

“Eis-me sumiço…”,

quer dizer, “caio fora, desapareço, não quero compromisso com a Igreja de
Cristo”. Mas temos um convite ao compromisso com a Igreja de Cristo. Um
convite ao compromisso é o que precisa acontecer conosco, nos termos de Romanos
5.8: “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu pôr
nós, sendo nós ainda pecadores”. Que o Senhor nos ajude nesses
compromissos!

Parte
II
PARA
UMA ALMA RELIGIOSA, CURIOSA E CONFUSA
 “Se
alguém não tiver sabedoria suficiente, peça-a a Deus, que a dá a todos de graça
sem humilhar ninguém” (Carta de São Tiago, 1.5, Tradução Interconfessional
dos Franciscanos Capuchinhos)

Estas perguntas, nós as recebemos para que déssemos uma resposta pastoral
dentro da Palavra de Deus. Foram devidamente encaminhadas tanto ao anônimo
consulente quanto ao portal evangélico que no-las enviou. Um amigo leu as
respostas dadas, e sugeriu-nos dar publicidade para ajudar outros espíritos
religiosos, curiosos porém confusos, assim como, nossos irmãos em Jesus Cristo.
O nível é apologético.

“Meus caros irmãos das Igreja Evangélicas, eu sou da Igreja Católica e
gostaria muito que vocês me respondessem a estas perguntas”:

PERGUNTA # 1

“Já que a Igreja Batista, Adventista, Pentecostal, Messiânica,
Presbiteriana, Quadrangular, Deus é Amor, Universal do Reino de Deus, etc… não
têm imagem de nenhum “demônio” como na Igreja Católica, e se vocês
adoram a Jesus Cristo, por que vocês então não se unem e formam uma única
Igreja de Cristo?”

NOSSA RESPOSTA:
Na realidade, caro consulente, só existe uma Igreja de Jesus Cristo. Ela é formada
por todos os salvos, de todos os tempos, de todos os quadrantes da Terra, de
todas as línguas, de todas as raças, de todas as condições sociais, e não é
conhecida por qualquer nome de Igreja particular, Grupo ou Denominação. É um
Corpo que reúne todos os que foram alcançados pela Graça(1) de Deus, unido este
Corpo pela fé a Jesus Cristo, o Filho de Deus, e sem nenhuma cor sectária. A
Igreja de Cristo não é qualquer organização terrena, visível seja do movimento
Ortodoxo em suas diversas formas (Grego, Russo, Ucraniano, Igrejas Orientais,
etc.), dos diversos agrupamentos Católico-Romanos ou de quaisquer grupos
Protestantes e outros Evangélicos (2).

Outrossim, não nos parece que qualquer grupo evangélico, para-evangélico ou
presumido-evangélico tenha acusado as imagens e outros ícones presentes nos
templos, capelas e lares católico-romanos de “demônios”.
Reconhecemos, sim a absoluta falta de ensino bíblico com respeito à veneração
ou culto (mesmo que o seja de dulia ou hiperdulia, visto que na teologia romana
a latria só é devida ao Criador), razão porque o culto anicônico das igrejas
evangélicos é realizado nos moldes do ensino neotestamentário: “em
espírito e verdade” e “racional”(3).

A propósito, vamos desfazer um engano: a assim chamada Igreja Messiânica
Mundial do Brasil não é uma igreja evangélica. É um movimento não-cristão de
origem japonesa, que não tem a Bíblia Sagrada como seu livro de fé. Portanto,
convém não mais relacioná-la com as Igrejas denominadas protestantes nem com as
evangélicas.

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PERGUNTA # 2

“Já que vocês dizem que as imagens que estão na Igreja Católica são
demônios ou ídolos, dêem-me a prova de que elas realmente o são”.

NOSSA RESPOSTA
Pena que sua afirmação está certa somente em parte. Não conhecemos qualquer
afirmação entre os evangélicos de serem as imagens dos templos católicos
“demônios”. No entanto, quem as coloca na categoria de
“ídolos” é a própria edição católico-romana da Bíblia Sagrada num
livro considerado deuterocanônico (nós o chamamos “apócrifo”) e que
não se encontra no Cânon Original, que é o Palestino (escritos os livros em
hebraico e aramaico), e conseqüentemente, também não no Cânon
Protestante/Evangélico. Trata-se do livro de Sabedoria, do qual transcrevemos
uma parte e indicamos outras. Foi utilizada para essa transcrição a edição da
Bíblia Sagrada, traduzida pelo Pe. Matos Soares (4).

Diz o capítulo 13.11ss:
Eis que um artista hábil corta do bosque um tronco direito, e destramente lhe
tira toda a casca,e, valendo-se da sua arte, faz com esmero uma peça útil para
uso da vida(5), e os restos daquela obra emprega-os para cozinhar a comida(6).
E, quanto ao resto de tudo isto, que para nenhum uso é útil, por ser um madeiro
torto e cheio de nós, vai-o esculpindo cuidadosamente nas horas livres, e, pela
perícia de sua arte dá-lhe uma figura, e configura-o à semelhança de um
homem,…

Depois prepara-lhe um nicho conveniente, pondo-o numa parede, e segurando-o com
algum ferro, usando com ele desta precaução, para que não caia, reconhecendo
que não pode ajudar-se a si mesmo, porque é uma estátua e tem necessidade de
auxílio. E, fazendo-lhe votos, consulta-o a respeito dos seus bens, e dos seus
filhos, ou de um casamento.

Não se envergonha de falar com aquele madeiro, que está sem alma; e roga pela
saúde a um inválido, e pede a vida a um morto, e invoca em seu socorro um
inútil; e, para o bom sucesso de uma jornada, recorre àquele que não pode
andar; e para as suas compras, suas empresas, e para o bom êxito de todas as
suas coisas, implora a quem é incapaz de tudo.

Continue lendo o capítulo seguinte, o 14, sobretudo os versos 7 e 8. Veja
também os versos 17 a 20.

O livro do profeta Isaías (46.7,8) tem igualmente uma palavra de condenação
quando exclama:
Levam-no às costas, colocam-no no seu nicho, e ele fica sem se mover do seu
lugar; e ainda, quando clamarem para ele, não ouvirá, nem os salvará da
tribulação Lembrai-vos disto, envergonhai-vos, entrai em vós mesmos.

É ou não, a mesmíssima forma de uma prática de religiosidade encontrada
sobretudo nos países latinos europeus e do Novo Mundo? Veja, ainda, Isaías
44.9-20.

A claríssima recomendação do Novo Testamento e que se encontra no último
versículo da Primeira Carta de São João é: “Filhinhos, guardai-vos dos
ídolos”.

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PERGUNTA # 3

“Eu lhes pergunto quando Deus Todo Poderoso ordenou não fazer imagem,
proibiu se fazer imagens dos homens santos, ou de se fazer imagens de
deuses?”

NOSSA RESPOSTA
Leia o que diz a Bíblia. Vamos reproduzir as palavras da tradução do Pe. Matos
Soares em Êxodo 20.4,5:
Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no
céu, e do que há em baixo na terra, nem do que há nas águas debaixo da terra.
Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto.

Raciocine: há cabimento para qualquer tipo de culto, seja dulia ou hiperdulia?
A proibição é TOTAL: de “homens santos” e de “deuses”
também.

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PERGUNTA # 4

“Para vocês existem ou não os santos Ler 2 Tessalo-nicenses 1,10; Efésios
3,8.

NOSSA RESPOSTA
Do começo ao fim, a Bíblia Sagrada ensina uma Teologia da Santidade. Os textos mencionados
são dois entre centenas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

A pergunta não deve ser se “existem ou não os santos”. A pergunta é
“QUE SIGNIFICA SER SANTO?” Há uma teologia popular e há uma Teologia
Bíblica sobre este assunto. A primeira é incentivada e alimentada por uma
compreensão equivocada do termo e do conceito; a segunda tem um caudal
puríssimo na Escritura Sagrada.

A idéia popular é de que “santo” é alguém que, tendo obtido um
altíssimo grau de bondade, perfeição e virtude, nem precisa passar pelo
Purgatório, onde supostamente se “purificaria” dos pecados
veniais(7). Outrossim, esta “teologia popular” da santificação avança
no imaginário do povo com o conceito de beatificação até se chegar à
canonização. São mais duas idéias não encontradas no Novo Testamento.

Graças a Deus, o ensino bíblico é suficientemente iluminado para não deixar
dúvidas: “Santo é o que está reservado para Deus”. O conceito de
santidade (em hebraico kidshut) está ligado a objetos, eventos/datas, lugares e
pessoas.

A “Arca da Aliança” era chamada Aron haKodesh, ou seja, a Arca Santa,
porque era um objeto reservado, exclusivo do culto a Deus;
o Templo de Jerusalém era nomeado Beith haMikdash porque era um edifício de uso
exclusivo de Javé e Seu Culto;
o povo de Israel era Santo por ser uma nação separada para Deus;
o Shabath, um Dia Santo porque nele só uma realidade interessa: fazê-lo
diferente de todos os outros. Recorde-se do mandamento que regula:
“Lembra-te de santificar o dia de Repouso”. Aproveite e leia o
restante que está em Êxodo 20.7 a 11.
Assim sendo, quem são os “santos”? A resposta da Bíblia Sagrada é que
são aqueles que pertencem a Jesus Cristo, aqueles que foram lavados e
purificados pelo sangue de Jesus (não pelo batismo, o que não é ensino neotestamentário),
aqueles que O receberam pela fé salvadora, outro nome para a fé-adesão,
fé-compromisso, fé-levada-a-sério. A Bíblia chama a estes de “fiéis”,
“santos” e “santificados”, entre outros significativos
epítetos. Leia: 1Coríntios 1.1,2; 2Coríntios 1.1; Efésios 1.1; Filipenses 1.1;
Colossenses 1.1,2.

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PERGUNTA # 5
]
“Pois quando Deus disse em Levítico 19,1: ‘Dirás a toda a assembléia de
Israel o seguinte: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus sou santo’,
Deus estava mandando seu povo ser santo ou demônio?”

NOSSA RESPOSTA
Deus estava ordenando Seu povo, e, por extensão, aos salvos e fiéis da Igreja
de Jesus Cristo a serem diferentes, que é, sem dúvida, a melhor interpretação
para o conceito teológico veterotestamentário expresso pela palavra Kadosh. Ser
uma reserva especial para Deus e Jesus Cristo. A Primeira Carta de São Pedro
(2.5)esclarece:

Vós, também, como pedras vivas sede edificados sobre ele como casa espiritual,
sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por
Jesus Cristo.

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PERGUNTA # 6

“Os homens que seguem a Jesus Cristo, estão ou não estão no caminho da
santidade? Ler: (I Coríntios 7,32-34)”

NOSSA RESPOSTA
Os verdadeiros discípulos já encontraram esse caminho como bênção inicial de
sua vida cristã. Caminhar por Ele é um ato de entrega e de adesão. Ninguém é
salvo por procuração ou representado por outra pessoa como se pratica. A Bíblia
registra as palavras de Jesus Cristo em João 14.6: “Eu sou o Caminho, a
Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Bíblia de
Jerusalém). Os cristãos da Igreja do tempo dos apóstolos eram chamados de
“os do Caminho”. Quem segue a Jesus Cristo busca a vida de separação,
vida de-fazer-diferença-neste-mundo, ou, para usar a palavra bíblica: de
santidade.

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PERGUNTA # 7

“Já que os que seguem a Jesus Cristo estão no caminho da santidade (para
serem santos), será que nenhum homem chegou a alcançar essa santidade, chegou
ou não chegou?”

NOSSA RESPOSTA
Santidade é separação deste mundo, já o vimos. Ao longo da História da
Salvação(8), milhões têm experimentado a santidade como estilo e prática de
vida. Nas ruas de qualquer cidade ou no campo, os santos estão andando e
passando por nós. Eles nos encorajam a tudo suportar pelo amor de Cristo e de
Seu reino.

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PERGUNTA # 8
“Quantas Igrejas de Jesus Cristo existem, pois no Evangelho Jesus diz: ‘E
eu te declaro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja,
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.’ Ler: (Mateus 16,18), Jesus
Cristo não disse no plural: “as minhas igrejas”, Ele disse: a minha
Igreja. Por que será então que existem tantas Igrejas?”

‘NOSSA RESPOSTA
A resposta da Pergunta # 1 cobre, de certo modo, o alcance desta questão. A
Igreja de Jesus Cristo, repetimos, não se identifica com uma Igreja nacional,
um grupo local ou organização religiosa. Não tem um nome específico (Igreja
Católica Apostólica Romana, Igreja Reformada, Igreja Evangélica de Confissão
Luterana, Igreja Presbiteriana do Brasil, Assembléia de Deus – Ministério de
Belém, Igreja Batista Sião, Jovens com uma Missão, Missão Antioquia, etc, etc).
A Igreja Cristo é supranacional, e atemporal; o Corpo Místico de Cristo se
forma de todos os fiéis sem distinção de raça, cor, língua ou filiação cristã.

Um alerta, entanto, se faz necessário: os chamados “fiéis”,
“santos”, “salvos” são aquelas pessoas que, conduzidas pelo
Espírito Santo ao Salvador (Espírito que, como ensina a Bíblia na tradução do
Pe. Matos Soares, convence o mundo “quanto ao pecado, à justiça e ao
juízo”(9), pela fé receberam o perdão para os seus pecados (o Novo
Testamento usa para essa gloriosa realidade o termo justificação)(10). A Igreja
Cristo, Seu Corpo Místico, não é qualquer Igreja nominal (que tem origem e
organização humana, inclusive a Igreja Católica Apostólica Romana, cuja origem
se prende à “conversão” de Constantino, apesar de a história oficial
conta-la diferentemente.

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PERGUNTA # 9

“O que Jesus queria dizer quando disse a Pedro: “Eu te darei as
chaves do reino dos céus: tudo o que ligares na terra, será ligado no céu e
tudo o que desligares na terra, será desligado no céu” ?, e o que
significa ligar e desligar?”

NOSSA RESPOSTA
O versículo mencionado se encontra no contexto de Mateus 16.13-20 que registra
uma pesquisa conduzida por Jesus para saber qual a opinião popular em torno de
Sua Pessoa. Os discípulos respondem que algumas pessoas entendiam que Jesus era
João Batista, outros que seria Elias, o tesbita, outros, ainda, acreditavam que
seria o profeta Jeremias ou talvez um outro dos inflamados pregadores da Antiga
Aliança.
O mesmo versículo aparece em 18.15-22 num contexto de disciplina e perdão no
âmbito da igreja.
Em João 20.23 em instruções que foram dadas aos apóstolos após a ressurreição,
o mesmo ensino aparece ligeiramente modificado.
Paulo em 1Coríntios 5.4,5 expõe um comentário sobre o mesmo tema.
Ligar e desligar são termos técnicos rabínicos que significam
“permitir” e “proibir” uma ação acerca da qual uma questão
tenha sido levantada. Em Mateus 18.18, a ação de “ligar e desligar”
tem a ver com a disciplina exercida pela igreja local, paroquial. 1Coríntios
5.4,5 reflete a excomunhão, exclusão da igreja para mortificação da natureza
carnal.

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PERGUNTA # 10

“Baseado nesta observação: Pedro negou Jesus por três vezes antes de Jesus
morrer. Porém quando Jesus ressuscitou; Jesus confirmou Pedro como primeiro
pastor das suas ovelhas, também por três vezes. Ler: (João 21,15-17), agora me
responda já que Pedro iria morrer um dia, e o seu lugar ficaria vago, o
substituto de Pedro teria ou não teria o mesmo poder que Jesus outorgou a
Pedro? Ler para comparar Atos 1,15-26, e responda”.

NOSSA RESPOSTA
Cremos que será conveniente fazer uma exegese de João 21.15ss para entender
porque Jesus fez por três vezes a pergunta “Simão, filho de João,
amas-me?” para não se cair no pecado de ler o que não foi dito.

O Mestre fez a indagação a Pedro utilizando um verbo e Pedro todo o tempo com
outro. Jesus lhe perguntou: “Simão, filho de João, agaposme? (“Tu me
amas de verdade?”) Pedro responde: “Sim, Senhor, tu sabes que
filote” (Tu sabes que eu tenho amizade por ti). Não é isso o que Jesus
Cristo quer de Seus discípulos.

Não tendo ficado satisfeito com a resposta de Simão Pedro, Jesus repete a
pergunta. A palavra final do Mestre é “Apascenta as minhas ovelhas”.
Não há qualquer indicação (nem por inferência) a um primado de Pedro. Há, sim,
uma dupla lição para os cristãos:

É preciso que cada discípulo de Jesus Cristo tenha uma PAIXÃO pelo Senhor, pelo
Seu reino, pela Sua Causa, pela Sua missão neste mundo (“agaposme?”,
“Amas-me verdadeiramente?”);
É preciso que cada discípulo de Cristo tenha uma MISSÃO, que confiada à Igreja
é repassada a cada um individualmente (“apascenta as minhas
ovelhas”).
Como louvamos a Deus por este e outros espíritos que, religiosos, porém
confusos, são curiosos a respeito de sua fé! Como pedimos que a iluminação do
Seu Santo Espírito revele a verdade eterna, salvadora, purificadora e
santificadora. Que sejam como os bereanos que “de bom grado receberam a
palavra, examinando cada dia nas escrituras se estas coisas eram assim”(At
17.11).

NOTAS
(1) Graça: termo da Teologia que expressa o “o amor que não merecemos da
parte de Deus “. Em Efésios 2.8, o apóstolo S. Paulo repassa o ensino
vindo do Espírito Santo de que “Com efeito, é pela graça que vós sois salvos
por meio da fé; e isto não depende de vós, é Dom de Deus. Isto não vem das
obras, para que ninguém se orgulhe” (TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia,
SP, Edições Loyola com Recomendação de D. Luciano Mendes de Almeida, Presidente
da CNBB).
(2) Protestantes e Evangélicos são realidades distintas, como o prezado
consulente deve ter conhecimento, embora a opinião popular e a mídia os
confunda.
(3) Assim o descreveu Jesus em João 4.23,24, e Paulo, apóstolo, em Romanos
12.1.
(4) 45a ed. SP, Edições Paulinas, 1988.
(5) Ou seja, faz algo de utilidade como um móvel ou prateleira, etc.
(6) A lenha tem utilidade no uso doméstico
(7) Ressalte-se que nem a idéia de um “purificatório” ou
“purgatório” nem a de “pecados veniais” têm substância no
ensino bíblico.
(8) “História da Salvação” (Heilsgeschichte) é termo técnico para
designar desde o evento cósmico e existencial chamado A Queda até o ministério
salvador de Jesus Cristo e as conseqüentes implicações, até a Sua Parusia, a
ressurreição final e a bem-aventurança eterna.
(9) João 16.8.
(10) Leia Romanos 5.1ss.

Parte
III
RELIGIÃO
OU EVANGELHO?
“Pois é pela graça que sois salvos, por meio da fé – e isto
não vem de vós, é Dom de Deus – não das obras para que ninguém se glorie.”
Ef. 2:8,9

Desejamos refletir a respeito de algumas práticas religiosas do passado e do
presente, e compará-las com o evangelho de Jesus Cristo. Observamos que quando
abrimos qualquer livro que aborde a religião dos antigos, ele ensina que estava
essa religião muito mesclada com a superstição.

No antigo Egito, consideravam no seu panteão muitos deuses. Havia deuses para
todos os gostos; havia um centro de cultos na cidade de Heliópolis, a cidade do
Sol. O próprio deus do Sol era Rá, razão porque alguns faraós se consideram
“filho do sol”, adotando o nome de Ramsés, palavra formada de Rá
(sol) e Mses (filho). Animais eram cultuados, o crocodilo (alguns podem ser
vistos mumificados em museus), que era considerado deus da água; o gato, deus
da alegria e do amor; o chacal era o guarda dos túmulos e deus dos mortos; Seu
nome entre os egípcios era Anúbis. E o touro também, o deus Ápis. Quando o povo
de Israel estava no deserto, notando a ausência de Moisés que estava no alto do
monte Sinai, o povo pediu a Arão que fizesse um bezerro de ouro, uma reprodução
do deus Ápis.

Em outras civilizações, encontraremos o mesmo fenômeno. Na Assíria e na
Babilônia, cultuava-se a natureza. O Sol (Shamesh) era cultuado; e havia uma
deusa para a noite, a Lua (Nanna). O céu era cultuado com o nome de Ass; o deus
do ar era Enlil, da água, Enki. A Mãe-terra era chamada Ninhursg, e a rainha do
céu, Innana.

Aliás, Gênesis 1 é uma verdadeira canção marcial. Por isso, no relato da obra
criada parece no verso 11, “E disse Deus: Produza a terra relva, ervas que
dêem semente, e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cuja
semente estava nele, sobre a terra. E assim foi” (1.11). Florestas, e
campos eram cultuadas em Canaã como sendo a expressão da Mãe-natureza. O
retorno à natureza era o grande desejo dos cananeus. No entanto, o Senhor está
dizendo: “Vocês cultuam a natureza, mas Eu sou o Criador dessa natureza
que vocês admitem como deuses”.

Mais adiante lemos: “Haja luminares”. Eles eram cultuados, conforme
vimos, no Egito, na Assíria, na Babilônia. Seres aquáticos foram cultuados: o
peixe (na Filistia, Dagon), as aves (o íbis, no Egito). Em tudo Deus está
dizendo, “Eu criei, enquanto vocês estão se dedicando a esses falsos
deuses”.

Mas não é preciso ir ao passado. Hoje esse tipo de coisa acontece. Na Índia, o
Hinduísmo ensina que a salvação se obtém através das boas obras. E uma pessoa
vai realizando boas obras na sua presente vida e em outras do passado e do
futuro de maneira a alcançar a purificar-se. Naquele país, ainda hoje existe o
sistema de castas. A mais elevada é a dos brâmanes, os sacerdotes. Uma pessoa
da casta dos sacerdotes não se casa com alguém de uma casta inferior. A
seguinte é a dos militares, onde acontece o mesmo. Depois vem a dos
comerciantes, e a dos agricultores, e por fim a dos “zé-ninguém”, o
pária, aquele cuja sombra tocando outra pessoa de casta acima, obriga-a a se
purificar através de um banho porque ficou maculada pela sua sombra.

No sistema hindu, se uma pessoa foi muito pecadora nesta vida, precisa cumprir
a lei do Karma, tem que sofrer muito, e vai nascer numa casta inferior. Se era
da casta militar, mas fez tanta coisa que não prestava nesta vida, tem que
nascer numa casta inferior, como agricultor pôr exemplo. Mas fez tanto nessa
outra condição que vai nascer como pária, e como pária foi tão ruim que pode
nascer como um animal inferior. Por isso não matam animais. A TV Cultura
mostrou o “Templo dos Ratos” alimentados com comida, com leite, e
água levados pelas pessoas, que depois de bebida, e pisada pelos ratos é
passada no corpo dos fiéis. Não é de admirar que na Índia haja uma explosão de
epidemias por essa idéia que têm. Isso é hoje, e nem comem carne, porque a
vaca, que é um animal sagrado, fica solta pelas ruas, atrapalhando,
prejudicando o trânsito, mas ninguém tem a ousadia de matar uma vaca porque é
considerada sagrada.

Entre os nossos índios, ocorre o animismo, a idéia de que cada coisa tem o seu
espírito. Existe o espirito das árvores, o espirito das águas, e o das nuvens,
o espírito disso e daquilo. E cada pessoa que morre transforma-se num espírito
vagante. Há uma cerimônia no Xingu chamada quarup, quando, todos os anos,
derrubam uma grande árvore na da floresta de modo a ser cortada em vários
pedaços que são pintados e enfeitados para a “dança do quarup” que, segundo
eles, faz com que o espírito daquele que morreu se incorpore naquele pedaço de
tronco. Dançam, choram e oferecem presentes pensando estar na alma do seu
parente incorporado. Essa coisa está vindo para o nosso meio. O jornal está
falando de uma psicóloga em Salvador que se intitula Xamã. E ela está trazendo
o Xamanismo como meio de terapia. Xamanismo é feitiçaria, pois em algumas
tribos o feiticeiro, o pajé é chamado xamã. Ë pajelança. Mulher preparada,
ilustrada trazendo a feitiçaria?!

UM INSTINTO RELIGIOSO

Que quer dizer tudo isso? Esses fatos nos dizem que há um instinto religioso na
pessoa humana. Da mesma maneira que você tem o instinto de segurança, e o de
alimentação, tem, igualmente, o instinto religioso que se encontra não só em
cada pessoas individualmente falando, mas também em cada página da história.
Por isso, Jesus disse: “Errais não conhecendo as Escrituras”. E iam
não somente atrás do crocodilo, atrás do peixe, ou atrás do trio elétrico, mas
também atrás do xamanismo, porque pensam, sentem e querem algo que lhes
satisfaça o instinto. E a religião é a expressão organizada desse instinto,
razão porque o ser humano tem feito de tudo um deus: rãs, bois, sol, lua,
árvores, etc. Isso quer dizer então, que todas as religiões sentem a mesma coisa,
ou sejam elas primitivas ou altamente elaboradas. Todas são motivadas porque o
ser humano necessita de Deus.

O EVANGELHO

Mas há algo diferente e especial no evangelho de Jesus Cristo: enquanto as
religiões são motivadas pelo instinto religioso do ser humano o evangelho é
motivado pelo amor de Deus. Que extraordinária diferença! Voltando à Escritura,
encontramos o texto que diz “pela graça sois salvos, por meio da fé; e
isto não vem de vós, é dom [é presente que vem da parte] de Deus”( Ef.
2.8).

O cristianismo tem suas raízes no conceito de salvação, o que significa que
nada que você faça, nada, absolutamente nada lhe pode dar a salvação. Somente a
graça de Deus pode salvar. É o que diz aqui: “Pois é pela graça que sois
salvos, por meio da fé – e isto não vem de vós, é Dom de Deus” (Ef. 2.8).

Que ensinam os outros sistemas religiosos? Todos dizem que você precisa fazer
alguma coisa para obter a salvação. Há os que dizem que você precisa realizar
boas obras. “fora da caridade, não há salvação”, dizem eles. Mas a
Bíblia diz “não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef. 2.9).

Há os que dizem que vem através dos rituais, das rezas, das penitências. Está
registrado no livro dos Atos dos Apóstolos o discurso que Paulo fez diante dos
intelectuais em Atenas, afina flor dainteligentzia ateniense. No meio do
discurso ele citou,
“Homens atenienses, em tudo vejo que sois muito religiosos. Pois passando
eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito:
AO DEUS DESCONHECIDO… Portanto, sendo nós geração de Deus, não havemos de
pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra
esculpida pela arte e imaginação do homem. Mas Deus não levando em conta os
tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todos os lugares se
arrependam” (17: 22,23 a 29, 30).

Então vejam o interesse do evangelho não é que os deuses sejam aplacador, não é
que se façam doações, ou rituais pelos quais espíritos sejam tranqüilizados,
mas quer você seja salvo dos seus pecados, razão porque é perfeitamente correta
a afirmação “O Cristianismo é uma religião de redenção.”

Parte
IV
OS
OBJETOS DA PAIXÃO

Lucas 24. 13-35
 “Em
seguida, os soldados do governador, conduzindo Jesus ao pretório, reuniram em
torno dele toda a corte. E despindo-o, cobriram-no com um manto escarlate, e,
tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça. Na mão direita puseram um
caniço e, ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos
judeus! E, cuspindo nele, tiraram-lhe o caniço, e batiam-lhe com ele na cabeça.
Depois de o haverem escarnecido, tiraram-lhe o manto, vestiram-lhe as suas
vestes. E o levaram para ser crucificado” (Mt 27.27-31).

A rotina da crucificação havia começado. O verso 26 declara que depois de todo
o sofrimento moral de Jesus, Pilatos, o Governador romano, mandara açoitá-lo.
Depois da prisão (Mt 26.47ss), depois da passagem pelo Superior Tribunal
Judaico (vv. 57ss), depois da negação de um dos Seus discípulos (26.69ss),
depois do questionamento pelo Governador (27.11ss), Jesus é entregue aos
soldados romanos (vv. 26,27; Jo 19.1-3).

Agora é a vez dos soldados. Diz a Bíblia que Jesus foi despido e chicoteado (v.
28). Na realidade, foi flagelado. O flagelo ou açoite consistia de uma tira de
couro largo com pedacinhos de osso e chumbo. Era comum o seu uso antes da
crucificação de um condenado, quando o corpo ficava reduzido a uma só chaga.
Alguns morriam durante a sessão de tortura; outros ficavam loucos, e poucos
permaneciam conscientes. Pois Jesus foi entregue aos soldados, enquanto os
últimos detalhes da malfadada pena eram preparados.

Há no relato acima transcrito (Mt 27.27-31) alguns objetos que chamam a
atenção: o manto real, a coroa real, o cetro real e a cruz.

O REI ESCARNECIDO (Mt 27.27-31)

O Manto Escarlate.

João, em seu Evangelho, dá-nos o detalhe da flagelação, o que não é encontrado
nos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Encontra-se em 19.1-3. Após a sessão de
flagelação, foi Jesus entregue para ser cumprida a pena.

Diz a narrativa que os soldados fizeram uma paródia de um rei ao vestirem-no
com uma capa vermelha (tirada de um deles), ao colocarem na Sua cabeça uma
coroa de espinhos, e ao lhe darem um pedaço de caniço como se fosse o cetro de
um rei. Continua o texto por dizer que Pilatos chegou a ter um momento de
consciência (v. 4), para logo depois sair trazendo Jesus com a coroa de
espinhos e o manto escarlate a fim de apresentá-lo ao povo sedento de
violência, de sangue, do castigo sobre alguém.

A Coroa de Espinhos (v.29)

O próprio Jesus já havia anteriormente falado em espinhos (Mt 7.16; Mc 4.7). Os
galhos com espinhos eram largamente usados como cercas (como as nossas de arame
farpado), e como combustível (nos fogões de lenha).

Coroas, havia-as de todo tipo: de ramos de louro como símbolo de vitória entre
os gregos e os romanos; havia coroas de ouro e de pedras preciosas. De
espinhos, porém, só de brincadeira, brincadeira de mau gosto; de espinhos, só
mesmo as de uma mascarada, como é o caso no episódio da prisão de Jesus.

A coroa, o manto e caniço feito cetro eram simbólicos do reinado de Cristo, do
Rei dos reis feito Servo Sofredor. Apontavam para o futuro reino (Ap 17.4),
embora o significado óbvio e original da coroa de espinhos tivessem sido a
evidência da crueldade, brutalidade e zombaria da soldadesca. Por outro lado, o
significado figurado e profético da coroa de espinhos é o símbolo do ministério
terreno de Jesus Cristo, representando, ainda o caráter do evangelho: a
humildade, a contrição, o arrependimento e a servidão, ao tempo que de paz,
vitória e poder.

O SERVO SOFREDOR: A CRUZ (Lc 23.33-46)

Relatam os historiadores que a crucificação teve sua origem entre os persas.
Destes passou aos cartagineses (povo de Norte da África de origem fenícia) e
deles para os gregos e romanos. Narra a história que Alexandre, o Grande, certa
ocasião ordenou que cerca de dois mil habitantes de Tiro, na Fenícia, fossem
crucificados. O governo romano a usava com os rebeldes, escravos fugidos e
criminosos.

O método da crucificação é retratado com clareza nos Evangelhos: o criminoso,
já uma massa sangrenta por causa dos açoites, se resistisse era colocado na
cruz para morrer de fome, sede, calor, fadiga e choque. Os que resistiam
ficavam na cruz, às vezes, por dias, sujeitos à tortura das moscas e mosquitos
nas feridas abertas e dos elementos: chuva, poeira, vento e Sol, além da dor
física e moral. Foi isso o que Jesus sofreu por nós: dor e zombaria.

O criminoso era levado pelo caminho mais longo de modo a ser visto pelo maior
número de pessoas. Foi isso o que Jesus sofreu pelo ser humano. No entanto, a
cruz significa a obra salvadora de Jesus Cristo. Paulo afirma que o evangelho
da salvação é a palavra da cruz de acordo com 1Coríntios 1.18.

NO GÓLGOTA, TRÊS CRUZES (Lc 23.33-46)

A Cruz de Desprezo (v. 39). É a blasfêmia em pessoa o criminoso ao lado
esquerdo de Jesus que se reúne às autoridades, aos soldados e ao povo que
descrê de Jesus e dEle escarnece. A zombaria se centralizava nas afirmações
feitas por Jesus e Sua aparente impotência na cruz.
Usavam a glória de Cristo para fazer mofa, como já haviam zombado de Sua
realeza. O General Booth, fundador do Exército da Salvação, expressou com muita
propriedade, “é precisamente porque Cristo não quis descer que nEle
cremos”.

A Cruz da Confiança (v. 42). O criminoso do Seu lado direito, o penitente, o
arrependido, após recriminar o escárnio de seu companheiro, volta-se para Jesus
numa atitude de fé, precisamente a atitude que torna possível a salvação.

A Cruz do Perdão (v. 43). É a da redenção, da libertação. Observemos que Jesus
não desceu da cruz, levando consigo o malfeitor arrependido. Não havia sentido
em fugir à morte. Pelo contrário, a morte é apresentada sob uma nova luz, visto
que é necessária para que se cumpra a promessa que fizera ao criminoso
penitente. A morte não é uma derrota, mas experiência necessária para entrar na
glória.

Oh, cruz do perdão!… O verso 34 expressa, “Pai, perdoa-lhes, porque não
sabem o que fazem”. O perdão cristão é assombroso. Estevão também exclamou
nos seus momentos finais, “Senhor, não lhes imputes este pecado”;
Paulo instruiu os irmãos de Éfeso, “Antes sede uns para com os outros
benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos
perdoou em Cristo” (Ef 4.32). O perdão de Jesus aos Seus juízes e
carrascos é, sem dúvida, impressionante.

Ainda na cena da crucificação, a suprema lição de que nunca é demasiado tarde
para vir a Cristo exemplificado pelo criminoso em seus momentos de agonia.

Parte
V
A
DÚVIDA DE JOÃO
De acordo com o dicionário Caldas Aulete, dúvida significa:
“Incerteza, vacilação, hesitação da inteligência entre a afirmativa e a
negativa de um fato, ou de um asserto, como verdadeiro”. Mateus relata que
“Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus
discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de
esperar outro?” (Mt 11.2,3). Alguns intérpretes acham que não foi João
Batista quem duvidou se Jesus era ou não era “aquele que estava para
vir”, mas tão somente os discípulos dele (de João). Ele os enviou a Cristo
a fim de que a dúvida deles fosse dissipada. Contudo, essa não parece ser uma
interpretação segura. A afirmação de Jesus, “Ide e anunciai a João”
(Mt 11.4), confirma que era João mesmo quem tinha a dúvida.

Em que consistia a dúvida de João? Os judeus tinham a idéia de que o reino
vindouro do Messias seria um reino militarista, nacionalista e materialista. Os
judeus pensavam que quando o Messias chegasse haveria de firmar-se como um
grande Monarca, o qual haveria de libertá-los de toda a sua escravidão, e que
elevaria os judeus acima de todos os demais povos, através do que se tornariam
eles a raça conquistadora e proeminente. O próprio João Batista parece ter-se
apoiado nesse conceito quando enviou seus discípulos para fazerem a Jesus a
referida pergunta. É como se ele tivesse mandado dizer: “Eu sei tudo sobre
esses milagres que tu fazes, mas quando terá lugar aquele grande
acontecimento?”.

Jesus respondeu a João citando as Escrituras (Mt 11.4-6), como costumeiramente
fazia. Em que sentido era alentadora esta resposta? Não é verdade que João
Batista já sabia tudo isto (cf. Mt 11.2), e que o fato de o saber havia
contribuído substancialmente para criar a dúvida? É verdade, porém, a forma de
Jesus se expressar era nova. Era nova no sentido de que os amigos que
informaram João dos milagres de Cristo não havia usado este tipo de formulação.
Por outro lado, a mensagem na forma em que Jesus a expressou tinha um som
conhecido. João devia recordar-se de certas predições proféticas; a saber,
Isaías 35.5,6; 61.1. É como se Jesus dissesse ternamente a João: “Você se
lembra destas profecias? Isto também foi predito acerca do Messias. E tudo isso
está se cumprindo hoje em mim”.

A mensagem dirigida a João Batista termina com as palavras: “E bem-aventurado
é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mt 11.6). Ou seja, quem
não permite que nada do que faço ou diga lhe sirva de laço, o induza a pecar.
Ainda que seja correto o ponto de vista segundo o qual nesta admoestação Jesus
estivesse repreendendo João, a repreensão (se é que houve) era tão terna que
não eclipsava em nenhuma forma o amor do Senhor por seu discípulo
momentaneamente confuso. Na verdade, considerada corretamente, a admoestação
contém uma bem-aventurança. “Bem-aventurado é aquele que…”. O
Senhor trata tão ternamente a João como o fez com o cego de nascença, a mulher
pega em adultério, Pedro, Tomé, etc. Em vista do modo em que Jesus
imediatamente procede a elogiar João publicamente, e a repreender aqueles que
vêem falta neste arauto e nAquele de quem ele deu testemunho (Mt 11.7-19),
temos como certo que a mensagem de Jesus teve o efeito desejado em João. Porém,
o que se destaca é a sabedoria e a ternura de Jesus, e isto tanto na mensagem
de alento dirigida a João como no testemunho dado acerca de João.

Parte
VI
A
FÉ QUE FALA (E NÃO FALA)

Tiago 3:1-12
Certa vez William Shakespeare comentou, “Quando palavras são
raras, não são gastas em vão.” Outro erudito disse, “Homens sábios
falam porque têm algo para dizer; tolos, porque gostariam de dizer algo.”
Um ditado filipino aconselha, “Na boca fechada, não entra mosca.” Os
árabes oferecem esta jóia de sabedoria: “Tome cuidado que sua língua não
corte seu pescoço.”

Salomão em Provérbios nos adverte, No muito falar não falta transgressão, mas o
que modera os seus lábios é prudente (Pv. 10:19)

Capítulo 3 de Tiago nos coloca na parede e nos desafia a viver uma fé genuína,
verdadeiramente cristã. No final do cp. 2, Tiago nos mostrou como a fé
verdadeira manifesta-se inevitavelmente em obras. Agora, no cp 3, ele mostra
que “obras” não são somente o que fazemos, mas também o que falamos.
E não somente o que falamos, mas o que NÃO falamos!

A língua é um músculo com sua origem no coração. Por isso a língua talvez
revele o verdadeiro estado do nosso coração mais rápido que qualquer outra
prova de fé genuína listada por Tiago. A língua sou eu. Eu sou o que a língua
fala! Às vezes, soltamos uma palavra tão pesada, que cheira mal, e depois
exclamamos, “De onde veio aquilo?” Mas o fato é que somos assim
mesmo. Abaixamos a guarda e revelamos o verdadeiro eu, mesmo que só por um
instante. Assim como Jesus disse, a boca só fala do que o coração está cheio
(Mt 12:34). A língua é o dreno do coração! A língua serve como escape daquilo
que está borbulhando no coração. Por isso, dizemos que É impossível domar a
língua

Se Jesus não domar o coração!

Essa é uma mensagem tão simples, mas que precisamos ouvir todos os dias de
nossas vidas. O propósito de Tiago é que sejamos mais sensíveis ao poder
incrível da língua, e deixemos que Jesus peneire nossas palavras, filtre nossa
fala e lacre os nossos lábios. Veja o poder da língua em Tiago 3.1-12:

I. A Língua tem Poder para Dirigir (3:1-4)

A língua é poderosa. Esse poder pode ser para o bem ou para o mal. Talvez, por
ser tão potente, Deus prendeu a língua atrás de duas fileiras de dentes e
dentro de uma caverna fechada. Tiago nos lembra que a língua tem um enorme
potencial para direcionar vidas.

A. Por quem muito é falado, muito será julgado (3:1,2)

No contexto destas palavras a Igreja primitiva lidava com a valorização e poder
dados a quem ensinava e direcionava os novos grupos de crentes que se formavam.
Mas isso representava um perigo. A nova liberdade em Cristo, que incluía
liberdade para falar em culto público, precisava ser bem manejada (1 Co
14:26-34). Assim como Tiago nos lembrou no cp 1, “Todo homem, pois, seja
pronto para ouvir, tardio para falar… “(vs 19).

Os leitores precisavam ficar cientes da seriedade de presumir falar em nome do
Senhor.
Conforme o ditado, Quem presume dizer, “Assim diz o Senhor, Deve fazê-lo
com temor e tremor.”

Tiago não quis minimizar ou desencorajar os dons de falar na igreja (Hb 5:12,
Ef 4:11,12; 1 Pe 4:10,11). Sua advertência é totalmente coerente com o
princípio ecoado em Mateus 12:26,27 “De toda palavra frívola que
proferirem os homens, dela darão conta no dia do juízo; porque pelas tuas
palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado.”

Há duas razões porque devemos pensar bem antes de assumir a posição de mestre:
1) (Vs 1) O mestre, pela natureza do serviço, tem que falar muito. Por isso,
haverá mais palavras para serem pesadas, mais potencial para derramar palavras
frívolas, inúteis, pecaminosas, enganadoras.

2) (Vs 2) O mestre tem maior responsabilidade, pois influencia a muitas outras
pessoas pelo que fala, e facilmente tropeça no falar. Tem poder para dirigir,
ministrar graça, ou enganar para toda a eternidade.

O mestre que não controla sua língua acaba tropeçando sobre a mesma. No mundo
da política vemos isso. Um representante do FMI tropeça sobre sua língua e um
país inteiro é colocado em descrédito. Um político num momento de descuido fala
um anti-semitismo e perde uma eleição.

A mesma coisa pode acontecer com os mestres (professores) na igreja. Temos que
medir toda palavra quando ensinamos ou pregamos. Por isso ensinar e pregar são
tarefas tão exaustivas. As vidas de homens e mulheres estão na balança. Mas o
que ele quis dizer com “maior juízo”? (1 Co 3:10-15, 2 Co 5:10, Rm
14:10-12)-Todos nós compareceremos diante do tribunal de Cristo. Não para
sermos condenados (Rm 8:1 diz que isso não existe mais) mas para recebermos os
prêmios de Jesus por um ministério fielmente cumprido. Haverá perda de galardão
assim como houve perda de oportunidade para ministrar graça em nome de Jesus.
Não desista! Seu trabalho não é vão. Mas leve a sério esse trabalho de conduzir
os rebanhos do Senhor para pastos verdejantes! b. A língua freada implica em
vida controlada (2b-4) Tanto no caso do “freio na boca do cavalo”
quanto a do “leme no navio”, vemos que uma parte pequena mas
estratégica é capaz de direcionar algo poderoso e até grande. O freio se coloca
num ponto estratégico, na boca do cavalo. Mesmo pequeno e fraco, consegue
direcionar o cavalo com pouco esforço, até de uma criança. Também, o leme é
infinitamente menor em proporção ao navio, mas assim mesmo , por ficar num
ponto estratégico, é capaz de direcionar um transatlântico como Titanic ou um
porta-aviões conforme a vontade de um timoneiro. Assim é nossa língua, pequena
porém estratégica. Conforme vs 2b, se conseguirmos refrear a língua, somos
capazes de controlar o corpo inteiro. Mas como isso é difícil! Quantas vezes eu
já quis frear minha língua quando já era tarde demais! Tantos “foras”
que já dei! A nuvem de palavras mortíferas tende a pairar sobre nós até hoje,
como uma nuvem preta. Mas uma vez que as palavras escapam de nossa boca, é
impossível chamá-las de volta. É realmente desesperador soltar palavras e
depois ficar impotente enquanto assiste o estrago que elas fazem. Por isso
temos que freá-las o quanto antes.
Palavras como…
*Fofoca *Um “corte” no meu irmão *Ódio *Obscenidade
*Piadas sujas *Ira *Palavrão *Blasfêmia *Vingança *Inveja

Nosso desespero, é semelhante ao daquele motorista no volante de um carro que
de repente começa a derrapar, perde o controle. Ele tenta frear, mas já é tarde
demais.

II. A Língua Tem Poder para Destruir (5-8) A. Quem a língua solta causa grande
revolta. (5,6)

A Palavra de Deus nos adverte contra a destruição causada pela língua. Ao mesmo
tempo nos encoraja pelo potencial que esta mesma língua tem para transmitir
vida e graça para pessoas desanimadas.

A morte e a vida estão no poder da língua;
o que bem a utiliza come do seu fruto.
A língua serena é árvore de vida,
mas a perversa quebranta o espírito (Pv. 18:21, 15:4).

Em algumas épocas do ano encontramos ao longo das nossas rodovias incêndios
quase todos os dias. Isso devido ao descuido de alguns, que sem querer ou não
jogam seu cigarro pela janela. Uma pequena faísca acaba destruindo hectares de
floresta e terras gramadas.

Em Chicago, nos Estados Unidos, no ano de 1871, um lampião num celeiro deixou
125.000 pessoas sem-teto, destruiu 17.500 prédios e matou 300 pessoas. Já na
Coréia, em 1903, 2,6 km2 foram queimados quando algumas brasas na cozinha
causaram um incêndio que destruiu 3000 edifícios.

O poder destrutivo das palavras é visto no livro em que Hitler declarou sua
filosofia nazista, Mein Kampf. Na II Guerra Mundial, as filosofias expressas
naquele livro levaram à morte de 125 pessoas para cada palavra do livro.

Uma vez que a faísca da língua ascende o fogo, é extremamente difícil pará-la,
até que tenha destruido tudo em seu caminho. É assim com as nossas palavras.
Uma pequena palavra mal-colocada, na hora errada, pode destruir uma vida. Uma
palavra de crítica destrutiva; uma fofoca; uma colocação verídica mas cruel,
sem tato, pode desmontar uma pessoa, uma família, uma igreja. Pior, a língua
alimenta a si mesma. E assim como a língua, o fogo só precisa de oxigênio e
combustível para queimar incessantemente . Com um pouquinho de fôlego, nossa
fofoca, nossa reclamação, nossa murmuração, encontra bastante respaldo para
queimar palavras para sempre. Precisamos evitar este fogo antes que comece!

Pois este fogo, provocado pela nossa língua, começa rapidamente e quando
percebemos já se alastrou. Ela é descrita como fogo, consumindo. É um mundo de
iniqüidade, que causa a maioria dos problemas que enfrentamos na igreja hoje,
pois contamina todo o corpo, incendiando, destruindo a vida das pessoas. É
influenciada e incendiada pelo próprio inferno, porque o diabo é fofoqueiro,
mentiroso e acusador. Nenhum membro do corpo humano tem tanto potencial para o
mal!

Será que minha língua tem sido instrumento de desencorajar, desestimular,
ridicularizar, gozar, e destruir? Meu cônjuge? Meus filhos? Meus pais? Meu
pastor? Meus vizinhos? Meu patrão? Será que já incendiei vidas pelo poder
destrutivo da minha língua?

B. A língua venenosa é muito perigosa (7,8);

Viver com a língua é como dormir com uma cascavel. Pode até parecer que está
tudo sob controle, mas na hora em que você menos espera, ela dá o bote.

A natureza da língua é venenosa, mortífera, indomável. Mesmo que o homem
consiga domar animal, ave, réptil e peixe, ninguém de nós é capaz de conter
nossa língua.

Mas aqui entram as boas notícias. Jesus pode domar a língua porque Ele
transforma o coração. O mesmo Jesus, que habita em nós pelo Seu Espírito, quer
converter nossa boca! Já ouvi histórias de homens profanos, que cada palavra
que saía de seus corações eram palavrões ou piadas sujas, mas que Jesus
transformou completamente. Famílias desmontadas, foram reconstruídas por Jesus.

Cristo vive em nós. Ele deseja usar nossa boca como um instrumento para a
glória dEle e edificação de vidas. Não para destruir, mas para edificar. Pense:
“O que Jesus falaria?”

Em seu livro, “War of Words” (Guerra de Palavras), Paul Tripp aplica
essas idéias ao contexto da família: Enquanto escrevo esse livro, fico triste
pensando sobre quanta conversa em minha família não reconhece a seriedade que
[a Bíblia] dá [à língua]. Não, não temos brigas feias, mas há muitas palavras
impensadas, cruéis, irritantes e de reclamações faladas todos os dias.

Creio que somos como muitas famílias cristãs-minimizamos esses
“pequenos” pecados da fala porque nosso lar está livre de abuso
físico e verbal, e realmente nós nos amamos. Mas… palavras que ” mordem
e devoram” são palavras que destroem. Não são “tudo bem”. Então
precisamos fazer tudo possível para dar às nossas palavras a importância que a
Bíblia as dá, lembrando que Deus diz que prestaremos contas de cada palavra
frívola. (202)

Peça a Deus que peneire as palavras da sua família, especialmente ao redor da
mesa, no carro, naqueles momentos de confraternização. Desafio aos pais que
vigiem o que é falado em sua casa essa semana, clamando a Deus que transforme
toda fala em casa.

III. A Língua tem Poder para Dividir (9-12)

A língua dividida significa fonte corrompida, e que algo está errado com o
coração!

A língua é a fonte que jorra hipocrisia e falsidade; é o auge da esquizofrenia
verbal. É incoerente, dividida, como língua de cobra. Da mesma boca podemos
cantar louvores na igreja e destruir nosso cônjuge no caminho para casa.
Podemos dar uma aula de EBD e logo em seguida detonar a vida de um filho. Isso
é errado! Mas esse tipo de incoerência é típica da língua. Não significa,
necessariamente, que não somos convertidos. Significa que a conversão do nosso
coração ainda não alcançou os lábios.

Seria impossível para uma fonte natural produzir água doce e amargosa ao mesmo
tempo (11).
Seria impensável colher azeitonas de uma figueira (12), ou fonte de água
salgada dar água doce.
Mas a língua pode. A mesma língua, como no caso de Pedro, pode declarar uma
revelação celestial para Jesus, “Tu és o Cristo, o filho do Deus
vivo” e na próxima sentença ser reprovado pelo próprio Jesus por ter
falado palavras do inferno, “Arreda! Satanás” (Mt 16:17, 23).

Fico imaginando se Tiago, meio-irmão do próprio Senhor Jesus, lembrava da sua
juventude, e a maneira pela qual ele e seus outros irmãos tratavam o irmão mais
velho, Jesus. Imagine como seria ser irmão mais novo de Jesus! Quantas palavras
desgraçadas teriam escapado de sua boca, quando ainda não acreditava que Jesus
era o Cristo. Palavras venenosas, diabólicas, talvez um “dedo-duro”,
com acusações falsas, ciúmes, vingança, ódio. Afinal de contas, não teria sido
fácil ser um irmão de Jesus. Imagine seus pais falando, “Tiago, por que
você não pode ser como Jesus?”  Mais
tarde, tudo mudou. A fonte poluída foi transformada. Água salgada virou doce. O
meio-irmão incrédulo, zombador, se tornou líder da igreja em Jerusalém e autor
dessa epístola maravilhosa. Tiago destaca que uma fé genuína implica em
mudanças radicais (literalmente) na língua! A mudança “radical”
significa uma mudança de raiz, ou seja, do coração. O coração controla a
língua. Quando Jesus transforma o coração, mudanças têm de acontecer na língua.
Às vezes, essas mudanças demoram. Significa que ainda existem sujeiras no
encanamento. Mas geralmente uma fonte cristalina tem que produzir palavras
cristalinas.

Você já reparou no poder das palavras para fazer bem ou mal? Consegue se
lembrar de uma vez em que você foi desmontado por uma palavra desgraçada? Por
outro lado, lembra-se de alguma vez em que alguém falou uma palavra de
encorajamento que mudou toda a sua perspectiva de vida?

Somos pecadores por natureza, e a tendência natural é de fofocar, resmungar,
criticar, xingar, blasfemar. Mas foi por isso que Jesus veio para este mundo–
para resgatar a língua do homem. Para isso, precisava fazer um transplante–não
da nossa língua, mas do nosso coração, pois a língua só fala do que o coração
está cheio. A morte e a ressurreição de Jesus tiveram como alvo transformar o
coração daqueles que depositam sua confiança (fé) nele (e só nele) para a vida
eterna. O resultado deve ser uma transformação de vida, a começar com a raiz (o
coração) até o fruto (a língua)!

Como, então, desativar esta bomba entre nossos lábios? A resposta bíblica é de
pesar, pensar e peneirar nossas palavras. Em outras palavras, falar pouco e
falar bem o que falamos.

É impossível domar a língua, se Jesus não domar o coração.

Parte
VIII
A
FÉ É QUE ENFRENTA PROVAÇÕES

Tiago 1:2-12
Certa vez um grupo de mulheres queria saber como eram
confeccionadas as jóias que elas tanto apreciavam. Foram, então, visitar um
ourives. Chegando ao local onde o ourives trabalhava, puderam observar como ele
queimava a prata no fogo cuidadosamente a fim de torná-la pura.

Depois de um tempo observando seu trabalho, ficaram admiradas com a precisão
com que ele lidava com o metal precioso, tirando-o no momento exato de sua boa
têmpera. Elas lhe perguntaram como ele podia saber quando chegava a hora certa
de retirar a prata do fogo, visto que ele já lhes tinha dito que se deixasse a
prata tempo demais no fogo ela seria destruída. Ele disse que era bem simples,
que havia um “macete” para descobrir a hora certa. Era quando ele
podia ver a sua própria imagem refletida na prata, isto, então, indicava que já
era hora de tirá-la. A imagem do ourives refletida na prata indica que ela já
está purificada. Da mesma maneira a Palavra de Deus nos sugere que o Senhor
quer ver sua imagem refletida em nós (Rm 8.29). E por coincidência ele também
nos purifica com o “fogo das provações” para atingir seu propósito. O
“fogo das provações” vem das mais diversas áreas de nossa vida:
finanças, saúde, problemas familiares, vizinhos, trabalho e escola.

Porém, se sabemos que o fogo das provações nos purifica, como devemos reagir a
ele? Será que há alguma porção das Escrituras que nos ajude a reagir
positivamente diante das provações a fim de que Deus complete sua obra em nós?
Sim, existe. Na verdade existe um livro que pode nos ajudar muito.

O livro chama-se Tiago, e mesmo pequeno, é um gigante em termos da sua mensagem
para a vida e ética cristã hoje. Tiago apresenta para nós provas de uma fé
genuína, testes que vão tirar a escória da nossa fé e fazer com que a imagem de
Cristo Jesus seja cada vez mais nítida em nós. Tiago dispensa das saudações
preliminares e vai direto ao assunto:

Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias
provações (1.2)

Como, porém, Tiago pode nos dizer imperativamente que devemos ter alegria em
meio à provação, se ela é tão ruim para nós? É porque ele sabe que o verdadeiro
crente crê que Deus torna isto possível. Fé é um verbo ativo que está no tempo
presente! Mas Tiago não pára por aí. Ele também nos ajuda de forma prática para
enfrentarmos as provações. Ele nos dá cinco passos pelos quais enfrentaremos a
refinação da nossa fé pelo fogo da provação.

1. Primeiro Passo: A Fé Verdadeira Enfrenta Provações com Alegria (1:2,3)

A primeira prova talvez seja a mais difícil. Uma fé pura consegue enxergar a
mão invisível de Deus tirando o máximo proveito do fogo das provações. A fé se
alegra porque sabe que a provação tira as imperfeições da nossa fé. Confia
única e exclusivamente em Deus e pede sabedoria dEle para poder tirar o mesmo
proveito das tribulações da vida. Fica resoluta, sem vacilar, em meio às
dificuldades. Ter alegria quando chega os momentos difíceis não significa que
provações são divertidas ou engraçadas. Não significa que temos algum complexo
de martírio ou somos sado-masoquistas. A idéia é de uma avaliação cuidadosa,
racional, pensada, madura, que vê a longo prazo e reconhece o benefício que as
provações trazem consigo. Por exemplo, a mulher que está para dar a luz sabe
muito bem que deve suportar a dor do parto para ter a alegria de ver seu filho
nascer; o atleta sabe que tem de treinar muitas horas por dia para ter a
alegria de vencer a maratona. Na verdade, precisamos aprender a suportar as
dores da provação hoje para termos a alegria de colhermos seus doces frutos
amanhã. Esta deve ser a razão principal por que provações são motivo de
alegria. Reconhecemos que a mão de Deus está sobre nós, que Ele é maior que a
provação, que não escapa nada de seu controle, que Ele é capaz de produzir um
bem muito maior (cp. José Gn 50:20).

2. Segundo Passo: A Fé Verdadeira Enfrenta Provação com Perseverança (1:4)

Podemos definir alguém perseverante como uma pessoa disposta a ficar
“debaixo” até o fim.

Provações somente são motivos de alegria se continuarmos firmes até ao fim.
Temos que permitir que Deus faça a obra completa pelo fogo da provação.

Não significa que não vamos tentar sair do sofrimento, pois não somos mártires.
Assim como a mulher pode fazer tudo para aliviar a dor do seu parto, nós também
podemos fazer tudo para aliviar a dor, mas sem pecado.

Precisamos entender que as provações que vêm da parte de Deus têm o objetivo de
desenvolver a nossa fé. Por exemplo, quando passamos por problemas financeiros,
Deus quer nos ensinar a ser bons mordomos daquilo que Ele mesmo tem confiado a
nós. Mas é verdade também que o diabo se aproveita de situações como esta e vem
nos tentar, para sacrificarmos alguns princípios éticos e dessa maneira
desagradarmos ao Senhor.

Os atletas são o melhor exemplo de perseverança para nós. Eles treinam muitas
horas para alcançarem seu prêmio. São perseverantes em repetir todos os dias
aqueles exercícios físicos que os condicionam para a vitória. O treinamento em
si com certeza não é muito agradável, pois consome muito tempo de sua semana e
também traz consigo dores para o corpo. Porém, no dia da vitória eles nem se
lembram mais destas dores de que foram “obrigados” a suportar. A
perseverança produz uma fé vibrante, forte, completa e íntegra.

3. Terceiro Passo: A Fé Verdadeira Enfrenta Provação com Súplica (1:5)

Quando enfrentamos provação, normalmente vamos descobrir que nos falta algo .
Ela revela impaciência, incredulidade, fraqueza, ira e desânimo. Porém o que
mais nos falta é sabedoria-não necessariamente para saber a razão pelo
sofrimento (quase nunca descobrimos isso) mas para saber como responder quando
percebemos as falhas do nosso coração. E o que fazer nesta situação? Orar!
Suplicar a Deus por sabedoria para poder lidar com a provação da forma correta.

É comum ouvirmos este versículo fora de seu contexto sendo usado como um pedido
generalizado por sabedoria. Acredito que isto seja válido, pois Deus sempre se
agrada de pedidos por sabedoria, porém, a ênfase do texto está no pedido por
sabedoria em meio a tribulação. A nossa primeira opção em tempos difíceis é
voltarmos nossa face para Deus, confiante de que Ele há de responder com
liberalidade.

Aprendemos algo importante sobre nosso Deus-Sua natureza é generosa! O texto
grego literalmente diz “o dando-Deus”. Ele não fica incomodado,
irritado ou bravo quando clamamos, suplicamos e o importunamos dia após dia por
sabedoria para enfrentar uma situação insuportável. Ele se agrada de filhos que
O procuram dessa maneira.

4. Quarto Passo: A Fé Verdadeira Enfrenta Provação com Fé (1:6-8)

Mas existe um “porém” no texto. Podemos pedir, mas o pré-requisito é
a FÉ. Não é uma fé cega, mas que tem olhos espirituais abertos para compreender
e confiar na natureza de Deus. O ponto da provação é para desenvolver nossa fé.
Então o que adianta suplicar a Deus mas sem fé de que Ele se importa e de fato
responde às orações que lhe fazemos?

O ponto da provação é estabilidade, firmeza, convicção e maturidade. Mas a
dúvida leva para instabilidade, agitação, inconstância-assim como as ondas
dirigidas pelo vento. Essa pessoa já começa derrotada.

5. Quinto Passo: A Fé Verdadeira Enfrenta Provação com Esperança (1:9-12)

Os últimos versos deste parágrafo parecem fora do lugar, mas de fato fazem
parte do argumento. Por que Tiago começa falando sobre o pobre e o rico? O que
tem a ver?

Os leitores, na grande maioria, eram pessoas pobres. Precisavam reconhecer que
a provação era algo temporário, transitório e superficial. Mesmo em condições
humildes, tinham uma posição em Cristo de dignidade. Em outras palavras, havia
esperança para os pobres. Essa vida não é o fim!

O rico, por outro lado, precisava compreender que suas riquezas eram
insignificantes à luz do grande esquema do universo. Não garantiam nada em
termos da eternidade. De fato, suas riquezas eram superficiais, instáveis e superficiais.
Quem depende de posses e bens para seu “estatus” diante de Deus está
em sérios apuros.

O último versículo conclui essa parte sobre a prova da provação, mostrando que
havia, sim, possibilidade para o futuro. Quem persevera em Cristo em meio as
provações revela uma fé vibrante, viva e eficaz. No final do processo, terá o
galardão chamado “a coroa da vida”.

Entendo que o galardão é a vida, ou seja, que essa pessoa terá o alívio final
de todos os seus sofrimentos numa vida sem fim.

Conclusão:

Sei que muitos estão sentindo o fogo do ourives em suas vidas. Mas todo esse
processo significa que Deus encontra em nós uma fé como brilhante, que vale a
pena trabalhar. Será que você e eu estamos permitindo que Deus trabalhe, mas
trabalhe mesmo, a nossa fé? Estamos dispostos, ao encontrarmos o ensino do
livro de Tiago, a deixarmos que o Ourives termine seu trabalho em nós?

“Aumenta minha fé!

Revele Seu Filho em mim.”

As provas de uma fé genuína são oportunidades para aqueles que realmente são
filhos de Deus desenvolverem sua vida cristã. São oportunidades para dizer
“SIM” ao Espírito Santo, movidos pela Palavra de Deus.

Lembre-se:
Fé é um verbo ativo… no tempo presente.

Parte
VIII
A
GUERRA POR DENTRO

Tiago 4:1-6
Conforme o relato bíblico, o mundo começou em paz, e terminará do
mesmo jeito. Mas, se existe uma característica que define a raça humana entre o
começo e fim, é a palavra “CONFLITO”. Desde o momento da primeira briga
conjugal, quando Adão gritou “Foi a mulher que Tu me deste”; desde a rivalidade
entre os irmãos gêmeos, Caim e Abel, que culminou no primeiro assassinato;
incluindo guerras praticamente ininterruptas durante milhares de anos. São
conflitos causados pela natureza humana. Essa natureza faria qualquer coisa
para conseguir o que quer, inclusive eliminar qualquer um que bloqueie seus
sonhos e ideais.

É isso que Tiago 4.1-6 nos ensina:

1 De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos
prazeres que militam na vossa carne?

2 Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a
lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis;

3 pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.
4 Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele,
pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.

5 Ou supondes que em vão afirma a Escritura: É com ciúme que por nós anseia o
Espírito, que ele fez habitar em nós?

6 Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá
graça aos humildes.

Infelizmente, algumas pessoas são infiéis a Deus quando flertam com o mundo,
quando paqueram valores terrenos, quando dão a mão para a ambição, quando
abraçam a cobiça. Mas nosso Deus não aceita concorrentes. Sua aliança com Seu
povo exige EXCLUSIVIDADE!

Versículo 4 começa chamando os leitores de “infiéis”. A palavra é “adúlteros”,
uma palavra forte e inesperada, mas que tem raízes fortes no Velho Testamento.
O povo de Israel foi acusado de adultério espiritual pelo fato de ter abandonado
o Deus da aliança. Era uma “esposa” que dividia sua atenção entre dois amores.

Deus não aceita uma esposa de tempo parcial. Seu senhorio é total. Deus não
quer um pedaço, mas tudo. O amigo do mundo não pode ser amigo de Deus.

No parágrafo que começa no v. 1, Tiago traça para nós o fruto ruim de guerras,
brigas e conflitos até a raiz podre de egoísmo desenfreado, cobiça, inveja,
mundanismo. Ele nos mostra que nossa atitude para com o mundo revela nosso
coração.

A fé verdadeira manifesta-se numa vida transformada, de forma presente e ativa.
Esse texto nos desafia a rejeitar a cultura desse mundo e abraçar os valores de
Deus. Vamos traçar a patologia de conflitos entre nós: A causa, as
conseqüências, e a cura para conflitos humanos . . .

I. A Causa de Conflito Humano: Cobiça (1-2)

O texto começa com uma pergunta retórica que expõe nosso coração, e provoca uma
reflexão mais filosófica. De onde vem as guerras, os conflitos, as
conflagrações entre homens?

Seja uma briga de duas crianças que querem o mesmo brinquedo, seja no serviço,
entre funcionário e patrão, ou entre motoristas no meio do trânsito; sejam
batalhas travadas entre pais e filhos, marido e esposa, ou, entre nações as
guerras e invasões—qual a raiz desses conflitos?

O mundo oferece muitas respostas. Alguns diriam que o problema está no
ambiente. Que temos que modificar o comportamento do ser humano
proporcionando-lhe um ambiente mais ameno.

Outros como Marx diriam que todos os conflitos vêm por causa de opressão
econômica. Talvez Freud diria que conflito é o resultado de inibições sexuais e
repressão religiosa. Mas Deus deixa muito claro que o problema vem de outra
fonte. Vem do coração humano. Vem da cobiça.

Vss 1 e 2 dizem que o conflito humano vem dos prazeres carnais dentro de nós
(1), da inveja que temos. Há três termos nesses versículos que descrevem essa
idéia de cobiça:

1. A palavra “prazeres” é a mesma que nos deu palavras como “hedonismo” ou
“hedonista”.

Identifica pessoas que vivem pelo prazer. Os prazeres em nossos corações
tornam-se ídolos que dominam nosso pensamento, nossos sonhos. Conflitos surgem
quando um interfere com o belo prazer do outro.

2. A palavra “cobiça” representa desejo forte. Normalmente tem uma conotação
negativa, um desejo tão forte que domina toda nossa vida, todo nosso
pensamento. Ficamos com uma obsessão ou fixação por aquilo que desejamos.

Cobiça é um pecado tão malvado quanto o diabo, cuja cobiça custou-lhe o céu. É
um pecado tão velho quanto a raça humana, pois foi no Jardim do Éden que o primeiro
casal, num ambiente perfeito– em perfeita comunhão com Deus, sem inflação, sem
poluição, sem impostos, sem pedágios, sem IPTU–mesmo assim queria mais.

“Quanto você precisa para realmente ficar contente?” alguém perguntou certa vez
para o homem mais rico no mundo. “Somente mais um dólar” foi sua resposta.

Uma interpretação meramente superficial dos primeiros 9 dos 10 mandamentos
talvez levaria alguém a pensar que fosse capaz de cumpri-los. “Não furtarás,
não mentirás, não matarás . . .” Mas quando chegamos ao décimo mandamento, Deus
deixa claro que Sua vontade vai foi muito além do superficial. Deus quer nosso
coração. O décimo mandamento diz, “Não cobiçarás.” Esse mandamento expõe nosso
coração como realmente é: sujo, enganoso, cobiçoso, invejoso. Essa é a função
da Lei. A Lei mostra minha incapacidade de obedecer a Deus. Expõe a natureza
humana, e me impulsiona até a Cruz.

Por isso, para viver em paz, preciso deixar que Deus arranque meu velho
coração, que me faz pecar, e que troque-o por outro.

3. A palavra “invejais” (“invejais, e nada podeis obter”) é a mesma usada em
3:14 (inveja amargurada), e vem de uma palavra que fez surgir nossa palavra
“zelo”. A idéia é que temos zelo (ambição), por nós mesmos, e faremos o que
julgamos necessário para conseguir o que queremos, quando queremos e como
queremos.

Cobiça e inveja sempre são pecados cometidos de forma vertical, de baixo para
cima. São pecados de comparação em que olhamos sempre para o que os outros
“acima” de nós têm, e que desejamos. Poucas vezes fazemos o contrário, olhando
para baixo e reconhecendo como somos bem-aventurados. Por isso precisamos
sondar e guardar nosso coração, que é altamente enganoso. Precisamos descobrir
se porventura estamos sendo seduzidos pelas cobiças, pelos desejos, pela
inveja, levando-nos a comprometer valores bíblicos. Quando Deus, em Sua
infinita graça, revela-nos nosso coração, quando percebemos que boa parte da
causa dos conflitos está dentro em mim, então já estamos andando em direção da
cruz de Cristo. Só Ele pode nos libertar de nós mesmos.

II. As Conseqüências do Conflito Humano (2-3)

Há pelo menos duas conseqüências que o texto aponta como resultado da nossa
cobiça

1. Mãos vazias (2,3)

Cobiça nunca é o caminho correto para satisfazer nossos desejos. O caminho mais
garantido para NÃO receber o que tanto deseja é egoísmo, brigas, contendas,
conflitos, cobiça e inveja. Quando crianças brigam por um brinquedo, muitas
vezes ambas acabam perdendo o direito de usá-lo. Quando adultos processam um ao
outro, muitas vezes o único que ganha é o advogado deles! Quando nações se
enfrentam em guerra civil, todos perdem. Pessoas cobiçosas muitas vezes acabam
com as mãos vazias!

Depois das nossas brigas, mesmo quando saímos vitoriosos, o que ganhamos? Valeu
a pena mesmo? Será que valeu ter relacionamento quebrados, uma úlcera criada,
noites sem sono? Será que o caminho de contendas e cobiça trazem algum fruto
bom? Ganhamos a batalha mas perdemos a guerra!

Conflito humano também é caracterizado pela independência de Deus. A pessoa
quer conseguir o que quer do SEU jeito. Manipula, prepara o esquema, orquestra
todos os detalhes. Mas esquece do mais básico: pedir a Deus. “Nada tendes,
porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em
vossos prazeres” (4.2,3; veja 1:5)!

E quando pede, é de forma egoísta. Nenhuma oração egoísta pode ser feita “em
nome de Jesus”. Oração “em nome de Jesus” é oração feita conforme Jesus faria.
E Jesus vivia sua vida para servir aos outros, não para satisfazer seus próprios
desejos!

Na igreja, vemos os resultados de conflitos em divisões, facções e irmãos que
nada têm a ver um com o outro. Talvez ganhemos uma discussão, uma posição, uma
opinião, mas perdemos o irmão.

No mundo, um país ganha um pouco mais de território, um pouco mais de dinheiro,
mas a que custo? Quantas pessoas morrem para assegurar esses benefícios?
Quantas mães perdem seus filhos? Quantas mulheres ficam viúvas? Quantas
crianças órfãs? Significa que guerra sempre é errada? Não, há ocasiões em que guerra
se torna necessária para proteger vidas. Mas muitas vezes, sua raiz é cobiça
humana que resulta em mãos e corações vazios.

Isso nos leva para a segunda conseqüência de conflito humano:

2. Morte

Quando a cobiça individual junta-se a outros pecados, o resultado é guerra.
Guerra leva para morte. Morte enche o inferno. E o inimigo fica contente. Sua
rebelião, sua causa, avança. A guerra mais sangrenta, na história, foi a II
Guerra Mundial: 56,4 milhões de pessoas morreram para satisfazer a cobiça de um
grupo de homens que queriam controlar o mundo Para que?

Mas guerra civil é pior ainda. A Rebelião de Taiping na China, matou 20 milhões
de compatriotas! A Guerra Civil dos Estados Unidos foi a mais triste em toda a
sua história.

O DIABO ESTÁ ENCHENDO O INFERNO COM AS ALMAS DE PESSOAS VÍTIMAS DE SUAS
PRÓPRIAS COBIÇAS.

Talvez você pense que sua cobiça nunca matou ninguém. Mas Jesus disse que cada
um que se irar contra seu irmão, já matou-o em seu coração (Mt 5:21,22). A
diferença entre Guerra Mundial e meus conflitos é que eu tenho uma língua e não
uma bomba nuclear como arma principal.

Matamos o caráter de outras pessoas. Matamos sua reputação. Por que? Porque
queremos o que elas tem. Ou porque bloquearam nossos sonhos.

III. A Cura para Conflito Humano (4-6)

A cura para conflito humano tem que ser aplicado onde reside o problema: no
coração. Somente um espírito dependente e humilde, que busca em Deus tudo que
precisa para vida, é capaz de resolver os conflitos humanos.

Tiago aponta as atitudes necessárias para contrariarmos a tendência humana de
cobiçar e brigar:

1. Lealdade (4,5)

Conflitos naturalmente se levantam quando a nossa lealdade fica dividida.
Adúlterio talvez seja a maior ameaça que um casal pode enfrentar. A pior praga
que uma nação pode experimentar é guerra civil. É como um organismo cujo
sistema imunológico começa a atacar seus próprios órgãos até matar o corpo. Uma
casa dividida contra si mesma não pode permanecer.

Por isso, nossa lealdade a Deus, nossa amizade com Ele, toma precedência sobre
tudo. Amizade com o mundo requer inimizade com Deus (vs. 4).

O V. 5 é de difícil interpretação: “Ou supondes que em vão afirma a Escritura:
É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós?”

À luz do contexto imediato, que fala de adultério espiritual, parece que a
idéia é mais ou menos assim: Deus colocou em nós o Espírito Santo, pelo qual
temos a adoção como filhos de Deus. É um espírito filial, que clama “Abba,
Pai”. É um Espírito de relacionamento, que se entristece quando nós nos
distanciamos de Deus e dos irmãos. É um Espírito que provoca em nós uma
inquietação quando deixamos nosso primeiro amor, e seguimos a outras paixões
que não sejam Deus.

Nesse sentido o Espírito fica com ciúmes do nosso primeiro amor.

2. Humildade/Graça

O parágrafo termina destacando o dom gratuito de Deus para com aqueles que
buscam nEle o que precisam. Não precisamos lutar. Não precisamos manipular. Não
precisamos assassinar o caráter daqueles ao nosso redor. Não precisamos fazer
um show. Não precisamos usar máscara. Precisamos ser humildes. Dependentes.
Precisamos clamar ao Senhor com nossas necessidades. Precisamos pedir “em nome
de Jesus”— conforme Seu desejo, sempre dentro da ética bíblica que exalta o
outro acima de nós mesmos. Precisamos clamar pela graça dEle, seu amor não
merecido.

O filósofo Epicuro disse, “Para fazer um homem alegre, não aumente suas posses,
mas limite seus desejos. A cura para conflito humano está aqui, em humildade e
dependência do Senhor. “Os humildes recebem o que os arrogantes cobiçam.”

A cura para cobiça e conflitos humanos não é conseguir mais, é desejar menos;
não é achar sua satisfação em coisas, mas no Criador. Não é lutar para vencer
pelo esforço, mas depender para vencer pela graça.

Amizade com o mundo é inimizade com Deus!

Parte
IX
A
LEI DO ESPÍRITO DA VIDA

Tiago 4:1-6
“Portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão
em Cristo Jesus. A Lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te libertou da lei
do pecado e da morte. De fato — coisa impossível à Lei, porque enfraquecida
pela carne — Deus, enviando o seu próprio Filho numa carne semelhante à do
pecado e em vista do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que o
preceito da Lei se cumprisse em nós que não vivemos segundo a carne, mas segundo
o espírito. Com efeito, os que vivem segundo a carne desejam as coisas da
carne, e os que vivem segundo o espírito, as coisas que são do espírito”.

Romanos 8:1-5

ÍNDICE ANALÍTICO

Capítulo 1 – A Liberdade Cristã
Capítulo 2 – Não Há Nenhuma Condenação
Capítulo 3 – Paulo, Servo de Jesus
Capítulo 4 – O Coração das Escrituras
Capítulo 5 – Pela Graça, Dom de Deus

CAPÍTULO 1: A LIBERDADE CRISTÃ

Tecnicamente, temos aqui dois blocos de textos: um maior, que é o capítulo 8
inteiro, cuja temática é a da vida cristã sob a lei do Espírito; e um bloco
menor, que vai do versículo 1 ao 11, e que trata especificamente da vida
emancipada por esta lei do Espírito.
O texto em análise está dentro desses dois blocos, que nos dão a linha de
pensamento do autor: uma seqüência de análises sobre a vida emancipada
(vs.1-11); a vida exaltada (12-17); a vida esperançosa (18-30); e a vida
exultante (31-39). Dessa maneira, “neste capítulo, o apóstolo traça o
curso da vida cristã, na qual a graça triunfa sobre a lei, e os crentes
experimentam livramento do pecado”.1
A epístola de Paulo, como um todo, enfoca três blocos temáticos: do capítulo 1
ao 8, fala da justificação pela fé; do capítulo 9 ao 11, discute a exclusão
temporal dos judeus e a inclusão dos gentios ao povo de Deus; e do capítulo 12
ao 16, exortações práticas.
Ao analisar a justificação, mostra que a salvação do homem repousa
fundamentalmente sobre a fé, proveniente da graça de Cristo e não na lei de
Moisés. Essa misericórdia de Deus não depende da lei, porque o homem, em sua
natureza pecaminosa, não tem como responder efetivamente às exigências da lei,
que expressa a santidade de Deus. Assim, a graça provem de Cristo, que no seu
amor e sacrifício, perdoa os pecados dos homens. A liberdade da vida cristã,
liberdade diante da lei, não depende do próprio homem, nem do que ele possa
fazer, mas daquilo que Cristo já fez por ele.
Há uma outra epístola de Paulo, que também trata dessa relação lei versus
graça, que é a carta escrita aos Gálatas, onde o capítulo correlato a Romanos 8
é Gálatas 5. Ali, o apóstolo escreve sobre a justificação pela fé, falando da
liberdade cristã.
Sem dúvida, a análise de Paulo parte de elementos vetero-testamentários, que
descreve no capítulo 4 de Romanos, ao explicar que a promessa feita a Abraão
teve por base a fé, já que ainda era incircunciso e não tinha a lei, enquanto
formalização apresentada a Moisés.
A passagem analisada encaixa-se perfeitamente não somente na linha geral de
pensamento do autor, mas dentro do ensinamento bíblico como um todo.

CAPÍTULO 2: NÃO HÁ NENHUMA CONDENAÇÃO

O texto que estamos analisando está inserido numa epístola, forma literária
específica, amplamente utilizada pelos apóstolos e pela igreja primitiva. No
capítulo que segue, analisaremos com mais detalhes esta forma literária,
inserindo-a no contexto histórico de gregos e romanos durante o primeiro século
da era cristã.
A epístola aos Romanos é uma carta de difícil compreensão. Isto porque Paulo
tinha o costume de escrever intercalando um pensamento central com várias
digressões, tornando complexa a conexão das idéias expostas. Outra dificuldade
é o próprio tema, já que o apóstolo estava tratando de um assunto eletrizante
para a época, mas hoje aceito pela totalidade cristã: os gentios podem ou não
tornarem-se cristãos sem serem prosélitos dos judeus?
Em Romanos 8:1-5, encontramos cinco verbos fundamentais para a compreensão do
que o autor está expondo. São eles:
(1) o oposto ao estado de escravidão, receber alforria, não estar sujeito a uma
obrigação, livrar, libertar. “Te libertou”, variantes: “me
libertou”, “nos libertou”. É um aoristo passado, isto significa
que a ação foi plenamente realizada, mas segue vigente no presente.
(2) penalidade imposta por condenação judicial, servidão penal, condenar.
Também é um aoristo passado.
(3) encho, aterro, encho a ponto de transbordar, dou plenitude, cumpro.2
(4) ando, vivo, dirijo minha vida.
(5) penso, ter a mente controlada por, ter como hábito de pensamento,
inclinar-se.
Desses verbos, dois são antônimos (receber alforria versus condenado
judicialmente) e levam à oposição que o autor quer mostrar entre a lei do
Espírito da vida e a lei do pecado e da morte. Assim, ao regime do pecado,
Paulo opõe o novo regime do Espírito (cf. 3:27+), e diz que em nós transborda o
espírito da lei. Esse preceito da lei (que pode ser traduzido como “o que
é justo/o que é bom na lei”), cujo cumprimento só é possível pela união
com Cristo através da fé, tem sua tradução no mandamento do amor (cf. 13:10, Gl
5:14 e Mt 22:40). Isto porque, não vivemos segundo a carne, mas andamos no
Espírito, ou seja, temos a mente controlada pelo Espírito.
É interessante notar que a palavra lei aparece 70 vezes no texto de Romanos e
sempre tem uma das três conotações: (a) revelação de Deus e de sua santidade,
(b) foi dada para esclarecer o que é pecado, e (c) existe para orientar a vida
daquele que crê.
Da mesma maneira, a palavra carne é sempre utilizada em Romanos com um dos
quatro sentidos: (a) natureza humana fraca (6:19), (b) natureza velha do
cristão (7:18), (c) natureza humana de Cristo (8:3), (d) e natureza humana não
regenerada (8:8).
O capítulo 8 de Romanos nos apresenta a operação do Espírito Santo, entendida
nos versículos 4, 5, 6 e 10, como aquele que comunica a vida. No versículo 2,
como aquele que dá liberdade. E no versículo 26, como aquele que intercede
pelos crentes junto ao Pai.
É interessante notar que o texto original de Romanos 8, em grego, começa com
dois advérbios intercalados por uma partícula ilativa, que poderíamos traduzir
assim: “Atualmente, por isso, nada em absoluto…” pode condenar
aqueles que estão em Cristo Jesus
Essa partícula ilativa, que é um conectivo, nos leva ao capítulo 7, onde o
Paulo mostra que lei e pecado não são sinônimos. E que há uma grande diferença
entre a natureza da lei e a natureza humana. Entre o que é Espírito e o que é
carnal. O corpo, com os membros que o compõem (7:24) interessa a Paulo enquanto
instrumento da vida moral. Submetido à tirania da carne (7:5), ao pecado e à
morte (6:12+; 7:23), Paulo clama: quem me livrará? E dá “graças a Deus,
por Jesus Cristo, nosso Senhor” (7:25). É a partir desse clímax, que o
apóstolo dá seqüência ao texto, informando que “por isso”,
“hoje”, “nada em absoluto” pode condenar os que estão em
Jesus Cristo.

CAPÍTULO 3: PAULO, SERVO DE JESUS

No mundo de gregos e romanos, as cartas particulares tinham em média, cerca de
noventa palavras. Já os textos literários, como os de Sêneca, por exemplo,
tinham em média duzentas palavras3. As epístolas de Paulo, no entanto, eram bem
maiores. A menor delas, dirigida a Filemon, tem 335 palavras, e a maior,
enviada a igreja de Roma, 7.101 palavras. Assim, podemos dizer que o apóstolo
Paulo criou um novo gênero literário, a epístola, maior que as cartas e os
textos literários comuns à época, de conteúdo teológico explícito, e dirigida a
comunidade específica.
Quase sempre, as cartas eram ditadas a um escriba profissional, chamado
amanuense, que usava uma espécie de taquigrafia durante o ditado rápido.
Depois, o amanuense burilava o texto, e o autor, finalmente, editava a carta.
Na carta de Paulo aos Romanos seu amanuense foi Tércio (Rm. 16:22).
Quando escreveu sua epístola aos Romanos, Paulo era um cristão maduro. Tinha
mais de cinqüenta anos e 25 anos de conversão. Estava ansioso para ministrar nessa
igreja, que já era conhecida no mundo cristão (1:8), e por isso escreveu a
carta que deveria preparar sua futura visita (15:14-17). Foi escrita em
Corinto, possivelmente no ano 58 d.C., quando Paulo estava levantando um coleta
para os irmãos da Palestina. Partiu, então, para Jerusalém para entregar o
dinheiro. Lá é preso, e acabará sendo levado à Roma, mas como prisioneiro.

CAPÍTULO 4: O CORAÇÃO DAS ESCRITURAS

Para muitos teólogos, que vão de Orígenes a Barth, a carta do apóstolo Paulo
aos Romanos é o ponto alto das Escrituras. Ela sedimentou a fé de Agostinho e a
Reforma de Lutero. Calvino, por exemplo, considerava que quem entendesse
Romanos estaria com a porta aberta para a compreensão de toda a Bíblia. E
Tyndale também diz algo parecido, ao afirmar que Romanos é “a parte
principal e mais excelente do Novo Testamento, e o mais puro Evangelion, isto
é, as boas novas a que chamamos Evangelho, e também uma luz e um caminho para
penetrar em toda a Escritura”4.
Em termos de doutrina, Paulo em Romanos mostra que a Lei de Moisés, em si boa e
santa (7:12), fez o homem conhecer a vontade de Deus, mas não lhe transmitiu a
força para cumpri-la. Deu-lhe consciência de seu pecado e da necessidade que
tem de socorro (3:20, 7:7-13). Esse socorro, inteiramente gratuito, chegou
através de Jesus. E a humanidade, morta no pecado, é recriada em Cristo
(5:12-21), podendo agora viver em liberdade e justiça, segundo a vontade de
Deus (8:1-4).
Romanos tem como tema central a revelação da justiça de Deus e a universalidade
da obra de Cristo. E, se Romanos é o centro nevrálgico das Escrituras, o
capítulo 8 é o coração de Romanos.

CAPÍTULO 5: PELA GRAÇA, DOM DE DEUS

O capítulo 8 de Romanos mostra que a lei foi, através do sacrifício de Cristo,
dominada pela graça. Como vimos neste estudo, a epístola de Romanos é
fundamental no processo vivenciado pela Reforma. A igreja que rompe com o
catolicismo romano, quer a reformada de Lutero, Calvino e Zwinglio, quer a
revolucionária de anabatistas e inspiracionistas, entende que o apóstolo Paulo
traça na epístola aos Romanos o curso da vida cristã, mostrando que através da
graça há vitória plena sobre o pecado.
Paulo queria deixar claro que as propostas judaizantes não tinham razão de ser,
pois a obediência à lei nunca logrou êxito. Através de Cristo, unido a Cristo
pelo Espírito, aquele que crê está absolvido de seus pecados e pode iniciar uma
vida de liberdade, dentro de uma nova lei, a lei do Espírito da vida em Jesus
Cristo.
O que os cristãos do século XVI entendiam, contextualizando os ensinamentos de
Paulo, é de não havia mais necessidades de obras e penitências para se alcançar
a salvação. O que a Igreja Católica Romana proclamava, tanto no que concerne às
indulgências, como às obrigações de caridade, estava fora da doutrina cristã
pregada por Paulo nas epístolas aos Romanos e Gálatas, assim como no restante
das Escrituras.
Ainda hoje Romanos apresenta ensinamentos fundamentais para a igreja de Cristo:
a pecaminosidade do homem (1:18-3:30); sua desesperada luta interior (7:14-25),
a gratuidade da salvação (3:21-24), a eficácia da morte e ressurreição de
Cristo (4:23-25, 5:6-11, 6:3-11), a justificação pela fé (5:1-2) e nossa adoção
como filhos (8:14-17).
É a partir desta hermenêutica, delineada nos vários passos apresentados neste trabalho,
que o trecho de Romanos 8:1-5 deve ser interpretado. Teremos, então, uma melhor
compreensão daquilo que o apóstolo Paulo chama de “a lei do Espírito da
vida em Jesus Cristo” e de sua importância no caminhar do cristão.
Pr. Jorge Pinheiro

BIBLIOGRAFIA Recomendada
Dobson, John H., Aprenda o Grego do Novo Testamento, CPAD, Rio de Janeiro,
1994.
Gundry, Robert H., Panorama do Novo Testamento, Edições Vida Nova, São Paulo,
1991.
Halley, H. H., Manual Bíblico, Edições Vida Nova, São Paulo, 1993.
Rega, Lourenço Stelio, Noções do Grego Bíblico, Edições Vida Nova, São Paulo,
1993.
Taylor, W.C., Dicionário do Novo Testamento Grego, JUERP, Rio de Janeiro, 1991.
The Greek New Testament, United Bible
Societies, USA, 1994.
Virkler, Henry A., Hermenêutica – Princípios e Processos de
Interpretação Bíblica, Vida, São Paulo, 1994.

1 Davidson, F., “O Novo Comentário da Bíblia”, Edições Vida Nova, São
Paulo, 1994, pág. 1167.
2 “Cumprir, isto é, fazer que a vontade de Deus (revelada na Lei) seja
obedecida como deve ser, e as promessas de Deus (dadas pelos profetas) recebam
seu cumprimento”. Taylor, W.C., Dicionário do Novo Testamento Grego,
JUERP, São Paulo, 1991, pág. 177, verbete plhrow, in citação de Thayer.
3 “A usual folha de papiro media cerca de 34 cm x 28 cm (…), podendo
acomodar entre 150 e 250 palavras (…), e a maioria das cartas antigas não
ocupava mais que uma página de papiro”. Gundry, Robert H., Panorama do
Novo Testamento, pág. 287. Ed. Vida Nova – São Paulo.
4 Packer, James I. in O Conhecimento de Deus, pág. 235. Editora Mundo Cristão,
São Paulo.

Parte
X
A
SERVIÇO DE DEUS

TEXTO BÍBLICO: Atos 20 : 24
 Introdução

Desculpas para os incrédulos não aceitarem o Evangelho
Desculpas para os crentes não se engajarem no serviço.

A Serviço de Deus

1. Em um Ministério
1.1 – A Determinação do Apóstolo
1.2 – A Vocação do Crente – 1 Tm 12 : 13

2. Com um Dom
2.1 – Servindo uns aos outros – 1Pe 4 : 10
2.2 – Em um só corpo – Ilust. Sintonia / Rm 12 : 3 – 6a

3. Na Igreja
3.1 – A Vocação da Igreja – Mt 4 : 18
3.2 – A Rede Ministerial – Ilustração Rede

Conclusão – Cl 4 : 17

O SERMÃO

Precisamos lembrar a todo momento do compromisso que temos como igreja, com o
“Ide de Jesus”, portanto devemos ter presente em nossas mentes e em
nossos corações o constante propósito de evangelizar.

Refletindo sobre esta premissa, podemos enumeras as desculpas clássicas que os
incrédulos nos dão para não aceitar o Evangelho da Salvação. E quais são elas?

Não sou Pecador
É tarde demais para mim
Ainda sou jovem, quem sabe …
A vida do crente é muito exigente
Não tenho tempo

Mas, pior do que estas desculpas são as que encontramos entre os próprios
crentes, no seio da igreja, para não se comprometerem no serviço cristão. E
pode, os novamente enumerá-las:

Não tenho tempo
Não sei o que fazer
Não me dou com o fulano
Ninguém me chamou

Focado neste segundo grupo é que estaremos refletindo sobre quando estamos A
Serviço de Deus.

Leitura Bíblica

1. A SERVIÇO DE DEUS EM UM MINISTÉRIO

No texto que lemos na palavra de Deus, encontramos o apóstolo Paulo enfatizando
aos líderes da igreja de Éfeso que mito mais do que a sua própria vida o
importante seria que ele concluísse o ministério que havia recebido de Jesus, a
saber, o testemunho, isto é anunciar o Evangelho da graça de Deus.

Encontramos aí um exemplo de determinação e compromisso a ser seguido por quem
quiser estar a serviço de Deus. Nenhuma das dificuldades que poderiam estar à
sua espera, e no verso anterior Paulo afirma que “…o Espírito o havia
assegurado que lhe esperavam cadeias e tribulações” , poderiam mudar o seu
objetivo, até que completasse a sua carreira.

Do mesmo modo que o apóstolo, o crente que tem o compromisso de servir a Deus
deve abraçar o seu ministério e em qualquer circunstancia deve perseverar em
seu caminho, despojando-se de desculpas banais como as que vimos à pouco. Ah!
Mas não sei onde devo servir na igreja!

Na Primeira Epístola de Paulo à Timóteo capítulo 1 versos 12 a 14 lemos:

“Sou grato para com aquele que me fortaleceu, a Cristo Jesus, nosso
Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim que
noutro tempo era blasfemo e perseguidor e insolente. Mas obtive misericórdia,
pois o fiz na ignorância, na incredulidade. Transbordou, porém, a graça de
nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus.”

Todo aquele que buscar a Deus através de Jesus Cristo, será designado a um
ministério. Será capacitado pelo Espírito Santo e nele transbordará a Graça do
Senhor.

Aparentemente simples, não é?

Mas é simples mesmo, desde que cada um de per si tome a decisão de servir a
Deus. E o salmista diz mais:”Servi ao Senhor com alegria e apresentai-vos
diante dele com cânticos.”, O crente abraçando um ministério que irá
exercer com compromisso e alegria.

2. A SERVIÇO DE DEUS COM UM DOM

Ainda assim restará a pergunta: Mas servir à Deus de que maneira? Conforme uma
daquela desculpas já citada. A Palavra de Deus nos assegura que a todos Deus
concede graciosamente pelo menos um dom, com o qual podemos servi-lo.

O apóstolo Pedro em sua Primeira Epístola capítulo 4 verso 10 e 11, nos diz a
respeito disto:

“Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons
despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale de acordo com os
oráculos de Deus, se alguém serve faça-o na força que Deus supre, para que em
todas as coisas seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem
pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém.”

Pois aí está amados irmãos, não só recebemos o dom, mas quando nos colocamos a
serviço de Deus, somos supridos por Ele em força e capacitação.

Devemos estar em constante sintonia com Deus E o que isto significa exatamente?
Em termos técnicos estar em sintonia é “Oscilar na mesma freqüência”-
Quando temos um emissor pulsando em uma determinada freqüência, só podemos
captar estes sinais se nosso receptor estiver pulsando na mesma freqüência, ou
seja em sintonia.

Um exemplo prático disto é o nosso rádio, quando a estação emite o seu sinal,
isto quer dizer que suas ondas pulsam e o meu radio só conseguirá captar esta
onda se seu receptor oscilar na mesma freqüência. Rádios à parte, assim também
devemos ser com Deus, ou seja, oscilarmos na mesma freqüência que Ele para
podermos ouvir a sua voz, ou repetindo em uma visão mais antiga esta explicação:
“Falarmos de acordo com os oráculos de Deus.”

Voltemos então nossas atenções para a questão do “servi uns aos outros
conforme o dom que recebemos de Deus.” No momento em estivermos servindo
uns aos outros e aplicando nossos dons ao serviço de Deus, estaremos então
agindo como a igreja que Jesus Cristo nos legou.

Na Epístola aos Romanos no capítulo 12, verso de 3 a 6a, Paulo disserta sobre
as nossas responsabilidades dizendo:

“Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não
pense de si mesmo além do que convém, antes, pense com moderação segundo a
medida da fé que Deus repartiu a cada um. Porque, assim como num só corpo temos
muitos membros, mas nem todos os membros tem a mesma função, assim também nós,
conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros, tendo,
porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada.”

Em busca de definirmos um padrão para estarmos a serviço de Deus, já falamos
sobre a determinação e o compromisso em abraçarmos um ministério, falamos
também sobre o uso dos dons que recebemos graciosamente de Deus e esse texto
que acabamos de ler nos coloca último aspecto desta reflexão.

3. A SERVIÇO DE DEUS NA IGREJA

Para podermos compreender melhor como devemos estar a serviço de Deus na
Igreja, precisamos ter certeza de qual a verdadeira vocação da igreja, e nós
encontramos Jesus explicando a Pedro e André, no início de seu ministério, com
palavras que aqueles homens só entenderiam algum tempo depois.

No Evangelho segundo Mateus no capítulo 4 verso 19, são estas as palavras de
Jesus:

“Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.”

E esta é a nossa chave. Devemos ser pescadores de homens, pois esta é a vocação
da Igreja de Jesus Cristo. Precisamos como igreja estar sempre lançando nossas
redes para pescarmos mais e mais almas para Jesus.

Imaginemos a malha de uma rede de pesca, onde cada nó, ou seja, aquele ponto
onde as linhas se unem seja um membro da nossa igreja. Que aquele ponto seja
você, eu, enfim todos nós. Cada um representado por um nó.

Imagine também que ao invés da linha de nylon, fazendo aquela união estejam
nossos braços abertos, sustentando, assim, o irmão da direita e o da esquerda.
Ao mesmo tempo que somos alcançados e sustentados pelos braços fortes de dois
outros irmãos. Pronto estará formada a redada Igreja de Jesus Cristo, pronta
para ser lançada, com um único objetivo, o de pescar almas, composta com homens
usando seus dons e comprometidos em seus ministérios

CONCLUSÃO

Esteja atento para o seu momento. Ore desde agora por este alvo, e mais ainda
ore por voce neste alvo, pelo momento em que for chamado para compor esta rede
de pescar homens.

Por fim, devemos ouvir o conselho que Paulo deu a Arquipo, líder da igreja de
Colossos, que se encontra em Colossenses capítulo 4 verso 17.

“Atenta para o ministério que recebeste no Senhor, para o cumprires.”

Parte
XI
A
VIDA ETERNA

Segundo o Evangelho de João
Nenhum outro escritor do Novo Testamento utiliza tanto a expressão
vida eterna como o apóstolo João. Enquanto nos evangelhos sinóticos (Mateus,
Marcos e Lucas) vida eterna aparece 6 vezes, em João temos nada menos que 17
ocorrências. Isto não significa que nos evangelhos sinóticos o tema da vida
eterna seja ignorado, pelo contrário, os três primeiros evangelhos tratam do mesmo
tema quando falam do reino de Deus. Ambos (vida eterna e reino de Deus)
pertencem à mesma categoria teológica, e são sinônimos.

Segundo C. K. Barret, vida eterna em João “substitui o reino de Deus dos
evangelhos sinóticos”. E mais: “Aquilo que é, propriamente, uma
bênção futura torna-se um fato presente em virtude do futuro em Cristo”.

A NATUREZA DA VIDA ETERNA

O substantivo “vida” em grego pode ser bíos ou zoê. Bíos significa a
vida física, biológica e zoê aquela qualidade espiritual de vida eterna que só
Jesus é capaz de oferecer. Em João zoê pode vir ou não acompanhado do adjetivo
“eterno”, que em grego é aiõnios. Na maioria das vezes temos zoê
aiõnios (vida eterna), e mesmo quando zoê está sozinho, em João sempre
significa vida eterna.

A vida eterna é uma obra da livre graça de Deus. A salvação em sua maior
expressão. Nem mesmo a morte física serve de obstáculo para a vida eterna; pelo
contrário, a morte, para os crentes, é “uma libertação do pecado e um
passo para a vida eterna” (Catecismo de Heidelberg). Disse Jesus: “Eu
sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o
que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente” (Jo 11.25,26). Ter a vida
eterna é o mesmo que estar salvo num processo irreversível (cf. Jo 5.24; 6.47;
10.27,28). Como o próprio nome indica, vida eterna não é uma coisa que temos
hoje e perdemos amanhã. Neste caso seria vida temporária e passageira, jamais
eterna!

A natureza essencial da vida eterna foi descrita pelo Senhor Jesus assim:
“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e
a Jesus Cristo a quem enviaste” (Jo 17.3). Esta passagem “não define
vida eterna, mas mostra como se manifesta e quão maravilhosa é” (William
Hendriksen). E de que forma ela se manifesta? Hendriksen explica: “A vida
eterna por meio da qual tanto o Pai como o Filho são glorificados se manifesta
no verdadeiro conhecimento do que envia e do enviado”. Segundo George
Ladd, “Em João, o conhecimento é uma relação com base na experiência.
Existe uma relação íntima, mútua, entre o Pai e o Filho; por sua vez, Jesus
conhece seus discípulos e por eles é conhecido; e, em conhecê-lO, eles também
conhecem a Deus”. Disse Jesus: “Eu sou o bom pastor; conheço as
minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim e
eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.14,15).

Em se tratando de nossa relação com Jesus, é preciso entender que este
conhecimento, longe de ser uma simples questão de compreensão intelectual,
envolve sempre um relacionamento pessoal de íntima comunhão com nosso Senhor.
Este é o significado básico do verbo conhecer em João.

Conhecer a Deus é conhecer a verdade libertadora. “Disse, pois, Jesus aos
judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois
verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos
libertará” (Jo 8.32). Conhecer a verdade “significa chegar a
compreender o propósito salvador de Deus, incorporado em Cristo, e a liberdade
prometida é a liberdade do pecado (Jo 8.34), liberdade essa que não poderia ser
realizada sob as condições da antiga aliança, mas somente através do Filho [Jo
8.36]” (Ladd). E ainda: “A verdade de Deus não está apenas
incorporada em Cristo, mas é também manifesta em Sua palavra, pois Ele fala a
verdade (Jo 8.40,45) e veio para dar testemunho da verdade (Jo 18.37). Esta
verdade não é simplesmente a revelação daquilo que Deus é, mas a manifestação
da presença salvadora de Deus no mundo. Portanto, tudo o que Jesus fez e
oferece é verdadeiro (Jo 7.18; 8.16), isto é, está de acordo com a Sua natureza
e com o plano de Deus. Este propósito redentor é a palavra de Deus (Jo 17.6,14)
é a própria verdade (Jo 17.17), a qual é uma com a pessoa do próprio Jesus (Jo
1.1)”.

O ASPECTO PRESENTE DA VIDA ETERNA

Que a vida eterna já é uma realidade na vida de todo aquele que crê em Jesus, é
facilmente percebido em João 6.47, onde o verbo ter está no presente do
indicativo. Disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê, tem a
vida eterna” (cf. I Jo 5.13). “A vida que pertence ao futuro, ao
reino da glória”, diz Hendriksen, “passa a ser possessão do crente
aqui e agora (…). Esta vida é salvação e se manifesta na comunhão com Deus em
Cristo (Jo 17.3); na participação do amor de Deus (Jo 5.42), de sua paz (Jo
16.33), e de seu gozo (Jo 17.13)”.

John MacArthur complementa: “Biblicamente, a vida eterna não é apenas a
promessa da vida na eternidade, mas é também a qualidade de vida característica
das pessoas que vivem na eternidade. Tem a ver com qualidade tanto quanto
duração (Jo 17.3). Não é apenas viver para sempre. A vida eterna é ser
participante do reino onde habita Deus. É andar com o Deus vivo, em comunhão
infindável”.

A ênfase central do evangelho de João é levar homens e mulheres a terem uma
experiência presente de vida eterna. O aspecto presente, bem como o futuro da
vida eterna, é mediado pela pessoa de Cristo. Desse modo, não é difícil
compreender porque as suas palavras são vida (Jo 6.63), visto que elas procedem
do Pai, que lhe ordenou o que deveria dizer. E o mandamento de Deus é vida
eterna (Jo 12.49,50). Mas a vida eterna não é apenas mediada por Cristo e Sua
palavra. Ela habita na própria pessoa de Jesus (Jo 1.4; 5.26; 14.19). Ele é o
pão da vida (Jo 6.48). Ele é a água vida (Jo 4.10,14). Conseqüentemente, Jesus
podia dizer: “Eu sou a vida” (Jo 11.25; 14.6), e vida em abundância
(cf. Jo 10.10).

Para que a vida eterna seja uma realidade presente na vida de alguém, é
necessário receber a Jesus Cristo e confiar somente nEle para a vida eterna (cf
Jo 3.16). “A falta de vida eterna é equiparada com o estado de perdição,
de estar condenado ou perdido, em contraste com aqueles que têm a vida eterna,
que são declarados salvos e que recebem a promessa de que nunca perecerão [Jo
3.15,16,18,36; 10.9]” (John Walvoord).

Uma vez adquirida, é necessário que a vida eterna se expresse através da
obediência e prática do evangelho (Jo 12.50; 13.17). A salvação em Cristo exige
mudança de vida, aqui e agora. Além disso, a vida eterna deve ser uma realidade
tão presente em nossa vida, a ponto de podermos cantar assim:

Depois que Cristo me salvou,
Em céu o mundo se tornou;
Até no meio do sofrer
Eu tenho paz no meu viver.

O ASPECTO FUTURO DA VIDA ETERNA

A vida eterna é qualidade e duração. Ter uma vida que não acaba jamais é o
grande anseio do ser humano. Haja vista a atitude da mulher samaritana quando
ouviu de Jesus: “Aquele, porém, que beber da água da vida que eu lhe der,
nunca terá sede, para sempre; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma
fonte a jorrar para a vida eterna. Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água
para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la” (Jo
4.14,15). Ou dos judeus quando ouviram Jesus dizer: “Porque o pão de Deus
é o que desce do céu e dá vida ao mundo. Então lhe disseram: Senhor, dá-nos
sempre desse pão” (Jo 6.33,34). Infelizmente nem a mulher samaritana nem
os judeus entenderam, a princípio, o significado da vida eterna que Jesus lhes
oferecia.

Em João a expressão vida eterna contém, além de seu significado presente, um
aspecto futuro ou escatológico, como por exemplo em 12.25: “Quem ama a sua
vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para
a vida eterna”.

Quem beber da água viva descobrirá que ela também é uma fonte a jorrar para a
vida eterna (Jo 4.14); e aquela comida que Cristo oferece também produz vida
para o futuro (Jo 6.27).

A vida eterna, no aspecto escatológico, será experimentada quando o justo
passar pela “ressurreição da vida” (Jo 5.29). Esta declaração é bem
parecida com aquela de Daniel 12.2: “Muitos dos que dormem no pó da terra
ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror
eterno”.

O princípio da vida eterna que habita o corpo mortal do crente se estende para
a ressurreição do mesmo. Aquele a quem Jesus concedeu vida eterna será
ressuscitado no último dia (Jo 6.40,54). Jesus é a ressurreição e a vida. Quem
nEle crê poderá morrer fisicamente, mas viverá novamente (Jo 11.25,26), isto é,
o corpo ressuscitará para uma alma que nunca morreu, a fim de, juntos,
desfrutarem eternamente da presença de Deus.

Caberia aqui uma ligeira observação acerca do castigo eterno. Não trataremos do
assunto propriamente dito, visto que este não é o tema do nosso estudo. Por
isso, mencionaremos o castigo eterno apenas como auxílio para uma compreensão
melhor da vida eterna.

Hoje em dia, não são poucos os que negam a condenação eterna. Igrejas, num
passado recente, se dividiram por causa desta questão. Os universalistas e os
aniquilacionistas de nossos dias rejeitam definitivamente a idéia de um inferno
onde pessoas sofrerão por toda a eternidade. Ambos argumentam que Deus é muito
bom e misericordioso para condenar qualquer pessoa por toda a eternidade.
Alguns universalistas defendem que as pessoas que viveram pecando deverão ser
castigadas durante certo tempo após a morte, mas depois todo mundo será salvo.
Os aniquilacionistas, por sua vez, entendem que os ímpios serão, como o próprio
nome diz, aniquilados. Alguns aniquilacionistas também crêem que depois da
morte um sofrimento temporário precederá o aniquilamento final e definitivo dos
ímpios.

Ora, seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso. Deus é amor mas também é
justiça! Nosso Senhor Jesus foi claro quando disse: “Por isso quem crê no
Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não
verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36; cf. Dn 12.2;
Mt 25.46). Quando Jesus diz que aquele que “se mantém rebelde contra o
Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36),
Ele está se referindo ao destino final dos ímpios. O inferno é a manifestação
permanente e eterna da ira de Deus contra os pecadores impenitentes. O castigo
que os ímpios sofrerão depois desta vida será de igual maneira sem fim, como
sem fim será a bem-aventurança futura do povo de Deus.

Sendo assim, as ovelhas de Jesus podem descansar nas promessas consoladoras do
Supremo Pastor: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente,
e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28). Por outro lado, como bem
observou Antony Hoekema, “O ensinamento bíblico com respeito ao inferno
deve acrescentar uma nota de profunda seriedade em nossa pregação e ensino
bíblico. Devemos falar do inferno com tristeza, com dor, talvez até com
lágrimas – mas devemos falar a respeito”. E mais: “Em nosso
empreendimento missionário, a doutrina do inferno deve incitar-nos a um maior
zelo e urgência. Se é certo que muita gente vai em direção de uma eternidade
sem Cristo, a menos que ouçam o evangelho, quão ansiosos deveríamos estar para
levar-lhes o evangelho!” . (Tradução livre).

AS IMPLICAÇÕES DA VIDA ETERNA PARA O POVO DE DEUS

Quais as implicações práticas da vida eterna para a igreja evangélica
brasileira do novo milênio? Consideremos três aspectos:

Em primeiro lugar, é preciso uma reflexão séria e responsável do papel da
igreja na sociedade. Somos salvos para fazer a diferença através de uma postura
ética, de valores que manifestem nitidamente a diferença que a vida eterna faz
no meio e através do povo de Deus. A natureza da vida eterna, expressa no
conhecimento de Deus e de Sua verdade, deve levar a igreja a experimentar a
renovação de vida que começa aqui e agora. A vida só tem sentido quando é
vivida na presença de Deus com responsabilidade. Por isso, a igreja precisa
parar de brincar com coisa séria e viver o evangelho integral de nosso Senhor
Jesus Cristo.

Em segundo lugar, a vida eterna deve nos levar a uma atitude prática em relação
ao destino futuro dos justos e dos injustos. O que significa o céu para os
crentes? O que quer dizer viver para sempre? Estamos preparados? A igreja do
Senhor está pronta? Você está preparado para se encontrar com Deus? Está certo
que tem a vida eterna? E o que dizer daqueles que estão indo para o inferno? Até
onde somos culpados pelo destino eterno dos pecadores? Essas indagações não
devem ser menosprezadas. São necessárias uma reavaliação de conceitos e uma
ação salvífica urgente da igreja no mundo.

Em terceiro lugar, temos que levar em muita consideração a razão de ser da
própria vida eterna. De um lado temos o propósito imediato, isto é, somos
salvos porque Deus nos ama e quer nos ajudar. Do outro lado há o propósito
final da vida eterna: a glória de Deus. Glorificar a Deus deveria ser o maior
desejo do cristão. Viver como Deus quer é viver para a sua honra e glória.
Infelizmente, muitas vezes a glória de Deus não tem sido, na prática, a maior
preocupação do povo de Deus. A busca do bem-estar tem ocupado com muita
freqüência o lugar de uma vida obediente e submissa à vontade de Deus.
Certamente Deus abençoa o Seu povo e se deleita nisso, porém, somente quando
Ele ocupa o primeiro lugar em nosso coração. Se agradarmos a Deus, não como
pessoas interesseiras, mas como verdadeiros crentes interessados em Sua pessoa,
e se o amarmos nem tanto por aquilo que Ele vai nos dar, mas principalmente por
aquilo que Ele é, com certeza a vida eterna que de Deus recebemos será a
expressão de louvor no dia-a-dia de pessoas que verdadeiramente amam e
glorificam a Deus.

Parte
XII
ANÁLISE
SEMÂNTICA

De I Pedo 2:4-10
Vers. 04 – Chegando-vos a ele, a pedra viva, rejeitada é verdade
pelos homens, mas diante de Deus eleita e preciosa.

O 1º verso merece atenção especial, a partir da palavra giqon (pedra). É de uso
figurativo1 pois designa o caráter inflexível ou de sentimentos duros (Cf.
CULLMANN, 1965:324). Ao dizer que devemos chegar a Cristo, o apóstolo faz uso
da palavra pedra como algo vivente. Essa declaração permite compreender o
caráter de Cristo, ou seja : Deus vivente. Com certeza, o uso do substantivo
pedra é mais um recurso literário e lingüístico do que propriamente teológico.
Ao apropriar-se da linguagem simples para referendar o caráter de Cristo, o
autor é sábio, pois considera a estrutura da “teologia da pedra” como indicativo
da superioridade das demais compreensões teológicas a respeito da salvação.
Sendo assim, a pedra é símbolo figurativo do Cristo que, por sua vez, é símbolo
figurativo de salvação. Dessa forma, pedra em 2:4 é vocábulo substituto da
salvação.

Está clara a indicação de que Cristo é a pedra viva, pois o verbo zwnta
(particípio presente) denota a qualidade verbal 2 do substantivo giq on
(pedra).
Essa qualificação é própria nos escritos petrinos e paulinos, pois além da
ênfase no Cristo, enquanto Salvador, é também ao aspecto sustentador da
salvação – a pedra é viva (Cf. I Cor 10:4; Rm 9:33, 10:11).

Interessante notar é que o autor também argumenta o aspecto do adjetivo
negativo dessa pedra, ou seja, é rejeitada. O que o autor quer dizer, na
verdade, é uma releitura de Is. 28:16, cujo contexto lembra-nos do povo que não
depositou confiança no Senhor Iahweh. Da mesma forma, a pedra é rejeitada por
não depositarem à ela o crédito de confiança merecido. O autor releva-nos
paradoxalmente a qualificação da pedra, ou seja, é viva, pois é a salvação; é
rejeitada, pois não há mérito de fé alguma. Sendo assim, rejeitada é sinônimo
de falta de fé, e, consequentemente anti-sinônimo de salvação.

Todavia, a linguagem do autor é explicativa ao exemplificar os dois aspectos da
pedra na perspectiva divina : eleita e preciosa. A combinação grega de eklekton
(eleita) e entimon (preciosa) quanto à pedra é máxima, por partir de (segundo
Deus). Isso denota a exposição divina da eleição de Jesus-pedra (salvação) e da
preciosidade que este representa aos olhos de Deus. dir-se-ia que tais
adjetivos são conseqüências da ação divina sobre a pedra (Jesus). Tais
qualidades são somente compreendidas por aqueles que obedecem o (chegando-vos)
a Cristo. Concluindo, pedra viva é Cristo que salva mediante os que crêem Nele,
e, para os que não crêem, ele é a pedra rejeitada.

Vers. 05 – Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, constituí-vos em um
edifício espiritual, dedicai-vos a um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes
sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.

Comecemos a análise pela expressão giq on zwnteV (pedras vivas). embora seja a
mesma expressão dada a Cristo, a diferença se faz pelo verbo constituí-vos.
Essa constituição é mister por causa da ação prática de Deus na vida daqueles
que crêem. Trata-se mais de uma exigência, um dever a ser cumprido. Os que
crêem são chamados a se tornarem oikoV pnenmatikoV (edifícios espirituais).
Trata-se de termos pertinentes à posição dos que aceitam a pedra viva. de certa
forma, os “edifícios espirituais” são : o crer, o aceita, o confiar, o receber
a pedra, o adorar a Deus, etc. Esse edifício não tem uma característica física,
isto é, não é determinado por medidas conhecidas na arquitetura, mas sim, por
características espirituais, “a do Espírito”,3 ou seja, a exigência que o
Espírito faz é o de crer na giq on zwnta (pedra viva).
Uma outra exigência feita nesse verso é que devemos nos dedicar a um sacerdócio
santo. (eiV ierateuma). Essa exigência é feita apenas no sentido funcional,
isto é, a nós é dado o ofício de sacerdotes. Não há intermediários entre
aqueles que crêem e Deus. Ser sacerdote é uma designação de forma constitutiva
por parte de Deus, mas não institucional (por parte dos homens). Essa nova
designação, só é compreendida à luz da fé em Cristo, haja vista que tais
implicações somente são encontradas no Novo Testamento.4 A posição que o
indivíduo assume em Cristo é a de ser sacerdote, pois pode oferecer sacrifícios
movidos pela fé e não pelo pecado. Sendo assim, os sacrifícios espirituais são
provas de fé (crer, obedecer, adorar, profetizar, etc.), apresentados em
momentos doxológicos pelo que aceita a vontade de Deus.

Vers. 06 – Com efeito, nas Escrituras se lê : Eis que ponho em Sião uma pedra
angular, eleita e preciosa, quem nela confia não será confundido.

Este versículo é uma rememoração de Isaías 28:16. O uso das Escrituras denota a
autoridade do Antigo Testamento na releitura dos apóstolos. Para o autor da
carta, a “pedra angular” é Cristo por estar sustentando Sião (o povo que nele
crê). No contexto vétero-testamentário, Isaías 28 comenta o juízo de Deus sobre
Efraim, ao mesmo tempo que o profetiza com uma promessa (Vers. 16 : “quem nela
(pedra) crer não será confundido “. É uma releitura muito apropriada para o
contexto neo-testamentário, pois é Deus quem, através de Cristo, elege e torna
“essa pedra” preciosa.
Os apóstolos e discípulos da época neo-testamentária dão ênfase ao A.T por
questões de estilo literário : paralelismo, releitura e narrativa divina.5
Dessa forma, entende-se as referências do A.T apenas como re-interpretação e
ênfase teológica por parte do apóstolo. Pedro, ao associar o contexto de Isaías
com o da comunidade de sua época, estaria atualizando a teologia (fé e prática)
de Isaías 28:16. Certamente, as nuances da nova vida em Cristo extrapolaria os
conceitos de “pedra angular” de Isaías. Enquanto o “crer “de Isaías 28:16 é a
sujeição dos líderes à vontade de Deus, o “crer “ de I Pedro é a Fé depositada
em Cristo.

Vers. 07 – Isto é, para vós que credes ela será um tesouro precioso, mas para
os que não crêem, a pedra que os edificadores rejeitaram, essa tornou-se pedra
angular.
Vers. 08 – Uma pedra de tropeço e uma rocha que faz cair. Eles tropeçam na
Palavra, para o que também foram destinados.

Esses versículos devem ser entendidos como uma conclusão dos argumentos
apresentados anteriormente. É como se o autor estivesse finalizando sua
exposição, mas dando ênfase nos aspectos positivos e negativos dessa conclusão,
por exemplo :

CRER (+) NÃO-CRER (-)

Tesouro Precioso Rejeitada

Eleita Tropeço

Faz Cair

A linguagem usada é a da figura de um construtor. A “pedra angular” é a
principal da construção. Poderíamos dizer que essa pedra é a que sustentará as
demais. Sendo assim, as demais colunas, paredes, aberturas, etc; devem estar
ligadas à ela. Na analogia petrina, essa pedra angular é a que representa a
sustentação da fé, da esperança, das vitórias dos que crêem. O “crer “nesse
texto é a exigência clara para os que querem ter uma construção forte. A
construção que representa a “pedra principal “ é a feita pela fé em Cristo.
Quando Pedro diz “isto é para vós que credes“, está fazendo referência à
comunidade dos cristãos dispersa na Ásia Menor : (Ponto, Bitínia, Galácia e
Capadócia). Com certeza, essa comunidade “creu “ na pedra preciosa e por isso
está tendo uma boa construção.
O autor reafirma a experiência cristã da comunidade a partir da fé depositada
na Pedra (Cristo). Mas para os que não crêem é a pedra de tropeço, a rocha que
faz cair. a referência “que não crêem “ é específica para os judeus. Podemos
chegar a essa conclusão por causa do final do versículo “para os que também
foram destinados” (Is. 8:14).
Ao rejeitar Cristo, os que não crêem estão rejeitando a pedra que Deus elegeu
como fundamental para a salvação/eleição. Não considerar essa “forma divina “
de “crer “ na pedra é o mesmo que incredulidade. A fé em Cristo é, então,
escândalo, pois não crêem; ao mesmo tempo que a conseqüência é “cair “. Podemos
entender que a incredulidade é a rejeição de Cristo. Os judeus não aceitaram a
fé como forma divina da eleição. Eles a rejeitaram e ao mesmo tempo
escandalizaram-se. A “rocha” só faz “cair “ porque não aceita a incredulidade.

Vers. 09 – Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o
povo de sua particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências
daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa.
Vers. 10 – Vós que outrora não éreis povo, mas agora sois povo de Deus, que não
tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.

Os versículos 9 e 10 representam os resultados da fé em Cristo. Tratam-se de
nomeações referentes à nação de Israel, mas que na visão petrina correspodem à
nova identidade a partir da fé em Cristo. Essa identidade é pertinente aos que
crêem, tanto judeus como gregos. A nova realidade dos que crêem corresponde à
função que deverão cumprir. Isso comprova pelos adjetivos dados, por exemplo :

Raça Eleita: Aqueles que são chamados para a grande construção. Essa eleição
desempenha a função dos responsáveis pela construção. São somente eleitos por
Deus porque crêem.

Sacerdócio Real: É o ofício exercido pelos que crêem. É uma função religiosa
identificada pela categoria dos responsáveis pela adoração a Deus. Crer é
exercer a função sacerdotal para adorar a Deus. Não é mais exigida a
representação visível e única do sacerdote, mas, agora pela fé em Cristo, todos
são eleitos enquanto sacerdotes e possuidores do sacerdócio, isto é, o ofício
de endereçar a Deus a fé que adora.

Nação Santa: A santidade é pertinente à nova realidade da fé em Cristo. É a
qualidade dos que são separados para exercer uma nova função : ser santo. Não
se trata de uma qualidade extra-dimensional ou invisível, mas representativa do
ponto de vista da fé em Cristo. A santidade é, portanto, o momento em que a
ação de crer separa o povo para uma nova realidade : a de servir a Deus.
Poderíamos considerar o alcance geográfico da santidade de Deus: todos os que
crêem em Cristo em qualquer lugar da terra.

Povo de sua Propriedade Particular : É a consideração que o autor faz àqueles
que crêem na pedra e que, automaticamente, são feitos propriedades de Deus.
Essa menção que o autor faz é ainda qualificada como “particular“, “exclusiva”,
tudo indica a nova concepção da soberania de Deus sobre nós, ou seja, somos
exclusivos para o uso divino. Essa exclusividade é quanto ao serviço exigido
por Deus : proclamar as excelências divinas. Daí, entende-se que Deus é
soberano sobre o seu povo de propriedade exclusiva.

Todas as qualidades relacionadas à eleição dos que crêem, referem-se à
exigência do serviço : proclamar. Essa ação só pode ser executada pelo povo
eleito por Deus. A eleição para o serviço é mediante a fé : Poderíamos afirmar,
nas palavras de Pedro, que a fé em Cristo elege a comunidade para o serviço.
Contextualmente, esse serviço seria a apresentação do Cristo kerigmático,
representado figuradamente pelos termos “luz”(comp. Jo 1:1:10) Ainda outros
textos afirmam que a passagem para a fé cristã é uma passagem das trevas para a
luz (Jo12:46, II Cor 4:6, Ef. 5:8).
A referência às “excelências de Deus” referem-se às novas realidades
abençoadoras de Deus : ser eleito, precioso e responsável pela adoração a Deus.
Tais bênçãos são frutos da fé. É ela que nos eleva à categoria de
proclamadores. O reforço que o apóstolo faz para que “proclameis” é um
imperativo kerigmático da experiência e vivência da fé cristã.
O verso 10 é uma confirmação dos resultados da fé cristã. Essa confirmação é
caracterizada pelos adjetivos “sois povo de Deus “ e “alcançastes misericórdia
“. esses adjetivos representam a elevação dos que crêem na Pedra Eleita, Viva,
pois são “da misericórdia de Deus“. Diríamos que a convicção da fé em Cristo,
experimentada pela comunidade, é tão enfática que alcança o favor imerecido de
Deus. A misericórdia, atributo de Deus, era caracterizado na literatura
vétero-testamentária como inalcançável, mas na visão petrina, é dada àqueles
que crêem. Essa misericórdia é, então, a nova identidade que o “povo” alcançou
“de Deus”.

1 Para um estudo mais detalhado sobre figuras a respeito de Cristo veja :
MATEOS, Juan e CAMACHO, Fernando. Evangelho : Figuras & Símbolos, Editora
Paulinas, São Paulo, 1991.

2 LASOR, Wilhan S. Gramática Sintatica do Grego no Novo Testamento. Editora
Vida Nova, 1986

3 RIENECKER, F e ROGERS, C. Chave Linguística do Novo Testamento. Editora Vida
Nova. São Paulo, 1995, pp 556

4 O sumo-sacerdote no VT é figura também constituída por Deus, mas este apenas
apresentava sacrifícios “visíveis “ a Deus ( animais, oblação, libação,
expiação, etc ), e responsável por representar o pecado do povo perante Deus.
Os auxiliares ( sacerdotes ) não detinham posição de sumo-sacerdote, daí apenas
um ser o responsável pelos atos litúrgicos.

5 GABEL, John B. et al. A Bíblia como
Literatura.
Edições Loyola. São Paulo, 1993, pp 27 – 48.

Parte
XIII
CHOQUE
CULTURAL: O MUNDO E O CÉU

Tiago 3:13-18
Você já experimentou choque cultural? Choque cultural acontece
quando enfrentamos estilos de vida, língua, roupa, moeda, religião, valores,
perspectivas, totalmente diferentes dos nossos.

Com certeza você já enfrentou algum tipo de choque cultural. Quando mudou para
uma outra cidade … Quando mudou de escola ou emprego, onde tudo é diferente:
Horários, serviços, o “jeitão” de fazer as coisas… quando mudou de
igreja. Às vezes enfrentamos choque cultural quando casamos. Os costumes, as
tradições familiares, as maneiras de celebrar aniversários, feriados, são todos
diferentes.

Como as pessoas reagem ao choque cultural? Quando falamos do cristão em relação
à cultura do mundo, Jesus disse que teríamos que “estar NO mundo, sem ser
DO mundo.” Paulo falou para não sermos “conformados com esse mundo,
mas transformados pela renovação da nossa mente”. João disse, “Não
ameis o mundo, nem as coisas que estão no mundo” Pedro nos lembra de que
tudo que vemos no mundo há de derreter e ser reduzido a nada. O autor de
Hebreus nos chama de “peregrinos” em busca de uma cidade celeste.

Todos esses autores bíblicos identificam uma guerra entre culturas, um choque
cultural entre o mundo em que vivemos e o céu de onde vem nossa cidadania. O
livro de Tiago vai ainda mais longe. Ele não deixa dúvidas sobre os traços que
identificam um cidadão do mundo e um cidadão do céu.

Tiago 3:13-18 aborda as características que definem a cultura do mundo e a do
céu. A fé verdadeira manifesta-se numa vida transformada, de forma presente e
ativa. O texto nos desafia a rejeitar uma cultura e abraçar outra. A sabedoria
(ou cultura) do mundo é diabólica, egocêntrica, ambiciosa, contenciosa e vem
direto do inferno. Sempre quer levar vantagem. Entretanto a sabedoria (ou
cultura) do céu vem de Jesus, é pacífica e bondosa, sempre pensa nos outros
primeiro, é cheia de amor. Essa cultura celestial quer compartilhar a vantagem
que tem em Cristo.

O texto começa com uma pergunta: “Quem entre vocês é sábio e
entendido?” Muitos entre os leitores talvez pensavam que eram sábios, a
ponto de quererem ser mestres (vs 1). Mas será que eram sábios MESMO? Ou será
que tinham adotado a cultura do mundo e sua definição de sabedoria?

Definição do Mundo. O mundo define sabedoria como “esperteza”. É
levar vantagem, explorar, avançar, manipular. Subir a escada mais rápido que o
outro. Enganar antes de ser enganado. Matar antes de ser morto.

Definição Bíblica. Sabedoria bíblica significa adquirir a perspectiva de Deus
sobre tudo que acontece no mundo. É subir a escada da Palavra para adquirir a
ótica divina sobre valores, vida, ministério e família. No Velho Testamento
significava ter “jeitão” para viver. Cultura é “jeitão”. E
o “jeitão do céu não é levar vantagem sobre os outros, mas compartilhar a
vantagem que tem em Cristo! É a ética de Jesus, que é amar a Deus e ao próximo
como a si mesmo. Não é ser servido, mas servir, é dar a sua vida (Mc 10:45).

Sabedoria bíblica significa investir sua vida para sempre. Viver na presença de
Deus em todos os momentos. Sabedoria bíblica não pisa nos outros para subir
mais alto, mas dá uma mão para ajudar os outros a subirem. Não vem geneticamente,
mas pela Palavra de Deus, aplicada ao meu coração pelo Espírito de Deus, pela
obediência e pela graça. Por isso o salmista declarou “Os teus mandamentos
me fazem mais sábio que os meus inimigos; porque aqueles eu os tenho sempre
comigo. Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito nos teus
testemunhos. Sou mais entendido que os idosos, porque guardo os teus
preceitos.”(Sl 119:98-100).

Sabedoria bíblica significa viver a vida de Jesus na terra, uma vida dedicada a
outras pessoas. É reconhecer que somos abençoados para sermos uma bênção, não
para acumular mais bênçãos para nós mesmos. É mansa, humilde, digna, cheia de
boas obras, focalizada no outro e não em si mesma. “Mostre em mansidão de
sabedoria, mediante condigno proceder, as suas boas obras.”

Em nosso mundo, viver esse padrão divino realmente é contra-cultura. Significa
remar contra a maré! Será que eu e você estamos praticando a sabedoria divina,
remando contra a maré? Ou será que nos nossos negócios, na escola, no serviço,
já somos idênticos ao mundo? Será que nós também adotamos o padrão de
esperteza, de querer levar vantagem em tudo?

I. A Cultura (Sabedoria) do Inferno: Ambiciosa e Contenciosa (14-16)

Cada cultura no mundo tem seus costumes, suas marcas peculiares. Vemos isso especialmente
nas formas de se vestir de cada grupo étnico. A cultura do inferno também usa
uma roupa típica. Não é vermelha, com chifres e tridente, mas tem um traje
facilmente identificável. É o vestuário do diabo e tem cheiro de enxofre!

A cultura do mundo (inferno) em relação à cultura do céu diz:

“Somente o forte sobrevive” (Deus diz que os mansos herdarão a terra)
“Você é mestre do seu destino.” (Mas o céu sabe que Deus é soberano)
“Usa pessoas, ama coisas.” (Deus diz, “Usa coisas, ama
pessoas”) “Comamos, bebemos, amanhã morreremos” (Deus diz,
“Comam e bebam, mas lembrem-se de que tudo que você faz será lembrado para
sempre) “Eu sou número um, e não existe número dois!” (Deus diz,
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Nos versículos de 14 a 16 há duas descrições principais da cultura infernal:
ambiciosa e contenciosa. ESSA CULTURA É ESPERTA E QUER LEVAR VANTAGEM EM TUDO.
A idéia é de ambição e arrogância na vida, com um único propósito: satisfazer
seus próprios desejos, viver para si, custe o que custar para os outros. E ai
de quem ficar na frente dessa pessoa. Faria qualquer coisa para avançar.

1. Inveja amargurada — a palavra “inveja” literalmente diz
“zelo”. Zelo pode ser bom ou ruim. Mas esse é ruim. É interesse
demasiado em mim mesmo, um zelo por mim mesmo. EU cuido de mim. EU me protejo.
EU faço tudo em meu próprio interesse. E quando não tenho meus desejos
satisfeitos, fico magoado. Mas esse zelo desorientado e diabólico também é
vázio, e nunca pode ser satisfeito. Quanto mais o ego se alimenta, tanto mais
quer. Por isso é amargurado.

A ética do mundo está totalmente centrada no eu. Temos que tomar cuidado, pois
existe uma doutrina de amor próprio que passa mascarada como sabedoria biblica,
quando de fato é característica da cultura do inferno. Alguns afirmam que o
homem precisa amar a si mesmo para poder amar ao seu próximo. Mas confundem o
ensino biblico. A Palavra de Deus nunca nos manda amar a nós mesmos – muito
pelo contrário, usa o amor natural que as pessoas tem como o padrão da medida de
amor que devem ter para com os outros. A ética bíblica é uma ética
OUTRO-cêntrica. Essa é a vida de Jesus em nós. Está mais preocupado com o
bem-estar do outro do que consigo mesmo. Declarações sobre “baixa
auto-estima”, “falta de amor próprio”, “complexo de
inferioridade” revelam preocupações da cultura mundial. Pessoas
deprimidas, vázias, em parafuso, às vezes (nem sempre) passam pelas nuvens
pretas pois vivem em torno de si mesmas. Precisam elevar os olhos e ver outras
pessoas ao seu redor, pessoas com necessidades e dificuldades maiores que as
suas. Quando nosso mundo gira em torno de nós mesmos, quando defendemos os
direitos de “numero 1” seguimos a sabedoria desse mundo e do seu
principe. Mas o fruto que colhemos é muito amargo.

2. Sentimento faccioso. “ambição egoísta” A idéia é de contendas
entre pessoas, causadas justamente pela competição, pela cobiça, por
partidarismo e divisão. A Biblia é muito clara quando diz que “Deus ODEIA
quem semeia contendas entre irmãos” (Pv 6:19). Mas essa é a cultura do
inferno.

3. Terrena. “Não é a sabedoria que desce lá do alto”, então deve ser
de baixo! Sabedoria do inferno é o padrão entre os homens. É “da
terra”. Uma terra em que os mais fortes devoram os mais fracos. Cada um
por si e que os demais que se danem. Contudo, esses não são os padrões de Deus.
Ele disse que “os mansos herdarão a terra!”, “Quem perder sua
vida no serviço a outros, achá-la-á.”

4. Animal (não espiritual). A palavra descreve o homem “natural” ou
seja, o homen não regenerado, que não consegue viver um padrão sobrenatural e
voltado para o bem do outro. É material e sensual, portanto sub-natural, pois
não foi assim que Deus fez o homen. Vemos essa característica animal logo
depois do primeiro pecado, no Jardim do Éden. Adão parece um animal com suas
costas na parede quando confrontado por Deus. E em resposta, ele vai ao ataque,
culpando a mulher e depois a Deus pelo seu pecado.

Vemos isso o tempo todo. É só reparar, filas de banco, engarrafamento de
trânsito, disputas pelas últimas vagas em estacionamentos, lutas desesperadas
pela vantagem que queremos ter sobre todos.

5. Demoníaca. Aqui descobrimos a verdadeira origem dessa sabedoria. É a cultura
do inferno! É assim que os demônios vivem. Quando adotamos o padrão de ambição,
amor próprio, divisão e contendas nos revelamos como cidadãos de uma sociedade
totalmente possessa pelo culto de si mesmo, em que cada um devora o outro,
falando mal, acusando, criticando, xingando. Cria pessoas nunca satisfeitas,
descontentes, ou acomodadas. Sempre exigindo mais e mais, mais conquistas, mais
honras, mais dinheiro, mais posses, mais glória. Que maneira horrível de se
viver!

Sl 131 “Não é ambiciosa minha alma. Não anda a procura de grandes coisas,
de coisas maravilhosas demais para mim…”

6. Confusão e toda espécie de coisas ruins. Quais os resultados esperados da
cultura do inferno, em que é cada um por si? O primeiro é confusão. A palavra
fala de desordem. Encrencas. Esse zelo amargurado é o que causa brigas em
nossos casamentos, entre irmãos, nos esportes. Leva para úlceras, hipertensão,
enfartos, brigas, familias desfeitas, separação, divórcio, lágrimas,
ressentimento, mágoas, igrejas dividas, um testemunho perdido.

Jesus disse “Vinde a mim… aprendei de mim, pois sou MANSO E HUMILDE DE
CORAÇÃO e achareis descanso para vossas almas!” Jesus ofereceu vida por
meio da morte–morte para si, para sua ambição, para sua fama, para a defesa
dos seus direitos, para a promoção dos seus interesses. Quando você não se
importa com quem recebe a gloria, fica livre para amar!

II. A Cultura do Céu: Pacífica e Bondosa (16-18)

A cultura do céu compartilha a vantagem em vez de levar vantagem. Se for
necessário, leva desvantagem. Isso não significa ser “capachão”, mas
cristão. O “jeitão” do céu é pensar nos outros antes de mim mesmo.

Assim como a cultura e sabedoria do inferno tem sua roupa típica, a sabedoria
do alto também se veste de forma única. Essa sabedoria manifesta-se numa vida
transformada– coração, cabeça e conduta. (13). Sabedoria diante de Deus, não é
tanto uma questão intelectual, mas moral.

1. Pura — Pureza de mente, pureza de vida, são ridicularizados em nossos dias.
A sabedoria do inferno é suja, esperta, cheia de gracinhas que gozam da
santidade da pureza moral. Essa sabedoria do inferno já contaminou a terra.
Dizem que a indústria da pornografia nos EUA gera mais de 10 bilhões de dólares
por ano. Dez mil novos filmes pornográficos são produzidos, e mais de 700
milhões de vídeos são emprestados. A corrupção mundial devora o dinheiro do
povo.

Criticamos a corrupção dos grandes, mas um dia eles eram pequenos como nós. E a
infidelidade nessas coisas pequenas transformou-se nessa grande corrupção que
nos deixa indignados.

2. Pacífica–não causa, mas cura conflitos! Um pacificador está sempre pronto para
paz! Quer resolver conflitos a qualquer custo! Não guarda mágoas! Nao permite
que haja barreiras entre os irmãos.

Porque sabe viver pela graça, pela aceitação incondicional de Deus, não tem
nada a perder. Nada para defender. Não precisa proteger seus próprios
interesses a qualquer custo. Quando errado, é capaz de pedir perdão. Quando
certo, não precisa brigar até humilhar os outros. Para esse indivíduo, pessoas
são mais importantes que posições.

3. Indulgente (amável)–moderado, cortês, gentil, tolerante, manso. Não
arrogante, não é sábio aos seus próprios olhos, tem “poder sob
controle”. É um fruto do Espírito. É uma maneira de ver e tratar as
pessoas, que não as usa, mas as ama.

4. Tratável (compreensiva) – A cultura do céu é ensinável, acessível, ouve, se
submete, não rancoroso, não cria motivos para discutir… disposto. Essa pessoa
ouve críticas com humildade e cresce.

5. Plena de Misericórdia e Fruto da Justíça (Gl 5:22) – Cidadãos
do céus mostram compaixão, mesmo que o outro não tenha razão. Interesse genuíno
pelo outro que leva a abrir mão dos meus interesses, meus direitos, e tratar o
outro com misericórdia. Firmeza com compaixão. “Plena de
misericórdia” significa “ser controlado” pela misericórdia,
assim como “cheio do Espírito” significa ser controlado pelo
Espírito. Mas como? Uma pessoa controlada pela misericórdia sempre deixa que a
misericórdia ganhe quando há um conflito em seu espírito.

6. Imparcial. Não olha somente para si mesmo e seus interesses (2:1-11). Não
julga as pessoas pelo que tem, pelo que sabem, pelo que podem fazer por ela.
Tem a perspectiva de Deus sobre as pessoas.

7. Sem fingimento — Não faz da vida um “show”. Não usa máscaras, nem
finge ser o que não é. Pois na verdade é transparente. Quem é assim? Mais uma
vez, descobrimos que não somos nós, mas Cristo. Ele é a sabedoria de Deus que
se tornou sabedoria para nós. E hoje quer viver Sua vida em nós.

Qual é a sua cultura? Você semeia a paz, procurando sempre levar vantagem? Ou
compartilha as vantagens que já recebeu em Cristo Jesus (v. 18)?

A CULTURA DO CÉU NÃO PROCURA LEVAR VANTAGEM; MAS COMPARTILHA A VANTAGEM QUE
JÁ TEM EM CRISTO.

Parte
XV
CRISTÃO
TAMBÉM FAZ DIETA!

Tiago 1:22-25
Certa vez um pastor bem conhecido em sua cidade estava comendo
peixe num restaurante, quando o ateu mais arrogante da cidade entrou e
sentou-se ao lado dele. O ateu logo começou a zombar do pastor, e
perguntou-lhe, “Pois é, pastor, a Bíblia está cheia de contradições. O que você
faz quando encontrar uma delas?”

“Simples” respondeu o pastor. “Há muito que ainda não entendo na Bíblia, mas
faço igual o que estou fazendo com esse peixe que estou comendo. Tiro os
espinhos, coloco-os de lado, e deixo qualquer tolo que quiser, engasgar-se
neles.”

Tiago 2.14-26 é um que tem sido como espinho na garganta de alguns. Inclusive,
o grande Reformador, Martinho Lutero, quase engasgou neste mesmo texto. Ele
chamou o livro de Tiago uma “Epóstola de Palha”, pelo simples fato de que não
conseguia engolir o ensino de Tiago sobre Fé e Obras. O problema centraliza-se
em textos que parecem contraditórios:

Rm 4:5 Mas ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica ao ímpio, a sua
fé lhe é atribuída como justiça.” Rm 3.28 “Concluímos, pois, que o homem é
justificado pela fé, independemente das obras da lei.”

Tg 2:24 “Verificais que uma pessoa é justificada por obras, e não por fé
somente.”

E agora? Quem tem razão–Paulo ou Tiago? A Bíblia se contradiz? Somos salvos
pela fé somente, ou pelas obras? Qual a importância de obras na vida cristã?
Antes de analisarmos o texto versículo por versículo (próximo artigo),
precisamos tratar dessa questão.

O problema não é tão difícil como parece, especialmente quando entendemos bem o
CONTEXTO dos textos em questão. Para descobrirmos a resposta à nossa pergunta,
devemos voltar ao que a Escritura declara em claro e alto som. Partindo do que
sabemos com certeza, podemos interpretar os textos mais difíceis, dentro de
seus respectivos contextos. Vamos descobrir dois princípios fundamentais, o
primeiro, a perspectiva de Paulo, o segundo, a perspectiva de Tiago.

1. Só fé em Jesus Cristo salva, sem o acréscimo de obras (a perspectiva de
Paulo).

O texto bíblico é unânime, de começo ao fim . . . Não há nada em nós capaz de
merecer a vida eterna.

Rm 3:10-12 “não há justo, nem sequer um; não há quem entenda, não há quem
busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça
o bem, não há nem um sequer.

Is 64:6 Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como
trapo da imundícia

Ef 2:8,9—Porque pela graça sois salvos mediate a fé, e isto não vem de vós, é
dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.

Tt 3:5—não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua
misericórdia, ele nos salvou.

2 Tm 1:9—nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas
obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em
Cristo Jesus antes dos tempos eternos.

Rm 3:20-28 “visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei . .
. Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e
pelos profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os
que crêem . . . sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a
redenção que há em Cristo Jesus; . . . Concluímos, pois, que o homem é
justificado pela fé, independentemente das obras da lei.

Quando lemos esses textos, só podemos concluir que a salvação é obra de Deus,
independente das obras, para que somente Deus receba toda a glória. A fé não é
uma obra, mas uma resposta à obra prévia de Deus no coração humano. Significa
receber um presente dado por Deus. Ninguém se vangloria por estender a mão para
receber um presente. A glória pertence àquele que o doou.

Inclusive, à luz desse presente de valor inestimável, qualquer
tentativa de comprá-lo diminui tamanho sacrifício feito por Cristo para
torná-lo possível. Por exemplo, digamos que um dia você descobre que precisa de
um transplante de rim. A única pessoa no mundo que tem um órgão compatível com
seu corpo é sua própria mãe. Quando ela fica sabendo da sua necessidade, no
mesmo instante oferece doar o rim dela. Depois da cirurgia, você chega para sua
mãe e diz, “Mãe, a senhora me deu vida quando entrei nesse mundo; agora a
senhora salvou a minha vida. Sou muito grato. Quero fazer alguma coisa para
pagar a senhora pelo que fez por mim. Quanto posso te dar pelo seu rim? Será
que R$7 seria bom?

Essa é a diferença entre todas as religiões do mundo e o verdadeiro
cristianismo. As religiões ensinam que o homem faz boas obras PARA SER SALVO,
enquanto a Bíblia ensina que fazemos boas obras POR QUE JÁ SOMOS SALVOS. A
religião exalta ao homem, e diminui tamanho sacrifício de Cristo na cruz, pois
acha que pode merecer a salvação. Mas o cristianismo exalta a Deus, pois reconhece
que seria impossível pagar o que foi comprado por Cristo na cruz. Religião é
motivada pela culpa, mas cristianismo pela graça. Religião leva à escravidão,
dúvida e insegurança, enquanto cristianismo verdadeiro leva à segurança de um
relacionamento filial com Deus.

Então, qual o lugar de obras na vida cristã? Obras são muito importantes, mas
como resposta de gratidão pelo que Deus já fez por nós em Cristo.

Paulo e Tiago estão falando em dois contextos diferentes. Paulo combate a idéia
de que um relacionamento com Deus pode ser “comprado” por boas obras, enquanto
Tiago luta contra aqueles que dizem que a salvação não precisa fazer nenhuma
diferença na maneira de se viver a vida. É como se os dois estivessem de costas
um para o outro, unidos, mas combatendo inimigos diferentes. Para ambos, a fé
em Cristo Jesus é o meio da salvação. Mas Paulo combate o LEGALISMO enquanto
Tiago combate a LIBERTINAGEM.

2. A verdadeira fé em Jesus nunca fica só, mas rompe-se em obras (a
perspectiva de Tiago).

Se somos salvos somente pela fé, o que acontece depois? Voltemos para a
história do transplante de rim, doado pela sua mãe. Se você realmente se viu
como condenado à morte, sem esperança; se você recebeu um presente de valor
inestimável, um rim da sua própria mãe, sua vida depois será diferente! Você
vai amar sua mãe como nunca amava antes. Você faria de tudo para agradá-la—ela
é a sua vida! Você vai querer servi-la—lavar louça, levá-la para comer fora,
enviar o melhor cartão para o Dia das Mães, etc. Não para ganhar a salvação—você
já a tem! Mas porque você foi salvo, pela graça e pelo amor dela!

Tiago combate a idéia de que uma pessoa genuinamente convertida a Deus possa
continuar sua vida como se nada tivesse acontecido. A salvação verdadeira não
inclui nenhum requisito além da fé—a mão do mendigo esticado para receber a
esmola do céu. Mas implica em mudança radical de vida depois, pela obra do
Espírito Santo que habita no cristão, pela compreensão de tudo que Cristo fez
por nós na cruz.

Tiago não nos chama para “fabricar” obras, acrescentar ítens na nossa lista de
afazeres espirituais. O ponto é que uma fé verdadeira, que vem de Deus, que
trouxe nova vida pelo Espírito Santo, naturalmente produz o fruto de boas
obras. Temos parte no processo, sim. Cooperamos com a graça de Deus na produção
de boas obras. Caso contrário Tiago não teria razão de escrever.

Paulo diz a mesma coisa em 2Co 5:17 Se alguém está em Cristo, nova criatura é;
as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Gl 2:20 Sou
crucificado com Cristo, logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.

Num certo sentido, Paulo descreve como o homem é justificado diante de Deus,
enquanto Tiago descreve como o homem demonstra sua justificação diante dos
homens. Um fala da perspectiva vertical enquanto o outro, da horizontal.

Tg 2:24 “Verificais que uma pessoa é justificada por obras, e não por fé
somente.

Recebemos a vida, e depois revelamos a vida (de Jesus). Na justificação divina,
somos DECLARADOS justos. Na justificação diante dos homens, somos DEMONSTRADOS
justos. A fé falsa baseia-se em PROFISSÃO, mas a fé verdadeira baseia-se em
POSSESSÃO. Em outras palavras, a fé que salva rompe-se em obras.

Esse é o ensino unânime das Escrituas: Primeiro fé, depois obras. Mas as obras
não nos santificam. Mesmo depois da salvação, a vida cristã se vive pela fé, e
não pelas obras. As obras são resposta de gratidão produzidas em nossas vidas
pelo Espírito Santo (Gal 3.1-3). Vejo como Paulo concorda com Tiago quanto à
importância de obras como resultado (sobre-natural) da salvação pela fé:

Ef 2:10—Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as
quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.

Tito 1:16—No tocante a Deus professam conhecê-lo, entretanto o negam por suas
obras, por isso que são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa
obra.

Tiago nos lembra de que a fé verdadeira, que abraça Jesus e Sua obra na cruz
como a única esperança de vida eterna, não pode ficar só. Infelizmente, algumas
pessoas afirmavam fé em Jesus, mas era uma fé que desejava muito a desejar. Era
uma fé como os demônios têm (Tg 2.19). Eles crêem no único Deus. Crêem que
Jesus é o Filho de Deus; sabem que Jesus morreu na cruz pelos pecados. E além
disso, sua “fé” os faz tremer! Eles têm uma resposta emocional. Mas nem por
isso são salvos!

Historicamente, a fé evangélica tem entendido que a fé que salva envolve três
elementos: 1) Conhecimento dos fatos do Evangelho 2) Afirmação dos fatos do
Evangelho 3) CONFIANÇA PESSOAL nos fatos do Evangelho para MINHA salvação.

Muitos hoje possuem itens um e dois acima. Mas não chegam à fé verdadeira, que
exige apropriação pessoal do Evangelho. Não lançam o peso da sua esperança de
vida eterna sobre o Jesus e somente Jesus. Afirmam os fatos do Evangelho, mas
não confiam unica e exclusivamente neles para vida eterna. Esse passo “radical”
só vem quando Deus converte a alma de alguém. E quando esse “novo nascimento”
acontecer, há mudanças radicais na vida da pessoa. É isso que Paulo e Tiago
afirmam juntos.

Um outro Reformador do XVI século, João Calvino, conseguiu reconciliar o ensino
de Paulo e Tiago quando declarou, Só fé em Jesus Cristo é que salva, mas fé em
Jesus Cristo nunca fica só.

XV

QUE FUNCIONA

Tiago 2:14-26 (Parte II)
Autor(a): PR. DAVI MERKH
Casado com sua esposa Carol a 22 anos e têm 6 filhos. Leciona no
Seminário Bíblico Palavra da Vida, ministra como pastor auxiliar de exposição
bíblica na Primeira Igreja Batista de Atibaia, e é autor de 14 livros. E-Mail:
pr_dmerkh@piba.org.br
Como criança, eu gostava muito de brincar dom dominós, montando
fileiras sinuosas e derrubando o primeiro na esperança de que todos caíssem. Se
por acaso houve uma interrupção do “efeito dominó”, eu sabia que algo estava
errado—um dominó fora do lugar, um desnível na superfície, algum outro defeito.

O livro de Tiago mostra o “efeito dominó” na vida cristã. A fé genuína em
Cristo Jesus inevitavelmente leva para uma vida de boas obras. Se porventura
isso não acontecer, existe ampla evidência de que algo está errado. Ou a pessoa
nunca “entrou na linha” (não aceitou Jesus de verdade) ou está com algum
defeito sério em sua vida (está desalinhado ou desajustado).

Já descobrimos no primeiro estudo desse texto que não existe nenhuma
contradição entre Paulo e Tiago quando se trata da fé e das boas obras na vida
cristã. Descobrimos dois princípios fundamentais:

1. Só fé em Jesus Cristo é que salva, nunca obras. Obras não são uma condição
de salvação, nem da santificação, que acontece pela fé em Cristo (Ef 2.8,9).

2. A verdadeira fé em Jesus nunca fica só, mas rompe-se em obras. Obras
acompanham a verdadeira fé, como expressão da vida de Cristo em nós. São
produzidas por um coração cheio de graça, não culpa.

Recebemos a vida, e depois revelamos a vida (de Jesus). Na justificação divina,
somos DECLARADOS justos. Na justificação diante dos homens, somos DEMONSTRADOS
justos. A fé falsa baseia-se em PROFISSÃO só, mas a fé verdadeira baseia-se em
POSSESSÃO. Em outras palavras, a fé que salva rompe-se em obras.

Só fé em Jesus Cristo é que salva, Mas fé em Jesus Cristo nunca é só.

Jesus nos disse que “pelos frutos os conhecereis”. Se alguém professa ser
crente em Cristo mas sua vida não mudou em nada, será que realmente é salvo?
Embora não possamos julgar aos outros, segundo 2 Coríntios 13.5, devemos julgar
a nós mesmos: Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a
vós mesmos. Por isso, Tiago sugere provas concretas de uma fé genuína em seu
livro. Para ele “’Crer’ é um verbo ativo e presente”.

Em Tiago 2.14-16 vamos descobrir pelo menos três características de uma fé “de
boca pra fora”, e não “de coração para dentro”. Essa fé sem o efeito dominó de
obras é inútil, inválida e morta.

I. Fé sem Obras é Inútil (14-16)

Tiago pergunta, “qual o proveito” de uma fé sem obras (vss. 14,16). Tal fé sem
obras é inoperante (vs. 20). O que ele está dizendo? Uma fé verdadeira é como
uma semente plantada no solo fértil da vida de Jesus, que tem todas as
condições possíveis para gerar fruto. Se uma semente não der fruto, só existem
duas opções—ou o solo é ruim, ou a semente está morta. Sabemos que em Cristo o
“Solo” é perfeito. Então o problema deve estar na semente.

A. Fé Falsa é uma Fantasia! Fé sem obras, nas palavras de Jesus, é como sal
insípido, sem sabor, que não presta para nada. É um ramo não ligado à videira,
que só presta para ser podado e queimado.

Na época em que Tiago escreveu havia muita empolgação, até mesmo “intoxicação”
com a graça. No contexto judaico de legalismo opressivo, em que o povo
carregava fardos enormes de “performance” da lei, de repente, a verdade de
Cristo os libertou. Mas existia um perigo, perigo que Paulo também atacava em
suas cartas. “Pequemos, para que a graça super abunde?”

“De jeito nenhum!”, vem a resposta tanto de Paulo como de Tiago. Quem tem essa
perspectiva nunca compreendeu a graça do Senhor! É a prova mais clara de que
nunca fora regenerado.

Fomos salvos com propósito. Salvação em Cristo é muito mais que um apólice de
seguros de vida, que alguém compra e coloca numa gaveta e esquece! A salvação
genuína significa uma vida “em Cristo” com “Cristo em nós”.

As perguntas no vs. 14 é retórica; os leitores já sabiam a
resposta: “Qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras?
Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” Entende-se que existem vários tipos de
“fé”. Existe uma fé verdadeira e uma fé falsa. A primeira é uma possessão, a
outra é mera profissão. Por isso a pergunta, “pode, acaso ‘semelhante’ fé
salvá-lo?” Esse tipo de fé falsa é inútil.

B. Fé Falsa é Insensível.

Vss 15 e 16 ilustram a insensibilidade (inutilidade) de tal fé. Por ser uma fé
morta, não responde. Não faz nada. Não reage. Não sente. Não faz bem para
ninguém, muito menos a pessoa que diz que a possui. Seria o auge de auto-engano
e crueldade imaginar que meras palavras de consolo tomariam o lugar de obras de
consolo. “Aquela” fé é “de boca pra fora”. As palavras de quem diz “Ide em paz,
aquecei-vos e fartai-vos” caem para terra. É uma fé falada, não uma vida
vivida. É uma falsa compaixão, sem coração, sem realidade, uma fantasia

Temos que questionar a nós mesmos se temos criado calos na nossa fé. Se estamos
ficando endurecidos pelas necessidades que encontramos ao nosso redor. Se não
somos mais chocados pela miséria que o pecado tem produzido em nosso mundo…
crianças com defeitos físicos… mendigos … bêbedos… aidéticos… ovelhas
sem pastor.

Será que somos compassivos diante de por atores e atrizes em filmes e novelas,
mas endurecidos diante de tragédias na vida real? De que vale nossa ortodoxia
se não resulta em ortopraxia?

Quantas vezes nossa fé não passa de hipocrisia, palavras vazias que soam
bonitas mas que fazem absolutamente nada? Quantas vezes caímos numa rotina de
chavões evangélicas, mas que não fazem bem para ninguém! Há pessoas que
conseguem farejar falsa doutrina de 50 km, mas não conseguem dar um copo de
água fria para uma pessoa sedenta. Tiago, falando em nome de Deus, não tem
paciência para esse tipo de fé cerebral e hipócrita.

Fé sem obras é hipocrisa.

Obras sem fé é religiosidade.

Fé que rompe-se em obras é espiritualidade.

II. Fé sem obras não se valida (18-25) A palavra “justificação” admite de mais
de um significado no Novo Testamento. Quando Paulo fala em “justificação” do
crente, normalmente descreve um ato judicial do Supremo Juíz, em que Ele
declara alguém não somente livre do pecado, mas coberto da justiça de Jesus (2
Co 5:21). Ser “declarado justo” é o significado básico de “justificação”. Nesse
caso, essa “transação” acontece entre Deus e o homem só, e é invisível por
outros homens. Então, como saber se é verdadeira?

A única maneira de tornar fé visível é pelas obras.

A fé invisível torna-se visível quando veste-se em obras.

Assim como existem dois tipos de fé (profissão e possessão), também existem
dois tipos de justificação. Existe um outro significado, o uso de Tiago aqui,
que significa “mostrar-se justo” ou “validar”(cp. Rm 3:4,1 Tm 3:16, Lc 7:35).

Por exemplo, quando falamos em “justificar um voto”, queremos
dizer “validar nossa ausência na votação”. Quando Tiago fala em justificação,
tem em mente essa idéia de “validar”a fé. É a idéia de ter o “reconhecimento de
firma” da nossa fé. No cartório humano nossas obras validam a fé que dizemos
que temos.

Paulo diz, “Deus justifica quem crê em Jesus, sem obras da lei.” Tiago
acrescenta, “O homem tem sua fé validada pelo fruto que produz.” Em ambos os
casos, salvação é sempre pela fé, sem obras, sem condição, a não ser fé em
Cristo Jesus. Mas essa fé é “radical”—produz mudanças na “raíz” do coração, que
com o passar do tempo, produzem fruto.

A. Fé Verdadeira exige Mais que Conhecimento e Emoção (18-19).

Tiago usa o efeito “choque” para defender sua tese. Distingue entre dois tipos
de fé—uma fé falsa, invisível, ou pelo menos incompleta, que até os demônios
tem, e uma fé verdadeira, visível, que manifesta-se pelas obras.

Segundo vs. 19, os demônios são ortodoxos! Monoteístas, trinitarianos, crêem na
divindade e humanidade de Jesus, crêem que Jesus morreu na cruz pelos pecados,
crêem que ressuscitou ao terceiro dia! Além disso, eles têm uma reação
emocional a esses fatos (tremem). Mas não são salvos. Falta-lhes um ingrediente
essencial, que transforma fé falsa em fé genuína: CONFIANÇA.

B. Fé Verdadeira Justifica-se Pelas Obras (20-23). Abraão foi DEMONSTRADO justo
30 a 40 anos depois que foi DECLARADO justo, quando ofereceu Isaque no altar
(Gn 22). Leia bem o texto.

Tiago afirma a salvação pela fé somente . . . vs. 23 deixa isso muito claro,
citando Gn 15:6.

“Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. Mas veja bem: O
processo que se iniciou depois que ele creu em Deus–a semente da sua fé–
brotou, e 40 anos depois, justificou-se diante de Deus e do mundo. Sua fé na
realidade de Deus, na obra de Deus em sua vida, na promessa de Deus, era tão
grande, que ele podia colocar TUDO no altar de Deus, seu único filho, o filho
da promessa, sua esperança do futuro, sua alegria. Somente uma fé madura,
arraigada na soberania e no amor de Deus, é capaz disso.

Conforme vss 22 e 23, “foi pelas obras que a fé se consumou”, ou seja “se
aperfeiçoou”, se fez “perfeita”, completa. Em outras palavras, o fruto da fé é
obras.

Às vezes, teremos que esperar muito tempo, como Abraão, para ver que tipo de
fruto a fé a de produzir. Mas certamente será produzido. E se não existe, temos
toda razão para questionar se a fé existe também.

Por isso vs. 24 diz que somos justificados—no sentido de sermos demonstrados
como pessoas de fé—pelo fruto da nossa fé. A pessoa é DEMONSTRADA justa pelas
obras baseadas em fé.,

Um segundo exemplo é Raabe. Ela começou do outro lado do espectro da humanidade
que Abraão—prostituta, cananita, mulher mentirosa. Mas ela também foi aceita
por Deus, baseada numa fé inabalável em Deus e Sua Palavra, e depois,
manifestada diante de todos por obras de fé, obras arriscadas. Ela colocou tudo
no altar também, e assim sua fé foi validada.

III. Fé sem obras é morta (17, 20, 26)

O grande clímax do texto está no vs. 26. De fato, começa no vs. 17: A fé
invisível—fé “de boca pra fora”—não é uma fé viva, não é uma fé verdadeira, mas
morta. A ordem é simples: Recebemos a vida, e depois revelamos a vida (de
Jesus).

Assim como um corpo sem o espírito não tem força, nem vida, assim uma “fé” que
não rompe-se em obras é morta. Fica totalmente insensível, fria, dura. Não
reage. Não sente. Não mexe. Não cresce.

O que fazemos revela quem somos. Se não fazemos nada, somos mortos. Se a árvore
só produz fruto podre, a árvore está podre:

Mt 7:16-20 Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos
espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim toda árvore boa produz bons frutos,
porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos
maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom
fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os
conhecereis.

1 Jo 3:7-10 Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica
a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que pratica o pecado procede
do diabro, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se
manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é
nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a
divina semente; ora, esse não pode viver pecadno, porque é nascido de Deus.
Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que
não pratica justiça não procede de Deus, também aquele que não ama a seu irmão.

Não podemos “fabricar” boas obras. São o produto natural de quem tem vida em
si, a vida de Jesus, cultivada e demonstrada pelo Espírito Santo, que nos
“cutuca” em direção a um caráter aprovado por Deus. Tiago escreve por esse
mesmo Espírito para nos “cutucar” em direção às obras que revelam uma fé
verdadeira. Podemos recapitular as “obras” que ele mesmo já mencionou até esse
ponto no livro como provas de uma fé genuúina, uma fé presente e ativo:

1. Reage as provações com alegria (1.2-12)

2. Resiste tentação, CRENDO que Deus é bom e que não tenta a ninguém, mas que a
culpa pelo pecado vem de mim mesmo (1.13-18)

3. Recebe a Palavra, como praticante e não somente ouvinte. Quem foi
regenerador pela Palavra da verdade não consegue mais viver sem ela. Deve sua
vida a Ela! (1.19-25).

4. Reflete sua religião em generosidade, santidade e palavras peneiradas (1.26,27).

5. Rejeita favoritismo (2.1-13).

Mais tarde na carta, Tiago dará outras obras que são fruto natural de quem
realmente crê em Jesus. Mas por ora, cabe a nós fazermos o que Paulo sugere em
2 Co 13:5, e examinar-nos a nós mesmos, para ver se realmente estamos na fé. Se
confiamos, mas confiamos mesmo em Cristo Jesus e somente Cristo, então é hora
de deixar que a vida dEle seja vivida em nós, em nosso caráter, transformado
diariamente, de glória a glória, à imagem de Cristo.

Só fé em Jesus Cristo é que salva, Mas fé em Jesus Cristo nunca fica só.

Parte
XVI

QUE FUNCIONA

Tiago 2:14-26 (Parte II)
 Como
criança, eu gostava muito de brincar dom dominós, montando fileiras sinuosas e
derrubando o primeiro na esperança de que todos caíssem. Se por acaso houve uma
interrupção do “efeito dominó”, eu sabia que algo estava errado—um dominó fora
do lugar, um desnível na superfície, algum outro defeito.

O livro de Tiago mostra o “efeito dominó” na vida cristã. A fé genuína em
Cristo Jesus inevitavelmente leva para uma vida de boas obras. Se porventura
isso não acontecer, existe ampla evidência de que algo está errado. Ou a pessoa
nunca “entrou na linha” (não aceitou Jesus de verdade) ou está com algum
defeito sério em sua vida (está desalinhado ou desajustado).

Já descobrimos no primeiro estudo desse texto que não existe nenhuma
contradição entre Paulo e Tiago quando se trata da fé e das boas obras na vida
cristã. Descobrimos dois princípios fundamentais:

1. Só fé em Jesus Cristo é que salva, nunca obras. Obras não são uma condição
de salvação, nem da santificação, que acontece pela fé em Cristo (Ef 2.8,9).

2. A verdadeira fé em Jesus nunca fica só, mas rompe-se em obras. Obras
acompanham a verdadeira fé, como expressão da vida de Cristo em nós. São produzidas
por um coração cheio de graça, não culpa.

Recebemos a vida, e depois revelamos a vida (de Jesus). Na justificação divina,
somos DECLARADOS justos. Na justificação diante dos homens, somos DEMONSTRADOS
justos. A fé falsa baseia-se em PROFISSÃO só, mas a fé verdadeira baseia-se em
POSSESSÃO. Em outras palavras, a fé que salva rompe-se em obras.

Só fé em Jesus Cristo é que salva, Mas fé em Jesus Cristo nunca é só.

Jesus nos disse que “pelos frutos os conhecereis”. Se alguém professa ser
crente em Cristo mas sua vida não mudou em nada, será que realmente é salvo?
Embora não possamos julgar aos outros, segundo 2 Coríntios 13.5, devemos julgar
a nós mesmos: Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a
vós mesmos. Por isso, Tiago sugere provas concretas de uma fé genuína em seu
livro. Para ele “’Crer’ é um verbo ativo e presente”.

Em Tiago 2.14-16 vamos descobrir pelo menos três características de uma fé “de
boca pra fora”, e não “de coração para dentro”. Essa fé sem o efeito dominó de
obras é inútil, inválida e morta.

I. Fé sem Obras é Inútil (14-16)

Tiago pergunta, “qual o proveito” de uma fé sem obras (vss. 14,16). Tal fé sem
obras é inoperante (vs. 20). O que ele está dizendo? Uma fé verdadeira é como
uma semente plantada no solo fértil da vida de Jesus, que tem todas as
condições possíveis para gerar fruto. Se uma semente não der fruto, só existem
duas opções—ou o solo é ruim, ou a semente está morta. Sabemos que em Cristo o
“Solo” é perfeito. Então o problema deve estar na semente.

A. Fé Falsa é uma Fantasia! Fé sem obras, nas palavras de Jesus, é como sal
insípido, sem sabor, que não presta para nada. É um ramo não ligado à videira,
que só presta para ser podado e queimado.

Na época em que Tiago escreveu havia muita empolgação, até mesmo “intoxicação”
com a graça. No contexto judaico de legalismo opressivo, em que o povo
carregava fardos enormes de “performance” da lei, de repente, a verdade de
Cristo os libertou. Mas existia um perigo, perigo que Paulo também atacava em
suas cartas. “Pequemos, para que a graça super abunde?”

“De jeito nenhum!”, vem a resposta tanto de Paulo como de Tiago. Quem tem essa
perspectiva nunca compreendeu a graça do Senhor! É a prova mais clara de que
nunca fora regenerado.

Fomos salvos com propósito. Salvação em Cristo é muito mais que um apólice de
seguros de vida, que alguém compra e coloca numa gaveta e esquece! A salvação
genuína significa uma vida “em Cristo” com “Cristo em nós”.

As perguntas no vs. 14 é retórica; os leitores já sabiam a resposta: “Qual é o
proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso,
semelhante fé salvá-lo?” Entende-se que existem vários tipos de “fé”. Existe
uma fé verdadeira e uma fé falsa. A primeira é uma possessão, a outra é mera
profissão. Por isso a pergunta, “pode, acaso ‘semelhante’ fé salvá-lo?” Esse
tipo de fé falsa é inútil.

B. Fé Falsa é Insensível.

Vss 15 e 16 ilustram a insensibilidade (inutilidade) de tal fé. Por ser uma fé
morta, não responde. Não faz nada. Não reage. Não sente. Não faz bem para
ninguém, muito menos a pessoa que diz que a possui. Seria o auge de auto-engano
e crueldade imaginar que meras palavras de consolo tomariam o lugar de obras de
consolo. “Aquela” fé é “de boca pra fora”. As palavras de quem diz “Ide em paz,
aquecei-vos e fartai-vos” caem para terra. É uma fé falada, não uma vida
vivida. É uma falsa compaixão, sem coração, sem realidade, uma fantasia

Temos que questionar a nós mesmos se temos criado calos na nossa fé. Se estamos
ficando endurecidos pelas necessidades que encontramos ao nosso redor. Se não
somos mais chocados pela miséria que o pecado tem produzido em nosso mundo…
crianças com defeitos físicos… mendigos … bêbedos… aidéticos… ovelhas
sem pastor.

Será que somos compassivos diante de por atores e atrizes em filmes e novelas,
mas endurecidos diante de tragédias na vida real? De que vale nossa ortodoxia
se não resulta em ortopraxia?

Quantas vezes nossa fé não passa de hipocrisia, palavras vazias que soam
bonitas mas que fazem absolutamente nada? Quantas vezes caímos numa rotina de
chavões evangélicas, mas que não fazem bem para ninguém! Há pessoas que
conseguem farejar falsa doutrina de 50 km, mas não conseguem dar um copo de
água fria para uma pessoa sedenta. Tiago, falando em nome de Deus, não tem
paciência para esse tipo de fé cerebral e hipócrita.

Fé sem obras é hipocrisa.

Obras sem fé é religiosidade.

Fé que rompe-se em obras é espiritualidade.

II. Fé sem obras não se valida (18-25) A palavra “justificação” admite de mais
de um significado no Novo Testamento. Quando Paulo fala em “justificação” do
crente, normalmente descreve um ato judicial do Supremo Juíz, em que Ele
declara alguém não somente livre do pecado, mas coberto da justiça de Jesus (2
Co 5:21). Ser “declarado justo” é o significado básico de “justificação”. Nesse
caso, essa “transação” acontece entre Deus e o homem só, e é invisível por
outros homens. Então, como saber se é verdadeira?

A única maneira de tornar fé visível é pelas obras.

A fé invisível torna-se visível quando veste-se em obras.

Assim como existem dois tipos de fé (profissão e possessão), também existem
dois tipos de justificação. Existe um outro significado, o uso de Tiago aqui,
que significa “mostrar-se justo” ou “validar”(cp. Rm 3:4,1 Tm 3:16, Lc 7:35).

Por exemplo, quando falamos em “justificar um voto”, queremos
dizer “validar nossa ausência na votação”. Quando Tiago fala em justificação,
tem em mente essa idéia de “validar”a fé. É a idéia de ter o “reconhecimento de
firma” da nossa fé. No cartório humano nossas obras validam a fé que dizemos
que temos.

Paulo diz, “Deus justifica quem crê em Jesus, sem obras da lei.” Tiago
acrescenta, “O homem tem sua fé validada pelo fruto que produz.” Em ambos os
casos, salvação é sempre pela fé, sem obras, sem condição, a não ser fé em
Cristo Jesus. Mas essa fé é “radical”—produz mudanças na “raíz” do coração, que
com o passar do tempo, produzem fruto.

A. Fé Verdadeira exige Mais que Conhecimento e Emoção (18-19).

Tiago usa o efeito “choque” para defender sua tese. Distingue entre dois tipos
de fé—uma fé falsa, invisível, ou pelo menos incompleta, que até os demônios
tem, e uma fé verdadeira, visível, que manifesta-se pelas obras.

Segundo vs. 19, os demônios são ortodoxos! Monoteístas, trinitarianos, crêem na
divindade e humanidade de Jesus, crêem que Jesus morreu na cruz pelos pecados,
crêem que ressuscitou ao terceiro dia! Além disso, eles têm uma reação
emocional a esses fatos (tremem). Mas não são salvos. Falta-lhes um ingrediente
essencial, que transforma fé falsa em fé genuína: CONFIANÇA.

B. Fé Verdadeira Justifica-se Pelas Obras (20-23). Abraão foi DEMONSTRADO justo
30 a 40 anos depois que foi DECLARADO justo, quando ofereceu Isaque no altar
(Gn 22). Leia bem o texto.

Tiago afirma a salvação pela fé somente . . . vs. 23 deixa isso muito claro,
citando Gn 15:6.

“Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. Mas veja bem: O
processo que se iniciou depois que ele creu em Deus–a semente da sua fé–
brotou, e 40 anos depois, justificou-se diante de Deus e do mundo. Sua fé na
realidade de Deus, na obra de Deus em sua vida, na promessa de Deus, era tão
grande, que ele podia colocar TUDO no altar de Deus, seu único filho, o filho
da promessa, sua esperança do futuro, sua alegria. Somente uma fé madura,
arraigada na soberania e no amor de Deus, é capaz disso.

Conforme vss 22 e 23, “foi pelas obras que a fé se consumou”, ou seja “se
aperfeiçoou”, se fez “perfeita”, completa. Em outras palavras, o fruto da fé é
obras.

Às vezes, teremos que esperar muito tempo, como Abraão, para ver que tipo de
fruto a fé a de produzir. Mas certamente será produzido. E se não existe, temos
toda razão para questionar se a fé existe também.

Por isso vs. 24 diz que somos justificados—no sentido de sermos demonstrados
como pessoas de fé—pelo fruto da nossa fé. A pessoa é DEMONSTRADA justa pelas
obras baseadas em fé.,

Um segundo exemplo é Raabe. Ela começou do outro lado do espectro da humanidade
que Abraão—prostituta, cananita, mulher mentirosa. Mas ela também foi aceita
por Deus, baseada numa fé inabalável em Deus e Sua Palavra, e depois,
manifestada diante de todos por obras de fé, obras arriscadas. Ela colocou tudo
no altar também, e assim sua fé foi validada.

III. Fé sem obras é morta (17, 20, 26)

O grande clímax do texto está no vs. 26. De fato, começa no vs. 17: A fé
invisível—fé “de boca pra fora”—não é uma fé viva, não é uma fé verdadeira, mas
morta. A ordem é simples: Recebemos a vida, e depois revelamos a vida (de
Jesus).

Assim como um corpo sem o espírito não tem força, nem vida, assim uma “fé” que
não rompe-se em obras é morta. Fica totalmente insensível, fria, dura. Não
reage. Não sente. Não mexe. Não cresce.

O que fazemos revela quem somos. Se não fazemos nada, somos mortos. Se a árvore
só produz fruto podre, a árvore está podre:

Mt 7:16-20 Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos
espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim toda árvore boa produz bons frutos,
porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos
maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom
fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os
conhecereis.

1 Jo 3:7-10 Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica
a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que pratica o pecado procede
do diabro, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se
manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é
nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a
divina semente; ora, esse não pode viver pecadno, porque é nascido de Deus.
Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que
não pratica justiça não procede de Deus, também aquele que não ama a seu irmão.

Não podemos “fabricar” boas obras. São o produto natural de quem tem vida em
si, a vida de Jesus, cultivada e demonstrada pelo Espírito Santo, que nos
“cutuca” em direção a um caráter aprovado por Deus. Tiago escreve por esse
mesmo Espírito para nos “cutucar” em direção às obras que revelam uma fé
verdadeira. Podemos recapitular as “obras” que ele mesmo já mencionou até esse
ponto no livro como provas de uma fé genuúina, uma fé presente e ativo:

1. Reage as provações com alegria (1.2-12)

2. Resiste tentação, CRENDO que Deus é bom e que não tenta a ninguém, mas que a
culpa pelo pecado vem de mim mesmo (1.13-18)

3. Recebe a Palavra, como praticante e não somente ouvinte. Quem foi
regenerador pela Palavra da verdade não consegue mais viver sem ela. Deve sua
vida a Ela! (1.19-25).

4. Reflete sua religião em generosidade, santidade e palavras peneiradas
(1.26,27).

5. Rejeita favoritismo (2.1-13).

Mais tarde na carta, Tiago dará outras obras que são fruto natural de quem
realmente crê em Jesus. Mas por ora, cabe a nós fazermos o que Paulo sugere em
2 Co 13:5, e examinar-nos a nós mesmos, para ver se realmente estamos na fé. Se
confiamos, mas confiamos mesmo em Cristo Jesus e somente Cristo, então é hora
de deixar que a vida dEle seja vivida em nós, em nosso caráter, transformado
diariamente, de glória a glória, à imagem de Cristo.

Só fé em Jesus Cristo é que salva, Mas fé em Jesus Cristo nunca fica só.

Parte
XVI
LENDO
MATEUS COM OLHOS JUDEUS
Os Evangelhos chamados Sinóticos têm sido objeto de intenso estudo
desde a primeira parte do século 19. O chamado “Problema Sinótico”
tem ocupado os estudiosos por dezenas de anos em uma verdadeira caçada às
fontes destes Evangelhos, tendo ficado claro para estes mestres que os
Evangelhos de Lucas e Mateus tinham incorporado a maior parte do Evangelho de
Marcos, tendo, porém, elementos comuns que nele não estavam. Tem-se dado,
igualmente, a busca da chamada fonte ou documento Q (inicial da palavra alemã
Quelle, que significa “fonte”), ou mesmo de várias formas deste
documento, o qual é supostamente a fonte ou fontes dos Sinóticos. Os
pesquisadores do assunto hoje têm a tradição oral e as primitivas narrativas
escritas como fontes comuns dos Evangelhos Sinóticos.

Os evangelistas, aqui incluindo João, apresentam distintos retratos de Jesus
Cristo. Acerca desse assunto, LAGRANGE expressou-se,

“Marcos trabalha no calor terreno da terracota; Lucas esculpe no mármore
branco (tanto no Evangelho quanto no livro dos Atos, a geografia é teológica,
sua mente é fascinada pela vasta expansão da missão universal do Cristianismo);
A visão de Mateus é colorida por um forte interesse na eclesiologia (seu estilo
é hierático e litúrgico); João, por outro lado, é um sacramentalista com uma
percepção mística do mistério da Palavra feita carne”.

Os Evangelhos canônicos foram compostos entre os anos 55 e 85 do calendário
romano, e são considerados como forma escrita da tradição oral da Igreja
Apostólica. Lucas, em 1.1-3, refere-se à existência de muitos Evangelhos
baseados nas narrações feitas pelos discípulos e por pessoas que testemunharam
os fatos. Marcos teria ouvido de Pedro, e Mateus havia feito uma compilação das
próprias palavras de Jesus em aramaico.

O papel de Israel, nos Evangelhos é o de guia: os goyim (gentios) deveriam
unir-se a Israel, visto que este não perdera a posição até então ocupada.
SCHLESINGER afirma que “o evangelista Mateus nada sabe a respeito da
invalidação da antiga aliança. Para ele, o chamado das nações gentílicas é
coisa secundária. A comunidade que possui o reino não é um novo Israel, senão o
verdadeiro Israel.”

O problema que se apresenta é o do reconhecimento do novo estado de coisas que
Jesus, o Nazareno prega. Mateus é o “Evangelho do cumprimento”
(5.17-20). Jesus enviado apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel (15.24);
Salvador do Seu povo (1.21). É o “nazareno” de uma não identificada
profecia (2.23).

De acordo com Mateus, o Malkut haShamaim (“Reino dos Céus”) é o
cumprimento das antigas profecias, a última realização da Torah (“instrução,
lei”), o judaísmo dos antepassados levado à sua maior perfeição. A nova
ordem não é a negação da antiga aliança, mas a sua consecução (Mt 26.28), de
acordo com o oráculo de Jeremias em 31.31-33. Mateus se refere a uma aliança
que se renova periodicamente. Para ele, a Igreja de Cristo personifica a
autêntica fé de Israel.

O LUGAR DE MATEUS NOS SINÓTICOS

No Evangelho de Mateus, quatro elementos, que são a Lei, o Juízo, a Igreja e a
Missão Universal, estão perfeitamente integrados como círculo e expansão da
Pessoa, de Cristo e Sua missão neste mundo.

O Evangelho de Mateus é ao mesmo tempo um livro teológico, ou seja, faz um
estudo e busca a compreensão de Deus em Jesus e Seu destino escatológico, já
que Ele revela Deus entre nós (11.25ss). Mas é, também, um livro antropológico
porque se volta para o ser humano. Mateus é um livro eclesiológico, porque a
comunidade de Cristo exerce o serviço aos irmãos e a ajuda aos pequenos, como o
expressa o capítulo 18.

O Evangelho de Mateus tem sido sempre de elevada estima por seu íntimo
relacionamento com o ambiente palestino do qual Jesus veio e no qual viveu, e
pela admirável síntese de seu ensino. Seu autor, Mateus (ou Levi) foi um dos
apóstolos e testemunha ocular, que segundo Papias (c. 140 d.C.), “colocou
em ordem os ditos do Senhor na língua hebraica (aramaica), que cada um traduziu
do melhor modo que podia”.

O vocábulo grego logia, palavra que significa “sentenças” e título da
obra/fonte em aramaico do Evangelho de Mateus, reproduz o hebraico devarim que
significa “palavras”, “fatos”. A obra aramaica de Mateus já
não mais existe. Assim, há quem admita que o Evangelho de Mateus, seqüência
dessa primeira obra, tenha sido escrito em grego numa data bem posterior, por
um autor familiarizado com o ambiente helenístico da Igreja da Ásia Menor, e
que fez uso abundante de materiais conhecidos na Igreja Primitiva como didakê
ou “instrução”.

O conceituado pensador judeu Martin BUBER escreve em sua obra Dois Tipos de Fé
que o Cristianismo como tal teve início quando as convocações de Jesus para
entrar no chegado Malkut haShamaim foram entendidas como um convite à
conversão. Para Buber, esse foi o momento de infidelidade à religião de Israel.
E a doutrina de Cristo não é uma evolução e aperfeiçoamento do que viera
anteriormente (a Antiga Aliança), mas uma deturpação e um desvio.

CINCO BLOCOS

O Evangelho original em língua semítica foi escrito entre 50 a 65 d.C.,
provavelmente começando com o ministério de João, o Batista (o atual capítulo
3) e terminou com relato tradicional da paixão/ressurreição. O Evangelho de
Mateus está dividido em cinco seções que são centradas nos cinco grandes
discursos de Jesus, espelho na Nova Aliança dos cinco livros de Moisés.

O Primeiro Sermão (capítulos 5 a 7) foi anunciado numa montanha. É o Sinai da
Nova Aliança. É precedido pela chamada dos discípulos e numerosas curas e
exorcismos. Jesus proclama deste modo a chegada do Malkut haShamaim. Mateus
utiliza essa expressão porque respeitosa e judaicamente evita falar o nome de
Deus que seria mencionado na expressão sinônima Malkut haElohim, ou seja,
“Reino de Deus”. O que marca o fim do primeiro “livro” ou
seção é a expressão de 7.28, “E aconteceu que concluindo Jesus este
discurso…”

O Segundo Sermão (10.5-42) apresenta as instruções dadas aos Seus discípulos
antes de Jesus enviá-los em missão. Os doze vão armados com poder para
exorcizar e curar, como tinham visto Jesus fazer na tríplice série de três
milagres que precedem esta seção. Termina toda a seção com a expressão de 11.1,
“E aconteceu que, acabando Jesus de dar instruções aos seus doze
discípulos…”

As seções narrativas dos capítulos 11 e 12 falam da oposição a Jesus e Sua
pregação da chegada do “reino dos céus” por parte dos captores de
João, o Batista, das cidades ímpias de Corazim e Betsaida, e da mentalidade dos
perushim (fariseus), preparando para o capítulo 13, que o Terceiro Sermão,
coleção de sete parábolas que ilustram este chegado reino. 13.53 encerra a
seção dizendo “E aconteceu que Jesus, concluindo estas parábolas…”

A Quarta coleção de palavras de Jesus (capítulo 18) registra Seu ensino sobre
os deveres dos discípulos. As narrativas da capacitação dos discípulos, a
transfiguração, a Sua paixão predita conduzem a essa seção. O capítulo 19.1 dá
por encerrado o bloco.

A Quinta e última seção, e seu discurso principal (capítulos 24 e 25) tem
caráter profético. Ele é o centro da seção, apesar de o capítulo 23 se
apresentar como um discurso com sete “ais” contra os escribas e
fariseus. 26.1 encerra todo o Evangelho por dizer “… quando Jesus
concluiu todos estes discursos…”

É preciso que honestamente se registre que nem todos os estudiosos concordam
como esta ordem estrutural ou princípio interno de composição em cinco livros
ou cinco seções do Evangelho de Mateus. L. VAGANAY, citado por SLOYAN, divide-o
em três seções (3.1 – 4.22; 4.23 – 11.20; 12.1 – 25.46), sendo que a primeira e
a segunda partes fazem paralelo com Marcos 1.1-20 e 2.23 – 13.37.

LÉON-DUFOUR divide Mateus em duas partes que são

o ensino de Jesus como guia para a conduta da comunidade de Cristo (o Sermão do
Monte) até a confissão de Pedro em Cesaréia de Filipos, e
a proclamação da salvação (o kerygma), bem como a paixão vindoura e a
preocupação com as chamadas “últimas coisas”.
Até mesmo no fato de que Mateus, apresentando Jesus como a fonte da Torah
cristã, adota o modo dos perushim, visto que estes eram extremamente
preocupados com a Torah. É aí que Mateus é totalmente diferente de Paulo, no
fato de que não o evangelista faz pouco caso da Lei como tal. Pelo contrário,
ele aprova e referenda a Lei, mesmo para cristãos. Trata-se, no entanto, de uma
Lei nova designada a suplantar e a substituir as leis mosaicas. Em alguns
lugares até apresenta uma lei mais rigorosa que a mosaica, e assim fazendo,
reflete um desejo de produzir uma justiça que excederá a dos sopherim
(escribas) e perushim (cf. 5.20).

O Evangelho de Mateus é, antes de tudo, o Evangelho do Reino, em suas
parábolas, na pregação de Jesus, na consciência da condição do povo remido por
Deus vivendo no meio de um mundo ímpio. Há uma forte corrente de escatologia
apocalíptica (especialmente nos capítulos 24 e 25, o “Pequeno
Apocalipse”) tão ao gosto da sofrida gente judia.

Presume-se que este Evangelho tenha sido escrito em Antioquia da Síria. Talvez
o fato da grande presença de judeus em Antioquia tenha levado a certa urgência
na sua confecção. Parece que Mateus havia se defrontado com essa pressa ao
responder à alegação de que Jesus não havia verdadeiramente morrido. É assim
que ficam registradas informações como 27.54, 62-66; 28.11-15, e que parecem
sugerir uma controvérsia com os judeus.

O EVANGELHO DOS JUDEUS

O Evangelho de Mateus reserva seu caráter essencialmente judaico ao enfatizar o
tema do “cumprimento” mais do que qualquer outro evangelista, Mateus
cita as profecias do Antigo Testamento e as aplica aos eventos da vida e do
ministério de Jesus. A Sua genealogia traçada a partir de Abraão, a ênfase em
Jesus como o Rei messiânico e Legislador, mas, ao mesmo tempo, “o Servo
Sofredor”, mostram que para este evangelista a nota principal do ensino
cristão é que Jesus era Aquele que fora predito por Moisés e pelos profetas.

A determinação de Mateus em apresentar Jesus como um novo e superior Moisés o
leva a “moldar o seu Jesus de acordo com a figura de Moisés no Êxodo”
Como Moisés, Jesus quase pereceu na chamada matança dos inocentes . Como Moisés
em Midiã, Jesus ficou um tempo em desterro no Egito. Como Moisés, apresentou o
Seu grande ensino num monte. Como os ensinos de Moisés estão registrados em
cinco livros, há em Mateus, como já mencionamos, cinco blocos de material
pedagógico, terminando cada um com um colofon, uma conclusão formal (5.1 –
7.29; 10.5 – 11.1; 13.1-53; 18.1 – 19.1; 24.2 – 26.1).

Principais características deste Evangelho:

Ter sido escrito para os judeus. Foi escrito por um judeu para convencer os
judeus. Assim, um dos grandes objetivos deste Evangelho é demonstrar que todas
as profecias do Antigo Testamento se cumprem em Jesus, e por isso, é o Messias.
Daí, a frase com suas variantes que é dezesseis vezes recorrente: “Tudo
isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta…” O
nascimento e o nome de Jesus são cumprimento de profecias (1.21-23); a fuga
para o Egito também (2.14,15); a matança dos inocentes (2.16-18); o regresso e
a fixação de José, bem como a infância de Jesus em Nazaré (2.13); o uso de
parábolas (13.34,35); a traição por trinta moedas de prata (27.9); o sorteio da
roupa do Mestre enquanto preso à cruz (27.35).
judaismo de Jesus é percebido na sua atitude para com a Lei. Ele não veio para
destruir a Lei, mas para cumpri-la.
Há em Mateus um interesse apocalíptico particularmente forte. É basicamente
encontrado nos capítulos 24 e 25.
Seu evangelho docente é outra característica especial. A sistematização do seu
trabalho usando dois números significativos para o judeu: o 3 e o 7. Exemplos
desta sistematização são:

José recebe 3 mensagens;
Pedro nega a Jesus 3 vezes;
Pilatos faz 3 perguntas;
No capítulo 13, há 7 parábolas do reino;
No capítulo 23, há 7 “ais” pronunciados acerca dos escribas e
fariseus;
A genealogia é um excelente exemplo desta sistematização. Mateus quer
demonstrar que Jesus é da linhagem de Davi. Como em hebraico não há numerais,
usam-se as consoantes do alfabeto que possuem, portanto, valor numérico. Por
exemplo, David, ou seja, D V D. A soma dá 14. A genealogia de Jesus em Mateus
consiste em 3 grupos de 14 nomes. Tudo feito para que o leitor judeu perceba a
messianidade de Cristo embutida nas palavras, números e valores.

Somente quem conhece a riqueza do pensamento rabínico galileu, ambiente de
Jesus, pode acompanhar e compreender plenamente os seus sermões e dar plena
força às suas próprias palavras e expressões. SCHLESINGER afirma que para
Jesus, seus ensinamentos não pressupõem o abandono da religião judaica.

O Evangelho de Mateus é, portanto, o que mais se aproxima do pensamento
judaico, e aquele no qual a hostilidade contra os judeus é menos acentuada, e
sua principal característica é mostrar como Jesus realiza as obras divinas. Que
a missão de Jesus é dirigida primordialmente aos b’nei Israel (filhos de
Israel), não há dúvida. É bastante ler os versos 10.5,6; 15.24 (cf. Jo 1.11).

Baseado no original aramaico, o atual Evangelho de Mateus manifesta pelo
estilo, forma, fraseologia e expressões, o método de discussão de caráter
semita. A intenção do autor é introduzir a mensagem do Malkut (reino) nos
quadros da religião judaica. Multiplica as citações do Tanach (Antigo
Testamento) para mostrar a sua realização na vida de Jesus.

Para Jesus, a importância da Torah é sintetizada na fórmula “Não penseis
que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para
cumpri-los” (5.17). E quando denuncia a hipocrisia dos sopherim e dos
perushim, mesmo assim assume o ensino deles.

Jesus no Monte parece refletir a tipologia de Moisés. Relembra, pelo cenário e
conteúdo de sua prédica, o grande mediador da lei de Deus no judaismo, A
seriação de dez milagres operados por Jesus lembra as dez pragas do Egito. A
“nuvem luminosa” que envolve Jesus transfigurado, no episódio do
Monte Tabor, em que são mencionados também Elias e Moisés, reassume com
destaque a conceituação judaica da Shekinah, que é a presença divina no povo de
Israel.

A época da redação do Evangelho de Mateus era dura para os cristãos. Os judeus
mostravam-lhes uma hostilidade acentuada, quase do mesmo modo que os romanos.

Para alguém tão versado na tradição judaica como Mateus, é evidente que, para
contar a história do Messias, a primeira tarefa a empreender é demonstrar que é
o Messias. E para isso, deve provar em primeiro lugar que o Messias pertence à
linhagem de Davi. Conseqüentemente, Mateus começa por apresentar uma genealogia
(1.1- 17). Registramos abaixo um paralelo entre fatos, eventos e palavras do Evangelho
de Mateus com sua correspondência no Antigo Testamento.

Mt 1.22,23
Is 7.14

Mt 2.2
Nm 24.17; Is 60.3

Mt 2.5,6
Mq 1.33; 5.2; Sm 5.2

Mt 2.16-18
Jr 1.24; Gn 35.19; Ex 15,16

Mt 2.13-15
Os 11.1

Mt 2.19,20
Ex 4.19

Mt 2.22,23
não se sabe onde, pois não há no Antigo Testamento qualquer referência ao
Messias como nazareno. É possível que Mateus tenha feito um jogo de palavras
com nazireu (= Jz 13.5), ou de Is 11.1 ou Zc 6.12, “Renovo”, em
hebraico netzer. O jogo é “nazareno”” com “nazireu” ou
“nazareno” com “netzer”

Mt 3.11,12
Ez 36.24-26; 2Rs 5.10

Mt 3.3
Is 40.3

Mt 3.4 4.4
2Rs 1.8; 1Rs 17.6;

Ml 4.5
Dt 8.3

Mt 4.6
Sl 91, 11, 12

Mt 4.7
Dt 6.16

Mt 4.10
Dt 6.13,14;

Mt 4.14-16
Is 9.1,2;

Mt 5.4
Sl 37.11

Mt 8.17
Is 53.4

Mt 9.12,13
Os 6.6

Mt 21.1
Zc 14.4

Mt 21.12,13
Jr 7.1,11

Mt 24.31?
Dn 7.13,14

Mt 26.15
Zc 11.12

Mt 27.7-10
Zc 11.13

Mt 27.24
Dt 21.6,7

Mt 27.34
Sl 69.22

Mt 27.46
Sl 22.2, 17-19

]E, ainda, a controvérsia sobre o Shabbath (Repouso) (Mt 12.11-14) como
cumprimento de Isaías 42.1-4.

TEMAS E PROBLEMAS ESPECIAIS

Cristologia
Destacam-se na cristologia de Mateus:

A comparação de Mateus com Marcos para detectar quais as diferenças entre os
dois Evangelhos mesmo onde correm paralelamente. O de Mateus é freqüentemente
mais explícito que o de Marcos.
Os títulos cristológicos usados no Evangelho de Mateus, que são ricos e
significativos. “Filho de Davi”, por exemplo, aparece logo no seu
primeiro versículo, identificando Jesus com o Messias davídico. É sintomático
que esse título aparece sempre nos lábios dos necessitados. Mateus usa o título
Kyrios (Senhor) mais do que Marcos. É palavra que vai desde o
“senhor” da linguagem quotidiana (13.27) até à confissão da
Divindade. O mesmo ocorre com o título “Filho do Homem”.
Profecia e Cumprimento

Em Mateus o retorno de Jesus do Egito cumpre o texto veterotestamentário que se
refere a Êxodo 2.15.
O pranto das mães de Belém cumpre a referência de Jeremias ao pranto de Raquel
pelos seus filhos em Ramá.
Jesus que se muda para Nazaré cumpre “o que fora dito pelos profetas”

A compra de um campo pelos sacerdotes por trinta moedas de prata cumpre as
Escrituras descrevendo ações realizadas por Jeremias e Zacarias (27.9).
A Lei

A questão da atitude do evangelista com respeito à Lei é um assunto crucial no
Evangelho de Mateus. As dificuldades se prendem a vários fatores:

Várias passagens podem ser compreendidas como uma firme defesa da Lei (ex.:
5.18,19; 8.4; 19.17,18) e mesmo a autoridade dos fariseus e mestres da Lei em
interpretá-la (23.2,3). Espera-se dos discípulos de Jesus que jejuem, dêem
esmolas (6.2-4) e que paguem as taxas do templo (17.24-27).
Algumas passagens podem ser vistas como um “amaciamento” da rejeição
de Marcos de certas partes da Lei. A adição da cláusula que encerra um
“exceto” (“não sendo por causa”, ARC) em 19.9 e a omissão
de Marcos 7.19b (“ficando puras todas as comidas) na perícope
correspondente de Mateus (15.1-20) têm convencido muitos que Mateus não anula
qualquer ordem do Antigo Testamento.
Há algumas passagens onde, formalmente pelo menos, a letra da lei
veterotestamentária é suplantada (ex.: 5.33-37) ou uma instituição do Antigo
Testamento que é reverenciada parece ser depreciada e potencialmente suplantada
(ex.: 12.6).
Há uma passagem (5.17-20) que é amplamente reconhecida como programática do
ponto de vista legal de Mateus.

CARÁTER LITERÁRIO

Das 105 seções de Marcos, 93 aparecem em Mateus e 81 em Lucas. 4 seções de
Marcos não aparecem em Mateus e em Lucas. Marcos tem 661 versículos; Mateus,
1068 e Lucas, 1149. Em seu texto, Mateus reproduz nada menos que 606 dos
versículos de Marcos; Lucas, 320. Mateus usa 51% das palavras de Marcos.

Voltamos a registrar que afirmam alguns estudiosos que o Evangelho de Mateus como
o temos hoje não provém diretamente da mão do apóstolo Mateus, pois quem foi
testemunha ocular da vida de Cristo não precisaria usar Marcos como fonte para
narrá-la. No entanto, Papias afirma que Mateus colecionou os ditos de Jesus em
língua hebraica. Há evidência suficiente de que o Evangelho de Mateus como o
conhecemos é uma obra compilada de várias fontes escritas, do Evangelho de
Marcos e de uma coleção de ditos de Jesus originalmente escritos em hebraico ou
aramaico. Papias, bispo de Hierápolis (moderna Turquia) cerca de 125 d.C.
explora esse assuntos na sua obra Explicações dos Ditos (Logion) do Senhor.
Cerca de 3/5 do Evangelho é devotada aos discursos de Jesus.

CONCLUSÃO

As opiniões acerca deste Evangelho e o que representa e/ou pode representar
para o moderno judaismo são variadas. Em círculos judaicos mais ortodoxos,
afirma-se que ” O que é bom no Novo Testamento, não é bom; o que é novo
não é bom. No entanto, Martin BUBER, o célebre pensador, filósofo e teólogo
judeu deixou afirmação de que “Quem encontra Jesus Cristo encontra o
judaísmo”. O próprio Pinhas LAPIDE que o citou opinou que “O judeu
Jesus e a hebraicidade básica de sua mensagem servirão de critérios para maior
aproximação possível do sentido original da obra-prima de sua ética, sentido
oculto na versão grega do evangelho”.

FONTES PRIMÁRIAS

AHERN, Barnabas M. The Gospels in the Light of Modern Research. Em:
RYAN, M. Rosalie (Org.).
Contemporary
New Testament Studies. Collegeville, Liturgical Press, 1965, pp. 131-`152
ASIMOV, Isaac.
Guia de
la Biblia – Nuevo Testamento. Barcelona, Plaza & Janes, 1988. Trad. B. G.
Ibañez.
BARCLAY, William. Mateo 2 Vols. 1a Reimpressão. Buenos Aires, La
Aurora, 1973.
Trad. M.
P. Rivas.
CARSON, D. A. Matthew Em: GAEBELEIN, Frank
E. (Org.).The Expositor’s Bible Commentary, Vol. 8. Grand Rapids, Zondervan,
1984, pp. 3 – 600.
LAPIDE, Pinhas. O Sermão da Montanha – Utopia ou Programa?
Petrópolis, Vozes, 1986. Trad. F. Dattler.
PIKAZA, Javier. A Teologia de Mateus.
SP, Paulinas, 1978. Trad. J. R. Vidigal.
RYAN, M. Rosalie.
Saint
Matthew. Em: RYAN, Op. Cit., p. 238.
SANDMEL, Anti-Semitism in the New Testament. Philadelphia, Fortress, 1978.
SCHLESINGER, Hugo.
Os Evangelhos e os Judeus. SP, Paulinas, 1985
SLOYAN, Gerard S. The Gospel According to Matthew.
Em
RYAN, Op. Cit., pp . 239-246.
ZOLLI, Eugenio. Guia Do Antigo E Do Novo Testamento.
SP, Paulinas, 1961. Trad. F. Dattler.

FONTES SECUNDÁRIAS

ACHTEMEIER, Paul J. e Elizabeth. The
Old Testament Roots of Our Faith. 2ª impr. Philadelphia, Fortress, 1981.
CHOURAQUI, André. A Bíblia – Matyah (O Evangelho Segundo Mateus).
Rio, Imago, 1996. Trad. L. Duarte.
GABEL, John B. e WHEELER, Charles B. A Bíblia Como Literatura. São Paulo,
Loyola, 1993. Trad. A. U. Sobral e M. S. Gonçalves.
KERMODE, Frank. Mateus. Em: ALTER, Robert e KERMODE, Frank. Guia Literário da
Bíblia.
SP, UNESP, 1997. Trad.
R. Fiker. Páginas 417 – 431.
L’ABBAYE de Saint-Andre.Le Nouveau Testament. Bruges, L’Abbaye de Saint-Andre.
MALINA. Bruce J. The New Testament World – insights from cultural anthropology.
Atlanta, John Know, 1981.
RHYMER, Joseph and BULLEN, Anthony. Companion to the Good News New Testament.
Glasgow,
Collins, 1977.

Parte
XVII
LEVANDO
A SÉRIO A SEGURANÇA DA SALVAÇÃO
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que,
segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, pela
ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível,
incontaminável e inacessível, reservada no céus para vós, que pelo poder de
Deus sois guardados mediante a fé, para a salvação que está preparada para se
revelar no último tempo” (1Pe 1.3-5)

Os arminianos ensinam que o salvo pode “cair da graça”, ou seja,
“perder a salvação” (?!) porque ela depende da vontade do ser humano.
O ensino bíblico posto em evidência por João Calvino é que os salvos não se
perdem, não podem se perder, porque a vontade do Deus que os salvou não muda. É
assim que encontramos nas Escrituras as preciosas palavras: “para o louvor
da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado”, e, ainda,
“Segundo a sua própria vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade,
para que fôssemos como primícias das suas criaturas” (Ef 1.6; Tg 1.18).
Igualmente, há uma palavra no livro de Jó que expressa, “Bem sei eu que
tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (42.2).

No arminianismo, o ser humano é responsável por conservar-se salvo, mantendo
continuamente a fé e a obediência. O ensino da Bíblia Sagrada é que a salvação
é do Senhor. Daniel, o profeta, nos repassa essa palavra que nos diz com
absoluta clareza: “Ao Senhor, nosso Deus, pertencem a misercórdia e o
perdão; pois nos rebelamos contra ele. E se nós vamos ao último livro da
Bíblia, o vidente de Patmos nos dirá:
“Depois destas coisas, ouvi no céu como que uma grande voz de uma imensa
multidão, que dizia: Aleluia! A salvação e a glória e o poder pertencem ao
nosso Deus” (Ap 19.1).

Por isso, por ser uma dádiva de Deus não pode ser perdida (cf. Jo 6.39;
10.27-29; Rm 2.4; (.37-39). Pelo contrário, Jesus nos diz para nosso conforto:
“A vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos
aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia” (Jo 6.39); e
nesta outra expressão do Salvador:
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem;
eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha
mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da
mão de meu Pai” (Jo 10.27-29).

Há quem não tenha certeza da salvação? Há quem, chamando-se cristão, não leve a
sério a segurança dessa salvação? Sim; por essa razão, João explicou porque
escreveu o Evangelho que leva o seu nome: “Jesus, na verdade, operou na
presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos
neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o
Cristo. o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo
20. 30,31). E João, na sua Primeira Carta, “Estas coisas vos escrevo, a
vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida
eterna”, porque havia já naquela época alguns que não tinham muita
segurança da salvação concedida por Jesus ( 5.13).

É privilégio do salvo saber que está eternamente salvo (glória a Deus por
isso!), mas não é privilégio algum viver na incerteza da salvação. Pode alguém
receber a vida eterna, e depois perdê-la, indo eternamente para o inferno? Há
grupos que dizem que sim, e estão bem espalhados na Cristandade. A Bíblia diz
um veemente “NÃO!”, ou como diz a antiga palavra de ordem:

UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE!!!

E isso porque “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm
11.29 TEB).
A doutrina da segurança eterna do salvo tem outros nomes: “perseverança
dos santos”, “perseverança dos salvos”, dos regenerados,
daqueles que são feitos novas criaturas em Cristo. Um crente pode até errar,
mas ele cai e se levanta porque essa queda é temporária. Spurgeon sugere que é
como num navio: podemos cair muitas vezes no seu convés, mas Deus não permitirá
que sejamos jogados no mar! Estávamos atravessando para a Ilha de Itaparica no
ferry boat, e aconteceu que o barco jogava tanto que algumas pessoas se
desequilibraram, e eu também teria caído se não estivesse me segurando no cabo.
Que excelente ilustração para a segurança da salvação… Nós estamos num barco
(aliás, o barco é uma figura da Igreja), podemos cair no chão, mas não somos
jogados à fúria das águas (Jo 6.37). O problema é que há muita gente que diz
possuir a fé, mas não sabe o que seja, nem crê no que fala (1Jo 2.19; 2Pe
2.22).

A CERTEZA DA SEGURANÇA

A certeza da segurança da salvação, a certeza da perseverança vem de uma
compreensão clara das coisas elementares dessa salvação. O regenerado se
caracteriza por certas qualidades éticas e espirituais. Por exemplo, pelo
discernimento da verdade . Não está aqui na palavra de Deus? “Quanto a
vós, a unção que dele recebestes fica em vós, e não tendes necessidade de que
alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as
coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como vos ensinou ela, assim nele
permanecei” (1Jo 2.27).Essa é uma grande verdade espiritual que nós temos.

Querem ver outra que nos dá segurança? A posse do Espírito Santo. Não andamos
ansiosamente buscando o Espírito Santo, não, porque quando cremos recebemos o
Espírito: Ele é nosso (creio que fica melhor dizer, nós somos dEle); não é um
objeto a ser possuído, Ele é que nos possui quando somos convencidos do pecado,
da justiça e do juízo (1Jo 3.24; Rm 8.9, 14).

Uma terceira realidade espiritual é o amor à paz e à fraternidade (1 Jo
3.10,11,14). Vejo que todas elas são privilégios maravilhosos dados ao crente
pela misericórdia de Deus. A justificação, quando você é declarado reto, livre,
limpo dos seus pecados do passado (Rm 5.1); a adoção como filho de Deus,
realidade marcante do seu presente (Jo 1.12; Rm 8.14, 15; Gl 3.26; 1Jo 3.1); e
a santificação, quando você é declarado separado para Deus, como reserva
especial para o nosso Pai .

E isso se perde? Podemos perder a justificação, e a adoção , a santificação, e
a glorificação que nos aguarda? Somos reservados, regenerados para uma herança
incorruptível (ela não decai, não se estraga), incontaminável (nenhum fungo
pode maculá-la), e ela não murcha, essa herança que está reservada nos céus
para os santos. Isso é a glorificação! E isso se perde? E isso vai para o lixo?
A LIMPURB vai levar a nossa salvação! Não! Estamos seguros! E por que estamos
seguros? Por causa do amor de Deus que é imutável (Hb 6.17,18). Não pode
existir essa idéia que Deus me ama hoje, mas amanhã ,não sei não… O amor de
Deus não muda! Estamos seguros por causa de Suas promessas. E as promessas de
Deus mudam? A palavra de Deus diz, “ele mesmo disse: Não te deixarei, nem
te desampararei” (Hb 13.5). Que promessa extraordinária! Quero ainda ir à
Carta aos Hebreus: “para que por duas coisas imutáveis, nas quais é
impossível que Deus minta, tenhamos poderosa consolação, nós, os que nos
refugiamos em lançar mão da esperança proposta” (Hb 6.18). As gloriosas
promessas de Deus não mudam!

Porque temos segurança da nossa salvação? Por causa da aliança feita com Deus.
No profeta Jeremias, o texto diz: “E lhes darei um só coração, e um só
caminho, para que me temam para sempre, para o seu bem e o bem de seus filhos,
depois deles; e farei com eles um pacto eterno de não me desviar de fazer-lhes
o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de
mim” (Jr 32.39,40). Como Deus é fiel; nós cantamos sempre a Sua fidelidade
para conosco:

“Tu és fiel, Senhor, meu Pai celeste,
pleno poder aos teus filhos darás.
Nunca mudaste, tu nunca faltaste:
Tal como eras, tu sempre serás”.

Estamos seguros por causa do valor do sacrifício de Jesus Cristo, que não foi
um sacrifício em vão. Vejo em João 6.39, o próprio Senhor dizendo, e repetimos
o que já foi mencionado: “A vontade do que me enviou é esta: Que eu não
perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último
dia”.
Estamos seguros por causa do Espírito Santo que vive nos salvos, “o qual é
o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da
sua glória” (Ef 1.14). Assim, até parece que as perguntas de Romanos 8.31
a 39 foram feitas a pessoas que não criam na salvação eterna do crente. essas
perguntas são:
“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v. 31b);
“Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?” (v. 33a);
“Quem os condenará?” (v. 34a);
“Quem nos separará bo amor de Cristo?” (v. 35a);

e , aí, temos outras perguntas: “a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição,
etc.” (cf. v. 35), perguntas que falam de um modo tão claro, e para cada
uma delas a resposta é “nada, ninguém, coisa alguma pode nos
separar”. É verdade que Satanás, que é o nosso arqui-inimigo, o nosso
resistente-mór, tudo faz para derrubar o crente. Ele usa anjos maus, é verdade,
e usa gente incrédula, é verdade. E a lista do verso 35 de Romanos 8 fazem
parte de um rol das possíveis dificuldades que poderiam ser interpretadas como
ausência do amor de Deus. Quais são elas? A tribulação, a angústia, a
perseguição, a fome, a nudez, o perigo (seja qual for), a espada . Não, nada
disso nos separa do amor de Deus. Pelo contrário, vou, então, ao Salmo 44.22, e
encontro a expressão, “Mas por amor de ti somos entregues à morte o dia
todo; somos considerados como ovelhas para o matadouro”.

Dá para entender, então, que essas dificuldades nos vêm porque fomos entregues
à morte o dia todo? Ora, quem ama a Deus é odiado pelo mundo; quem ora a Deus
Satanás odeia porque ele não pode ver o seu império estremecido pela nossa
oração. É por isso. Assim, a nossa maior qualidade dada por Jesus Cristo é
sermos “mais que vencedores”, diz a Escritura (Rm 8.37). No entanto,
coitado do ímpio , ele é por natureza uma pessoa alienada, a Bíblia o diz:
“Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram,
proferindo mentiras” (Sl 58.3). Vejam só: desde o útero, eles são
alienados?! Precisa qualidade maior para os verdadeiros crentes que a segurança
da salvação? Mas um filho de Deus, o salvo em Cristo Jesus, quem já recebeu o
sopro, o toque do Espírito, esse pode acontecer de cair em pecado, quando,
então, vai perder muita coisa: a alegria da salvação (Sl 51.12), a bênção da
comunhão com os irmãos, mas deve se levantar. Sim, porque o crente em Jesus
Cristo, o verdadeiro crente, não fica derrubado, não. Miquéias, o profeta, diz:
“Não te alegres, inimiga minha, a meu respeito; quando eu cair,
levantar-me-ei; quando me sentar nas trevas, o Senhor será a minha luz.
Sofrerei a indignação do Senhor, porque tenho pecado contra ele; até que ele
julgue a minha causa, execute o meu direito. Ele me tirará para a luz, e eu
verei a sua justiça” (7.8,9), pois, “Confirmados pelo Senhor são os
passos do homem em cujo caminho ele se deleita; ainda que caia, não ficará prostrado,
pois o Senhor lhe segura a mão” (Sl 37.23,24).

Até o erro, o pecado, tem seu lado de crescimento. Paulo quando escreve o Hino
de Exaltação a Deus pelo Seu cuidado amoroso, diz que “sabemos que todas
as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Até o pecado, até o engano,
até aquilo que não devíamos fazer mas fizemos, sendo circunstancial, ele nos
ensina, tem seu valor pedagógico. O crente em Jesus Cristo não pode perder a
salvação porque tem um grande Salvador que não deixa a Sua obra pela metade,
não. A missão de Jesus não ficou no Calvário, não: foi até à ressurreição, e
Ele saiu dentre os mortos, e garantiu a nossa salvação. Como é que um grandioso
Salvador como esse nos deixaria na metade do caminho?

Também porque não podemos perder a nossa redenção, visto que, mesmo acusados
por Satanás, temos um advogado diante do Pai (1Jo 2.1; cf. Hb 9.24).

Outra razão é porque estamos guardados pelo poder de Deus. Volto à Palavra
Santa: “pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé” (1Pe 1.5a;
cf. 2Tm 1.12). Uma das mais preciosas lições da Nova Aliança é que a salvação
não depende de mim, nem de minhas obras, nem de meus atos, mas me é concedida
pela graça, pela misericórdia, pelo amor de Deus, amor que eu não mereço. Assim
diz a Santa Escritura. E diz várias vezes que eu não mereço, e que você não
merece: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a
redenção que há em Cristo Jesus…porque todos pecaram e destituídos estão da
glória de Deus” (Rm 3. 24, 23). Nós não merecemos, mas Deus nos concede
Sua salvação. Se formos a outros textos, temos também muita palavra
abençoadora: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não
vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”
(Ef 2.8,9; cf. Cl 1.12-14; 2Tm 1.8,9). Isso quer dizer que o crente em Jesus
Cristo é nascido de Deus (1Jo 5.1); nascido de uma semente que não se estraga,
não apodrece. Vejam só: “tendo renascido, não de semente corruptível, mas
de incorruptível, pela palavra de Deus, a qual vive e permanece” (1Pe
1.23), razão porque cada filho de Deus, cada filha do Pai Celestial participa
igualmente da Sua natureza. Ora, o irmão participa da natureza de Deus: se Deus
morrer, o irmão morre. Mas como Deus não morre, não Se corrompe, não Se esfuma,
o irmão, a irmã está selado, e protegido, e guardado quanto a sua salvação para
o Dia Final (cf. 2Co 1.21,22; Ef 4.30).

E tem mais: o crente em Jesus Cristo não se perde porque a alegria dos anjos
não se acaba; a alegria que foi demonstrada nos céus no dia da sua conversão
essa não se acaba(Lc 15.10), ou será que existe um ciclo de ALEGRIA NO CÉU –
tristeza porque você caiu – ALEGRIA porque você voltou – tristeza porque você
novamente caiu? Será que a Bíblia ensina isso?

SEGURANÇA E PERSEVERANÇA

No entanto, que tranqüilidade tem o crente em Jesus Cristo que leva a sério a
segurança da salvação!… As promessas do Senhor nos dão segurança (cf. Jr
32.40; Jo 6.37; 2Tm 2.19); vida eterna não é fumaça (cf. Jo 6.47)! Não é
“talvez tenha”, não é “quem sabe se eu vou ter a salvação”,
não! (cf. 1Jo 5.11-13). Nós estamos seguros, seguros nas mãos fortes do Senhor!
(cf. Sl 37.23,24,28a; 97.10). E
lembremos que a ressurreição de Jesus Cristo é o alicerce desta segurança (Ef
2.6).
Vejam agora uma coisa muito séria: só quando se confia em Jesus até certo ponto
é que se tem medo de perder a salvação (“Olha, Jesus, eu confio até chegar
perto do Calvário; lá em cima, não…” ). Se a nossa confiança é até certo
ponto, fica difícil, porque aí você tem medo de perder a salvação. Daí em
diante, se a obra de Jesus fica pelo meio do caminho, esse crente, essa irmã, é
deixado só, abandonado. Como fica, então, a promessa de Jesus em João 14.18 que
diz: “Não vos deixarei órfãos”? E aquela que diz “estou convosco
todos os dias, até a consumação dos séculos”? (Mt 28.20). Ou Jesus é nossa
esperança para tudo, ou não é esperança para coisa nenhuma! Mas, Paulo,
apóstolo, nos fala ao coração dizendo: “o qual vos confirmarás até o fim,
para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus,
pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso
Senhor” (1Co 1. 8,9). Que palavra linda e extraordinária! Por isso, à luz
destes fatos, não entendo como há quem pregue que a salvação pode ser perdida?!
Que testemunho notável para sua família, para seus amigos, para seus colegas, o
irmão confirmado na fé, você confirmada na fé em Jesus Cristo. Não é (graças a
Deus!) salvação-por-enquanto, não; e graças a Deus não é salvação temporária,
não é condicional, não é até certo limite. É uma eterna e gloriosa salvação!
Por isso, os santos perseveram: porque Deus é fiel (1Co 1.9). E Deus é fiel no
que planejou, e no que prometeu.
Assim, essa monstruosa, herética, diabólica idéia do crente perder a salvação
repudia toda a boa nova do evangelho de Jesus! Nega que Jesus Cristo seja digno
de crédito ao dizer que nada nos arrebata da Sua mão (cf. Jo 10.28; 1Jo
5.10,11); faz de Deus um mentiroso (Hb 6.17-20); anula João 3.16, e desfaz toda
a verdade que está revelada em Romanos capítulos 4, 5 e 8; cancela a
justificação, e o perdão dos pecados, e a adoção de filhos, e o batismo no
Espírito Santo, e os dons do Espírito, e o fruto do Espírito já cultivado no
irmão. Tudo isso vai para o lixo se o irmão crê que vai perder um dia a sua
salvação. Faz ser um sonho, um esfumaçado sonho o Salmo 23 com sua gloriosa
declaração de confiança, “O Senhor é meu pastor; nada me faltará”, e
o Salmo 32 onde se lê, “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é
perdoada, e cujo pecado é coberto”. Isso vai embora, pelo esgoto! Isso
desaparece da minha vida porque eu não creio, acho que amanhã vou perder a
salvação?! Hoje eu a tenho, mas não garanto por amanhã?! Se a perda da salvação
é verdadeira, ou, mesmo, imaginável, a Bíblia está brigando com ela mesma, está
se contradizendo porque fala de “eterna salvação”, “eterna
redenção” e “vida eterna” dezessete vezes só no Evangelho de
João (cf. Hb 5.9; 9.12); fala de “peso eterno de glória mui excelente”,
de “eterna consolação”, de “herança eterna”, e de
“aliança eterna” (cf. 2Co 4.17; 2Ts 2.16; Hb 9.15; 13.20).
Mas há quem saia do nosso meio? Há? Sem dúvida! E a Bíblia diz que há aqueles
que não se agüentaram no nosso meio porque “saíram dentre nós, mas não
eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas
todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos” (1Jo
2.19). Voltaram para o mundo porque a ele pertenciam, abandonaram a família de
fé. Mas, há quem saia do nosso meio? Há sim: são aqueles a quem Jesus Cristo
vai dizer, “Nunca vos conheci” (cf. Mt 7.21-23).
A Escritura Sagrada tem três lições que não podemos jamais esquecer. A perdição
humana é total, porque a Queda foi total, e todos fomos arrastados pelo pecado.

Parte
XVIII
PACIÊNCIA
NA PROVAÇÃO

Tiago 5:7-12
Eu odeio esperar. No volante, não quero ficar atrás de um carro
andando 30 km/h. No supermercado, fico irritado quando a moça precisa trocar o
papel do caixa justamente na hora que eu chego à frente da fila. No banco,
perco paciência com as filas serpentinas.

Sou como aquela pessoa que orou a Deus, “Senhor, dá-me paciência, e eu a quero
AGORA!”

Talvez fiquemos impacientes por causa de filas intermináveis e carros lentos.
Mas o livro de Tiago consolava irmãos que enfrentavam situações bem mais
difíceis. Muitos deles eram pessoas pobres, marginalizadas, perseguidas por
serem cristãos (2:5-7). Precisavam de paciência para sobreviver as tribulações
da vida.

No texto anterior (5:1-6), descobrimos que os ricos haviam oprimido esses
pobres. Haviam vivido uma vida luxuosa, enquanto retiveram o salário dos
diaristas, levaram os pobres diante dos tribunais para defraudá-los, condenando
e matando alguns pela injustiça.

Foi justamente neste contexto que Tiago agora fala às pessoas oprimidas,
atribuladas, sofridas, que estavam passando por males severos sem entender
porque Deus não fazia nada. O enfoque muda dos opressores para os oprimidos,
dos perseguidores para os perseguidos. Seus leitores enfrentavam a tentação de
serem impacientes; queriam que algo acontecesse, e já. Corriam o risco de FAZER
algo acontecer, tomando em suas próprias mãos a vingança.

Tiago usa 2 palavras diferentes que descrevem a qualidade de paciência na vida
do cristão. A primeira palavra significa “longânimidade” ou seja, alguém que
demora a esquentar, especialmente em relação a pessoas. A segunda palavra traz
a idéia de “ficar debaixo” de uma pressão, tribulação ou aflição, especialmente
em relação a circunstâncias. Podemos juntar as duas idéias para dizer que, o
cristão maduro aprende a permanecer debaixo de sofrimento sem perder paciência
com as pessoas ao seu redor.

7 Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador
aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as
últimas chuvas.

8 Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a
vinda do Senhor está próxima.

9 Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o
juiz está às portas.

10 Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais
falaram em nome do Senhor.

11 Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da
paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de
terna misericórdia e compassivo.

12 Acima de tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra,
nem por qualquer outro voto; antes, seja o vosso sim sim, e o vosso não não,
para não cairdes em juízo.

Precisamos fazer algumas observações de imediato. Primeiro, fica óbvio que o
tema desse penúltimo parágrafo do livro é paciência (ou talvez, perseverança).
Note a repetição: Vs. 7 “pacientes . . . com paciência”; Vs. 8 “pacientes; Vs.
10 “paciência”; Vs. 11 “perseveraram firmes . . . paciência de Jó”

Segundo, é interessante notar que o texto destaca pelo menos três vezes a vinda
do Senhor como a bendita esperança do cristão diante das tribulações.

Vs. 7 “até a vinda do Senhor”; Vs. 8 “A vinda do Senhor está próxima”; Vs. 9 “O
juiz está às portas”

Juntando esses dois temas (paciência e a vinda do Senhor) podemos resumir a
lição principal que Tiago quer nos transmitir:

A fé verdadeira persevera em meio a tribulação na esperança da vinda do
Senhor.

Como que o cristão maduro enfrenta provação? Descobrimos pelo menos quatro
atitudes que nos encorajam nesse texto:
I. A Fé Verdadeira é Paciente em Provação . . . Confiante da Vinda do Senhor
(7,8)

Como reagimos diantes das provações dessa vida?

*Uma doença crônica que rouba nossa alegria
*Um casamento morto
*Um filho desviado
*Um patrão ou colega de serviço ou escola que nos aborrece
*Uma situação financeira desesperada
*Uma morte que nos deixa com um vazio constante no coração . . .
A resposta é: esperar, confiante na vinda do Senhor. Não devemos reivindicar
bênção, declarar em nome de Jesus que nossos problemas desaparecerão, decretar
a vontade do Senhor ou, através do pensamento positivo, verter as nossas
circunstâncias. Quem dera, fosse tão simples! O único conselho que Tiago nos dá
é: Sede pacientes . . . até a vinda do Senhor.

7 Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador
aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as
últimas chuvas.
8 Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do
Senhor está próxima.
A volta de Cristo Jesus é a “bendita esperança” de todo cristão. Jesus falou
que neste mundo teremos tribulação (Jo 16:33). Paulo ecoou o mesmo princípio
dizendo que “todos que querem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrerão
perseguição (2 Tm 3:12).” (cf At 14:22) O próprio livro de Jó (Elifaz) falou, O
homem nasce para o enfado como as faíscas das brasass voam para cima. (5:7)

A palavra “vinda” do Senhor significa mais que a chegada dele. Refere à
presença dele também, e esse é o nosso consolo. A dura realidade é que Deus não
consertará todos os males desse mundo até a volta de Jesus!

Rm 8:17,18 Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e
co-herdeiros com Cristo; se com ele sofrermos, para que também com ele sejamos
glorificados. Porque para mim tenho por certo que os sofimentos do tempo
presente não são para se comparar com a glória por vir a ser revelada em nós.

2 Co 4:17 Porque a nossa leve momentânea tribulação produz para nós eterno peso
de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem,
mas nas que se não vêem, porque as que se vêem são temporais, e as que se não
vêem são eternas.

Conforme a ilutração no texto, é impossível ser um fazendeiro, um “lavrador”,
um agricultor, sem ter paciência! Naquela cultura, havia um tempo prolongado
entre as chuvas de outubro/novembro (no início do plantio) e março/abril (no
final). Um tempo de espera, sem nenhum fruto. Mas o jardineiro esperava. . . .
e esperava . . . na certeza de que o fruto viria. A vida cristã é assim. O
segredo de perseverança quando o caminho é duro, é saber que Deus está
produzindo fruto em nós. Gememos em nós mesmos, esperando a colheita.

Filipenses nos encoraja na vida cristã, que às vezes parece tão lenta, tão
demorada: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há
de completá-la até ao dia de Cristo Jesus. (1:6). (Cf. 1 Jo 3:2,3: Amados,
agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser.
Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque
havemos de vê-lo como ele é. A a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta
esperança, assim como ele é puro.
Somos encorajados na vida cristã, mesmo que às vezes pareça tão lenta, tão
demorada. Deus está produzindo fruto em nossas vidas; mesmo que o resultado
final demore, virá!

Mas, como Tiago pôde afirmar que a vinda de Jesus estava próxima, se quase 2000
anos já se passaram, e Jesus ainda não voltou? Entendemos que, até a primeira
vinda de Jesus, todo o tempo e a história estavam marchando em direção ao
precipício chamado “eternidade”. Mas, depois da ressurreição e ascenção de
Cristo, o próximo evento na cronologia divina é o retorno de Cristo.
Não resta outro acontecimento antes do final dos tempos. Em outras palavras,
chegamos à beirada do precipício e estamos agora andando na margem dele. A
qualquer momento, a qualquer hora, Jesus pode voltar. O fim está próximo! No
momento em que ele voltar, nosso sofrimento acabará . . . estaremos com o
Senhor . . . o sofrimento terminará:

Ap 21:3,4 Então ouvi grande voz vinda do trono, dizendo, Éis o tabernáculo de
Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus
mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrmia, e a morte já não
existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas
passaram.

À luz dessa realidade, temos que fortalecer nossos corações . . . Em outras
palavras, temos que firmar as raízes para produzirmos fruto em meio a
tempestade! As raízes fundas na promessa da vinda do Senhor. Devemos focalizar
nessas verdades, encorajar uns aos outros diariamente, lembrar de valores
eternos e viver para eles. A palavra “fortalecer” traz a idéia de “fixar, de
forma resoluta” (Lc 9:51).

II. A Fé Verdadeira é Paciente em Provação . . . Confiante na Justiça do Senhor
(9)

9 Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o
juiz está às portas.

Além da perseguição de fora (dos ricos), havia a possibilidade de aflição de
dentro da igreja. Tiago é realista. Reconhece que, às vezes, os irmãos não se
dão tão bem juntos. Paulo também reconheceu esse fato em Ef 4:2 “com toda
humildade e mansidão, com longanimidade (= paciência), suportando-vos uns aos
outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do
Espírito no vínculo da paz.”

A ordem é para não se queixarem uns contra os outros. A palavra “queixar” traz
a idéia de ficar exasperado com alguém, ao ponto de agonizar por dentro, de
gemer. Foi usada em vários outros textos:

2 Co 5:2, 4 E por isso, neste tabernáculo gememos, aspirando por ser revistidos
da nossa habitação celestial
Rm 8:23 E não somente ela, mas também nós que temos as primícias do Espírito,
igualmente gememos em nosso íntimo, guardando a adoção de filhos, a redenção do
nosso corpo
Mc 7:34 Jesus, erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse . . .
Rm 8:26 O Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis

Tiago adverte os leitores a não se queixarem entre si, pois existe um perigo
real deles mesmos serem julgados, caso tiverem errado. Mas ao mesmo tempo
oferece uma palavra de consolo—o Juiz está à porta. Em outras palavras,
vingança pertence ao Senhor, não a nós. Se nosso irmão nos maltrata, se somos
blasfemados, alvo de fofocas, Deus sabe disso. Ele pode providenciar uma
solução.

Em vez de criar casos entre irmãos, devemos sofrer a injustiça (confiantes na
justiça do Senhor) antes de corer o risco de injustiçar o outro. Vingança
pertence ao Senhor, mesmo dentro da família da fé. Deus quer que paz reine
entre nós (veja 1 Co 6).

III. A Fé Verdadeira Persevera em Provação . . . Confiante da Misericórdia do
Senhor (10,11)

Temos uma rica tradição histórica! A fé dos nossos antepassados, que não
tiveram os mesmos privilégios como nós, nos deixa um exemplo. Os profetas, que
falaram com autoridade como representantes do Senhor, sofreram muitos males,
mas com grande paciência.

A razão porque todos esses antepassados perseveraram, é porque sabiam algo que
seus perseguidores não sabiam—que seu Deus era misericordioso e bondoso
(compassivo).

10 Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais
falaram em nome do Senhor.
11 Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da
paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de
terna misericórdia e compassivo.
A palavra “misericordioso” significa “de grande compaixão”. Em outras palavras,
Deus SENTE o que sentimos. É isso que o livro de Hebreus fala sobre Jesus:

Hb 4:15, 16 “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se
(=sentir junto, sofrer junto conosco) das nossas fraquezas, antes foi ele
tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos,
portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos
misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna. (cf. Hb
2:17,18)

Temos que confiar no caráter do nosso Deus! Em meio a sofrimento, temos que
fixar nossa âncora naquilo que sabemos ser verdadeiro a respeito de Jesus. O
difícil em tempos de crise é acreditar que Ele realmente quer o nosso bem . . .
que Ele realmente é um Deus bom . . . que Ele sente conosco . . . que nos ama.

IV. A Fé Verdadeira Persevera em Provação . . . Confiante na Soberania do
Senhor (12)

12 Acima de tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra,
nem por qualquer outro voto; antes, seja o vosso sim sim, e o vosso não não,
para não cairdes em juízo.

Esse versículo parece mudar de assunto. Mas está ligado à idéia de respostas à
provação.

Quando nos encontramos em apertos, somos tentados a fazer votos precipitados na
esperança de nos livrar da situação. Podemos imaginar situações em que alguém,
querendo se livrar de uma dificuldade, assume um ompromisso, jura por algo
sobre o qual não tem controle, ou faz uma promessa. Em outras palavras, é muito
fácil em meio a provação, dizer coisas que você não quis dizer—votos,
promessas, ameaças, palavrões: “Se o Senhor me livrar dessa, prometo servi-lo o
resto da minha vida . . .” O juramento é uma tentativa de “validar” as
palavras, de assumir uma postura de controle e poder que não temos. Deus é o
único soberano. Só Ele nos livrará do sofrimento, no tempo dEle. Não podemos
apressar a vontade dEle através de promessas vãs. Por isso, a fé persevera em
provação confiante na soberania do Senhor, sem tentar manipular a situação
pelas nossas palavras.

Ninguém gosta de esperar. Mas às vezes é a melhor maneira de mostrar nossa confiança
no Senhor.

Glorificamos a Deus quando perseveramos pacientemente pela vontade dEle,
confiantes

1) da Vinda dEle para “acertar as contas” (7,8)
2) na Justiça dEle, para fazer a coisa certa (9)
3) na Misericórdia dEle, para ter compaixão de nós (10,11)
4) na Soberania dEle, para resolver tudo em Seu tempo (12)

A fé verdadeira persevera em meio a tribulação na esperança da vinda do Senhor.

Parte
XIX
O
“SHOW DO CRISTÃO”

Tiago 1:26-27
 Como
identificar uma pessoa “espiritual”? Se tivéssemos um “religiômetro”, qual
seria o índice?
O número de vezes que realiza uma hora silenciosa? A fidelidade no dízimo? A
freqüência aos cultos? O corte de cabelo? A “moda” de roupa que usa (ou deixa
de usar)?

Infelizmente, nossa definição de espiritualidade muitas vezes reflete somente
uma perspectiva externa, e não o coração. Por isso 1 Sm 16:7 nos lembra que “O
homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração”. Medimos espiritualidade muitas
vezes por atos religiosos, ou às vezes pelo conhecimento que alguém possui. Mas
a medida de Deus é diferente. Deus não coloca sua fita de medir ao redor da
cabeça, mas ao redor do coração.

Parte do problema está com a própria palavra “religião”, que vem do latim
“religione” e traz a idéia de “religar-se” a um deus. O problema é que essa é
uma tarefa impossível para o homem através do seu próprio esforço.

A verdadeira religião começa com Deus—o esforço dEle! Ele é o Único capaz de
esticar os braços o suficiente para nos atrair para si mesmo. O sacrifício de
Jesus efetuou uma mudança “religiosa”, ou seja, homem e Deus podem ser
reconciliados de novo, pela transformação no coração humano.

Os fariseus eram campeões de Religião. Mas era um Show—o “Show da Religião”.
Mas Deus quer algo diferente. Um “Show do Coração”. Um coração verdadeiro,
transformado por Jesus.

Essa transformação no coração tem evidências práticas e claras. São evidências
que brotam do coração, dificlmente finjidas ou falsificadas. O livro de Tiago,
cujo tema é “Provas de uma Fé Verdadeira”, nos oferece três avaliações do nosso
coração que se registram no “religiômetro” divino.

Aprendemos em Tiago 1.26,27 que

A fé verdadeira REFLETE SUA RELIGIÃO num coração transformado por Jesus.

Nesses versículos encontramos em miniatura as mensagens principais do livro de
Tiago.

I. A Verdadeira Religião PENEIRA AS PALAVRAS (26)

O texto começa jogando dúvida sobre a real existência da fé da pessoa que supõe
ser religiosa. O problema é que sua língua o trai! Se suas palavras só
destroem, não importa se ela vá à igreja sempre que as portas estejam abertas,
se ela leia a Bíblia inteira três vezes por ano ou se contribua generosamente
para missões. Sua religião é vazia!

Certa vez alguém disse que a língua é o músculo mais comprido do corpo humano,
pois tem sua origem no coração. Jesus disse, “A boca fala do que está cheio o
coração” . Tiago faz essa conexão entre a língua e o coração no final do
versículo quando diz que essa pessoa está “enganando o próprio coração”.

Tiago expõe o coração humano pelo que é, para que os cristãos deixem Jesus
tomar controle de seus corações. É triste imaginar que essa pessoa se engana,
pensando que ela é grande coisa no Reino de Deus, pois participa de muitas
atividades religiosas. Ela mantém um padrão de espiritualidade estabelecido por
homens, mas ignora o padrão divino. Seu coração está longe de Deus!

A palavra “refrear” foi usada para descrever o freio na boca dos cavalos, um
pequeno instrumento inserido na parte sensível da boca do cavalo e capaz de
direcionar seu corpo inteiro. O cristão que tem Jesus reinando em seu coração
usa uma santa peneira para pesar suas palavras ANTES que são faladas. O
Espírito Santo segura a peneira, e os furos são finos e feitos pela Palavra de
Deus. As palavras pesadas e podres ele joga fora. Somente o que passa pela
peneira divina sai dos seus lábios.

Somente o Espírito Santo é capaz de transformar um coração podre num coração
limpo. Certamente a nossa conversão a Jesus é um bom começo, pois limpa a fonte
das palavras. Mas é preciso nos vigiar diariamente para manter as águas
cristalinas (Rm 12.2).

II. A Verdadeira Religião PROTEGE OS MENOS-PRIVILEGIADOS (27a)

O próximo versículo apresenta um contraste. Se religião vazia, inútil e
impotente manifesta-se numa língua desenfreada, como seria uma religião pura,
sem mácula? (A palavra traz a idéia de não ter nenhuma mancha, ser
irrepreensível). Como será uma vida realmente espiritual diante de Deus?

A resposta é inesperada! Tiago não cita uma lista de afazeres religiosos. Não
dá pontos pelos anos de freqüência na EBD. Fala do tratamento dado aos órfàos e
às viúvas.

Naquela época, ainda pior do que hoje, órfãos e viúvas eram pessoas muito
carentes. Numa sociedade agrícola, sem INSS, orfanatos, asilos, ou assistência
social, essas pessoas sofriam demais. Quem os ajudava não tinha perspectiva
nenhuma de retorno.
Quem “visita” órfãos e viúvas em suas tribulações demonstra “religião” (mudança
interior) verdadeira. A palavra “visitar” pode nos enganar… a idéia não é de
simplesmente passar na casa de alguém e dar um “alô” ocasional. O termo
significa “cuidar, acompanhar, preocupar-se com”. Está no tempo presente,
indicando que é uma ATITUDE CONSTANTE!

Logo, Tiago destacará ainda mais esse tema quando condena acepção de pessoas na
igreja (2.1-11) e insensibilidade às pessoas com necessidades reaias (2.15-17).

Como você encara os menos-privilegiados? É sensível e compassivo? Ou crítico e
cético? Evita-os? Ou procura oportunidades, dentro do possível, para
mostrar-lhes o amor de Cristo?

Essa idéia de sensibilidade às necessidades daqueles ao nosso redor também
reflete um tema de destaque no livro de Provérbios (fonte de muitas idéias em
Tiago):

Provérbios 21:13 O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não
será ouvido. 28:27 O que dá ao pobre não terá falta, mas o que dele esconde os
seus olhos será cumulado de maldições.

29:7 Informa-se o justo da causa dos pobres, mas o perverso de nada disso quer
saber.

14:31 O que oprime ao pobre insulta aquele que o criou, mas a este honra o que
se compadece do necessitado.

19:17 Quem se compadece do pobre ao Senhor empresta, e este lhe paga o seu
benefício.

31:8,9 Abre a tua boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham
desamparados.

Abre a tua boca, julga retamente, e faze justiça aos pobres e aos necessitados.

À luz do que Tiago (e Jesus) ensinam a respeito dos menos-privilegiados, a
nossa primeira resposta não deve ser sair correndo para dar uma esmola.
Primeiro Jesus quer transformar nosso coração. Precisamos clamar a Ele para nos
dar um coração compassivo e sensível.

Fico triste quando ouço como alguns que se dizem cristãos tratam pessoas mais
humildes. O problema é que não encaram as pessoas como Jesus as encarava. Por
isso, clamemos a Ele para que sejamos sensíveis, sábios e genuínos na proteção
dos menos-privilegiados.

III. PRESERVA A PUREZA (27b)

A terceira evidência de uma fé verdadeira, que registra no “religiômetro
divino”, é uma vida pura. É interessante que Tiago não diz, “Adquira pureza” ou
“vença espiritualidade pela luta”.
Fala “guardar-se” incontaminado do mundo. O verbo é presente, e traz a idéia de
uma vigia constante, uma preservação e proteção de uma posição já adquirida.

Mais uma vez, notamos que Tiago vai voltar para essa idéia mais tarde no
capítulo quatro, quando trata da questão dos desejos mundanos que habitam em
nossos corações (4.1-4).

Aqui, Tiago soa como o Apóstolo Paulo, que sempre nos chama para uma vida DIGNA
da alta posição nos concedida em Cristo Jesus! Na conversão obtemos essa
posição, de sermos vestidos com a justiça de Cristo (2 Co 5:21). Agora, baseado
nessa alta posição que temos diante de Deus, pelos méritos de Jesus, devemos
andar de modo digno.

Outra vez, estamos falando sobre mais do que mero comportamento. Trata-se de
uma questão interna, do coração humano. Guardar-se incontaminado do mundo fala
sobre muito mais do que observar listas de atividades que você faz (ou deixa de
fazer). Iinfelizmente, muitas vezes somos mais conhecidos como crentes pelos
nossos não-fazeres do que pelos fazeres.

Permitimos que o mundo nos conforme ao seu padrão, ou somos transformados
diariamente pela realidade de uma cidadania fora deste mundo? Somos seduzidos
pelas atrações temporais dessa vida, ou temos olhos fixados nas celesteais?
Paqueiramos o mundo para ver o que ele pode nos oferecer, pensando que podemos
brincar com tentação? Adotamos os padrões e a aparência do mundo para sermos
aceitos por ele?

Jesus nos chamou para ficarmos NO MUNDO, sem sermos DO MUNDO.

O povo do Exodo descobriu como isso é difícil uma vez que você é contaminado
pelos valores do mundo. Demorou uma noite para tirar Israel do Egito, mas 40
anos para tirar o Egito do coração de Israel.

O profeta Daniel nos deixa um exemplo positivo de como estar no mundo sem ser
do mundo. Resolveu não contaminar-se com as finas regalias ilícitas do rei.
Guardou-se incontaminado do mundo. E Deus honrou-o.

No “religiômetro divino” há três registros que nos ajudam a medir nosso próprio
coração. A fé verdadeira:
1) Peneira as Palavras
2) Protege os menos-Privilegiados
3) Preserva a Pureza
Resumindo, podemos afirmar que
A fé verdadeira REFLETE SUA RELIGIÃO num coração transformado por Jesus.

Parte
XX
SIGNIFICADO
DE ‘FIM DA LEI”

Em Romanos 10.4
O grande volume de literatura produzida nos últimos anos enfocando
o tema da lei em Paulo demonstra o caráter polêmico do assunto.1 Os principais
textos “legais” do apóstolo têm sido cuidadosamente investigados,2
interpretações tradicionais são postas em cheque, surgem novas questões e
perspectivas,3 conseqüentemente soluções inusitadas e desafiadoras são
apresentadas.4 A interpretação de Romanos 10.4, já bem conhecida como um
“campo de batalha”, tornou-se ainda mais debatida com o surgimento da
chamada “nova perspectiva” sobre Paulo e a lei.

Esta “nova perspectiva” sobre Paulo e a lei de Moisés vem se
desenvolvendo a partir de obras de Krister Stendahl (1963) e principalmente E.
P. Sanders (1977). Nessas obras é descartada a interpretação tradicional que
entende que Paulo e o Novo Testamento nos apresentam o judaísmo daquele período
como uma religião legalista. Conseqüentemente, surgiram várias novas
interpretações para explicar a polêmica de Paulo contra a lei. A abordagem
sociológica de J. D. G. Dunn é a que tem sido mais aceita: Paulo combate as
obras da lei não porque expressam legalismo, mas porque “obras da
lei” para Paulo se referem aos emblemas característicos do judaísmo (leis
dietárias, sábado, e circuncisão), os quais enfatizam a separação entre judeus
e gentios que Cristo aboliu.

É neste contexto que a interpretação de Romanos 10.4 ganha relevância
extraordinária. O desafio exegético não é somente determinar se te/loj
(“fim”) deve ser entendido por “fim/terminação” ou
“alvo/cumprimento” e em que sentido, mas agora é preciso tratar
também da natureza da antítese presente no contexto em face dos novos
questionamentos apresentados pela “nova perspectiva”. Em outras
palavras, é preciso determinar se Paulo está combatendo ou não o legalismo
judaico como tradicionalmente se tem interpretado.

Portanto, nosso intuito neste trabalho é determinar o significado de Romanos
10.4 em seu contexto, procurando interagir com as principais questões e
opiniões contemporâneas.

I. Análise Contextual

Nos capítulos 9 a 11 de Romanos Paulo retoma o tema já tratado de maneira provisional
em 3.1-8, qual seja, a vindicação dos propósitos e do caráter de Deus em face à
incredulidade dos judeus. S. K. Williams caracteriza o objetivo de Paulo em
Romanos como a demonstração de que o seu evangelho está em perfeita
concordância não somente com o plano de Deus mas também com quem Deus é: Senhor
de todos os povos e para sempre fiel à sua própria natureza e propósito.5
Observamos também que já em 1.16 Paulo delineia a prioridade dos judeus na
história da salvação a despeito de sua incredulidade (cp. 2.9-10; 3.1-2). Como
ressaltou J. C. Beker: “Paulo demonstra como ele integra a universalidade
do evangelho e a particularidade de Israel.”6

Paulo introduz esta seção da carta (caps. 9-11) falando da tristeza do seu
coração pela incredulidade dos seus compatriotas judeus (9.1-3) e menciona os
privilégios concedidos por Deus a eles (9.4-5). Contudo a palavra de Deus não
falhou7 , pois somente são verdadeiros israelitas os filhos da promessa, os
quais são objeto do decreto soberano da eleição de Deus (9.6-13). Esta eleição
não depende das obras praticadas pelas pessoas, quer sejam obras boas ou más,
mas da vontade do que chama.8 Não há injustiça em Deus porque esta é uma
questão de misericórdia (9.14-18); assim Deus manifesta tanto a sua ira e poder
em vasos de ira, preparados para a destruição, como a riqueza da sua glória em
vasos de misericórdia, preparados de antemão para a glória (9.19-23). A estes
(que somos nós os crentes) Deus chamou não só dentre os judeus mas também
dentre os gentios segundo seu propósito manifestado anteriormente pelos
profetas (9.25-29). Nas passagens de Oséias (Os 2.25 e 2.1) citadas em 9.25-26
Paulo faz referência à salvação concedida aos dentre os gentios, e nas de
Isaías (Is 10.22; 28.22; 1.9), citadas em 9.27-28, ele faz referência à
salvação somente do remanescente dos filhos de Israel, que são os seus
verdadeiros descendentes.9

Se até aqui Paulo focalizou o seu tema da perspectiva dos propósitos soberanos
e do caráter justo de Deus, agora, de 9.30-10.21, ele o focaliza da perspectiva
da atitude de Israel. No capítulo 11 ele abordará a questão a partir de uma
perspectiva harmonizada na qual a soberania divina e a responsabilidade humana
são enfatizadas.

Em contraste com os salvos dentre os gentios, os quais alcançaram a justiça que
decorre da fé, embora não a buscassem,10 os não-salvos dentre Israel, apesar de
buscarem lei de justiça, não atingiram essa lei, pois sua busca não decorreu da
fé e sim como que das obras, e assim vieram a tropeçar na pedra de tropeço porque
nela não creram (9.30-33).11 Paulo ora pela salvação deles dizendo que são
zelosos por Deus, porém sem entendimento (10.1-2).O problema deles é
desconsiderar ( a)gnoou=ntej, “desconhecendo”)12 a justiça
providenciada por Deus e tentar estabelecer a sua própria justiça, não se
sujeitando assim à justiça que vem de Deus,13 pois Cristo, para todo o que crê
(judeu ou gentio), é o fim de se usar a lei para tentar estabelecer a justiça
própria14 (10.3-4). A lei traz a exigência da prática;15 resta, portanto, ao
transgressor da lei16 (quer judeu ou gentio) o caminho da justiça que é pela fé
em Cristo — “todo aquele (judeu ou gentio) que invocar o nome do Senhor,
será salvo” (10.5-13). A fé vem pela pregação da palavra de Cristo;
contudo, a incredulidade dos judeus cumpre os propósitos de Deus que incluem
também revelar-se aos gentios (10.14-21).

Deus se mantém fiel para com o seu povo (“a quem de antemão
conheceu”) salvando-lhe no presente o remanescente segundo a eleição da
graça, do qual Paulo faz parte (11.1-5). Sendo pela graça, fica excluído o
caminho das obras; a justiça17 que Israel continua buscando (e)pizhtei=,
“busca”), somente a eleição (ou seja, os eleitos) obteve (
e)pe/tuxen, “alcançou”), os demais foram endurecidos como profetizado
no passado (11.6-10). A incredulidade dos judeus serve ao propósito divino de
trazer a salvação aos gentios; contudo, essa queda é reversível, pois, mediante
o ciúme, a “plenitude” de Israel (o número total dos eleitos) haverá
de ser salva, abandonando a incredulidade, sendo reenxertada na sua própria
raiz (11.11-24). Somente uma parte de Israel é endurecida e isso durará
enquanto a plenitude dos gentios está também sendo salva. É desta maneira
(ou(/twj, “assim”) que todo o Israel18 será salvo, como prometido nas
Escrituras (11.25-27). Por causa da irrevocabilidade dos dons e da vocação de
Deus, Israel, apesar de estar em posição de inimizade, também participa (desta
maneira)19 da sua misericórdia concedida a todos (judeus e gentios), pois todos
estão igualmente encerrados na desobediência (11.28-32). Paulo termina
exaltando a Deus por sua sabedoria e conhecimento manifestados em seus juízos e
caminhos soberanos (11.33-36).

II. A Antítese entre Legalismo e Fé e a Nova Perspectiva

Para os eruditos da “nova perspectiva”, esta passagem não apresenta
qualquer indício de que Paulo esteja combatendo o legalismo judaico. E. P.
Sanders, por exemplo, argumenta que em 10.3 o contraste é entre a justiça que
está disponível somente ao povo do pacto, o qual é observante da Torá, e uma justiça
disponível pela fé a todos:

Sua própria justiça, em outras palavras, significa aquela justiça que somente
os judeus têm o privilégio de possuir, antes que justiça própria que consiste
em os indivíduos apresentarem seus méritos como uma reivindicação diante de
Deus.20

J. D. G. Dunn entende que i)di/an, “própria,” refere-se não ao status
justo que cada israelita buscava alcançar, mas à “justiça que é peculiar
ao povo do pacto, a justiça que era possessão somente deles e não dos
gentios.”21 S. R. Bechtler conclui:

O problema descrito em 10.3, portanto, não é que Israel, pelos seus esforços
meritórios, esteja procurando criar a sua própria justiça, mas que o seu zeloso
apego à sua visão exclusivista do pacto impede a possibilidade da oferta da
salvação aos gentios fora do pacto.22

Todavia, toda esta seção (capítulos 9-11), bem como toda a carta, mostra que a
justiça própria que os judeus procuram estabelecer encontra-se em oposição à
justiça de Deus, ficando assim do lado oposto no paralelismo antitético que
permeia toda a carta: por um lado a miséria e as realizações humanas e por
outro a ação redentora divina em Cristo através da justiça e)k pi/stewj,
“pela fé”. Não há como negar o fato de que Paulo estabelece
fortemente uma antítese ao legalismo judaico; é o que comprovaremos abaixo.

A. Antítese no contexto próximo

1. Romanos 9.1-29 – Somente os filhos da promessa são considerados filhos de
Deus e não todos os descendentes naturais de Abraão (9.6-8). Em 9.9, a promessa
de um filho para Sara contrasta com a providência de Abraão (não mencionada no
texto) de obter filho da escrava. No caso dos filhos de Rebeca, Paulo enfatiza
que a eleição23 de Deus independe das obras praticadas, sejam boas ou más, quer
pelo que é aceito ou pelo que é rejeitado (9.10-13). Ao enfatizar que a
salvação é concedida somente aos que são contemplados pela misericórdia de
Deus, Paulo mostra que a vontade e o esforço humanos nada podem reivindicar de
Deus (9.14-18). O homem não se encontra numa posição na qual possa reclamar das
escolhas de Deus (9.19-20). Tanto os “vasos de ira” como os
“vasos de misericórdia” indicam a situação de miséria do homem
(9.21-23). Os verbos e particípio e)ka/lesen, “chamou”, kale/sw,
“chamarei” , h)gaphme/nwn, “amada” , klhqh/sontai,
“serão chamados”, swqh/setai, “será salvo”, poih/sai,
“cumprirá” e e)gkate/lipen , “deixado,” mostram que somente
a ação de Deus pode reverter a miséria do homem (judeu ou gentio) (9.24-29).

2. Romanos 9.30-10.21 – Não foi o esforço humano (mh diw/konta, “que não
buscavam”) que levou os gentios a alcançarem a justiça e)k pi/stewj,
“que decorre da fé”. Por outro lado, Paulo mostra que Israel
fracassou em sua busca da no/mon dikaiosu/nhj, “lei de justiça”,
porque o fez ouk ) e)k pi/stewj a)ll )w(j e)c e)/rgwn, “porque não
decorreu da fé, e, sim, como que das obras”24 (9.30-32). O caminho das
obras (em contraste com o caminho da fé) implica num tropeço na pedra que Deus
colocou justamente para que o homem, nela crendo, não ficasse mais nessa
miserável posição de humilhação (ou) kataisxunqh/setai, “não será
confundido”) (9.32-33). Paulo deixa claro que apesar do zelo que
demonstram por Deus, os judeus não possuem a salvação (10.1-2). Esta salvação
de Deus é recebida quando o homem cessa de usar a lei (te/loj no/mou, “fim
da lei”) para estabelecer a justiça própria e, deixando de ignorar o
caminho de justiça que Deus providenciou, ele se sujeita a esta justiça, crendo
que em Cristo ele é salvo independentemente de qualquer justiça própria
(10.3-4). Paulo estabelece um contraste (de, “mas” em 10.6) entre a
justiça e)k [tou=,] no/mou, “decorrente da lei,” e a justiça e)k
pi/stewj, “decorrente da fé”: pela primeira o homem só obtém vida
mediante a prática da lei, o que lhe é impossível;25 pela segunda o homem é
salvo apenas crendo e confessando que em Cristo Deus é quem agiu para nos
libertar de nossa miséria. Pela invocação do nome do Senhor o homem reconhece
tanto o seu fracasso em atender às demandas da lei, como também a suficiência
do poder de Deus para nos salvar (10.5-15). Tanto a incredulidade e a rebeldia
de Israel, como a insensatez e a indiferença dos gentios, mostram a miséria
humana e contrastam com a bondade de Deus em chamar a todos para receberem o
seu favor (quer enviando pregadores do evangelho, ou provocando ciúmes e ira,
quer revelando-se ou estendendo a mão, 10.16-21).

3. Romanos 11.1-36 – É a graça de Deus (xa/riti, “pela graça”) e não
as obras dos homens (ou)ke/ti e)c e)/rgwn , “já não é pelas obras”)
que determina a eleição divina do remanescente de Israel, eleição essa que traz
salvação a esse remanescente (ontem e hoje), em contraste com o fracasso da
atual busca de Israel que só traz mais endurecimento, cegueira e miséria
(11.1-10). Somente Deus pode reverter a miséria humana: primeiro, Deus usa o
tropeço de Israel para trazer a salvação, riqueza e reconciliação aos gentios;
segundo, Deus usa o ciúme de Israel para salvar e restabelecer à vida os que
fazem parte da plh/rwma a)utw=n, “sua plenitude”; só Deus, em sua
bondade, é poderoso para enxertar (pela fé) os gentios na oliveira boa, e nela
reenxertar (afastando a incredulidade)26 os ramos naturais cortados (judeus
incrédulos) (11.11-24). Enquanto as palavras “impiedades”,
“pecados”, “inimigos” descrevem a miséria judaica, por
outro lado, Deus, em sua fidelidade e amor, é aquele que liberta completamente
o seu povo (11.25-29). Tanto gentios como judeus estão aprisionados na
desobediência; somente pela misericórdia de Deus podem ser libertados
(11.30-32). Só Deus merece o louvor das suas criaturas, pois ninguém primeiro
deu a ele para que Deus lhe ficasse devendo uma retribuição, pelo contrário,
“dele e por meio dele e para ele são todas as cousas. A ele, pois, a
glória eternamente. Amém.”(11.33-36).

Em resumo: O contexto descreve os judeus incrédulos como estando cortados da
raiz santa, aprisionados na desobediência, vivendo em impiedade e pecados como
inimigos, estando endurecidos, cegados, num estado de miséria, tendo tropeçado,
procurando, todavia, ser zelosos por Deus, porém sem entendimento, tentando estabelecer
sua justiça própria, justiça que julgam provir da lei, como que pelas obras,
ignorando a justiça de Deus em Cristo, não se sujeitando a ela, tendo
fracassado completamente em seus esforços. Estão mortos (11.15)!27 Schreiner,
tendo em mente as idéias de J. D. G. Dunn, observa corretamente: “Práticas
que separavam os judeus dos gentios, tais como circuncisão, sábado e leis
alimentares, não são sequer mencionadas nesta seção da carta.” E conclui:

Parece que a maneira mais natural de se ler Romanos 9.32 e 10.3 é ver que os
judeus fracassaram ao tentarem ser justos com base em suas obras, e estas obras
não podem ser limitadas a parte da lei. Assim, está evidente no texto uma
crítica à justiça-de-obras num sentido amplo. Embora Paulo proclame a inclusão
dos gentios em Romanos 9-11, os judeus não são especificamente reprovados por
serem tão exclusivos em Romanos 9.30-10.8. Pelo contrário, eles são censurados
por fracassarem na obediência à lei e por legalismo.28

B. Antítese na carta

1. Romanos 3.19-20 – Nesta passagem Paulo está resumindo o seu argumento
anterior (Rm 1.18-3.18). O significado de “obras da lei” em 3.20 não
pode ser separado do que Paulo diz a respeito da lei em Romanos 2. Nesse
capítulo, Paulo claramente está procurando convencer os judeus do fracasso de
sua tentativa de guardar a lei. Paulo não os critica por observarem a
circuncisão, mas por não obedecerem às normas morais da lei (2.21-22) enquanto
pensam que a circuncisão poderia protegê-los do julgamento de Deus. Conclui-se
que “obras da lei” em 3.20 designa de maneira ampla os atos exigidos
pela lei, e a razão para a condenação é o fracasso em se guardar a lei. Romanos
3.20 fala da incapacidade humana para obedecer a lei. O problema não é uma
atitude errada ou um espírito exclusivista, mas sim a desobediência. Paulo
afirma que ninguém será justificado por fazer o que a lei requer, pois ninguém
obedece toda a lei.

2. Romanos 3.27-4.529 – Apesar da nova exegese deste texto apresentada pelos
representantes da nova perspectiva,30 a maneira mais natural de se ler esta
passagem é ver aqui uma polêmica contra a tentativa de se obter salvação pela
prática de boas obras. Paulo afirma que a jactância foi excluída não pela
“lei das obras” mas pela “lei da fé”. O verso 28 provê a
base (ga/r, “pois”) para a exclusão dessa jactância. A jactância é
excluída porque “o homem é justificado pela fé independentemente das obras
da lei.” Como “obras da lei” refere-se à lei como um todo,
pode-se concluir que Paulo está falando contra aqueles que chegam a se orgulhar
por tentarem obter a salvação por sua prática das obras prescritas na lei de
Moisés. Paulo continua tratando do mesmo assunto usando o caso de Abraão em
4.1-5. A prática de determinadas obras constitui a base para a jactância (4.2).
Se Abraão tivesse sido justificado desta maneira, Deus lhe seria obrigado a
pagar o salário por ter realizado essa obra requerida (4.4). Mas não foi assim
que Abraão foi justificado; foi a sua fé em Deus que lhe foi
imputada/reconhecida para justiça (4.3), e assim, como ímpio que era, ele
recebeu a dom divino da justiça salvadora (4.5).31

3. Romanos 4.6-8 – Davi fala de uma “justiça à parte das obras” como
sendo a bênção do perdão das iniqüidades e pecados. Para Davi,
“iniqüidades” e “pecados” (verso 7) são uma outra maneira
de descrever as obras que se diz estarem faltando (xwrij e)/rgwn,
“independentemente de obras”) no verso 6. Não se pode inferir das
palavras de Paulo que os “pecados de Davi” consistiam numa ênfase na
circuncisão ou em outros “emblemas separadores” que causavam a
exclusão dos gentios do povo de Deus (a circuncisão, as leis dietárias, e o
calendário religioso judaico). As suas “impiedades” e
“pecados” descritos aqui são termos gerais para aquele que peca por
desobedecer a lei. Schreiner conclui:

A conexão entre o fracasso (sic) de Davi em realizar as “obras”
necessárias em 4.6 e a reivindicação de Paulo de que a justiça é “à parte
das obras da lei” (3.28) sugere que a razão pela qual as “obras da
lei” não justificam é o fracasso em se obedecer toda a lei.32

Na conclusão de sua pesquisa na carta aos Gálatas, Augustus N. Lopes afirma:

…o ataque de Paulo às “obras da lei” em Gálatas faz parte da sua
polêmica mais geral contra o sistema legalista e inadequado do judaísmo
palestino, como uma religião de méritos e em direta oposição ao evangelho da
graça revelado em Cristo, conforme tradicionalmente se vem afirmando. Embora a
ênfase de Dunn na função sociológica da lei nos desafie a ampliar nossa
interpretação e incluir também este aspecto na polêmica de Paulo contra as
“obras da lei” em Gálatas, sua tese fundamental, bem como muitas
teses da “nova perspectiva” sobre o judaísmo e Paulo, não pode ser
aceita senão debaixo de severas restrições e qualificações. Portanto, desde que
não conseguimos ser convencidos por elas, resta-nos permanecer com a
interpretação tradicional, que, mesmo parecendo antiquada e indefensável para
muitos, continua refletindo mais exatamente a intenção de Paulo ao afirmar que
a salvação é pela fé, sem as “obras da lei”.33

III. Fim ou Alvo da Lei ?

Já vimos que o contexto mostra (1) que Paulo está combatendo o legalismo
judaico, (2) que os judeus deveriam ter cessado de usar a lei para tentar
estabelecer a justiça própria, (3) que a salvação oferecida na pregação da fé
implica numa sujeição à justiça de Deus, ou seja, em cessar de confiar nos
supostos méritos próprios (provindos da prática das obras da lei) para confiar
somente em Cristo, o Redentor, (4) que Cristo é um salvador tão suficiente que
para o homem receber essa salvação ele deve cessar de inquirir sobre o que
precisa praticar para ser salvo, pois basta invocar o nome do Senhor, crendo e
confessando a Jesus como Senhor. Diante disso, vemos que Paulo está tratando da
questão da experiência pessoal da salvação, da apropriação da justiça de Deus
em Cristo. É nesse contexto que ele afirma que Cristo é fim da lei (te/loj
no/mou) para justiça a/para/de todo o que crê, e a maneira mais natural de
entender esta expressão, de acordo com o contexto é: “Cristo é a cessação da
lei com vistas à justiça, isto para todo o que crê.”

Notamos que Paulo não está fazendo uma declaração abrangente sobre o
relacionamento entre o Velho Testamento e o Novo Testamento, ou afirmando que
no Novo Testamento a lei tem um papel predominantemente negativo. Parece ser
esse o receio dos que, apesar de aceitarem que no contexto Paulo trata do
legalismo judaico, ainda preferem traduzir te/loj por “alvo”. É o
caso de C. E. B. Cranfield:

Aqueles que pensam que a atitude de Paulo para com a lei era predominantemente
negativa são naturalmente inclinados a escolher o sentido,
“terminação”…Esta interpretação possui muitos adeptos; mas, à vista
de passagens tais como Romanos 7.12, 14a, 8.4, 13.8-10 e da declaração
categórica em Romanos 3.31, e também do fato de que Paulo repetidamente apela
para o Pentateuco para apoiar os seus argumentos (talvez especialmente
sugestivo seja o fato que ele faz assim em Romanos 10.6-10), parece
extremamente provável que ela deva ser rejeitada, e a tradução “alvo”
preferida.34

Vê-se que este receio de Cranfield o impediu até de considerar a interpretação
que defendemos, a qual não implica numa abrogação da lei no Novo Testamento.
Entende-se a posição de Cranfield como uma reação contra os que afirmam que em
Romanos 10.4 Paulo ensina que Cristo aboliu a lei. Não é este o nosso caso.
Concordo inteiramente com a advertência e conclusão de Schreiner:

…o principal problema com muitas interpretações de Romanos 10.4 é que os
eruditos estão tentando apoiar seu entendimento global do relacionamento entre
a lei e o evangelho com base neste texto. Conseqüentemente, grandes batalhas
são travadas sobre se Cristo é o alvo ou o fim da lei. Os assuntos nesta
disputa teológica são inteiramente cruciais, e carecem de novas discussões. Mas
a minha tese neste artigo é que Paulo em Romanos 10.4 tem em vista algo mais
modesto. O problema específico que ele combate é a tendência humana de fazer
mal uso da lei para estabelecer a justiça própria. O propósito do texto não é
prover uma declaração programática sobre o relacionamento entre o evangelho e a
lei. Paulo está respondendo a um problema específico: o uso da lei para se
estabelecer a justiça própria. Não é para se surpreender, então, que Romanos
10.4 viesse a conter um declaração experimental, pois Paulo está reagindo a um
problema experimental. Tal tentativa de se estabelecer a justiça própria tem
grandes conseqüências para Paulo, visto que os que assim fazem fracassaram em
se submeter à justiça salvadora de Deus. Eles deveriam ter se submetido à justiça
de Deus, visto que crer em Cristo é o fim de se usar a lei para estabelecer a
justiça própria para todos os que crêem.35

A. A Palavra “te/loj”

Alguns afirmam que te/loj em Paulo geralmente significa “alvo”.
Todavia, essa teoria não pode ser sustentada pela evidência. A única passagem
Paulina em que te/loj pode significar “alvo” é 1 Timóteo 1.5. Os dois
usos de te/loj em Romanos 6.21-22 devem ser traduzidos por
“resultado” e não por “alvo”. Em 2 Coríntios 3.13 te/loj
deve ser traduzido por “fim”; dificilmente poderia significar
“alvo”. O sentido temporal de te/loj pode ser constatado como
predominante no Novo Testamento, tanto em construções preposicionais
(certamente em Mt 10.22; 24.13; Mc 13.13; 1 Co 1.8; Hb 3.14; 6.11; Ap 2.26;
provavelmente em Lc 18.5; Jo 13.1; 2 Co 1.13; 1 Ts 2.16), como em construções
sem preposição (certamente em Mt 24.6, 14; Mc 3.26; 13.7; Lc 1.33; 21.9; 1 Co
15.24; Hb 7.3; 1 Pe 4.7; Ap 21.6; 22.13; provavelmente em Mt 26.58). As únicas
passagens em que te/loj poderia significar “alvo”, em nosso entender,
além de 1 Timóteo 1.5, são 1 Pedro 1.9 e Lucas 22.37.

Em Romanos 10.4 ambas as interpretações são possíveis, dado o uso da palavra;
todavia, a maneira mais comum em que Paulo usa esse termo nos leva a esperar o
sentido “fim”. Não há, como vimos na análise anterior, argumentos
contextuais para preferirmos “alvo”; portanto, linguisticamente é
preferível traduzir te/loj por “fim”. Käsemann afirma ser ridículo
enfatizar a conexão lógica com a metáfora de corrida em 9.31s e, em assim
fazendo, esquecer de 9.32s.36

B. Argumentos Finais na Interpretação de Romanos 10.4

A relação lógica entre os versos 3 e 4 apoia a nossa interpretação. A conjunção
ga/r, “porque,” no início de 10.4, mostra que este verso está
intimamente ligado ao verso anterior. A principal proposição do verso 3 é que
os judeus não se submeteram à justiça de Deus. Vimos que a melhor maneira de
entendermos isso é que os judeus não se submeteram à ação de Deus pela qual ele
declara justos os que nele confiam. Os dois particípios (a)gnoou=ntej,
“desconhecendo,” e zhtou=ntej, “procurando”) no verso 3
explicam a razão pela qual os judeus não se submeteram à justiça salvadora de
Deus: porque eles ignoraram a justiça de Deus e porque eles tentaram estabelecer
a sua própria justiça. Vimos pela ligação com o contexto (em especial 9.30-33)
e com toda a polêmica contra o legalismo judaico nesta carta, que Paulo está
afirmando que alguns judeus pensavam que poderiam obter justiça pela prática
daquilo que a lei determina. Está claro que Paulo entende que eles estavam
errados em não se sujeitar à justiça de Deus e que esta sujeição deveria se
expressar através da fé em Cristo. O verso 4, então, provê a razão pela qual os
judeus deveriam ter se submetido à justiça de Deus: Cristo põe um fim à
tentativa de se estabelecer a justiça própria. Leon Morris registra a expressão
de Victor P. Furnish: Cristo “escreve ‘finis’ ao triste espetáculo da vã
tentativa humana de alcançar a vida através das obras da lei.”37 Schreiner
acertadamente observa:

A íntima conexão entre os versos 3-4 demonstra que Paulo não está fazendo uma
declaração teológica global entre a lei e o evangelho no verso 4. Ele está
respondendo ao problema específico levantado no verso 3 de pessoas erroneamente
usando a lei para estabelecer sua própria justiça. No verso 4 Paulo afirma que
aqueles que crêem em Cristo cessam de usar a lei como um meio para se
estabelecer a justiça própria.38

Há pessoas que desaprovam esta exegese afirmando que ei)j dikaiosu/nhn,
“para justiça,” está mais próximo de Xristo/j, “Cristo”, do
que de te/loj ga/r no/mou, “porque o fim da lei”. Devemos notar,
entretanto, que esta última frase é movida para o início da oração para dar
ênfase ao fato de que Cristo põe um fim nessa atitude errada para com a lei.
“Seifrid corretamente argumenta que ei)j dikaiosu/nhn, “para
justiça,” não está relacionado a tudo quanto precede mas somente ao
nominativo predicativo te/loj no/mou, “fim da lei”.”39

A expressão panti t%= pisteu/onti, “a/para/de todo o que crê,” dá
suporte à idéia de que Paulo não está fazendo uma declaração global sobre a
relação entre o evangelho e a lei. Cristo não é o fim de se usar a lei para
justiça no caso dos judeus do verso 3. O verso 4 é uma declaração acerca da
experiência dos crentes em Cristo, qual seja: todos os que confiam em Cristo
para serem justificados cessam de usar a lei para estabelecer a sua própria
justiça.

A partícula ga/r, “pois, ora,” no verso 5 indica que os versos 5-8
provêem uma base para o verso 4: o verso 5 afirma que aquele que busca a
justiça da lei viverá somente se praticar a lei . Por causa da exigência da
prática da lei pelo homem40 nesse verso 5 e o contraste das obras com a fé em
todo o contexto, como temos mostrado, deve-se concluir que há uma idéia implícita
neste verso, qual seja: ninguém pode cumprir a lei e, assim, a justiça não pode
ser alcançada através da tentativa de se guardar a lei. Os versos 6-8 ensinam
que Cristo já realizou tudo o que nos era impossível de cumprir. A justiça não
vem pela prática da lei, pois ninguém pode cumpri-la perfeitamente; a justiça é
oferecida mediante a fé em Cristo. Desta maneira, os versos 5-8 fundamentam o
verso 4 ao confirmarem que o crer em Cristo põe um fim em toda a tentativa de
se obter justiça através da lei.

É importante observar que Paulo não está sugerindo aqui que antes da vinda de
Cristo todos os judeus usavam a lei para estabelecer a justiça própria. Paulo
ensina que Abraão (Rm 4.1-5; Gl 3.6-9) e Davi (Rm 4.6-8) foram salvos pela fé e
não pelas obras. É justo entender que Paulo está mencionando Cristo no verso 4
porque agora, com a chegada de Cristo na plenitude dos tempos41 (Gl 4.4), o
modo específico de se manifestar confiança em Deus e em suas promessas é
depositar a confiança em Deus que enviou seu Filho para fazer propiciação pelos
nossos pecados (Rm 3.21-26).

IV. Conclusão

Romanos 10.4 deve ser entendido a partir da perspectiva da polêmica de Paulo
contra o legalismo judaico. Os judeus deveriam ter deixado de procurar
estabelecer a sua própria justiça pela prática da lei porque pela prática da
lei ninguém será justificado, visto que todos, judeus e gentios, estão debaixo
do pecado. Antes, eles deveriam ter se submetido à justiça de Deus crendo em
Cristo. Cristo, sim, realizou aquilo que é impossível aos homens, para
obter-lhes a justiça, a qual ele lhes oferece gratuitamente pela fé, à parte
das obras da lei. Os judeus deveriam, portanto, ter compreendido que Cristo,
para aquele que crê, põe um fim a esta maneira errônea de buscar a justiça
pelas obras da lei.

Paulo não está fazendo uma declaração teológica global acerca do relacionamento
entre a lei e o evangelho. Ele não está afirmando que a lei foi abolida, nem
que Cristo é o alvo da lei, nem que a exclusividade da lei foi posta de lado,
etc. Ele está tratando, a partir da perspectiva da experiência dos crentes, do
problema do legalismo dos judeus: Cristo, para o crente, é o fim do legalismo.
Usando a frase de Furnish: Cristo “escreve ‘finis’ ao triste espetáculo da
tentativa humana de obter vida através das obras da lei.”

V. Implicações Práticas de”Alvo” ou “Fim”

O problema do legalismo não foi só do judeu no passado, mas está sempre
presente como uma tentação para os cristãos de todos os tempos. É comum hoje
encontrar crentes legalistas que não se dão conta da incoerência de suas
posições: confiam em Cristo como Salvador, mas sentem que precisam fazer algo
para merecer a sua salvação. Pastores se debatem contra o legalismo evangélico
de suas ovelhas; parece que a soteriologia legalista do romanismo, espiritismo,
etc., ainda influencia a vida de fé dos convertidos. Problemas de depressão
espiritual têm, por vezes, como raiz, uma apreensão defeituosa e distorcida da
justificação pela fé. Ademais, na evangelização do povo brasileiro é
imprescindível focalizar que Cristo põe fim à tendência humana de pensar que se
pode “comprar” com obras a eterna salvação.

Vê-se que este texto de Paulo é tremendamente prático, e aplica-se a todos os
casos acima mencionados, ajudando para que hoje as pessoas tenham uma verdadeira
experiência da salvação, uma fé verdadeira. Esta nossa interpretação entende
que Paulo está tratando da experiência das pessoas de seu tempo, de seus
patrícios que erraram nessa área, bem como de crentes que descobriram em Cristo
a libertação do legalismo. A interpretação que traduz te/loj por
“alvo” não realça tanto este aspecto experimental presente tanto no
texto como em seu contexto, pelo contrário, introduz uma discussão teológica
sobre o relacionamento entre os testamentos que chega a obscurecer o contraste
(em 10.5-15) entre o caminho inviável das obras e o caminho da graça mediante a
fé em Cristo.

Notas
1 Ver, por exemplo, o artigo de Douglas J. Moo, “Paul and the Law in the
Last Ten Years,” em Scottish Journal of Theology 40 (1987) 287-306.

2 Conferir o esforço para categorizar os usos paulinos de no/moj,
“lei,” por exemplo, em Douglas J. Moo, “‘Law’, ‘Works of the
Law,’ and Legalism in Paul,” em Westminster Theological Journal 45 (1983)
73-100.

3 John M. G. Barclay, em seu artigo “Paul and the Law: Observations on
Some Recent Debates,” em Themelios 12 (September 1986) 5-15, oferece um
excelente resumo dos principais pontos em debate.

4 Thomas R. Schreiner, em seu artigo “‘Works of the Law’ in Paul,” em
Novum Testamentum 33 (1991) 217-244, apresenta e combate as novas soluções;
James D. G. Dunn, em “The New Perspective on Paul,” em Bulletin of
the John Rylands Lybrary 65 (1983) 95-122, descreve o novo panorama nos estudos
paulinos e defende a sua teoria.

5 S. K. Williams, “The ‘Righteousness
of God’ in Romans,” em Journal of Biblical Literature 99 (1980) 254.

6 J. C. Beker, Paul the Apostle (Philadelphia: Fortress, 1980) 89.

7 “E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado”
(9.6) é confirmado adiante em 9.28: “porque o Senhor cumprirá a sua
palavra sobre a terra, cabalmente e em breve”. Toda a seção é recheada de
citações do Velho Testamento para comprovar o cumprimento da palavra de Deus.

8 Paulo neste ponto menciona a antítese sustentada em toda a carta: a salvação
de Deus não é procedente de obras humanas. Ver 9.32 e 11.6.

9 Esta mesma distinção interna dentro da descendência “segundo a
carne” de Abraão também é feita em 9.6 (“Israel”), 9.7
(“seus filhos”, “tua descendência”), 9.8 (“filhos de
Deus”, “devem ser considerados como filhos da promessa”), 11.5
(“remanescente segundo a eleição da graça”), 11.7 (“a
eleição”), 11.12: (“a sua plenitude”), e 11.28 (“amados por
causa dos patriarcas”). Ver também Romanos 2.28-29 (“judeu é aquele
que o é interiormente”).

10 Romanos 10.19-20 revela que esta conquista dos gentios é fruto da iniciativa
de Deus.

11 A antítese agora é entre “das obras” e “da fé” sendo que
em 9.11 (no grego, v.12) é entre “por obras” e “por aquele que
chama”, isto por causa da perspectiva usada em cada seção. Em 11.6 é entre
“pelas obras” e “pela graça”.

12 Comparar o sentido do verbo em 1 Coríntios 14.38 e Romanos 2.4.

13 Paulo já havia tratado desta justiça de Deus em Cristo “no tempo
presente” em 3.21-26.

14 Esta é a interpretação que defenderei adiante.

15 Comparar com 2.13 (“Porque os simples ouvidores da lei não são justos
diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados”) e 2.25
(“Porque a circuncisão tem valor se praticares a lei”).

16 Paulo já tinha mostrado que o judeu é transgressor da lei em 2.17-27. Também
em 3.9-19, 23.

17 Não há como negar o paralelo com 9.30-32 (diw/kwn no/mon dikaiosu/nhj,
“que buscava lei de justiça”) e 10.1-5.(thn i)di/an [dikaiosu/nhn]
zhtou=ntej sth=sai, “procurando estabelecer a sua própria (justiça)”.

18 “Todo o Israel” (11.26) que será salvo é distinto da nação de
Israel como um todo (11.25), tal como em 9.6: “nem todos os de Israel são
de fato israelitas”. Ver também 2.28, 29; 4.12; 9.7-8.

19 Acima descrita: possuindo um remanescente eleito pela graça de Deus (9.6-8,
23, 27-29, 11.5-7, 12, 26), o qual está sendo e será salvo (9.24, 27; 11.1-5,
14, 15, 25-27, 31-32) pela fé em Jesus (10.9-13; 11.20 com 11.23), mesmo que
seja mediante a incitação à emulação (10.19; 11.11-14, 23-24, 28, 30-32).

20 E. P. Sanders, Paul, the Law, and the
Jewish People (Philadelphia: Fortress, 1983) 38.
Tradução minha, itálicos
dele.

21 J. D. G. Dunn, Romans, WBC (Dallas:
Word, 1988) 2:587, tradução minha.

22 S. R. Bechtler, “Christ, the te/loj of the Law: The Goal of Romans 10:4,”
em Catholic Biblical Quarterly, 56 (1994) 298, tradução minha.

23 A palavra e)klogh/, “eleição” (9.11), é a mesma usada
para a eleição da graça para a salvação em 11.5-7, onde também há um contraste
com e)c e)/rgwn, “pelas obras”.

24 Esta expressão no presente contexto indica a realização humana tentando
alcançar justiça. Moo observa que neste contexto (9.11-12) “obras”
deve incluir qualquer coisa que os homens façam, “quer boa ou má”, e
afirma: “‘Obras’ são consideradas como sendo boas ações que poderiam ser
concebidas como meritórias ” ( “‘Law’, ‘Works of the Law,’”
95-96, tradução minha, itálicos dele).

25 Paulo já havia mostrado em 3.20 que este caminho é impossível ao pecador:
“visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão
de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado,” e já havia dado a
razão em 3.9: “pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como
gregos, estão debaixo do pecado”.

26 Comparar com 11.26: “apartará de Jacó as impiedades”.

27 É surpreendente como esta descrição se encaixa com o “eu” de
Romanos 7.9-25: “…e eu morri. E o mandamento que me fora para vida,
verifiquei que este mesmo se me tornou para morte. Porque o pecado,
prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento me enganou e me
matou” (7.9b-11).

28 Thomas R. Schreiner, “Paul’s View
of the Law in Romans 10.4-5,” em Westminster Theological Journal 55 (1993)
116-117, tradução minha.

29 Ver a defesa de Schreiner de que 3.27-28 trata do mesmo assunto
que 4.1-5, em “‘Works of the Law’ in Paul,” 232.

30 Ver exposição e avaliação por Schreiner, “‘Works of Law’ in Paul,”
233-238.

31 Para uma defesa convincente a partir deste e de outros textos paulinos de
que Paulo combatia o legalismo, veja R. H. Gundry, “Grace, Works, and
Staying Saved in Paul,” em Biblica 66 (1985) 1-38. Também B. L. Martin, Christ and the Law in
Paul, SuppNovT 62 (Leiden: Brill, 1989) 93-96.

32 Schreiner, “‘Works of the Law’ in Paul,” 229, tradução minha.

33 Augustus N. G. Lopes, “Paulo e a Lei de Moisés: Um Estudo
sobre as ‘Obras da Lei’ em Gálatas” em Chamado para Servir: Ensaios em
Homenagem a Russell P. Shedd, ed. Alan B. Pieratt (São Paulo: Vida Nova, 1994)
71.

34 C. E. B. Cranfield, “St. Paul and
the Law,” em Scottish Journal of Theology (1964) 49, tradução minha.

35 Schreiner, “Paul’s View of the Law in Romans 10:4-5,” 124,
tradução minha.

36 E. Käsemann, Commentary on Romans (Grand Rapids: Eerdmans, 1980) 283.

37 L. Morris, The Epistle to the Romans (Grand Rapids: Eerdmans, 1988) 381,
tradução minha.

38 Schreiner, “Paul’s View of the Law in Romans 10:4,” 122, tradução
minha.

39 Ibid., 123, referindo-se a M. A. Seifrid, “Paul’s Approach to the Old
Testament in Romans 10:6-8,” em Trinity Journal 6 (1985) 9, nota 29,
tradução minha.

40 Cranfield entende que se trata do homem Jesus Cristo e que o
de, “mas,” no verso 6 indica o contraste entre o justo estado que
Cristo obteve por sua obediência, por suas obras, e o justo estado que os
homens recebem pela fé nele (Romans, 2:521-22). Ao fazer isso Cranfield se vê
obrigado a afirmar que a citação desse mesmo verso de Levítico 18.5 em Gl 3.12
também refere-se à obediência de Cristo (Romans, 2:522 n. 2), o que é
totalmente improvável.
Contra
Cranfield veja a argumentação de F. F. Bruce, Commentary on Galatians, NIGNTC
(Grand Rapids: Eerdmans, 1982) 163; e também Schreiner, “Paul’s View of
the Law in Romans 10:4,” 126.

41 Käsemann corretamente chama atenção para o “argumento
profundamente apocalíptico” do texto, mas erroneamente o liga a uma
descontinuidade e contradição entre a lei e Cristo (Romans, 282).

Parte
XX
OS
IRMÃOS DE JESUS
Os “irmãos de Jesus”, de que fala a Bíblia, seriam
apenas seus primos? José continuou sem conhecer sua esposa mesmo depois do
nascimento de Jesus? O que dizem os comentaristas nas bíblias aprovadas pela
Igreja Católica? É admissível supor que os irmãos de Jesus, que não criam nele,
fossem seus apóstolos? Tentaremos encontrar respostas para essas indagações.
Usaremos as seguintes versões bíblicas:

(a) A BÍBLIA DE JERUSALÉM, Paulus Editora, 1973, 8a impressão em janeiro/2000,
rubricada em 1.11.1980 por Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Metropolitano de São
Paulo. O trabalho de tradução foi “realizado por uma equipe de exegetas
católicos e protestantes e por um grupo de revisores literários”. Nas
referências, será assim mencionada: Bíblia {católica] de Jerusalém.

(b) BÍBLIA SAGRADA, Edição Ecumênica, tradução do padre Antônio Pereira de
Figueiredo; notas e dicionário prático pelo Monsenhor José Alberto L. de Castro
Pinto, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro; edição aprovada pelo cardeal D. Jaime
de Barros Câmara, Arcebispo do Rio de Janeiro; BARSA, 1964. Nas referências,
será designada assim: Bíblia [católica] Sagrada.

(c) BÍBLIA APOLOGÉTICA, João Ferreira de Almeida, Corrigida e Revisada, ICP
Editora, 2000, notas do Instituto Cristão de Pesquisas. Será assim indicada:
Bíblia Apologética.

(d) BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL, Almeida, revista e corrigida, Casa
Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), 1995. será referida: Bíblia de
Estudo Pentecostal.

Inicialmente, veremos os versículos que falam dos “irmãos de Jesus”,
extraídos da Bíblia [católica] de Jerusalém:

“Não é ele o filho do carpinteiro? E não se chama a mãe dele Maria e seus
irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem todas entre nós?
Donde então lhe vêm todas essas coisas? E se escandalizavam dele. Mas Jesus
lhes disse: “Não há profeta sem honra, exceto em sua pátria e em sua
casa” (Mateus 13.55-58; Marcos 6.3-6).

“Estando ainda a falar às multidões, sua mãe e seus irmãos estavam fora,
procurando falar-lhe.Jesus respondeu àquele que o avisou: “Quem é minha
mãe e quem são meus irmãos?” E apontando para os discípulos com a mão,
disse: “Aqui estão a minha mãe e os meus irmãos, porque aquele que fizer a
vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.
(Mateus 12.46-50; Marcos 3.32-35; Lucas 8.19-21).

“Depois disso, desceu a Cafarnaum, ele, sua mãe, seus irmãos e seus
discípulos, e ali ficaram apenas alguns dias”. (João 2.12).

“Aproximava-se a festa judaica das Tendas. Disseram-lhe, então, os seus
irmãos: ‘Parte daqui e vai para a Judéia, para que teus discípulos vejam as
obras que fazes, pois ninguém age às ocultas, quando quer ser publicamente
conhecido. Já que fazes tais coisas, manifesta-te ao mundo!’ Pois nem mesmo os
seus irmãos criam nele”(João 7.2-5).

“Tendo entrado na cidade, subiram à sala superior, onde costumavam ficar.
Eram Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus;Tiago,
filho de Alfeu, e Simão, o Zelota; e Judas, filho de Tiago.Todos estes,
unânimes, perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a
mãe de Jesus, e com os irmãos dele” (Atos 1.13-14). Comentários da Bíblia
de Jerusalém: “O apóstolo Judas é distinto de Judas, irmão de Jesus (cf.
Mt 13.55; Mc 6.3) e irmão de Tiago (Judas 1). Não se deve também, parece,
identificar o apóstolo Tiago, filho de Alfeu, com Tiago, irmão do Senhor (At
12.17; 15.13, etc)”.

“Não temos o direito de levar conosco, nas viagens, uma mulher cristã,
como os outros apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas?” (1 Coríntios
9.5).

“Em seguida, após três anos, subi a Jerusalém para avistar-me com Cefas e
fiquei com ele quinze dias.Não vi nenhum apóstolo, mas somente Tiago, o irmão
do Senhor. Isto vos escrevo e vos asseguro diante de Deus que não minto”
(Gálatas 1.18-20). Comentários da Bíblia de Jerusalém: “Outros traduzem:
“a não ser Tiago”, supondo que Tiago faça parte dos Doze e se
identifique com o filho de Alfeu (Mt 10.3p), ou tomando “apóstolo” em
sentido lato (cf.Rm 1.1+)”.

A Igreja Católica assim se manifestou em seu Catecismo:

“A isto objeta-se por vezes que a Escritura menciona irmãos e irmãs de
Jesus. A Igreja sempre entendeu que essas passagens não designam outros filhos
da Virgem Maria: Com efeito, Tiago e José, “irmãos de Jesus” (Mateus
13.55), são os filhos de uma Maria discípula de Cristo (Mateus 27.56), que
significativamente é designada como “a outra Maria” (Mateus 28.1).
Trata-se de parentes próximos de Jesus, consoante uma expressão conhecida do
Antigo Testamento (Gênesis 13.8; 14.16; 29.15, etc.)” (Catecismo da Igreja
Católica, p. 141. # 500).

De uma página de apologética católica na Internet colhemos a seguinte
explicação extra-oficial:

“São Lucas esclarece que Tiago e Judas eram filhos de Alfeu ou Cléofas
(Lucas 6.15-16). Portanto o eram também José e Simão. Mas não Jesus, que
sabemos era filho de “José, o carpinteiro”. Portanto, não poderiam
ser irmãos carnais. Por outro lado, São Mateus dá o nome da mãe deles:
“Entre as quais estava… Maria, mãe de Tiago e de José” (Mateus
27.56). Não se pode confundir esta Maria com sua homônima, esposa de José, o
carpinteiro. São João deixa bem clara essa distinção: “Junto à cruz de
Jesus estava sua mãe e a irmã (prima) de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas”
(João 19.25), cuja filha se chamava Maria Salomé. São as bem conhecidas
“três Marias”. Aliás, atualmente os protestantes mais cultos já nem
levantam mais essa objeção”.

Vejamos agora quais as “Marias” citadas nos evangelhos (Bíblia
[católica] de Jerusalém):

NA CRUCIFICAÇÃO

“Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe. Haviam acompanhado Jesus
desde a Galiléia, a servi-lo. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e
de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu” (Mt 27.56).

“E também ali estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas,
Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé” (Mc
15.40). Comentário da referida Bíblia: “Provavelmente, [Salomé] é a mesma
que Mt 27.56 denomina a mãe dos filhos de Zebedeu”.

“Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe,
Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19.25). Comentários da
referida Bíblia, referindo-se “a irmã de sua mãe”: “Ou se trata
de Salomé, mãe dos filhos de Zebedeu (cf. Mt 27.56p) ou, ligando essa
denominação ao que se segue, “Maria, mulher de Clopas”.

NA RESSURREIÇÃO

“Após o sábado, ao raiar do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a
outra Maria vieram ver o sepulcro” (Mt 28.1). Comentário da referida
Bíblia sobre a “outra Maria”: “Isto é, “Maria [mãe] de
Tiago” (Mc 16.1; Lc 24.10; cf. Mt 27.56)”.

“Passado o sábado, Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, e Salomé
compraram aromas para ir ungi-lo” (Mc 16.1-2).

“Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago” (Lc 24.10),

Vejamos agora quais os “Tiagos” citados nos evangelhos, conforme
consta do Dicionário na parte final da Bíblia [católica] Sagrada, item
“b” retro:

1. Tiago – “O Maior (mais velho), filho de Zebedeu e Salomé e irmão de São
João Evangelista (Mt 4.21). era de Betsaida na Galiléia, pescador (Mc 1.19) e
companheiro de São Pedro como seus irmãos (Lc 5.10).”

2. Tiago – “O Menor (mais moço), filho de Alfeu ou Cléofas (Mt 10.3; Mc
3.18; Lc 6.15; At 1.13) e de Maria (Jo 19.25). Foi chamado “irmão do
Senhor” (Gl 1.19), no sentido semita [relativo aos judeus] que tem essa
palavra que pode se aplicar aos primos e outros consangüíneos em linha
colateral mais afastados, e até mesmo aos simples conacionais. Tiago Menor era
primo de Jesus por ser sobrinho de S. José. N. Senhor apareceu-lhe uma semana
depois da Ressurreição (1 Co 15.7). Foi o primeiro bispo de Jerusalém depois da
dispersão dos Apóstolos.O fato de Paulo o ter procurado (Gl 1.19) e de ter ele
feito o discurso final no Concílio de Jerusalém parece provar isto (At 15.13)
Foi morto no Templo por instigação do sumo Sacerdote Anás II, tendo sido
lançado de uma galeria e espancado até à morte (62 depois de Cristo)”.

3. Epístola de S. Tiago – “Uma das epístolas católicas atribuída a São
Tiago, o menor…”

Vejamos agora quais os “Judas” citados nos evangelhos, segundo
Dicionário da Bíblia [católica] Sagrada, item “b” retro:

1. Judas – “Habitante de Damasco que hospedou S.Paulo (At 9.11)”.

2. Judas Iscariotes – “O Apóstolo que traiu N. Senhor (Mt 10.4; Mc 3.19; Lc
6.16). Iscariot quer dizer “homem de Cariot”, aldeia de Judá”.

3. Judas Tadeu – “Um dos doze apóstolos (Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.16; Jo
14.22). É o irmão de Tiago o Menor e “irmão”, isto é, primo do Senhor
(At 1.13); Mt 13.55; Mc 6.3)”.

4. Epístola de S. Judas Tadeu – Um dos livros canônicos do Novo Testamento,
classificado entre as chamadas “Epístolas Católicas”.

A partir dessas informações surgem algumas indagações:

Primeiro – Os apóstolos Tiago (o Menor) e Judas (Tadeu) são os mesmos chamados
de “irmãos de Jesus” em Mateus 13.55 e Marcos 6.3? Que dizem as
bíblias católicas retrocitadas?

O que vimos foram interpretações discordantes. A Bíblia de Jerusalém diz nos
comentários sobre Atos 1.13 que “o apóstolo Judas é distinto de Judas,
irmão de Jesus”, isto é, não são a mesma pessoa, ou seja, o apóstolo Judas
é uma pessoa e o irmão de Jesus, com idêntico nome, é outra pessoa. No mesmo
passo, diz que o apóstolo Tiago, filho de Alfeu, não é o mesmo Tiago, irmão do
Senhor. Reiterando a sua posição, referida Bíblia afirma nos comentários sobre
Gálatas 1-18-20: “Outros traduzem: “a não ser Tiago”, supondo
que Tiago faça parte dos Doze e se identifique com o filho de Alfeu (Mt 10.3p),
ou tomando “apóstolo” em sentido lato (cf. Rm 1.1+)”.

Por outro lado, a Bíblia Sagrada, católica, como discriminada no início deste
trabalho, assume posição diferente. O dicionário que compõe essa Bíblia diz que
“Tiago, o Menor, filho de Alfeu ou Cléofas (Mt 19.3; Mc 3.18; Lc 6.15; At
1.13) e de Maria (Jo 19.25), foi chamado “irmão do Senhor”. Diz mais
que “Tiago Menor era primo de Jesus por ser sobrinho de S.José”.
Confirmando, diz que “Judas Tadeu, um dos apóstolos (Mt 10.3; Mc 3.18…)
é o irmão de Tiago, o Menor, e “irmão”, isto é, primo do Senhor (At
1.13; Mt 13.55; Mc 6.3)”. O descompasso é lamentável, a menos que se
configure aí o “livre-exame” – situação em que comentaristas ou
exegetas católicos interpretam livremente os textos bíblicos sem guardar
coerência com a cúpula do Vaticano.

No particular, concordo plenamente com a Bíblia [católica] de Jerusalém. Os
irmãos de Jesus (Mt 13.55 e Mc 6.3, etc.), não foram apóstolos ou mesmo
discípulos, pelo seguinte:

a) Os irmãos de Jesus não criam nEle. No registro de João 7.2-5 nota-se
claramente essa incredulidade. Entende-se, também, que Jesus evitou a companhia
deles nesse episódio (Jo 7.8-10). Ao dizerem “para que teus discípulos
vejam as obras que fazes” seus irmãos se excluíram do rol dos seguidores
de Jesus. Ademais, Jesus não iria escolher para apóstolo alguém que não cria
nEle.

b) Segundo, a Bíblia estabelece distinção entre ser discípulo e ser irmão de
Jesus (Jo 2.12; At 1.13-14; 1 Co 9.5; Gl 1.18-20). Por exemplo, em certa
ocasião Jesus estava com seus discípulos em determinado local, e lá fora
estavam sua mãe e seus irmãos (Mt 12.46-50; Mc 3.32-35; Lc 8.19-21).

Segundo, a tia de Jesus – irmã de sua mãe Maria – era Salomé, mãe dos filhos de
Zebedeu, ou era Maria, mulher de Cléofas?

Vejamos mais uma vez o que relata João 19.25: “Perto da cruz de Jesus,
permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria
Madalena”.

A frase está de tal forma postada que admite duas interpretações. A primeira é
a de que “a irmã de sua mãe” é uma pessoa, e Maria, mulher de
Cléofas, outra. A segunda hipótese é a de que o nome da tia de Jesus é Maria, a
mulher de Cléofas. A Bíblia [católica] de Jerusalém concorda comigo quando diz:
“Ou se trata de Salomé, mãe dos filhos de Zebedeu (Mt 27.56) ou, ligando
essa denominação ao que se segue, “Maria, mulher de Clopas”.

A Bíblia Sagrada, edição católica, afirma no seu “dicionário”:
“Maria de Cléofas” é irmã da SS. Virgem Maria, i.e. sua prima, pois
em hebraico a palavra tem um sentido mais lato. Segundo uns seria a mãe de
Tiago (o menor), José, Simão e Judas Tadeu e esposa de Cléofas também chamado
Alfeu (Mt 27.56; Mc 3.18; 6;3; 15.40). Segundo outros são duas pessoas com o
mesmo nome, uma, irmã de S. José, seria a esposa de Alfeu e mãe de Tiago Menor
e José; e a outra seria cunhada de S. José por ser casada com Cléofas, irmão de
S. José, e seria a mãe de Simão e Judas Tadeu. Como quer que seja, uma Maria de
Cléofas e uma Maria, mãe de Tiago, aparecem nos Evangelhos como tendo
acompanhado o Senhor até o Gólgota e preparado os aromas… (Jo 19.25; Lc
24.10; Mt 28.9)”.

Terceiro, de quem seriam filhos os irmãos de Jesus?

Não eram filhos de Zebedeu e de sua provável mulher Salomé, porque os filhos
destes eram João e Tiago (Mt 4.21). Ora, os irmãos de Jesus foram Tiago, José,
Simão e Judas, afora algumas irmãs (Mt 13.55-56, Mc 6.3). João está excluído
dessa relação. Além disso, os irmãos de Jesus não criam nEle (Jo 7.5). Logo,
João, apóstolo, não foi seu irmão.

Não eram filhos de Maria, mulher de Alfeu ou Cléofas, cujo filho Tiago, o
menor, foi apóstolo (Mt 10.3; Mc 15.40), e como tal não poderia ser irmão de
Jesus, porque estes não criam nEle (Jo 7.5). Ademais, não consta que Tiago,
José, Simão e Judas, irmãos do Senhor, fossem filhos do referido casal.

A Bíblia [católica] de Jerusalém é de parecer semelhante quando diz: “O
apóstolo Judas é DISTINTO de Judas, irmão de Jesus (cf. Mt 13.55; Mc 6.3) e
irmão de Tiago (Judas 1). Não se deve também, parece, IDENTIFICAR o apóstolo
Tiago, filho de Alfeu, com Tiago, irmão do Senhor (At 12.17; 15.13, etc)”.
Realce acrescentado. Contrapondo-se, a outra Bíblia, católica, diz que Judas,
apóstolo, é o irmão de Tiago o menor e “irmão”, isto é, primo do
Senhor (Mt 13.55; Mc 6.3). Ou seja, Tiago e Judas, eram ao mesmo tempo irmãos
(ou primos) e apóstolos.

Se os irmãos de Jesus não eram filhos de Zebedeu, nem o eram de Alfeu, seria da
tia de Jesus, não devidamente identificada em João 19.25? Não pode ser porque
essa tia de Jesus já foi devidamente identificada pelo catolicismo, ao dizer
que ou se chamava Salomé,mãe dos filhos de Zebedeu, ou era Maria, mulher de
Cléofas.

Vamos agora ler o que dizem outros comentaristas a respeito dos irmãos de
Jesus.

IRMÃOS DO SENHOR – “Aqueles de quem se fala em Mateus 12.46 e 13.55, e
outros lugares,como irmãos de Jesus, seriam filhos de José e Maria? Segundo uma
opinião que já vem do segundo século pelo menos, esses “irmãos de
Jesus” eram filhos de um primeiro matrimônio de José. Mais tarde foram,
por alguns críticos considerados primos do nosso Salvador. Podem, contudo, ter
sido filhos de José e Maria. Em todas as passagens, menos uma, em que esses
irmãos de Jesus são mencionados nos Evangelhos, acham-se associados com Maria.
Se eram eles filhos mais velhos de José, não seria então Jesus o herdeiro do
trono de Davi, segundo as nossas noções de primogenitura. Eles não acreditavam
em Jesus no princípio da Sua missão, e até, segundo parece (Jo 7.5), depois que
os apóstolos foram escolhidos; e por essa razão eles não puderam ser do número
dos Doze, dos quais, na verdade, eles particularmente se distinguem, quando num
período posterior são vistos na companhia deles (At 1.14). Não devem, portanto,
ser confundidos com os filhos de Alfeu, embora tenham os mesmos nomes. Além
disso, as palavras “filho” e “mãe”, sendo empregadas nesta
passagem (Mt 13.55) no seu natural e principal sentido, semelhantemente devem
ser tomados os nomes “irmão” e “irmã” , pelo menos, até ao
ponto de excluir o termo “primo”. O fato de terem os filhos de Alfeu,
bem como os irmãos do Senhor, os nomes de Tiago, José e Judas, nada prova, visto
que esses nomes eram muito vulgares nas famílias judaicas. Estranha-se que não
fossem lembrados estes irmãos, quando Jesus confiou a sua mãe aos cuidados de
João; mas isso explica-se pela razão de que a esse tempo ainda eles não criam
Nele. A conversão deles parece ter sido quando se realizou a aparição de Jesus
a Tiago, depois da Sua ressurreição (1 Co 15.7).” (Dicionário Bíblico
Universal, pelo Rev Buckland, Editora Vida, 1993).

IRMÃOS DO SENHOR – “Relação de parentesco atribuída a Tiago, José, Simão e
Judas, Mt 13.55;Mc 6.3, que aparecem em companhia de Maria, Mt 12.47-50; Mc
3.31-35; Lc 8.19-21, foram juntos para Cafarnaum no princípio da vida pública
de Jesus, Jo 2.12, mas não creram nele senão no fim de sua carreira. Jo 7.4,5.
Depois da ressurreição, eles se acham em companhia dos discípulos, At 1.14, e
mais tarde os seus nomes aparecem na lista dos obreiros cristãos, 1 Co 9.5.
Tiago, um deles, salientou-se como líder na Igreja de Jerusalém, At 12.7;
15.13; Gl 1.19; 2.9, e foi autor da epístola que traz o seu nome. Em que
sentido eram eles irmãos de Jesus? Tem sido assunto de muitas discussões. Nos
tempos antigos, julgava-se que eram filhos de José, do primeiro matrimônio. O
seu nome não aparece mais na história do evangelho. Sendo José mais velho que
Maria é provável que tivesse morrido logo e que tivesse casado antes. Esta
opinião é razoável, mas em face das narrativas de Mt 1.25 e Lc 2.7, não é
provável. No quarto século, S. Jerônimo deu outra explicação, dizendo que eram
primos de Cristo, pelo lado materno, filhos de Alfeu ou Cléofas com Maria, irmã
da mãe de Jesus. Esta explicação se infere, comparando Mc 15.40 com Jo 19.25, e
a identidade dos nomes Alfeu e Cléofas. Segundo esta idéia, Tiago, filho de
Alfeu, e talvez Simão e Judas, contados entre os apóstolos, fossem irmãos de
Jesus. Porém, os apóstolos se distinguiam dos irmãos, estes nem ao menos criam
nele, e não é provável que duas irmãs tivessem o mesmo nome. Outra idéia muito
antiga é que eles eram primos de Jesus pelo lado paterno e outros ainda supõem
que eram os filhos da viúva do irmão de José, Dt 25.5-10. Todas estas opiniões
ou teorias parecem ter por fim sustentar a perpétua virgindade de Maria. O que
parece mais razoável e mais natural é que eles eram filhos de Maria depois de
nascido Jesus.Que esta teve mais filhos é claramente deduzido de Mt 1.25 e Lc
2.7 que explica a constante associação dos irmãos do Senhor com Maria”
(Dicionário da Bíblia, John D. Davis, 21a Edição/2000, Confederação Evangélica
do Brasil).

SEUS IRMÃOS – “Não há razão para supor que estes irmãos, tanto como
as irmãs mencionadas (Mt 13.55-56), não eram filhos de José Maria” (O Novo
Comentário da Bíblia, vol. II, Nova Vida, 1990, 9a Edição).

IRMÃOS DO SENHOR (Mateus 12.46-50) – “Por insistir na teoria da
virgindade perpétua de Maria, o Catolicismo Romano os levou a explicar
erroneamente o sentido da expressão irmãos. Assim, eles acreditam que Jesus não
tinha irmãos no verdadeiro sentido dessa palavra e o grau de parentesco que ela
exprime. No entanto,esse raciocínio não desfruta de nenhum apoio
escriturístico. A Bíblia é clara ao afirmar que Jesus tinha quatro irmãos, além
de várias irmãs (Mt 13.55,56; Mc 3.31-35; 6.3; Lc 8.19-21; Jo 2.12; 7.2-10; At
1.14; 1 Co 9.5; Gl 1.19). A teoria desenvolvida pelos católicos romanos e por
alguns protestantes, que visa defender que Maria permaneceu virgem, é
totalmente fútil. Esse conceito só passou a fazer parte da teologia muitos
séculos depois de Jesus. Seu objetivo, é claro, era exaltar Maria, criando,
assim, a mariolaria” (Bíblia Apologética, João F. Almeida, ICP Editora, 1a
Edição, 2000).

Quarto, José e Maria se “conheceram” após o nascimento de Jesus?

A nossa análise terá como base o seguinte registro: “José, ao despertar do
sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua
mulher.Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o
chamou com o nome de Jesus” (Mateus 1.24-25, Bíblia [católica] de
Jerusalém).

A passagem acima diz claramente que José, atendendo ao anjo, recebeu em sua
casa a sua esposa Maria, e foram viver como marido e mulher. Está dito que
Maria foi a mulher de José; que José não conheceu a sua esposa enquanto ela
estava grávida de Jesus; que Jesus nasceu de uma virgem, porque José somente
conheceu sua mulher – ou seja, teve relações com ela – depois do nascimento de
Jesus.

Católicos há que contestam o que está escrito na Bíblia, e dizem que “nas
Sagradas Escrituras a expressão “até que” é empregada muitas vezes
para indicar um tempo indeterminado, e não para marcar algo que ainda não
aconteceu”. Não iremos nos estender na refutação dessa tese porque as duas
bíblias de início citadas, aprovadas pelo catolicismo, interpretam corretamente
referido versículo.Vejamos:

“Mas [José] não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho, e ele
o chamou com o nome de Jesus”: “O texto não considera o período
ulterior [depois do parto] e por si não afirma a virgindade perpétua de Maria,
mas o resto do Evangelho, bem como a tradição da Igreja, a supõem” (Comentário
da Bíblia [católica] de Jerusalém).
Em outras palavras, os exegetas católicos, que trabalharam na edição da
referida Bíblia, reconheceram o óbvio, ou seja, que até o nascimento de Jesus,
José e Maria não se “conheceram”. Todavia, dizem bem quando entendem
que a Tradição “supõe”, isto é, o dogma da perpétua virgindade de
Maria é uma suposição, não uma realidade bíblica. O comentário acima coloca por
terra argumentos outros não oficiais, segundo os quais José não conheceu sua
esposa nem antes nem depois do nascimento de Jesus.
Outro comentário: “Enquanto (ou até que): esta palavra portuguesa traduz o
latim donec e o grego heos ou, que por sua vez estão calcados sobre a expressão
hebraica ad ki que se refere ao tempo anterior a esse limite sem nada dizer do
tempo posterior, cf. Gn 8.7;Sl 109.1; Mt 12.20; 1 Tm 4.13. A tradução exata
seria: “sem que ele a tivesse conhecido, deu à luz…”, pois a nossa
expressão “sem que” tem o mesmo valor” (Bíblia [católica]
Sagrada.
O que a Bíblia acima está dizendo em seus comentários é que o “ATÉ”
não foi ALÉM do nascimento de Jesus, ou seja, enquanto grávida e até dar à luz
não houve “conhecimento” mútuo do casal.
Concordando com as Bíblias Católicas, a Bíblia Apologética, usada pelos
evangélicos, assim esclarece: “Veja a preposição “até” em
qualquer concordância bíblia e ficará surpreso a respeito do seu significado.
Observe alguns exemplos: Levíticos 11.24-25: “E por estes sereis imundos:
qualquer que tocar os seus cadáveres, imundo será ATÉ à tarde”. E depois
da tarde, eles permaneceriam imundos? Vejamos agora Apocalipse 20.3: “E
lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais
engane as nações, ATÉ que os mil anos se acabem. E depois importa que seja
solto por um pouco tempo”. Assim, a relação existente antes do nascimento
de Jesus se modificou [como se modificou a situação de Satanás após os mil anos
de prisão], não a conheceu até que ela deu à luz. Essa passagem declara que,
depois do nascimento de Jesus, José Maria tiveram uma vida conjugal normal,
como qualquer outro casal. Nenhum autor do Novo Testamento ensina a doutrina da
virgindade perpétua de Maria. Se se tratasse de uma doutrina ou ensinamento
vital ou essencial como requer o catolicismo romano, certamente Paulo e os
outros discípulos teriam mencionado a respeito. Assim resta ao catolicismo
romano apegar-se à tradição, porque a Bíblia não aceita essa teoria
(Colossenses 2.8)”.

A expressão “não coabitou com Maria ATÉ QUE nascesse Jesus” está
muito clara. Ligada à fala do anjo que disse a José que RECEBESSE Maria, sua
mulher, ficou entendido que passado o período da gravidez e do descanso depois
do parto, José e Maria, marido e mulher, continuariam uma vida a dois como
todos os casais do mundo. Assim aconteceu, pois tiveram muitos filhos, conforme
está em Mateus 13.55-56. José e Maria constituíram um casal muito feliz e foram
abençoados por Deus. E por ter filhos, por amar o seu esposo, por ter sido mãe,
Maria não pecou nem perdeu a sua santidade. Maternidade e santidade podem
caminhar juntas, sem que uma prejudique a outra. Sexo no casamento não pecado.

Quinto, houve ordem divina para que José não “conhecesse” sua
mulher?

Se não havia a intenção formal nem de José nem de Maria de viverem sem relações
íntimas, embora residissem sob o mesmo teto, teria havido alguma ordem divina
nesse sentido? O leitor deverá ler cuidadosamente Mateus 1.18-25 e Lucas
1.26-38 para verificar a inexistência de qualquer tipo impedimento. A resposta
de Maria ao anjo – “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem
algum?” (Lc 1.34) – pode ser interpretada como um voto de virgindade? A
Bíblia [católica] de Jerusalém, em seus comentários, responde: “A
“virgem” Maria é apenas noiva (v.27) e não tem relações conjugais
(sentido semítico de “conhecer”, cf. Gn 4.1; etc.). Esse fato, que
parece opor-se ao anúncio dos vv. 31-33, induz à explicação do v. 35. NADA NO
TEXTO IMPÔE A IDÉIA DE UM VOTO DE VIRGINDADE” (realce acrescentado).

Sexto, o que diz a Igreja Católica sobre o Matrimônio?

a) “Os atos com os quais os cônjuges se unem íntima e castamente são
honestos e dignos e a sexualidade é fonte de alegria e prazer”? (Catecismo
da Igreja Católica, p. 612, # 2362). Por que com Maria seria diferente?

b) “Pela união dos esposos realiza-se o duplo fim do matrimônio: o bem dos
cônjuges e a transmissão da vida”, pois que “esses dois significados
ou valores do casamento não podem ser separados sem alterar a vida espiritual
do casal” (C.I.C. p. 612, # 2363). Por que com o casal José Maria seria
diferente? Esses “valores” não diziam respeito também a eles?

c) “A sagrada Escritura e a prática tradicional da Igreja vêem nas
famílias numerosas um sinal da bênção divina e da generosidade dos pais”? (C.I.C., p. 615, # 2373). Por
que Maria não podia ter muitos filhos?

d) “Exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação recíproca e abre-se
à fecundidade”? (C.I.C. p.
449 #1643).
Por que doação recíproca e fecundidade deveriam ficar for a do
casamento de José e Maria?

e) “O instinto do Matrimônio e o amor dos esposos estão, por sua índole
natural, ordenados à procriação e à educação dos filhos… e por causa dessas
coisas são como que coroados de sua maior glória”? Se “os filhos são
o dom mais excelente do Matrimônio e contribuem grandemente para o bem dos
próprios pais… pois “Deus mesmo disse: “Crescei e Multiplicai”
(Gn 2.18)” (C.I.C. p.452 #1652). José e Maria não deveriam crescer e
multiplicar? Eles não tinham essa índole natural à procriação?

f) “A sexualidade está ordenada para o amor conjugal entre o homem e a
mulher,e no casamento a intimidade corporal dos esposos se torna um sinal de um
penhor de comunhão espiritual”? (C.I.C.,
p.611 #2360).
Por que eles não podiam?

g) “Por causa da prostituição cada um tenha a sua própria mulher, e cada
uma tenha o seu próprio marido”, e que “a mulher não tem poder sobre
o seu próprio corpo, mas tem-no o marido”; e que “não vos defraudeis
[negar relação íntima] um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum
tempo, para vos aplicardes à oração; mas que “depois ajuntai-vos outra vez
para que Satanás não vos tente por causa da incontinência [ausência de relações
sexuais]”, tudo como está escrito nas palavras inspiradas do apóstolo
Paulo (1 Coríntios 7.2-5). A abstinência do casal não estaria fora dos
propósitos de Deus? Lembremo-nos das palavras de Jesus: “Aquele que fizer
a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt
12.46-50). Lembremo-nos também das palavras de Maria: “Fazei tudo o que
Ele vos disser” (Jo 2.5)

OUTRAS CONSIDERAÇÕES

1) Lemos em João 2.12: “Desceu [Jesus] a Carfanaum, com sua mãe, seus
irmãos e seus discípulos. E ficaram ali muitos dias”. Não pode ser outro o
entendimento: Jesus com sua família, a mãe com seus filhos ficaram muitos dias
naquela cidade. Não há como forçarmos uma interpretação que nos levaria a
pensar que Maria, não tendo filhos com José, resolvera criar seis ou mais
parentes. Vejam também a distinção entre “discípulos” e
“irmãos”.

2) Quando o termo “irmãos e irmãs” é empregado em conjunto com
“pai” ou “mãe”, o sentido não pode ser o de primos e
primas, mas de irmãos biológicos, filhos de um mesmo pai ou mãe. Exemplo:
“Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e
filhos, e irmãos, e irmãs, e até mesmo a sua própria vida, não pode ser meu
discípulo” (Lucas 14.26).

3) Vejamos quais as palavras usadas no grego – a língua original do Novo
Testamento – para designar IRMÃOS, IRMÃS, PARENTES, PRIMOS e SOBRINHOS,
conforme a Concordância Fiel do Novo testamento, dois volumes, Editora Fiel, 1a
Edição, 1994:

Adelphos – Usada 343 vezes para designar pessoas que têm em comum pai e mãe, ou
apenas pai ou mãe; indicar duas pessoas que têm um ancestral comum ou que faz
parte do mesmo povo, ou membros da mesma religião. Com essa palavra são
nomeados os irmãos de Jesus (Mt 12.46-4813.55; Mc 6.3; Jo 2.12; 7.3,5,10; At
1.14; 1 Co 9.5; Gl 1.19; Jd 1).

Adelphe – O termo é traduzido 26 vezes como irmã, indicando (poucas vezes) a
participante de uma mesma fé, e (a maioria dos casos) a filha de um mesmo pai
ou mãe. Foi usado, por exemplo, para designar as irmãs de Jesus (Mt 13.56; Mc
3.32; 6.3), a irmã da mãe de Jesus (Jo 19.25), as irmãs de Lázaro, Marta e
Maria (Jo 11.1,3,5,28,39).

Syngenis – Usado como o feminino de “parente” para indicar o
parentesco de Maria, mãe de Jesus, com Isabel: “Também Isabel, tua
parenta…”(Lc 1.36).

Syngenes – Termo usado para designar pessoa consangüínea, da mesma família, ou
da mesma pátria (compatriota). Vejamos alguns dos 11 casos em que o termo foi
usado:
Mc 6.4 – “Um profeta só é desprezado em sua pátria, em sua parentela e em
sua casa”. Nota: Quando se trata dos “irmãos de Jesus”, o termo
usado é “adelphos” ou “aldephe”.
Lc 1.36 – “Isabel tua parenta”. Nota: Se Isabel fosse irmã de Maria
(filhas de pais comuns) o termo teria sido “adelphe”, de igual modo
como foi usado em Jo 19.25 para designar a irmã da santa Maria.
Lc 2.44 – ” e puseram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos”.
Lc 21.16 – “Sereis traídos até por vosso pai e mãe, irmãos, parentes,
amigos, e farão morrer pessoas do vosso meio…” Nota: Muito importante
registrar que nesse versículo são usadas as palavras “adelphos”, para
irmãos, e “syngenes”, para parentes. Entende-se que o termo
“adelphos”, quando associado às palavras pai ou mãe tem o natural
significado de filhos carnais.

Anepsios – Usada somente uma vez para identificar o termo “primo”, na
seguinte passagem: “Saúdam-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e
Marcos, PRIMO de Barnabé…” (Colossenses 4.10, Bíblia [católica] de
Jerusalém). Nota: Havia portanto na linguagem grega palavras para identificar
irmãos, primos e parentes. Logo, se Tiago, José, Simão, Judas e mais algumas
mulheres (Mt 13.55-56; Mc 6.3) fossem parentes de Jesus, e não filhos de Maria,
a palavra grega mais correta seria “anepsios” ou “syngenes”.

4) Gostaria de chamar a atenção dos leitores para o que está em Atos 1.13-14:
Tendo chegado, subiram ao cenáculo, onde permaneciam. Os presentes eram Pedro e
Tiago, João e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu,
Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. Todos estes perseveravam unanimemente
em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com seus
irmãos”.
Entendo que Maria, as outras mulheres e os irmãos de Jesus eram pessoas
distintas dos apóstolos acima citados. Tiago e Judas, irmãos de Jesus, não
estavam incluídos naquela relação. Juntaram-se aos apóstolos naquela ocasião.
Não me parece justo procurarmos uma mãe para os irmãos de Jesus. A outra Maria,
que pode ser a de Alfeu ou Cléofas, era mãe de Tiago e de José. Vejam:
“Maria, mãe de Tiago e de José” (Mt 27.56); “Maria, mãe de
Tiago, o menor, e de José” (Mc 15.40); “Maria, mãe de Tiago” (Lc
24.10); “Tiago, filho de Alfeu” (Mt 10.3; Lc 6.15; At 1.13).
Ora, os irmãos de Jesus se chamavam Tiago, José, Simão e Judas. O mesmo cuidado
com o que os evangelistas Mateus e Marcos citaram os nomes de todos os irmãos
de Jesus, um por um, teria usado para descrever os filhos dessa Maria.
Entretanto, só foram citados Tiago e José. E Simão, com quem fica? A Bíblia descreve
os seguintes: Simão, irmão de Jesus (Mt 13.55; Mc 6.3); Simão, chamado Pedro,
apóstolo (Mt 4.18; 10.3); Simão, o Zelote, apóstolo (Mt 10.4; Mc 3.18; Lc 6.15;
At 1.13). Ainda há outros com o nome Simão, como por exemplo Simão Iscariotes,
pai de Judas, o traidor (Jo 6.71). A Bíblia com muita propriedade identifica
cada um com o detalhe do apelido ou do parentesco. E Judas? A Bíblia diz que
Judas, apóstolo, era filho deTiago (Lc 6.16). Não há nenhum registro afirmando
que a outra Maria ou Maria, de Cléofas, tenha um filho com o nome de Judas. É
quase certo que o autor da Epístola de Judas seja o irmão do Senhor, como
descrito em Mateus 13.55 e Marcos 6.3, pelos seguintes motivos: 1) Ele não se
apresenta como apóstolo de Cristo, mas como “servo” e irmão de Tiago
(Jd 1.1); 2) A sua exortação no v. 17 sugere que ele não fazia parte dos Doze.
Os dados levantados apontam para o entendimento de que Tiago, Simão, José
Judas, e mais algumas mulheres, eram realmente irmãos carnais de Jesus, filhos
de Maria e de José.

Parte
XXI
QUEM
ME FEZ PECAR?

Tiago 1:13-16
Quando André aceitou assumir a diretoria daquela escola publica já
sabia que teria muito trabalho pela frente. Aquela escola era muito conhecida
pela indisciplina dos alunos, mas, ele estava disposto a mudar esta situação.

Então ele começou seu trabalho chamando os alunos a sua sala.

—Pedro, perguntou o diretor, por que você roubou os biscoitos de seu amigo?
—Sabe o que é, disse Pedro, é que meus pais discutiram quando eu tinha seis
anos de idade e hoje eu não consigo parar de comer. E depois eu iria pagar
pelos biscoitos… André ficou surpreendido com aquela resposta, mas era apenas
o começo. Veja o que disseram outros alunos:

—Beatriz, por que você falta às aulas de educação física?
—É porque eu tenho um defeito genético que me faz detestar educação física.
—Patrícia, por que você não faz sua lição de casa?
—Porque minha mãe não me dá chocolate. O senhor tem que dizer para ela que se
ela não me der chocolate eu não vou fazer a lição mesmo, e vou ser burra pelo
resto da vida. Será que ela não entende?
—Paulo, por que você não assiste às aulas de geografia?
— Porque eu tenho trauma de geografia.
André ficou impressionado com a capacidade daqueles alunos de justificarem seu
mau comportamento.

Vivemos em dias de vitimização, em que o homem faz de tudo para não assumir a
culpa pelo seu pecado. Incrível o que faríamos, as desculpas que inventaríamos,
para não admitir que somos ruins, pecadores eculpados.

Quem me faz pecar? Certamento não pode ser minha a culpa. Tem que haver alguém
que posso culpar.

Mas como vamos descobrir, reconhecer que a fonte do pecado está dentro em mim,
e não fora, é um dos primeiros sinais de alguém que tem uma fé viva. De fato, é
condição ou pré-requisito para uma fé verdadeira, pois sem esse reconhecimento
ninguém se salva!

O verdadeiro crente por definição vive a sua fé no nível do coração., Esse é um
dos problemas com muito evangelismo dos nossos dias. Tentamos salvar pessoas
que não sabem que estão perdidas! Oferecemos Jesus como se fosse mais uma opção
de auto-ajuda, ou talvez uma amuleta para trazer prosperidade e boa sorte, e
não a única esperança de pessoas desesperadas, em perigo de eterna condenação
no inferno. Mas ninguém vai querer ser achado quando não sabe que está perdido.
Ninguém se salva quando não sabe que está condenado.

O autor bíblico, Tiago, já 2000 anos atrás, antecipava essa tendência do
coração humano de culpar a todos menos a si mesmo pelo pecado. Pior é que,
quando culpamos aos outros, estamos de fato culpando o próprio Deus pelo nosso
pecado.

Olhando para o texto de Tiago 1.13-16 percebemos como ele lidava com esta
tendência do coração humano. Primeiro ele deixou uma clara proibição de não
jogar a culpa pelo pecado em outros, principalmente Deus e, segundo, ele
explicou que a raíz de todo pecado não está nos outros, mas, sim, em mim mesmo.

I. A Proibição: Não Culpar a Deus pelo meu Pecado 1.13)

Alguns leitores de Tiago estavam culpando a Deus por uma provação que levava ao
pecado. Como alguns hoje não pagam seus impostos e se justificam dizendo:
“Se eu pagar tais impostos minha empresa não vai sobreviver”, muitos
ali se justificavam com desculpas semelhantes.
Mas essas justificativas pelo pecado, em efeito, culpavam o próprio Deus que
prometeu Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel, e
não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário,
juntamente com a tentação vos proverá livramento, de sorte que a possais
suportar (1 Co 10:13).

Afirmar que outros são responsáveis pelo meu pecado é o caminho mais fácil e
mais popular de escaparmos responsabilidade pessoal.

A palavra “tentação” constroi uma ponte entre esse parágrafo e o
anterior. É a mesma palavra traduzida “provação” e
“tentação”. A idéia é de uma situação difícil que provoca uma
resposta.
Mas tudo depende de quem origina a situação. Quando Deus nos coloca numa
situação de provação, sempre é para nos aprovar, mostrar genuína nossa fé.
Quando o Inimigo explora desta mesma situação, é para nos derrubar,
desqualificar e, acima de tudo, para sujar o nome do nosso Deus. Quando
provados, podemos dizer que somos testados por Deus, para revelar Seu Filho em
nós. Mas nunca, nunca, podemos dizer que Deus é responsável direta ou
indiretamente por nos colocar numa situação que nos provoca a pecar.

Talvez você esteja pensando, “Mas eu nunca iria culpar a Deus pelo meu
pecado.” Mas pense de novo. Somos experts em racionalização e justificação
do nosso pecado. Temos “n” maneiras de passar a culpa pelo nosso próprio
a outros e, na última análise, no próprio Senhor.

A expressão Deus não pode ser tentado pelo mal indica que não há nada em Deus
que corresponda à tentação. Não há nada em Deus que possa ser seduzido a fazer
o mal. É como alguém que tenta agarrar com suas mãos a neblina da manhã: sua
tentativa será tola e inútil.

Uma vez que Deus não é seduzido pelo mal e nada há nele de mal, Ele não é a
fonte nem o responsável, direta ou indiretamente, pelo meu pecado. Seria
totalmente incoerente para Deus tentar incitar alguém ao mal, visto que Ele é
tão distante do pecado que não podia nem encarar seu próprio Filho na cruz do
Calvário.

Gostaria que você me acompanhasse por um pequeno tour, primeiro pelo mundo,
depois pelas Escrituras, para descobrir como o homem atual não é muito
diferente do que o homem antigo em termos do desvio da culpa.

O Mundo Atual

Como culpamos a Deus e outros pelo nosso pecado? Uma variedade de respostas,
que refletem a degradação dos nossos tempos, são encontradas. Boa parte das
tentativas científicas, filosóficas, teológicas e psicológicas dos nossos dias
tem como propósito isentar o homem da culpa e transferí-la para outros!

1. Ciência

Evolução-o homem é produto de tempo + chance ou “acaso”. Um mesclar
de átomos formando, por acaso, moléculas, um conglomerado a-moral que, graças à
sorte, formaram um ser inteligente.
Então, não sou eu culpado pelo “pecado” (se tal existe) mas sim, o
conjunto de elementos e qúimicas que compõem o “Eu”

Medicina-o homem está “doente”, mas não culpado. Ele sofre da doença
de alcoolismo, mas não pode ser chamado um “alcoólatra” ou bêbedo
(hoje, usa-se o novo termo, “acoolista” para dar a idéia de que ele é
vítima do álcool, não um adorador dele.) Pessoas que abusam da comida tem
transtornos alimentares quando de fato são bolímicas ou glutonas.

Genética-o homem é produto de DNA, genes e cromossomos e é programado por eles
para ser o que é.

2. Psicologia

Behaviorismo-o homem é produto do seu ambiente. Ele é um animal, que quando
condicionado pelo mal, mau se tornará, mas quando condicionado pelo bem, será
bom. Culpado é o ambiente.

Auto-estima-a raiz de todos os males é que não me amo o suficiente . . . por
isso, fico desanimado, bebo demais, fofoco, minto, etc. Culpado são os que me
oprimiram.

Trauma e Regressão à Infância- Os verdadeiros culpados são meus pais e Deus.

Vitimização-não sou membro de uma família conturbada pelo pecado, mas uma
família disfuncional.
Psicánálise-sou dirigido por instintos básicos que, quando remprimidos, me
levam a extrapolar meus desejos. Complexos sexuais causados pelos pais, pela
sociedade, pelo id, ego ou contra-ego, mas certamente não pela minha natureza
pecaminosa. Culpada é a sociedade, a religião e o instinto básico.

3. Teologia/Filosofia

Pós-modernismo. O mundo atual evoluiu para uma filosofia/teologia de
pós-modernismo. O que enfrentamos hoje quando fazemos a pergunta, “Quem é
responsável pelo meu pecado?” é “O que é pecado?” O pecado se
tornou relativo. (Pós modernismo não é tão pós-moderno assim . . . quase 4000
anos atrás na época dos juízes havia muitos pós-modernistas: “Cada um faz
o que era reto aos seus próprios olhos.” No mundo hoje, não existe
absolutos. Ninguém tem o direito de dizer “Isso é errado” ou
“aquilo é pecado”. Se não existe um absoluto, estou livre do pecado,
pois afinal, não existe pecado quando não há lei. Eu sou minha própria lei. Por
isso listamos pós-modernismo como resposta “teológica” à questão da
culpa e do pecado.

Batalha espiritual-Mas existem outras tentativas mais sutis de minimizar o pecado,
mais “espirituais”. O que se vê em muitas igrejas hoje é uma ênfase
em batalha espiritual que tem praticamente o mesmo efeito de isentar o
indivíduo do seu pecado. Em algumas formas de batalha espiritual os demônios é
que são responsáveis pelo pecado do homem.

Alguns movimentos chegam a dar nomes para esses demônios que não encontramos de
forma alguma na Bíblia. O efeito é que, de forma sutil, culpamos a outros e não
a nós mesmos pelo pecado:
Tenho o demônio de depressão . . . de ira . . . de fornicação . . . de
espancamento… de sonegação . . . de mentira . . . É muito cômodo, então,
fazer um exorcismo, algum rito religioso, para me livrar do “demônio”
e também da culpa. Mas enquanto não tratamos da raíz, esses
“demônios” voltam.

Maldição de família-Uma outra forma “religiosa” de me justificar e
isentar da culpa é pela doutrina da “maldição de família”. Não sou eu
o responsável pelo pecado, pois tenho fantasmas pairando sobre meu passado;
ancestrais que são responsáveis pelo que sou. Precisoregressar, renunciar,
decretar para me livrar dessa maldição que me força a pecar. Mas de novo, não
sou eu mas outros (e na última análise, o próprio Deus que me colocou nessa
família) que são responsáveis pelo meu pecado.

Cura Interior-Certamente há necessidade de cura interior para todos nós. O
pecado tem deixado circatrizes em nossos corações. Mas alguns movimentos
promovem técnicas espetaculares, emocionais e/ou psicológicas para lidar com o
pecado sem perseguir o problema até a raíz-o coração humano e a natureza
humana. Somos vítimas, muitas vezes, sim; mas também somos responsáveis diante
de Deus pelas nossas reações pecaminosas ao pecado. Ao invés de culpar aos
outros (alguns movimentos até chegam ao ponto de “perdoar a Deus”,
devemos confessar nosso pecado. Em vez de culpar os pais, irmão, patrões,
vizinhos, devemos perdoá-los e nos arrepender dos nossos pecados.

Não negamos a influência e o impacto que o pecado de outros têm, que existem
feridas profundas, circatrizes e verdadeiras vítimas do pecado. Mas não podemos
culpar essas circunstância pelo nosso pecado! De uma forma ou outra, todas
essas respostas, todas essas tentativas, representam maneiras de nós culparmos
o próprio Deus pelo nosso pecado. Afinal de contas, é como que disséssemos que
foi Ele que nos colocou naquela família, foi Ele que permitiu que nossos
ancestrais fossem assim, foi Ele que não impediu que os demônios nos atacassem,
foi Ele que permitiu que perdéssemos nosso emprego, foi Ele que enviou aquela
mulher para trabalhar na minha firma, foi Ele que…

Será que eu e você caímos no mesmo erro que Tiago adverte? Culpar aos outros, e
especialmente a Deus, é marca de quem não está permitindo que a vida de Jesus
seja vivida nele.

II. A Explicação: Eu Sou Responsável pelo meu Próprio Pecado (14-15)

Onde não há culpa pessoal, não há graça individual. Para alguém ser salvo, tem
que ficar perdido. Tentamos salvar algumas pessoas mostrando todos os
benefícios sem primeiro mostrar que são perdidas.

Tiago mostra como eu sou o principal responsável pelo meu próprio pecado. O
verdadeiro cristão, para se tornar cristão, tem que reconhecer esse fato. O
primeiro ponto do Evangelho é: Eu sou pecador! Essa mensagem não é muito
popular em nossos dias. Preferimos falar em erros, falhas, defeitinhos, mas não
em pecado como ofensa contra um Deus santo.

Tiago usa uma analogia apropriada de pecado sexual para descrever o processo
mortífero que leva ao pecado:

Cobiça Atrai Seduz Concebe Dá à luz: pecado Morte

As Escrituras

Culpar outros pelo meu pecado tem uma longa história nas Escrituras. Veja:

1. Adão e Eva (Gn 3:12-)

Quando Deus confrontou Adão ele transferiu sua culpa para outro dizendo que a
culpa não era dele, mas sim da mulher. Aliás, disse Adão, foi a mulher que Tu
me deste; ou seja, no final das contas a culpa era de Deus que lhe tinha dado
aquela mulher. E, afinal, por que Deus tinha de criar a serpente? Mais uma
razão pela qual ele não era culpado e sim Deus, até a serpente que o enganou
existia pela vontade de Deus.

2. Arão (Ex 32:24)

Moisés teve de confrontar seu irmão por Ter levado o povo à idolatria. Mas este
também transferiu sua culpa para outro. “Olha Moisés, visto que você sumiu
e não voltava, e o povo precisava de uma direção espiritual dadas as
desfavoráveis circunstâncias, não tive escolha a não ser fazer este bezerro de
ouro”.

3. Saul (1 Sm 13:12)

Samuel ficou extremamente triste quando viu que Saul havia oficiado o
sacrifício que era de sua responsabilidade. Confrontado, Saul não admitiu sua
desobediência, apenas disse que o fez por causa das circunstâncias tão
urgentes. Vemos, portanto, que o homem de hoje não é diferente do homem do
passado.

Haverá, então, algum remédio para isto?

O caminho da graça começa quando reconhecemos a nossa culpa!

Pv 28:13 diz: O que encobre as suas transgressões, jamais prosperará; mas o que
as confessa e deixa, alcançará misericórdia. (Sl 32:1-5)

1 Jo 1:9 diz que se confessarmos os nossos pecados Deus é fiel para nos
perdoar. Esse é um caminho confiável, tanto para aquele que nunca abraçou Jesus
como seu Salvador, quanto para aquele que já conhece Jesus mas é tentado a se
desculpar pelo pecado. Confissão significa concordar com Deus sobre o meu
pecado. Os pecados devem ser identificados pelos seus nomes e confessados. É
chegar diante dele e dizer: Senhor, pequei contra ti porque tenho mágoas em meu
coração e tua Palavra diz que isto é pecado. Perdoa-me. A obra de Cristo na
cruz, morrendo no nosso lugar, pagando o preço de toda a sujeira que já
cometemos, é suficiente para livrar da condenação eterna todos que depositam
sua confiança unica e exclusivamente nEle. Sua ressurreição garante que todos
os nossos pecados foram perdoados.

Não há necessidade para os alunos da escola do Diretor André, muito menos nós,
justificarmos nosso pecado. O caminho da graça começa quando reconhecemos a
nossa culpa, e corremos até o perdão oferecido por Cristo Jesus.

Parte
XXII
REAVIVAMENTO
HOJE

Tiago 5:13-18
 O
Brasil precisa de um reavivamento. Um reavivamento que provoca mudanças reais e
duradouras no seio da igreja, da sociedade e da família. Um reavivamento que é
mais que fogo de palha, show gospel, louvorzão e emoção. Algo que
transforma-nos de tal forma, que somos controlados pelo Espírito de Deus,
usando a Palavra de Deus, para nos conformar à imagem de Deus.

Quando se fala em reavivamento hoje, pensa-se em igrejas avivadas. Pensa-se em
fanaticismo, expulsão de demônios, guerra espiritual, línguas, batismos no
Espírito, reivindicações de bênção “em nome de Jesus”, curas e milagres. Mas
será que é isso que encontramos nas Escrituras como sinal de reavivamento? Ou
será que o reavivamento bíblico é algo mais profundo, humilde, contundente, que
evidencia-se muito mais no lar do que no culto público, mais em oração
particular do que louvorzão, que se vê mais numa igreja inflamada pela causa de
missões do que na construção de um templo luxuoso e cada vez mais confortável
para seus membros?

O livro de Tiago nos ensina sobre reavivamento verdadeiro, ou seja, uma fé
verdadeira e suas evidências na vida real. “Provas de uma fé verdadeira” é o
tema do livro.

O livro termina como começou, falando de provações, sofrimento e tribulação. O
primeiro parágrafo do livro nos ensinou que a fé verdadeira (a vida de Jesus em
nós) manifesta-se na hora de provações. Nessas horas, cabe a nós olharmos para
o Senhor em oração, clamando por sabedoria para lidar corretamente com a
situação (1.5).

O último texto do livro é considerado por alguns como um dos trechos mais
difíceis, não somente de Tiago, mas de todo o NT. Mas se analisarmos bem o
contexto, o texto em si não é tão problemático. De fato, vai direto ao assunto.
E o assunto principal é oração, ou seja, uma comunhão viva com Deus. Nos ensina
que A FÉ VERDADEIRA FALA COM DEUS, em todas as circunstâncias, na alegria e
tristeza, na força ou na fraqueza, na bonança ou na tempestade. Esse é o
reavivamento verdadeiro que Tiago quer provocar—uma comunhão constante com Deus
através de Jesus Cristo.

13 Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante
louvores.
14 Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam
oração sobre ele, ungindo -o com óleo, em nome do Senhor.
15 E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver
cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.
16 Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros,
para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.
17 Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou,
com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis
meses, não choveu.
18 E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos.

Há vários problemas interpretativos neste texto:
Que tipo de sofrimento está em vista (13)?
Que tipo de doença? (14)
Por que a oração dos líderes espirituais é mais eficaz (15)?
O que significa a unção com óleo? É algo a ser praticado hoje? Se não, por que
não? Se sim, porque não o fazemos?
Há uma promessa aqui de cura? Se não, o que significa que “a oração da fé
salvará o enfermo”? Se sim, porque não saímos com óleo sagrado ungindo a
todos os enfermos?
Se for uma promessa, não seria uma cura da nossa mortalidade? Não seria o fim
da morte, pelo menos as mortes causadas por doenças?

É impressionante o número de abusos desse texto. O sacramento de extrema unção
da igreja romana baseia-se neste texto. Algumas igrejas neo-pentecostais usam o
texto para defender um uso místico de óleo sagrado para assistir em todo tipo
de milagre imaginável. Mas é isso que Tiago tem em mente?

Infelizmente, alguns têm até lucrado com a venda de “óleos sagrados”. É
possível ver propagandas e fazer compras, por exemplo, de 6 frascos de 10 ml de
“Óleo Sagrado da Unção” por somente R$168. Existe também “óleo
da unção bíblico”” que contém azeite de oliveira, incenso e canela
(somente R$ 96); “Óleo da unção Rosa de Sarom” (somente R$96);
“Óleo da unção de alegria”(também R$ 96); “Bálsamo de Gileade
para Unção”. Uma propaganda afirma “Muitos têm sido roubados por Satanás,
que tudo faz para que o uso da unção com óleo não aconteça no dia-a-dia do
crente.. . você vai ver, porém, que muitas bênçãos estão ao seu alcance, ao
entender o simbolismo e o sentido espiritual da unção com óleo, e fazendo dele
uso em sua vida.”

E se eu e você não compramos esse óleo? Será que estamos perdendo uma bênção?
Será que perdemos nossa chance para reavivamento pela unção sagrada?

Algumas Observações Iniciais

1. O contexto do texto é paciência no sofrimento e perseguição (5.1-12).
Alguns irmãos estavam desfalecendo por causa das tribulações dessa vida, suas
injustiças, crime, perseguição. Prestes a desistir, desanimados e tristes,
exaustos depois de tanto lutar contra o mal.

2. O tema do texto é oração, não unção com óleo! Todos os 6 vss. falam
de oração. Note as frase e os termos usados:
Vs. 13: sofrendo? Ore! Alegre? Cante louvores (forma de oração)
Vs. 14: doente? (fraco) Ore!
Vs. 15: oração (não óleo) salvará o enfermo; o Senhor o levantará.
Vs. 16: orai uns pelos outro . . . . a súplica do justo (a oração tem poder, não
porque torce o braço de Deus, mas porque expressa nossa fé no poder de Deus, e
glorifica a Ele quando Ele responde!)
Vs 17: Elias orou (era como nós—fraco, falho, depressivo . . . )
Vs. 18: orou

3. A mensagem do texto como um todo é que a fé verdadeira fala com Deus!
O reavivamento verdadeiro vem pela comunhão constante com o Criador do Universo
e Seu Filho Jesus Cristo.

O ponto do texto é simples, claro e objetivo. A maior e mais clara evidência de
uma fé viva, é alguém que vive sua fé em diálogo constante com o Senhor. Deus é
uma realidade tão presente em sua vida, que não consegue deixar minutos
passarem sem falar com Ele!

No texto, descobrimos 3 situações em que o crente fala com Deus.

I. A Fé Verdadeira Fala com Deus no Sofrimento (13a)

Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração.

“sofrendo”— traz a idéia de estar em apertos, passando por uma situação
difícil, passando mal. Esta é uma situação que exige oração! Uma forma da mesma
palavra “sofrendo” foi usada no vs 10. Foi usada por Paulo em 2 Tm 2.9 do
sofrimento de Paulo na prisão (perseguição) e na exortação para Timóteo para
“suportar as aflições” associadas com seu ministério (4:5). Mal-tratamento por
causa do evangelho está em vista.

Nós oramos, sim, nas nossas aflições (veja Tiago 1:2-5, 1 Pe 5:7, Fp 4:6). Mas
nem sempre aproveitamos da oração como a nossa primeira linha de defesa em meio
as dificuldades. Às vezes é nosso último recurso—quando ficamos desesperados,
depois de tentar tudo. Mas Deus quer que a oração seja nossa primeira opção.

Você está sofrendo hoje? Sofrendo injustiças por causa da sua fé? Sendo
ridicularizado pelos colegas da escola por ser crente? Sendo margenalizado por
familiares que não conhecem Jesus? Sendo prejudicado na carreira por não ser
como os outros? A resposta é: ore, e continue orando (a ordem está no tempo
presente). Não desfaleça! Lembre-se do que Paulo diz em Rm 8:18 Porque para mim
tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para se comparar
com a glória por vir a ser revelada em nós.

II. A Fé Verdadeira Fala com Deus na Alegria (13:b)

Tiago nos apresenta uma segunda situação em que devemos falar com Deus. É o
oposto da primeira.

Está alguém alegre? Cante louvores.
“Está alguém alegre (encorajado, de bom humor)?”—Fale com o Senhor por meio de
louvores! A palavra descreve alguém que está bem de vida–não necessariamente
fisicamente, mas espiritualmente e emocionalmente. Essa pessoa regozija-se no
Senhor e não nas circunstâncias.

Talvez seja alguém que já passou pelos apertos, problemas ou perseguições
descritos na primeira parte do versículo. Apesar dos tormentos, conseguiu
enxergar Aquele que é invisível. Por isso, fala com Deus pelo canto! O coração
que transborda de alegria só pode cantar sua gratidão ao Senhor—mesmo nas
tribulações!

Foi justamente essa a resposta de Paulo e Silas em At 16:22-25. Açoitados,
lançados na cadeia, os pés prendidos num tronco, sem poder dormir . . . costas
como carne moída com feridas abertas, secas, com moscas, mosquitos e talvez
ratos ao redor . . . Mas sua esperança estava fixada em algo maior.
Experimentaram o que Deus pede em 1 Ts 5:16-18 que diz, “regozijai-vos
sempre… orai sem cessar… em tudo dai graças.”

Esse é o significado do andar com Deus, e o segredo de “reavivamento”: viver
sempre na presença de Jesus, em comunhão com Ele, pela oração. Essa fé é
contagiosa!

III. A Fé Verdadeira Fala com Deus na Fraqueza Espiritual (5:14-18)

A última situação em que o cristão fala com Deus é a que Tiago mais desenvolve.
Fé em Deus não tenta enfrentar a luta sozinho! Nas horas de fraqueza
física-espiritual, clama a Deus.

14 Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam
oração sobre ele, ungindo -o com óleo, em nome do Senhor.

15 E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver
cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.

16 Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros,
para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.

17 Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou,
com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis
meses, não choveu.
18 E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos.

“Está alguém doente (fraco)?”
A resposta é: Ore! Ore uns pelos outros! Verifique diante do Senhor se há algum
pecado não confessado. Mas ore.

Vamos examinar esse texto mais de perto. Os termos usados são interessantes,
pois apontam mais que uma mera doença física, como muitos entendem. Falam mais
de “doença espiritual”, ou seja, desânimo, fraqueza, ou até mesmo enfermidade
física que tem origem espiritual. Quase todos os termos admitem desse sentido
duplo (físico-espiritual).

“doente” (vs. 14) = esse termo foi usado no NT com significado de
“fraqueza”, tanto emocional como espiritual; (At 20:35, Rm 4:19, 8:3, 14:1-2, 1
Co 8:11-12, 2 Co 11:21, 29, 12:10, 13:3,4,9), além de doença física.

“o enfermo”(vs 15)—mais uma vez, o termo pode indicar mais que uma
doença física, e inclui idéias como exaustão (cp. Hb 12:3–para não vos
fatigueis, desmaiando em vossas almas).

“Chame os presbíteros”–Por que o “fraco/doente” chama para si os
presbíteros (líderes espirituais da igreja) e não os diáconos (servos em
questões físicas-materiais)? Provavelmente pelo fato de que os “doentes” aqui
são fracos espiritualmente, depois de travar muitas lutas na vida. Precisavam
chamar aqueles que eram mais fortes espiritualmente. O mesmo sentimento
encontra-se em 1 Ts 5.14:

Exortamos-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os
desanimados, ampareis os fracos (mesma palavra), e sejais longânimos para com
todos.

Podemos entender que é o doente e não os líderes espirituais que tomam a
iniciativa (ele os chama). Por que? Não seria a responsabilidade dos líderes
irem atrás dessa ovelha doente? Mas, se a “doença” da ovelha fosse uma questão
de debilitação espiritual (até mesmo por motivos de pecado), então ELA
precisava tomar a iniciativa. Chama os presbíteros justamente pelo fato de que
seu problema é mais espiritual do que físico.

“façam oração sobre ele”— O texto transmite a idéia é de alguém
prostrado, exausto, desanimado, indisposto, sofrendo mesmo; não entendemos aqui
alguém com um simples resfriado, dorzinha nas costas, ou dor de cabeça, pedindo
uma “cura”. Algo muito mais sério está vista.

“ungindo-o com óleo” (14) Esse ato acompanha a oração e é
subordinada a ela, gramatica e logicamente. A palavra “ungir” não é o termo
mais comum para unção espiritual nas Escrituras (aquele termo é chrio, de onde vem
o nome “Cristo”, ou seja, “Ungido”). A unção com óleo é
secundária no texto, subordinada à oração, acompanhando a oração. Como ato
visível e palpável ministra esperança para o “doente”, daquilo que é invisível
e abstrato (a oração e o perdão).

Óleo foi usado com fins medicinais (Lc 10:34) e sobrenaturais (Mc 6:13) no NT.
Também foi um símbolo nas Escrituras de uma separação especial de alguém para
uma atuação especial divina. Pode ser que os líderes também ministravam a unção
como forma de consolo e refrigério físico para reanimar o fraco, além de
simbolizar seu pedido por uma atuação especial de Deus em sua vida.

“em nome do Senhor”— Essa frase já virou chavão em nossos dias traz a
idéia de uma oração feita dentro da vontade do Senhor, debaixo da autoridade
dEle, conforme a vontade dEle, como representantes dEle. Não é uma forma de
mandar, exigir ou reivindicar bênção, como se fosse um feticho evangélico.
Muito pelo contrário. Expressa humildade e submissão à vontade de Jesus. Oração
feita “em nome de Jesus” precisa ser “como Jesus faria”.

“salvará o enfermo”—algumas Bíblias traduzem a palavra
“salvará” com “curará”, mas o verbo é o verbo comum no NT para
salvação da alma. É um termo espiritual mas que, novamente, admite de dois
sentidos—salvação física (cura) e salvação espiritual. Tudo depende do uso no
contexto.
Existe a possibilidade aqui de se referir tanto a uma “salvação” espiritual
(restauração) como física (cura depois de confissão).

“O Senhor o levantará”— Repare que é uma oração de fé, não do doente,
mas dos presbíteros, que faz com que o Senhor o levante! (Aqueles que
argumentam que alguém não foi curado por falta de fé enganam-se, pois a fé
reconhecida por Deus nesse texto não é do doente/fraco mas daqueles que oram
sobre ele, ou seja, os líderes espirituais!) Repare também que é o SENHOR e não
algum milagreiro que recebe a glória como responsável pela restauração. O
Senhor o levantará.

2 Co 12:7-10 é um texto paralelo interessante. É possível que o Senhor nos
levante, sem necessariamente nos curar! A graça dEle nos sustém, mesmo que a
situação não seja resolvida! Aprendemos a depender dEle, e por isso somos
fortes, mesmo sendo fracos!

“e se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados”
—A frase aqui é chave. Encontramos a associação antes implícita, agora
explícita, entre “doença” e pecado. Na situação que Tiago tem em vista, existe
uma forte conexão entre doença física e pecado. Esse é o ponto do texto, e a
chave de interpretação. O verbo traduzido “houver cometido pecados” traz a idéia
de pecados do passado que continuam surtindo efeitos no presente em sua vida.
Em outras palavras, nunca foram resolvidos. Talvez em meio a perseguição ele
blasfemou, duvidou, mentiu ou fugiu de Deus.

Talvez desonrou o nome de Jesus. Por isso, agora encontra-se desfalecido e
desamparado.
Pensa que não presta mais, que pisou na bola, e que não existe retorno para
ele. Se ele foi disciplinado pela igreja, talvez seja por isso que é SUA
responsabilidade chamar os presbíteros até ele. Como representantes espirituais
da congregação, eles precisam ouvir sua confissão para depois restaurá-lo.

“Confessai, POIS”—À luz da seriedade de pecado e suas conseqüências na
vida de um cristão, somos chamados a não esconder nosso pecado! Pv 28:13 nos
lembra, O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as
confessa e deixa, alcançará misericórdia.

Pecado certamente pode ser uma causa de doença física/espiritual em nossas
vidas! Por isso precisamos sempre ser transparentes uns com os outros e não
brincar com nossa fé. Nossos pecados podem nos arrastar para o abismo de
desânimo, derrota e desfalecimento. “Orai uns pelos outros, para serdes
curados.”

Resumindo, devemos clamar a Deus quando nossa fé enfraquece. Devemos confessar
nossos pecados uns aos outros, e orar uns pelos outros, para que a nossa fé não
desfaleça. Se alguém cair em pecado e por isso, entra em parafuso, sofre fisica
e espiritualmente, deve chamar os líderes espirituais da igreja para interceder
por ele. Deus diz que ouvirá essa oração.

Segundo esse texto, oração em todos os momentos da vida (a verdadeira e
constante comunhão com Deus) é um dos ingredientes fundamentais de reavivamento
verdadeiro, profundo, duradouro e bíblico.

A fé verdadeira manifesta-se em oração: dependência total; confiança absoluta;
conversa genuina, não finjida, com Deus em todos os momentos. Não um show de
oração, mas uma atitude profunda de humildade e dependência.

Será que a fé verdadeira manifesta-se em nós numa vida mais e mais marcada pela
comunhão com Deus? Em todas as situações da vida, será que nossa primeira
resposta é falar com ele?

Jesus quer ser nosso melhor amigo. Esse tipo de relacionamento com Jesus é
exatamente isso—um relacionamento! Uma amizade!

Aplicação: Como tornar esse estilo de vida algo natural? Quantas vezes eu
preciso ser lembrado desses mesmos princípios? No início, talvez um pouco
forçado. Para alguns, é mais fácil do que para outros. Mas temos um
Companheiro, um Advogado, alguém chamado ao nosso lado para nos ajudar.

*Transformar os momentos mais rotineiros do dia em cultos de oração (lavar
louça, enfrentar trânsito
*Orar pelas pessoas que encontra quando as vê
*Orar pelas notícias (guerra, fome, inchentes)
*Agradecer pelos benefícios enquanto os recebe (água quente, comida, roupa, sol,
luz elétrica, encanamento) (Não por acaso Paulo diz “Em tudo dai graças” logo
depois de “Orai sem cessar”) (1 Ts 5:18)
*Orar no início, meio e fim de uma aula
*Orar num aconselhamento com um amigo ou numa confrontação
*Orar na disciplina do seu filho, ou quando recebendo uma bronca do seu pai.
*Gastar os primeiros e últimos momentos do dia em conversa com o Senhor
*Cultivar o hábito de entregar todos os serviços durante o dia ao Senhor

Parte
XXIII
VIDA
IMPREVISÍVEL

Tiago 4:13-17
Nunca me esquecerei do testemunho feito por meu amigo, Roberto, no
cemitério, depois do falecimento trágico de sua esposa Valéria. Roberto deu um
desafio para todos ali presentes, em que mencionou um texto estranho do livro
de Eclesiastes:

Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete,
Pois naquela se vê o fim de todos os homens;
E os vivos que o tomem em consideração (Ecl 7:2)

Certa vez um sábio comentou sobre o texto: “Uma visita a um lar abalado pela
tragédia nos relembra a brevidade da vida e a necessidade de um viver sábio.
Tal visita é melhor do que a visita a um lugar de festividade impetuosa.”

Tiago 4.13-17 nos lembra de que a vida, sim, é breve e imprevisível e por isso,
deve ser vivida com humildade e submissão sob a soberana mão de Deus.

Atendei agora, vós que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá
passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros. Vós não sabeis o que
sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois apenas como neblina que aparece por
instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer, Se o Senhor quiser,
não só viveremos, como faremos isto ou aquilo. Agora, entretanto, vos jactais
das vossas arrogantes pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna.
Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando.

O livro de Tiago tem mais de 50 ordens (imperativos e proibições) em pouco mais
de 100 versículos; temos, na média, uma ordem a cumprir de dois em dois
versículos!

No capítulo 4 de Tiago, nos primeiros dois versículos, descobrimos uma
implicação da nossa fé agarrada em Cristo—A Fé Genuína Rejeita Valores
Mundanos. A fé verdadeira vive sua vida à luz de realidades celestiais. Não ama
esse mundo, em que somos peregrinos. Não se agarra nele.
Não constrói sua vida sobre o luxo, pois o luxo um dia vai virar lixo. Vive à
luz da eternidade, com convicção e firmeza e esperança e dedicação à causa de
Cristo e Seu Reino.
Reconhece que tudo que se vê aqui um dia se derreterá. Esses fatos ficam mais
claros para os verdadeiros cristãos em velórios! É nessas horas que percebemos
a realidade da nossa fé. Nós nos entristecemos, choramos,mas não como aqueles
que não têm esperança. Nos agarramos mais que nunca na verdade de um Jesus
vivo, ressurreto.
“Por que Jesus está vivo, o amanhã enfrento!
Porque vivo está, temor não há.
Porque eu bem sei, bem sei que é dele o meu futuro . . .”

Tiago 4:13-17 continua essa linha de pensamento, nos advertindo sobre a
brevidade dessa vida. A FÉ VERDADEIRA RECONHECE QUE A VIDA É IMPREVISÍVEL! O
texto condena a arrogância e soberba de pessoas que viviam suas vidas agarradas
no mundo, como se fossem soberanas, como se fossem eles que mandavam na terra,
como se eles mesmos fossem onipotentes, oniscientes, auto-suficientes. O fato é
que nossa vida é um vapor que aparece e desaparece.

Como, então, viveremos, à luz de uma vida imprevisível? Desanimamos?
Desistimos? Abandonamos a Jesus? Viramos as costas? Na verdade, podemos ver 3
REALIDADES VIVIDAS por aqueles que têm uma fé genuína:

I. Devemos Reconhecer que a Vida é Breve e Imprevisível (13,14)

Quantas vezes nesses últimos anos, temos sido lembrados de que a nossa vida é
breve. Que ninguém entre nós é capaz de controlar seu destino. Que ninguém de
fato sabe o que há de acontecer amanhã.

Esses pensamentos podem nos levar ao desespero. Mas devem nos levar a
esperança. Não em nós, mas em Deus, o único que sabe exatamente o que há de
acontecer amanhã. O número dos nossos dias já está escrito no livro dEle. Não
há nenhuma surpresa! Ele sabe quanto tempo nos resta. Cada dia, temos
exatamente um dia a menos para gastar em torno de Jesus e Seu Reino. A pergunta
é: Como estamos investindo nossa vida, nosso tempo? Estamos vivendo hoje, para
a eternidade?

Infelizmente, algumas pessoas vivem suas vidas como se fossem indestrutíveis.
Como se fossem mestres do seu próprio destino. Como se nunca teriam fim. Tiago
condena esse tipo de humanismo, secularismo, que exalta o homem e seus planos,
sem levar em consideração a vontade de Deus (vs. 13)

Atendei agora, vós que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá
passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros.

Não há nada de errado com planejamento. A Bíblia nos encoraja a sermos
diligentes, a planejar para o futuro, como a formiga que prepara sua casa para
o inverno. Mas nunca somos encorajados a planejar nosso futuro num vácuo de
auto-suficiência. Tudo que fazemos tem que ser submetido ao Plano Divino. Tudo
que planejamos tem que ser coerente com os valores bíblicos. Tudo que sonhamos
tem que ser coerente com o uso de nossas vidas para eternidade.

Penso comigo mesmo sobre os nossos planos, nossos sonhos, nossos ideais, nossos
alvos como casal. Planos para crescer e envelhecer juntos. Planos para celebrar
bodas de prata. Planos para visitar os filhos, os netos. Planos para viajar. Planos
para conhecer, quem sabe, outros lugares do mundo.

Mas Tiago nos adverte. Enquanto planejamos, nunca podemos esquecer de quem
somos. Somos seres frágeis e dependentes. Somos finitos, limitados, fracos,
vítimas de um mundo contaminado pelo pecado.

No texto, os negociantes judaicos, que por sinal haviam experimentado muito
sucesso na vida, faziam seus planos numa redoma de auto-suficiência. Estavam
construindo suas vidas sobre um fundamento de luxo, só para descobrir no fim
que tudo era lixo. Faziam seus planos sem Deus.
Construíam seus castelos sobre a areia. Mas a onda da soberania de Deus subiu
na praia, e levou tudo para o fundo do mar.

Nunca podemos deixar Deus fora dos nossos planos (v14):
Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida?
Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa.

Esse texto nos alerta sobre duas razões porque todos os nossos planos devem ser
submetidos à soberania de Deus:

1. Porque somos ignorantes do futuro. Não sabemos o que vai acontecer
amanhã. Somos limitados.
Finitos.
Não somos oniscientes. Podemos e devemos fazer planos, mas nunca
com arrogância, auto-suficiência, prepotência, ou autonomia.

Esse fato deve nos levar a humildade e dependência, cientes de que, no momento em
que Jesus tira sua mão sustentadora das nossas vidas, pararemos de respirar.
Por isso, vivemos nossas vidas cientes da soberania de Deus. Ele sabe. Ele se
importa. Ele traça os planos para nossa vida.
Ele direciona. Podemos lançar sobre Ele toda a nossa ansiedade, porque Ele tem
cuidado de nós!

2. Porque somos impotentes. Também
não somos onipotentes. Não temos poder nem de acrescentar um fio de cabelo nas
nossas cabeças, muito menos mais um minuto para nossas vidas (Mt 6:27). Somos
como neblina que aparece e logo se dissipa.

Por isso vivemos nossas vidas amarradas em Jesus, na esperança de vê-lo a
qualquer instante. O cristão não precisa temer a morte! Choramos, sim, pelos
que ficam, pela dor, pelo vazio. Mas quando vivemos nossas vidas com olhos fixos
no alvo, há uma certa expectativa do além. Somos peregrinos! Somos forasteiros!

II. Devemos Reconhecer que Deus é Soberano (15)

Uma fábula européia conta a história de uma aranha orgulhosa: “Havia uma aranha
no canto de um celeiro que admirava tanto sua teia, que a cada dia limpava,
arrumava e mostrava para todos que passavam. Porém um dia, enquanto admirando
sua bela obra-de-arte, ficou incomodada com a única coisa que impedia que esta
fosse a melhor teia-de-aranha na história do mundo. Foi aquele fio lá em cima,
que estragava toda a estética do resto. Não teve dúvidas, cortou logo o fio que
ligava sua teia ao teto, porém logo em seguida, seu mundo ruiu.

Infelizmente é isso que muitas pessoas estão fazendo. Cortam o fio que leva a
Deus. Decidem que podem construir sua teia-de-aranha sem nenhum fio no teto.
Abandonam a fé.

Expressamos nossa confiança na soberania de Deus através de um reconhecimento
simples, humilde e dependente, de que Deus tem tudo sob controle. “Se Deus
quiser.”

O triste hoje, é que esta frase “se Deus quiser” virou chavão, assim como a
saudação “Graça e paz”. Mas a frase está cheia de significado, quando expressa
a confiança do nosso coração. Mostra que somos seres dependentes, não
autônomos, não auto-suficientes, não capazes de fazer nada fora da boa mão de
Deus. Isso mexe com nosso orgulho. Elimina nossa arrogância.

Repare que a soberania de Deus não anula planejamento. Continuamos fazendo
planos, mas são planos contingentes, dependentes, provisórios: “Se o Senhor
quiser, não só viveremos, como faremos isto ou aquilo.” Tudo condicionado à
vontade de Deus. E, subentende-se, de forma coerente com Seus valores.

Em outras palavras, submetemos todos os nossos planos à soberana mão de Deus.
Confiamos nEle para estabelecer ou não os desejos do nosso coração (Sl 90:17).

Assim como Jesus falou, se alguém quer ganhar sua vida, precisa perdê-la num
plano maior. Investe na eternidade. Constrói hoje para sempre. A única maneira
de fazer sentido de um mundo assim é confiar na soberania de Deus, descansar
nEle, e viver cada dia como se fosse seu último.

III. Devemos Reconhecer que Auto-Suficiência é Pecado (16,17)

O texto termina com uma advertência contra auto-suficiência. Quando fazemos
planos com auto-suficiência, somos orgulhosos, arrogantes, soberbos. Excluímos
Deus dos nossos planos e das nossas vidas.

Essa foi a atitude do diabo! “Agora, entretanto, vos jactais das vossas
arrogantes pretensões.
Toda jactância semelhante a essa é maligna.” Vem do diabo. Ele quis construir
seu próprio império independente de Deus. Ele quis ser Deus. Sua ambição, seu
egoísmo levou a sua queda.

Às vezes, gostaria muito de ser Deus. Gostaria muito que todos os meus planos
já saíssem com o carimbo divino de aprovação. Gostaria que todos os meus sonhos
fossem realizados. Mas eu não sou Deus. Ainda bem!

O versículo 17, avaliado dentro desse contexto, tem uma aplicação bem mais
direta.
Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando.

Qual é o bem que se deve fazer, nesse contexto? VIVER SUA VIDA DEBAIXO DA
SOBERANIA DE DEUS, INVESTINDO SEUS POUCOS ANOS HOJE PARA O REINO DE DEUS!

Em outras palavras, viver uma vida de dependência constante de Deus. Submeter
todo plano à inspeção divina. Passar todo sonho pelo crivo da Palavra de Deus e
de valores eternos. Buscar em primeiro lugar o reino de Deus e Sua justiça.
Usar meu tempo, meus bens, minha inteligência, minha energia, minha boca,
minhas mãos, para o bem do Reino de Deus. Parar de correr atrás do luxo desse
mundo, que um dia vai virar lixo. Investir em 3 eternos—a Palavra de Deus, a
Pessoa de Deus, o Povo de Deus. Estes são investimentos que durarão para todo
sempre!

De fato, em termos da eternidade, realmente é muito melhor irmos para um
velório do que uma festa. Porque na casa de choro podemos considerar a
fragilidade do ser humano, da nossa necessidade de Jesus em todos os momentos
de nossas vidas, da grandeza de Deus, da esperança do céu, de um Jesus vivo,
ressurreto, que nos traz todo consolo e toda esperança. À luz da ressurreição
de Jesus, DEVEMOS VIVER, HOJE PARA SEMPRE.

Parte
XXIV
JESUS
E A MULHER SAMARITANA:

Repensando velhos conceitos
O encontro de Jesus com a mulher samaritana poderia ser descrito
como “a vitória do evangelho sobre os preconceitos sócio-culturais”.
Os judeus e samaritanos não se entendiam desde os tempos de Oséias, o último
rei de Israel.

I
Tudo começou quando Oséias conspirou contra Salmanasar, rei da Assíria.
Samaria, a capital de Israel, foi sitiada pelas tropas assírias por três anos
e, posteriormente, seus moradores foram transportados para a Assíria (2 Rs
17.3-6). Isto aconteceu em 722 a.C. Somente os pobres puderam ficar em Israel
(cf. Jr 39.10). Logo, vieram também estrangeiros e se estabeleceram na região
devastada. Diz o relato bíblico: “O rei da Assíria trouxe gente de
Babilônia, de Cuta, de Hamate e de Serfavaim, e a fez habitar nas cidades de
Samaria, em lugar dos filhos de Israel; tomaram posse de Samaria e habitaram
nas suas cidades” (2 Rs 17.24). Da mescla com a população que havia ficado,
surgiu uma nova raça denominada de samaritanos (nome derivado de Samaria, a
metrópole fundada por Onri, pai de Acabe, por volta de 880 a.C.).
No princípio, quando os estrangeiros passaram a habitar em Samaria, eles não
temeram ao Senhor; pelo que o Senhor mandou leões invadirem suas terras, os
quais mataram a alguns do povo. Com razão atribuíram esta praga à ira de Deus.
Então, rogaram ao rei da Assíria que enviasse um sacerdote israelita para lhes
ensinar “como servir o Deus da terra”. E assim aconteceu que um
judaísmo adulterado foi enxertado ao culto pagão. Quando uma parte dos judeus
voltou à terra de seus pais (principalmente, mas não exclusivamente, parte dos
que haviam sido deportados para a Babilônia em 586 a.C.), construiu-se um altar
para o holocausto e pos-se os fundamentos do templo, samaritanos zelosos e seus
aliados interromperam as obras (Ed 3 e 4). Assim fizeram porque negaram a eles
a permissão de cooperar na obra de reconstrução. Sua petição foi:
“Deixa-nos edificar convosco, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus,
como também já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria,
que nos fez subir para aqui”. A resposta que receberam foi a seguinte:
“Nada tendes conosco na edificação da casa do nosso Deus”. Ao
receberem esta dura resposta os samaritanos passaram a odiar os judeus. Logo
começaram a construir seu próprio templo no monte Gerizim. Porém, João Hircano,
um dos reis macabeus, destruiu este templo em 128 a.C. Os samaritanos, não
obstante, continuaram adorando em cima da montanha, onde haviam erigido o
templo sagrado.
A aversão dos judeus para com os samaritanos pode ser vista ainda em Jo 8.48 e
no livro apócrifo de Eclesiástico 50.25,26.1 E a mesma atitude por parte dos
samaritanos em Lc 9.51-53.

Dois fatores principais ocasionaram o encontro de Jesus com a samaritana. O
primeiro foi a desconfiança por parte dos fariseus e a conseqüente
“tempestade” que começava a se armar (Jo 4.1). Os fariseus viam
surgir diante de seus olhos outro profeta como João Batista. É certo que a
verdadeira preocupação dos fariseus não era com o batismo de um ou do outro,
mas eram as multidões que Jesus arrastava que começava a incomodá-los. A fim de
evitar um confronto antes do tempo, o Mestre decidiu deixar a Judéia e partir
para a Galiléia (v3).
O segundo fator que ocasionou o encontro está no verso 4: “E era-lhe
necessário atravessar a província de Samaria”. Por que era necessário que
Jesus passasse por Samaria? Seria por causa das chuvas que transbordavam o rio
Jordão, dificultando o caminho costumeiramente seguido pelos judeus que queriam
ir até a Galiléia, como sugerem alguns? Acredito que não. Será que o Mestre
apenas queria cortar caminho por Samaria para chegar na Galiléia? Muito menos,
visto que não era normal um judeu passar por Samaria, seja qual fosse a
circunstância. MacArthur observa:
Os samaritanos representavam uma ofensa tão grande que eles nem queriam por os
pés na Samaria. Embora a rota mais curta atravessasse essa província, os judeus
nunca usavam esse caminho. Eles tinham a própria trilha, que ia ao norte da
Judéia, a leste do Jordão, entrando na Galiléia. Jesus bem poderia ter seguido
por essa rota, muito usada, que unia a Judéia à Galiléia.2

A questão era: Jesus necessitava ir por aquele caminho e chegar numa cidade samaritana
de nome Sicar porque “precisava atender a um compromisso divino junto ao
poço de Jacó”.3
Não há unanimidade entre os estudiosos quanto ao horário da chegada de nosso
Senhor ao poço (v6). João estaria usando o horário judaico (meio dia) ou o
horário romano (seis da tarde)? Este detalhe não é tão importante. Basta saber
que Jesus chegou na hora certa. Nem antes; nem depois. “Ele estava no
local e no tempo indicados por Deus, determinado a fazer a vontade do Pai. Ele
estava lá para buscar e salvar uma única, triste e desventurada mulher”.4

II
“Nisto veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de
beber” (Jo 4.7).
“Então lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber
a mim que sou mulher samaritana…” (Jo 4.9).
Com uma simples petição (dá-me de beber), o nosso Senhor declara que a
separação entre os povos em geral, e judeus e samaritanos em particular,
estava, de certa forma, com os dias contados. A parede divisória desaparece
onde o evangelho se faz presente (cf. Gl 3.28; Ef 2.14).
No simples fato de viajar por Samaria e pedir água à uma samaritana, Jesus
estava derrubando barreiras centenárias de preconceito racial. “A
misericórdia de nosso Senhor transpôs as barreiras do ódio nacionalista, como
se vê não somente aqui, João 4, mas também em Lc 9.54,55; 17.11-19; e na
parábola do Bom Samaritano (Lc 10.25-37)”.5 É interessante observarmos que
o encontro de Jesus com a mulher samaritana foi precedido pela ida dos
discípulos à cidade de Sicar para comprar alimentos (v8). Mandar os discípulos
comprar alimentos foi um santo pretexto do Mestre. Nem tanto para ficar
simplesmente sozinho e conversar sossegado com a mulher. Muito menos porque
precisasse de comida naquela hora (veja vv31-34). É que as barreiras deveriam
ser destruídas em seus discípulos também (cf. Lc 9.51-56).
Embora estivesse verdadeiramente cansado e necessitasse de água (vv6,7), Aquele
que pedia tinha muito mais a oferecer. Pedir água àquela mulher fazia parte de
uma estratégia evangelística, se é que podemos dizer assim. “À medida que
o Grande Evangelista procura ganhá-la, Ele orienta sabiamente a conversa,
levando-a de um simples comentário sobre beber água à revelação de que Ele era
o Messias”.6 Aquele que pedia água fria estava oferecendo água viva, a saber,
a Si mesmo.
Conhecendo a tradição discriminatória, a mulher ficou perplexa com o pedido de
Jesus. Nos tempos do Novo Testamento havia uma desigualdade muito grande entre
homem e mulher. Nos tempos bíblicos (e em muitos países orientais de hoje) os homens
não conversavam com mulheres em público, mesmo sendo suas esposas. Se entre um
judeu e um samaritano existiam preconceitos profundos, imagine-se entre um
judeu e uma samaritana, e uma samaritana de vida imoral! Independente do modo
em que vivia uma samaritana, os judeus sempre consideravam-nas em estado de
perpétua contaminação. Um judeu preferia morrer de sede a tomar água da mão de
um samaritano, muito menos de uma mulher samaritana, sobretudo pecadora. Haja
vista a surpresa dos discípulos ao virem Jesus falando com a mulher (v27).
A mulher estava surpresa com o fato de Jesus se dirigir a ela, pedindo água de
seu cântaro “impuro”. Mas a impureza não estava no cântaro, e sim, na
vida dela. E era aquela vida que o Senhor Jesus queria purificar.
É provável que na mente da samaritana, moldada por uma sociedade culturalmente
preconceituosa, passasse também o seguinte pensamento: “Tu és judeu, estás
necessitado de água e não podes valer-te. Eu sou mulher samaritana, sou
auto-suficiente e, portanto, posso ajudar-te”. Jesus, pois, mostrou que a
realidade era completamente outra. A mulher é quem precisava de água de verdade
e Ele era a única fonte que podia sacia-la (v10).
Ainda que a mulher samaritana não entendesse à princípio que a verdadeira água
viva estava fora e não no fundo do poço, os progressos começavam a aparecer.
Ela já não vê Jesus como um simples forasteiro judeu afoito. Agora ela O chama
de “senhor” (v11) e não mais “tu” (v9). Os preconceitos
sócio-culturais que impregnavam tanto judeus como samaritanos começam a
arrefecer da parte dela.
Convém ressaltar, ainda, que a mulher samaritana não era desprezada apenas
pelos judeus, mas também pelo seu próprio povo, em razão da vida libertina que
levava. A vida dela era um emaranhado de adultérios e divórcios. “Na
sociedade de então, isso fazia dela uma pessoa rejeitada e proscrita, com um
status social igual ao de uma prostituta comum”.7
Perto de Sicar haviam muitos poços nos quais ela poderia buscar água. “As
mulheres costumavam cumprir esta tarefa num horário mais fresco e em grupo,
pois era mais seguro e mais cômodo”.8 Entretanto, a condição de vida que
levava a obrigava fazer longas caminhadas, sozinha, até o poço de Jacó. Além
disso, buscava sua água no horário em que provavelmente não encontraria as suas
conhecidas.
O Rev. Miguel Rizzo Jr., ilustre pastor presbiteriano falecido, escreveu um
excelente opúsculo entitulado O Cântaro Abandonado, no qual relata o
preconceito social sofrido pela mulher samaritana com o seguinte quadro:
“Vivia segregada da sociedade. Possivelmente, no convívio que outrora
tivera com suas amigas, percebeu que elas a repeliam. Quantas vezes teria
ouvido comentários cortantes de sua conduta!
-Já é o segundo marido, diriam algumas.
Tempos depois seria mais acre o comentário:
-Já é o terceiro marido.
Mas a situação ia piorar ainda:
-Já é o quarto marido.
Quantas ironias acompanhariam, na maledicência social, esses comentários
mordazes! E iam-se tornando mais ferinos:
-Já é o quinto marido.
Na época em que se deram os fatos que comentamos, a crítica provavelmente seria
já mais enxovalhante:
-Agora é o sexto marido”.9
A imoralidade é uma prática inaceitável. Mas não se pode confundir o pecador
com o pecado. A vida leviana daquela mulher era reprovável, porém, havia nela
uma alma necessitada de compaixão. Estava socialmente marginalizada e
moralmente esfarrapada. E foi assim que Jesus a encontrou e a salvou.

III
“Senhor, disse-lhe a mulher: Vejo que tu és profeta. Nossos pais adoravam
neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve
adorar” (vv 19,20).
Constrangida com a revelação de sua vida de pecado, e aproveitando a capacidade
profética de seu interlocutor, a mulher tentou mudar de assunto. Digo
“tentou” porque na verdade era Jesus quem conduzia o diálogo. A
mulher estava estrategicamente cercada do princípio ao fim da conversa. E a
evangelização acabaria na hora exata, com os assuntos devidamente tratados. Não
é curioso que os discípulos chegassem exatamente no fim da conversa?

O último obstáculo a ser vencido seria o preconceito religioso. Deste
preconceito entre judeus e samaritanos originavam-se todos os preconceitos
sócio-culturais. Como observou corretamente A. Gelston: “O ponto principal
da discórdia era o templo do monte Gerizim”.10 Os judeus insistiam que
Jerusalém era o único lugar de adoração. A tradição samaritana, por sua vez,
dizia que uma longa cadeia de figuras bíblicas, desde Adão até José, conheciam
o monte Gerizim como lugar sagrado. Implicitamente, a samaritana estava
perguntando: “Quem está certo?”.
A conversa de Jesus com a mulher samaritana passa a girar em torno da
verdadeira adoração. “É bastante significante a importância dada ao lugar
de culto por uma alma cujos pecados são expostos”.11
No decorrer do diálogo muitos sub-temas são abordados, tais como: o lugar da
adoração, o tempo da adoração, a busca dos adoradores, o verdadeiro adorador, a
quem se deve adorar, o modo correto de se adorar, etc. Não temos espaço para
tratar separadamente cada um desses sub-temas. Basta dizer, por enquanto, que
Deus só pode ser verdadeiramente adorado, desde que seja verdadeiramente
conhecido. Como diz muito bem o Dr. Héber Carlos de Campos em seu comentário de
João 4.20-24: “O pressuposto inequívoco para verdadeira adoração é o
conhecimento do verdadeiro Deus”.12

Nosso Senhor ensinou à samaritana que quem conhece Deus de fato, só pode
adorá-lO em espírito e em verdade. Estudiosos da Bíblia têm dado diversas
interpretações para a expressão “em espírito e em verdade” de João
4.23,24.13 Parece razoável entendermos que ao estabelecer o modo correto de
adorar a Deus, isto é, em espírito e em verdade, Jesus estava criticando o
culto judaico e o culto samaritano.
Os samaritanos acreditavam que adoravam o mesmo Deus dos judeus, mas não
aceitavam as mesmas Escrituras dos judeus, a não ser os cinco primeiros livros,
o Pentateuco de Moisés. Como não aceitavam os demais livros da revelação divina
(por acharem que eram invenções dos judeus), o culto dos samaritanos era
defeituoso. Por isso Jesus disse à mulher: “Vós adorais o que não
conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos
judeus” (v22). Os samaritanos adoravam “em espírito”, isto é,
adoravam aquele que eles não conheciam “com alegria e verdadeiro
entusiasmo”. Mas e daí? Não adoravam “em verdade” porque
rejeitavam 34 livros do Velho Testamento, a Bíblia de então. A revelação de
Deus nas Escrituras é progressiva; portanto, é impossível conhecê-lO
verdadeiramente ficando apenas com os cinco primeiros livros da Bíblia.
Por outro lado, os judeus aceitavam toda Escritura. Por isso conheciam Deus e
tinham tudo para adorá-lO corretamente. “Tinham tudo”, mas não o
faziam. Os judeus se limitavam à formalidade de um culto onde o espírito não
estava presente. Faltavam emoção, vida e alegria no culto judaico.

Contudo, uma nova era estava surgindo para a adoração. Logo, logo tanto judeus
como samaritanos compreenderiam que para adorar a Deus o que menos importava
era o espaço físico. O que conta “não é onde se deve adorar, mas a atitude
do coração e da mente, e a obediência à verdade de Deus quanto ao objeto e o
método de adoração. Não é o onde, mas o como e o quê o que realmente
importa”.14 Deus quer homens e mulheres que O adorem com o espírito dos
samaritanos e a verdade dos judeus.15
O resultado do encontro de Jesus com a mulher samaritana não poderia ser menos
que excelente. A pecadora tornou-se missionária! Extremamente feliz, deixou seu
cântaro e correu para anunciar na cidade sua grande descoberta: o Messias
chegou! A mulher despertou o interesse dos seus concidadãos de tal modo que
conseguiu levá-los a Jesus (vv29,30). Houve uma grande colheita: Muitos
samaritanos creram em Cristo Jesus (vv39-42).

IV
São grandes as lições que aprendemos do encontro de Jesus com a mulher
samaritana. A começar pelo resultado da conversa, vemos uma mulher outrora
desprezada por todos, sendo usada poderosamente por Cristo para influenciar os
moradores de sua cidade. Quão glorioso é Cristo: “Ele ergue do pó o
desvalido, e do monturo, o necessitado” (Sl 113.7).
Como esta mulher, existem tantas outras em nossas cidades. Assim como elas,
tantos outros se encontram à margem da sociedade, roubados de seus direitos e
dignidade. E nós, evangélicos, lamentavelmente somos culpados por boa parte da
marginalização do indivíduo pela sociedade, pois fazemos pouco ou nada em
mostrar para a sociedade que o homem e a mulher, a criança e o idoso, o
deficiente, os proscritos em geral , etc., são valorizados por Cristo e como
humanos que são devemos valorizá-los também. Falhamos em não ver (ou fingimos
que não vemos) a pessoa por trás de seus pecados.
Outra lição importante que aprendemos de João 4 são os princípios básicos para
uma boa evangelização. Notamos que Jesus conduzia a conversa, utilizando-Se,
primeiramente, de Sua sede física para chegar à sede espiritual daquela mulher.
Com habilidade o Senhor invalida as tentativas da samaritana de controlar o
diálogo, mudar de assunto e perguntar coisas sem importância. Não precisamos
conhecer a vida de uma pessoa como Cristo conhece para sermos eficicientes na
evangelização. Nossa suficiência está em Cristo e o Espírito Santo nos guiará
com triunfo em nossa evangelização.
Mas as lições de evangelismo continuam. Na tentativa de fugir da confrontação,
vemos na mulher samaritana o símbolo do pecador em seu estado natural. No
“cerco” de Cristo temos o exemplo que devemos seguir na evangelização
dos perdidos. Aprendamos com o Mestre a sermos mais sensíveis com os
marginalizados e como abordá-los com eficiência.
Não é preciso pressa quando se evangeliza. Este é outro ponto que extraímos de
João 4. O importante, como o nosso Senhor ensinou,é que haja progresso. O
próprio Jesus revelou pouco a pouco quem Ele era. E em perfeita harmonia com
esta revelação gradual, a confissão da mulher também avançou. Primeiro viu
Jesus como um simples forasteiro judeu; depois um profeta, que revelou coisas
de sua vida particular e, por último, o Messias.
A conversa sobre a verdadeira adoração é uma preciosidade do Novo Testamento.
Contudo, ao mesmo tempo que é edificante torna-se preocupante também. Receio
que muito do chamado culto cristão de hoje não passe de culto samaritano ou
judaico. De um lado temos os entusiastas, mas vazios de conteúdo, de doutrina.
Do outro lado temos os experts na Bíblia e na doutrina, mas totalmente frios e
sem entuisiasmo e alegria no Senhor. Que Deus nos ajude a oferecermos a Ele a
adoração que Lhe é devida.

NOTAS

1. O historiador judeu Flávio Josefo disse que, por volta do ano 19 d.C., um
grupo de samaritanos entrou no templo de Jerusalém e espalhou ossos humanos
sobre o altar, profanando o santuário e acirrando contra si o ódio judaico.
Este ato causou revolta e indignação por parte de todos os judeus das sinagogas
de Israel, que passaram a encerrar suas orações diárias lançando uma maldição
sobre os samaritanos. Cf. A Missão da Igreja, (Missão Editora, Belo
Horizonte,1994), pp. 65,6.

2. John F. MacArthur, O Evangelho Segundo Jesus, (Editora Fiel, São Paulo,
1991), p. 57.

3. MacArthur, op.cit.,
p. 57.

4. Idem, p. 58

5. G. Hendriksen, El Evangelio Según San Juan, (SLC, Grand Rapids, 1987), pp.
172,3.

6. MacArthur, op. Cit.,
p. 56.

7. MacArthur, op. cit., p. 55.

8. Rosane Maria, Senhor dá-me de beber em No Princípio era o
Verbo, (Encontrão Editora, Curitiba, 1994), p. 243.

9. M. Rizzo, Jr., O Cântaro Abandonado, (UBB, São Paulo, 1982), p. 34.

10. A. Gelston, Samaritanos em O Novo Dicionário da Bíblia, ( Edições Vida
Nova, São Paulo, Vol. II, 1986), p. 1472.

11. A. J. Macleod, O Evangelho Segundo São João em O Novo Comentário da Bíblia,
(Edições Vida Nova, São Paulo, Vol. II, 1987), p. 1071.

12. H. C. Campos, O Pressuposto Básico da Verdadeira Adoração, artigo não
publicado, p. 33.

13. Consulte comentários bíblicos de João 4.23,24.

14. G. Hendriksen, op. cit., pp. 178,9.

15. É importante observar, porém, que os judeus aceitavam todo o VT, tendo a
oportunidade de conhecer tudo o que de Deus se podia conhecer “naquela
época”. Entretanto, hoje já não é possível dizer que os judeus conhecem
verdadeiramente a Deus porque rejeitam a revelação de Deus em Cristo Jesus,
conforme nos é ensinado no Novo Testamento.

Parte
XXV
VISÃO:
ENXERGAR ALÉM DA MAIORIA
 A
confrontação da mediocridade exige pensamento claro.
as pessoas que enfrentam a mediocridade devem fazê-lo mediante a perspectiva de
outro reino, não governado por nós, mas pelo próprio Senhor.
Custa nosso compromisso e revela-se periodicamente em expressões@
extravagantes.
MUNDO: Inteligência humana, simpatia persuasiva, lógica inteligente e atraente,
competição, criatividade e riqueza de recursos, mas tem falta dos ingredientes
essenciais que capacitam a pessoas alçar vôo sublime, como o da águia.
– A parte traiçoeira é a maneira como nosso cérebro passa por lavagem pelo
sistema, ficando, assim, bloqueado, impedido de atingir seu potencial total.
O resultado final é previsível : ansiedade interna e mediocridade externa.

TRÊS FATOS INDISPUTÁVEIS
A RESPEITO DO SISTEMA MUNDANO.

Mateus 6:24-34
– “Ninguém pode…”, NÃO andeis…”, “Qual de vós
poderá”
“Basta a cada dia seu próprio mal…”

– é a diferença entre a maneira como as pessoas vivem natural-mente (cheias de
preocupação e ansiedade), e a maneira como o Senhor planejou que vivêssemos
(livres de todo aquele excesso de bagagem).
– Decaímos para um modo de vida inferior porque “os gentios é que procuram
todas estas coisas” (v.32)

1. VIVEMOS NUM MUNDO HOSTIL, NEGATIVO.

O sistema que nos rodeia focaliza-se nos pontos negativos :
– no que está errado, não no que está certo,
– no que está faltando, não no que está presente,
– no feio, não no bonito (Ex : Dinossauros – “a era o feio”
– no que é destrutivo, não no que é construtivo,
– no que não pode ser feito, não no que pode ser feito,
– no que fere, não no que ajuda,
– no que nos falta, não no que temos.
A maioria das notícias se relaciona em fatos negativos.
É contagioso : Ex : Satanás e Eia

A atitude mental negativa conduz a sentimentos incríveis de ansiedade. O
resultado é :medo, ressentimento e ódio.
O sistema mundano opera de modo direto contra a vida que Deus planejou para o
seu povo.

2. ESTAMOS ENGOLFADOS PELA MEDIOCRIDADEE CINISMO.

Sem a motivação do entusiasmo e da visão cheia do poder divino, as pessoas
tendem para a “média”.
– fazendo apenas o suficiente para serem aprovadas.
– a maioria dita as regras, e a excitação é substituída por um dar de ombros.
– NÃO apenas se perde a excelência de vida, mas sempre que ela levanta a
cabeça, é considerada uma ameaça.

3. A MAIORIA ESCOLHE NÃO VIVER DE MODO DIFERENTE.

“Vá na onda” e “NÃO faça onda” e “Quem se
importa?”
– O cinismo está presente e a coragem está ausente.
A Coragem :
– dá a uma nação seu orgulho
– a um lar seu propósito
– a uma pessoa a vontade de produzir o melhor possível.

“É preciso que alguém saliente que desde os tempos antigos
o declínio da coragem tem sido considerado o começo do fim”
Alexandre Soljenitsin

O QUE É NECESSÁRIO PARA VIVER DE MODO DIFERENTE?

VISÃO:

– A águia possui oito vezes mais células visuais por centímetro cúbico do que o
ser humano.
– Voando à altura de 200 metros a águia consegue detectar um objeto do tamanho
de uma moedinha, movendo-se na grama de 15 cm de altura.
– A águia pode enxergar um peixe de oito centímetros saltando num lago e oito
quilômetros de distância.
– As pessoas que têm a visão de uma águia conseguem enxergar o que a maioria
não vê.

DETERMINAÇÃO:

– Capacidade de a pessoa manter-se disciplinada, coerente, forte e diligente a
despeito das circunstâncias ou das exigências.
– As águia são férreas na defesa de seu território e de seus filhotes.
– A força de suas garras é fenomenal.
– Podem agarrar e quebras os ossos fortes do braço humano.
– As pessoas semelhantes a águia possuem tenacidade.

PRIORIDADES:

– Escolha das primeiras coisas em primeiro lugar.
– Fazer o essencial na ordem de sua importância, deixando de lado o
inci-dental.

PRESTAÇÃO DE CONTAS:

– Dar respostas às perguntas difíceis, estando em intimo contato com algumas
pessoas em vez de viver em isolamento, como o lobo solitário.
– Pessoas semelhantes à águia podem ser raras, mas elas possuem uma lealdade
incrível quando aderem a uma causa.

DOIS HOMENS CORAJOSOS QUE DISCORDA-RAM DA MAIORIA.

Números 13

1. Houve um exodo.
2. Sob a liderança de Moisés, o povo escolhido de Deus chegou às fron-teiras da
Terra Prometida.
3. O novo território lhes pertencia : “Voces terão a terra!”
4. Deus ordenou a Moisés que espiassem a terra.
– Nem uma só vez os espias foram consultados e encorajados a dar sua opinião
quanto a se poderiam conquistar Canaã.
– NÃO havia a minima necessidade disto, porque o Senhor já havia prometido a
vitória.
– Os espias eram homens famosos entre os israelitas (Nm 13:3-16.)
5. A missão deles era bem clara. Dolorosa e explicitamente clara (17-20)
– Moisés não lhes disse : “E quando regressarem, dêem-nos conselho sobre
se devemos ou não invadir a terra.” – o povo ouviu o relatório (21-27) :
oh!!! ah!!!

RELATÓRIO NEGATIVO

28-29,31 “MAS…”
– Quem havia perguntado?
– Ninguém queria saber se seria capaz de subir ou não.
– Deus tinha prometido que a terra seria deles.
– Só precisavam saber como era a terra.
– Extrapolaram os objetivos de sua missão : (32-33)

– O Negativismo e a visão restritiva são contagiosos : 14:1-2
– Sempre aparece um camarada com idéias criativas : 14:4
– Quando a maioria é deficiente de visão, a miopia espiritual tende a cobrar ônus
pesado daqueles que tentam liderar : (v.5)

RELATÓRIO POSITIVO

VISÃO ILIMITADA 13:30, 14:6
– Havendo visão, não há lugar para o medo.
“Mas toda a congregação disse que os apedrejassem” Nm 14:10
É duvidoso que a maioria alguma vez tenha razão” Arnold Toynbee

VISÃO é a habilidade de…
– ver a presença de Deus,
– perceber o poder de Deus,
– focalizar os planos de Deus, apesar dos obstáculos.

O A-B-C-D-E da Visão…

A. ATITUDE

– ser otimista em vez de pessimista.
– positiva em vez de negativa.
– NÃO totalmente positiva como se fora uma fantasia, porque voce conta com a
presença de Deus.
– Voce não desiste. Diz: “Senhor, este é o teu momento. É aqui que tu
assumes o controle.”

B. BASE DE FÉ

– Forte base de fé no poder de Deus.
– confiança nas demais pessoas ao seu redor, engajadas em batalhas semelhantes
às suas.
– confiança em Voce mesmo, pela graça de Deus. Recusando-se a cair em tentação,
a dar lugar ao cinismo, à duvida. NÃO desanimando.

C. CAPACIDADE

– prontidão para o fortalecimento.
– “Voce precisa esta disposto a ser fortalecido.
– Voce precisa permitir que sua capacidade seja invadida pelo poder de Deus.

D. DETERMINAÇÃO

– Insistir em vez de desistir,
– As circunstancias endurecem e Voce endurece mais duro ainda.
– A visão requer determinação, foco contínuo em Deus, que está observan-do e
sorrindo.

E. ENTUSIASMO

– “entheos” (Deus em)
– Capacidade de ver Deus numa dada situação, o que torna o evento excitante.
– É quando nos tornamos convencidos de que Deus, nosso Pai celeste, participa
de nossas atividades e as aplaude.
Ilustração : jovem atleta preguiçoso, pai cego morre.

Parte
XXVI
O
“Evangelho de Judas”

As investidas dos inimigos
da cruz surgem por todos os lados. Nos primeiros séculos da era cristã, os
gnósticos foram uma ameaça à igreja primitiva. Uma mistura de ensinos cristãos,
filosofias pagãs e tradições judaicas motivou Paulo a escrever a epístola aos
colossenses, onde ressalta:

“Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e
vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e
não segundo Cristo” (Cl 2.8). O motivo de sua preocupação era “para que ninguém
vos engane com palavras persuasivas”.

A Igreja tem sofrido ataques internos e externos. Os ataques intramuros decorrem
das aberrações doutrinárias produzidas por alguns grupos. As ofensivas externas
vêm dos inimigos da cruz, dos anticristos, de há muito revelados e
desmascarados: “Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o
anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos. Quem é o mentiroso,
senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega
o Pai e o Filho” (1 Jo 2.18,22).

Está sendo amplamente divulgado pela mídia o “Evangelho de Judas”. Diz a
notícia que a única cópia desse evangelho ficou desaparecida por 1.700 anos. O
manuscrito contém 26 páginas (alguns dizem que são mais de 50 páginas) em
papiro, escrito em dialeto egípcio copta. O documento seria cópia de uma versão
do século III ou IV, redigida em grego.

A novidade é que o texto indica que a traição de Judas Iscariotes teria sido a
pedido do próprio Jesus, que lhe teria dito: “Tu superarás todos eles. Tu
sacrificarás o homem que me cobriu”. Ou seja: O traidor ajudaria Jesus a
libertar-se do seu invólucro carnal (Jornal O Povo, Fortaleza, (CE), 08.04.06,
p.28). Foi assunto de capa da revista ÉPOCA. Edição 405, 20.02.06. O manuscrito
ainda está em processo de tradução. A nossa análise abrange apenas o que foi
divulgado.

Ateus e anticristos de um modo geral estão dançando de alegria. Há dois mil
anos tentam dar um xeque-mate na Igreja. Ainda não conseguiram. Nem
conseguirão. Os cristãos seguem cada vez mais confiantes.

A notícia não o diz qual dos personagens da Bíblia com o nome “Judas” é o autor
do dito Evangelho: Judas (apóstolo – Lc 6.16; Jo 14.22); Judas (Barsabás – At
15.22); Judas (de Damasco – At 9.11); Judas (irmão de Jesus – Mt 13.55; Mc
6.3). O manuscrito ainda está em processo de tradução. Sabe-se que referido
evangelho foi classificado de herético pelo bispo Irineu, de Lyon, no segundo
século.

Vale lembrar que muitos evangelhos existiram, mas apenas os de Mateus, Marcos,
Lucas e João foram considerados de inspiração divina. Embora os 27 livros do
Novo Testamento tenham sido concluídos em menos de 100 anos – eis que o
Apocalipse, o último, foi escrito mais ou menos no ano 96 d.C. -, somente foram
definitivamente reconhecidos como canônicos no III Concílio de Cartago, em 397
d.C. Tal fato denota que houve um longo debate e longa meditação para que tais
livros fossem aceitos como inspirados.

Em todo o processo de canonicidade houve a direção do Espírito Santo. O mesmo
Espírito que fez com que os discípulos se lembrassem de tudo o que o Senhor
Jesus ensinou, foi o mesmo que guiou os escritores sacros em toda a verdade (Jo
14.26; 16.13). Sob a direção desse Espírito, Pedro revelou que “a profecia
nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus
falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.21; cf. 2 Tm 3.16-17).

Somente com esses argumentos, já é possível considerar apócrifo e espúrio o
noticiado “Evangelho de Judas”. O Espírito de Deus se esqueceu desse
manuscrito? Não se esqueceu. A história secular diz que o manuscrito existiu,
mas foi considerado herético. O Espírito Santo não permitiu que tal evangelho
fizesse parte do cânon do Novo Testamento.

Vejamos agora o que dizem os livros canônicos e principalmente a palavra do
Senhor Jesus a respeito de Judas Iscariotes e de sua traição.

Jesus disse na presença dos Doze que Judas Iscariotes era um adversário: “Um de
vós é um diabo” (Jo 6.70), isto é, desde cedo Judas sofreu influências
malignas. Estava no meio dos Doze, mas era um adversário, um anticristo.
Esperava o momento oportuno para mostrar sua verdadeira identidade. O apóstolo
João diz com clareza que a vontade de trair o Mestre foi colocada pelo diabo no
coração de Judas (Jo 13.2).

Se Jesus houvesse permitido que Judas O traísse, iria se manifestar desse modo
na frente dos Doze? Agindo assim não estaria se arriscando a ser desmascarado
pelo traidor? Ora, Judas poderia ter dito: “Como sou diabo se o Senhor mesmo me
pediu para que o traísse?”. Judas não foi influenciado por Jesus. A sua traição
não foi para atender a um pedido do Mestre. Na verdade, como diz o apóstolo,
foi o próprio diabo que entrou no seu coração e o transformou num traidor.
Muitos dos mais ferrenhos inimigos da cruz reconhecem que Jesus não era de
meias verdades. O Espiritismo, por exemplo, reconhece que Ele veio nos ensinar
uma elevada moral. Ele jamais iria fazer algum tipo de acordo particular com
Judas, sem o conhecimento dos demais. O conluio não fazia parte do Seu caráter.

Ademais, se Judas estava simplesmente cumprindo uma recomendação do Mestre,
como poderia ser chamado de traidor? Se Judas iria livrar Jesus do seu
invólucro carnal, deveria ter sido chamado de libertador. O Verbo encarnado não
era um hipócrita para agir desse modo. Durante a última ceia Jesus identificou
o traidor: “O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair. Em verdade o
Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por
quem o Filho do homem é traído. Bom seria para esse homem se não houvera
nascido. E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi?
Ele disse: Tu o disseste” (Mt 26.23-25).

Vejam que Judas não ia trair; ele já vinha traindo; já houvera iniciado as
conversas com “os príncipes dos sacerdotes”; a traição já se estabelecera no
seu coração. Esperava apenas o momento de colocar em prática aquilo que já
estava decidido. Por isso a Bíblia fala “o que o traía”.

Diante das duras palavras de Jesus, chamando-o de traidor e ameaçando-o com
enormes castigos, Judas não se indignou nem revidou. Saiu e foi receber as
trinta moedas da traição. Judas teve a oportunidade de dizer que apenas
cumpriria a missão que lhe fora confiada pelo traído. Que juízo podemos fazer
de uma pessoa que pede para ser traído e ao mesmo tempo ameaça o traidor? Nesse
caso Judas é quem teria sido traído por Jesus. Tal situação é inconcebível.

Na verdade, se Judas Iscariotes atendeu a um pedido do Mestre, não podemos usar
a palavra “traição”. Judas não seria traidor em potencial. Vejam como foi o seu
fim:

“Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, arrependido, as
trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:
Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: Que nos importa? Isso
é contigo. E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e
foi-se enforcar” (Mt 27.3-5).

Convenhamos, essa não é atitude de quem está apenas cumprindo um acordo. O
sentimento para quem cumpre uma missão é de alegria, de dever cumprido, de
consciência limpa. Nada disso aconteceu. Judas declara haver traído “sangue
inocente”.

Com base na pequena amostra do que já foi publicado, podemos dizer que o tal
Evangelho de Judas é um documento espúrio, que não abala as estruturas do
Cristianismo, nem coloca dúvida em qualquer parte das Escrituras Sagradas, a
inerrante Palavra de Deus.

Parte
XXVII
Ressurreição
e Reencarnação
Não há porque confundir as duas doutrinas. Ressurreição é doutrina
cristã; reencarnação é doutrina espírita. São caminhos que não se cruzam. A
doutrina ou teoria do Espiritismo está contida no Livro dos Espíritos, escrito
pelos “espíritos”, com 1009 quesitos, e em outros livros de autoria de Allan
Kardec. As doutrinas básicas do Cristianismo estão detalhadas na Bíblia
Sagrada, regra de fé e prática dos cristãos, escrita sob inspiração divina. A
Bíblia é a palavra de Deus. O Cristianismo é único, exclusivo, e não se
confunde com qualquer outra religião não cristã. Somente os que seguem a Cristo
podem ser considerados cristãos. Dito isto, examinemos as duas doutrinas.

Reencarnação

Reencarnação é a volta do espírito ao plano material. Quando o homem morre, o
corpo desce à sepultura e o espírito segue para o mundo espiritual. A doutrina
da reencarnação sustenta que o espírito retorna à vida terrena, em novo corpo,
tantas vezes quantas sejam necessárias. O objetivo desse retorno “é fazê-los chegar
à perfeição” e proporcionar um “melhoramento progressivo da Humanidade”. “As
reencarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase
infinito” (Quesitos 132, 167 e 169 do Livro dos Espíritos).

Ressurreição

De acordo com o ensino da Bíblia Sagrada, só há uma separação corpo-espírito,
i.e., o homem só morre uma vez: “E, como aos homens está ordenado morrerem uma
vez, vindo depois disso o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma vez
para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o
esperam para salvação” (Hebreus 9.27-28). Como vimos, o homem morre e fica
aguardando julgamento. Haverá um dia em que todos serão julgados.

O Senhor Jesus ensinou que o injusto, quando morre, vai para um lugar de tormentos.
O justo, para um lugar de paz. Tal ensino está na parábola do rico e Lázaro
(Lucas 16.19-31). Todos ficam aguardando a ressurreição.

Ressurreição significa a vivificação do corpo morto, não importa quanto tempo
esteja nesse estado. Significa o reencontro do espírito com o corpo original:
“E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em
vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os
vossos corpos mortais pelo seu Espírito que em vós habita” (Romanos 8.11). Na
vinda do Senhor, “os que morreram em Cristo [i.e., os cristãos, aqueles que
crêem em Jesus como Senhor e Salvador] ressurgirão primeiro”. Os que estiverem
vivos na Sua vinda serão arrebatados e estarão para sempre com o Senhor (1
Tessalonicenses 4.16-17). Sob inspiração divina, o apóstolo Paulo declara:
“Cremos que Jesus morreu e ressurgiu, assim também cremos que aos que dormem em
Jesus, Deus os tornará a trazer com ele” (v.14). A redenção dos cristãos
abrange o corpo (Romanos 8.23).

Exemplos na Bíblia Sagrada se contrapõem à doutrina da reencarnação. Ao ladrão
que se arrependeu, Jesus prometeu: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo
no paraíso” (Lucas 23.43). Esse ladrão tinha motivos de sobra para reencarnar
umas mil vezes até se tornar perfeito. Jesus perdoou seus pecados e lhe
garantiu a vida eterna. Moisés e Elias apareceram na transfiguração de Jesus.
Nada indica que tenham retornado à vida corpórea para serem purificados. Foram
reconhecidos pela fisionomia original.

Assim, reencarnação, doutrina espírita, é uma coisa; ressurreição, doutrina
cristã, é outra muito diferente.

Parte
XXVIII
Ex-Mórmon
Relata sua Conversão: “Não Preciso Mais do Profeta Joseph Smith”
 Thelma
Geer, carinhosamente chamada de “Granny”, foi criada na igreja mórmon. Desde
menina seu alvo era casar-se e, após a morte, tornar-se uma rainha celestial
eternamente unida a seu marido terrestre, produzindo juntos, numa ampla mansão,
bebês espirituais”. Em seu livro Por que abandonei o mormonismo, ela relata a sua
própria história, inclusive como se converteu a Jesus Cristo, e examina, à luz
da Bíblia, algumas das suas antigas crenças, como estas:

Jesus Cristo foi polígamo

Os seres humanos podem chegar a ser deuses

Deus o Pai foi Adão e também o esposo de Maria

O Espírito Santo é um homem

Jesus Cristo e Lúcifer foram irmãos

Não, aquele ministro batista não se dirigia a mim – eu era mórmon. Mas Deus
falava comigo. Mesmo sendo um dos “Santos dos Últimos Dias”, eu ainda era uma
pecadora necessitada de salvação. Foi por minha causa que `Deus amou o mundo de
tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não
pereça, mas tenha a vida eterna… Quem nele crê não é julgado; mas quem não
crê já está julgado, porquanto não crê no nome do Unigênito do Filho de Deus
(João 3.16, 18)´

Quando o missionário rogou: “Oh, por que você não aceitaria meu Jesus?”, Deus
falou ao meu coração e disse: “Por que você não aceita o meu Filho? Ele morreu
pelos mórmons tanto quanto pelos batistas”.

Então entendi que, mesmo sendo um dos SUD, tinha de depositar todo o meu ser em
Jesus. Com prazer entreguei-me a ele, com os olhos tão arregalados de admiração
que não pude nem fecha-los nem curvar a cabeça. Sentia-me feliz por saber que
Deus e Jesus amavam tanto a mim. Meu coração palpitava em êxtase e se condoia
em vergonha e arrependimento enquanto buscava perdão por ter desconsiderado a
Cristo.

Agradeci-lhe o ter continuado a me amar, pois, na verdade, eu nunca o amara nem
o cultuara. Agora sabia que Jesus voluntariamente havia deixado os céus e vindo
à terra a fim de ser fazer pecado, movido de amor e preocupação para comigo.
Ele não veio em busca de exaltação e divindade para si próprio, como sempre me
levaram a crer. Jesus já era Deus. Deus Filho veio buscar e salvar a mim, um
dos SUD.

Agora eu sabia que era pecadora e não santa, não uma criança gerada por pais
celestiais, mas por pecadores indignos a quem Deus “amou de tal maneira”. Eu o
sabia porque ali na santa Palavra de Deus, e porque Deus Espírito Santo trouxe
esse conhecimento incontestável de pecado ao meu coração. Pedi a Jesus que me
perdoasse por não tê-lo amado enquanto ele me amou ao ponto de morrer por mim.
Cristo, que não conheceu pecado, deixou sua glória nos céus para ser “feito
pecado por nós para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.21). Eu
agradeci a ele por tomar meu lugar na cruz e prometi assumir minha posição como
cristã, e a partir daí trabalhar para que outros mórmons pudessem dar a Jesus o
primeiro lugar em seu coração e em suas vidas.

Agora não canto mais hinos sobre Joseph Smith, pois desde que recebi Jesus como
meu Salvador pessoal, não preciso mais do “profeta” Joseph Smith. Agora canto a
respeito de Jesus. Eu o louvo por tê-lo recebido como meu Salvador e Senhor,
por ele ter-me dado novo coração, nova vida e novo propósito. Eu exulto quando
canto meu novo cântico de louvor ao nosso Deus e proclamo essa promessa sem
igual” (Thelma `Granny´Geer, “Por Que Abandonei o Mormonisno”, Editora Vida,
1991, p. 31-32).

É impressionante como a ex-mórmon relata sua conversão. Transmite a situação de
uma pessoa que se achava em trevas, sem direção, e conseguiu encontrar a luz.
Na verdade, ela rompeu uma barreira difícil. Saiu da clausura. Sua alma estava
sedenta: “Quem tem sede, venha a mim e beba”, disse Jesus. Ela buscou matar sua
sede na fonte certa; bateu à porta certa, e ficou saciada. É admirável e
emocionante como ela descreve a sua alegria tão logo encontra a verdade.

O testemunho de Thelma Geer não difere do de tantos outros que conseguiram se
livrar das algemas invisíveis. Ficamos a imaginar como um grupo religioso
consegue tantos seguidores com doutrinas desse tipo: Jesus é irmão de Lúcifer;
Jesus teve várias mulheres; os homens serão deuses. A blasfêmia contra o Filho,
o Deus encarnado, é patente em muitas seitas. O objetivo é denegrir a pessoa
imaculada do Senhor Jesus, negar-lhe a divindade e a morte expiatória e
redentora.

Joseph Smith morreu e seus ossos estão em algum lugar. Jesus morreu, mas
ressuscitou. Seu sepulcro está vazio. Eis a grande diferença entre o
Cristianismo e as demais religiões.

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