Apostila 22
Estudo
Teológico Sobre Jesus Cristo
CREIO NO DIA
DO SENHOR
Parte – I
 “Lembra-te
do dia do descanso, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o
teu trabalho; mas o sétimo dia é o repouso do Senhor teu Deus. Nesse dia não
farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo,
nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro Das tuas
portas. Por que em seis dias fez o Senhor o Céu e a terra, o mar e tudo o que
neles há, e ao sétimo dia descansou; Por isso o Senhor abençoou o dia do
repouso e o santificou” (Ex 20.8-11)
Creio no Dia do Senhor; creio no Dia do Descanso por duas razões, pelo menos:
por Quem foi instituído, e para que o foi. Creio no Dia do Senhor porque a
Escritura Sagrada apresenta o cuidado e carinho do Criador pela sua criatura,
criada à Sua imagem e semelhança; creio porque o próprio Deus descansou; creio
pelo aspecto humanitário, e pela sua dimensão altamente espiritual. Creio no
Dia do Senhor porque todo o esquema da criação e da nova criação se explica no
dia do repouso semanal. E, naturalmente, há um princípio que, embasando o Dia
do Descanso, o torna sagrado, separado, santificado: é o princípio de que
“a parte significa o todo” (quem se aventurou pelos estudos da
estilística reconhece que essa é uma figura de linguagem que toma o nome de
sinédoque). É altamente significativo esse princípio para várias práticas do
Antigo Testamento, práticas e usos que encontram respaldo na Nova Aliança: no
Pentateuco, encontramos o conceito de que se traziam as primícias da colheita
para que toda a colheita fosse santificada (Ex. 19.6; Lv 20.26; 1 Pe 2.5,9; Ap
1.6); uma família, a de Abraão, que foi escolhida por Deus para que todas as
famílias fossem abençoadas (Gn 12. 1-3; 18.1,18; 27.29); um homem no meio dos
outros homens para que todos fossem abençoados (Ex. 28.1; Mt 10.1 ss); o
primeiro filho separado e escolhido dos outros filhos para que toda a família
fosse abençoada (Ex 22.19b; Jo 3.16; Rm 8.29); 10% da renda para que abençoada
seja toda a renda (Lv. 27.30; M1 3.10; Mt 23.23; Lc 11.42); o conceito de um
alguém que padece intensos sofrimentos, o “Servo Sofredor”, para que
todos possam ser resgatados da maldição e da dor (Is 53.1-12; Hb 9.28; 1Pe
2.21-24).

O mesmo acontece quanto ao Dia do Descanso, quando se reconhece que o tempo
pertence a Deus, bem como o todo da criação (Ex 20.8-11; Dt 5.12-15; Lc
13.10-17; Hb 4.9-11)!

O SÉTIMO DIA

Vamos partir de um consenso: é preciso traduzir o nome do sétimo dia para
tornar o conceito e seu ensino claro, de modo que ninguém confunda o abençoado
conceito com o dia da semana em português que tem o mesmo nome.

A palavra sábado não pertence à nossa língua, é uma transliteração, um
aportuguesamento de uma palavra hebraica (Shabbath) que significa
“cessação”. Alguém está trabalhando e faz uma pausa no que está
fazendo, em hebraico dirá, “vou fazer um shabbath agora”). Significa
“interrupção”; é o caso de você estar escrevendo uma carta, o telefone
toca e você interrompe o que estava fazendo. Em hebraico, dir-se-ia
“preciso fazer um shabbat para atender o telefone”. Outras traduções
possíveis são “repouso, abstenção, desistência,” e, por incrível que
pareça, a palavra “greve” do hebraico contemporâneo se traduz por
shabbath, por ser uma “cessação de trabalho”. Por essas razões, no
possível, usaremos a expressão “Dia de Descanso” que é precisamente o
que significa o hebraico Yom haShabbath, dia de “sábado”, dia de
repouso. Esclareçamos que os hebreus dividiam o tempo desta maneira: primeiro
dia, segundo dia, terceiro dia, quarto dia, quinto dia, sexto dia e Dia do
Descanso.

PARA ENTENDER…

É necessário que se traduza para que compreendamos a revelação divina, e não
nos apeguemos à guarda de um dia do calendário considerado imutável, além de
atribuir conotações cerimoniais a uma lei apodítica, moral. Aliás, o dia
semanal chamado sábado encontra barreiras no fuso horário. São 11h10, o que
significa que começamos o “sábado” do calendário antes de os
habitantes dos Estados Unidos (eles mesmos separados no tempo por vários fusos
horários) terem começado o “sábado” deles. Se o sábado é imutável,
criou-se um problema! E os crentes japoneses já terminaram o culto desta noite
e voltaram para casa porque no Japão são 23h10, e já estão dormindo ou se
preparando para isso. O fuso horário se tornou herege: no horário de verão,
adianta-se uma hora; no horário de inverno, nos Estados Unidos, atrasam uma
hora.

E nós aprendemos com a Palavra de Deus que a observância do Dia de Descanso é
anterior à entrega da Lei no Sinai. Se alguém pensa que este significativo e
abençoador dia foi estabelecido na entrega da Lei no Sinai, deve tomar
conhecimento de que já era observado.
Na realidade, quando da concessão do alimento chamado maná (Ex 16), o relato o
menciona:

“E ele lhes disse: Isto é o que o Senhor tem dito: Amanhã é repouso,
sábado santo ao Senhor; o que quiserdes assar ao forno, assai-o, e o que
quiserdes cozer em água; e tudo o que sobejar, ponde-o de lado para vós,
guardando-o para amanhã. Guardaram-no, pois, até o dia seguinte, como Moisés
tinha ordenado; e não cheirou mal, nem houve nele bicho algum. Então disse
Moisés: Comei-o hoje, porquanto hoje é o sábado do Senhor; hoje não o achareis
do campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele não
haverá” (Ex 16.23-26).

Já existia, portanto, o Dia de Descanso, que vinha sendo observado pelo povo de
Deus. E porque o costume do descanso já existia, foi incorporado à Lei com essa
recomendação no quarto mandamento: “Lembra-te do dia do descanso para o
santificar”. Isso nos ensina que a guarda do repouso semanal é marca e
evidência da liberdade do ser humano, da sua liberdade individual. Essa é a
dimensão humanitária desse dia da qual todos (escravos, estrangeiros, e, mesmo,
os animais) deviam se beneficiar de acordo com Êxodo 20.10: “Nesse dia nem
tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o
estrangeiro que está dentro das tuas portas”. E isso nos ensina que temos
a tarefa não só de guardar, mas de “santificar” esse dia; não apenas
descanso físico, mas de sustento para o espírito. Nosso ritmo humano de
trabalho e descanso, trabalho por seis dias, e descanso em um dia, é reflexo da
imagem de Deus porque a Bíblia diz em Gênesis 2.2: “Ora, havendo Deus
completado no dia sétimo a obra que tinha feito, descansou nesse dia de toda a
obra que fizera”.

O PRIMEIRO DIA

Há um aspecto sagrado no descanso, não no dia da semana (Ex 20.8ss). Esse é o
problema de certos grupos religiosos que enfatizam o dia da semana. O que é
sagrado não é o dia da semana, mas o descanso, quem é sagrado é o ser humano,
porque o próprio Senhor Jesus ensinou que o Dia do Descanso foi feito para o
ser humano, não a pessoa para a instituição. Se assim acontecesse, seria um
tremendo revés para o plano divino. Quem é imagem e semelhança de Deus é o
irmão/a irmã, não o dia. Não é nosso objetivo colocar oposição entre dia e dia,
entre o sábado e o domingo, até para não incorremos na condenação paulina que
diz “…como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos
quais de novo quereis servir? Guardais dias…” (Gl 4.10) e “um faz
diferença entre dia e dia” (Rm 14.5), como também, “ninguém vos
julgue… por causa de sábados” (Cl 2.16b), mas apresentar o aspecto
sagrado do repouso da máquina humana.

É preciso encarar esse assunto em termos de tempo e de eternidade. Estamos
falando, ao discutir o descanso, de algo mais que contagem de tempo. Estamos
falando de muito além que contar minutos para fechar a loja. Fixar-se num dia
da semana é perder o senso da eternidade, mesmo porque nós não podemos
doutrinar em cima de sombras do calendário (cf. Hb 10.1), o sábado temporal, e
fazê-lo é perder a noção de que Jesus Cristo, Ele, sim, é o nosso Shabbath, o
nosso descanso, como mencionado em Hebreus 4.3: “Porque nós, os que temos
crido, é que entramos no descanso, tal como disse: Assim jurei na minha ira:
Não entrarão no meu descanso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a
fundação do mundo”.

O QUE É ETERNO

O acima mencionado é o outro aspecto que deve ser enaltecido: o eterno. Nos
dias do ministério terreno de Jesus Cristo, criou-se um extremado fanatismo
quanto à questão do descanso semanal, pois, além de não se preparar alimento
nesse dia para não acender o fogo, os utensílios usados nem eram removidos e
lavados. Há uma explicação mais demorada, detalhada e lúcida sobre este assunto
no livro A Guarda do Sábado, de autoria do Pr. Aníbal Pereira Reis. Os essênios
nem iam ao sanitário?! Era proibido, entre outras coisas, acender e apagar candeeiro,
cozinhar ovo, atar e desatar nó numa corda, dar pontos com uma agulha, escrever
duas letras, esfregar as mãos, andar mais que um certo número de passos (cf. At
1.12), e até prestar socorro a alguém que tivesse membros do corpo quebrados,
curar, portanto.

Contra esse tipo de mentalidade, Jesus Cristo reagiu por ter observado que
haviam perdido a dimensão eterna pelas mesquinharias que foram chamadas de
religião! E, por essa razão, curou doentes no dia de descanso:

· curou um paralítico no poço de Betesda (Jo 5.1-18; cf. v. 9), razão porque
foi duplamente chamado de herege (cf. v. 18);
· curou uma cego de nascença (Jo 9.1-7, 13,14,16);
· curou um homem de mão atrofiada (Mc 3.1-6; Lc 6.6-11);

· curou uma
mulher com terrível problema na coluna (Lc 13.10-17),
· e permitiu, no dia do Shabbath, atividades que eram proibidas pela Lei porque
Ele é superior à Lei e Senhor da mesma. Era proibido colher trigo para a
alimentação, no entanto, permitiu que as espigas fossem colhidas (Mc 2.23-28).

Sentiram que importante e digno é o ser humano, imagem do nosso Deus,
semelhança do Criador? Sentiram que a Lei e as suas instituições devem ser
vistas à luz da eternidade?

Realmente, a carta aos Hebreus diz que a Lei é a sombra dos bens futuros, razão
porque afirmamos que não se pode doutrinar em cima de sombras (cf. Hb 10.1).
Portanto, com a Nova Aliança, as figuras e sombras da Antiga Aliança caducaram,
e com elas os dias solenes dos judeus.

· É o caso de Levítico 23.48 que registra a instituição, e regulação da Páscoa
(23.4.8); encontramos, pelo contrário, na Nova Aliança, o apóstolo Paulo
dizendo que Jesus Cristo é a nossa páscoa (1Co 5.7).
· O Antigo Testamento faz referência às primícias (Lv 23.9-25), e quando Paulo
escreve 1Coríntios 15.20, diz que Jesus Cristo é “as primícias dos que
dormem”.
· Levítico 23.33-44, ainda, menciona a Festa dos Tabernáculos ou Festa das
Tendas Sukkoth), mas o Evangelho de João registra que o próprio Deus
tabernaculou, “armou Sua tenda”, habitou no nosso meio (cf 1.4).
· E sobre o Dia da Expiação, o Yom Kippur (Lv 23.26-32), verifica-se que esse
Dia do Perdão encontra o seu lado concreto no Calvário (Hb 2.17) porque esta
solene festa judaica, um dos chamados pelos judeus de “dias
terríveis” é só uma sombra do Calvário que está projetada.
· Assim é que também encontramos o Dia de Descanso, o Yom Shabbath (Lv 23.3),
porque Jesus Cristo, Ele, sim, é o nosso shabbath, o nosso repouso (Hb 4.1ss).

Oséias, o profeta, vai predizer no capítulo 2.11, que todas essa solenidades
serão abolidas. “Também farei cessar todo o seu gozo, as suas festas, as
suas luas novas, e os seus sábados, e todas as suas assembléias solenes”.
Com a Nova Aliança, não estamos mais presos ao tempo, mas, sim, abençoadamente
ligados à eternidade pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. E o apóstolo
Paulo o afirma: “Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou
por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das
coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo” (Cl 2.16,17).

CREIO NO DIA DO DESCANSO

Creio no Dia do Senhor porque creio na Nova Aliança de Deus com a humanidade, e
nas realidades que ela ampliou do Antigo Pacto do Sinai!

Creio no Dia do Senhor porque creio no sangue derramado de Jesus Cristo!

Creio que o sacerdócio da Antiga Aliança foi conservado, mas foi ampliado, e o
foi com um novo Sumo Sacerdote que é Jesus Cristo, (Hb 2.9-17; 4.14,15; 7.1-28;
9.11ss), e o acesso a esse sacerdócio por todos os crentes (Hb 10.19-23; 1Pe
2.5,9; Ap 1.6; 5.10; 20.6; 1Tm 2.1; Ef 6.18).

Creio que o crente em Jesus Cristo, o salvo pelo Seu sangue é um sacerdote no
reino de Deus!

Creio no sacrifício único e eterno de Jesus Cristo (Hb 7.26,27; 9.24-28;
10.11-14)!
Creio nas leis morais, até mesmo naquelas mais estritas, porque Jesus Cristo vê
a intenção, e não apenas o ato! Creio, portanto, na conservação do descanso!

Creio no Dia do Senhor porque aprendo com meu Mestre que a ênfase deve ser dada
ao conceito, e não ao dia em si!

Creio no Dia do Descanso porque Jesus Cristo é o Senhor desse dia, e o ser
humano é superior à instituição temporal: “E prosseguiu [Jesus]: O sábado
foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc
2.27).

MAS, POR QUE O PRIMEIRO DIA DA SEMANA?

Quando o cristão guarda o primeiro dia da semana, ele o faz no espírito de um
novo mandamento, baseado em uma Nova Aliança, e ambos como cumprimento do
antigo mandamento e da Antiga Aliança cumpridos na fé cristã.

Por que o primeiro dia da semana? Porque a ressurreição de Jesus Cristo é o
acontecimento fundamental do evangelho, e realmente tudo no evangelho olha para
a ressurreição (cf. 1 Co 15.14,17,19). Que maravilha termos como referencial o
túmulo vazio! O dia da semana, em si, nada significa, mas, o que nele ocorreu,
sim! Vejam só: o dia 2 de Julho nada significa no Ceará, ou no Mato Grosso, ou
em Santa Catarina! Mas é significativo na Bahia porque é o Dia da Independência
deste estado ocorrida em 1823. Fora da Bahia não tem sentido! 17 de Abril nada
significa para outras igrejas na cidade do Salvador, mas tem mérito na Igreja
Batista Sião, que foi organizada nesta data em 1936.

O primeiro dia da semana tem significado para o cristão porque em um primeiro
dia da semana Jesus Cristo ressuscitou (Mt 28.1; Mc 16.1,2; Lc 24.1; Jo 20.1),
e desde os tempos apostólicos, esse dia vem sendo reservado (At 20.7; 1Co 16.2;
Ap 1.10, e escritos antigos), e Jesus ressuscitado Se encontrou com os
discípulos no primeiro dia da semana (Mc 16.9; Mt 28.9; Lc 24.13,15,36ss; Jo
20.19,26).

Por que o primeiro dia da semana? Porque depois de estar debaixo de extrema
humilhação num fim de semana, Jesus Cristo, no primeiro dia da semana,
gloriosamente ressuscitou. De modo que olhamos o dia do descanso, seja ele o
primeiro dia da semana (o descanso temporal), seja o descanso eterno, à luz da
ressurreição!

E é por essa razão que na Nova Aliança o dia de descanso se chama “Dia do
Senhor”, significado exato da palavra domingo. Quando se fala
“domingo” está sendo usada uma expressão da língua latina, dies
dominica, ou seja, “dia que pertence ao Senhor”, porque nesse dia, o
primeiro da semana (a prima feria), nossos irmãos da Igreja Apostólica
descansavam. Reuniam-se para a Ceia do Senhor: “No primeiro dia da semana,
tendo-nos reunido a fim de partir o pão, Paulo, que havia de sair no dia
seguinte, falava com eles, e prolongou o seu discurso até a meia-noite”
(At 20.7); e preparavam ofertas de amor: “No primeiro dia da semana cada
um de vós ponha de parte o que puder, conforme tiver prosperado, guardando-o,
para que se não faça coletas quando eu chegar” (1 Co 16.2).

Eles o faziam no dia da ressurreição de Jesus Cristo! E é isso exatamente o que
fazemos, porque compreendemos que o dia do descanso é vital, não é formal, e
encontra expressão numa experiência de crescimento, e celebra um acontecimento,
e expressa e promove uma experiência transcendental no significado para o
crente em Jesus Cristo!

Também porque compreendemos que é um memorial de experiência, um monumento à
verdade (os antigos hebreus comemoravam o que devia ser lembrado levantando
colunas. Colocavam uma pedra, e outra pedra, e uma pedra mais, e assim por
diante de modo que levantavam um pilar, uma coluna, um altar (Gn 28.18; Js
22.10) para indicar que alguma coisa importante havia sucedido).

Compreendemos que, sendo um memorial de uma eterna experiência, no Dia do
Senhor , homens e mulheres confessam, individual e coletivamente, sua fé na
obra divina da criação de uma nova raça humana, obra divina que se fez em nós.
Dizemos “eu compreendo a imortalidade desta pessoa por causa da
ressurreição de Cristo” , e tudo isso lembramos neste primeiro dia da
semana (cf. 1Co 15.22).

Compreendemos que o Dia do Descanso enfatiza a espiritualidade da vida humana,
e lembramos Lucas 12.15: “E disse ao povo: Acautelai-vos e guardai-vos de
toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das
coisas que possui”. Não é o material, mas o espiritual que vale, e nós
somos desafiados a considerar essas interpretações da vida, decidindo por uma
posição materialista, aceitando essa abundância de coisas, ou uma posição
espiritual, recebendo de mente e coração abertos essa bênção que desejamos e
continuamos a desejar e praticar.

Creio no Dia do Senhor porque eu me rejubilo nele! Ah, como me alegro, e posso
exclamar como o fez o poeta de Israel: “Este é o dia que o Senhor fez;
regozigemo-nos, e alegremo-nos nele” (Sl 118.24). Alegro-me por sua
mensagem de ressurreição, e o próprio Senhor Jesus Cristo diz: “Não temas;
eu sou o primeiro e o último, e o que vivo; fui morto, mas eis aqui estou vivo
pelos séculos dos séculos; e tenho as chaves da morte e do hades” (Ap
1.17b,18). Creio no Dia do Senhor porque é um dia de culto, de descanso, de
renovação da vida; é um dia de reconhecimento de Deus, de comunhão com Deus, de
dedicação do eu em tempo e vida a Deus.

O Dia de Descanso é um tipo dos céus. Já pensaram que toda a boa música que
praticada nas igrejas é apenas uma sombra do que vem, quando mudaremos toda
nossa atividade para o louvor? A pregação vai acabar, a Bíblia diz que “as
profecias serão aniquiladas” (1Co 13.8) e restará o eterno louvor do coro
dos anjos e salvos! No entanto, lembremos que aos olhos cristãos nenhum dia é
mais santo que o outro. Vamos rever os conceitos: não existe dia mais santo que
outro porque neles devemos trabalhar, e o trabalho sempre foi considerado uma
santa missão. (cf. Ex 20.9).

É assim que o Dia do Senhor dá profundidade, dimensão, altura e significado aos
demais dias! Que o Senhor nos ajude a compreender essa tão grande realidade, e
a compreender que Jesus Cristo, Ele sim, é o nosso eterno descanso!

Parte II
O CAMINHO DA
SALVAÇÃO
 Todos
precisamos de salvação. A vontade de Deus é que todos se salvem. Para
consecução desse plano, Ele enviou seu Filho unigênito, “para que todo aquele
que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). O verdadeiro
caminho é Jesus, que disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem
ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6). E Ele próprio convida o pecador para receber
salvação: “Estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta,
entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele, comigo” (Ap 3.20).

Primeiro passo

O homem deve reconhecer que é pecador; que está afastado de Deus pelo pecado;
que está numa situação miserável, pois “TODOS PECARAM E DESTITUÍDOS ESTÃO DA
GLÓRIA DE DEUS” (Rm 3.23). “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a
nós mesmos, e não há verdade em nós” (1 Jo 1.8). Pela desobediência do primeiro
casal o pecado entrou no mundo e com o pecado, a morte. O homem herdou de Adão
e Eva a natureza pecaminosa. O pecado original estendeu-se por toda a
humanidade como uma herança maldita, porque “semente gera semente da mesma
espécie”. Jesus foi o único homem, gerado no ventre de uma mulher, que não foi
contaminado pela semente danosa do pecado. Ele foi gerado pela semente de Deus,
e como tal pôde pagar o preço de nossa redenção.

Segundo passo

Arrependimento. Neste passo, o homem reconhece que é pecador e toma a decisão
de dar meia volta e seguir caminho diferente. João Batista dizia em suas
pregações: “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). Jesus
iniciou o seu ministério chamando todos ao arrependimento (Mt 4.17). Não basta
arrepender-se; é preciso deixar o pecado, deixar a mentira, o adultério, as
palavras torpes, tudo o que estiver em desobediência a Deus.

“O QUE ENCOBRE AS SUAS TRANSGRESSÕES NUNCA PROSPERARÁ, MAS O QUE AS CONFESSA E
DEIXA, ALCANÇARÁ MISERICÓRDIA” (Pv 28.13).

Terceiro passo

Aceitar Jesus como Senhor e Salvador: “Se, com a tua boca, confessares ao
Senhor Jesus, e, em teu coração, creres que Deus O ressuscitou dos mortos,
serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz
confissão para a salvação” (Rm 10.9-10). A essência da salvação está neste versículo:
fé, senhorio de Cristo e Sua ressurreição. “Confessar ao Senhor Jesus” não
significa apenas aceitá-LO de viva voz, numa decisão pública. Compreende,
também, levar uma vida cristã de obediência a Ele, em palavras e atos.

As conseqüências desses passos

Receberá perdão: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para
nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9).
Passará a viver uma nova vida: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova
criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co
5.17).
Será recebido como filho do Altíssimo: “Todos vós sois filhos de Deus pela fé
em Cristo Jesus” (Gl 3.26).
Receberá o Espírito: “Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o
Espírito de Deus habita em vós?” (1 Co 3.16).
Salvar-se-á: “Quem nEle crê não é condenado; mas quem não crê já está
condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18).

Parte III
O PASSAPORTE
PARA O REINO DE DEUS

A mensagem de João 3.1-12 –
Suponhamos que
você estivesse correndo em direção ao aeroporto a fim de viajar para um país
distante. Na hora de mostrar o passaporte no guichê você não o encontra de
jeito nenhum. De repente você se lembra que o deixou em casa, em cima do
televisor; porém, buscá-lo agora não seria possível porque você mora longe e,
de qualquer forma, perderá o vôo. Sem passaporte não há como embarcar. Assim é
em relação ao reino de Deus. Sem passaporte não há como entrar nele, e nem ao
menos vê-lo. Que passaporte é esse? Quem o expede? Como podemos consegui-lo?
Quanto custa? É o que pretendemos conferir neste estudo.

1. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento.

Nicodemos não compreendeu o significado bíblico do ensino de Jesus sobre o
reino de Deus, o novo nascimento e suas implicações. E você, compreende?

a. Um homem chamado Nicodemos

Seu nome é de origem grega e significa “conquistador do povo”. É
mencionado somente no Evangelho de João e sua primeira aparição ocorre no
capítulo 3, onde é descrito como fariseu (partido religioso da época), um dos
principais dos judeus (significando que era membro do Sinédrio, o mais alto
tribunal civil e eclesiástico de Israel) e mestre (isto é, um escriba, cuja
profissão era estudar, interpretar e ensinar a lei). Parece que apesar de saber
– juntamente com outros que pensavam como ele (cf. Jo 2.23) – que Jesus era
“Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que
tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2), Nicodemos temia ser
descoberto pelos judeus e denunciado a seus colegas fariseus, resultando em sua
expulsão do Sinédrio e da sinagoga. Seria esta a razão principal pela qual ele
foi ter com Jesus de noite? É provável que sim. Em João o medo religioso não é
um tema ignorado.

Mesmo sendo mestre em Israel Nicodemos não conseguiu entender, a priori, as
metáforas espirituais empregadas por Cristo (vv4,9). Nicodemos é mencionado
novamente em João 7.50,51, onde mostrou mais coragem ao protestar contra as
acusações feitas à pessoa de Jesus, sem que Ele fosse ouvido. A referência
final a Nicodemos aparece em João 19.39, onde se registra que ele trouxe uma
grande quantidade de especiarias valiosas para ungir o corpo de Jesus, o que
indica que era homem de posição social.

b. O conceito bíblico de reino de Deus

A idéia de reino de Deus está presente em toda a Bíblia. No entanto, a
expressão como tal aparece somente no Novo Testamento. A expressão “reino
de Deus” ocorre 4 vezes em Mateus, 14 vezes em Marcos, 32 vezes em Lucas,
2 vezes em João, 6 vezes em Atos, 8 vezes em Paulo e 1 vez no Apocalipse.
“Reino dos céus” aparece somente em Mateus (33 vezes). “Reino de
Deus” e “reino dos céus” são variações lingüísticas da mesma
idéia (cf. Mt 19.23,24). Mateus, que escreveu para os judeus, preferia usar a
expressão idiomática semítica, enquanto que os demais escritores do NT a forma
grega theós (Deus). Os judeus, por respeito e temor, normalmente usavam um
termo apropriado no lugar do nome de Deus (cf. Mt 21.25).

O reino de Deus também é o reino de Cristo. Jesus fala do reino do Filho do
homem (Mt 13.41; 16.28); de “meu reino” (Lc 22.30; Jo 18.36). Paulo
fala do “reino do Filho” (Cl 1.13) e “seu reino celestial”
(2 Tm 4.18). Pedro menciona a “entrada no reino eterno de nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 1.11). Deus confiou o reino a Cristo (Lc
22.29), e quando o Filho tiver completado o Seu governo, entregará o reino ao
Pai (1 Co 15.24). Por isso, é o “reino de Cristo e de Deus” (Ef 5.5).
“O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo” (Ap
11.15). Não existe nenhuma tensão entre “o reino do nosso Deus e a
autoridade do seu Cristo” (Ap 12.10).

Quando se compara João com os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), percebe-se
algo interessante. Nos sinóticos o tema dominante é o reino de Deus, cuja
expressão aparece somente 2 vezes em João (3.3,5), enquanto que vida, ou vida
eterna, é um conceito menos usado. Num estudo cuidadoso de Reino nos sinóticos
e de Vida em João, descobre-se que “ambos pertencem à mesma categoria
teológica, e são sinônimos”. De acordo com C. K. Barret, vida eterna em
João “substitui o reino de Deus dos evangelhos sinóticos”. Portanto,
quando Jesus fala de ver ou entrar no reino de Deus, é o mesmo que ter vida
eterna ou ser salvo (cf Jo 3.16,17). O reino de Deus é o âmbito em que seu
domínio é reconhecido e obedecido, e no qual prevalece sua graça. A menos que
alguém nasça de novo, não pode sequer chegar a ver o reino de Deus; isto é, não
pode experimentá-lo e participar dele; não pode possuí-lo e desfrutá-lo (Cf. Lc
2.26; 9.27; Jo 8.51; At 2.27; Ap 18.7). Antes que alguém possa ver esse reino,
antes que alguém possa entrar nesse reino, e antes que alguém possa ter vida
eterna em qualquer sentido, é necessário nascer de novo.

c. O contexto do novo nascimento

O contexto do diálogo de João 3 consiste na insuficiência de uma fé baseada em
sinais externos (Jo 2.23). Jesus não podia confiar naqueles cuja fé era
meramente superficial. Ele tinha conhecimento perfeito da natureza humana (Jo
2.24,25), como se vê na entrevista com Nicodemos. Num contexto mais amplo, por
assim dizer, não podemos entender adequadamente a doutrina do novo nascimento
fora do contexto do ser humano no pecado. O novo nascimento é necessário por
causa da seriedade do pecado e da incapacidade do ser humano de resolver, por si
só, o problema do pecado. Foi isso que Jesus disse a Nicodemos quando declarou
no verso 6: “O que é nascido da carne, é carne ; e o que é nascido do
Espírito, é espírito”. Segundo Hendriksen, “Este versículo pode ser
parafraseado do seguinte modo: A natureza humana pecadora produz natureza
humana pecadora (cf. Jó 14.4, ‘Quem da imundícia poderá tirar cousa pura?
Ninguém’. Cf. Também Sl 51.5). O Espírito Santo é o autor da natureza humana
santificada”.

Em sua primeira epístola, o apóstolo João trabalha a verdade do diálogo de
Jesus com Nicodemos na apresentação de seus resultados na vida moral do crente.
Aquele que é nascido de Deus crê e ama a Jesus: “Todo aquele que crê que
Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também
ama ao que dele é nascido” (1 Jo 5.1). Ele pratica a justiça: “Se
sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça
é nascido dele” (1 Jo 2.29). Não leva uma vida de pecado: “Todo
aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que
permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é
nascido de Deus” (1 Jo 3.9). “Sabemos que todo aquele que é nascido
de Deus não vive em pecado…” (1 Jo 5.18a). Ama seus irmãos em Cristo e
conhece a Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede
de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus, e conhece a Deus” (1 Jo
4.7). E experimenta a vitória da fé sobre o mundo: “Porque tudo o que é
nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa
fé” (1 Jo 5.4).

O verbo “nascer”, empregado por João no Evangelho e em sua 1a
Epístola, aparece no texto grego no tempo aoristo ou perfeito, indicando o
caráter único, decisivo e completo do novo nascimento, com efeitos profundos e
permanentes. Sendo assim, “De acordo com João, o que é o novo
nascimento?” Packer faz a pergunta e ele mesmo responde com muita
propriedade: “Não é uma alteração ou adição à substância ou às faculdades
da alma, e, sim, uma drástica mudança operada sobre a natureza humana caída,
que leva o homem a ficar sob o domínio eficaz do Espírito Santo e o torna
sensível a Deus, o que ele previamente não era. Não é uma mudança produzida
pelo próprio homem, da mesma forma que os infantes nada fazem a fim de induzir
ou contribuir para sua própria procriação e nascimento. Trata-se de um livre
ato de Deus, não provocado por qualquer mérito ou esforço humano (cf. Jo 1.12;
Tt 3.3-7), por ser totalmente um dom da graça divina”.

2. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo
Espírito Santo.

O Espírito santo é o agente do novo nascimento. Nascer de novo é o mesmo que
nascido do Espírito (v8) ou do alto, conforme sugere o advérbio grego ánothen
nos versos 3 e 7. Você já nasceu de novo?

a. O significado de nascer da água e do Espírito

O que significa nascer da água e do Espírito? A expressão nascer da água e do
Espírito tem sido interpretada de várias maneiras. As diferentes opiniões
acontecem, basicamente, em torno da expressão “nascer da água”. As principais
interpretações referem-se 1) à palavra de Deus (Pink, Mattew Henry, entre
outros); 2) ao batismo com água (Hendriksen, Lenski, entre outros); 3) à
operação purificadora do Espírito Santo (Calvino, Packer, entre outros). Estou
convencido de que a terceira interpretação é a correta. O argumento de Calvino
sobre esta passagem é digno de consideração. Diz ele que
“… depois de Jesus Cristo expor a Nicodemos a corrupção de nossa
natureza, e dizer-lhe que é preciso que sejamos regenerados, como Nicodemos
imaginava um segundo nascimento corporal, Cristo lhe mostra de que maneira Deus
nos regenera; a saber, em água e em Espírito; como se dissesse: Pelo Espírito,
o qual purificando e regando as almas faz o ofício da água. Desse modo é que eu
tomo a água e o Espírito simplesmente pelo Espírito, que é água. Esta maneira
de falar não é nova, visto que está de acordo com a que se encontra em Mateus,
onde João Batista diz: ‘O que vem após mim vos batizará com Espírito Santo e
com fogo’ (Mt 3.11). Portanto, como batizar com Espírito Santo e com fogo é dar
o Espírito Santo, o qual tem a natureza e a propriedade do fogo para regenerar
aos fiéis, da mesma forma nascer da água e do Espírito não quer dizer outra
coisa senão receber a virtude do Espírito Santo, que faz na alma o mesmo que a
água no corpo. Sei que outros interpretam esta passagem de outra maneira; mas
eu não tenho dúvida de que este é o sentido próprio e natural da mesma, uma vez
que a intenção de Cristo não é outra que advertir-nos sobre a necessidade de
nos despojarmos de nossa própria natureza se queremos entrar no reino de Deus.
(…) ninguém pode entrar no reino de Deus até ser regenerado com a água viva;
isto é, com o Espírito”.

Packer, seguindo o pensamento de Calvino, diz que em João 3.5 a palavra água
“não se refere a nada externo que seja complementar à obra interior do
Espírito nem ao batismo de João nem ao batismo cristão nem às águas do
nascimento natural, como algumas pessoas têm suposto, mas, sim, ao aspecto
purificador da renovação interior como tal, da maneira como é retratada em
Ezequiel 36.25-27”. Diz ele ainda que o fato de não se mencionar a água no
versículo 6 de João 3 é uma evidência de que no verso 5 a água é apenas
“uma ilustração de um aspecto da ação renovadora do Espírito”.

Concluímos, portanto, que assim como não há diferença entre ver o reino de Deus
e entrar nele; nenhuma distinção entre ver a vida (Jo 3.36) e entrar nela (Mt
19.17; Mc 9.43,45), também não existe qualquer diferença entre nascer da água e
do Espírito.

b. Livre e soberanamente

Em João 3 a natureza do novo nascimento fica evidente naquela analogia
empregada por Jesus quando diz: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz,
mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do
Espírito” (Jo 3.8). Além disso, a palavra grega ánothen (de novo, vv3,7),
que também poderia ser traduzida por “de cima”, “do alto”,
“do céu” (o que é o mesmo que dizer, “de Deus” [Jo 1.13]),
evidencia ainda mais o caráter livre e soberano do Espírito Santo na obra da regeneração.
Tendo-se em vista a estrutura vertical do pensamento joanino, e a ênfase que
ele coloca na ação soberana do Espírito, a tradução “de cima” (e
equivalentes), ajusta-se melhor ao contexto. Sendo assim, por que utilizamos
também a expressão nascer “de novo”? Nós a utilizamos porque 1) é uma
tradução possível no presente contexto, e 2) em João nascer do “alto”
significa o mesmo que nascer de novo e vice-versa.

“Provavelmente, enquanto Jesus conversava com Nicodemos sobre essas
questões, o vento noturno soprou mansamente pelas ruas estreitas do lugarejo, e
sua presença refrescante e fria varreu o que fora deixado nas ruas durante o
dia. Essa circunstância pode ter sugerido a ilustração usada por Jesus, e
convenhamos que foi uma figura simbólica muito apropriada para representar as
operações do Espírito de Deus” (CHAMPLIN, op. cit., 307).

A comparação que Jesus faz entre o vento e o Espírito Santo em João 3.8 para
ilustrar o novo nascimento é muito inteligente. A começar pelo uso dos termos,
em português “vento” e “Espírito” são traduções distintas
de uma mesma palavra grega, a saber, pneuma. Somente o contexto é que define a
tradução correta. A comparação de Jesus também é indicada pela palavra
“assim”. Além disso, nota-se dois pontos na analogia. O primeiro
ponto é visto na expressão “onde quer”; e o segundo (que estudaremos
mais adiante) na expressão “não sabes”.

Teologicamente falando, assim como o vento sopra onde quer, ouvimos a sua voz,
mas não sabemos donde vem, nem para onde vai; o Espírito Santo age livre e
soberanamente, implantando no coração a vida que tem sua origem não nos homens,
mas em Deus.

O vento é uma força que não podemos dominar nem barrar. O vento não consulta o
beneplácito de ninguém, nem pode ser regulado pelos artifícios de quem quer que
seja. Assim acontece com o Espírito. O vento sopra quando quer, onde quer, como
quer. Assim se dá com o Espírito. Do modo como o ir e vir do vento não pode ser
controlado pelo homem, também o novo nascimento do Espírito é independente da
vontade humana (cf. Jo 1.13). O vento é regulado pela sabedoria divina.
Todavia, no tocante ao ser humano, é absolutamente livre e soberano em suas
operações.

Do mesmo modo é o Espírito Santo. Às vezes o vento sopra tão suavemente que as
folhas quase não farfalham; em outras ocasiões, sopra com tanta força que seu
rugido pode ser ouvido a muitos quilômetros de distância. Assim também podemos
observar na questão do novo nascimento. Com algumas pessoas o Espírito Santo
trata de maneira tão suave que a sua atuação é quase imperceptível a
observadores humanos; com outras, sua ação é tão poderosa, radical e
revolucionária que suas operações tornam-se evidentes para muitos. Às vezes, o
vento tem alcance meramente local; em outras ocasiões sua área de atuação é de
grande alcance. Assim acontece com o Espírito Santo: hoje ele regenera uma ou
duas pessoas, ao passo que amanhã poderá compungir o coração de multidões
inteiras, conforme ocorreu no dia de Pentecostes. Seja como for, agindo em
poucos ou em muitos, ele não consulta homem algum. Age como quer. O novo
nascimento se deve à vontade livre e soberana do Espírito Santo de Deus.

c. Sobrenatural e misteriosamente

O caráter sobrenatural e misterioso do Espírito Santo na obra da regeneração
pode ser encontrado também na analogia do vento e o Espírito, principalmente na
parte em que Jesus diz: “não sabes donde vem, nem para onde vai”. O
Mestre ensina a Nicodemos que a obra regeneradora do Espírito Santo não pode
ser entendida em seu aspecto místico e sobrenatural, como Nicodemos queria (Jo
3.9), ao mencionar o vento como exemplo de comparação. Do mesmo modo que
ninguém sabe de onde vem o vento, nem para onde vai , assim é todo o que é
nascido do Espírito. E assim como o vento, a ação oculta do Espírito Santo no
coração humano não pode ser vista ou controlada, mas seus efeitos são
inconfundivelmente evidentes.

Se olharmos atentamente para João 3.1-12, veremos que o sobrenatural e o
misterioso estão presentes do começo ao fim da passagem. A própria expressão
“nascer de novo” ou “do alto” soava incompreensível aos
ouvidos de Nicodemos. O mestre de Israel sabia que Jesus falava de nascimento,
mas não entendeu a natureza desse nascimento, que é espiritual (Jo 3.4). Não
devemos interpretar a pergunta admirada de Nicodemos como se ele pensasse que
realmente deveria retornar ao ventre materno e nascer segunda vez. Certamente
ele aguardava uma resposta negativa por parte de Jesus. E assim, como é
absolutamente impossível alguém entrar no ventre materno e nascer pela segunda
vez, espiritualmente falando também não existe qualquer possibilidade de alguém
entrar no reino de Deus se não nascer de novo. Pelo menos, a colocação de
Nicodemos em João 3.4 serviu para Jesus desenvolver ainda mais o que Ele queria
ensinar. A expressão nascer da água e do Espírito, que para nós ocidentais
parece estranha e, por isso, tem dado margem para diversas interpretações, foi
usada por Jesus para facilitar a compreensão de Nicodemos sobre o novo
nascimento, sem perder de vista o caráter sobrenatural e misterioso do mesmo.

Segundo Bruce, a expressão nascer da água e do Espírito “ecoa a linguagem
do A. T. e pode ter sido escolhida para fazer soar uma campainha na mente de
Nicodemos”. E mais:
“Se ele considerasse impossível adquirir uma natureza nova mais tarde na
vida, agora deveria lembrar que Deus tinha prometido fazer exatamente isto em
seu povo Israel: ‘Aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; … e
porei dentro de vós espírito novo (Ez 36.25s.). Este ‘espírito novo’ era o
Espírito do próprio Deus: ‘Porei dentro em vós o meu Espírito’ (Ez 36.27). A
promessa a Israel através de Ezequiel foi ampliada na visão do vale de ossos
secos, quando o profeta obedeceu à ordem divina: ‘Profetiza ao espírito (=
sopro), profetiza, ó filho do homem, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Vem
dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes ossos, para que vivam’ (Ez
37.9). Nesta passagem de Ezequiel, como na presente passagem do quarto
evangelho, deve ser lembrado que a mesma palavra hebraica (rûah) e grega
(pneuma) pode ser traduzida por ‘sopro’, ‘vento’ ou ‘espírito’, dependendo do
contexto”.

Novamente Jesus é mal compreendido pelo fariseu. “Então, lhe perguntou
Nicodemos: Como pode suceder isto? Acudiu-lhe Jesus: Tu és mestre em Israel e
não compreendes estas cousas?” (Jo 3.9,10). O ensino de Jesus foi sem
dúvida uma grande lição para um homem que acreditava, como muitos de sua época,
que podia salvar-se mediante a obediência da lei de Moisés, e por muitos outros
preceitos produzidos pelos homens. Jesus esperava que um homem como Nicodemos,
famoso por suas exposições das Escrituras, reconhecido como autoridade em todas
as questões religiosas (cf. Jo 7.50,51), compreendesse com naturalidade o que
Ele dizia, visto que Seu ensino não era completamente novo. Estava respaldado
no Antigo Testamento.

Jesus continua: “Se, tratando de cousas terrenas, não me credes, como
crereis, se vos falar das celestiais?” (Jo 3.11). O que Jesus quis dizer
com essas palavras? Se o novo nascimento é algo sobrenatural, por que Ele o
chama de “cousas terrenas”? E o que seriam, porventura, as coisas
“celestiais”? Uma das melhores interpretações que encontrei foi a de
F. F. Bruce. Diz ele: “A maneira mais natural de entender as coisas
terrenas é atentar para o que Jesus estava falando. Pode parecer estranho
classificar o novo nascimento como algo ‘terreno’, pois, por natureza, é um
nascimento do alto; mas é ‘terreno’ no sentido de que acontece na terra e pode
ser ilustrado por analogias terrenas. No ensino de Jesus, o novo nascimento faz
parte do estágio elementar. Há muito mais a ser aprendido depois de
compreendida esta lição, mas como pode alguém que ainda não o experimentou
avançar para compreender a plenitude da revelação de Deus em Cristo? Entre as
coisas ‘celestiais’, que não têm analogias terrenas, podem ser mencionadas a
relação eterna do Filho com o Pai e sua encarnação na terra. Estas coisas estão
totalmente fora do alcance da experiência humana; para saber delas somos
completamente dependentes de alguém que veio de Deus para revelá-las, o Filho
do homem”.

Concluímos que mesmo quando sabemos o momento exato do nosso novo nascimento,
ainda assim não é possível compreender tão alto mistério. Teólogos e filósofos
não são capazes de resolver este assunto. A teologia e a filosofia não
conseguem desvendá-lo. Charles Hodge, o erudito de Princeton, expressou-se
simplesmente da seguinte forma acerca do mistério da regeneração: “Não
está ao alcance da filosofia ou da teologia resolver este mistério. É, contudo,
o dever do teólogo examinar as várias teorias salvíficas, e rejeitar toda
semelhança quando são inconsistentes com a Palavra de Deus”.

3. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo
Espírito Santo de graça.

Se você ainda não tem, adquira hoje mesmo seu passaporte gratuitamente e faça
uma boa viagem.

a. Por que de graça?

Em um comercial de televisão, o vendedor oferecia um produto que garantia a
aquisição de um outro “de graça”, segundo ele. “Por que de
graça?”, perguntava, e a resposta logo em seguida era, “porque de
graça é melhor!”. No que se refere à obtenção de nosso passaporte para a
vida eterna não dá para agir assim. O passaporte para o reino de Deus não pode
ser adquirido como se fosse um brinde por termos comprado (ou merecido) alguma coisa.
O passaporte para o reino de Deus só pode ser obtido de graça, pela graça, por
intermédio da fé. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto
não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”
(Ef 2.8,9). O passaporte para o reino de Deus é um presente do Senhor para nós;
por isso, não existe nenhuma outra maneira de consegui-lo a não ser de graça,
pois somos pecadores por natureza, impossibilitados de adquiri-lo por nossos
próprios méritos (cf. Rm 3.23; 6.23).

Cristo garantiu o nosso passaporte através de sua morte na cruz. O Espírito
Santo é, por assim dizer, o expedidor ou agente desse passaporte. Em linguagem
teológica isso significa que o Espírito Santo é o aplicador da obra redentora
de Cristo. “O único agente eficaz na aplicação da redenção”, segundo
nos ensina a Confissão de Fé de Westmisnter. De acordo com o Breve Catecismo,
“Tornamo-nos participantes da redenção adquirida por Cristo pela eficaz
aplicação dela a nós pelo Seu Santo Espírito”. Vemos, então, que o
Espírito Santo está estreitamente ligado à pessoa e obra de Cristo. Por conta
disso, a Bíblia o denomina de “Espírito de Jesus” (At 16.7);
“Espírito de Cristo” (Rm 8.9); “Espírito do Filho” (Gl 4.6)
e “Espírito de Jesus Cristo” (Fp 1.19). Em outro lugar Paulo diz:
“Ora o Senhor é o Espírito” (2 Co 3.17). Isto não significa que
Cristo e o Espírito sejam a mesma pessoa, e sim, que há uma unidade divina
entre ambos para a nossa redenção. Cooperam mutuamente com esta finalidade.
Podemos perceber a clareza deste fato quando lemos Mateus 28.20; João 15.26;
16.14,15, onde Cristo promete retornar a Seus discípulos e a nós no Espírito. É
por isso que Paulo diz em algumas vezes que é Cristo e em outras o Espírito
Santo quem habita em nós (Rm 8.9,10; 1 Co 3.16; Gl 2.20).

Concluímos, então, que o passaporte para o reino de Deus é de graça porque não
existe a mínima possibilidade de alguém nascer de novo, ser salvo e obter a
vida eterna por seu próprio esforço ou mérito pessoal. A salvação não pode ser
comprada ou ganha por obras ou merecimento (At 15.11; Ef 2.8,9). É de graça!
Porém, custou um alto preço ao nosso Senhor e Salvador. Paulo diz que fomos
“comprados por preço” (1 Co 6.20), e Pedro complementa dizendo que
não fomos salvos “mediante cousas corruptíveis, como prata ou ouro…, mas
pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de
Cristo” (1 Pe 1.18,19). O mérito é todo de Cristo. Ele pagou um alto preço
para que míseros pecadores como nós pudessem ser salvos de graça.

b. A graça de Deus no novo nascimento.

“Graça” é o favor imerecido de Deus para conosco. Nenhum de nós é
merecedor de ver ou entrar no reino de Deus através do novo nascimento, a não
ser pela graça. Graça é o favor imerecido de Deus para quem estava em débito
com Ele.

Imaginemos a seguinte situação: ao se deparar na rua com um mendigo que nunca
vira antes, alguém tira um dinheiro do bolso e lhe entrega. Esta atitude de
ajudar o mendigo, por mais louvável e recomendável que seja, ainda não é graça.
É compaixão. Agora, se aquela pessoa compassiva ajudasse um mendigo ou alguém
que fez mal a ela; alguém que prejudicou sua vida e, por isso, está em débito
com ela, e mesmo assim se dispõe a ajudar o ofensor, isso é graça.
Graça é um favor imerecido para quem está em débito com aquele que o ajuda.

Uma diferença básica entre graça e compaixão no que se refere à pessoa de Deus,
é que na primeira o Senhor nos deu o que não merecíamos. Paulo diz:
“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida
eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23). E mais: “Porque pela
graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de
obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). Não merecíamos a vida
eterna. Quanto à misericórdia ou compaixão de Deus, Ele não nos deu o que
merecíamos; a saber, a morte eterna. “Num ímpeto de indignação escondi a
minha face por um momento; mas com misericórdia eterna me compadeço de ti, diz
o Senhor, o teu Redentor” (Is 54.8).

Tiago diz que “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto,
descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de
mudança” (Tg 1.17). O novo nascimento descrito em João 3 também vem do
alto. É um dom da livre graça de Deus. Uma obra realizada pelo Espírito Santo,
a fim de que cegos espirituais possam ver o reino de Deus; que pessoas
afastadas dele por causa do pecado possam entrar; e que mortos em seus delitos
e pecados possam viver a vida do reino. O novo nascimento é o dom da graça de
Deus que muda a disposição de nossa alma, inclinando nosso coração para o
Senhor.

A regeneração é uma dádiva graciosa de Deus, como toda boa dádiva e todo dom
perfeito que vêm do alto. Tudo de bom que recebemos ou possuímos nesta vida, e
que nos aguarda no futuro também, é pela graça. Nada é nosso, exceto o pecado.

“A graça se adapta melhor à nossa necessidade do que qualquer outra coisa.
Visto que o pecado é um tirano que reina sobre nós, e pretende levar-nos à
morte eterna, que esperança podemos ter de salvação firmados em nossos próprios
esforços? Quando nossas consciências ficam alarmadas por causa de nossas muitas
falhas vergonhosas, não estamos em desespero? Lembre-se, porém, de que a
salvação é pela graça de Deus! A graça de Deus está fundamentada na obediência
perfeita e meritória de Cristo. O pecado não pode destruir o valor disso. A
graça pode reinar sobre a maior indignidade (cf. Rm 5.21). Na verdade, é só com
o indigno que a graça se preocupa. Isso é assombroso! Isso é maravilhoso! Há
esperança de salvação para o pior indivíduo, se é que ela é assegurada pela
riqueza da graça que reina”.

c. A condição necessária do novo nascimento

A condição necessária do novo nascimento aparece, pelo menos, em duas ocasiões
em João 3.1-12.
A primeira delas ocorre no verso 3 quando Jesus diz a Nicodemos: “… se
alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Segundo Sproul,
“Quando Jesus disse a Nicodemos que ‘se’ alguém não nascesse de novo, ele
estava afirmando aquilo a que chamamos de condição necessária. Uma condição
necessária é um requisito absoluto para que um resultado desejado qualquer
tenha lugar. Por exemplo, não pode haver fogo sem a presença do oxigênio, pois
o oxigênio é uma condição necessária para que haja combustão. (…). A palavra
‘se’ faz da regeneração um sine qua non da salvação. Não havendo regeneração,
não haverá vida eterna”. Vale destacar, ainda, que por três vezes nesta
passagem Jesus utiliza o prefácio solene “em verdade, em verdade te
digo” (Jo 3.3,5,11). As palavras “em verdade” em forma duplicada
aparecem 25 vezes somente no Evangelho de João, e sempre pronunciadas pelo
Senhor Jesus. Essas palavras – do hebraico amém, transportado para o Novo
Testamento – denota uma forte ênfase. Em outras palavras, quando Jesus falou
sobre a regeneração como uma condição necessária para ver e entrar no reino de
Deus, ele declarou essa condição necessária de maneira enfática. Além dessas
palavras (“em verdade,…”), a expressão “não pode” também
é crucial no ensino de Jesus.

“Trata-se de uma expressão negativa que aborda a idéia de habilidade ou
possibilidade. Sem a regeneração, ninguém (negativa universal) é capaz de
entrar no reino de Deus. Não há exceções. É impossível alguém entrar no reino
de Deus sem ter renascido”.
A segunda ocasião em que aparece a condição necessária do novo nascimento em
João 3, encontra-se no verso 7. A versão Almeida Revista e Atualizada (ARA),
adotada neste estudo, traduz assim o versículo: “Não te admires de eu te
dizer: importa-vos nascer de novo”. Outras possíveis traduções são as
seguintes: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de
novo” (ARC); “Por isso não se admire de eu dizer que todos vocês
precisam nascer de novo” (BLH). Para Nicodemos aquela história toda sobre
nascer de novo parecia muito estranha. Ele estava acostumado à idéia de
salvação por meio das obras da lei; isto é, por uma ação do homem. Mas o
ensinamento que agora recebe é que a salvação é um dom de Deus, e que, em sua
primeira etapa, tem lugar por meio de um acontecimento no qual o homem é
necessariamente passivo.

“Com freqüência, na pregação de nossos dias, interpreta-se mal a expressão
necessário vos é. Deve-se entender claramente que, em concordância com todo o
contexto, não se refere à esfera da obrigação moral mas à do decreto divino.
Quando Jesus diz: ‘Necessário vos é nascer de novo’, não significa, ‘Fazei todo
o possível para nascer de novo’. Pelo contrário, o que quer dizer é: ‘Algo tem
que suceder-vos: o Espírito Santo deve por em vosso coração a vida do alto’. E
Nicodemos precisaria ter um conhecimento suficientemente profundo de sua
própria incapacidade e corrupção para compreender isto imediatamente. Assim não
teria mostrado com sua expressão ou com suas palavras que lhe parecia tão
estranha e surpreendente o ensino de Jesus acerca da absoluta necessidade e do
caráter soberano da regeneração”.

Deus seja louvado por tão grande salvação! O passaporte para o reino de Deus é
o novo nascimento produzido pelo Espírito Santo de graça.
Notas:
À luz das palavras de Nicodemos em João 3.2, é provável que ele tivesse presenciado
os sinais que Jesus fazia em Jerusalém durante a festa da páscoa (Jo 2.23). O
“sabemos” de Nicodemos (v2) e o “sabemos” de Jesus (v11),
parecem sugerir um contraste entre o conhecimento produzido pela reflexão
humana e o conhecimento resultante da estreita comunhão com o Pai. Para outras
possíveis interpretações consulte R. N. CHAMPLIN, O Novo Testamento
Interpretado Versículo por Versículo: Lucas-João, Vol. II. Guaratinguetá: A Voz
Bíblica, s/d, p. 308.

Não estamos considerando as três vezes em que a palavra “reino”
aparece isoladamente em João 18.36. Cf. Júlio Paulo Tavares ZABATIERO, Vida.
In: DITNT. São Paulo: Vida Nova, Vol. IV, 1983, p. 758. Um exemplo de que as
expressões reino de Deus e vida eterna são equivalentes pode ser encontrado em
Marcos, onde “entrar na vida” (Mc 9.43,45) é o mesmo que “entrar
no reino de Deus” (Mc 9.47). Ibdem.

Cf. HENDRIKSEN, op. cit., p. 143. “Carne” em João 3.6 não tem a mesma
conotação de João 1.13. Nesta última passagem “carne” indica desejo
carnal, o impulso sexual do homem e da mulher; enquanto que em João 3.6
refere-se à natureza não regenerada que está em oposição ao Espírito (cf. Gl
5.17). HENDRIKSEN, op. cit., p. 145.

J. I. PACKER, Vocábulos de
Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 1994, p. 137.

João CALVINO, Institución de la Religión Cristiana (IV, xvi, 25). 3ª
ed. Países Bajos: Felire, 1986, Vol.
II,
p. 1061,2. Em seu comentário de João, Calvino trata deste assunto ainda com
mais detalhes.
Consulte Calvin’s Commentaries: The Gospel According
to St John 1-10. Grand Rapids: Eerdmans, 1961, p. 64,65.
J. I. PACKER, Na Dinâmica do Espírito.
São Paulo: Vida Nova, 1991, p. 64. Idem, p. 64,65. Embora esteja ciente da
distinção que alguns teólogos fazem entre “regeneração” e “novo
nascimento”, neste estudo essas palavras são usadas indistintamente.

Jesus não disse que ninguém conhece a direção do vento, e sim, que ninguém
conhece sua origem e seu destino. F. F. BRUCE, op. cit., p. 81. Idem, p. 81,82. Note que o pronome
pessoal da segunda pessoa do singular (tu) está subentendido na frase;
portanto, a expressão “não me credes” refere-se a Nicodemos, enquanto
que “como crereis”, que está na segunda pessoa do plural, refere-se a
Nicodemos e àqueles que ele representava.

BRUCE, op. cit., p. 84,85.

C. HODGE, Sistematic Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1946, Vol. III, p. 6.
XXXIV, 3. Resposta 29.

Abraham BOOTH, Somente Pela Graça. São Paulo: PES, 1986, p. 15. R. C. SPROUL, O
Mistério do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 94.

Cf. João 7.13; 9.22; 12.42; 19.38. Para outras possibilidades do porquê
Nicodemos ter visitado Jesus à noite, consulte G. HENDRIKSEN, Comentario Del
Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids:
SLC, 1987, p. 142.
Alguns
eruditos identificam Nicodemos com Nicodemos ben Gorion, um rico cidadão de
Jerusalém e irmão de Josefo ben Gorion, o famoso escritor das guerras e
antigüidades dos judeus. Mas não há provas conclusivas a respeito desta
identificação. Consulte F. F. BRUCE, João: Introdução e Comentário. São Paulo:
Vida Nova/Mundo Cristão, 1987, p. 78; R. N. CHAMPLIN, op. cit., p. 303. Cf. G.
E. LADD, Reino de Cristo, de Deus, dos Céus In: EHTIC. São Paulo: Vida Nova,
Vol. III, 1990, p. 262.

Idem, p. 95. Ibdem. Consulte a nota 21 para o significado dos pronomes pessoais
usados por Jesus neste diálogo. Cf. G. HENDRIKSEN, op. cit., p.
145.
Ibdem.

Parte IV
O
SIGNIFICADO DA SALVAÇÃO
 Quais as
implicações práticas da salvação em Cristo Jesus para o homem e a mulher de
hoje?  A expressão JESUS SALVA é muito
conhecida em nossos dias, pois além de ser convencionalmente anunciada é comum
vê-la nos vidros dos carros e nos pára-choques dos caminhões. Entretanto, o que
ela realmente significa? Antes de tudo é importante ter em mente que Jesus é
salvação. Ele é a própria salvação, ou melhor, a única salvação. Pedro afirmou:
“E não há salvação em nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual
importa que sejamos salvos” (At 4.12). Para o apóstolo Pedro Jesus é a
salvação no mais profundo sentido da palavra.

Complementando Pedro, o apóstolo Paulo, por sua vez, acrescenta:
“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo
Jesus, homem” (I Tm 2.5). Além disso, o apóstolo entendia que o propósito
divino para a salvação de alguém é eterno. “… Deus nos escolheu desde o
princípio para a salvação…”, diz Paulo em 2 Tessalonicenses 2.13. E em
Efésios 1 diz ainda que Deus nos escolheu em Cristo para a salvação antes da
fundação do mundo.

O Senhor Jesus, dentre outras maneiras, apresentou a salvação em termos de ato
e processo, libertação e manutenção.

Vejamos, resumidamente, o que significa a salvação em Cristo Jesus.

1) LIBERTAÇÃO DO PECADO

Que é pecado?
“Pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer
transgressão desta lei” (Breve Catecismo de Westminster, cf Tg 2.10; 4.17;
I Jo 3.4). Em outras palavras, pecado é tudo aquilo que se faz contrário à
vontade de Deus. É errar o alvo naquilo que Deus quer para a nossa vida.

O pecado surgiu no jardim do Éden com a desobediência dos nossos primeiros
pais, ao comerem do fruto proibido (Gn 3.12,13; Os 6.7). Uma vez que Adão era o
nosso representante diante de Deus, o gênero humano que dele procedeu por
geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na sua primeira transgressão (Gn
1.28; At 17.26; Rm 5.12-14; I Co 15.21,22). Por causa desta transgressão todo
gênero humano possui agora uma natureza corrompida e escravizada pelo pecado
(Sl 51.5; Rm 5.18,19; 6.6,17,20; 8.7; Ef 2.1-3). E o resultado final de tudo
isto é que a humanidade perdeu a comunhão com Deus, está debaixo de sua ira e
maldição, e assim sujeita a todas as misérias nesta vida, à morte e às penas do
inferno para sempre (Gn 3.8,24; Mt 25.41-46; Rm 6.23; Ef 2.3).

Mas Deus deixou todas as pessoas perecerem em seus pecados? De modo algum!
“Tendo Deus, unicamente pela sua boa vontade desde toda a eternidade
escolhido alguns para a vida eterna, entrou com eles em um pacto de graça, para
os livrar do estado de pecado e miséria, e trazê-los a um estado de salvação
por meio de um Redentor” (Breve Catecismo, cf Jo 17.6; Ef 1.4; Tt 1.2). E
quando aceitamos a Jesus e por Ele somos salvos, o Pai nos justifica.
“Justificação é um ato da livre graça de Deus, no qual Ele perdoa todos os
nossos pecados e nos aceita como justos diante de Si, somente por causa da
justiça de Cristo a nós imputada, e recebida só pela fé” (Rm 5.18; 2 Co
5.21; Gl 2.16).

Para que alguém seja salvo por Cristo é necessário que se arrependa dos seus
pecados e creia no Senhor Jesus como único e suficiente Salvador de sua vida
(Mc 1.15; At 16.31).

2) LIBERTAÇÃO DO PECADO PARA A VIDA ETERNA

A morte foi e sempre será, como conseqüência do pecado, a maior de todas as
calamidades que o ser humano já experimentou na face da terra. A morte é o
pagamento mais elevado do pecado, “porque o salário do pecado é a
morte” (Rm 6.23a). Portanto, viver eternamente, há muitos e muitos anos,
tem sido o anseio do coração de cada pessoa. Haja vista, por exemplo, a
preocupação de Juan Poncil de Leon que no século XV saiu à procura duma fonte
da juventude, e de Cleópatra, a rainha egípcia do século I a. C., que passava
horas e horas se banhando em água com plantas aromáticas para imortalizar a sua
idade juvenil.

A não conformidade com a morte gera a esperança de uma vida eterna. Eis alguns
exemplos da Antigüidade: Indígenas colocavam junto aos mortos as armas que
estes haviam usado em vida, na certeza de que lhes seriam úteis nas lutas do
além. Os groenlandeses enterravam junto às crianças um cão para guiá-las
através do bosque sombrio que supunham existir nos limites da outra vida. Os
egípcios punham à disposição do morto, na sua tumba, um esboço de uma das
regiões do além. Os gauleses ‘emprestavam’ dinheiro aos defuntos na expectativa
de reavê-lo na outra vida. Os gregos colocavam, na boca dos cadáveres, uma
moeda de prata, a fim de pagarem a passagem pela travessia de um rio que,
segundo se cria, limitava os dois mundos.

VIDA ETERNA é a expressão que praticamente resume a missão de Cristo, agora e
sempre, para todo aquele que nEle crê. “Porque Deus amou ao mundo de tal
maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça,
mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Paulo salienta: “Ele (Cristo) vos
deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2.1). A
palavra “vida” usada por Paulo em Efésios 2.1 é, em grego, ZOE e não
BIOS, indicando, desse modo, aquela qualidade de vida espiritual e eterna que
só Jesus pode dar.
Vale a pena ressaltar que “a vida eterna não é simples existência eterna;
significa existir com todas as faculdades desenvolvidas em plenitude de
alegria. Não é existir como a erva seca, mas sim, como a flor em toda a sua
beleza” (Carlos Spurgeon, O Conquistador de Almas).

A vida eterna consiste no conhecimento de Deus (cf Jo 17.3). Este conhecimento,
longe de ser uma simples questão de compreensão intelectual acerca de Deus,
significa, na verdade, um relacionamento pessoal, devocional e íntimo com Ele.
A vida eterna é uma obra da livre graça de Deus que adquirimos quando nos
convertemos, isto é, quando nos arrependemos de nossos pecados e cremos em
Jesus para a nossa salvação. E nem mesmo a morte física serve de obstáculo para
a vida eterna; pelo contrário, a morte, para os crentes, é “uma libertação
do pecado e um passo para a vida eterna” (Catecismo de Heidelberg, cf Jo
5.24; Rm 7.24; Fp 1.23). Além disso, ter a vida eterna é o mesmo que estar
salvo num processo irreversível (Jo 5.24; 6.47; 10.27,28; I Jo 5.13). Vida
eterna, como o próprio nome indica, não é uma coisa que temos hoje e perdemos
amanhã. Neste caso seria vida transitória, jamais eterna.

“O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna
em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 6.23).

3) LIBERTAÇÃO DO PECADO PARA A VIDA ETERNA EM SANTIDADE DE VIDA

A santidade de vida consiste no fato de morrermos cada vez mais para o pecado e
vivermos para a retidão (cf Rm 6.6; 12.1,2; Ef 4.20-24; I Pe 1.2). E não há
outra coisa que Deus mais deseja para aqueles que foram libertados do pecado,
enquanto estiverem no mundo, senão uma vida contínua de santificação.
“Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação”, diz Paulo (I
Ts 4.3). E Pedro complementa: “… segundo é santo aquele que vos chamou,
tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque
escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (I Pe 1.15,16).

Paulo diz ainda em Efésios 1.4 que a nossa eleição por parte de Deus visava a
nossa santificação: “… nos escolheu… para sermos santos e
irrepreensíveis perante Ele”. E não somente isto, mas a santidade de vida
é também uma das grandes evidências de nossa eleição e salvação (cf 2 Pe
1.3-11).

É necessário que estejamos atentos para o estado perigoso de muitos que
professam a fé cristã hoje em dia. Sem a santificação “ninguém verá ao Senhor”,
diz o autor de Hebreus (Hb 12.14). Quanto a este particular, o erudito John
Owen, puritano do século XVII, afirmou: “Não há imaginação mais tola e
perniciosa, que costuma caracterizar os homens, do que esta – que pessoas não
purificadas, não santificadas, cujas vidas não são santas, supostamente possam
ser levadas àquele estado de bem-aventurança que consiste no aprazimento de
Deus. Nem tais pessoas desfrutariam de Deus, e nem Deus seria uma recompensa
para elas. A santidade, na verdade, será aperfeiçoada no céu, mas os seus
primórdios invariavelmente estão confinados a este mundo”.

“Não há salvação sem santificação”, costumavam dizer os puritanos do
passado.

De que maneira trocamos o pecado pela vida de santidade? Como a velha natureza
ainda faz parte de nossa vida, devemos lutar constante e diligentemente contra
toda forma de pecado. O bispo anglicano J.C.Ryle, em seu famoso livro
Santidade, apresenta-nos uma receita infalível para se lutar contra e vencer o
pecado. Diz ele: “A santidade também é algo que depende em muito do uso
diligente dos meios bíblicos. Quando falo em meios, tenho em vista a leitura da
Bíblia, a oração privada, a freqüência regular à adoração pública, o ouvir
constante da Palavra de Deus e a participação regular na Ceia do Senhor. Afirmo
como um simples fato que ninguém que se descuida quanto a esses exercícios pode
conseguir grande progresso no caminho da santificação. (…). Deus opera
através de meios, e Ele nunca abençoará uma alma que pretenda ser tão elevada e
espiritual que possa dispensar esses exercícios, como se fossem
desnecessários”.

O Pai celestial nos abençoará através dos meios, mas só se estivermos dispostos
a nos apropriarmos deles (Mc 14.38). E não se esqueça: Jesus Cristo deve ser o
maior exemplo de santidade a ser imitado por você (Cl 2.6; I Pe 2.21,22; I Jo
2.6). Pois só assim é possível manifestar a fé verdadeira, porque, como
sabemos, a fé sem obras é morta!

4) LIBERTAÇÃO DO PECADO PARA A VIDA ETERNA EM SANTIDADE DE VIDA, VISANDO A
GLÓRIA DE DEUS

Em sua pergunta de nº 3, o Catecismo de Doutrina Cristã declara: “Para que
fim vos criou Deus a vós e a todas as coisas?”. “Para a sua própria
glória”, é a resposta. Esta declaração singela resume o conteúdo de toda a
Bíblia no que concerne ao propósito de Deus para a Sua criação em geral, e para
o ser humano em particular.

A glória de Deus é o tema da revelação geral (a criação) e da revelação
especial (a Palavra). O Salmo 19 é um exemplo maravilhoso de declaração e
manifestação da glória de Deus pela criação (vv1-6) e pela Palavra (vv7-14).
Contudo, somente a Bíblia é a única regra para nos dirigir na maneira correta
de glorificar a Deus. E dentro do que estamos apresentando até aqui,
concluímos, pela Palavra de Deus, que a salvação em Cristo, que consiste na
libertação do pecado para vivermos eternamente em santidade de vida, não tem
outro fim supremo e principal senão o de glorificar a Deus.

Mas o que significa glorificar a Deus? A palavra glorificar às vezes significa
tornar alguém glorioso, ou conceder-lhe glória; outras vezes quer dizer
reconhecer alguém como glorioso, ou manifestar sua glória. No primeiro sentido
se diz que Deus glorifica (torna ou concede glória) tanto a Cristo (At 3.13)
como aos justificados (Rm 8.30). Neste caso, portanto, não podemos glorificar a
Deus, pois nada podemos acrescentar à perfeição que Ele tem em si mesmo.

O segundo sentido de glorificar, que ocorre várias vezes nas Escrituras, quer
dizer que podemos e devemos declarar por palavras e atitudes que Deus é
glorioso, isto é, honrá-lO e louvá-lO como tal, e tornando conhecidas de outros
Sua majestade, bondade, etc.

Nós glorificamos a Deus quando cantamos para Ele, quando oramos a Ele, quando
estudamos a Sua Palavra e, principalmente, quando fazemos a Sua vontade (Mt
12.50; Lc 6.46-49). Ademais, é importante ficar claro que de nossa parte apenas
glorificamos a Deus quando fazemos as coisas com o propósito de glorificá-lO de
fato (cf I Co 10.31). Digo isto simplesmente porque Deus não tem prazer naquilo
que não O Glorifica. Por exemplo: Quantas vezes oramos a Deus com o fim de
satisfazermos simplesmente os nossos próprios interesses? Não duvido que é na
oração que muitas vezes usurpamos a glória que pertence a Deus. Tiago 4.3 diz:
“Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos
prazeres”. Ao tratar dos impedimentos à oração, R.A.Torrey comenta Tiago
4.3 de um modo que deve nos levar à reflexão. Diz ele: “Um propósito
egoísta na oração rouba-lhe o poder. Muitas orações são egoístas. Pode tratar-se
de coisas perfeitamente adequadas para ser objeto de petição, coisas que sejam
da vontade de Deus conceder, mas o motivo da oração é inteiramente errado, e
assim ela se anula. O verdadeiro propósito na oração é para que Deus possa ser
glorificado na resposta. Se pedirmos algo simplesmente para recebermos o que
pedimos e usá-lo em nossos prazeres ou em nossa própria gratificação, estamos
‘pedindo mal’ e não podemos esperar receber aquilo que pedimos. Isto explica
porque muitas orações permanecem sem resposta” (Torrey, Como Orar). Deus
quer abençoar muito a você e a mim, mas para isso precisamos fazer a coisa
certa, do jeito que a Bíblia nos ensina a fazer.

O sentido da vida consiste em atribuir a Deus a glória que exclusivamente Lhe
pertence. Por isso precisamos ter em mente ainda outra coisa: É necessário
reconhecermos que se existe alguma bondade, habilidade e talento em nós é por
causa da graça e misericórdia de Deus para conosco. I.H. Marshall, comentando a
trágica morte do rei Herodes em Atos 12, disse corretamente: “A lição é
que o próprio Deus age contra aqueles que usurpam a Sua posição e reivindicam
para si mesmos as honras divinas”. Talvez não cheguemos ao ponto de
reivindicar para nós mesmos as honras divinas como Herodes fez, mas não estamos
tão longe desse erro como poderíamos pensar. Toda forma de soberba e orgulho é
uma péssima indicação de que alguém está querendo para si o que deveria
atribuir a Deus. A Bíblia, assim como a história antiga e moderna, tem vários
exemplos desastrosos da chamada síndrome de Lúcifer. Porque quem a si mesmo se
exaltar será humilhado por Deus. E ser humilhado por Deus é uma experiência
deveras terrível. Mas quem a si mesmo se humilhar será exaltado por Deus (Mt
23.12; Pv 15.33).

Aprendamos, pois, as sábias lições de João Batista (“Convém que Ele cresça
e que eu diminua”, Jo 3.30), de Paulo (“Mas longe esteja de mim
gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está
crucificado para mim, e eu para o mundo”, Gl 6.14) e do Senhor Jesus
Cristo (“Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por muitos”, Mc 10.45).

Concluindo: Somos libertados da escravidão do pecado por Cristo para vivermos
dia-a-dia a nova vida que glorifica a Deus. Portanto, façamos da seguinte
oração o nosso compromisso de fé:

Resolutos, Senhor, e com zelo e fervor,
Os teus passos queremos seguir!
Teus preceitos guardar, o teu nome exaltar,
Sempre a tua vontade cumprir.
(Sammis e Ginsburg)

Parte V
JESUS E O
“CRISTO REDENTOR”
 Construído
no período de 1921 a 1931, para comemorar o centenário da independência do
Brasil, o monumento que representa Cristo contemplando a cidade do Rio de
Janeiro, do alto do Corcovado, é o mais imponente símbolo da idolatria
nacional.

Quiseram as autoridades da época, certamente, proclamar bem alto a opção cristã
do Brasil. A imagem de Jesus erigida num pedestal natural, num monte, na
capital e mais importante cidade brasileira, atingia plenamente os objetivos. O
monumento ficaria defronte para o Pão de Açúcar e Baía de Guanabara, exposto
visitação pública e fácil de ser apreciado pelos navegantes. Tudo muito
ajustado e correto sob o ponto de vista de seus idealizadores, não fosse um
detalhe importante: Deus condena a construção de imagens de qualquer Pessoa da
Santíssima trindade, dos anjos e dos santos bíblicos. Não podiam desconhecer a
Lei Moral porque o encerramento do cânon do Antigo Testamento se deu mais ou
menos a 445 a.C., e as primeiras Bíblias começaram a chegar ao Brasil por volta
de 1856. Vejamos o que diz o Segundo Mandamento:

“Não farás para ti imagens de escultura, nem alguma semelhança do que há
em cima dos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te
encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus
zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta
geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia em milhares aos que me
amam e guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20.4). Deus é infinitamente
divino e grandioso para ser representado por obras feitas por homens. Jesus é
Deus. O Segundo Mandamento proíbe fazer imagem do próprio Deus. Há quem
acredite que o “Cristo Redentor” com seus braços abertos está
abençoando a cidade e seus moradores. Engano. Jesus, o Cristo, ressuscitou e
vive. Ele fala, ouve, atende, cura, salva e perdoa. Não está petrificado, mudo,
surdo, paralítico e cego. Não decora as casas, os montes, as cidades ou o colo
de alguma donzela. Dispensa e rejeita qualquer adoração que lhe seja dirigida
por meio de uma imagem, seja ela de 30 centímetros ou de 50 metros de altura,
pese dois quilos ou dez toneladas. “Deus é Espírito, e importa que os que
o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24). As
“bênçãos” do “Cristo de pedra” não evitaram que o Rio se
tornasse na mais carnavalesca das cidades; não evitaram a construção de um
monumento à festa da carne, o sambódromo, nem que seus morros se transformassem
em reduto de traficantes de drogas. Nem evitaram que a feitiçaria ali fizesse
morada. O “Cristo Redentor”, além de ser um símbolo da desobediência
a Deus, é uma mentira. A figura que ali está não é a de Jesus, o Jesus da
Bíblia. Ninguém fotografou o Mestre ou fez qualquer descrição de suas feições:
“Suas imagens são mentira. Nelas não há espírito” (Jeremias 10.14).
Jesus não pactua com essas coisas e dispensa essas honrarias. Vejamos:
“Vós pertenceis ao vosso pai, o diabo, e quereis executar o desejo dele.
Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, pois não há
verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, pois é
mentiroso e pai da mentira” (João 8.44). Jesus também disse: “Eu sou
a Verdade” (João 14.6). Ao erguerem o “Cristo Redentor” seus
construtores davam cumprimento às inspiradas palavras do apóstolo peregrino”:
“Pois tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram
graças, antes seus raciocínios se tornaram fúteis, e seus corações insensatos
se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória de
Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de
aves, quadrúpedes e répteis” (Romanos 1.21-23).

O que devo fazer? Perguntaria um preocupado pecador, arrependido pelas vezes
que subiu com reverência ao monumento do falso redentor. Aquele que chorou
amargamente por haver negado a Jesus por três vezes, responde:
“Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo,
para perdão dos pecados” (Atos 2.38). “Deus, não levando em conta os
tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todos os lugares se
arrependam” (Atos 17.30). O monumento deve ser demolido? Se alguém lançar
essa idéia enfrentará uma cerrada oposição; muitos serão os argumentos
contrários à derrubada do “Cristo”. O diabo teve ativa participação
nessa obra e deseja a sua perpetuação. Desde o tempo de Adão e Eva o diabo
continua dizendo aos homens que vale a pena desobedecer a Deus. Convém a
Satanás e a seus anjos que muitos ídolos sejam construídos em todo o Brasil.
Ídolos de barro, de pedra, de madeira, de ouro, de prata, de bronze. Por quê?
Porque enquanto os olhos e os pensamentos do povo estiverem fixos nessas
imagens, o verdadeiro Cristo redentor será esquecido, e não será adorado
“em espírito e verdade”.

Para destruir esse “bezerro de ouro” seria necessário surgir um
Moisés, com a face iluminada pela glória de Deus? Haveria necessidade de Deus
imprimir em tábuas de pedra um outro Mandamento, mais claro, mais contundente,
mais cristalino? Por certo o mais seguro é esperarmos pela promessa do Todo-Poderoso:

“E sucederá, naquele dia, diz o Senhor, que eu exterminarei no meio de ti
os teus cavalos e destruirei os teus carros; e destruirei as cidades da tua
terra e derribarei todas as tuas fortalezas; e tirarei as feitiçarias da tua
mão, e não terás agoureiros; E ARRANCAREI DO MEIO DE TI AS TUAS IMAGENS DE
ESCULTURA E AS TUAS ESTÁTUAS; e tu não te inclinarás mais diante da obra das
tuas mãos; e arrancarei os teus bosques do meio de ti; e destruirei as tuas
cidades”
(Miquéias 5.10-14).

Parte VI
AS IMPLICAÇÕES
DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO

Para a Igreja – (Marcos 16.1-8)
 Nesta
ocasião de celebração da Páscoa, devemos estudar sobre as implicações
eclesiológicas da ressurreição de nosso Senhor Jesus para nossas vidas em
particular e, conseqüentemente, para a Igreja que é o Corpo Vivo de Cristo.

Não trataremos das implicações teológicas, o que nos exige estudo aprofundado
de Cristologia, mas podemos e devemos aproveitar a ocasião para uma reflexão
profunda sobre a nossa prática no ser igreja e ainda, se nossa expressão
cúltica é verdadeiramente louvor a Deus e proclamação de seu Evangelho.

A ressurreição sempre foi um tema desafiador para o povo de Deus e ainda o é
para a igreja. Se estudarmos com seriedade o tema identificaremos três divisões
objetivas que são:

1) Ressurreições anteriores a de Jesus:
a) 1 Reis 17.22 – O filho da viúva de Sarépta por Elias.
b) 2 Reis 4.35 – O filho da sunamita por Eliseu.
c) 2 Reis 13.21 – O homem jogado na sepultura de Eliseu, pelo contato com os
ossos do profeta.

2) Ressurreições no Ministério de Jesus:
a) Mateus 9.25 – A filha de Jairo.
b) Lucas 7.15 – O filho da viúva de Naim.
c) João 11.44 – Lázaro, o amigo de Jesus.
d) Mateus 27.52-53 – Os Santos que morreram justos no momento da morte de
Jesus.
e) Marcos 16.6 e correlatos – O próprio Senhor Jesus.

3) Ressurreições posteriores a de Jesus:
a) Atos 9.37 e 40 – Tabita ou Dorcas, por Pedro.
b) Atos 20.9-12 – Êutico, por Paulo em Trôade.

De todas as narrativas sobre esta manifestação sobrenatural de Deus a
ressurreição de Jesus tem implicações específicas, conforme profetizado no
Salmo 16.10, que assevera que o Pai não permitiria que ao Filho habitar com os
mortos, mesmo tendo ele estado na habitação dos mortos e proclamado libertação
ali, 1 Pedro 3.18 e 19.

Veremos pelo menos três destas implicações para nossas vidas e Igreja.

I – As barreiras e dificuldades para nossa atuação no mundo são retiradas
pelo próprio Deus; (vs. 3 e 4):

O texto declara que as mulheres estavam preocupadas com a pedra que era muito
grande. Em Mateus 27.60, referindo-se ao tamanho da pedra, o evangelista diz
ser mega, isto é, muito grande, de uma amplitude que grande seria pouco para
expressar, a pedra colocada na entrada do sepulcro.

Os olhos daquelas mulheres, vs. 3, estavam como muitas vezes ficam os olhos da
igreja diante dos desafios para a evangelização ou para a realização de seus
ministérios, fixados nos problemas, presos nas dificuldades e voltados para a
derrota, como se fôssemos cegos.
A prova disto é a expressão do texto no vs. 4, “levantaram os olhos”,
no original. O verso afirma que elas recuperaram a visão ao erguerem os olhos.
Na verdade houve uma mudança radical na perspectiva daquelas mulheres. Não mais
olhavam para baixo e sim para cima, para o alto, e isso lhes permitiu a visualização
do milagre. A pedra estava revolvida e não era mais uma barreira.

Amados irmãos e irmãs, erguer os olhos denota ato de fé. Sempre que agimos pela
fé os obstáculos, as barreiras e dificuldades para a consecução do ministério
da igreja e da evangelização deixam de existir. Deus mesmo nos abre as portas
pelo seu poder e para sua glória.

A segunda implicação é decorrente da primeira, visto que…

II – Não há o que temer, o mais feroz inimigo foi vencido por Jesus; (vs. 5
e 6):

A profecia do Salmo 16.10 e 11, já citado, afirma que não haveria destruição
espiritual na vida de Jesus. Seu espírito não ficaria no inferno, a habitação
dos mortos. A vitória foi prometida e é garantida por Deus para a igreja, que é
o Corpo Vivo do Senhor Jesus.

O vs. 5 de Marcos 16 fala do medo daquelas mulheres. Esse medo seria uma reação
humana que precisava ser vencido. O texto, no original, fala que elas
“caíram atônitas de espanto” por não terem visto o corpo de Jesus.
Neste instante, o anjo que estava ali para ministrar àqueles corações, vs. 6,
diz que não havia motivos para espanto, para o susto. As mulheres foram
desafiadas à renunciarem o medo, vencendo-o pela fé.

Jesus não estava lá. Não encontraram um corpo inerte e em putrefação. Jesus
havia ressuscitado. Acordara! Despertara da morte levantando em triunfo e
vitória sobre a morte e o pecado. Jesus ressurgiu! O defunto, aparentemente
derrotado, não está inerte e nem mesmo preso em sua lápide, pois no confronto
com a morte, com o poder das trevas, Jesus sempre é vitorioso. As mulheres
procuravam um homem morto mas encontraram o Deus Vivo! O apóstolo Paulo, em 1
Coríntios 15.54-56, pergunta sobre a vitória da morte, ao que ele mesmo
responde: “tragada foi a morte na vitória”. A vitória de Jesus Cristo
na sua ressurreição. O túmulo de Jesus vazio, fato que nenhum outro líder
religioso conseguiu, é prova cabal e insofismável da vitória de Cristo sobre a
morte e sobre o inferno. A igreja precisa expressar fé genuína e plena nesta
vitória se deseja consumar o Reino de Deus no mundo.

Não existe nada que possa deter o triunfo da igreja, a não ser a falta de fé na
vitória que nos foi outorgada por Jesus Cristo. O medo é paralisante. A
paralisia desemboca na acomodação. A acomodação fossiliza a igreja. Devemos
subjugar o medo e rejeitar com veemência a acomodação, libertando-nos do risco
da fossilização, para que, pela fé, sejamos uma igreja com autoridade profética
no testemunho do Cristo vivo.

A terceira implicação, como não poderia deixar de ser, é decorrente desta, e
indica que…

III – A igreja deve avançar sempre com a convicção de que Jesus vai adiante
dela; (vs. 7):

Tenho em mente a experiência do povo de Deus na travessia do mar, ao saírem do
Egito, quando clamaram ao Senhor diante de um desafio intransponível aos olhos
humanos. Deus simplesmente determina: “dize ao povo que marche”,
Êxodo 14.15. Seria maravilhoso se nós tivéssemos a disposição de apenas
marcharmos rumo a vitória do Evangelho no mundo, jamais lamentando os desafios,
a dureza dos corações ou a incredulidade reinante.

Como igreja, nosso desafio é conquistar a totalidade das etnias pela pregação.
A ordem do Mestre é ir, verso 15. Da mesma forma o anjo ordena às mulheres
dizendo “ide”. É um imperativo. Não existe a alternativa para
permanecerem prostradas. Não lhes é oferecida a opção para cumprirem apenas uma
parte do mandado. A ordem determinada pelo anjo é tal qual a de Jesus, unívoca
e irrefutável.

Devemos observar que não é ir em qualquer direção ou sem uma missão específica.
É ir para o lugar designado por quem deu a ordem. Ir em frente, para a
Galiléia, pois o Senhor vai adiante. No texto original o termo indica que Jesus
mesmo preparava o caminho para que seguissem, garantindo a chegada em
segurança, bem como a eficácia na missão. O Senhor ressurreto e vitorioso vai
adiante da igreja aplainando o caminho para os “pés daqueles que anunciam
a Paz”.

Não encontramos no Texto Sagrado desculpas para ficarmos prostrados ou
vislumbrados diante da magnitude da vitória de Cristo. Devemos avançar em ofensiva
contra o pecado na proclamação do Evangelho. É imperioso pregarmos a qualquer
tempo e circunstâncias a vitória de Jesus Cristo contra o pecado, a morte e o
inferno. O Senhor Jesus vai adiante de nós, prepara o caminho, tira as
barreiras e rompe os grilhões. A igreja deve segui-lo com firme convicção de
fé, pois somos a Igreja vitoriosa, triunfante e gloriosa.

Conclusão:

É maravilhoso fazermos parte de uma equipe que já tem a garantia da vitória
contra os seus opositores e seu Adversário.

Amados irmãos e irmãs, se nos detivermos ante aos obstáculos, ante aos temores
que nos tentam embotar a consciência e nos arrefecer a fé, ou se nos
prostrarmos em inércia ociosa e diabólica resultante de ostracismo espiritual e
de uma vida devocional rasa e insipiente, de certo perderemos o Senhor Jesus de
vista, pois ele sempre vai adiante e nunca estaciona em sua marcha triunfal à
Jerusalém celestial. Devemos adentrar a Cidade Santa com o Senhor.

Creiamos, amados, o Senhor mesmo colocará por terra todos os obstáculos. A
ressurreição de Jesus é prova mais que contundente de que não precisamos temer,
pois o mais vorás inimigo está derrotado e envergonhado, Colossenses 2.15. Nada
pode deter o avanço do evangelho no mundo, a não ser o comodismo da igreja.

Minha oração é que as implicações da ressurreição de Cristo sejam as
implicações pertinentes em nossas vidas e igreja. Somos o Corpo Vivo de Cristo
e membros uns dos outros, o que nos impõe convicção de fé e determinação
evangelística jamais praticadas em nossa história.

Somos nós hoje, como Elias, Eliseu, Pedro e Paulo o foram no passado, os
detentores do poder e da unção espiritual para a ressurreição de todo aquele
que crer em Cristo Jesus como resultado do nosso testemunho e pregação. Que
Deus nos ajude nesta atuação como ressuscitadores dos mortos nos delitos e
pecados.

Amém.

Parte VII
MINISTÉRIO
DE CRISTO

Modelo para o Ministério da Igreja
– Parte II
Mateus 4. 23-25

4.23. Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o
evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo.

4.24. E a sua fama correu por toda a Síria; trouxeram-lhe, então, todos os
doentes, acometidos de várias enfermidades e tormentos: endemoninhados,
lunáticos e paralíticos. E ele os curou.

4.25. E da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e dalém do Jordão numerosas
multidões o seguiam. 9.35. E percorria Jesus todas as cidades e povoados,
ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de
doenças e enfermidades.

Estivemos em ocasião anterior refletindo a respeito do ministério de Cristo e
afirmando que o ministério de Cristo era um modelo ideal para o nosso
ministério. Na ocasião anterior, falamos de três aspectos do ministério de
Jesus Cristo: que o seu ministério foi de ensino, destacando que ao ensinar
Jesus apelava à mente de seus ouvintes; também destacamos que o seu ministério
foi de proclamação, vendo que neste aspecto Ele apelava ao coração dos
ouvintes; finalmente, enfatizamos que o ministério de Jesus Cristo foi um
ministério de cura e que Jesus Cristo curava toda sorte de doenças e
enfermidades, nesse último aspecto Jesus Cristo estava tratando do corpo. Com
isso, queríamos demonstrar a integralidade do ministério de Cristo que envolvia
todas as áreas do ser humano.

Na continuação, queremos destacar a influência do ministério de Jesus no seu
contexto e na sua época.

1. O ministério de Jesus teve repercussão.

E a sua fama correu por toda a Síria.

Ao ler a narrativa de Mateus podemos perceber que o ministério de Jesus sem que
fossem necessários cartazes e anúncios na Folha de Jerusalém ou nos principais
programas televisivos de Israel era cada dia mais conhecido. Não que Jesus
contasse por trás de si mesmo com uma equipe especialista em estratégia de
marketing religioso que apregoasse as suas virtudes e grandezas. Não, não era
esse o caso! As coisas excelentes se afirmam por si mesmas. A luz não pode ser
escondida, o sabor do sal sempre será perceptível, o brilho do diamante sempre
se revela.

Quem precisa de propaganda, de anúncio, de divulgação do seu ministério é quem
está ansioso por projeção, por sucesso e fama.

Jesus, já havia rejeitado anteriormente, no episódio da tentação, usar o poder
para provar quem era. Quem é não precisa provar. Satanás disse: se és! Mas Deus
disse: Tu és o meu filho amado.

Jesus sabia e nos ensina isso, o importante é aquilo que somos para Deus; seus
amados.

Somos amados por Deus, não pelo sucesso que fazemos, pela fama que temos, pelo
poder que possuímos. Nada disso impressiona a Deus. Ele nos ama porque somos
seus filhos, não porque somos astros de um teatro religioso.

A repercussão do nosso ministério virá como corolário, como conseqüência da
ação do Espírito Santo de Deus na nossa vida. Cedo ou tarde virá à luz. Não
virá como a conseqüência de uma busca. Assim como a obra de Deus na natureza,
como afirma Paulo, não fica escondida, assim a obra do Espírito Santo no meio
do povo de Deus há de repercutir. O Espírito produz fruto. A técnica produz
fantasia.

Foi dito dos primeiros cristãos que eles abalaram o mundo de sua época (Atos
17.6).

Devemos ter equilíbrio no que diz respeito a esse assunto. Não cabe a nós
proclamar o que fazemos, mas a obra que o Senhor realiza por meio de nós, com
certeza ecoará.

Ao escrever aos tessalonicenses, no capítulo 1, verso 7, Paulo, assim se
reporta ao que Deus estava fazendo no meio deles: Porque de vós repercutiu a
palavra do Senhor não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte se
divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de
acrescentar coisa alguma.

2. O ministério de Jesus teve resultados.

A segunda coisa a se destacar a respeito do ministério de Jesus Cristo é que o
seu ministério teve resultados.

Jesus curou enfermos, ressuscitou mortos, restaurou vidas, transformou a
história de muitas pessoas.

Ao falar da relação da Videira Verdadeira com os seus ramos assim Jesus se
expressa: João 15:16 Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário,
eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o
vosso fruto permaneça.

Há duas coisas que quero destacar neste texto: primeiro, que Jesus deixa claro
o seu objetivo para conosco, é que sejamos frutíferos. Jesus não nos chamou
para sermos estéreis. A conseqüência de quem está ligado com Jesus Cristo é ser
frutífero.

O segundo aspecto a ser destacado é a permanência do fruto. Há uma coisa que
deve ser levado em conta nas estatísticas evangelásticas dos nossos dias: é o
que se denominou de igreja rodoviária. É uma igreja na qual há sempre um grande
número de pessoas, mas sempre a caminho. O número de pessoas que chega e que
sai é muito grande.

Nesse momento fico a pensar na imagem que Cristo criou da videira e uma coisa
vem a minha mente; não deveria o fruto ter a qualidade da árvore? Será que
algumas uvas que estão aparecendo foram criadas em laboratório, geneticamente
modificadas e por isso não têm a qualidade original da videira verdadeira.
Pensar que o ministério de Cristo teve resultados deve nos leva a criticar o nosso
conformismo que, nos leva procurar desculpas pela falta de resultados.

Uma igreja que é nutrida na seiva de Jesus Cristo e que é permanentemente
regada com a unção do Espírito Santo é uma igreja produtiva e que se
desenvolve.

Por outro lado, devemos buscar o selo de qualidade de Cristo na produção. Se a
árvore é conhecida pelo fruto, o inverso também é verdadeiro: pelo fruto se
conhece a árvore que o gerou.

Se não podemos permitir que o comodismo se assenhoreie das vidas de nossas
igrejas, não podemos, por outro lado, cair em um pragmatismo vazio em que em
busca de produtividade sacrificamos a qualidade.

Alguém já disse com muita propriedade: o frango de granja pode ser grande e
crescer rápido, mas nunca há de se comparar com o delicioso sabor de uma galinha
caipira.

3. O ministério de Jesus teve relevância.

Em algumas passagens dos evangelhos podemos aclarar ainda mais esta verdade que
já afirmamos, elas não são exaustivas, mas, exemplificativas, há muitas outras
que poderiam se somar a essas.

Mateus 9.33 E, expelido o demônio, falou o mudo; e as multidões se admiravam,
dizendo: Jamais se viu tal coisa em Israel!

Marcos 2.12 Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando o leito,
retirou-se à vista de todos, a ponto de se admirarem todos e darem glória a
Deus, dizendo: Jamais vimos coisa assim!

João 7.45-46 Voltaram, pois, os guardas à presença dos principais sacerdotes e
fariseus, e estes lhes perguntaram: Por que não o trouxestes? Responderam eles:
Jamais alguém falou como este homem.

Finalmente, se o ministério de Jesus Cristo é modelo para no nosso ministério,
não podemos perder de vista que o ministério de Jesus Cristo teve relevância.

Com isso, nós queremos mostrar que o seu ministério era diferenciado e fazia
diferença.

Na sua proclamação e na sua prática a igreja tem que demonstrar a sua
relevância na sociedade na qual está inserida.

Se colocarmos a igreja em comparação com outras instituições poderemos afirmar
a sua superioridade de tal sorte que se possa dizer que há ninguém que possa se
comparar a ela.

Temos tido por Jesus Cristo e pelo seu Reino a paixão que tem a torcida fiel
corintiana. Para alguns, as coisas de Deus estão reservadas para o domingo à
noite, se não estiver chovendo. Afinal de contas, ninguém é de ferro, talvez de
açúcar. E quando o culto fica demorando… onde já se viu, mais de duas horas
de culto? Enquanto muitos torcedores de futebol viajam longas distâncias para
ver seu time jogar, há muitos crentes que não saem da frente da televisão nem
por Jesus Cristo.

Temos tido por Jesus Cristo e pelo seu Reino a abnegação que tiveram aqueles
que fizeram as grandes revoluções comunistas desse século que foram capazes de
matar e de morrer por uma ideologia, por uma esperança que se derreteu como um
sorvete ao sol.

A obra missionária vive a mingua de recursos. Os missionários são enviados com
as sobras dos recursos investidos em vitrais e em luxo nas igrejas.

O único patrimônio que uma igreja poderá levar para a eternidade são as vidas
que ela conquistou para o seu Senhor.

A igreja tem que ser mais aguerrida na proclamação do Reino de Deus do que
sindicalista em porta de fábrica. Tem que ser mais compassiva com a miséria
humana do que qualquer espírita engajado.

Tem que amar a justiça e o direito mais do que qualquer promotor idealista.

Para que se possa dizer, a igreja é insubstituível. Ninguém jamais foi como ela
na paixão pelo seu Senhor, na compaixão para com os perdidos, na denúncia do
pecado e da injustiça e na proclamação da verdade do Reino de Deus.

Queremos, concluir relembrando que se queremos buscar um modelo para o nosso
ministério como igreja e como servos de Jesus Cristo, não devemos busca-lo na
imitação da igreja da moda ou líder cristão em evidência. Devemos, busca-lo em
Jesus Cristo como dizia o autor de Hebreus olhando firmemente para Jesus
Cristo, cujo ministério teve repercussão, E a sua fama correu por toda a Síria,
e da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e dalém do Jordão numerosas
multidões o seguiam.

Foi um ministério que teve resultados e resultados permanentes. Eu, você e os
milhões de cristãos espalhados sobre a face da terra somos a prova disso.
Daqueles que o seguiam, muitos saíram pelo mundo a proclamar a sua morte e
ressurreição. Finalmente, foi um ministério relevante. A história é dividida
por Ele. Imaginem a história da humanidade sem Jesus Cristo. Seria despida de
todo o sentido e brilho. Seria como um mar sem água; um céu sem estrelas; um
sol sem luz e calor; uma música sem som; um alfabeto sem letras. Um absurdo
completo.

E como seria essa cidade sem a sua igreja? Como seria a sua rua sem você? Como
seria a sua classe sem você? Como seria a sua família sem você? Como seria essa
igreja sem você? A sua fé e o seu ministério são relevantes?

Parte VIII
MINISTÉRIO
DE CRISTO:

Modelo para o Ministério da Igreja
– Parte I
 Se nos
fosse pedido nesse momento que resumíssemos o ministério de Jesus. De que forma
o resumiríamos ou como o sintetizaríamos. Qual foi a essência do ministério de
Jesus. Existe, porventura, nos evangelhos, alguma indicação do que seria a
síntese desse ministério de tal maneira pudéssemos toma-la como parâmetro para
servir de modelo para o ministério da igreja.

Se existe quais áreas seriam abrangidas por essa síntese? Em duas passagens,
Mateus resume as ações do Ministério de Jesus Cristo, que eu penso deveriam
nortear todas as ações da igreja.

MATEUS 4. 23-25 e 9.35

4.23. Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o
evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo.

4.24. E a sua fama correu por toda a Síria; trouxeram-lhe, então, todos os
doentes, acometidos de várias enfermidades e tormentos: endemoninhados,
lunáticos e paralíticos. E ele os curou.

4.25. E da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e dalém do Jordão numerosas
multidões o seguiam.

9.35. E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas,
pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades.

1. O ministério de Jesus foi de ensino.

Ensinando nas sinagogas

Tanto aqui quanto em 9. 35 e ss. Mateus estabelece uma diferença entre ensino e
pregação. Um conjunto de 10 famílias constituía uma Sinagoga. O papel de do
chefe da Sinagoga era mais o de um administrador. Ele convidava os Rabinos para
ensinar na sinagoga. Penso que quando Jesus chegava às sinagogas procurava
convencer os judeus da nova aliança, do novo tempo, da nova dispensação que se
instalava com o seu ministério. O Sermão do Monte é um exemplo dessa mudança ao
afirmar os famosos eu porém vos digo.

Aqui o apelo
de Jesus era a mente.

Talvez essa seja uma das dimensões que precisa ser resgatada em alguns círculos
evangélicos: a mente a serviço de Deus. O cristianismo embora apele à fé, não é
um aniquilamento intelectual. Jesus nos disse que deveríamos amar a Deus com
todo o nosso entendimento.

A teologia em si não é um mal para a Igreja. Ela é na verdade a articulação da
fé de forma sistematizada.

O Apóstolo Pedro disse que devemos estar sempre preparados para responder a
todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós. 1 Pedro 3:15

O Apóstolo Paulo, ao chegar às sinagogas procurava convencer os presentes a
respeito da fé em Cristo e do Reino de Deus. Atos 18:4 E todos os sábados
discorria na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos. Ato 19:8 Durante
três meses, Paulo freqüentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e
persuadindo com respeito ao reino de Deus.

E ao escrever a Tito acerca de que tipo de Presbítero deveria ele constituir em
Creta, Paulo disse o seguinte: Tito 1:9 apegado à palavra fiel, que é segundo a
doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para
convencer os que o contradizem.

2. O ministério de Jesus foi de proclamação.

O segundo aspecto que devemos destacar a respeito do ministério de Jesus Cristo
foi a proclamação. Jesus pregava o Evangelho do Reino. Se com o ensino Jesus
queria convencer os homens a respeito da verdade; com a proclamação ele queria
desafiar os homens a viverem estas verdades.

Ou seja não basta ao homem estar convencido da doutrina correta. É necessário
que ele a viva. Não basta apenas a ortodoxia (a doutrina certa) é necessário,
também, a ortopraxia (a prática correta).

A proclamação do evangelho, é um chamado para o homem se arrepender. Para mudar
de vida, para abandonar os velhos hábitos, os costumes, os pecados.

O lema do evangelho não é mude para vir ; mas, venha para mudar.

A mensagem do Evangelho começa com o arrependimento. Ela não começa com: venha
e receba a sua bênção e depois decida se você quer mudar.

O chamado do evangelho é radical. Não permite a olhar para trás, não permite
ficar acalentando velhos vícios, velhas práticas.

Sem arrependimento não há remissão de pecados. Aqui, a palavra de Cristo está
dirigida ao coração do homem.

3. O ministério de Jesus foi de cura.

Vimos em primeiro lugar que Jesus com o seu ensino procurou alcançar a mente do
homem; com a proclamação do evangelho o seu coração. Aqui o alvo é o físico do
homem.

Aqui, Mateus, diz que Jesus curava toda sorte de doenças e enfermidades.

O texto no grego faz distinção entre as duas coisas: doenças (noson), significa
a doença aguda, crônica. Já enfermidade (malakian), significa aquela doença
ocasional.

Com isso, também, Mateus está dizendo que Jesus curava tanto as doenças do
corpo quanto as da mente. Que Jesus tanto curava as dores de cabeça quanto
câncer. Tanto curava uma lepra quanto uma esquizofrenia. O espectro do
ministério de cura de Jesus era amplo.

Quando usei a expressão Jesus curava, não quis dizer que Jesus perdeu o poder
de curar. Mas é que quis enfatizar que Jesus exerce o seu ministério de cura
através da Igreja. E aqui, não estou falando dos médicos. A medicina faz parte
da providência, da graça geral de Deus para com a humanidade. Todas as técnicas
cirúrgicas, todos os procedimentos médicos, todos os remédios são um exercício
da misericórdia de Deus para com a humanidade.

Ao falar aqui de cura, estou me reportando ao dom de cura. Porque creio que
este dom não ficou com os apóstolos mas é um dom dado à Igreja. E penso que
hoje, como Igreja, somos bons no ensino, fracos na proclamação e nulos no
ministério terapêutico da Igreja.

Se curar é um dom do Espírito, não entendo porque como Igreja não temos orado
para que Deus o conceda à Igreja para que ela o exerça e seja alívio e bálsamo
na vida das pessoas.

Para muitas pessoas falar em cura soa como uma coisa completamente estranha à
vida da igreja e do seu ministério. Porém, como já nos advertia Jesus nos
evangelhos: o servo não é maior (nem melhor) do que o seu Senhor.

Se no nosso entendimento o ministério de Jesus é modelo e referência para os
nossos ministérios; curar, também é tarefa da igreja, como já dizia o título de
um dos livros do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos.

Conclusão

Salta aos nossos olhos que o ministério de Cristo era integral ele visava o
homem no seu todo: mente, espírito e corpo. 
Jesus, ao contrário do que muitos pensam, mesmo sendo pleno do Espírito
Santo, não entendeu que falar à mente do ser humano para convence-lo da verdade
fosse uma negação da espiritualidade.

Por isso, o estudo e o preparo para o ensino são de profunda importância, visto
que alicerçado no ministério de Cristo e ratificado pelos apóstolos.

Por outro, lado, o desafio de Cristo é também para que o homem mude de vida.
Por isso, a proclamação do Evangelho é imperativo da Igreja, no intuito de que
possamos, como Igreja transformar o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso
estado, o nosso país, através do anúncio do reino.

Gritar palavras de ordens tais como: Natal, o Nordeste e o Brasil, são de
Jesus, povo de Deus declare isso! Não passa de tolice, de infantilidade, de
atitude pueril.

Se esse é realmente o desejo de nosso coração, só iremos transforma-lo em
realidade anunciando o evangelho do reino aos homens, convocando-os ao
arrependimento e não declarando palavras de ordem aos anjos, principados e
potestades isso é inócuo e se nós pudéssemos vê-los saberíamos que eles só se
incomodam quando a igreja a exemplo de Jesus Cristo que percorria todas as
cidades, saímos para anunciar o evangelho.

Finalmente, quero ressaltar o ministério de cura da Igreja, para nós um ilustre
desconhecido. Quero desafiar a esta igreja, nesse momento a orar para que Deus
esteja levantando servos e servas cujas mãos tragam bálsamo e refrigério aos
enfermos através da cura de toda sorte de enfermidades. Crônicas e terminais ou
comuns e temporais. Na mente e no corpo e tudo para a glória de Jesus Cristo.
Amém

Pregado na 1 Igreja Presbiteriana Independente de Natal em 18 de fevereiro de
2001

Parte IX
TERRA
SEDENTA
“A quem tiver
sede, de graça lhe darei a beber da fonte da água da vida” (Ap 21.6b)

O estarrecedor fenômeno da sede tem rondado nosso planeta. Apesar de nosso lar
espacial ser chamado Terra, bem poderia ter sido chamado Planeta Água, pois
esta representa 75% de seu volume. Só o Brasil detém 12% das reservas mundiais
de água doce, das quais, 72% são produzidas pela bacia amazônica.

Dizem os prognósticos que o suprimento mundial de água doce pode ser esgotado
em cerca 50 anos, se for continuado o seu uso irresponsável. Hoje o ser humano
consome 54% de toda a água doce disponível no mundo, número que cresce,
evidentemente, com a passagem dos anos. Se for levado em conta o crescimento
populacional, dentro de 25 anos estaremos usando 90% de toda a água doce, e
dois terços da humanidade estarão passando sede. No entanto, o que nos chama a
atenção é a manifestada sede do transcendental, do eterno: o anseio por Deus,
como claramente expressou o livro do Eclesiastes 3.11: “(Deus) pôs na mente do
homem a idéia da eternidade”.

Isso explica porque a alma clama (literalmente, “grita”) por Deus. A expressão
do salmo dos filhos de Core foi “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!”
(Sl 42.2). Davi, o rei-poeta, anelando pela face de Deus implorava, “Ó Deus, tu
és o meu Deus; ansiosamente te busco. A minha alma tem sede de ti; a minha
carne te deseja muito em uma terra seca e cansada, onde não há água” (Sl 63.1),
e, ainda “A ti estendo as minhas mãos; a minha alma , qual terra sedenta, tem
sede de ti” (143.6). Agostinho, pastor da igreja de Hipona no norte da África,
declarou que nós fomos criados por Deus e para Deus, de tal maneira que só
podemos achar conforto e descanso quando nEle descansarmos. O anseio por Deus
está expresso na busca do que é espiritual. É uma sede insaciável,
terrivelmente insaciável se procurarmos resolvê-la fora de Deus.

Essa é a necessidade do ser humano, o que implica numa responsabilidade nossa,
um grave e seriíssimo cometimento.

Apesar de a ânsia da eternidade se encontrar no coração humano, apesar da fome
e sede pelo transcendental, o homem está atônito: ele busca, ele pesquisa, ele
anela, ele é arrastado pelos cantos de sereia ou por qualquer coisa que pareça
tornar possível a concessão do segredo da felicidade e do descanso. Coitado
dele! E ai de nós se falharmos em mostrar-lhe o caminho verdadeiro e vivo!
Ansioso por resolver seu problema, o poeta no Salmo 42.2 pergunta com uma ponta
de dor e pressa: “quando entrarei e verei a face de Deus?” É nosso dever
mostrar a esse coração sedento a face de Deus em Jesus Cristo, Seu Filho, nosso
Salvador. Foi Ele quem o revelou ao dizer, “Se alguém tem sede, venha a mim e
beba” (Jo 7.37). Anteriormente, já havia falado à mulher samaritana e lhe
dissera, “Se tivesses conhecido o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me
de beber, tu lhe terias pedido e ele te haveria dado água viva” (Jo 4.10).

Bom é saber que tudo isso é absolutamente de graça! De graça, mas não foi
barato: custou o sacrifício de Jesus Cristo, o mesmo que continua a dizer: “A
quem tiver sede, de graça lhe darei a beber da fonte da água da vida” (Ap
21.6b).
Tem sede? Venha a Cristo!

Parte X
A
CRISTOLOGIA SEGUNDO OSCAR CULLMAN
O estudo da
cristologia há muito se acha dividido entre duas correntes principais, no que
diz respeito aos pressupostos da pesquisa e à metodologia aplicada. A
dogmática, a partir da exegese escriturística, estrutura os dados relativos à
pessoa e à obra do Cristo sobre um alicerce bíblico-filosófico, ao moldar os
dados da revelação com determinadas estruturas de pensamento e de rigor lógico.
O historicismo crítico, por sua vez, parte da suficiência da pesquisa histórica
no conhecimento de Jesus Cristo para reconstruir suas características pessoais,
seus condicionamentos sócio-religiosos e as nuances da piedade judaico-cristã
primitiva, delimitando o perfil do Jesus histórico. A proposta de Oscar Cullman
para a investigação cristológica, no entanto, constitui-se uma abordagem
diferente, denominada por ele de método histórico-filológico, talvez uma
síntese entre dogmática e crítica histórica. Sua análise filológica examina o
texto, interpreta-o e utiliza-o como fundamento da compreensão do Cristo,
considerando sua pessoa e obra como aspectos indissociáveis – faces interdependentes
de um mesmo objeto de estudo -, sem necessidade de “enquadramento” em
esquemas filosófico-teológicos. A contribuição das disciplinas históricas é
utilizada como ferramenta exegética, dialeticamente confrontado com o texto
bíblico, única perspectiva possível, para Cullman, de fundamentação histórica
da vida do galileu chamado Jesus de Nazaré.

Tendo como texto base a obra de Cullman Cristologia do Novo Testamento, este
trabalho visa ressaltar pontos importantes do pensamento deste teólogo
alsaciano, através do confronto com a dogmática clássica em seus matizes atuais
e com algumas conclusões do historicismo obtidas nas últimas décadas do século
vinte, presentes na obra de Geza Vermes.

A VIDA TERRENA DE JESUS CRISTO
Sua humanidade

O tratamento dispensando por Cullman à pessoa de Cristo é de caráter funcional,
isto é, define-o pelos aspectos de sua obra, pelas particularidades de seu
ministério e pela singularidade de sua existência, conforme os títulos pelos
quais foi identificado, seja pela comunidade cristã, seja por ele mesmo. Assim,
escreve no início de sua obra que “… no Novo Testamento não se fala
quase nunca da pessoa de Cristo sem que se trate, ao mesmo tempo, de sua
obra” [itálicos do autor]. Para Cullman esta é a questão cristológica
pertinente, já presente nos sinóticos sob a interrogação de Cristo: “quem
o povo diz que eu sou?” As influências judaicas e helênicas na formação do
pensamento cristão não sugerem uma redução das categorias deste à mera
repetição dos conceitos daquelas, tampouco um sincretismo ou síntese entre as
concepções cosmológico-mitológicas peculiares àquelas; antes, proporcionam uma
melhor compreensão da nova doutrina que se iniciara utilizando elementos das
culturas presentes em seus primórdios.

Ressaltando sua imparcialidade na pesquisa do Jesus histórico e a ausência de
motivação teológica em seu trabalho, ainda que aceite os pressupostos da
investigação da verdade histórica sobre Jesus como algo factível, Vermes lembra
que Jesus foi judeu e não cristão. De maneira diferente, Cullman vê Jesus como
o judeu que, através de sua vida, iniciou uma religião diferente do judaísmo,
bem como inaugurou uma cosmologia diversa da encontrada no helenismo, não
obstante o inegável relacionamento com eles. “Com efeito, devemos considerar
a priori, como coisa possível e até provável, que Jesus tenha trazido, por sua
doutrina e por sua vida, algo novo…”. Contudo, como a igreja cristã ao
longo dos séculos respondeu a indagação sobre a pessoa de Jesus, o Cristo? Para
Cullman, diversamente da perspectiva neotestamentária. As especulações sobre as
naturezas de Cristo ocuparam o lugar central na cristologia patrística por
ocasião da luta contra as heresias que surgiam, das mais variadas formas, no
seio da cristandade. Continuaram, ainda, presentes no escolasticismo medieval e
na Reforma. A unidade de Cristo tornou-se um paradoxo existente entre a dupla
natureza e a única hipóstase, afirmada pela fórmula calcedônica e repensada
pelos reformadores. (…) Lutero postulou a comunicação de atributos entre as
naturezas, a communicatio idiomatum; Calvino insistiu na existência do Logos
fora da carne, o extra-calvinisticum.

A dogmática, predominantemente metafísica, deve ceder espaço à visão do
evento-Cristo como parte integrante da história da salvação. A partir deste
viés, é possível investigar adequadamente a compreensão da revelação pela
comunidade cristã conforme expressa no Novo Testamento. “A cristologia não
é, portanto, uma ciência das ‘naturezas’ de Jesus Cristo, mas a ciência de um
‘acontecimento’, de uma história”.

Sem dúvida, qualquer pretensão de se redigir uma biografia de Jesus é
inviabilizada pela dificuldade de sua realização – os evangelhos constituem um
estilo literário único, redações de eventos e de ensinos de Jesus organizados
de forma temática. Por outro lado, não há qualquer questionamento expressivo
sobre a historicidade de Jesus de Nazaré. Duas são as afirmações das Escrituras
acerca de seu nascimento: foi virginal, de acordo com os relatos de Mateus e
Lucas, sem qualquer outra referência a isso no restante do corpus do Novo
Testamento; e sua ascendência real, da família de Davi (Rm 1:3). As
dificuldades em conciliar estes dois dados persistem, à espera de uma solução
mais satisfatória que as sugeridas até hoje; como, por exemplo, a tradicional
hipótese de a genealogia mateana ser a de José e a lucana dizer respeito à
Maria, ambos descendentes de Davi . Sobre a vida adulta de Jesus, a
historiografia reconhece sua intensa atividade como mestre, médico do corpo e
da alma, sábio: um galileu carismático, talvez um hasid. O testemunho
evangélico registra, interpretado pela teologia sistemática cristã, que o
Cristo:

“… começou seu ministério público anunciando o reino vindouro com grande
expectativa.Terminou-o com sua morte na cruz. (…) Na crucificação e
ressurreição de Jesus (…) o Cristo da fé e o Jesus histórico provam ser um
único e mesmo Senhor Jesus Cristo”.

Atualmente teólogos dogmáticos têm rejeitado o esquema cristológico do tríplice
ofício Profeta-Sacerdote-Rei, alegando sua artificialidade . Cullman reconhece
tais títulos como designações de suma importância relacionadas a Cristo – a
exceção de “Rei”, pelo aspecto político envolvido, que é entendido
como sinônimo de Kyrios -, por se tratar do resultado da reflexão cristológica
no cristianismo primitivo. Serve-se destes e de outros títulos como categorias
para a construção de sua metodologia de pesquisa, na busca pela compreensão dos
conceitos que lhes subjazem na cristologia do Novo testamento.

Seu ministério

Em sua atividade
pública Jesus fora aceito, indubitavelmente, como um mestre, um rabbí. Sua
origem, entretanto, não permite associá-lo aos fariseus e mestres da lei, cuja
atividade em nada lembra o pregador itinerante, crescido na Galiléia e sem a
tradicional erudição daqueles que se debruçavam sobre a lei a fim de esmiuçá-la
em pormenores ritualísticos. A exousia de Jesus, como bem notou Vermes, também
não derivava de abstrações filosóficas, mas da associação de Deus à realidade
existencial , a exemplo de outros mestres e dos profetas veterotestamentários,
o que lhe valeu ser identificado como um destes (Lc 24:19). Talvez a pouca
atenção dada pela dogmática ao aspecto profético do ministério de Jesus deva-se
a condicionarmo-nos “de tal forma, e com razão, a fazer de Jesus objeto de
religião, que acabamos por esquecer que, em nossos registros mais antigos, ele
é apresentado não como objeto de religião, mas como homem religioso”.  Indo além da caracterização de Jesus como mestre
e profeta, Cullman destaca a expectativa judaica da vinda do profeta
escatológico. Não obstante a ausência de qualquer idéia reencarnacionista no
judaísmo, a esperança consistia no ressurgimento de Moisés, Enoque, Elias,
Jeremias ou de algum dos antigos profetas, e era fortalecida pela crença na
ressurreição e pelo fim do profetismo nos moldes do Antigo Testamento. Nos
sinóticos João Batista é tido como o “Elias”, o maior dos profetas
(Mt 11:8 e ss). Em outro sentido, contudo, devido à preocupação em refutar a
“seita do Batista” e os mandeus, o evangelho de João descreve-o como
“uma ‘voz’ (fwnh) que clama no deserto, como o antigo profeta. Em outras
palavras: [João Batista] quer ser somente um profeta à maneira dos do Antigo
Testamento” .

Jesus, pelo testemunho joanino e pelo início de Atos, é concebido como “o
profeta”, o mensageiro escatológico, ainda que tal título seja empregado
de modo restrito e relacionado à proclamação do Reino de Deus. Os sinais
operados certamente permitiram associações, por parte do povo, com os milagres
da antiga era profética (Lc 7:16), característica de seu ministério reconhecida
por ele (Mc 6:4). Jesus fora um grande profeta. Mas foi sua pregação o aspecto
distintivo de sua posição como profeta escatológico, cuja função consistia em,
nas palavras de Cullman:

“… preparar o povo de Israel e o mundo para a vinda do Reino de Deus; e
isto não à maneira dos profetas do Antigo Testamento, mas de um modo muito mais
direto: como precursor imediato do advento deste Reino. (…) A noção de
‘profeta’ explica, pois, perfeitamente a atividade de Jesus como pregador,
assim como também a autoridade com a qual atua e fala”.

O título de Servo Sofredor de Deus – Ebed Yahweh – é, na opinião de Cullman,
central para a cristologia do Novo Testamento. Somente assim é possível
enfatizar, com justiça, o conceito de substituição, implicação natural do
pensamento judaico de representatividade e de solidariedade corporativa. Ao
tentar reformular os dogmas da morte de Cristo e da misericórdia de Deus, com o
objetivo de harmonizá-los, certas vertentes atuais da teologia dogmática
questionam a categoria de “substituição” como imprópria e carente de
base exegética, visto não existir indícios na tradição judaica contemporânea a
Jesus que indicassem essa direção, “… fossem correntes ou estivessem
combinados da forma proposta por pesquisadores como Oscar Cullman”.

Os capítulos 42 e 53 de Isaías são primordiais para a compreensão do Servo –
alguém que traria a justiça irrepreensível de Deus às nações pelo Espírito, não
pela força militar ou pela opressão – e de seu sofrimento – seria morto em
lugar de muitos. A difícil identificação do Servo no judaísmo tem estimulado
muitas pesquisas, sem qualquer conclusão definitiva. Não fazia parte da figura
messiânica judaica o sofrimento ou a substituição expiatória, exceção feita
talvez a alguns intérpretes ou escolas. Contudo, para Cullman, o Ebed é Jesus.
Ele rejeita a tese de que as principais declarações de Jesus a respeito de sua
morte sacrificial seriam vaticina ex eventu, a exemplo de exegese de Mc 2:18 e
ss., contra Bultmann; assim como insiste que, ao aplicar a si indireta ou
diretamente a figura do Servo (Lc 22:37), Jesus “fala de uma maneira geral
de sua morte, [demonstrando que] Is 53 está por trás”. O testemunho do
Novo Testamento, segundo Cullman, corrobora sua posição, haja vista a citação
de Isaías 53 pelo etíope (At 8), o Cristo como a “nossa Páscoa” (1 Co
5) e o sofrimento de Jesus como parte integrante de sua missão (1 Pe 2). Em
particular, cita dois textos do quarto evangelho: a declaração indireta de João
Batista a respeito do Ebed (Jo 1:29, 36) e a “citação que a voz celestial
faz do começo dos cânticos do Servo. (…) Para ele [João], a vocação batismal
de Jesus foi um chamado a assumir a missão do Ebed Iahweh”.

“Sumo Sacerdote” como designação aplicada a Jesus somente foi
utilizada após a sua morte e proposta como solução cristológica aos
questionamentos sobre a relação entre Cristo e o Antigo Testamento. Conquanto o
judaísmo tardio, no primeiro século, não tenha descrito a figura do Messias com
funções sacerdotais, tal foi o entendimento dos primeiros cristãos e, parece,
do próprio Jesus, ao interpretarem o Salmo 110, aplicando-o ao Cristo, o
“sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” (Mc 12:35
ss.). É incontestável, no entanto, que crenças a respeito deste misterioso
rei-sacerdote, associando-o a figuras escatológicas, existissem no imaginário
judaico e nas especulações cristã-gnósticas anteriores à epístola aos Hebreus –
cuja temática versa, principalmente, em torno da superioridade do sacerdócio de
Jesus em relação ao sistema sacrificial veterotestamentário.

De acordo com Cullman, o escritor da epístola aos Hebreus baseia-se
principalmente no já citado Salmo 110 e em Gênesis 14 para formular seu
raciocínio, cuja chave está no capítulo 7, assim como:

“… se esmera em demonstrar que Jesus consuma, de forma absoluta, a
função [imperfeita e passageira] do sumo sacerdote judaico, (…) o autor
encontra este sacerdócio absoluto e perfeito prefigurado já na figura
misteriosa deste Melquisedeque de Gn 14”.

Claro está, segundo Cullman, que em Hebreus Jesus consuma em si o sacrifício
perfeito e completo, pois ele mesmo é a oferta sacrificada e o sumo sacerdote
que oferta. E pela superioridade de sua abrangente obra, decorrente da posição
mais elevada que ocupa em relação ao sacerdócio levítico, não há necessidade de
repetição do sacrifício que foi realizado uma vez por todas; seu alcance é
ilimitado e seus efeitos plenos em sua realização. A perfeição de seu
sacrifício inaugura o caminho de aperfeiçoamento dos santos, agora aceitos por
Deus e objetos da intercessão de Jesus. Eis a diferença do sumo sacerdote Jesus
para o seu correspondente judaico: o caráter intemporal de sua obra e sua
identificação com o Ebed, oferta pelo pecado, que não pecou ainda que em tudo
tenha sido tentado, semelhante a qualquer ser humano. A influência das
concepções judaicas sobre o sumo sacerdote escatológico, ideal, evidencia-se na
menção da parusia em 9.28, ocasião em que ele virá ainda como mediador, para
“levar-nos à plenitude de nossa santificação”.

A dogmática adotada neste trabalho concorda, em linhas gerais, com Cullman.
Entretanto, acrescenta que o aspecto vicário da obra de Cristo representa um
ato de amor a fim de destruir o pecado e a morte, não uma pura satisfação da
ira de Deus. Em 13.10-14 o sacrifício de Cristo é tipificado pela queima das
vísceras da vítima “fora do arraial”, banindo toda a impureza. Esta é
a chave hermenêutica para a compreensão de sua morte, “… numa época em
que a fenomenologia e a antropologia (…) voltaram-se para a prática ritual e
cúltica para dela extrair nossos sentidos e teorias”.

A EXPECTATIVA FUTURA SOBRE JESUS CRISTO
O Messias

Dentre os diversos títulos cristológicos, certamente “Messias” – em
grego “Cristo” – é o mais mencionado. É reconhecido não somente por
ser associado ao nome próprio “Jesus”, como também pela posição
ocupada no judaísmo tardio, pois estava ligado à esperança escatológica de tal
maneira que outras figuras, não raro, eram incorporadas a ele. No período
intertestamentário surgiu o conceito “de que o reino de Deus se seguiria à
vitória na terra de exércitos angélicos celestiais sobre as hostes de
Satanás”. Contemporânea à época neotestamentária fora a concepção do
“Messias político”, um líder nacional que libertaria o povo escolhido
da opressão sócio-político-econômica infligida pelo império romano. Embora
estas idéias estejam presentes nos escritos do Novo Testamento, Jesus como o
Messias foi compreendido com outra conotação no Antigo Testamento.

A palavra é traduzida pelo particípio “ungido” e se referia a homens
escolhidos por Deus para levar a cabo determinada missão; por exemplo, um rei,
um sacerdote, um profeta e até alguém como Ciro, um soberano estrangeiro que
seria instrumento de Deus no cumprimento de seus desígnios (Is 45.1). Cullman
destaca que a promessa feita por Deus a Davi, de perpetuidade de seu reinado
através de seus sucessores (2 Sm 7.12 ss.), incitou uma expectativa
escatológica, por não ter sido cumprida como se esperava. Em suas próprias
palavras:

“Isto não significa que este ‘Ungido’ aparecerá fora do âmbito terrestre.
A palavra ‘escatológico’ deve ser tomada aqui em seu sentido etimológico, ou
seja, temporal. Pensa-se que é preciso uma realeza terrena para trazer a
salvação futura. (…) Trata-se de uma esperança escatológica que deve
realizar-se inteiramente na esfera terrena”.

Na literatura apócrifa judaica o Messias aparece como libertador, ora como quem
inauguraria uma era escatológica de paz e liberdade, ora como um rei que
aniquilaria os inimigos dos judeus, ora ainda como o sacerdote-redentor da
nação. A autoconsciência messiânica de Jesus, de modo diferente, descartou
qualquer caráter político de sua obra e tampouco alimentou o anseio de vê-lo
ocupando o trono de Davi. A exegese de Cullman de textos do evangelho de Marcos
– 8.27 e ss., 14.61 e ss., 15.2 e ss. – e de seus paralelos sinóticos, que se
referem à indagação acerca de Jesus como o “Messias-rei”, conclui que
ele mesmo rejeitou ser assim reconhecido, com respostas evasivas finalizadas
com a sua identificação como o “Filho do Homem”, cuja missão,
estranha ao messianismo judaico, era a de Servo Sofredor, de Ebed Iahweh. Seu
reino não é deste mundo e seu trono está à direita do Pai. Para o cristianismo primitivo:

“… a realeza do Filho de Davi era, acima de tudo, a realeza que exercia
sobre a igreja. (…) mais potente tornava-se, também, a esperança da
manifestação final e total de sua consumação. Pois tornamos a achar no
cristianismo primitivo, como no próprio Jesus, a tensão entre ‘o já cumprido’ e
o ‘por cumprir-se’. (…) Segundo a fé dos primeiros cristãos é unicamente no
futuro que a realeza de Jesus se manifestará de modo visível”.

O Filho do Homem

A pesquisa sobre o significado de “Filho do Homem” no Novo Testamento
há anos encontra-se em plena efervescência. Estudiosos, como Vermes, têm se
restringido à análise filológica do termo original aramaico barnasha para
justificar o uso puramente idiomático da expressão, referindo-se a homem em
geral e, em particular, a si mesmo “em contextos que denotam reverência,
reserva ou modéstia”. Rejeitando a interpretação messiânica de Daniel 7 e,
conseqüentemente, a exegese de Cullman, assim como descartando a hipótese de
Bultmann de Jesus ter se referido a outrem, esses críticos entendem “…
que o título apocalíptico de Filho do Homem é uma invenção moderna. Jesus e a
igreja primitiva desconheciam por completo um título judaico de Filho do
Homem”. O estudo histórico-filológico de Cullman adota uma perspectiva
mais abrangente do assunto.

Segundo os evangelhos, Jesus referiu-se a si mesmo como o Filho do Homem. Que
queria dizer ele? Seria apenas um modo peculiar de tratamento, no aramaico, da
primeira pessoa do singular? Não obstante as recentes hipóteses levantadas
pelos filólogos, como exposto acima, o título requer outras considerações.
Cullman pressupõe a suficiência da análise da idéia judaica de Filho do Homem,
porquanto consiste, ao mesmo tempo, em fonte da correspondente noção cristã do
termo e em síntese de figuras similares existentes no paganismo. É bem provável
que, em círculos judeu-gnósticos anteriores, a expectativa do surgimento do
Filho do Homem fosse evidente, em contraste com o perfil político do
messianismo do primeiro século. Na apocalíptica judaica o Filho do Homem, em
Daniel 7, aparece como representação do povo escolhido; em 4º Esdras como o
Messias, salvador enviado pelo Altíssimo; e em Enoque, a mais expressiva obra
do judaísmo tardio no tocante a esta questão, um indivíduo representando a
nação, “aquele cujo nome é pronunciado pelo ‘Ancião de dias’ no começo da
criação; aquele que, por conseguinte, foi criado antes de todas as
criaturas”. Se, por um lado, não se deve ignorar a simbologia judaica
presente em tais conceitos, por outro se faz necessário destacar a crença nesse
ser especial, nesse homem do céu “que, sendo realmente homem, possui uma
dignidade divina particular; com efeito, a história das religiões nos ensina
que existem especulações relativas a um ‘primeiro homem’, protótipo divino da
humanidade” [itálicos do autor]. Seria ele, no judaísmo, imago Dei em sua
integridade, o “Adão ideal”, o “Segundo Adão” conforme
adaptação da teologia paulina, visto por Cullman como estreitamente ligado à
categoria de Filho do Homem, apesar do próprio Jesus não haver feito tal
conexão.

As duas possíveis explicações para o uso da expressão – referência ao homem do
céu e termo idiomático para denominar “homem” de forma geral – foram
reconhecidas por Cullman, com a ressalva da particularidade de seu uso
relacionado ao ser celestial, denotando a singularidade da pessoa de Jesus e a
patente autodenominação como Filho do Homem, esta notavelmente presente em
descrições da parusia, quando será o executor do juízo divino sobre a terra (Mc
8.38) – não há porque pensar na referência ao Filho do Homem como algo de cunho
puramente escatológico, visto as inúmeras citações existentes, em diversas
situações, do título. Nos logia de Jesus, igualmente, as expressões
“homem” e “Filho do Homem” são aplicadas com conotações
distintas: a primeira para indicar algum homem, de modo geral; a segunda usada
especificamente para Jesus. Mesmo barnasha não possuindo uma tradução
inequívoca, os contextos nos quais aparece relacionado a Cristo sugerem ser um
título aplicado a ele. Ademais, é simplista “e sumário afirmar que os
evangelistas foram os que puseram este título nos lábios de Jesus, (…) a
designação de Jesus como ‘Filho do Homem’ não é, de modo algum, corrente no
cristianismo primitivo”.

A conclusão de Cullman é que Jesus, ao aplicar tal título a si mesmo, não
estava simplesmente realçando sua humanidade, como a dogmática insiste ao
opô-lo à idéia de “Filho de Deus”. Supõe sua preexistência e sua
aparição na era escatológica – conforme a crença judaica corrente no homem
celestial -, assim como sua encarnação e humilhação, pois o Filho do Homem
representa o povo e o substitui ao sacrificar-se. No restante do Novo
Testamento ele é aquele que “esvaziou-se” de sua glória (Fp 2.6 e
ss.), fazendo-se “carne” (Jo 1.14) e a figura apocalíptica que virá
no juízo (Ap 14.14). Segundo Cullman, exceção feita à interpretação
cristológica à luz da imago Dei empreendida por Karl Barth, não há um esforço
de construção de uma cristologia calcada na concepção de “Filho do Homem”.
Esta se justifica, mormente, pela necessidade de redefinição do problema das
duas naturezas, insolúvel pela lógica formal.

A OBRA PRESENTE DE JESUS CRISTO
Senhor

A fé cristã não limita a atuação de Jesus ao passado, nem apenas nutre a
expectativa da vinda do reino escatológico. Crê, sim, em sua atuação presente
junto aos seus e à sua Igreja; pressupõe um ministério atual de intercessão
junto ao Pai e de autoridade sobre a comunidade cristã, como cabeça a dirigir
os movimentos e ações do corpo.

Cullman vê na denominação “Senhor”, Kyrios, a indicação dessa crença
por parte dos primeiros cristãos. Destaca, ainda, que tal designação possuía
significado específico no meio helênico e, rejeitando qualquer explicação que
confira a tal ambiente a exclusividade de dirigir a Jesus este título
reconhece, todavia, sua grande influência pelo uso corrente do termo no
paganismo helenístico oriental.

Refutando a suposição da inserção de Kyrios puramente pelos escritores
helenistas do Novo Testamento, Cullman identifica a aparição da expressão como
reação cristã aos “senhores”, Kyrioi, divindades pagãs às quais era
dispensado este tratamento. Os cristãos reconheciam um só Senhor, Jesus Cristo,
cuja revelação desmistificara todos os outros supostos kyrioi (1 Co 8.5 e ss.).
Evoluindo de simples referência a autoridades políticas e jurídicas para forma
de tratamento ao imperador como reconhecimento de sua divindade; adquirindo uma
significação cuja concepção associava estes dois sentidos ao ser empregada no
culto ao soberano, prática religiosa oriental e estrategicamente fomentada por
Roma; e, por sua conotação religiosa, provavelmente tendo inspirado a gematria
do apocalipse joanino, “pode-se dar por coisa certa que a profissão de fé
Kyrios Iesous Christos, onde ela ocorre no Novo Testamento, representa uma
espécie de resposta polêmica ao mesmo título Kyrios conferido às divindades
helenísticas e ao imperador…”

No judaísmo, o vocábulo hebraico Adonai fora substituto do tetragrama sagrado
JHVH, prática corrente contemporânea aos primórdios do cristianismo. Nota-se na
Septuaginta esta palavra traduzida por Kyrios como referência a Deus. O
correspondente aramaico é mar, de onde é derivada a expressão cristã bíblica
Maranatha, porém sem ter seu emprego relacionado a Deus nos escritos aramaicos
do Antigo Testamento. A discussão recai, diante do ocorrido no helenismo e no
culto judaico, sobre a possibilidade do uso aramaico palestino de mar como
forma respeitosa de se dirigir a alguém – a exemplo dos discípulos no trato com
seu rabbí – ter evoluído ao patamar de título cristológico reconhecido pela
comunidade primitiva. Com Bultmann, eruditos defendam a descontinuidade de seu
uso, uma origem helênica desta categoria sem algum vínculo com o sitz im leben
palestino. Recorrendo à citação litúrgica cristã Maranatha, encontrada também
no Didaquê e cuja provável tradução é “Senhor nosso, vem!”, Cullman
conclui que em aramaico Jesus é descrito como “Senhor” em sentido
mais profundo, análogo ao uso judaico e helênico:

“Sem dúvida, no terreno do helenismo, o uso pagão do termo Kyrios, seu
vínculo com o culto do soberano e, primordialmente, o fato de que por este
termo os LXX tenham traduzido o nome de Deus, contribuíram para fazer de Kyrios
o título mais corrente para designar o Cristo”.

A confissão de fé em Jesus, o Kyrios, expressa em 1 Co 12.3, em detrimento do
uso aramaico, justifica-se pela oposição aos outros “senhores”
através do reconhecimento da superioridade de sua realeza e força, acima de
qualquer imperador, pois é o “… ‘Rei dos Reis’. Isto significa que o
Kyrios é Jesus, e não o imperador (Ap. 17.14)”. Urgia fortalecer a
convicção dos cristãos a fim de não se curvarem diante do Kyrios Kaisar,
tampouco maldizerem a Cristo, quaisquer que fossem as circunstâncias, inclusive
a morte. Jesus, o Cristo e Senhor, domina hoje sobre toda a criação e trará a
lume não somente isto, como também reinará visivelmente, sujeitando todas as
coisas. Contém a tensão entre o “já” e o “ainda não” da
dialética histórica cullmaniana e, apesar de não ser a categoria cristológica
mais antiga, é a mais significativa, pois “… a partir da cristologia do
Kyrios é que se tem empreendido a síntese em que todos os aspectos associados
aos títulos cristológicos encontram seu lugar, conforme o papel que tem na história
da salvação. (…) é a única que torna possível o que podemos chamar de
cristologia do Novo Testamento” [itálicos do autor]. As Escrituras dizem
que Jesus assentou-se à direita de Deus, ao ser declarada a sua autoridade
exercida em nome do soberano criador, pela interpretação cristã do Salmo 110.1.
Segundo atesta a dogmática, a despeito das diferentes interpretações, desde a
Reforma, sobre as implicações do senhorio de Cristo e sua presença na
eucaristia:

“Quando, na Igreja primitiva, Jesus foi chamado ‘Senhor’, o dito foi
interpretado no sentido de que Deus fala a Jesus. Entre a época de seu
ministério terreno e de sua volta no fim do tempo para julgar o mundo, Jesus
governa agora como o Senhor da história e da Igreja”.

Salvador

Pela primazia do pensamento sobre Jesus como o “Senhor”, conforme
visto acima, o título “Salvador”, tão mencionado em nossos dias, é
pouco utilizado no Novo Testamento; quando o é – observação oportuna de Cullman
-, Sóter figura como mero complemento de Kyrios. Por outro lado, seu uso
percorre os escritos do Antigo Testamento e do judaísmo, desde épocas remotas,
como atributo de Deus e do Messias que havia de vir. No helenismo, o termo
aplicava-se aos deuses que intervinham na história, às autoridades humanas
quando da libertação de determinado povo da opressão e dos males sofridos e,
ainda, ao imperador romano. Menos preciso é o seu sentido nas religiões de
mistério: provavelmente referia-se às divindades ligadas à imortalidade. Digno
de nota é a ausência do termo nos evangelhos, o que demole a idéia da
referência a Jesus como taumaturgo, segundo tese de Harnack, e aponta para uma
utilização posterior associada à obra total de Cristo como entendida pelos
primeiros cristãos, concentrando a discussão numa exegese filológico-histórica
à moda de Cullman, evitando uma “psicologização” da atribuição do
conceito de Sóter a Cristo, evocada sob o pretexto de se empreender a busca do
Jesus “judeu” ou “histórico”. O significado do nome
“Jesus” é sugestivo, pois já o identificava como “Salvador”,
revelando-se o cumprimento das profecias a respeito da salvação de Deus, a
consumação da expectativa messiânica e o propiciador da remissão dos pecados de
Israel. Para Cullman:

“Trata-se, pois, principalmente da transferência a Jesus de um atributo que
o Antigo Testamento reserva a Deus. (…) Sem dúvida, aqui estamos dentro de
categorias de pensamento que são mais judeu-cristãs do que pagã-cristãs. O
Cristo é Sóter porque nos salvou do pecado”.

Uma outra constatação pode ser feita pela ausência de “Salvador” no
Novo Testamento: seu uso remonta a um período anterior aos escritos paulinos,
cujo estilo menciona a salvação através de Jesus Cristo sem usar o título. Não
obstante, a expressão cristã primitiva Icthys sugere a plena consciência dos
cristãos do período apostólico a respeito de Jesus Sóter.

A DIVINDADE DE JESUS CRISTO
Sua existência anterior à encarnação

Como bem reconhece Cullman, sua classificação dos títulos atribuídos a Jesus
facilita o estudo sistematizado da cristologia do Novo Testamento, não
constituindo uma rígida formatação. Isso porque certas designações de Jesus
relacionam-se com outros temas além daqueles nos quais estão inseridos. Assim
sendo, certos títulos acima estudados implicam a divindade de Jesus ou sua
preexistência; contudo, são os de Logos, “Filho de Deus” e
“Deus” que sugerem tais categorias de modo mais direto. Em sua
introdução à quarta divisão de sua obra, sob o tema “Títulos referentes à
preexistência de Jesus”, Cullman enfatiza sua convicção que especulações
sobre as naturezas da pessoa de Jesus não conferem uma real compreensão da
revelação divina:

“… veremos que estes termos [Logos e ‘Filho de Deus’] tampouco
contemplam uma unidade de essência ou de natureza entre Deus e o Cristo;
trata-se de uma unidade de ação, na obra da revelação. (…) resulta daí o
paradoxo de que o Pai e o Filho são, ao mesmo tempo, um e diferentes. Se os
teólogos posteriores não puderam dar uma explicação satisfatória deste
paradoxo, deve-se ao fato que o tentaram por especulações filosóficas”.

No início do Evangelho de João e em Apocalipse 19.13 aparece o termo Logos. O
evangelista tencionou demonstrar que o Filho do Homem fizera-se carne,
tornara-se humano e habitara no mundo. Sua origem, portanto, era celestial e
sua preexistência remontava à criação de todas as coisas. “No
princípio” foi o início escolhido para o quarto evangelho, a fim de
vincular Jesus ao relato de Gênesis, ao bereshit. O conceito de Logos está
presente no pensamento grego antigo, sendo amplamente difundido na Antigüidade
e tendo influenciado o judaísmo tardio e o helenismo. Seja como força impessoal
a reger o universo e a iluminar a razão, seja como personificação com facetas
mitológicas, passando pelo idealismo platônico, a idéia do Logos jamais
assumiu, a não ser em sua versão joanina, a possibilidade de encarnação.
Cullman rejeita, sob a pecha da simplificação esquemática, a proposta de
Bultmann que relaciona o Logos judaico-helenista e cristão a um possível modelo
gnóstico – mítico e doceta – da personificação de um mediador entre Deus e os
homens. Ele tentará provar que o Evangelho de João, “… pelo contrário,
submeteu cabalmente a concepção não cristã ou pré-cristã de Logos à suprema e
única revelação de Deus em Jesus de Nazaré, dando-lhe assim forma inteiramente
nova”.

Esta forma, segundo Cullman, conquanto admita certa semelhança à personificação
do Logos como mediador e salvador, é influenciada pela reflexão em torno da
“Palavra de Deus”, do “Verbo”, herdada do Antigo Testamento
e do judaísmo. No relato da criação, Deus dá origem ao mundo pela sua
“Palavra”. Em outros textos, como em Salmos e Isaías, a Palavra
cumpre os desígnios divinos, na forma de força autônoma a agir no universo. Em
Fílon, o Logos começa a ganhar contornos de ente personificado; no judaísmo
tardio, a “Sabedoria” aproxima-se ainda mais da noção do Logos
joanino (Pv 8:22-26; Sabedoria de Salomão 7.26). Ainda assim, Cullman adverte
que “… esta Palavra (…) poder finalmente encarnar-se no quadro
histórico de uma vida humana e terrena, é coisa tão estranha a uma como a outra
[judaísmo bíblico e tardio]”.

O Logos cristão é fruto da reflexão sobre Jesus como a revelação de Deus e, ao
mesmo tempo, portador dela. Ele é a “Palavra” e traz a palavra, o
anúncio da salvação aos homens. É mais que uma voz, como o Batista; é a
revelação de Deus em si, em sua pessoa e obra. Nisso, as semelhanças entre o
prólogo de João e os versos iniciais de Hebreus 1 são incontestáveis, não
obstante as diferentes ênfases; o primeiro introduz o relato obra sobre a vida
e a obra do Cristo encarnado e, o segundo, um sermão apologético da eficácia de
seu sacrifício e de sua obra presente. O “Verbo” como hipóstase é
descrito no evangelho de João como aquele que “estava com Deus” e
“era Deus”. Esclarecidas, como estão hoje, as questões filológicas
envolvidas e as tentativas de racionalização do problema levantado no prólogo
de João, resta a Cullman asseverar:

“Devemos deixar este paradoxo subsistir em toda a cristologia. (…)
Aliás, voltamos a encontrar o mesmo paradoxo no curso do [quarto] Evangelho;
(…) em virtude da própria natureza do Logos, não se pode falar dele senão em
referência à ação de Deus”.

Há pontos de convergência e divergência entre Cullman e a dogmática. Enquanto a
análise cullmaniana restringe-se à revelação histórica de Deus em Jesus, em
termos de instrumentalidade e sem pensar em questões ontológicas, a dogmática
permite-se falar dele como Filho, Segunda Pessoa da Trindade e igual ao Pai
enquanto Ser, “presença viva de Deus na carne”. Por outro lado, o
universalismo do Cristo, como revelação de Deus ao mundo e não simples dogma
religioso ou possibilidade de sincretismo a partir de outras
“revelações” não cristãs, é compartilhado pelas perspectivas
cullmaniana e dogmática de compreensão da figura transcendente do Logos.

Sua filiação
divina




Ao tratar sobre
Jesus como o “Filho de Deus” em Cullman, necessário se faz ter em
mente sua proposta inicial, apresentada acima, de desconsiderar a discussão
sobre as naturezas e a co-substancialidade do Filho em relação ao Pai. O
interesse do estudo deve recair sobre a revelação de Deus em Jesus e no
conteúdo dado por este e pelos autores bíblicos aos títulos cristológicos.
Portanto, a expressão “Filho de Deus” não diz respeito à essência de
Jesus, tampouco se refere apenas à sua divindade, haja vista outros títulos
aludirem a tal; antes, descreve o relacionamento específico daquele que fora
enviado por Deus para revelar Sua Pessoa e vontade.

A influência helenista do conceito de “Filho de Deus” no cristianismo
é vista por Cullman como limitada. Seu uso era vasto, aplicando-se a monarcas,
taumaturgos, pessoas que manifestavam poderes sobrenaturais, além de estar
presente como expressão comum em obras antigas. “A pretensão destes homens
de serem ‘Filhos de Deus’ baseia-se unicamente na convicção que tinham de serem
dotados de forças divinas”. O politeísmo helenista não admitiria, como
tentou demonstrar Bultmann, uma idéia monoteísta de “Filho de Deus”.

No Antigo Testamento, eram assim chamados, de forma mítica, os anjos (Gn 6.2).
O povo de Israel é designado como primogênito de Deus (Ex 4.22 e ss.); o rei
entronizado, como representante da nação, era adotado por Deus como filho (2 Sm
7.14, Sl 2.7); e o Messias, em sua realeza, provavelmente era visto no judaísmo
como eleito do Senhor “para realizar uma missão divina particular, e
obedecer estritamente ao chamado de Deus”. Nesse sentido parece caminhar o
significado de “Filho de Deus” aplicado a Jesus nos sinóticos. Ele
não é reconhecido assim por ser um taumaturgo ou possuir poderes
extraordinários, mas por estar disposto a levar a efeito a incumbência dada a
Ele pelo Pai; este o chama de “Filho” na ocasião do batismo. No
relato da tentação, o diabo procura instigá-lo a desejar riquezas e a fazer
milagres para que se desvie dos propósitos divinos. Entretanto a expectativa
messiânica não se compatibiliza com a concepção do Ebed sofredor, estreitamente
associada à missão do Filho. O trecho de Mt 16.16-19 sugere que a confissão de
Pedro sobre a filiação de Jesus implicaria na aceitação de seu sofrimento e
morte, motivo pelo qual Pedro é duramente repreendido. A conclusão de Cullman é
que Jesus designou-se como “Filho de Deus”, demonstrando sua
consciência de intimidade ímpar com o pai e zelando por separá-la de qualquer associação
com uma realeza messiânica.

Dentre os evangelhos, João explora a autoconsciência de Jesus de ser o
“Filho” e Marcos ressalta a fé no Filho de Deus; Mateus e Marcos
procuram traçar sua origem humana, cujo nascimento virginal denotaria sua
origem também divina. A íntima relação entre Jesus e o Pai aparece nos
sinóticos com clareza em Mt 11.27, em raro momento, diversamente do quarto
evangelho em suas declarações sobre o “Filho”. Por isso, exegetas têm
questionado a autenticidade da passagem sinótica, classificando-a como glosa
deliberadamente confeccionada com moldes joaninos, tese rejeitada por Cullman,
entre outros estudiosos de vulto, cujo entendimento é que tal verso “pode,
com efeito, ‘ter sido pronunciado em virtude de uma consciência da preexistência'”.

Nas confissões de fé da igreja primitiva indubitavelmente estava presente a
crença no “Filho de Deus”. Apesar de pouco aparecer fora dos
evangelhos, é evidente no relato do batismo do eunuco etíope em Atos 8, em
Paulo (Rm 1.3, confissão provavelmente antiga), na polêmica de 1 João e na
fórmula ICQUS. Ao citar 1 Co 15.28, Cullman reitera o que considera o sentido
mais profundo da união entre o Pai e o Filho Unigênito:

“Esta é a chave de toda a cristologia do Novo Testamento: falar do Filho
não tem sentido senão em relação à obra de Deus e não em relação ao seu ‘ser’.
(…) Do ‘Filho de Deus’, como do Logos, se pode dizer: ele é Deus, enquanto
Deus se revela em sua obra da salvação, obra da qual fala todo o Novo
Testamento”.

Jesus como “Deus”

Em Cullman, Jesus é “Deus enquanto se revela”. Somente há sentido em
se falar de sua divindade quando associada à história da salvação, pois assim
Deus se revelara nas Escrituras, cuja concepção de Deus não é esgotada. Em sua
opinião, as passagens bíblicas onde Jesus é chamado “Deus” apenas
corroboram aspectos contidos em outros títulos cristológicos; por outro lado,
pelas óbvias implicações impostas pelo tema, são mais suscetíveis às
pressuposições do exegeta, conservadores ou liberais. Nos sinóticos, o próprio
Jesus e os evangelistas não se preocupam em descrever o Cristo como
“Deus” ou Kyrios. Contudo, “… o cristianismo primitivo não
teme aplicar a Jesus, ao dar-lhe o título de Kyrios, tudo o que o Antigo
Testamento diz acerca de Deus”. O evangelho de João não afirma que Jesus é
simplesmente divino, mas, em seu prólogo e em sua confissão de fé final, que
estava com Deus e é Deus em sua revelação (1.1; 1.18 como lectio difficilior;
20.28, cf. 1 Jo 5.20). Visto por Cullman estreitamente relacionado ao estilo
joanino, a epístola aos Hebreus cita, em seu primeiro capítulo, o salmo 45:7-9,
enfatizando que o vocativo “ó Deus” refere-se a Jesus. Paulo entende
ser ele imagem de Deus, expressão de seu ser, o Kyrios; diretamente, porém,
apenas em Rm 9.5 e Tito 2.13, é provável filologicamente que o apóstolo aos
gentios tenha dito que o Cristo é “Deus”. Ao afirmar que esta idéia
esteja presente também em 2 Pe 1.1 e Atos 20.28, Cullman conclui que “…
naquelas poucas passagens do Novo Testamento onde Jesus recebe o título ‘Deus’
esta qualificação se liga, por um lado, a sua elevação à dignidade de Kyrios
(Epístolas de Paulo, 2 Pedro), e por outro, à idéia de ser, ele mesmo, a
revelação (escritos joaninos, Hebreus)” [sic].

CONCLUSÃO

Na última parte de sua obra, Cullman sumariza algumas de suas conclusões e
reflete sobre as implicações de sua metodologia histórica. Percebe o mérito de
sair do lugar comum de certas escolas teológicas – por exemplo, a expectativa
da parusia na igreja primitiva -, através de uma visão mais abrangente e
investigativa, portanto menos reducionista do processo de construção das
diversas perspectivas cristológicas existentes no Novo Testamento. Em suas
palavras:

“Ainda hoje não há outro ‘método’ de compreender a cristologia, senão
aquele que está exposto nos capítulos 5-8 do Evangelho de João. Pois para o
homem de então era tão difícil, como é para nós, crer no que para os judeus era
um ‘escândalo’ e para os gregos uma ‘loucura'”.

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BIBLIOGRAFIA
BRAATEN, Carl E., JENSON, Robert W. Dogmática cristã. São Leopoldo: Sinodal, 2
v., 1990.
CULLMAN, Oscar. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Liber, 2001.
VERMES, Geza. Jesus e o mundo do judaísmo. São Paulo: Loyola, 1996.

XI
A DIVINDADE
DE JESUS CRISTO – I
 No
Espiritismo, Ele era um reformador da Judéia, com a missão de ensinar aos
homens uma elevada moral, a moral evangélico-cristã; segundo Allan Kardec, foi
Ele um médium de primeira grandeza e a segunda revelação de Deus (a primeira
teria sido Moisés, e a terceira e última, o Espiritismo). Para os
Testemunhas-de-Jeová, Ele é um Ser criado por Jeová, poderoso, mas não
todo-poderoso. No Budismo, Jesus foi um grande Mestre. No Mormonismo, Jesus não
foi gerado pelo Espírito Santo, e viveu em poligamia com Marta e Maria, irmãs
de Lázaro. No Islamismo, foi um mensageiro de Deus, porém menor que Maomé. Na
Nova Era, Jesus não é Deus porque todos somos deuses, e a Era de Peixes, de
Jesus, está se expirando, e um novo avatar surgirá para conduzir a humanidade à
Era de Aquários, que colocará o mundo em ordem e estabelecerá a paz.

Negar a divindade de Jesus é uma das características das seitas, mas “as
portas do inferno não prevalecerão” contra a Igreja de Cristo. Para nós cristãos,
Jesus Cristo é Deus. A prova disso não é apenas a nossa fé. Contamos com a
Bíblia Sagrada, livro escrito por cerca de 40 escritores, divinamente
inspirados; contamos com o testemunho de apóstolos que caminharam com Jesus,
ouviram suas palavras e viram seus milagres, a exemplo de Pedro que declarou
enfático: “TU ÉS O CRISTO, O FILHO DO DEUS VIVO” (Mateus 16.16).

Até os demônios reconhecem que Jesus é o Filho do Deus altíssimo “(Lucas
8.28). Temos as palavras do próprio Jesus que afirmou: “EU E O PAI SOMOS
UM” (João 10.30). Temos o testemunho do profeta Isaías que, 700 anos de o
Verbo habitar entre nós, chamou-O de “Deus Forte” e “Pai da
Eternidade” (Isaías 9.6). Contamos, também, com o testemunho de milhões de
vidas transformadas pela redenção que nEle há. Tratar-se-ia de apenas um
espírito evoluído, um homem com poderes mediúnicos como desejam os kardecistas?
Se Jesus é apenas um espírito iluminado, por que não “baixa” nas
sessões espíritas? Se Jesus foi igual a Buda e Maomé, onde estão seus ossos? Em
lugar nenhum iremos encontrá-los porque Jesus ressuscitou, e vive e reina para
sempre. Aleluia! Vejamos o que dizem as Escrituras sobre a divindade de Jesus.

CRISTO, O CRIADOR

§ “Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito
se fez… estava no mundo, e o mundo foi feito por ele e o mundo não o
conheceu” (João 1.3, 10). “Pois nele foram criadas todas as coisas
que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam
dominações, sejam principados, sejam potestades, tudo foi criado por ele e para
ele” (Colossenses 1.16). “…a nós falou-nos [Deus] nestes últimos
dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez o mundo”
(Hebreus 1.2).

CRISTO, O DEUS

§ “A virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamarão pelo nome de
Emanuel, que quer dizer: Deus conosco” (Mateus 1.23). “No princípio
era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus… e o Verbo se fez
carne e habitou entre nós (João 1.1,14). Atenção: “O Verbo era Deus”,
e não “o Verbo era um deus”, como desejam os testemunhas-de-Jeová.
“Eu e o Pai somos um” (João 10.30); “Quem me vê, vê o Pai”
(João 14.9). “O Pai está em mim, e eu nele” (João 10.38);
“Disse-lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu” (João 20.28); “Deles são
os patriarcas, e deles descende Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos,
Deus bendito eternamente. Amém”. (Romanos 9.5). “Pois nele habita
corporalmente toda a plenitude da divindade (Colossenses 2.9). “Porque um
filho nos nasceu…o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai
da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9.6). “Este é o verdadeiro
Deus e a vida eterna” (1 João 5.20). Outras referências: João 1.15,18,30;
Colossenses 1.15; 2 Coríntios; 4.4; 5.19.

CRISTO, O ETERNO

§ “Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o
fim” (Apocalipse 22.13). “Em verdade, em verdade vos digo que antes
que Abraão nascesse, eu sou” (João 8.58). “Eu e o Pai somos um”
(João 10.30,38). “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Filipe?
Quem me vê, vê o Pai… crede-me quando digo que estou no Pai e o Pai está em
mim” (João 14.9-11,20; 17.21). “Vim do Pai e entrei no mundo; agora
deixo o mundo e volto para o Pai” (João 16.28) Outras ref.: João 1.18;
6.57; 8.19.

CRISTO, O TODO-PODEROSO

§ “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mateus 28.18). “Eu
sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, aquele que é, que era
e que há de vir, o Todo-poderoso” (Apocalipse 1.8). Outras referências:
Efésios 1.20-23; João 21.17.

CRISTO, O SALVADOR

§ “Mas quando apareceu a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor
para com os homens, não por obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo
a sua misericórdia, ele nos salvou mediante a lavagem da regeneração e da
renovação pelo Espírito Santo, que ele derramou ricamente sobre nós, por meio
de Jesus Cristo nosso Salvador”(Tito 3.4-6).

§ “E em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome
há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12). Vejam
a ênfase: “Em nenhum outro nome”. Não sobra para Buda, para Allan
Kardec, para Maomé, para Confúcio, para Lao-Tsé, para Osíris, Vishnu, Brama,
Shiva, Zoroastro, Maytreia. O nome de Jesus está acima de todos e de tudo.
Outras referências: João 3.16; Lucas 4.18; Isaías 61.1.

Jesus não foi um simples fundador de uma religião. Os afamados fundadores de
seitas que surgiram na história da humanidade estão todos mortos e devidamente
enterrados; seus corpos foram comidos pelos vermes, e seus ossos, se ainda
restam, estão em algum lugar. Com Jesus não aconteceu a mesma coisa. A terra
não pôde detê-lo, a morte não teve domínio sobre Ele. Jesus ressuscitou do
sepulcro e sobre isto há o testemunho das Escrituras; há o registro de
testemunhas oculares que com Ele estiveram durante sua vida terrena e após a
sua ressurreição, e viram-no ascender aos céus (Mateus 28.1-10; 16-18; Marcos
16.1-14; Lucas 24.1-53; João 20.1-18).

OS TÍTULOS DE JESUS

De forma direta ou indireta, pelo nome ou pelos títulos, o nosso Salvador
permeia toda a Bíblia, onde é apresentado, por exemplo, como Messias, Redentor,
Libertador, Perdoador de pecados, Juiz, Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Vejamos alguns dos títulos de Jesus distribuídos por vários livros:

Gênesis: Semente da mulher.
Jó: Redentor.
Salmos: Pedra angular.
Cantares: Rosa de Saron.
Isaías: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da
Paz, Emanuel, Glória do Senhor, Legislador, Poderoso de Jacó, Renovo, Santo de
Israel.
Jeremias: Justiça nossa.
Daniel: Ungido ou Messias.
Miquéias: Juiz de Israel.
Ageu: Desejado de todas as nações.
Zacarias: Rei.
Malaquias: Mensageiro da aliança, Sol da justiça.
Mateus: Filho amado, Filho de Davi, Filho de Deus, Filho do homem, Guia, Rei
dos judeus.
Marcos: Filho do Deus Bendito, Santo de Deus.
Lucas: Consolação de Israel, Filho do Altíssimo, Poderoso Salvador, Profeta,
Salvador, Sol nascente.
João: A Porta, a Ressurreição e a Vida, Bom Pastor, Cordeiro de Deus, Criador,
Deus Unigênito, Eu Sou, Luz do mundo, Luz Verdadeira, Verbo, Verdade, Vida,
Videira verdadeira.
Atos: Justo, Santo, Senhor de todos.
Romanos: Deus bendito, Libertador.
1 Coríntios: Adão, Nossa Páscoa, Rocha, Senhor da glória.
2 Coríntios: Imagem de Deus.
Efésios: Cabeça da Igreja.
1 Timóteo: Bem-aventurado e único Soberano, Mediador, Rei dos reis, Rei dos
séculos, Senhor dos senhores.
Tito: Salvador.
Hebreus: Apóstolo da nossa confissão, Herdeiro de todas as coisas, Autor e
Consumador da fé, Grande Sumo Sacerdote.
1 Pedro: Pastor e Bispo das almas, Príncipe dos pastores.
1 João: Advogado.
Apocalipse: Alfa e Ômega, Cordeiro, Leão da Tribo de Judá, O Primeiro e o
Último, Primogênito, Rei dos santos, Resplandecente Estrela da Manhã,
Todo-poderoso.

A TRINDADE

Negar a divindade de Jesus é negar a existência do Deus trino, ou seja, do Deus
único, eternamente subsistente em três Pessoas: a Primeira Pessoa, Deus Pai; a
Segunda Pessoa, Deus Filho; e a Terceira Pessoa, Deus Espírito Santo. A unidade
divina é uma unidade composta dessas três Pessoas, coexistentes, porém
distintas. Examinemos a Palavra:

§ “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR”
(Deuteronômio 6.4). Este versículo é muito usado pelos que não aceitam a
Trindade. Sustentam que não existem três Deuses, mas apenas um. Ora, a idéia do
Deus trino, da unidade composta, está subjacente em outras passagens, como
veremos a seguir.

§ “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem…” (Gênesis
1.26). O uso da primeira pessoa do plural – FAÇAMOS – indica que Deus não
estava só na obra da Criação: o Filho e o Espírito estavam presentes. Vejam
também Gênesis 3.22; 11.7; Isaías 6.8.

§ “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e
do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28.19).

§ “A graça do Senhor Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito
Santo sejam com todos vós” (2 Coríntios 13.13). Conhecida como a
“bênção apostólica”, este versículo revela o Deus trino.

§ No batismo de Jesus no Jordão, conforme Mateus 3.16-17, temos o Espírito de
Deus “descendo sobre Jesus”; a voz do Pai dizendo “Este é o meu
Filho amado”; e o Verbo, o Deus Filho ali encarnado e habitando entre nós.

§ O livro de Judas fala da Trindade: “Mas vós, amados, edificando-vos a
vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, conservai a
vós mesmos na caridade de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus
Cristo, para a vida eterna” (Judas 20.021).

§ O apóstolo Pedro deixou o seu testemunho sobre as Pessoas da Trindade:
“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito,
para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pedro 1.2).

§ Na seguinte passagem Jesus mais uma vez revela sua divindade e reafirma a
existência da trindade em Deus: “E eis que sobre vós envio a promessa de
meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais
revestidos de poder” (Lucas 24.49). A promessa diz respeito ao batismo no
Espírito Santo, plenamente cumprida em Atos 2.1-4. Vejam que a promessa é do
Pai, mas quem envia é o Senhor Jesus; envia do alto, do céu. Jesus confirma o
que já houvera dito: “Eu e o Pai somos um”. Outra referência: Atos
2.32-33.

A verdade é que “Deus estava em Cristo”, como afirmou o apóstolo
Paulo (2 Coríntios 5.19). Finalmente, fiquemos com estas palavras gloriosas:
“O Filho é o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa
[do próprio Deus], sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder.
Havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à
destra da Majestade nas alturas” (Hebreus 1.3).

Parte XII
A DIVINDADE
DE JESUS CRISTO – II
A deidade de
Jesus está explícita de forma direta ou indireta em muitos textos bíblicos que,
não raro, passam despercebidos por olhos menos atentos. As seitas de um modo
geral não aceitam a verdade bíblica sobre o “Verbo que se fez carne e
habitou entre nós”. Para o combate a essas heresias, no exercício da
apologética cristã, convém que saibamos manejar bem a “espada do Espírito,
que é a palavra de Deus, viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada
de dois gumes, apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”.

Jesus: Senhor e Juiz dos mortos:

“Para isto Cristo morreu e tornou a viver, para ser Senhor tanto dos
mortos como dos vivos (Rm 14.9); “De maneira que cada um de nós dará conta
de si mesmo a Deus” (Rm 14.12). “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos”
(Mt 22.32) “[Jesus} foi constituído Juiz dos vivos e dos mortos”
(Atos 10.40,42; Jo 5.22;2; Tm 4.1; Hb 10.30)

O domínio de Cristo é supremo e abrange tudo: a vida, a morte e o juízo.

Jesus: O Criador



“Ele é
a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram
criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam
tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado
por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem
por ele” (Cl 1.15-17).

Se Jesus é o Criador, logo Ele é Deus. O termo “primogênito”
atribuído a Jesus não significa que Ele tenha sido o primeiro a ser criado,mas
trata do relacionamento de Pai e Filho na Trindade, confirmado em João 3.16
(“Filho Unigênito”). O próprio versículo afirma que Ele é Criador
(“Tudo foi criado por ele…”). O Criador de todas as coisas não pode
ser criatura. O Filho é a expressa imagem de Deus (Hb 1.3). A divindade de
Jesus está expressa de forma inequívoca no Evangelho do apóstolo João: “No
princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus; Ele
estava no princípio com Deus; todas as coisas foram feitas por Ele; e o Verbo
se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.1,2,3,14). O termo UNIGÊNITO
“descreve a filiação singular entre Jesus Cristo e Deus-Pai. Ninguém, a
não ser o Cristo, detém semelhante prerrogativa” (Dicionário. Teológico).

Jesus: O Filho de Deus

Disseram os judeus: “Não te apedrejamos por nenhum milagre, mas pela
blasfêmia, porque tu, mero homem, te fazes Deus a ti mesmo”. Disse Jesus:
“O que dizer daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo? Então por
que me acusais de blasfêmia, porque eu disse: Sou Filho de Deus? Mas faço as
obras de meu Pai e não credes em mim, crede nas obras, para que possais saber e
compreender que o Pai está em mim, e eu nele”. “De novo procuravam prendê-lo”
(Jo 10.33,36,38,39).

Para os judeus, identificar-se como Filho de Deus era colocar-se em pé de
igualdade com o próprio Deus. Por isso ficaram enfurecidos ao ouvirem a
expressão “Filho de Deus”, dita pelo próprio Jesus. Vejam outras com
o mesmo teor:

“Então, os que estavam no barco o adoraram, dizendo: És verdadeiramente o
Filho de Deus” (Mt 14.33). “Tu és o Cristo, o Filho do Deus
vivo” (Mt 16.16) “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus
Altíssimo”. “Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme
em pão” (Mt 4.3). “Se tu és o Filho de Deus lança-te daqui
abaixo” (Mt 4.6). Até os demônios reconhecem a divindade de Jesus.

“Não vos fizemos saber o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo,
seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos a sua
majestade: “Este é o meu Filho amado em quem me comprazo. Nós mesmos
ouvimos esta voz vinda do céu, estando nós com ele no monte santo” (2 Pe
1.16-18).



Jesus:
Senhor, Deus e Salvador

“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do nosso
grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13). “Mas quando apareceu
a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens… que
ele derramou sobre nós por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt
3.4,6). [Estevão]: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (Atos 7.59).
Jesus: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46).
“Simão Pedro, servo e Apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram
fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”
(2 Pe 1.1,11).

Eis aí Jesus sendo chamado de Deus e Senhor. Estevão entregou seu espírito ao
Senhor Jesus, e este, ao morrer, entregou seu espírito ao Pai. Vê-se que os
dois – o Deus Filho e o Deus Pai – são o mesmo Senhor no mistério da Trindade.

Jesus: Cristo Deus

“Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas
a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos
homens… e toda língua confesse que Cristo Jesus é o Senhor, para glória de
Deus Pai” (Fp 2.6,7,11)

Se Jesus esvaziou-se para tomar a forma de servo, para em tudo ficar semelhante
aos homens, entende-se que Ele esvaziou-se de alguma prerrogativa, ou seja de
seus atributos e privilégios divinos.

Jesus: O Todo-Poderoso

“Mas todos os que o receberam, àqueles que crêem no seu nome, deu-lhes o
poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.12). “É-me dado todo o
poder no céu e na terra” (Mt 28.18)
O próprio Jesus, na qualidade de Deus, recebe a todos como filhos, e se declara
Todo-Poderoso.

Jesus: Digno de adoração

“E, novamente, ao introduzir o primogênito no mundo, diz: E todos os Anjos
de Deus o adorem; e, quanto aos anjos, diz: quem de seus anjos faz ventos, e de
seus ministros labaredas de fogo, mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono
subsiste pelos séculos dos séculos, e cetro de equidade é o cetro do teu
reino” (Hb 1.6-8). “Ao Senhor Deus adorarás…” (Mt 4.10).

Quando o apóstolo João prostrou-se aos pés do anjo para adorá-lo, ouviu o
seguinte: “Não faças isso… Adora a Deus” (Ap 22.8-9).

O Senhor Jesus não é em nada inferior ao Deus Pai. Mais uma vez o Filho é
chamado de Deus (“Ó Deus”). Jesus ensinou que somente a Deus devemos
adorar. Se Ele não fosse a expressa imagem de Deus, não aceitaria adoração.
Entretanto, não apenas os anjos o adoravam; os homens, também. Vejam:

“E elas [Maria Madalena e outra Maria] abraçaram os seus pés, e o
adoraram” (Mt 28.9).
“Veio um leproso, e o adorou…” (Mt 8.2).
“Vimos a sua estrela no oriente, e vimos adorá-lo” (Mt 2.2, 11).
“Os que estavam no barco o adoraram dizendo: És verdadeiramente o Filho de
Deus” (Mt 14.33).
“A mulher chegou e o adorou:…” (Mt 15.25;28.17).
“Disse o homem: Creio, Senhor, e o adorou” (Jo 9.38).

Considerando que Jesus disse ao diabo: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só
a ele servirás” (Mt 4.10), e sabendo-se que Ele aceitou que várias pessoas
O adorassem, fica claro que Ele se colocou como Deus. A não ser que as seitas
queiram dizer que Ele foi um hipócrita, charlatão, mentiroso, louco ou
impostor.

“O Filho é o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa,
sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder. Havendo feito por si
mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da Majestade”
(Hb 1.3).

Jesus: Cristo – Deus

Paulo: “Olhai por vós, e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo
vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, a qual ele comprou
com o seu próprio sangue” (Atos 20.28).

“Sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18).

“Para conhecimento e mistério do Deus-Cristo…” (Cl 2.2-3).
“Nele habita toda a plenitude da divindade” (Cl 2.8).

Jesus declara que a Igreja é dele, e em Atos 20.28 lemos que a Igreja é de
Deus. Logo, correta está a expressão “Deus-Cristo”, como acima.

Jesus: O Autor da Vida

“Mataste o Autor da Vida, ao qual Deus ressuscitou dos mortos, do que nós
somos testemunhas” (Atos 3.15).
“O Senhor é o que tira a vida e a dá” (1 Sm 2.6).
“Deus dos mortos e dos vivos” (Mt 22.32).

Temos aí a identificação de Jesus como Autor da Vida; o mesmo título é dado a
Deus, o Senhor que tira a vida e a dá.

Jesus: o Deus Perdoador

“Homem os teus pecados te são perdoados. Os escribas e fariseus começaram
a pensar: quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão só
Deus?. Jesus disse: “Por que pensais essas coisas em vossos corações? Qual
é mais fácil? Dizer: os teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te e
anda? Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra autoridade para
perdoar pecados – disse ao paralítico : A ti te digo, levanta-te, toma o teu
leito, e vai para a tua casa “(Lucas 5.17ss).

Através de uma dificuldade maior (a de curar o paralítico) Jesus justificou a
dificuldade menor (a de perdoar pecados). Jesus, conhecedor da Palavra, não
iria perdoar pecados se Ele não fosse o próprio Deus encarnado. Salvo se Ele
fosse um mentiroso, hipócrita e charlatão. Vejam:

“É Ele [Deus] quem perdoa todas as tuas iniqüidades…” (Sl 103.3).
“Perdoa-nos as nossas dívidas,assim como nós perdoamos aos nossos devedores”
(Mt 6.12).
“Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos
uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4.32).
“O que encobre as suas transgressões jamais prosperará;mas o que as
confessa e deixa,alcançará misericórdia”. [Misericórdia de Deus] (Pv
28.13).
“Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e
dos teus pecados não me lembro”. (Is 43.25; 1.18).
“Arrependei-vos e convertei-vos para que sejam apagados os vossos
pecados” (At 3.19).

Jesus: o Eu Sou

“Antes que Abraão nascesse, eu sou. Então pegaram em pedras para lhe
atirarem, mas Jesus ocultou-se, e saindo templo, passando pelo meio deles”
(Jo 8.58,59). “Se não crerdes que EU SOU, morrereis em vossos
pecados” (João 8.24).

“Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx 3.14).

Jesus USOU O MESMO NOME pronunciado por Deus quando falou a Moisés. Com relação
a Êxodo 3.14, a Bíblia de Estudo Pentecostal faz o seguinte comentário: “O
Senhor deu a si mesmo o nome pessoal: “Eu sou o que sou” (de onde
deriva o hb. Iavé), uma expressão que expressa ação.Deus estava efetivamente
dizendo a Moisés: “Quero ser conhecido como o Deus que está presente e
ativo” (1) Inerente no nome Iavé está a promessa da presença viva do
próprio Deus, dia após dia com o seu povo… O Senhor declara que esse será o
seu nome para sempre. É digno de nota que quando Jesus nasceu, foi chamado
Emanuel, que significa “Deus conosco”(Mt 1.23); Jesus também se
chamava a si mesmo pelo nome “Eu sou” (Jo 8.58)”.

Jesus: a Ele servirás

“E tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não
aos homens, sabendo que recebereis do Senhor a recompensa da herança. É a
Cristo, o Senhor, que servis” (Cl 3. 23-24)

“Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás” (Mt 4.10).
“Ao Senhor teu deus temerás, e a ele servirás…” (Dt 6.13).
“Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15).
“Aquele que me serve deve seguir-me, e onde eu estiver, ali estará também
o meu servo. E se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12.26).
“Porque quem nisto [justiça, paz e alegria no Espírito Santo] serve a
Cristo, agradável é a Deus e aprovado pelos homens” (Rm 14.18).

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém VEM AO PAI senão por
mim” (Jo 14.6).
Jesus não disse VAI ao Pai, mas se colocou em igualdade com Deus Pai, ao dizer
VEM ao Pai.

“Se vós me conhecêsseis, também conheceríeis a meu Pai” (Jo 8.19).

Do que foi lido acima, deduz-se o seguinte:

Primeiro, a palavra SENHOR (do hebraico Yavé; do grego kyrios), significando
supremacia, soberania, é um título de reverência usado tanto para Deus como
para Jesus. Exemplos: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4.7, 10);
“…o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós” (At 1.21).
Segundo, Jesus, confirmando as Escrituras, afirmou que devemos servir somente a
Deus. Todavia, Ele disse: “aquele que me serve deve seguir-me…” (Jo
12.26). O apóstolo Paulo, na carta aos romanos, fala em servir a Cristo.
Terceiro, em João 8.19 Jesus confirma ser a expressa imagem de Deus. Paulo
confirma em Colossenses 1.15: “Ele é a imagem do Deus invisível…”
Em João 14.9 Jesus confirma a segunda condição de Verbo encarnado: “Quem
me vê, vê o Pai”.

A Bíblia registra muitas outras passagens que testemunham a divindade de Jesus,
bastando que examinemos com atenção o texto e o contexto.

Parte XIII
A ESCOLHA DE
CRISTO

MATEUS 4. 18-22
18 Caminhando
junto ao mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que
lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
19 E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.
20 Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram.
21 Passando adiante, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João,
seu irmão, que estavam no barco em companhia de seu pai, consertando as redes;
e chamou-os.
21 Então, eles, no mesmo instante, deixando o barco e seu pai, o seguiram.

1. Jesus chamou homens simples.

Uma das coisas complicadas nas peladas de futebol é na hora de dividir os
times. Confesso que não gosto muito de escolher entre um jogador e outro e às
vezes até de deixar alguém de fora. Porém, talvez, o pior perigo é a tentação
que temos de escolher os melhores jogadores para o nosso time. Afinal de contas
como queremos ganhar, queremos nos garantir com os melhores jogadores jogando
no nosso time.

Sei que você é como eu se vai montar uma equipe vai escolher os melhores; os
mais capacitados, os mais ágeis. Jesus não foi assim. Nenhum executivo de
empresa faria o que Jesus fez. Jesus não escolheu os melhores; Jesus não
escolheu os mais preparados; ele não foi recrutar os seus seguidores na
Universidade Federal de Jerusalém (Ele sabia que aqueles estavam muitos
confiantes no que sabiam para aprender alguma coisa); Jesus não escolheu os
mais comunicativos. Ele escolheu homens simples, pescadores, rudes, mais
acostumados à solidão do mar do que às multidões. Foi estes que Jesus escolheu
e a estes confiou a missão mais importante de toda a história: dar continuidade
ao seu ministério.

2. Jesus chamou homens sem méritos.

Quando se vai começar uma empreitada, é de bom alvitre se escolher pessoas que
além de preparadas, tenham boa reputação, que tenham aceitação na sociedade. E
quando essa tarefa é no campo da fé, é importante que essas pessoas tenham o
reconhecimento da comunidade. Jesus, porém, contrariou esses princípios. É
verdade que Pedro e seu irmão embora não fizessem parte da liderança de alguma
sinagoga ou daqueles que trabalhavam no templo, não eram contudo, tão mal
afamados como aquele tal de Mateus. Fazer de um cobrador de impostos um
discípulo aí já é um exagero! É comprometer a credibilidade do ministério.
Aquele homem, além de ser um lesa-pátria, levava sobre a suspeição de roubar na
cobrança de impostos.

A verdade é que Jesus não escolheu ninguém baseados nos méritos. Ele não olhou
para as medalhas de vitórias nas batalhas espirituais, não levou em conta
aqueles que se julgavam santos e puros a ponto de menosprezarem os outros.
Talvez nem eu nem você os escolhêssemos, mas Jesus os escolheu.

3. Jesus chamou homens trabalhadores!

Jesus, não pensou assim, esses homens estão desocupados, não têm mesmo o que
fazer, acho que vou aproveita-los. Porque, iria eu tirar alguém do seu curso
universitário, do seu trabalho, da sua família para me seguir quando tem tanta
gente ai sem fazer nada.

Não foi assim que Jesus pensou! Ele chamou homens trabalhadores, homens que
estavam no seu trabalho, no seu labutar.

Ninguém pode dizer, Jesus, vai chamar outros, afinal de contas eu sou tão
ocupado!

4. Jesus aproveitou o que havia de bom naqueles homens.

Jesus aproveita o pouco que nós temos para fazer muito. Um pouco de azeite, um
punhado de farinha, uma pedra e uma funda, uma vara, cinco pães, dois
peixinhos.

Pedro era pescador. Virou o maior pescador da igreja. Jesus usou a
intempestividade de Pedro, o seu desembaraço, a sua intrepidez. No dia de
Pentecostes quando a multidão aturdida ficou a se indagar o que aquilo
acontecia. Pedro aproveita aquela oportunidade para apresentar a Jesus Cristo.
Pedro não era homem de ficar traçando planos. Ele era homem de ações imediatas
e Jesus usou isso.

Assim, o pouco que nós temos, pode ser muito nas mãos de Jesus. Ninguém na
Igreja pode dizer. Ah! Mas Jesus não precisa de mim, afinal de contas tem tanta
gente na Igreja mais capacitada do que eu. Ah! Você não sabe o que Jesus pode
fazer através de você, com os dons e talentos que Ele colocou em suas mãos.
Quando Ele os pega e multiplica, grandes milagres acontecem.

5. Jesus os chamou para que viessem imediatamente

O Chamado de Jesus é sempre urgente. Imagine as inúmeras questões que se
levantam em uma hora como essa: E o meu barco, quem vai tomar conta? A minha
família, quem vai sustentar? Como nós vamos viver? Para onde vamos? Que
garantia nós teremos? A única garantia é aquele que chama. Aquele que chama
sustenta, aquele que chama dirige, aquele que chama capacita, aquele que chama
vai à frente.

E o seu chamado tem sempre esse sentido de urgência. Não pode ser postergado,
não pode ser adiado, não pode ficar para depois. Se Pedro tivesse levado três
anos para poder responder a Cristo teria perdido a grande oportunidade de estar
com Ele ao longo de seu ministério e de desfrutar de momentos que nem toda a
fortuna de Bill Gates poderia comprar: ver Jesus Cristo transfigurado, em
glória fulgurante, em brilho inenarrável, em beleza indescritível. Um só
momento como aquele vale mais do que qualquer outra coisa nesta vida.
O melhor momento para se fazer a vontade de Deus é exatamente aquele no qual
Ele está nos chamando. E eles imediatamente o seguiram.

6. Jesus os
chamou radicalmente.

O chamado de Cristo é radical. Ele não deixa espaços. Nem meias escolhas é tudo
ou nada. É negar-se a si mesmo. É vender tudo para comprar a pérola de grande
valor. A vida de Pedro nunca mais seria a mesma. Os barcos ficaram para trás,
as conversas na beira da praia sobre as grandes pescarias ficaram para trás.

Pedro naquele momento teria que deixar tudo, renunciar a tudo, abandonar tudo,
renegar tudo, desdenhar de todas as tolas vantagens que o mundo pudesse lhe
oferecer, desprezar as tentações. Pedro, André e os outros apóstolos teriam que
deixar tudo, para ter apenas aquilo que o Senhor quisesse lhes entregar.

As implicações do chamado Cristo para você nesta manhã são as seguintes:

A sua falta de preparo ou de qualquer outro mérito não é desculpa. A sua
ocupação não é desculpa.
Jesus vai multiplicar o pouco que você tem, para alimentar multidões famintas.
Os campos já estão brancos para a colheita. A Chamada é urgente. O Tempo é
agora.

Pregado na 1ª IPI de Natal em 11/02/2001

Parte XIV
A FÉ EM
JESUS CRISTO

O que a Bíblia diz a respeito?
Para que alguém
seja salvo de seus pecados é necessário que se arrependa e creia no Senhor
Jesus. O que significa crer em Jesus Cristo? Em que consiste a fé salvadora? Embora
resumidamente, esperamos responder a contento essas indagações.

A FÉ EM JESUS CRISTO É DOM DE DEUS

Agostinho costumava dizer que nada é nosso, exceto o pecado. Portanto, a fé em
Jesus Cristo é uma graça salvadora de Deus para a nossa vida. Isto é o mesmo
que dizer: A fé é um dom de Deus.

Não podemos ter dúvida quanto a isso. Que a fé é um dom de Deus está claro em
passagens bíblicas como Atos 13.48 (creram todos os que haviam sido destinados
para a vida eterna), Efésios 2.8 (pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto
não vem de vós, é dom de Deus), Filipenses 1.29 (Porque vos foi concedida a
graça de padecerdes por Cristo, e não somente [a graça] de credes nele), 2
Tessalonicenses 3.2 (a fé não é de todos) e Tito 1.1 (a fé que é dos eleitos de
Deus). Além de ser um dom de Deus, a fé aparece também em algumas das passagens
acima como fruto da eleição divina. Eleição que também é pela graça e dom de
Deus (cf. Rm 11.5,6).
Mas alguém poderia perguntar: “Se a fé em Jesus Cristo é dom de Deus, por
que em vários lugares da Bíblia é ordenado ao homem crer em Jesus?”. A
soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade. Todos nós somos
moralmente responsáveis diante de Deus e, como tais, responderemos pelos nossos
atos. O ser humano precisa se arrepender de seus pecados e confiar somente em
Jesus para a vida eterna, pois Deus não pode se arrepender e crer em seu lugar.
Por outro lado, como bem salientou James Packer, “Se nós mesmos temos fé,
isso deve-se apenas ao fato que Deus em sua misericórdia abriu os nossos
olhos”. A conversão de Lídia é um ótimo exemplo. Lucas relata:
“Quando foi sábado, saímos da cidade para junto do rio, onde nos pareceu
haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para ali
tinham concorrido. Certa mulher chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora
de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para
atender às cousas que Paulo dizia” (At 16.13,14). Aqui temos o que
biblicamente denominamos de novo nascimento ou conversão de Lídia. Uma obra do
Espírito de Deus. O verbo grego dih/noicen (abriu) está no aoristo e significa
que ali houve uma ação completa e definitiva do Espírito Santo. Durante a
pregação de Paulo Lídia “escutava” e o seu coração foi
“aberto” para que atendesse. É necessário que a intervenção divina,
que torna o homem natural receptivo para com a Palavra de Deus, anteceda o
ouvir com proveito a pregação do evangelho. “Deus concedeu a Lídia um
coração receptivo para compreender coisas espirituais. Ele deu a ela o dom da fé
e a iluminação do Espírito Santo” (Simon J. Kistemaker).

O autor aos Hebreus (12.2) nos lembra ainda que Jesus Cristo é o autor e o
consumador de nossa fé. O princípio e o fim da fé salvadora. E o que isso quer
dizer? Quer dizer que como Autor Jesus “preparou o caminho da fé com
triunfo diante de nós, abrindo assim um caminho para os que O seguem”.
Como Consumador da fé Ele é “o completador e aperfeiçoador; no sentido de
levar uma obra até o fim, não por decurso de prazo”.

A teologia arminiana afirma que Deus não concede o dom da fé em Jesus a ninguém
porque, segundo ela, “nem mesmo existe tal dom”. Diz ainda que a fé é
própria do ser humano e que, por conseguinte, toda pessoa pode crer em Cristo.
Por último, salienta que embora o ser humano esteja debilitado pela queda do
pecado, não está incapaz de exercer fé em Cristo, receber o evangelho e tomar
posse da salvação para si mesmo.

A teologia arminiana está equivocada. A Bíblia é clara em dizer que o homem
natural está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1). Não diz que ele está
doente ou com força suficiente para fazer alguma coisa por si só. Ele está
morto! A palavra morto já diz tudo. Além disso, a teologia arminiana contraria
explicitamente aquelas passagens bíblicas que afirmam ser a fé um dom de Deus.

Embora sejamos responsabilizados a crer em Jesus (porque Deus não crê em nosso
lugar), a fé, do começo ao fim, é dom de Deus.

A FÉ EM JESUS CRISTO É SALVADORA

A fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora (cf. Ef 2.8). A fé salvadora não é
um mero assentimento intelectual ou mera fé temporal.

Muitas pessoas crêem em Jesus Cristo do modo como crêem em Pedro Álvares Cabral
ou em D. Pedro I. Acreditam que Jesus realmente viveu, morreu e ressuscitou,
isto é, crêem que Ele era de fato uma pessoa da história. Essas pessoas supõem
que isso seja fé na verdadeira concepção do termo, isto é, a fé salvadora. Mas
não é, porque elas não estão confiando em Jesus para qualquer coisa agora,
muito menos para a vida eterna. Essas pessoas possuem meramente a fé intelectual
para fatos históricos, da mesma forma que acreditam em Pedro Álvares Cabral mas
hoje não confiam nele para nada. Um exemplo da fé como mero assentimento
intelectual pode ser encontrado em Tiago 2.19: “Crês tu que Deus é um só?
Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem”. Tiago está ironizando aqueles
que diziam ter fé na unicidade de Deus, porém, não evidenciavam tal fé através
das obras. Os demônios crêem e tremem, mas nem por isso são salvos.

Outro exemplo do que não é fé salvadora é a fé temporal. Você deve ter orado a
Deus muitas vezes, não é verdade? Confia nele para certas coisas, não é mesmo?
Quando você confia no Senhor a respeito de suas finanças, podemos dizer que
você tem fé financeira. Quando você confia no Senhor para cuidar de sua família,
você pode chamar isso de fé familiar. Em viagens você tem fé viajante. Há um
elemento comum em todas essas coisas. São temporais. Todas elas são cosias
desta vida, coisas deste mundo que irão passar. Muitas vezes confiamos em Jesus
para todas essas coisas temporais, que não é errado, contudo, essa ainda não é
a verdadeira fé salvadora.

Fé salvadora é receber a Jesus e confiar somente nele para a vida eterna. Quem
é Jesus? A maioria das pessoas sabe que Jesus Cristo é o filho de Deus, mas
esta mesma maioria não sabe que Jesus também é o Deus Filho, o infinito
Deus-homem que morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos, para pagar a pena
dos nossos pecados e comprar um lugar nos céus para nós, o qual nos oferece
gratuitamente.

A fé em Jesus envolve tanto confiança nele como a entrega da vida a Ele. Estas
coisas fazem parte da fé que conduz à vida eterna. E se a nossa convicção é de
que realmente temos a vida eterna porque temos a fé salvadora, então, vamos nos
firmar cada vez mais e mais nesta certeza, pois o próprio Senhor Jesus garantiu
aos que nele crêem que será assim. “Em verdade, em verdade vos digo: Quem
crê (em mim), tem a vida eterna” (Jo 6.47).
Concluindo:
Lembremos que a Escritura Sagrada dá testemunho de Jesus (cf. Jo 5.39) e é
através dela que, iluminados pelo Espírito Santo, somos habilitados a crer em
Jesus para a salvação (I Co 1.21-24). Por isso mesmo, precisamos pregar a
Palavra. O Espírito Santo usa a mensagem bíblica para conceder a fé (Rm 10.17),
mas isso não o impede de usar a você e a mim (Rm 10.13-15), pelo contrário, por
ele somos capacitados a evangelizar quando ouvimos a sua voz e obedecemos ao
seu chamado.

Parte XV
A FÉ EM
JESUS CRISTO

O que a Bíblia diz a respeito?
 Para que
alguém seja salvo de seus pecados é necessário que se arrependa e creia no
Senhor Jesus. O que significa crer em Jesus Cristo? Em que consiste a fé
salvadora? Embora resumidamente, esperamos responder a contento essas
indagações.

A FÉ EM JESUS CRISTO É DOM DE DEUS

Agostinho costumava dizer que nada é nosso, exceto o pecado. Portanto, a fé em
Jesus Cristo é uma graça salvadora de Deus para a nossa vida. Isto é o mesmo
que dizer: A fé é um dom de Deus.

Não podemos ter dúvida quanto a isso. Que a fé é um dom de Deus está claro em
passagens bíblicas como Atos 13.48 (creram todos os que haviam sido destinados
para a vida eterna), Efésios 2.8 (pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto
não vem de vós, é dom de Deus), Filipenses 1.29 (Porque vos foi concedida a
graça de padecerdes por Cristo, e não somente [a graça] de credes nele), 2
Tessalonicenses 3.2 (a fé não é de todos) e Tito 1.1 (a fé que é dos eleitos de
Deus). Além de ser um dom de Deus, a fé aparece também em algumas das passagens
acima como fruto da eleição divina. Eleição que também é pela graça e dom de
Deus (cf. Rm 11.5,6).

Mas alguém poderia perguntar: “Se a fé em Jesus Cristo é dom de Deus, por
que em vários lugares da Bíblia é ordenado ao homem crer em Jesus?”. A
soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade. Todos nós somos
moralmente responsáveis diante de Deus e, como tais, responderemos pelos nossos
atos. O ser humano precisa se arrepender de seus pecados e confiar somente em
Jesus para a vida eterna, pois Deus não pode se arrepender e crer em seu lugar.
Por outro lado, como bem salientou James Packer, “Se nós mesmos temos fé,
isso deve-se apenas ao fato que Deus em sua misericórdia abriu os nossos
olhos”. A conversão de Lídia é um ótimo exemplo. Lucas relata:
“Quando foi sábado, saímos da cidade para junto do rio, onde nos pareceu haver
um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para ali tinham
concorrido. Certa mulher chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de
púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para
atender às cousas que Paulo dizia” (At 16.13,14). Aqui temos o que
biblicamente denominamos de novo nascimento ou conversão de Lídia. Uma obra do
Espírito de Deus. O verbo grego dih/noicen (abriu) está no aoristo e significa
que ali houve uma ação completa e definitiva do Espírito Santo. Durante a
pregação de Paulo Lídia “escutava” e o seu coração foi
“aberto” para que atendesse. É necessário que a intervenção divina,
que torna o homem natural receptivo para com a Palavra de Deus, anteceda o
ouvir com proveito a pregação do evangelho. “Deus concedeu a Lídia um
coração receptivo para compreender coisas espirituais. Ele deu a ela o dom da
fé e a iluminação do Espírito Santo” (Simon J. Kistemaker).

O autor aos Hebreus (12.2) nos lembra ainda que Jesus Cristo é o autor e o
consumador de nossa fé. O princípio e o fim da fé salvadora. E o que isso quer
dizer? Quer dizer que como Autor Jesus “preparou o caminho da fé com
triunfo diante de nós, abrindo assim um caminho para os que O seguem”.
Como Consumador da fé Ele é “o completador e aperfeiçoador; no sentido de
levar uma obra até o fim, não por decurso de prazo”.

A teologia arminiana afirma que Deus não concede o dom da fé em Jesus a ninguém
porque, segundo ela, “nem mesmo existe tal dom”. Diz ainda que a fé é
própria do ser humano e que, por conseguinte, toda pessoa pode crer em Cristo.
Por último, salienta que embora o ser humano esteja debilitado pela queda do
pecado, não está incapaz de exercer fé em Cristo, receber o evangelho e tomar
posse da salvação para si mesmo.

A teologia arminiana está equivocada. A Bíblia é clara em dizer que o homem
natural está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1). Não diz que ele está
doente ou com força suficiente para fazer alguma coisa por si só. Ele está
morto! A palavra morto já diz tudo. Além disso, a teologia arminiana contraria
explicitamente aquelas passagens bíblicas que afirmam ser a fé um dom de Deus.

Embora sejamos responsabilizados a crer em Jesus (porque Deus não crê em nosso
lugar), a fé, do começo ao fim, é dom de Deus.

A FÉ EM JESUS CRISTO É SALVADORA

A fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora (cf. Ef 2.8). A fé salvadora não é
um mero assentimento intelectual ou mera fé temporal.

Muitas pessoas crêem em Jesus Cristo do modo como crêem em Pedro Álvares Cabral
ou em D. Pedro I. Acreditam que Jesus realmente viveu, morreu e ressuscitou,
isto é, crêem que Ele era de fato uma pessoa da história. Essas pessoas supõem
que isso seja fé na verdadeira concepção do termo, isto é, a fé salvadora. Mas
não é, porque elas não estão confiando em Jesus para qualquer coisa agora,
muito menos para a vida eterna. Essas pessoas possuem meramente a fé
intelectual para fatos históricos, da mesma forma que acreditam em Pedro
Álvares Cabral mas hoje não confiam nele para nada. Um exemplo da fé como mero
assentimento intelectual pode ser encontrado em Tiago 2.19: “Crês tu que
Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem”. Tiago está
ironizando aqueles que diziam ter fé na unicidade de Deus, porém, não
evidenciavam tal fé através das obras. Os demônios crêem e tremem, mas nem por
isso são salvos.

Outro exemplo do que não é fé salvadora é a fé temporal. Você deve ter orado a
Deus muitas vezes, não é verdade? Confia nele para certas coisas, não é mesmo?
Quando você confia no Senhor a respeito de suas finanças, podemos dizer que
você tem fé financeira. Quando você confia no Senhor para cuidar de sua
família, você pode chamar isso de fé familiar. Em viagens você tem fé viajante.
Há um elemento comum em todas essas coisas. São temporais. Todas elas são
cosias desta vida, coisas deste mundo que irão passar. Muitas vezes confiamos
em Jesus para todas essas coisas temporais, que não é errado, contudo, essa
ainda não é a verdadeira fé salvadora.

Fé salvadora é receber a Jesus e confiar somente nele para a vida eterna. Quem
é Jesus? A maioria das pessoas sabe que Jesus Cristo é o filho de Deus, mas
esta mesma maioria não sabe que Jesus também é o Deus Filho, o infinito
Deus-homem que morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos, para pagar a pena
dos nossos pecados e comprar um lugar nos céus para nós, o qual nos oferece
gratuitamente.

A fé em Jesus envolve tanto confiança nele como a entrega da vida a Ele. Estas
coisas fazem parte da fé que conduz à vida eterna. E se a nossa convicção é de
que realmente temos a vida eterna porque temos a fé salvadora, então, vamos nos
firmar cada vez mais e mais nesta certeza, pois o próprio Senhor Jesus garantiu
aos que nele crêem que será assim. “Em verdade, em verdade vos digo: Quem
crê (em mim), tem a vida eterna” (Jo 6.47).

Concluindo:

Lembremos que a Escritura Sagrada dá testemunho de Jesus (cf. Jo 5.39) e é
através dela que, iluminados pelo Espírito Santo, somos habilitados a crer em
Jesus para a salvação (I Co 1.21-24). Por isso mesmo, precisamos pregar a
Palavra. O Espírito Santo usa a mensagem bíblica para conceder a fé (Rm 10.17),
mas isso não o impede de usar a você e a mim (Rm 10.13-15), pelo contrário, por
ele somos capacitados a evangelizar quando ouvimos a sua voz e obedecemos ao
seu chamado.

Parte XVI
APONTAMENTOS
SOBRE O LIVRO

Cristo: uma crise na vida de Deus
Cristo: uma
crise na vida de Deus

Jack Miles nasceu em Chicago, em 1942. Ex-jesuíta, é doutor em línguas do
Oriente e médico pela Universidade de Harvard. Foi professor da Universidade da
Califórnia e presidente do Círculo Nacional de Críticos Literários dos Estados
Unidos. Dele, a Companhia das Letras publicou Deus – Uma biografia, vencedor do
Prêmio Pulitzer.
Para Miles, Deus tinha um propósito muito mais pessoal do que universal ao
enviar Jesus. Deus, como Jack Miles descreve, estava com sérios problemas
diante de suas criaturas, pois Ele mesmo, o Deus Todo-Poderoso, tinha, ao que
parece, perdido o controle sobre estas.
É claro que, mesmo sendo o autor destes apontamentos feitos sobre o livro de Jack
Miles, não concordo com ele, mas, vejo a importância do estudo sobre a sua obra
pelo fato de, através dela, respondermos uma pergunta muito pertinente que nos
acompanha, como leitores da Bíblia Sagrada: “Deus mudou na pessoa de
Cristo?”

Prólogo
Crucificação e a consciência do Ocidente
Jack Miles diz que a crucificação, a cena fundamental da religião e da arte
ocidentais, perdeu muito do seu poder de chocar. Atualmente, talvez somente os
não ocidentais possam perceber a crucificação na sua forma real, ou seja, dar o
devido valor a este ato.

A questão que nos sobrevém, segundo o autor deste livro, é a de que, se Deus
teve de sofrer e morrer, então Deus teve de infligir sofrimento e morte sobre
si próprio. Mas, porque Deus faria isso? Uma resposta seria um dito francês:
“compreender tudo é perdoar tudo. Todo criminoso foi antes uma
vítima”. Assim, Albert Camus já tinha escrito, se referindo a Deus, que
“ele próprio sabia que não era completamente inocente”. Se o Cristo
crucificado é divino, então os sofredores são como deuses. Como Deus, o Senhor
não pode deixar de existir, mas, como Cristo, pode experimentar a morte, isto
é, sua própria maldição imposta sobre a humanidade, e assim, compreender tudo,
para a tudo perdoar!

O Pai sofre com o Filho, pois o Pai e o Filho são um só com o Espírito. Então,
quando Cristo sofre na cruz, para Miles, o crucificado é ao mesmo tempo
inocente e divino, ele é ao mesmo tempo divino e culpado por ser ele
Deus-homem. Seu lado humano, é o que herda a inocência, e Seu lado divino, ao
contrário do pensamento contido na Hamartiologia comum, é o que herda a culpa.
Deus, com isto, se desculpa tornando-se humano, pois o mundo é um grande crime,
para Jack Miles, e alguém deve ser obrigado a pagar por isso.

1. O Messias, ironicamente

Neste capítulo, a questão apresentada é a de “o que Deus estava pensando
na eternidade”. A resposta a nós apresentada é que Deus era o todo
abrangente pensamento de si próprio. Em certo ponto no tempo, essa mesma
autoconsciência divina e muda se expressou. Porque Deus fez isto? Porque a raça
humana, a quem Deus concedera domínio sobre o mundo, tinha se distanciado dele.
Deus torna-se um deles. Dessa vez, foi igualmente rejeitado, ainda que por meio
dessa rejeição tenha realizado algo glorioso. Pois, através da rejeição, Ele
compreende o que sentiu a humanidade quando rejeitada por Ele mesmo no
princípio, diante do pecado de Adão. João, o Batista, quando no batismo de
Jesus, a encarnação de Deus, saúda-o como o Cordeiro de Deus. O Cordeiro de
Deus? Jack Miles argumenta que um leão viria mais a calhar! Pois, qual é o
significado dessa estranha frase? Ao referir-se a ele como um animal, o que
João Batista está querendo dizer? Miles assevera que algo impronunciável, de
repente fora meio dito.

Uma resposta seria a de que, no ritual israelita e judeu, o que o sacrifício do
cordeiro de fato levava embora era mais maldição do que pecado. Ela
representava o reconhecimento da antiga Israel de que o Senhor ainda não
revertera a maldição que havia proferido contra todas as criaturas humanas logo
depois de as ter criado. O animal era inocente, assim como Deus deveria tomar a
forma humana (inocente) diante da culpa divina, e sofrer humanamente a pena da
maldição, que é a morte. A questão, para os judeus da época de Cristo, foi que
o esperado filho de Davi devesse fazer o papel de animal de sacrifício!
Parecia-se mais, para eles, uma blasfêmia.

Esperava-se mais Deus como sacrificador e não como sacrificado, pois o
sacrificado levava a culpa. Porém, era isto que, segundo Miles, Deus estava
fazendo, levando sua culpa. A oferta simbolizava o arrependimento do
sacrificante, assim, Deus como oferta, simboliza Seu próprio arrependimento.
Deus arrependeu-se! Mas do quê? O que ele fez de errado? É aqui onde o demônio
passa a ter um papel avaliativo na capacidade de Jesus como Deus.

Quando o Demônio mostra possuir um certo poder físico sobre Jesus, leva-se, com
isto, à pergunta que ele quer ver respondida. Especificamente: quanto poder
Jesus tem de fato à sua disposição? Quando o Demônio sugere que Jesus
transforme a pedra em pão, está se referindo a muito mais do que à mera fome.

Por trás da sugestão, está a memória de um momento anterior no deserto quando o
Senhor alimentou toda Israel com comida miraculosa. O que o Demônio está realmente
dizendo a Jesus é: “Você é Deus, o deus que, naquela época, realizou o
milagre do alimento no deserto? Se isso é verdade, prove-o realizando
outro”.

O demônio diz: “Dar-te-ei toda esta autoridade (…) porque ela me foi
entregue”. Foi entregue por quem? Por quem, se não pelo próprio Senhor?
uma pergunta interessante, que Miles faz é que, será que o demônio que desafia
Jesus não o estará fazendo em nome do Deus que lhe “havia entregado”
esse poder? Pois, Deus entregara o mundo ao Demônio quando Adão e Eva pecaram.
Jesus não reivindica o poder ao seu oponente, mas, mostra que poderia fazê-lo,
pois o poder definitivo está com o Senhor. o que Jesus deixa em suspenso, é a
questão de “se” e “quando” irá reivindicar o poder que, no fim
das contas, é seu.

A pergunta diante de tudo isto nos é apresentada no livro de Miles, como:
“Por que ele se contém tanto?” Esta pergunta, poderia até ser
respondida com outra pergunta: “Que confiança Jesus tem em si
próprio?” Estará Jesus mantendo-se com grandeza acima da briga? Ou será
sua preocupação a preocupação do seqüestrado? 
A questão do “Cordeiro de Deus” continua em aberto. Como pode
um imperador ser um cordeiro, ou um cordeiro ser um imperador? Mussolini disse:
“Vale mais um dia como leão do que mil anos como cordeiro”.

Jesus realiza seu primeiro milagre, como diz Jack Miles, relutante. Este
primeiro milagre, não foi uma mensagem aos convidados da festa em si, mas aos
seus discípulos. A primeira ação pública da carreira de Jesus, foi na verdade
um ataque ao Templo. A destruição do primeiro Templo, Deus deixou claro na
época, não foi obra da Babilônia, mas sua. Assim, Jesus demonstra que ele é o
mesmo Deus que usou a Babilônia.

Porém, na sua ameaça contra o Templo, tentava ele mostrar uma tipologia entre o
Templo literal, com o Templo figurativo, que era seu corpo. O cordeiro
expiatório é familiar; um cordeiro humano é estranho. O Templo é igualmente
familiar; um templo humano é estranho novamente. Então, na verdade, quando
disse para destruírem o Templo, estava desafiando-os a matarem-no.

A capacidade do Deus encarnado de “saber o que era a natureza humana”
foi sendo adquirida gradualmente. Jesus, invariavelmente, parece compreender os
desejos de seus interlocutores melhor do que eles próprios. Isto, provavelmente,
porque ele, agora que era humano, tinha a totalidade do conhecimento do que é
ser humano.

Jesus fala a Nicodemos sobre uma nova criação, mas privadamente. E mostra ao
sábio fariseu que, apesar de seus conhecimentos terrenos, ele não podia ainda
falar se Jesus vem de Deus ou não, pois esta capacidade é dada aos
“regenerados” apenas.

Jack Miles diz que no A.T., Deus é desatento consigo mesmo. Já no N.T. Ele
torna-se obcecado por si próprio. Prova disto, mostra-nos o autor, é quando
Deus diz a Moisés que Ele é o “Eu Sou” – Miles diz que este é Seu
nome nu e cru. É como se Deus desse um nome a si mesmo, naquele instante, ao
descobrir a necessidade de um nome. Ele não vive entre outros deuses, por isto
não precisa de um nome, mas passa a lidar com seres humanos, e também com a
idéia de outros deuses, então, agora necessita de um nome.

No caso da serpente de bronze do deserto, Deus mostra aos israelitas que Ele é
a doença e também o remédio. Assim, as serpentes não eram a causa de suas
mortes, mas sim Deus. Jesus, se referindo a este fato, diz que Ele será
levantado da mesma forma que a serpente de bronze no deserto. Olhando para
Jesus, como para a serpente no deserto, estariam olhando para a causa e também
para a cura de seu sofrimento. O mundo precisa ser salvo, mas para tal,
necessita-se de uma nova criação, pois este mundo está perdido. Porém, conforme
Miles, a nova criação requer a morte do criador. Um ponto muito complicado
tratado neste livro, foi a questão da assexualidade do Pai e a sexualidade do Filho.
Segundo Miles, os “filhos de Deus” (Gn. 6), parecem descobrir o sexo
somente quando encontram as filhas dos homens. Deus é celibatário porque é o
único de sua espécie. Então, surge a questão que Jack Miles nos mostra, que, o
que João quer sugerir quando chama o Deus encarnado de noivo? Surge então uma
pergunta muito interessante, se Deus agora está encarnado, vivendo como um
homem, não poderia ele consumar um casamento comum a si mesmo? E se isto
tivesse ocorrido? Quando os evangelhos foram escritos, o celibato era
considerado condição apropriada para qualquer filósofo. Deus, em toda a
história, não recrimina o sexo, mas sim a libidinagem.

Sendo assim, até mesmo em suas conversas figurativas dirigidas ao Israel
rebelde, Ele mostra-se como um marido enfurecido pela incontinência sexual de
sua esposa, e não pelos desejos em si. Miles escreve que quando Deus fez Eva
para Adão, não a fez para gerar filhos, mas para que o homem não estivesse só.
Desta forma, a procriação teria começado apenas depois da “queda”,
quando a imortalidade foi perdida. A reprodução passa a ser, conforme esta
visão, uma evidência da maldição. Com isto, o autor chega à conclusão que se
não tivesse morrido cedo, Jesus teria se casado.

No desenrolar de suas manifestações no N.T., Jesus admite que é o Messias, mas
a uma mulher samaritana, considerada na época, pelos judeus, como herege. Jesus
fez isto, segundo Miles, para dar a entender aos judeus que eles eram como
aquela mulher, adúltera e, assim como os judeus consideravam os samaritanos,
herege. A mulher interpreta a atenção de Jesus a ela, como um flerte, mas Jesus
corrige seu pensamento sobre ele. Assim como a mulher teve cinco esposos
(senhores), sem nenhum ser seu marido, os samaritanos tiveram vários deuses,
sem nenhum deles ser o verdadeiro Deus.

Jesus se apresenta a ela como o “Eu Sou”, e ela acredita-lhe, pelo
mesmo motivo que levou Natanael a acreditar-lhe, Jesus leu sua mente e seu
passado. Jesus mostrou à mulher samaritana que a salvação vem dos judeus, mas
não acaba neles. Seus discípulos vêm esta sua atitude como promiscuidade, uma
simbologia à promiscuidade de Deus, isto é, simbolicamente, seu interesse por
outros povos.

Para findar este capítulo, Miles expõe a questão de “quem seus discípulos
pensam ser ele”. Foram-lhe conferidos alguns papéis, na seguinte ordem de
aparição: 1. Juiz; 2. Cordeiro de Deus; 3. Messias (Filho de Davi e Filho
Adotivo de Deus); 4. Filho do Homem; 5. Templo; 6. Noivo; 7. Profeta e
Legislador (Um Segundo Moisés).

2. Um profeta contra a promessa

Sua primeira cura, já foi, diante do pensamento judeu, contrária, pois curou
uma criança romana (Jo. 4:49-53). Parece que Jesus tenta esconder algo, talvez
todo seu poder? Um demônio, num breve encontro com Jesus, parece tentar rasgar
seu disfarce (Lc. 4:33-37), dizendo: “Eu sei quem você é”. Também nos
é sugerido aqui, que como Deus encarnado, Deus parece haver perdido seu apetite
por punições. Em Lucas 4:16-22, Jesus disse que a profecia de Isaías 61:1-2 que
diz: “hoje se cumpriu”, estava em seu pleno cumprimento nEle. Isto
fez com que os homens de Nazaré, insultados, tentassem matá-lo. Jesus diz, em
Lucas 4:25-27, que Elias deu atenção aos estrangeiros, ao invés de usar todo o
seu tempo aos israelitas. E é aqui onde Miles pergunta se será que Jesus está
sugerindo, de forma escandalosa, que a profecia que “hoje se cumpriu”
será cumprida não em benefício de Israel, mas sim de seus vizinhos e inimigos?

Sugerir que Elias, em seu retorno, empregaria seus poderes em benefício de
outras nações, em vez de Israel, é um misto de blasfêmia e traição. Se
“liberdade para os cativos” refere-se a alguma outra coisa que não a
liberdade de Israel do jugo estrangeiro, o que seria?

A grande pergunta que pairava no ar, enquanto esta mensagem de Jesus estava
sendo proferida em Nazaré, era: “Não é este o filho de José?” a
resposta é sim, e deve ser sim. Na verdade, não foi a maneira do nascimento de
Jesus que daria-lhe autoridade divina, pois Deus poderia facilmente ter
introduzido a concepção em uma virgem sem que, no momento em que ela desse à
luz, ele próprio fosse o bebê.

É a identidade do bebê, não a maneira do nascimento, que é inédita. Maria fica
sabendo, por Gabriel, que seu filho será o Messias, o descendente do rei Davi e
que restaurará a grandeza de Israel. Ainda tratando do nascimento de Jesus,
Miles nos suspende com a seguinte afirmação: “Deus poderia ter se tornado
humano sem começar sua existência humana no útero de uma mulher.

Mas, Deus não quis privar-se do momento tão conhecido e diferenciado, que é o
nascimento.

Apesar de todos os bebês serem parecidos, todas as cenas de nascimento são
diferentes entre si”. Outra coisa bem frisada nesta parte do livro, é que
Jesus nasceu em um momento humilhante da vida dos judeus, propositadamente, é
claro – pois estavam passando por um censo conduzido por um poder estrangeiro.
Algo chocante é o fato de Deus se submeter a este tipo de humilhação, ao invés
de acabar com esta dominação gentílica sobre seu povo, para mostrar o poder de
sua encarnação.

Fato é que, Jack Miles chega à conclusão que Deus repudia, com suas atitudes
por intermédio de Jesus, seu passado guerreiro. Deus não havia mudado seu modo
de pensar, pois punição ainda era punição para ele, e recompensa ainda é
recompensa; só que a entrega de uma e outra acontecerá no céu e não na terra. O
marco distintivo do ensinamento de Cristo, é a frase “oferece a outra
face”. Mas, será que Deus faz mesmo assim? Jack Miles, afirma que Deus, na
verdade está em mudança. Porém, qual é a razão de sua mudança? Não há resposta
para tal, segundo o autor! Simplesmente Deus quis mudar. Quando Jesus diz
“eu porém vos digo”, para Miles é uma revisão do que Deus havia dito
no passado, ou seja, é a prova da mudança de opinião da parte de Deus. Porque
Deus, ao invés de agir como no passado, diferenciando uma nação especial das
demais, agora nivela a todos? A resposta de Jack Miles é que na maior crise de
sua vida, Deus faz da terrível necessidade uma virtude heróica. O autor do
livro em apreço, diz que Deus, na verdade, não pode ser respeitado pelo seu
poder apresentado aos judeus da época de Jesus. Ele pode, no máximo, ser
honrado por serviços prestados no passado, pois, a Segunda parte da promessa de
punição-e-reabilitação de Deus nunca foi cumprida.

Assim, em vez de declarar sem disfarces ser incapaz de derrotar seus inimigos,
Deus pode declarar que não tem inimigos, que ele agora se recusa a reconhecer
qualquer distinção entre amigo e adversário. Miles, diz que isto não custou
nada a Deus, e que além disto, Ele impôs sua própria carga sobre nós,
ensinando-nos a amarmos nossos inimigos.

Deus, na verdade, estava se desarmando, segundo Miles. O autor ainda cita que
em Daniel 7, tem a visão dos reinos: babilônico, medo, persa e grego (segundo a
simbologia de cada animal apresentado na visão). Assim, o quinto reinado seria
o de Deus, e isto não aconteceu no N.T. Schweitzer também afirmou que Jesus
acreditava, que por sua própria morte, Roma cairia, que a história terminaria e
o Reino de Deus seria estabelecido até o final dos tempos.

Para Jack Miles, os judeus tinham que reconhecer o óbvio, Deus não estava
atrasado em suas ações guerreiras, na realidade, Ele não era mais o Deus
guerreiro. Assim como Deus se priva de dar o direito de alguém exigir-lhe que
volte a ser o que era no passado, Deus também não exige mais de sua nação antes
escolhida, que ajam dentro de sua lei passada! Deus isenta-os da lei, pois Ele
mesmo se isentou de ser aquele tipo de legislador.

Como foi que o guerreiro divino acabou pregando o pacifismo? Miles sugere a
seguinte resposta, que Deus criou uma nova virtude humana a partir de sua
necessidade divina. Encontrou um modo de transformar sua derrota em vitória,
mas a derrota veio primeiro. O preço do pacifismo de Deus, segundo o autor, foi
o assassinato de João Batista.

O representante de Israel, o judeu devoto por excelência, é João, que ouve a
triste notícia de Deus, que as promessas da aliança não serão mantidas, ou que
serão mantidas de uma forma totalmente diferente, a ponto de tornar-se em nova
aliança.

Subitamente, Jack Miles dá uma freada em sua tese do processo de mudança de
Deus, a afirma que alguns de seus traços antigos ainda subsistem.

Sua ruptura com a violência não implica renúncia a todas as formas de
resistência. A prostituta que beija-lhe os pés, na realidade, ensina-lhe o
poder da vítima sobre o agressor. Herodes mata João Batista, mas fica
atormentado das idéias, com medo de João retornar à vida.

Roma tentou empregar a morte como meio de entretenimento, e isto chocou os
judeus, porém, os judeus cristãos chocaram de igual modo os romanos, tornando o
martírio em forma de protesto e até mesmo de honra (segundo o professor Jorge
Pinheiro). A tortura passa a não demonstrar apenas coragem, mas também passa a
funcionar como meio de mudar a mente do torturador. Apesar de não ser essa a
promessa de Deus aos judeus, Ele agora os ensina a vencer seus opressores sendo
cordeiros.

Quando Jesus acalma a tempestade, está demonstrando a marca distintiva de Deus,
que é o poder sobre o mar. Isto trás as pessoas mais para perto de si, pela
curiosidade do “quem é este”. Porém, quando ele fala em beber sangue,
muitos o abandonam. Parecia-lhes que Jesus estava ensinando o canibalismo. O
sangue sempre era proibido como alimento aos judeus.

O cordeiro, para ser sacrificado, precisava ter sido esgotado de seu sangue,
principalmente se este fosse ser servido como alimento. A vida está no sangue.
Porém, aqui está um simbolismo, pois o cordeiro literal não tinha o poder de
dar a vida ao ofertante, enquanto o Cordeiro de Deus – Jesus – tinha tal poder,
por isto, seu sangue poderia ser bebido – simbolicamente – na Ceia do Senhor.

3. O senhor da blasfêmia

Em primeiro lugar, para confirmar isto, Jack Miles cita que Ele,
flagrantemente, viola a lei do descanso no Sábado.

A resposta mais conflitante deste capítulo, parece, foi a que seguiu-se à
seguinte pergunta: “Mas é porque Jerusalém está rejeitando Deus encarnado
que ele os abandonará aos romanos?” Respondendo a tal inquirição, Miles
diz que também é possível, do mesmo modo, que seja o contrário. Como Deus sabe
que abandonará Jerusalém aos romanos, deve arranjar para que Jerusalém o
abandone aos romanos primeiro.

Quando Ele recusa condenar uma adúltera, pela lei que Ele mesmo estabelecera,
para Miles é uma amostra de que Ele se tornou mais misericordioso. Na verdade,
o autor diz que com este ato de não condenar aquela mulher pela Lei, também
deixará de condenar Israel pela Lei. O Senhor Deus é, de fato, réu, e sabe do
que pode ser acusado, mas sua maneira de pedir misericórdia é difundir a
misericórdia. Em poucas palavras, Miles diz que diante de seu povo pecador
porém sofrido, Deus pode não só ser misericordioso, como também penitente. Se
Jesus parece condenado, só pode ser porque Deus condenou a si próprio.

Em João 10:11-21, Jesus mostra que, na realidade, sua morte era um suicídio em
benefício de todos. Este tipo de suicídio, Dietrich Bonhoeffer assevera como
desculpável diante de Deus, em seu livro “Ética”, dizendo: “O
ser humano pode sacrificar sua vida física em favor de outrem, pois é livre
para morrer. (…) Esta liberdade de morte está condicionada no sentido de que
o alvo não seja a destruição da vida, mas, o bem visado no sacrifício.” (Dietrich
Bonhoeffer. Ética).
Na sua morte, Deus na
verdade não está derrotando Roma, mas sim, o poder afligidor de seu verdadeiro
opressor, o Diabo, e na sua ressurreição, está vencendo o império da morte e
não o império romano. Prova de que sua morte, na realidade estava dentro de
seus planos, é que, primeiro ele inclina sua cabeça, e depois morre.
Normalmente o processo é o contrário quando a morre-se, pois o inclinar de
cabeça é a conseqüência da morte. Assim, a teologia da expiação conservadora,
entra em atrito com esta afirmação, pois não é mais Deus sacrificando Jesus,
mas sim, Deus sacrificando-se em Jesus.

Com isto, Deus resolve a grande crise em sua vida, pois derrotando César, Ele
poderia recuperar a terra de Canaã, mas essa não é a guerra que ele escolhe
lutar. Ele escolheu, em vez disso, derrotar Satã e, assim, derrotar a morte em
si mesma e levar seu povo para a nova terra prometida da vida eterna.

Miles diz que Jesus é como um político astuto, que responde à pergunta que
preferiria tivesse sido feita, ao invés da pergunta exposta pelos que lhe
rodeiam. Assim, Jesus leva seus ouvintes a três assuntos direcionados, os quais
são: o adultério, o suicídio e a escravidão. Por causa desta habilidade de
Deus, de mudar de assunto sem ninguém se tocar, o autor do livro comentado
aqui, diz que o monumental assunto central de toda a história israelita foi
mudado com sucesso. A pergunta irrespondível foi abandonada deliberadamente.
Embora o preço completo ainda esteja por ser pago, a crise na vida de Deus foi
resolvida.

O novo mandamento de Deus, passa a ser a bondade com os estranhos. É como se o
calendário tivesse voltado para o sexto dia da criação. E Deus, não o homem,
tivesse o direito de recomeçar sem os erros iniciais dantes cometidos. Aqui Ele
tem o direito de reconstruir a própria identidade, pois na passada, Ele não
conseguiu se firmar. Sob o novo regime, ainda há distinções de povos, porém,
estas distinções deixam de ser étnicas e passam a ser éticas. A destruição de
seus inimigos, assim, deixa de ser no desenvolvimento da história, e passa para
o fim da mesma. O crescimento do joio junto ao trigo, passa a ser a resolução
da crise na vida de Deus. Neste novo regime, a adoração à Deus torna-se
dependente da bondade aos estranhos.

Como sinal de sua nova maneira de agir, de sua nova vitória, não contra Roma,
mas contra a morte, ele ressuscita a Lázaro.

4. O cordeiro de Deus

Esta é a mudança na mente de Deus. Ele não é mais o sacrificador, mas o
sacrificado. Deus era responsável pelas ações nacionais e internacionais,
diferentemente dos deuses pagãos, que se dividiam nestas funções. Agora, na
nova aliança, Ele passa a ser Deus internacional, indiferente ao que sofre uma
nação, seja ela quem for. O Deus da guerra torna-se o Deus da sabedoria. Deixa
suas ações concretas para empenhar-se muito mais em ações abstratas. Para
Miles, esta inatividade militar de Deus é uma saída para que não o consideremos
como fracassado.

Miles escreve que o poder de Satanás é a explicação do porque Deus não manteve
suas antigas promessas aos judeus. É Satã quem deve finalmente ser dominado; é
ele quem deve finalmente ser forçado a reconhecer a manifesta superioridade do
Senhor. na instituição da Páscoa, no Egito, Deus queria ser reconhecido como o
Senhor dos Exércitos, na última Páscoa de Jesus, ele escolhe desempenhar o
papel de cordeiro pascal.

O que na realidade complicou a vida humana, não foi a implicabilidade do pecado
de Adão e Eva, mas sim, a implicabilidade da maldição que Deus lançou sobre
eles. Para tal, antes Deus mandava que lhe oferecessem sacrifícios, em Jesus,
Ele é o sacrifício. Deus vence, com isto, o sistema mundial entregue a Satanás,
e não o mundo em si, com seus reinos e reis.

Jesus, assim como os patriarcas do A.T. faz seu discurso antes de sua morte. Os
discursos dos antepassados judeus, eram proféticos e didáticos, assim com o de
Jesus. Porém, o de Cristo é bem diferente em conteúdo. Ele recorre, para o
ensino profético e didático, ao gesto teatral de uma ação ritual: 1. Ele lava
os pés de seus discípulos; 2. Ele prevê traição, mas prega amor; 3. A Ceia do
Senhor (aqui é o porque o sangue pode ser bebido simbolicamente, pela vitória
contra a morte); 4. Tende bom ânimo, eu venci o mundo (resistindo a afronta).

Jesus, então, é preso, julgado, açoitado e condenado. Com isto, ele cria um
perfil não militar, para Miles, de sucesso político, que é o de ser
bem-sucedido na paz. Desta forma, não poderão mais os povos rirem do povo de
Deus quando este passar pelo ridículo, pois foi pelo ridículo que seu Deus
também passou e suportou! Por mais blasfemo que possa parecer a um judeu, Ele é
crucificado como o Rei dos Judeus.

Ele volta à vida, se corporifica, ascende aos céus e se casa. É assim que Jack
Miles define os próximos passos de Jesus. Quando Jesus volta à vida, ele faz o
mesmo papel que Gabriel fez a Daniel, o de exegeta. Assim, Miles chama a
entronização do Cordeiro de Deus de uma comédia, de ridícula, pois mais parece
uma exegese forçada para ele. Ainda mais no ponto onde há uma referência ao
casamento de Cristo com a Noiva, que como tantas comédias, termina em
casamento.

A mudança da mente de Deus é o grande assunto da Bíblia Cristã, segundo o autor
em deste livro comentado. Deus quebrou a sua promessa, para Miles, porque na
hora certa não conseguiu ir adiante, como se tudo tivesse fugido de seu
controle. Desta forma, Deus teve de aprender a como vencer na derrota.

Epílogo

O Jesus ao qual Jack Miles tratou neste livro, como ele explica em seu epílogo,
é o Jesus literário e não o histórico. O Jesus literário não passa pela
problemática do histórico, pois o literário é tanto divino quanto humano. A
crítica histórica lê a Bíblia como a autocaracterização de um autor. Já a
crítica literária está livre para beber o vinho.  Para o autor, Deus Filho não é absolutamente
o tipo de homem que alguém esperaria que Deus Pai se tornasse. A questão é que
Deus tinha algo tão chocante a dizer, que só poderia dizê-lo humilhando-se a si
mesmo. Ele apenas substituiu uma esperança vã, firmada erroneamente por ele
mesmo, por uma que ainda pode ser realizada. Para tal, como Deus ele não pode
parar de existir, então tomou a forma humana para dramatizar a substituição de
sua mensagem, morrendo, daí ressurgindo com novas promessas!

Os exegetas cristãos receberam um tipo de convite para ouvir o A.T. no N.T. de
modo harmônico. Portanto, a apreciação literária cultiva referências internas,
de preferência a referências externas. Fazendo assim, têm-se feito o que os
autores do próprio N.T. fizeram. A Bíblia, para a crítica literária é como uma
janela de vitral (rosácea), porém, não devemos ver através dela, mas sim, ela.
Rudolph Bultmann afastou-se da tese reformada do sola scriptura e definhou-se
pelo pensamento crítico do sola fide. Porém, Schweitzer já havia seguido este
caminho anteriormente.

Os pré-modernos ensinaram a não vermos através da Bíblia. Pois esta, deveria
passar pelo crivo do se é verdadeira ou não. A partir do momento que é tida
como verdade, a mente está livre para explorar a Bíblia.

Como disse o próprio Jack Miles: “Não há nada a ser feito no Davi de
Michelangelo; o cinzel já o tocou pela última vez. (…) O que atrai os
espectadores, crendo ou descrendo, para a rosácea da Bíblia, não é o que pode
ser visto através dela, nem como os vidros foram coloridos e juntados, mas o
que o vitral mostra em si mesmo e por si mesmo, e o que todos estes fragmentos recortados
de luz e cor, operando juntos, fazem acontecer atrás dos olhos do
observador”.

Parte XVII
CREIO EM
JESUS CRISTO
“No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele
estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele,
e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz
dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra
ela. Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo.
Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o
conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.1-5).

“Mas, a todos quantos o receberam,aos que crêem no seu nome, deu-lhes o
poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da
vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus. E o Verbo se fez carne,
e habitou entre nós cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a
glória do unigênito do Pai” (Jo 1. 9-14)

A doutrina de Cristo (Cristologia) é a primária e central dentro do
Cristianismo porque dá significado às outras.Todas as outras doutrinas
(Revelação, Deus, o Espírito Santo, o Ser Humano, a Vida Cristã, a Igreja,
Ordenanças e a Escatologia) dependem da obra e da Pessoa do Senhor Jesus
Cristo.

QUE DIZEM
SOBRE JESUS CRISTO?

Mas o que é que dizem a respeito de Jesus? Encontramos em Lucas 9.18 essa
pergunta feita pelo próprio Senhor: “Enquanto ele estava orando à parte
achavam-se com ele somente seus discípulos; e perguntou-lhes: Quem dizem as
multidões que eu sou?” Pergunta, portanto, tão antiga quanto o próprio
evangelho. E eis as respostas que deram: um dos apóstolos disse, “algumas
pessoas estão dizendo que é João , o Batista”; outro disse, “estão
dizendo que é Elias”; “Jeremias”, “Alguns dos outros
profetas” (cf. Lc 9.19).

Ainda hoje é assim; dois mil anos depois, existem muitos conceitos inadequados
a respeito de Jesus Cristo. Há quem diga, por exemplo, que Jesus Cristo foi o
maior homem que já viveu, homem perfeito, o homem ideal, o
homem-modelo-dos-outros. E só! É o caso de um filósofo francês Auguste Sabatier
que sobre Jesus disse: “Jesus Cristo é a alma mais bela que jamais
existiu”. Goethe, o filósofo alemão: “Curvo-me diante de Jesus Cristo
como diante da revelação divina do princípio supremo da moralidade”. Mas
só isso; Jesus é apenas o princípio da ética. Essa perspectiva de olhar Jesus
Cristo chama-se humanista-perfeccionista, o homem que foi perfeito. Sem dúvida,
e um conceito verdadeiro, mas não é toda a verdade.

Outros classificaram Jesus Cristo como um grande mestre, um grande filósofo.
Alguns até disseram, “foi um grande profeta”. Quer dizer, Jesus
Cristo causa impressão pela sabedoria, e só?! Esse é o ponto de vista do
judaísmo moderno que olha para Jesus como sendo, apenas um profeta de Israel,
um rabino, mais um entre tantos. Dizem que Jesus é inteiramente humano, e não
tem qualquer qualidade divina. Mas ele deu uma grande contribuição à humanidade
tanto quanto os outros mestres, filósofos ou profetas. Apesar de contribuir
para o progresso moral, ele não é nada mais nada menos que outro Aristóteles,
Platão, Buda Isaías ou Jeremias. Foi o caso de Ernesto Renan que disse que
“(Jesus com) seu perfeito idealismo, é a mais alta regra da vida, a mais
destacada e a mais virtuosa, Ele criou o mundo das almas puras…”

O racionalista Harnack até disse: “(Foi Jesus Cristo quem) pôs à cruz pela
primeira vez o valor de cada alma humana, e ninguém pode desfazer o que ele
fez”. Isso quer dizer que até diante do racionalismo, Jesus é a pessoa
histórica, de superioridade máxima em sabedoria e moral, e retidão, e justiça,
e em verdade.

UMA CONFISSÃO DE FÉ EVANGÉLICA

Voltemos à confissão de fé quando Jesus perguntou, “Quem dizem as
multidões que eu sou?” E quando disseram “é João, o Batista; é Elias;
é Jeremias, ou um dos profetas”, Jesus olhou para os Seus discípulos e
perguntou, “E vocês? Quem vocês dizem que é Jesus?” E foi nessa hora
que eles tiveram de dizer alguma coisa, e de fazer a sua reflexão em torno de
Jesus Cristo. Nesse ponto, Pedro descobriu que nenhuma categoria humana,
nenhuma descrição, nenhuma classificação era adequada para falar a respeito do
Cristo de Deus, o Qual está muito além de um homem bom, muito além de um grande
homem, de um mestre ou de um profeta. Por essa razão, Marcos registrou que
Jesus era “o Cristo” (Mc 8.29b), e Lucas completou “O Cristo, o
Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). Com essas palavras, Pedro nos dá a
confissão da fé evangélica, registrando o que nós cremos a respeito de Jesus.

O CRISTO

Mas que isso significa? Que quer dizer isso quando dizemos que “Jesus é o
Cristo, o Filho do Deus vivo?” Que significa ser “o Cristo?” E
aí, só temos que olhar para o passado e descobrir que há uma longa história de
esperança, de anseios, de sonhos; esperança que tem raízes no Antigo Testamento
que aponta para uma época quando o Messias enviado por Deus viria trazer
libertação. Esse é, aliás, o conteúdo da religião judaica: a espera do Messias.

Ainda hoje os judeus o estão aguardando porque só vivem a Antiga Aliança, não
estão vivendo a Nova Aliança, a qual não conhecem, e, assim, ignoram a
realização das promessas feitas pelos profetas! Há alguns anos, lembro de ter
encontrado uma jovem judia, num vôo de Salvador para o Rio de Janeiro. Conversando
com ela, expressou-me o ponto de vista dos judeus de linha dizendo que muitos
entendem que o moderno país de Israel é que é o Messias; já veio, já está aí, é
o lugar para onde todo judeu deve ir para encontrar a sua libertação…

Pois em Jesus todas as promessas messiânicas se encontram realizadas como a de
Deuteronômio 18.15, “O Senhor teu Deus te suscitará do meio de ti, dentre
teus irmãos, um profeta semelhante a mim; a ele ouvirás”. Esse profeta
libertador do povo, como Moisés tirou do Egito, é Jesus Cristo, que nos tirou
também, do nosso Egito, da escravidão do pecado. Outra promessa messiânica é
encontrada em Gênesis 22.18, “e em tua descendência serão benditas todas
as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz”. Outra tradução adequada
para este texto é “no teu descendente”, não exatamente “no meio
do povo”, não “o povo todo”, mas na descendência de Abraão
haveria um descendente específico em quem repousam todas as promessas do
passado.

Ainda encontramos em 2 Samuel 7.12, “Quando teus dias forem completos, e
vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a
tua descendência, que sair das tuas entranhas, e estabelecerei o seu
reino”. Está falando aqui também de Jesus Cristo, o filho de Davi, o descendente
de Davi, o qual estabeleceu o reino de Deus. O fato é que até o local do
nascimento de Jesus Cristo está previsto na Escritura Sagrada: “Mas tu,
Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é
que me sairá aquele que há de reinar em Israel, e cujas saídas são desde os
tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2). Voltando a João, no
capítulo 1 que diz “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e
o Verbo era Deus” (v. 2) = “… desde os dias da eternidade” (Mq
5.2b).

Ainda como profecia messiânica temos o fato de que Jesus seria rejeitado pelos
seus como em Isaías 53.3 que Ele seria rejeitado. E voltando ao primeiro
capítulo de João encontramos o ensinamento que Jesus “veio para o que era
seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11). A profecia tem se cumprido! Ele
foi vendido por trinta moedas, e está em Zacarias 11.12, “pesaram, pois
por meu salário, trinta moedas de prata” No Salmo 22 houve uma previsão de
que Jesus seria maltratado pelos soldados romanos, porque encontro aqui
“Repartem entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançam
sortes”. Até mesmo a Sua crucificação” (cf. Sl 22.16).

VERDADEIRO DEUS E VERDADEIRO HOMEM

A teologia evangélica afirma que Jesus é completamente humano e completamente divino.
Não é parte homem e parte Deus; não é uma sereia: metade homem, metade peixe;
não é um centauro: metade cavalo, metade homem; não é um tritão: metade ser
marinho, metade ser humano. Jesus é plenamente humano como qualquer um de nós,
mas é plenamente divino como o Pai. Não é um híbrido; não é um homem um
pouquinho de tempo, e Deus durante algum tempo; não há em Jesus instabilidade,
esquizofrenia ou qualquer desequilíbrio. Mas é completa e perfeitamente homem,
plena e integralmente Deus, e sendo verdadeiramente humano é igual a nós em
tudo, menos no pecado. Plenamente como nós. No entanto, o que a Bíblia diz
sobre Ele são palavras extremamente claras: “Pelo que convinha que em tudo
fosse feito semelhante a seus irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso
e fiel nas coisas concernentes a Deus, a fim de fazer propiciação pelos pecados
do povo”(Hb 2.17).

A Escritura fala que Seu nascimento foi humano. À parte a estrela, o coro
celeste e a visita dos magos, houve fecundação, nove meses de gravidez, dores
de parto e nascimento. Jesus teve uma vida plenamente humana: “O Verbo [a
Palavra de Deus] se fez carne e habitou no nosso meio, cheio de graça e de
verdade, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai” (Jo
1.14). Jesus foi criança, os dentes de leite caíram, nasceram dentes
permanentes, foi adolescente (cf. Lc 2.42), tornou-se jovem (Lc 4.22b), e
adulto, foi à escola, à sinagoga, cresceu física e emocionalmente em sabedoria,
em estatura e em graça diante de Deus e dos homens. Teve emoções (cf. Mc
14.34), e limitações, e tentações, e venceu todas as batalhas! Teve uma morte
humana, e um sofrimento físico real na cruz; e a angústia mental quando os
discípulos fugiram e o negaram (cf Mt 26.56,69-74); e angústia espiritual por
ter sido abandonado na cruz: “Deus meu, Deus meu, porque me
desamparaste!”, expressão que tomou, sem dúvida alguma, uma forma
altamente dramática no aramaico, língua materna de Jesus: “ELI-I-I…!
ELI-I-I…! LAMÁ-Á-Á… SABCTANI-I-I…!” (cf. Mt 27.46).

Mas Ele foi completamente divino. Sua concepção foi divina (Lc 1.34,35); Sua
vida foi divina; é ver o registro de Sua atividade, e observar que não há
problema com o sobrenatural nos Evangelhos! Sua ressurreição foi divina, o
apóstolo Paulo a esse propósito registrou: “Porque primeiramente vos
entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as
Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as
Escrituras” (1 Co 15.3,4). Creio plenamente que em Jesus Cristo, Deus se
fez homem como está registrado no Evangelho (cf. Jo 1.14). O Verbo de Deus, a
Palavra de Deus era Espírito e na concepção de Jesus Se fez ser humano. E isso
fala de pré-existência, ou seja, existência anterior a qualquer realidade (cf.
Jo 1.1). Existia Jesus antes de qualquer ato criador, antes de todos os astros,
estrelas e asteróides, e antes do espaço, e antes do tempo, e antes da contagem
dos minutos, e das horas, e dos dias, e dos séculos; antes de qualquer medida
porque a Palavra de Deus, o Verbo, é infinita, eterna e pré-existente!

Isso fala de divindade! Porque aqui está: “e o Verbo estava com Deus, e o
Verbo era Deus” (Jo 1.1b). Jesus não é um deus menor, não! A filosofia
platônica fala no demiurgo, um ser intermediário entre Deus e a criação. Jesus
não é um demiurgo, um deus menor, é da mesma substância do Pai, igual em poder
e em glória porque é ser divino, como nós somos iguais uns aos outros em
limitações e destino porque seres humanos.

Isso fala, então, de encarnação. Quando a Palavra de Deus Se dez carne, não
parou de ser Deus! Sendo da mesma substância e igual ao Deus Pai e ao Espírito
Santo, Ele (Jesus) Se formou da mesma substância de homem como um de nós. Daí
duas naturezas com Jesus: a natureza divina e a natureza humana completa, o varão
perfeito.

OS TÍTULOS DE JESUS

Um modo de reconhecer o alcance da obra de Cristo é fazer um exame nos seus
títulos no Novo Testamento.

Seu próprio nome já é um titulo: Jesus. É o seu nome pessoal, dado no oitavo
dia de nascido (cf. Lc 2.21). Hoje já ficamos planejando o nome da criança:
“Se for menino, vai ser Fulaninho, se menina vai ser Beltraninha”. Na
época do ministério terreno de Jesus era diferente: quando alguém recebia o
nome, funcionava ele como uma espécie de cartão de visita. Jesus é o nome
pessoal, dado no oitavo dia, o dia da circuncisão (o brit milah). Em hebraico,
quer dizer “salvação do Senhor” (cf. Mt 1.21). O nome Jesus é um
titulo a respeito dEle mesmo. É interessante observar que Josué, Isaías, e
Oséias são nomes pessoais que têm o mesmo significado do nome Jesus. Não é à
toa que Isaías é o profeta messiânico por excelência!

Outro título de Jesus é Cristo, que não é o Seu sobrenome como já houve quem
assim opinasse: é título. O nome de Jesus realmente teria sido Yeshua
ben-Yoseph (em hebraico), ou, em aramaico Yeshua bar-Yoseph, significando ambos
“Jesus Filho-de-José”. Cristo é a forma grega da palavra hebraica
Maschiah (Messias), e ambas significam “ungido” em português e
línguas afins (cf. At 2.36; Rm 3.1,4). Senhor é outro modo pelo qual Ele é
conhecido. Esse é o mais importante título da Igreja Primitiva, e o mais
perigoso também. Não era perigoso dizer Jesus, nem dizer Cristo, mas, sim,
dizer que “Jesus é o Senhor”. O cristão podia chamar como quisesse
(Verbo, Cordeiro de Deus, etc.), quando afirmasse, porém, “Jesus de
Senhor”, seria preso, e algumas vezes era levado à morte porque para o
Império Romano só podia existir um Senhor, César, o Imperador. Paulo usa o
vocábulo Senhor mais ou menos duzentas vezes nas suas cartas, sendo essa a mais
antiga confissão de fé nessa forma: “Jesus é o Senhor!” (1 Co 12.3;
Rm 10.9). Era também essa expressão usada pelos cristãos que não falavam grego,
mas aramaico, a língua de Jesus; sendo que chamavam eles Mar, de onde vem uma
expressão que aponta para a vinda de Jesus Cristo, e que se encontra em 1 Co
16.22 e Ap 22.20: “MARANATA!”, que quer dizer “Vem,
Senhor!”, “Volta, Senhor, para o nosso meio!”. Há outra maneira
de Jesus Cristo ser conhecido. É a expressão Verbo ou Palavra. No Antigo Testamento,
o Verbo de Deus, a Palavra de Deus é o poder de Deus em ação! Por esse motivo,
na teologia da Antiga Aliança, a Palavra de Deus cria. Está em Gênesis no
capítulo 1, “E disse Deus: faça-se tal coisa”. (cf.
Sl 33.6; Jo 1.3).
Era a
Palavra de Deus que criava. Para os gregos era o Logos, a Palavra. Esse era o
princípio racional no ser humano, o princípio da ordem no universo, que
mantinha esse universo equilibrado, razão porque João utiliza, “E o Verbo
se fez carne”. E quando ele escreveu, os gregos compreenderam, e os judeus
entenderam , porque os judeus entenderam “o princípio criador”
(dabhar), e os gregos entenderam “o principio racional” (logos). O
mais importante, porém, é o que está no verso 14: “E o Verbo se fez carne,
e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a
glória do unigênito do Pai”. O importante é que a Palavra Criadora de
Deus, a Palavra Dinâmica de Deus, a Palavra Eterna, o Ser Divino se tornou
humano e, vindo para o nosso meio, armou a Sua habitação, a Sua tenda, Ele
construiu a Sua casa, Ele habitou entre nós, e assim temos uma visão da glória
de Deus em Cristo Jesus. Quem pode, então, revelar a Deus? Só Deus pode revelar
a Si mesmo, ninguém nem nada mais. Só a minha palavra pode dizer quem eu sou,
quando uma pessoa conversa com você, pelo que a pessoa está dizendo, você já
tem um retrato seu, não é verdade? Já sabe se a pessoa quer ou não enganá-lo;
se tem ou não boas intenções. A palavra se revela pela palavra: Deus Se revela
pela Sua palavra.

Há muitos outros títulos de Jesus : Cordeiro de Deus, Filho de Deus, Filho do
homem, Servo Sofredor, o Alfa e o Ômega, Primeiro e Último, Princípio e Fim,
Autor e Consumador, a Causa e o Objetivo, e outros tantos.

Verifico que a minha fé em Jesus Cristo se evidencia porque Ele mudou a minha
vida. Não precisaria de mais nada, a não ser o fato de que um dia Jesus veio à
minha vida, e tomou conta do meu ser, e o modificou. Como também tem mudado as
vidas dos irmãos, e vai continuar operando em milhares, e em milhões de outras
vidas por esse mundo de Seu Pai. Não fora Cristo, eu, particularmente, seria um
racionalista, um cético, alguém sem horizontes, sem céu e sem esperanças. No
entanto, Jesus Cristo mudou o meu pensamento, o meu coração, e canto com tanta
emoção o hino que fala do “Nome Que Inspira o meu Louvor” (177 do
Hinário para o Culto Cristão):

Existe um nome sem igual que inspira o meu louvor,
Um som mavioso, divinal é o nome do Salvador.
Nome que inspira o meu louvor é o nome do Salvador

Perguntaram numa entrevista de televisão a Karl Barth, o teólogo suíço, já
perto do fim da sua vida se o seu conceito da pessoa de Cristo havia mudado com
o passar dos anos?” Sua resposta foi: “Sim, mudou: no começo eu
pensava em Jesus Cristo como o profeta do reino; Agora eu sei que Ele é o
reino”. É o que Jesus é: o próprio reino de Deus. E, na verdade, Jesus não
disse: “Eu dou o pão da vida”, “Eu mostro o caminho”,
“Eu direi a verdade”, mas afirmou, “Eu Sou o Pão da Vida”, “Eu
Sou o Caminho”, “Eu Sou a Verdade”, porque é Ele o centro da Sua
própria mensagem, o próprio evangelho! Ele é a boa notícia de que Deus continua
amando a pessoa humana.

Jesus Cristo é o Novo Adão, Ele se revela à pessoa humana como sendo o Homem
Ideal, o Ser Humano Perfeito, exemplo para aqueles que nEle crêem (cf. 1Pe
2.21). Como Novo Adão, revela a natureza de Deus (Hb 1.1), e a Sua essência que
é o amor (cf. Mt 11.27; Jo 1.18; 14.9; Rm 5.8; 1 Jo 3.16). Como Novo Adão,
revela o propósito de Deus, Sua obra redentora na história, e a destruição das obras
do Maligno (cf. Jo 12.31; 16.11; Cl 2.13-15; At 2.14; 1Jo 3.38). Esse é o
Cristo Poderoso, Redentor, Salvador, Libertador em Quem creio!

Parte XVIII
JESUS E AS
DECEPÇÕES HUMANAS
Jesus como
Verbo Encarnado, vestindo a nossa humanidade se identificou totalmente com o
homem. Se alguém chega-se na marcenaria de seu pai, em Nazaré, no final da
manhã, viria um jovem com as mãos calejadas, suado, cansado, talvez até
ofegante segurando uma grande serra, ou até com um hematoma no polegar depois
de levar uma martelada no dedo. Ele não é um almofadinha mas um “homem de
dores experimentado nos trabalhos”. Durante seu ministério trabalhou de
sol a sol apresentando o Reino de Deus e nas madrugadas frias intercedia pelos
seus ouvintes contemporâneos e por Suas ovelhas futuras (nós) junto ao Pai.
Sentiu fome, sentiu sede, sentiu frio, sentiu calor, sentiu ansiedades.
Verdadeiramente, é muito coerente da parte do Nazareno se auto-entitular de o
“Filho do homem”.

A identificação do Mestre não se deu ao nível em si mesmado d’Ele próprio
somente, mas, Ele também se relacionava com aquela gente simples, analfabeta
marginalizada e sofrida da Galiléia de seu tempo.

Uma passagem do Seu Santo Evangelho que chama a atenção foi aquele dia que Ele
foi para uma das festas religiosas judaicas em Jerusalém, e, em lá chegando foi
ao tanque Betesda, que tinha cinco entradas. Perto dessas entradas estavam
deitados muitos doentes: cegos, aleijados e paralíticos. Esperavam o movimento
da água, pois, segundo uma crendice popular do povo, de vez em quando um anjo
do Senhor descia e agitava a água. O primeiro doente que entrasse no tanque
depois disso sarava de qualquer doença. Entre eles havia um homem que era
doente fazia trinta e oito anos. Jesus viu o homem deitado e, sabendo que fazia
todo esse tempo que ele era doente, perguntou: “Você quer ficar
curado?”. Ele respondeu: “Senhor, eu não tenho ninguém para me pôr no
tanque quando a água se mexe. Cada vez que eu tento entrar, outro doente entra
antes de mim”. Então Jesus disse: “Levante-se, pegue a sua cama e
ande!”. No mesmo instante, o homem ficou curado, pegou a cama e começou a
andar. Mais tarde Jesus encontrou o homem no pátio do Templo e disse a ele:
“Escute! Você agora está curado. Não peque mais, para que não aconteça com
você uma coisa ainda pior” (Jo 5. 1-9,14).

Vemos que esse paralítico da história, antes de ser curado, era um homem azedo,
acabrunhado, reclamão, sorumbático, enfim: decepcionado. Quando Jesus
perguntou-lhe se ele queria ser curado, ao invés de o pobre coitado gritar:
“Sim eu quero! Cure-me Jesus!” Reclamou: “eu não tenho ninguém
para me pôr no tanque quando a água se mexe. Cada vez que eu tento entrar,
outro doente entra antes de mim”.

Muitas vezes nós também nos encontramos como esse homem. Somos vítimas da decepção.
Quando temos o fracasso de uma esperança; quando somos assolados por uma
desilusão na vida; quando somos derrubados por um desengano, quando pegos por
um desapontamento, quando recebemos uma surpresa desagradável; quando nos
defrontamos com uma contrariedade, quando somos vítimas de um desgosto. O que
seria de nós, quando acometidos de paralisia espiritual, se Jesus não se
envolvesse conosco?

À semelhança daquele paralítico, muitas vezes, paramos; nossa alma fica
letárgica, e nosso espírito se atrofia por que nos decepcionamos em um dos três
níveis de decepção que todo crente está sujeito.

I. DECEPCIONAMO-NOS CONOSCO MESMO

Talvez, aquele homem quando olhava para as suas pernas atrofiadas, sua sujeira,
seu mal cheiro, sua dependência dos outros, sua miséria, sua inércia ficava
ainda mais frustrado consigo mesmo. Vemos, em Jo 5.14, que a causa de sua
paralisia era algum pecado que cometera. Não há nada mais que nos frustra que a
consciência do pecado. Aquele homem estava decepcionado consigo mesmo. Hoje,
Inúmeros motivos querem nos fazer prostrar inertes, levando-nos a nos
subestimar doentiamente.

Por isso, é preciso ter firme em nossa mente que não podemos confiar em nós
mesmos. Salomão disse “o que confia no seu próprio coração é
insensato” (Pv 28:26). Um dos melhores crentes que pisou a face da Terra,
o apóstolo Paulo, um dia, também viu-se frustrado consigo mesmo e desabafou:
“Pois eu sei que aquilo que é bom não vive em mim, isto é, na minha
natureza humana. Porque, mesmo tendo dentro de mim a vontade de fazer o bem, eu
não consigo fazê-lo. Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que
não quero fazer é que eu faço. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem
faz isso, mas o pecado que vive em mim é que faz. Assim eu sei que o que
acontece comigo é isto: Quando quero fazer o que é bom, só consigo fazer o que
é mau. Dentro de mim eu sei que  gosto da
lei de Deus. Mas vejo uma lei diferente agindo naquilo que faço, uma lei que
luta contra aquela que a minha mente aprova. Ela me torna prisioneiro da lei do
pecado que age no meu corpo. Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que
me leva para a morte? (Rm 7.18-24, BLH). Vemos assim que o Apóstolo aos gentios
também decepcionou-se consigo mesmo.

Quantas vezes nos acabrunhamos por detectar falhas em nosso caráter? Quantas
vezes nos decepcionamos por não conseguirmos orar como gostaríamos? Quantas
vezes nos chateamos por nos omitimos diante de desafios que Deus coloca diante
de nós? Quantas vezes nos afundamos por deixarmos de praticar a teoria do bem
que conhecemos? Quantas vezes ficamos arrasados por não meditarmos na Palavra
de Deus como deveríamos? Quantas vezes esquecemos que o Espírito Santo é uma
pessoa e como tal quer uma relação pessoal conosco? Quantas vezes nos deprimimos
por não conseguirmos ser quem gostaríamos de ser?

Isso tudo acontece porque não somos os super-homens que ingenuamente
gostaríamos de ser. Por certo, Deus permite que isso ocorra para que tenhamos
consciência de que o conteúdo do Evangelho dentro de nós, que é como verdadeiro
tesouro espiritual, e para que tenhamos consciência de que “somos como
vasos frágeis de barro para que fique claro que o poder supremo pertence a Deus
e não a nós”. Por isso, devemos agir na direção da palavra do salmista:
“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará. E ele fará
sobressair a tua justiça como a luz, e o teu direito como o meio-dia” (Sl
37. 5).

Mas, além de nos frustrar conosco mesmo, também nos desiludimos com aqueles que
se relacionam conosco.

II. DECEPCIONAMO-NOS COM AS PESSOAS AO NOSSO REDOR

Aquele paralítico esperava ajuda das pessoas que estavam a seu lado, mas isso
não ocorreu. Por isso, vemos nas suas palavras um tom rancoroso: “eu não
tenho ninguém para me pôr no tanque quando a água se mexe. Cada vez que eu
tento entrar, outro doente entra antes de mim”. A frustração desse homem
com as pessoas se dá por dois motivos: primeiro, pela falta de amor e
solidariedade de seus compatriotas; segundo, pela concorrência intensa que
havia na luta desesperada pela bênção.

Não seria esses os motivos que têm deixado tanta gente fracassada atualmente?
Muitas vezes, quando mais precisamos das pessoas elas nos decepcionam. Quanto
mais perto elas estão de nós, mais elas podem nos frustrar. Vez ou outra, quando
precisamos de um apoio moral, o que recebemos é uma lição de moral. Os crentes
do nosso lado acham mais fácil imitar os “amigos” de Jó, que esse
patriarca propriamente. Parece que quando temos recursos os “amigos”
brotam naturalmente onde estamos, mas, quando caímos em insolvência, ficamos
sem os companheiros; foi o que experimentou o filho pródigo. Por vezes, pessoas
nas quais confiamos nos traem; até mesmo Jesus não esteve isento dessa
desventura. Quantas vezes nos chateamos porque mentiram para nós? E quando nos
defrontamos com pessoas que não dão bom testemunho cristão? E quando alguém que
tenha alguma espécie de autoridade sobre a nossa vida age injustamente contra
nós? Não há como não ficarmos jururus com tudo isso.

Tais frustrações nos acabrunham tanto, que podemos até perder a consciência que
o nosso Salvador está diante de nós, como esteve diante do paralítico do tanque
Betesda, amorosamente perguntando: “Quer ser curado?”. Ele continua
preocupado conosco…; Ele está nos vendo…; Ele não está indiferente às
nossas frustrações… Ele não é insensível às nossas necessidades… Ele se
identifica conosco. O Senhor não passou por aquele tanque ignorando o
paralítico. Foi Ele quem estabeleceu o diálogo com aquele miserável.

III. DECEPCIONAMO-NOS COM A RELIGIÃO

Aquele pobre desgraçado paralítico deveria também estar decepcionado com a
Religião. Os religiosos de carteirinha foram acusadas por Jesus de prenderem-se
a questões periféricas da crença e desprezarem o que realmente tinha suma
importância na Lei: a justiça; a misericórdia; e a fé. Ninguém exercia esse
conteúdo essencial da espiritualidade a fim de beneficiar aquele pobre coitado.
Quando foi curado, ao invés de renderem ações de graças pela vitória daquele
filho de Abraão, murmuraram porque o milagre tinha acontecido no dia de sábado.
É gritante o fato de que a religião pela religião é cega, tendenciosa,
fanática, venenosa, enfim, frustrante.

Por outro lado, vemos aquele pobre homem confiando na reputação mística do
tanque, atitude tipicamente religiosa do homem, que é inerentemente um ser
religioso. Era o tanque Betesda uma fonte intermitente, que fluía
ocasionalmente em esguichos, para depois cessar; mas o povo dava a isso alguma
espécie de significação sobrenatural, como se fora a ação de um anjo. Tanto é
que no manuscrito original do Evangelho joanino o versículo quatro do capítulo
cinco não aparece. Entretanto, não há qualquer razão para se duvidar de que
realmente naquele lugar havia curas genuínas, como ainda atualmente elas
existem em alguns “santuários de curas”. Não precisamos nos preocupar
se Deus usa ou não usa intermediários espirituais para efetuar essas curas, mas
o certo é que elas existem. O problema é que parece que o paralítico estava ali
supersticiosamente e nunca recebera sua bênção. Talvez, tenha até piorado
psicologicamente, pois a “mexida” na água somente funcionava para
alguns outros enfermos, menos para si.

Nós também nos frustramos quando nos apegamos a certas fórmulas espirituais
para resolver nossas dificuldades. E pelo fato de agirmos apegando-nos à
exterioridade religiosa sem nos apropriarmos do conteúdo essencial das atitudes
espirituais que Deus espera de nós.

É comum diante de uma dificuldade alguém aconselhar-nos: “Ah, irmão, leia
a Bíblia e ore que tudo vai se resolver”. Isso é falso! Ler a Bíblia e
orar mecanicamente não resolve nada! Tais atitudes podem até piorar a situação,
se elas nos tornarem frios religiosos. É importantíssimo ler as páginas das
Sagradas Escrituras, e orar ao Pai, mas, isso só tem sentido quando mantemos
uma comunhão pessoal com o Espírito Santo, pois Ele é uma Pessoa. Jesus não
veio trazer religião à Terra! Ele Veio estabelecer relacionamentos. Na
verdadeira espiritualidade, não existe “abra-cadabra” ou passes de
mágicas, bem como vale salientar que o uso mecânico do nome ou do sangue de
Jesus de nada adianta se não fizermos parte da mesma natureza do Senhor Jesus e
não formos amigos chegados do Seu Santo Espírito. Quando não vivemos isso,
acabamos vivendo religião, e ela acaba nos decepcionando.

Também nos assemelhamos ao paralítico da narrativa quando nos frustramos com a
religião à medida que acabamos por estabelecer uma espécie de concorrência com
o irmão que está ao nosso lado. Ele resmungou para Jesus: “Cada vez que eu
tento entrar, outro doente entra antes de mim”. Cada um dos outros
enfermos nos cinco andares daquele tanque era para o pobre paralítico um
concorrente da bênção; um rival na luta pelo melhor lugar; um competidor na
busca de maior rapidez para se atirar no tanque; e um adversário na busca pelo
favoritismo da misericórdia de Deus. Tudo em nome da religião. Em geral, de
modo inconsciente assumimos atitudes de disputa no ambiente religioso. Se não
nos cuidarmos poderemos ser lançado de cima do “pináculo do templo”.
Quando nos deparamos com os fracassos de tais atitudes nos decepcionamos
profundamente com o ambiente religioso. E não há nada que mais decepciona o ser
humano que a religião vazia de conteúdo espiritual!

Uma outra ilustração que comprova a idéia de que a religião nos frustra é
quando damos crédito a pessoas que nos dizem mensagens afirmando serem de Deus
e que, na verdade, não são d’Ele. Entretanto, criam expectativas falsas e por
fim, acabam nos frustrando. Quantos prejuízos tem causado a crentes ingênuos os
falsos pastores, os falsos profetas e as falsas profetizas? Interessante que é
“em nome do Senhor”. Nisso, não há nada de espiritualidade, mas sim
pura religião misturada com charlatanismo.

O grande antagonismo da desgraça do paralítico de João 5 é o nome do local onde
ele jazia: “Betesda”: “Casa de misericórdia”. Que
misericórdia ele gozava até Jesus chegar ao tanque? Todavia, O Senhor Jesus
resolveu o problema da decepção do paralítico, da mesma maneira com que Ele
quer resolver as nossas decepções.

IV. JESUS RESOLVE AS NOSSAS DECEPÇÕES

Jesus não está alheio a nossas necessidades, pois ele nos observa e nos sonda.
Todavia, Ele exige que nós façamos a parte destinada a nós para resolver nossos
problemas. Nossas lutas, somente são resolvidas quando nos comprometemos com o
Senhor. Esse compromisso é mútuo.

Jesus nos vê quando estamos decepcionados. É motivo de regozijo saber que Jesus
não se afasta dos frustrados. Humanamente, há uma tendência de as pessoas se
afastarem dos complicados. Como o homem contemporâneo já tem inúmeros problemas
quer se afastar das pessoas problemáticas. E isso só gera o aumento das
complicações humanas e o estabelecimento da falta de amor entre os indivíduos.
Entretanto, o Senhor Jesus não é assim, Jesus, naquele dia, chegou a Jerusalém
com objetivo de participar de uma das festas dos judeus, mas na Sua agenda de
trabalho a prioridade é para as pessoas e não para as coisas.

O capítulo cinco de João declara que Jesus viu o homem deitado e, sabendo que
fazia todo esse tempo que ele era doente, perguntou: “Você quer ficar
curado?”

O texto nos revela que Jesus vê o frustrado. Como é bom saber que Jesus nos vê!
Como é bom saber que ele não nos ignora. Ainda que estejamos complicados, o
senhor nos vê. As pessoas ignoram e evitam os complicados por que só vêem o que
é aparente, somente vislumbram a superfície, ou seja, a complicação insolúvel.
Em função disso, deixam de ver o valor precioso que tem a alma e o espírito
humanos para Deus, e ao invés de ajudar acabam aborrecendo mais ainda quem já
está complicado. Nosso Deus não age assim. “O Senhor não vê como vê o
homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém, o Senhor olha para o
coração” (1 Sm 16.7b).

O homem segundo o coração de Deus (Davi) quando sentiu-se complicado orou de um
modo que nós também podemos clamar: “Tem misericórdia de mim, Senhor; vê
como me fazem sofrer aqueles que me aborrecem, tu que me levantas das portas da
morte” (Sl 9:13). Mesmo que estivermos nas portas da morte o nosso Pai nos
vê, e nos levanta!

Jesus se interessa por nós quando estamos decepcionados. A iniciativa de pôr
fim à paralisia daquele desgraçado partiu de Jesus. Foi o Senhor quem começou o
diálogo, perguntando-lhe: “Você quer ficar curado”?. Jesus sempre se
identifica com os pecadores. Sempre se interessa pelos frustrados. Ele
“não apaga o pavio que fumega e não acaba de quebrar a rama que está
partida (Is 42.3)”. “Ele veio buscar e salvar os perdidos” (Lc
19.10). O próprio Senhor disse: “Os sãos não necessitam de médico, mas sim
os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores”
(Mc 2. 17). Confiemos n’Ele! Jesus tem poder para solucionar nossas
frustrações. Não bastaria se Ele tivesse somente a vontade de nos ajudar, mas
não tivesse condições de fazê-lo. “Ele tem todo o poder no céu e na
Terra” (Mt 28.18).

Jesus exige mudanças nossas, para Ele resolver nossas decepções. Do ponto de
vista da lógica humana, parece ridícula a pergunta que Jesus fez àquele pobre
coitado: “Queres ficar são?”. O texto nos diz que Ele sabia que
aquele homem estava inerte há trinta e oito anos; se ele estava ali esperando o
mover das águas é porque, obviamente, anelava desesperadamente a sua cura. Não
é estranho a pergunta de Jesus? “Queres ficar são?” Na verdade, tal
questionamento tem um significado mais profundo do que o que simplesmente
aparenta.  Jesus estava na realidade
questionando se aquele homem queria “mudar de vida”, ou seja ele
estava perguntando: Você deseja parar de pedir esmola? Você deseja trabalhar?
Você deseja andar com suas próprias pernas? Você deseja trocar de roupas? Você
deseja sair do pó? Você deseja parar de depender dos outros? Em suma, Jesus
estava questionando: Você deseja se arrepender e abandonar definitivamente o
pecado? Isso é tão certo que o evangelista João nos informa que mais tarde
Jesus encontrou o homem no pátio do Templo e disse a ele: “Escute! Você
agora está curado. Não peque mais, para que não aconteça com você uma coisa
ainda pior”. Logo, vemos que a causa da sua enfermidade era o pecado.

Ainda hoje o Senhor quer solucionar nossas frustrações; quer resolver os
fracassos de alguma esperança perdida; quer devolver alguma desilusão perdida
na vida; quer nos levantar se caímos por um desengano; quer nos encorajar se
ficamos inertes por algum desapontamento; quer nos encorajar ante as surpresas
desagradáveis do cotidiano.

Mas, antes de glorificarmos a Ele alegre e descomprometidamente, devemos nos
mobilizar para as mudanças que o Senhor exige de nós! Quer nos curar da úlcera,
mas exige que paremos de comer pimenta. Quer nos curar da depressão, mas exige
que entreguemos confiadamente e sem reservas nossos cuidados a Ele. Quer nos
abrir uma oportunidade de trabalho, mas exige que nós qualifiquemos nossa
mão-de-obra. Quer nos salvar do desemprego, mas exige que sejamos obedientes ao
patrão. Quer melhorar nosso casamento, mas exige que perdoemos nosso cônjuge e
eliminemos os defeitos de nosso caráter. Quer nos ungir para o ministério, mas
exige que vivamos uma verdadeira espiritualidade. Para cada bênção que almejamos
do Senhor, Ele exige algo de nós.

Jesus exige de nós, fé em Sua Palavra para resolver nossas decepções. Jesus
resolve nossas complicações com um instrumento poderoso: A Sua Palavra. Ele
declarou ao paralítico: “Levanta-te, toma o teu leito e anda.
Imediatamente o homem ficou são”. A Palavra do Senhor continua sendo o
meio de dar um fim às nossas lutas.

Para quem está necessitado ela diz: “O Senhor é o teu pastor, nada te
faltará”; “o teu Deus segundo as riquezas da Sua glória suprirá todas
as suas necessidades por Cristo Jesus”. Para quem está enfermo, declara:
“O senhor é quem sara todas as tuas enfermidades”. Para quem está
ansioso, anima: “A paz de Deus que excede todo o entendimento guardará os
seus sentimentos e o seu coração”. Para quem está deprimido, certifica:
“não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde
quer que andares”. Para quem está com medo, encoraja: “Porque eu, o
Senhor, teu Deus, te tomo pela tua mão direita e te digo: não temas, que eu te
ajudo”. Para quem está em luta, garante: “…a vitória vem do
Senhor!”
Confiemos no Senhor! O paralítico ouvindo a Palavra de autoridade de Jesus
tomou o seu leito e começou a andar. Ele andou porque depositou sua fé na
Palavra de Cristo. Fé na Palavra do Senhor é a atitude que resolve nossas
decepções. Façamos como o salmista que confiou inteiramente no Pai celestial:
“Somente em Deus espera silenciosa a minha alma; dele vem a minha
salvação. Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é ele a minha fortaleza;
não serei … abalado. […] a minha alma, espera silenciosa somente em Deus,
porque dele vem a minha esperança. Só ele é a minha rocha e a minha salvação; é
a minha fortaleza; não serei abalado. Em Deus está a minha salvação e a minha
glória; Deus é o meu forte rochedo e o meu refúgio” (Sl 62.1-7).

Parte XIX
JESUS, MAGO
OU CÍNICO
 O título
pode parecer grosseiro, mas traduz uma inquietação dos meios acadêmicos e
científicos nos Estados Unidos e Europa. A historiadora brasileira Tânia de
Fátima Rocha aborda o tema a partir de um clássico da historiografia do Jesus
histórico.

A resposta encontra-se no livro “O JESUS HISTÓRICO, A vida de um camponês
judeu no Mediterrâneo” de John Dominic Crossan, cuja primeira edição em
português é da Imago (1994).

Crossan é professor de Estudos Bíblicos na DePaul University, Chicago. É autor
de vários trabalhos acadêmicos sobre Jesus, incluindo “The Cross that
spoke”, que recebeu o Premio de Excelência da Academia Americana de
Religião.

O livro de Crossan é fruto de uma pesquisa histórica rica e detalhada que tem
como objetivo dar subsídios para compreendermos o panorama histórico nos tempos
de Jesus. Como era o lugar onde Jesus vivia? Que classes sociais existiam? Como
se relacionavam? Como as pessoas desta sociedade percebiam Jesus e suas
mensagens? Estas e outras questões são respondidas por Crossan nesta obra que é
fruto de rigorosa pesquisa científica.

Sua preocupação não é com o Cristo, ou seja, com o caráter divino de Jesus, mas
com o homem, sua cultura, a economia de sua época, as relações socia

is que envolviam a sua comunidade. O autor parte do princípio de que há uma
sociedade mediterrânea com características próprias, baseada numa forte
tendência à urbanização, desprezo pelo modo de vida do camponês e pelo trabalho
manual, nítida estratificação econômica, geográfica e social; instabilidade
política e uma tradição de Estados fracos, uma rígida segregação sexual; uma
tendência a se apoiar em unidades mínimas de parentesco, um código de honra e
vergonha que define não só o comportamento sexual, mas também a reputação
pessoal, etc. Nesta cultura “a honra, mais do que o valor que uma pessoa
tem aos seus próprios olhos, é o valor que ela tem aos olhos da
sociedade”.

Nazaré, a cidade onde Jesus vivia era uma aldeia profundamente judaica, com
menos de 200 anos no séc. I, cuja atividade principal era a agricultura. Apesar
de afastada das trilhas mais freqüentadas, situava-se dentro de um contexto
urbano com uma população de cerca de 30.000 habitantes. Fazia parte da periferia
romana, constantemente arrasada pela guerra, cujo centro, Roma, era uma cidade
imperial que exportava a violência para outro lugar e dava a isso o nome de lei
e de ordem, ou até mesmo de paz.  Havia
acentuada desigualdade social, onde a classe dos artesãos englobava cerca de 5%
da população, formada de camponeses que tinham perdido as sua posses e cujos
filhos, portanto, não tinham direito a uma herança. A renda média de um artesão
não era tão alta, aparentemente, quanto a de um camponês. Daí, então, a sua
posição inferior na hierarquia de poder e privilégio, cuja principal forma de
riqueza é a propriedade da terra. Nesta condição incluía-se a família de um
carpinteiro como a de Jesus.

Dentro deste contexto, reduzidos à impotência pelo poderio militar romano, os
palestinos voltaram-se para o velho sonho milenarista. A salvação viria através
de um líder que, apesar de ser humano e agir neste mundo, teria uma aura
divina. Assim, os movimentos apocalípticos são uma reação a um profundo ataque
à integridade cultural, a uma ameaça de ordem político-religiosa e
socioeconômica.

Surgem movimentos como o dos cínicos e estóicos que buscavam a felicidade
através da liberdade interna e da auto-suficiência pessoal. O estoicismo
procurava chegar lá através de um desapego às coisas, já o cinismo pregava um
total abandono do mundo, buscavam a felicidade através da liberdade. Tinham uma
aparência diferente daquela considerada normal pelos padrões sociais da época,
de modo a serem reconhecidos como propositalmente divergentes. Tinham uma opção
anticultural pela pobreza que fazia com que não tivessem moradia fixa, levando
uma vida itinerante simbolizada pelo uso do cajado.

Surgem também os movimentos taumatúrgicos, ou seja, movimentos realizados pelos
chamados magos (alguém que pode fazer com que o poder divino se manifeste
diretamente através do milagre pessoal, e não indiretamente através do ritual
comunitário), representam uma reação religiosa divergente. Apesar de procurarem
acabar de imediato com o sofrimento de um individuo, e não de um grupo, a sua
atividade muitas vezes representa uma oposição radical ao sistema
político-religioso estabelecido, seja ele local ou colonial. Neste caso faziam
oposição à religião oficial dos sacerdotes judaicos. Os vários tipos de manifestantes,
profetas, bandidos, messias e revolucionários, são representantes típicos de
membros das classes desfavorecidas na Palestina do século I. O milenarismo
popular da classe camponesa resultou em ações e foram vítimas de uma reação
brutal e sangrenta pelas autoridades.

Um outro movimento social, é o banditismo social que surge em qualquer
sociedade baseada na agricultura, onde há uma enorme quantidade de camponeses e
trabalhadores sem terra que são governados, oprimidos e explorados por
representantes de outra classe social. Movimento que já estava com meio caminho
andado para se tornar uma revolução.

Já há relatos a respeito de bandidos no inicio de 47 antes da era cristã,
depois de manifestantes e messias em 4 antes e.C., sendo que os profetas só
aparecem a partir de 30 e.C. Em termos de violência, para os onze casos de
banditismo há dez casos envolvendo profetas, e para os cinco exemplos de
messianismo, há sete incidentes com manifestantes.

O homem e o
contexto histórico

Será que aquele homem que pregava a beira do lago era um visionário
apocalíptico? Como Jesus falava de si mesmo?

O reino de Deus é um grupo de pessoas sob o controle divino e, enquanto um
ideal, isso transcende e condena todo tipo de poder humano. O reino tem a
propriedade de expandir-se e fixar-se assim como na parábola da mostarda e do
joio.O importante, então, não é possuir uma intuição especial para poder ver o
Reino do futuro, e sim ter a habilidade de reconhecer o Reino como uma
realidade presente. Para Jesus, um reino de mendigos e ervas daninhas é um
reino do aqui e agora. A expressão “reino de Deus” podia ser
compreendida do ponto de vista apocalíptico, podia haver ou não uma revolta
armada, existir ou não um messias, e ocorrer ou não uma destruição cósmica, mas
com certeza um dia haveria um ato de poder divino transcendental que, depois de
destruir todos os perversos impérios pagãos, estabeleceria o domínio da justiça
e da santidade, que regeria a humanidade para sempre. Também podia ter um
caráter sapiencial e representar tanto uma ética para o presente, quanto uma
critica radical dos abusos do rei e do império. Jesus tem um a visão
sapiencial, seu reino é realizado ao invés de apenas proclamado.

O reino de Jesus era composto de gente sem importância ou mesmo indesejável, representava,
sem dúvida alguma, uma proposta profundamente igualitária. Sendo assim, ele
tornava todas as distinções de ordem sexual, social, política e religiosa
completamente irrelevantes e anacrônicas. Em outras palavras ele coloca o reino
contra o Mediterrâneo. Ou contra muito mais que o Mediterrâneo.

Antes, durante e depois de Jesus, os camponeses da Palestina estavam num estado
de distúrbio político. O ideal de reino em Jesus representa um modo de vida
para o presente imediato, o que permite ver o reino não como um sonho pessoal,
mas como um plano coletivo. Assim magia está pra a religião assim como o
banditismo esta para a política. Enquanto o banditismo contesta a legitimidade
do poder político, a magia contesta a do poder espiritual. A religião é a magia
oficial e aprovada; a magia é uma religião extra-oficial e censurada. O mesmo
ato que serve como sinal de divindade para alguns pode servir como prova da
influencia maligna dos demônios para outros. No que diz respeito aos
critérios,o mais importante não são as ações, mas sim a maneira como elas são
avaliadas. O mesmo homem podia ser chamado de [divino], ou filho de deus, pelos
seus admiradores ou de mago pelos seus inimigos.

Jesus estava iniciando uma missão rural ao invés de uma missão urbana. Podemos
considera-la como um exemplo de cinismo judeu e rural. O movimento evitava
deliberadamente a auto-suficiência, buscando um tipo especial de comensalidade
junto àqueles que procurava curar. Os missionários não carregam alforge porque
não pedem esmolas, comida, roupas, nem qualquer outra coisa. Eles compartilham
um milagre e um reino, recebem em troca uma mesa e uma casa, o que na opinião
do autor e a essência do movimento original de Jesus; um igualitarismo em que
se compartilha de bens espirituais e materiais. A comensalidade, na verdade,
era uma estratégia para reconstruir a comunidade camponesa sobre princípios
radicalmente diferentes daqueles ditados pelo sistema de honra e vergonha,
apadrinhamento e clientelismo. Um igualitarismo religioso e econômico que
negava a estrutura hierárquica e patronal da religião judaica e do poder
romano.

O Jesus histórico possuía ao mesmo tempo uma visão ideal e um programa social.

Para concluir, a busca do Jesus histórico é reconstituição, não tem a pretensão
de ser a verdade, mas de contribuir para a elaboração de nossa visão histórica
sobre Jesus, lembrando que toda história é sempre reconstituição o que não
invalida o projeto de conhecermos um pouco mais sobre a vida de um camponês
judeu no Mediterrâneo.

Parte XX
LEVANDO A
SÉRIO A MENSAGEM DE CRISTO
“Não
fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, e vos designei para
que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (Jo 15.16)

O texto acima indica que temos uma grave responsabilidade que é levar a sério a
mensagem de Jesus Cristo, nosso Salvador, e levá-la a todo aquele necessitado
da salvação eterna: levá-la a todo o nosso país. Naturalmente, quando pensamos
em levar Cristo a todo o Brasil, temos que refletir sobre o relevante fato de
está em nosso coração, lábios e atitudes a mensagem de que nosso povo precisa.

A MENSAGEM DE QUE O BRASIL PRECISA

Que mensagem é essa que precisamos passar para todo o país? Em 1Coríntios 1.23
está dito: “Nós pregamos a Cristo crucificado”. À luz dessa afirmação,
qual, portanto, a nossa mensagem? O Cristo crucificado.

Na verdade, não temos outra pregação, a não ser a de Jesus Cristo que é a Luz
do mundo! Cristo que é a Paz do mundo! O Senhor Jesus que é a Vida para este
mundo! A nossa proclamação, portanto, é a Sua vida, Seu ministério, Sua cruz,
morte e ressurreição.

O mundo vive perigosamente tateando no escuro. É só observarmos os jornais de
apenas um dia, e teremos a prova do que foi afirmado: conflitos no Oriente,
guerrilhas na América do Sul, situação problemática dentro de nosso próprio
país com verdadeiras batalhas civis. Enfim, o mundo vive numa afanosa busca de
esperança. A nós cabe dizer que a paz e a salvação são possíveis, assim como a
libertação dos pecados e dos temores em relação ao incerto futuro. Aos crentes
compete proclamar que Jesus Cristo salva de uma vez para sempre aquele que O
recebe com fé completa. O hino 447 do hinário Cantor Cristão diz com extrema
clareza e simplicidade, 1. “Não te importa se algum dos amigos morrer
sem ter conhecimento de Cristo? Deixas que no juízo ele venha a dizer: “A
mim nunca falaram de Cristo”?

2. Não te importa que as almas preciosas a Deus, Oh! não sejam levadas a
Cristo?! Pois dirão quando vier outra vez: “A nós nunca falaram de
Cristo!”

Que isso não aconteça conosco! Que não sejamos acusados naquele dia de nunca
termos anunciado a mensagem libertadora de Jesus Cristo: que Jesus salva de uma
vez e para sempre, e de um modo integral e sem reservas. O apóstolo Paulo até
colocou na Carta aos Colossenses: “A eles Deus quis fazer conhecer quais
são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós,
esperança da glória. A ele anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando a
todo homem em toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em
Cristo” (1.27,28).

No nascimento de Jesus, a boa notícia foi dada nestes termos: “Não temais.
Eu vos trago novas de grande alegria, que o será para todo o povo. Na cidade de
Davi vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2.10,11).
Quando lemos sobre o Seu ministério, também essa poderosa mensagem tem uma
descrição. Ao perguntar Jesus aos apóstolos a opinião dos homens sobre Ele,
Pedro O descreveu do modo seguinte: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus
Vivo” (Mt 16.16). Pedro, na verdade, expressou: “Aquele por Quem
nosso coração ansiava; Aquele Cuja promessa vem desde o tempo dos profetas; Tu
és Ele: o Messias, o Cristo, o Filho do Deus Vivo!” (cf. 1Jo 4.14).

Encontramos acerca da Sua morte uma descrição:

“Vemos, porém, aquele que foi feito um pouco menor do que os anjos, Jesus,
coroado de glória e de honra, por causa da paixão da morte, para que pela graça
de Deus, provasse a morte por todos. … Temo-nos tornado participantes de
Cristo, se é que guardamos firme até o fim a confiança que desde o princípio
tivemos. Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos
corações, como na provocação” (Hb 2.9,14,15).

É dessa mensagem que nosso povo necessita! A mensagem de que não há necessidade
de ter medo! Medo da morte? Nós rimos da morte porque sabemos que nossa
esperança é Cristo; sabemos que nossa paz é Cristo, e que nosso futuro reside
no Salvador!

Essa é a mensagem que temos de anunciar, a da soberania de Deus. O Brasil não
conhece a sabedoria de Deus. Pensa que conhece a sabedoria dos deuses pagãos.
Há algum tempo, o Caderno Idéias do Jornal do Brasil trouxe uma entrevista
intitulada “A Bahia não tem sincretismos”. Foi concedida por Pierre
Verger, antropólogo francês hoje falecido, e que vivia nesta cidade do Salvador.

Ele, professor universitário, com grau de doutor, era adepto do candomblé. Na
entrevista, faz uma análise das perguntas que lhe foram colocadas, e no meio
deuma das respostas destaca o seguinte: “Na Bahia não existe sincretismo,
não; porque o que é de terreiro é de terreiro, e o que é de catolicismo é de
catolicismo”. Na realidade, todos sabemos que sincretismo é a alma da
terra baiana. Com todas as letras.

O Brasil precisa conhecer o Deus que é Soberano, Senhor, e exerce a Sua vontade
sobre a terra e o povo do Brasil! Mensagem de restauração e de integridade!
Aliás, nunca se viu tanta coisa fora de lugar em nossa terra: homens que têm
vergonha de terem nascido homens; mulheres que perderam a sua característica
mais bela, que é a feminilidade. Um programa de entrevistas da TV tinha como
tema numa das tardes: “Meu filho é gay” Entre outras pessoas,
apresentou um cidadão que trouxe seu filho, e uma senhora que também veio com o
seu. Uma das mães dizia: “Desde que ele estava na pré-escola, já tinha essa
tendência”, e sorria. Mais adiante, a apresentadora disse, “No
próximo bloco, vou apresentar uma senhora que tem dois filhos gays”. E
apresentou um rapaz e uma moça, ambos homossexuais. Desembaraçada a jovem,
contando toda a sua história sem nenhum pejo ou vergonha na face.

Precisamos disponibilizar essa mensagem de restauração à nossa gente;
intensificar não só a oração, assim como a pregação para que seja o nosso país
fermentado pelas boas novas de Cristo.

LEVANDO A SÉRIO A ORDEM DE JESUS CRISTO

Pois é; a ordem é ir e anunciar Cristo, e é constante na Escritura Sagrada. No
Evangelho de Marcos, a palavra de Jesus é “Ide por todo o mundo, e pregai
o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não
crer será condenado” (16.15,16).

Temos uma ordem: Ir, pregar e batizar o que crer. Em Lucas está assim disposto:
“Eis o que está escrito: o Cristo padecerá, e ao terceiro dia ressurgirá
dentre os mortos, e em seu nome se pregará o arrependimento e a remissão dos
pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (24.46,47). A ordem
é pregar o arrependimento para remissão dos pecados. Poderíamos dizer,
“Começando por Brasília, e estendendo por todo o Brasil”; iniciando
na Capital Federal, estender esse abençoado anúncio às outras áreas do país e
do mundo.

Há outros comandos a esse respeito (cf. Rm 10.13-15; 2Tm 4.2a). É enorme o
envolvimento missionário, uma verdadeira cadeia de responsabilidades: o
mensageiro é o próprio Deus Pai através de Jesus, Seu Filho, o Qual, ao mesmo
tempo, é mensageiro e mensagem.

O mensageiro é Jesus Cristo, que, através do Espírito Santo, fortalece,
impulsiona, motiva e dirige a Igreja que é Seu Corpo nessa grande tarefa de
transmissão da mensagem celestial e eterna (2Co 5.18-20).

A Bíblia diz que o mensageiro é o Espírito Santo, de Quem o próprio Senhor
Jesus Cristo disse: “Quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos
enviarei, o Espírito da verdade, que procede do Pai, ele testificará de
mim” (Jo 15.26).

Mas o mensageiro é a Igreja, que, através dos seus membros individuais,
através, de mim, da irmã e do irmão também, testifica e fala de Jesus Cristo, e
coopera com os céus na expansão do reino de Deus na terra (cf. Jo 15.27a).
Assim, a Igreja recebe dos céus e repassa à terra. É nossa tarefa levar com
seriedade Jesus Cristo a todo o Brasil. Ele olha para os crentes, e declara:
“Eu vos escolhi a vós, e vos designei para que vades, e deis frutos, e o
vosso permaneça” (Jo 15.16). Essa é a palavra do Senhor, Que espera que
cada um leve a sério a sua missão como crente em Jesus Cristo, membro do Seu
Corpo, parte da Sua Igreja.

Estamos falando de participação no plano de Deus, de fidelidade a um mandato do
Senhor, de atuação integral à obra de expansão do Seu evangelho! Isso significa
que esta missão deve acontecer enquanto temos ocasião para isso.

ENQUANTO HÁ OPORTUNIDADE

Dia vai chegar quando essa oportunidade não mais vai existir. No já citado hino
447 C.C., encontramos outra incisiva estrofe:

4. Não te cales jamais; pede a Deus graça, irmão, Para dar testemunho de
Cristo; Pra ninguém no juízo exclamar com razão: “A mim nunca falaram de
Cristo!”

Essa é a nossa oportunidade: levar a Cristo. Não podemos ficar omissos enquanto
houver ocasião de anunciar a Cristo. A revista missionária A Pátria para Cristo
(publicada pela Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira)
trouxe muitos testemunhos relevantes. Um deles foi “Evangelho transforma a
vida em presídio de segurança máxima em Salvador”. Fala do extraordinário
trabalho do S.O.S. Presídio na Penitenciária Lemos de Brito. Qual a maior
necessidade de uma pessoa encarcerada, senão a de converter-se e transformar
suas obras de trevas em obras de luz?

“A Igreja entre grades” é outro artigo que menciona igrejas em
Salvador que têm dado apoio às Congregações que funcionam dentro dos presídios.
Há quem não creia na conversão de quem está lá dentro. Um jornal da cidade de
São Paulo publicou uma reportagem a respeito da influência da pregação
evangélica. E com certa ironia, até, colocava o fato de que alguns marginais do
passado hoje se declaram convertidos a Jesus Cristo, e que estas pessoas já
estão ganhando outras vidas para Jesus. Ora, se é mentira ou não, se fazem para
ganhar as boas graças da Direção do presídio ou do povo evangélico, Deus sabe o
que se passa no coração deles. O Senhor dará no devido tempo a recompensa. Mas
o fato é que há um trabalho a ser feito, vidas que devem ser resgatadas, e
essas oportunidades surgem. Por isso, devemos anunciar a Jesus Cristo enquanto
temos ocasião. Que o Senhor nos ajude, oriente e abençoe!

Parte XXI
O CRISTO
CRUCIFICADO

Texto básico: 1Coríntios 1.18-24
 Muitos
querem um evangelho sem cruz; muitos dizem, mesmo, que seria ótimo se o
evangelho não tivesse dificuldades, se não exigisse tantos compromissos e
sacrifícios. Muitos preferem um evangelho de facilidades, um evangelho sem
conflitos. Vemos, no entanto, que mesmo Jesus viveu conflitos. Ele os viveu com
os religiosos do Seu tempo (cf Mt 16.2; 23.13ss), e com os políticos da Sua
época, já que falou da natureza apolítica da Sua missão (cf. Jo 6.15; 18.36).
Jesus viveu conflitos interiores: é somente nos lembrarmos da experiência da
tentação no deserto. E nunca o deserto foi tão deserto como quando Jesus estava
só, sozinho, frente a frente com o Tentador.

Jesus foi tentado a ceder ao material em detrimento da fortaleza espiritual (Mt
4.3). E não foi essa a tentação do prazer? O apelo ao apetite? A própria
“concupiscência da carne”? Ora, o ser humano quer alimento, nós
queremos e precisamos de alimento, queremos e precisamos de sono, e de amor, e
tudo isso é muito natural, absolutamente normal e saudável. Se a necessidade
não for satisfeita, o nosso corpo vai sofrer: a fraqueza bate, a doença vem, a
debilidade orgânica chega, e, finalmente, a morte. Comer não é pecado. E ali
está Jesus só, muito só no deserto. Quarenta dias, quarenta noites, longos
dias, frias noites, Jesus está com muita fome, e Satanás aparece nessa hora, e
insinua que Ele precisa comer.

O pecado não era comer, mas, sim, colocar a vontade pessoal acima da vontade de
Deus. Estamos falando de pão, e dar pão ao povo tem sido proposta de uma ala da
religião que inverte as prioridades. Jesus Cristo não é indiferente ao apelo
das massas. Se abrirmos em Marcos 8, veremos a demonstração plena do que Jesus
Cristo fez, a segunda multiplicação dos pães e peixes (cf. vv.1-3). Jesus não é
indiferente às necessidades materiais e condições sociais, mas não é um mero
reformador político, como queria a quase falecida teologia de uma ala radical.
Não! Jesus não foi um filantropo, apesar de ter realizado tantas obras
extraordinárias para o benefício do ser humano. Houve até uma ocasião quando
Jesus Cristo reclamou: “Em verdade vos digo que me buscais, não porque
vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes” (Jo 6.26).
Pregar esse Cristo é pregar um Cristo completamente desfigurado. Não é o Cristo
do Novo Testamento.

Jesus foi tentado a ser libertador do povo judeu, e não o Redentor do mundo.
Temos o fascínio do espetacular; é a tentação segunda, o “evangelho do
espetaculoso”. E Jesus se recusa a esse tipo de evangelho. Mas já que os
judeus estão pedindo um sinal, não seria um extraordinário sinal se Jesus se
lançasse do alto do Templo, 50m abaixo, para que os anjos de Deus O segurassem
na queda? Não teria sido maravilhoso para o evangelho essa possibilidade de num
instante se espalhar? Toda a Jerusalém não ficaria sabendo disso, e todos não
aceitariam a Jesus?  Por que Jesus não o
fez? Há quem se pergunte. Seria um sinal do agrado dos curiosos; seria do
agrado dos fanáticos por emoção; seria, sem dúvida, um sinal para os crédulos,
para os sensacionalistas! E seria a própria “concupiscência dos
olhos” que João menciona na sua Primeira Carta (cf. 2.16b). E se Jesus o
realizasse, não precisaria passar pela estrada do sofrimento, andar na estrada
do Calvário, porque todo mundo ficaria sabendo, em um dia, o que Jesus havia
feito. Mas, outra vez seria o evangelho do Cristo desfigurado. Por essa razão,
quando desejaram que Ele fizesse algum sinal, Ele responde que não fará sinal
algum (Mt 12.39; Lc 11.16,29).

Jesus foi tentado também a construir um reino terreno, não o reino de Deus. É a
terceira tentação: a de negociar, a de ter o evangelho do sucesso, a
“soberba da vida”.
“Concupiscência da carne”, transformar pedras em pães;
“concupiscência dos olhos”, jogar-se de cima abaixo; e a
“soberba da vida”, construir um reino terreno. Evangelho das posses,
e para isso,diz o Tentador, basta que Jesus Se ajoelhe aos seus pés. Bastava um
instante, ninguém ia ver… Ali, só Satanás e Jesus… Mais ninguém
presenciaria, e Jesus Se ajoelharia por um breve momento, e os sonhos que Jesus
tinha se tornariam verdade.

Pois é; Satanás ofereceu a Jesus Cristo uma vitória sem cruz, uma conquista sem
morte, uma coroa sem Calvário, porque o Tentador tudo fará para que a pregação
do Cristo crucificado não aconteça!

E não há quem ande pregando que aceitando alguém o evangelho, tudo se torna
fácil? O dinheiro vem fácil, a fama vem fácil, as coisas acontecem com facilidade.
É a idolatria do sucesso, o realce nos valores materiais da vida. E isso tem
nome: secularismo. “Todos virão servi-lo”, disse Satanás. “Todos
estarão às suas ordens”, diz o evangelho do Cristo desfigurado. E é nessa
hora que Jesus Cristo responde: “Qual é maior, quem está à mesa, ou quem
serve? porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, estou entrevós como quem
serve” (Lc 22.27).

Não há atalhos para a vida espiritual e sua vitória. Jesus não veio fazer
concessões ao Inimigo-de-nossas-almas, e por isso, tem autoridade sobre Satanás
quem decide permanecer com Jesus na cruz.

A PREGAÇÃO DO CRISTO CRUCIFICADO

Originalmente, a cruz não era coisa boa de se ver, não. Era algo extremamente
desagradável ver um crucificado; era vergonhoso, e do qual não se falava (cf.
Gl 3.13; Dt 21.33). Ninguém mencionava ter tido um parente crucificado. É como
hoje que ninguém se alegraria em dizer que teve um parente que foi ladrão de
cavalos.

Cícero até disse: “(a cruz) é o mais cruel e chocante dos castigos”.
Era difícil acreditar que o Messias tão aguardado deveria morrer. E mais
escandaloso, ainda, morrer de modo tão hediondo, terrível, na cruz (cf. Gl
5.11; 1Co 1.23).
No entanto, o que Jesus tocava, transfigurava. Tocava no doente, ficava são! A
palavra de Jesus transformava corpos deformados, desfigurados pela hanseníase
em pessoas limpas, puras, dignas de entrar Templo. Porque o leproso, o
hemorrágico, a mulher nos seus dias, nem pensar em entrar no Templo, mas Jesus
transformava todos eles, e dava acesso livre. Por ocasião da Ceia Memorial, no
pão, vemos o corpo de Cristo; no cálice, o sangue. Não que o seja, mas vemos a
representação desse sangue purificador, pois na cruz vergonhosa, vemos a Sua
glória (cf. Gl 6.14; 1Pe 4.11).

Se estamos falando em termos de glória, por que um Cristo crucificado? Alguém
vai dizer, “Não sei, não, Pastor; por que um Cristo crucificado?”
Outra pessoa vai dizer, “Foi um acontecimento isolado na história, que
hoje não tem muito significado; ele poderia ter morrido na cama ou na cadeira-de-balanço”.
Não há quem ensine que Jesus morreu na Índia, ou no Tibete? Alguém mais dirá
que foi o modo que Deus usou para derrotar o mal no mundo. Outro vai dizer que
foi conseqüência do amor de Deus Jesus ter morrido na cruz”.

Porém, pregar a Cristo não é pregar acerca de Jesus Cristo. Não é filosofar
acerca de Jesus; nem teologizar acerca de Jesus, conquanto seja bom fazer
teologia. Não é saber tudo sobre Sua vida, Seu nascimento, Seu ministério,
sobre Sua paixão, porque mesmo assim, conhecendo toda a biografia e as idéias
de Jesus, não se conhece a Jesus Cristo. Não é pregar doutrinas, credos ou
dogmas, em vez de crer na Pessoa de Jesus Cristo. Não é seguir os cultos,
rituais e celebrações da Igreja Cristã, porque nada, nem ninguém pode substituir
o Cristo vivo que está no seu e no meu coração!

Não há pregação do evangelho sem a palavra da cruz. Na verdade, é proclamar a
cruz que faz a pregação ser evangélica. A Bíblia diz que a palavra de Deus é a
palavra da cruz (2Co 2.17). E é o que Paulo fazia quando diz, “Porque nada
me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co
2.2). Esse é o Cristo que interessa a Paulo: o que foi ao Calvário, que do
Calvário foi para o túmulo, e que do túmulo saiu vitorioso, e essa pregação do Cristo
crucificado é escândalo, pedra de tropeço como que no meio do caminho que tem
que ser dinamitada! É pedra de escândalo para judeus, e loucura para os outros.
Mas eram as boas novas, o evangelho, o instrumento do poder de Deus para
aqueles que crêem, Paulo o diz.

“ESCÃNDALO” E “LOUCURA” (1Co 1.23)

Um homem crucificado é um terrível constrangimento. Nunca vi um homem
crucificado, a não ser num jornal da TV que apresentava nas Filipinas, onde há
uma tradição de homens se deixarem crucificar, na Semana da Paixão, como
penitência, mas depois de um tempinho, a pessoa é retirada, põe um curativo, e
pronto. É como quem
machuca a mão, enfaixa-a, e, depois de quinze dias, está curado.

Ninguém queria olhar duas vezes um homem crucificado, ou enforcado numa árvore.
Vi a foto de um homem enforcado por vingança. Sabem como o crucificado estaria?
Vemos belíssimas obras de arte nos crucifixos onde há um corpo muito bem
talhado imaginando representar Jesus Cristo. Sabem como é a descrição de um
homem morto na cruz, depois de ter passado, como Jesus passou, quase todo o dia
exposto às moscas, ao tempo, ao vento, à poeira, o sangue sendo derramado? Ele
estaria cheio de equimoses, de marcas, de hematomas; a língua estaria inchada,
e o crucificado morreria por asfixia por não poder abrir os pulmões. O sangue,
o suor, as moscas, eram coisas que os judeus não podiam admitir, razão porque
seria um escândalo para eles dizer que o Messias esperado estava na cruz!

Ora, se o Messias deveria ser um guerreiro, vitorioso, como os Macabeus, para
expulsar os romanos da terra de Israel, como estaria ele na cruz? Escândalo!
Tremendo escândalo! Completa impossibilidade! Queriam um Messias político, e
aguardavam os sinais desse Messias. A propósito, a palavra traduzida como
“pedem” é a palavra “exigem”. Eles “exigem”
sinais, “tem que mostrar a comprovação com firma reconhecida no cartório
com duas testemunhas!” Era isso o que queriam, e assim se recusavam a crer
em Jesus.

E para os gregos? Para eles, a coisa mais ridícula que se poderia imaginar, era
dizer que o Cristo estava na cruz. Se um homem não poderia se salvar, como
poderia salvar os outros? Era uma insensatez, uma loucura, diziam eles. Talvez
aceitassem Sócrates glorificado, ou um Platão, um Aristóteles em glória. Esses,
sim, seriam os melhores Messias possíveis: eram filósofos, pensadores, homens
de qualidades, pensariam os gregos. Não vamos esquecer que eram eles reputados
como a inteligência daquela época; eram orgulhosos não de suas construções como
os egípcios, mas de suas realizações no campo da filosofia, de sua
intelectualidade. E riram da pregação de um Salvador crucificado e ressurreto,
porque a idéia que tinham da crucificação do Filho de Deus pudesse trazer
salvação eterna, era coisa que um grego orgulhoso não podia aceitar.

Paulo chegou à orgulhosa cidade de Atenas anunciando Cristo e a ressurreição.
“Ressurreição” na língua grega é de onde vem o nome próprio
Anastácia. Talvez, naquele dia em Atenas, estivessem pensando que Jesus viria
com a esposa chamada Anastácia, porque, diz a Bíblia, quando ouviram Paulo
falar em Jesus e na ressurreição (anástasis), riram. Loucura completa para os
gregos! E aí Paulo pergunta, “Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o
questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste
mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo pela sua sabedoria não conheceu
a Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação aos que crêem” (1Co
1.20,21).

Porque o evangelho não é uma mensagem a respeito do poder de Deus: é o poder de
Deus; a cruz não é escândalo: é poder, é energia, e assim está na história e na
fé cristãs ao longo dos tempos.

Pregar a Cristo crucificado é estar envolvido com Ele. Paulo não o diz?
“Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor” (2Co 4.5).
A igreja que se centraliza no Cristo crucificado só pode ser uma igreja
missionária. Levar a cruz a sério significa levar o mundo também a sério, e,
igualmente, o nosso próximo por quem Jesus morreu. E deste modo, o Cristo
crucificado, objeto e centro da nossa pregação vai trazer uma nova orientação,
e novas motivações, e novas disposições, e novas atitudes, e novos horizontes,
e novos alvos para nossa vida. Pregando a Cristo crucificado, anunciamos a
reconciliação de todas as coisas com Deus porque em Cristo tudo é resolvido
pelo Pai (cf. Cl 1.20).

Proclamamos, então, a solução para o problema do pecado, a libertação (Rm
6.10,11,14; Gl 3.13a; Cl 2.14), a redenção ((Ef 1.7; Cl 1.12-14; 1Tm 2.5,6), a
reconciliação (Rm 5.10,11; 2Co 5.18-20). E Paulo, o apóstolo, nos adverte com o
texto de Gálatas 1.6-9, que precisa ser lido e relido muitas vezes, nesta época
quando se anunciam evangelhos tantos que não correspondem ao do Cristo na cruz!

Parte XXII
O MANIFESTO
DE NAZARÉ
 “Chegando
[Jesus] a Nazaré, onde fora criado, entrou, no dia de sábado, na sinagoga,
segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do
profeta Isaías; e abrindo-o, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do
Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres;
enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos
cegos, para por em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do
Senhor. E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de
todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se
cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos” (Lc 4.16-21).

A cima está transcrito o que é denominado por alguns de A Plataforma ou O
Manifesto de Nazaré. Em pouquíssimas palavras, está registrado o que Jesus
realizaria em Seu ministério. Não é verdade que, em época de eleições, ouvimos
as plataformas dos candidatos a posições políticas, e que alguns dos projetos
são tão mirabolantes quanto inacreditáveis?

Não é o caso de Jesus, o qual, ao apresentar a Sua plataforma, estabeleceu as
ações do reino de Deus no mundo. Aliás, no Evangelho de Marcos 1.7, 8,
encontramos João Batista, dizendo, “Após mim vem aquele que é mais forte
do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas
sandálias. Eu, na verdade, vos batizei em água, mas ele vos batizará no
Espírito Santo”. No verso 15 deste mesmo capítulo, diz o Mestre: “O
tempo está cumprido, e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos, e crede no
evangelho”. O reino de Deus aí está, foi inaugurado quando Jesus Cristo
anunciou Sua plataforma na cidade de Nazaré, mais precisamente nesta leitura do
profeta Isaías feita na sinagoga num dia de shabbat.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar
boas novas aos pobres…”

Nos domínios do evangelho, tudo começa com a unção. Tudo. Não fora a unção, e
não estaríamos realizando qualquer obra para o reino de Deus.

A história da unção na Bíblia Sagrada é antiga. Nos relatos históricos de
Israel, encontramos que eram ungidos sacerdotes, reis e profetas. A primeira
pessoa a ser ungida em Israel foi um sacerdote, Aarão. Em Levítico 8,
encontra-se a narrativa da cerimônia de sua unção como Sumo-sacerdote (Cohen
haGadol) e de seus filhos como sacerdotes (cohanim). É um ritual muito
simbólico, por isso tocante, bonito e cheio de ricas lições.

A unção acontecia quando o óleo (artesanalmente preparado com azeite de oliva
misturado com especiarias, madeiras perfumadas, essências, de modo, portanto,
especial e exclusivo para utilização no Templo) era derramado sobre a cabeça do
que seria ungido. Deste modo, era utilizado na consagração dos sacerdotes, dos
profetas e dos reis. O Salmo 133 registra que a comunhão dos fiéis “é como
o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba… de Arão, e que desce
à orla das suas vestes” (v. 2).

Esse simbolismo do Antigo Israel vai encontrar uma forma mais efetiva na Nova
Aliança: já não é com óleo, concreto, portanto. Aliás, o que ocorre na Antiga
Aliança sempre aponta para o que acontecerá no Novo Pacto. Cada festividade de
Israel é uma sombra do que está previsto na Nova Aliança. O óleo é símbolo do
Espírito Santo um dia derramado sobre a nascente Igreja, o Espírito que unge a
Igreja, o Espírito que num dia de Pentecostes foi derramado sobre a Igreja (At
2.1ss).

Merece uma palavrinha o significado de “pobre” na Bíblia. O sentido
mais amplo é o desvalido, o desprovido de recursos. A Teologia da Libertação
explorou bastante este tema, e até utilizou a palavra hebraica, anawim, para
designar aqueles que não têm absolutamente coisa alguma. Um modo pejorativo de
designar o pobre no antigo Israel era chamá-lo de “gente da terra”(am
haaretz), gente comparável a pó: sem a nobreza do diamante nem de metais ou pedras
preciosas, apenas pó. Essa é uma primeira idéia.

No entanto, o conceito se amplia, e no dizer de Jesus, o pobre, o “humilde
de espírito”, não é aquele pobre coitado que não tem muitas luzes. É o que
reconhece a sua indigência espiritual e sente que precisa de Deus, dos tesouros
de Deus, e quer a Sua bênção, e deseja se alimentar com esse banquete da parte
de Deus. Isso significa que “o Espírito me ungiu [diz o Senhor] para
evangelizar aquele que se sente necessitado da graça, da misericórdia, da
presença, da manifestação graciosa e amorosa de Deus”.

“… enviou-me para proclamar libertação aos cativos…”

Ele foi enviado com a finalidade de proclamar liberdade aos cativos. Realmente,
depois da unção, tudo prossegue com o envio. Isso ocorre na vida da igreja, mas
também na vida individual, na sua vida. No dia em que você, meu irmão, minha
irmã, recebeu a Cristo como seu Salvador, você foi ungido. O Espírito foi
derramado sobre você, razão porque em João está dito com clareza que precisamos
“nascer da água e do Espírito” (cf. 3.5). A Primeira Carta de João
nos assegura que a unção que dEle temos nos ensina todas as coisas, e é
verdadeira (2.27). E agora temos que ir, prosseguir. E nesse pro-seguimento
temos que proclamar a libertação aos aprisionados pelo Maligno. Observe que
“cativos” está em paralelo a “pobres”. “Pobre” é
o indigente espiritual, “cativo” é o que não tem como se libertar das
algemas espirituais.

Enviar na língua dos Evangelhos é apostoleo, é o verbo “apostolar”.
Isso significa que você é um apóstolo. Quem não tem o que fazer, inventa
novidade: há pessoas que vão inchando em megalomania, não entendo bem como nem
porque, em lugar de ficarem mais humildes. Na realidade, devemos perguntar ao
Senhor o que foi Ele viu em nós para nos chamar para essa santa tarefa. A
autocrítica nos leva a sentir que tudo vai depender da graça de Deus, da Sua
misericórdia da qual tanto e continuamente dependemos.

Talvez a resposta esteja na falta de compreensão do sentido das palavras para
os primeiros ouvintes ou primeiros leitores (o que se chama exegese), ou o
sentido das palavras hoje (a hermenêutica). Por não compreenderem estas duas
ciências de apoio à pesquisa bíblica, há quem distinga bispo de pastor. Ensina
a Palavra de Deus que é a mesma pessoa, mas há quem julgue que bispo é
hierarquicamente superior a pastor. Uma jovem veio ao meu gabinete. Na
conversa, perguntei-lhe de que igreja era membro. Respondeu que era da Igreja
X.

– “Ah! A do pastor Fulano?”
– “Pastor, não: bispo…”
– “Ah, sim, é verdade! Também sou bispo.”
– “O senhor é bispo? Não sabia…”
– “Sim; nunca lhe ensinaram que todo pastor de igreja é bispo?”
– “Não…”
– “Pois olhe aqui…”

E abri em Atos 20.17 em diante, texto claríssimo sobre o assunto, e que
registra as três palavras (presbítero, bispo e pastor) colocadas juntas. Relata
o texto que Paulo chegou a Mileto e mandou chamar os presbíteros da igreja de
Éfeso (v. 17). Ao chegarem, faz uma exortação aos ministros presentes e diz,
“Olhai por vós, e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos
constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o
seu próprio sangue” (v. 28). Já dá para perceber que presbítero e bispo
são funções da mesma pessoa. E mais: bispo e pastor, assim como o mencionado
presbítero, são funções diferentes do mesmo vocacionado: os presbíteros foram
chamados e Paulo os chama de bispos e pastores.

· Ministro de Deus é pastor (guia) quando está doutrinando, exortando,
ensinando.
· É bispo (administrador) quando dirige a assembléia da igreja, ou quando
assina um contrato em nome da igreja, visto que é uma função administrativa
(bispo < episkopos = super + visor, supervisor, superintendente). · É
presbítero (idoso) quando é procurado para aconselhamento. Nesse momento, é o
“ancião”, significado correto da palavra presbítero. A Igreja é que é
apostólica, pois ela é quem é enviada. A Igreja é a irmã e o irmão, nós somos
os enviados, razão porque o irmão é tão apóstolo quanto os que enchem o peito e
se proclamam “Sou o Apóstolo Fulano de Tal”.
Sim; somos enviados para proclamar libertação. Está em Efésios 4.8 que,
“Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens”.
Jesus o fez: levou a escravidão algemada para a cruz do Calvário.

“… restauração da vista aos cegos…”
É um sinal do reino de Deus. Jesus chegou realizando sinais e milagres (Mt 4.23
24), evidências, provas de que o reino chegou.

A cegueira está também em paralelo com a pobreza e o cativeiro. Está como um
fato espiritual.

Em Apocalipse, capítulo 3.17, dizia a igreja de Laodicéia, “Rico sou, e
estou enriquecido, e de nada tenho falta”. Mas o Senhor na carta àquela
comunidade alerta, “Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre,
e cego, e nu”. É a palavra de Jesus a uma igreja que tinha cegueira
espiritual, e ainda estava cativa de tantos defeitos e mazelas.

“…para por em liberdade os oprimidos…”

Os israelitas da época de Jesus sabiam o que era ser oprimido porque sempre
haviam vivido em opressão. No Egito, apesar de viverem na região mais rica
daquele pais (Góshen), estavam opressos. Mais adiante, foram oprimidos pelos
povos cananeus, pelos assírios, pelos babilônios, pelos gregos, e na época do
ministério terreno de Jesus, estavam opressos pelos romanos. Sim; eles sabiam o
que era opressão.

Ocorre que a Plataforma de Nazaré fala da opressão trazida pela malignidade. Em
Atos 10.37, 38 está registrado, “Esta palavra, vós bem sabeis, foi
proclamada por toda a Judéia, começando pela Galiléia, depois do batismo que
João pregou; como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com
poder; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo,
porque Deus era com ele”.

Ele mesmo, Jesus, foi oprimido. Em Isaías 53.4 há uma palavra sobre a opressão
pela qual Jesus passou, “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas
enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; contudo, nós o consideramos
como aflito, ferido de Deus, e oprimido”.

“…para proclamar o ano aceitável do Senhor”

É uma referência à era messiânica. No momento em que Jesus se revelou como o
Messias, realizou ações como o Messias, instaurou o reino de Deus, o ano de
aceitação foi iniciado. Isaías 61 foi o trecho que Jesus leu na sinagoga de
Nazaré. É nele que se encontra todo o programa de trabalho do ministério
messiânico de Jesus, Que veio proclamar o ano aceitável do Senhor.

Plano de trabalho mais abrangente não é possível; plataforma mais abençoada não
se encontra. É a de Jesus, o Cristo de Deus, proclamada há dois mil anos e
desde então tem abençoado todos os que do Salvador se aproximam.

Parte XXIV
O VERBO
Texto básico: João 1.1-3,14
Nos estudos
formais de Lingüistica, Gramática e Estilística, aprendemos que a palavra é um
“signo arbitrário e convencional”. Aprendemos que a palavra transmite
noção e imagem, imagem que nem sempre é bem determinada. Um exemplo é
“manga”. Se a pergunta for feita a qualquer pessoa, possivelmente
três ou quatro significados serão dados. Pode ser “manga de paletó,
casado, camisa ou blusa”, ou a saborosa “fruta anacardiácea” que
vem da Ilha de Itaparica. Os mais ligados à vida campestre, vida de fazenda,
dirão que é a “passagem cercada onde se guarda o gado”. Além desses
três sentidos, há, pelo menos, mais onze, como “tromba-d’água”, ou
“peça tubular de vidro que protege a chama no candeeiro”, ou, ainda flexão
do mangar “mangar” (= “zombar”).

Porque um signo e uma imagem, achamos graça quando descobrimos que em outra
língua certa palavra semelhante a outra velha conhecida nossa quer dizer outra
coisa:
¨ Push, em inglês é “empurrar, e não “puxar”como parece à
primeira vista;
¨ Late (pronunciado leit’) não é o rico alimento líquido e opaco dos filhotes
dos mamíferos;
¨ “Estar embarazada” não é, em espanhol, estar a jovem numa situação
de vexame ou vergonha, mas “estar grávida”;
¨ “Comida esquisita”, também na língua de Cervantes, é uma refeição
“saborosa”.

Um verbo:

¨ Indica uma ação, uma condição ou um processo (“correr”,
“sentir” e “amanhecer”, respectivamente) respectivamente);
¨ Pode ser uma palavra (‘fazer”) ou uma frase (“deve ser
feito”),

Mas ser uma pessoa? Esse é o nosso tema.

“NO PRINCÍPIO ERA O VERBO…” (V.1)

O chamado “Prólogo do Evangelho de João” representa um resumo poético
de toda a teologia e de toda a narração evangélica. Mostra um grande ciclo, ou
seja, o Filho de Deus, Jesus Cristo, desce do céu até o nível do ser humano, e
sobe de volta ao céu levando o homem consigo até o nível divino. E, assim, com
a vinda de Cristo, inaugura-se a longamente esperada nova criação tanto do
universo (Rm 8.19-21) quanto da humanidade (2Co 5.17). Diz o texto escolhido
que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus. Ele estava no princípio com Deus. Estes versículos, que relembram o
início do Livro do Gênesis, mostram que a Palavra (o Verbo), no momento da
criação, já existia, por não ser criada: era Deus.

Como a Igreja Primitiva soube colocar tão bem esse artigo de fé em forma de
hino! Aqui temos um antigo hino dos nossos irmãos da Igreja Apostólica (como
também Fp 2.6-11; Cl 1.15-20 e 1Tm 3.16). Pois, como em Israel antigo os atos
salvadores de Deus eram cantados, e exemplos são os Salmos 78, 105, 106, também
o Novo Israel resume a história sagrada, a história da salvação, em um hino.

Isso quer dizer que temos não apenas uma reflexão e afirmação teológicas, mas
uma adoração, um ato de celebração em termos de ação de graças. E, deste modo,
esse hino de louvor a Deus que ressalta Sua benignidade e salvação, retrocede
ao passado, reflete o presente e aponta para a eternidade.

O Verbo de Deus… a Palavra de Deus… Jesus Cristo, a Comunicação de Deus.
Sua vinda e Sua vida são interpretadas como o modo de Deus Se comunicar
conosco.

Lógos (o vocábulo traduzido por Verbo ou Palavra) é uma das palavras mais ricas
da história religiosa. Era bem entendida pelos judeus porque a palavra (davar
em hebraico)era vista
¨ Como uma energia soberana que trazia as coisas à vida (cf. Gn
1.3,6,9,11,14,20,24,26; Sl 33.6,9);
¨ Também como algo que pode queimar como fogo ou quebrar como um martelo (Jr
23.29);
¨ Como algo que executava os planos de deus (Is 55.11);
¨ Como uma revelação da Sua vontade (Sl 119).

Para os gregos, a palavra (logos) é um princípio filosófico, e não uma força
pessoal. É mais pensamento que palavra. Heráclito, filósofo, disse ser o logos
o alicerce da ordem e da continuidade num mundo de fluxo e refluxo como a maré
alta e a maré baixa. Os estóicos disseram que a mente de Deus dá ao universo a
sua estabilidade, e Filo de Alexandria (judeu , por sinal) interpretou como a
chave para o sentido e a razão da vida.

A Igreja apostólica, por sua vez, fazia da pregação um “ministério do
Logos”, um ministério do Verbo, um ministério da Palavra, e o conteúdo
dessa mensagem era o próprio Cristo (Lc 1.2; At 1.21,22). Por esse motivo,
Jesus é o Verbo da Vida (Ap 19.23), é a Palavra da Vida (1Jo 1.1,2).

Em resumo, o verbo, a Palavra de Deus, é um poder divino, um princípio racional
e uma proclamação salvadora. O judeu entende, o grego entende e o cristão
entende e proclama. A Versão Inglesa de Hoje (Today’s English Veersion) assim
traduz: “Desde o princípio, quando Deus era, o Verbo também era; onde deus
Deus estava, o Verbo estava com ele; o que Deus era, o Verbo era também”.

E daí as lições, não uma Teoria Geral da Comunicação, como em Watzlawski, mas
uma Teologia da Comunicação Divina. O Verbo sempre foi uma realidade, pois
“no princípio” da própria criação do mundo, das coisas, dos seres, o
Verbo já era Deus.

Por natureza eterna, Deus Se comunica. Ou seja, os ídolos são mudos (1Rs
18.26-29; Sl 115.3-8; Hc 2.18,19; 1Co 12.2), mas Deus sempre teve uma palavra.
Assim, nos profetas (Jr 4.3; 6.16; Ez 14.12; Os 4.1), e por fim em Jesus Cristo
(Hb 1.1,2)

“O VERBO SE FEZ CARNE” (V.14)

O prólogo do Evangelho de João vai crescendo, crescendo como uma sinfonia
sublime, maravilhosa, majestosa, e atinge seu clímax, transborda de
significado, e como uma cachoeira irrompe no versículo 14.

Toda a história do Verbo de Deus antes da encarnação fora apresentada: Sua
essência, Sua eternidade, Sua divindade, Sua função criadora. E agora, diz o
evangelista, “O Verbo se fez carne, e habitou entre nós. Vimos a sua
glória, a glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”,
ou como já foi colocado, “O Verbo se tornou carne, armou sua tenda no
nosso meio, e nos presenteou a plenitude da vida divina
(vida eterna)”.

O Verbo veio a fim de ser uma ponte, a fim de aproximar Deus dos seres humanos,
e as pessoas de Deus. Em Jesus Cristo, Deus pronunciou Sua Palavra final e para
todo o tempo e eternidade.

Sim; Jesus fez-Se ser humano, vestiu a nossa pele, tornou-Se como nós, em tudo
menos em pecado (Fp 2.6,7; Hb 4.15). E daí as lições:
¨ O Verbo de Deus Se tornou ser humano para destruir as forças do mal (quando
de Sua morte, Hb 2.14);
¨ O Verbo assumiu nossa natureza para que pudéssemos assumir a Sua natureza (Fp
2.7; Cl 2.9,10);
¨ O Verbo de Deus participou de nossa miséria, para que pudéssemos participar
de Sua plenitude (Ef 1.23; 3.19);
¨ O verbo andou em nossas trevas para que pudéssemos andar em Sua luz (Jo 1.9;
Cl 1.13);
¨ E experimentou nossa fraqueza, para que pudéssemos experimentar e participar
da Sua vida, a vida em abundância (Rm 8.3; Hb 2.9)

Jesus como Verbo de Deus é o poder de Deus, a sabedoria de Deus, o evangelho de
Deus (1Co 1.23,24). O Verbo se fez carne para a salvação do que crê (1Tm 1.15;
Jo 3.17; Lc 19.10; Gl 4.5). A encarnação do Verbo é sinal do imenso amor de
Deus por nós (1Jo 4.9,10,19; Rm 5.6).

Por todas essas razões, temos em João 1.1,2, e, sobretudo, no verso 14, o ponto
essencial sobre a unidade da criação, da revelação e da redenção em Cristo.
Aquele que cria pela Palavra também Se revela e salva pela mesma Palavra.

Parte XXV
QUANDO
CRISTO CAMINHA CONOSCO

Lucas 24. 13-35
Penso que para
vocês que estão se formando, este momento é apenas o fim de uma etapa mas não é
o fim da caminhada. Há um longo caminho a ser percorrido, ainda, até que vocês
alcancem os objetivos que vocês estabeleceram para suas vidas. Que planos têm
sido traçados? Que metas têm sido delineadas para alcançar os alvos que vocês
elaboraram para suas vidas? Quero, nesta noite, falar de uma dimensão que não
pode ser relegada a um lugar secundário nos planos que vocês fizeram.

Creio, que a grande maioria dos que estão aqui, neste culto, o fazem em virtude
de que têm uma fé e querem, conseqüentemente agradecer a Deus porque acreditam
que a vida não se resume apenas àquilo que é matéria, àquilo que é palpável,
àquilo que é tangível, imanente. Mas sei que a maioria de vocês crê que existe
uma realidade espiritual, uma realidade que transcende aquilo que pode ser medido,
calculado, mensurado. Que não pode ser provado em laboratório, mas que nem por
isso é menos real e passível de ser experienciado e vivido pelo ser humano.

Foi pela influência do iluminismo que muitos desenvolveram uma fé inamovível de
que o progresso da ciência iria continuamente aperfeiçoar o ser humano até que
o mal fosse completamente erradicado da face da terra. E Foi o existencialismo
niilista que tentou jogar a última pá de terra na crença em um Deus pessoal e
que se interessa pelos destinos dos homens, principalmente, nos círculos
intelectuais. Com isso, a confiança do homem foi transferida para o
conhecimento, a ciência, a tecnologia, na expectativa de que estes viessem
gestar uma sociedade melhor e varrer todos os resquícios na humanidade da
religião e da fé que já não fariam sentido em um mundo tecnológico. Alguns
teólogos, influenciados por Niestche, chegaram até a desenvolver uma “Teologia
da Morte de Deus”. Contudo, as 2 grandes guerras acontecidas neste século que
passou, bem como outras inúmeras guerras espalhadas por toda a terra vieram
abalar definitivamente essa fé pueril na bondade inata do homem, pois, até
mesmo algumas das grandes descobertas desse século criadas para benefício da
humanidade se converteram em instrumento de morte como foi o caso do avião.

Percebe-se que hoje, ao final de um século e milênio a fé não foi banida do
coração do homem, mas que o homem mais do que nunca tem buscado algo ou alguém
que transcenda a si mesmo e a este mundo em que vive.

A verdade é que o coração do homem tem dentro de si mesmo um vazio do tamanho
de Deus e que só pode ser preenchido por ele mesmo. Como, apropriadamente,
disse Santo Agostinho, fomos criados para Deus, por isso só n’Ele a nossa alma
encontra descanso. Ou, na expressão do autor do livro de Eclesiastes: Deus, pôs
a eternidade em nossos corações

O texto que lemos ainda há pouco, nos conta a história de dois discípulos que
estão voltando de Jerusalém, após a morte de Cristo, embora tenham ouvido
relatos de que Ele havia ressuscitado, contudo não haviam acreditado. Agora,
estão indo em direção a Emaús. Jerusalém, palco dos principais acontecimentos
da história da humanidade, fica para trás. Para eles, todos os sonhos foram
abortados, as esperanças sepultadas em seus corações. Caminhavam tristes,
cabisbaixos, Jesus se aproxima e começa a caminhar com eles e eles nem
percebem. Quero, nesta noite, desafia-lo a incluir Jesus Cristo nos seus planos
de vida e mostrar os benefícios que isso trarão a sua vida.

1. Andar com Jesus move as nossas esperanças da terra para o céu, do
temporal para o eterno, da morte para a ressurreição.

Aqueles discípulos tinham certas esperanças; mas não tinham a esperança certa.
Certa, tanto no sentido de direção; quanto certa no sentido de garantida.
Depois de tantos anos sob o jugo do Império Romano, havia entre os judeus a
expectativa de um messias libertador que viria e aglutinaria todas as forças do
povo judeu para que, novamente, Israel fosse Senhor do seu destino. Quando
Jesus surge e atrai multidões Ele passa a ser o alvo das expectativas desse
messias guerreiro e conquistador o que fica bem evidente na sua entrada
triunfal em Jerusalém. Porém, Jesus frustra aquelas aspirações. Ele mesmo diz:
“O meu reino não é deste mundo.” A esperança que Jesus anuncia não é de um
reino na Palestina, mas, de um Reino Universal, o seu reino não envolveria
apenas os judeus, mas pessoas de todas as raças, tribos, línguas e nações. O
seu reino não seria político, mas espiritual; não seria temporal, mas eterno.
Naquele momento em que os discípulos caminhavam abatidos, por causa de suas
esperanças frustradas, Jesus lhes anuncia uma esperança maior. Eles faz com que
eles movam os olhos da terra para o céu; do temporal para o eterno; do
corruptível para o incorruptível. Onde Ele: “lhes enxugará dos olhos toda
lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor,
porque as primeiras coisas passaram. Apocalipse 21:4 “. Por isso, se na
caminhada você sentir, que as suas esperanças falharam, que os seus sonhos ruíram,
que os seus planos fracassaram, lembre-se que Jesus é a esperança que não
falha; é o amigo que não abandona.

2. Andar com Jesus traz uma nova compreensão das Escrituras.

No que diz respeito ao seu sentido como ao seu calor. É preciso andar com Jesus
para que Ele possa remover dos nossos olhos a poeira das impressões erradas
sobre Ele construída ao longo dos anos. Foi preciso que Jesus mostrasse nas
Escrituras o que havia sido predito sobre Ele. Os discípulos não entendiam,
eles esperavam que Jesus formasse um exército e destronasse os romanos do poder
na Palestina e que paulatinamente fosse dominando outras nações. Eles queriam
um Rei que conquistasse pela força das armas, mas o poder de Jesus vinha do
amor. Eles queriam um reino temporal e geográfico, mas o reino de Jesus é
espiritual e eterno. O que é governar a Palestina para aquele que governa o
universo. O que é vencer Herodes e Pilatos para aquele que triunfou sobre os
principados e potestades, sobre os poderes espirituais das trevas. Os discípulos
não entendiam. Muitos de nós não entendemos hoje.

Precisamos andar com Jesus e deixar que à semelhança do que fez com os
discípulos no caminho de Emaús nos vá revelando a sua face que já está
delineada nas Escrituras. Mas, além de desvelar para nós a sua face nas
Escrituras, Jesus faz com que as Escrituras façam o nosso coração arder. Ele
faz com a Bíblia deixe de ser mera letra para se tornar fogo e paixão em nossos
corações.

Por isso, se um dia na caminhada, a sua fé desvanecer, se você se sentir vazio
e triste, se nada mais fizer sentido; Jesus tem o sentido para a vida. É ele,
quem através do Espírito Santo retira da Bíblia a poeira de séculos de história
para faze-la atual como o jornal do dia e mais fascinante e bela do que
qualquer outra obra literária.

3. Andar com Jesus produz uma nova compreensão do que seja poder e êxito.

O poder de Jesus não é o das armas, mas o da doação, da entrega. Jesus não
vence matando, destruindo, mas morrendo e se entregando. Em uma sociedade
competitiva em que o outro é visto como um adversário a ser superado para que
eu possa subir, Jesus nos ensina o poder do serviço, da entrega, da doação, da
vitória do amor sobre o ódio; do triunfo da fé sobre o desespero. Com certeza,
Martin Luther King, sem armas e sem violência realizou uma conquista maior e
mais permanente do que Hitler com todo o poderio do exército alemão. Porque
havia aprendido com Jesus. Jesus consegue triunfar sem freqüentar os palácios
dos poderosos, sem se curvar ante a arrogância dos fariseus que se julgavam os
detentores do conhecimento da verdade, mas vivendo entre os humildes de sua
época. Maria, no Magnficat, expressa essa verdade quando diz: Agiu com o seu
braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos
soberbos. Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de
bens os famintos e despediu vazios os ricos. É por isso, que no século que
findou o nome de Madre Teresa de Calcutá é mais conhecido do que o do inventor
da bomba atômica.

Por isso, na caminhada ao perceber que o mal se agiganta, que a injustiça se
enraíza em toda a terra, que a mentira se alastra, que a covardia e o medo se
tornaram lugar comum. Convide Jesus para andar com você. Ele nos ensina a viver
na verdade; Ele nos ensina o sentido da entrega, da doação, do amor. Ele nos
faz intimoratos na denúncia do mal, no combate a injustiça, na luta pela
verdade. Ele já percorreu esse caminho e o venceu.

4. Andar com Jesus muda o rumo das nossas vidas.

Já não queremos mais ficar em Emaús, mas voltar para Jerusalém. Já era noite,
Jerusalém ficava a 13 km de distância de Emaús. O caminho era escuro; havia
perigo de feras e de salteadores; eles estavam cansados pois haviam acabado de
chegar. Mas, a presença de Jesus lhe infunde um novo ânimo que os faz voltar
para Jerusalém. Só a presença do Crito ressurreto, transforma a noite em dia;
as trevas em luz; a morte em vida. Só Ele restaura a esperança, restabelece a
fé, reacendo os nossos sonhos e anelos mais profundos do coração.

Por isso, se na caminhada, em algum momento, você se vir tentado desistir, a se
dar por vencido e o desânimo quiser afogar os seus anseios, diga: Jesus, fica
comigo, é tarde o dia já declina, o sol está se pondo e a sombra da noite está
caindo sobre o meu coração; a minha esperança fenece e os últimos resíduos de
minha esperança estão sendo varridos pelo vento que sopra ao cair da tarde;
fica comigo Jesus.

Quando vier a tempestade e o barco da tua vida estiver à mercê das ondas que te
infundem pavor e medo, quando o vento estiver encapelado, diga: fica no barco
Jesus, porque as ondas e os ventos lhe obedecem.

Quando as tuas esperanças estiverem soterradas pelas circunstâncias da vida
diga: Jesus remove os escombros, caminha comigo restaura a minha fé, tu és o
arrimo da minha sorte. Todos os dias, convide Jesus para andar com você.

Jesus é mais precioso que todas as riquezas, mais sublime, mais belo, mais
desejável do que todo o ouro, todo poder, toda glória toda fama.

Doce nome Jesus, doce esperança, Jesus está dizendo que é doçura, Em Jesus todo
o acerto se assegura, Logra-se, com Jesus, toda a bonança.

Quem em Jesus seu coração descansa Ricos afetos em Jesus se apura E fora de
Jesus nada procura Que em Jesus tudo espera, e tudo alcança.

Jesus por Redentor se vos convida, Jesus é Salvador na sacra história, E nossa
culpa tem Jesus remida:

E tendo Jesus sempre a memória Jesus é tábua, em que se salva a vida, Jesus é
porto, em que se chega a glória.

(Ao Nome de Jesus – Repetido em todos os versos. Manuel Botelho de Oliveira)

Parte XXVI
QUANDO O
CRENTE SE CONVERTE
Disse Jesus: Simão,
Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei
por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece
teus irmãos”. (Lc 22.31, 32)
Uma vida espiritual plena, feliz, ativa tem seu início quando se estabelece um
relacionamento de dependência, de fé, de perdão entre a pessoa humana e Deus. E
sua manutenção exige que a nossa personalidade seja ajustada à divina, e que
demos ao Senhor a posição que Lhe compete em nossa vida.

O mundo perdido não glorifica a Deus, nem o crente quando se torna mais movido
pela carne que pelo Espírito. Igualmente, o crente com outros interesses, que
não o reino de Deus e sua justiça, também não glorifica o Pai. E, no entanto,
há uma lei espiritual de que todo crente precisa se aperceber. É encontrada em
1Samuel 2, no final do verso 30, onde diz o Senhor: “Longe de mim tal
coisa, porque honrarei aos que me honram, mas os que me desprezam serão
desprezados”. Lei que naturalmente encontra seu eco no Novo Testamento, na
palavra de Jesus Cristo em João 12.26: “Se alguém me quiser servir,
siga-me; e onde eu estiver, ali estará também o meu servo; se alguém me servir,
o Pai o honrará”.

É nesse ponto que Jesus fala a Pedro, e a nós também, esta expressão: “Tu,
quando te converteres, fortalece teus irmãos”. Isso quer dizer que a
conversão do já crente é o seu despertamento, o seu reavivamento. E nós até
cantamos, como no hino 116 do Cantor Cristão.:

“Vem! Reveste a tua igreja
De poder e luz!
Vem! Atrai os pecadores
Ao Senhor Jesus!

Maravilhas soberanas
Outros povos vêem;
Oh ! derrama a mesma bênção
Sobre nós também!”

Ou no 117 CC:

“Santo Espírito de Deus
Enche de fervor os seus,
Pra cantarem o louvor
De Jesus, o Salvador!

Vem Espírito veraz,
Esta escuridão desfaz!
Enche-nos de santa luz,
Guia todos a Jesus!”

Mas o evangelho diz que precisamos de um fogo que queime os nossos velhos
vícios, Nossa vida de crentes acomodados, e satisfeitos, e tranqüilos, e de um
evangelho sem arrependimento, sem obediência, e que despreza e põe de lado a
cruz esperando que nada, absolutamente nada nos perturbe e incomode. Precisamos
de uma reforma que seja radical, aquilo que, repetimos, Jesus Cristo disse:
“Tu, quando te converteres fortalece a teus irmãos”. Ou seja, uma
nova dedicação na vida, um novo propósito, um novo serviço, uma nova postura
diante de Cristo, uma nova posição diante de Sua Igreja, e diante do mundo, que
é objeto de Seu amor. Então, faremos uma pergunta:

A QUE(M) DEVE O CRENTE SE CONVERTER?

Precisamos de uma conversão à soberania de Deus Pai. Está em Jeremias 24.7:
“E dar-lhes-ei coração para que me conheçam, que eu sou o Senhor; e eles
serão o meu povo, e eu serei o seu Deus; pois se voltarão para mim de todo o
seu coração”. E devemos fazê-lo para não incorrermos no que está em Isaías
29.13: “O Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua
boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu
coração, e o seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens,
aprendidos de cor.”
A soberania de Deus é a Sua qualidade, o Seu atributo pelo qual domina toda a
criação, e o universo e o mundo onde vivemos, e a História, e a Igreja de nosso
Senhor Jesus Cristo! Sendo soberano, Deus é onisciente, é onipotente, é
onividente, Deus é livre; sendo livre, e onividente, e onipotente e onisciente,
Deus é soberano. É a essa soberania que devemos nos render.

Porque Deus é soberano, não podemos querer e reinvidicar escolhas que fazemos
sem consultá-Lo, e não pode haver regeneração espiritual, se não houver uma
reforma moral da parte daquele que se submete ao chamado do Senhor. Mas você,
meu irmão, querida irmã, pode escolher não se submeter, não se converter à
soberania de Deus. No entanto, também não receberá bênçãos, não será uma
bênção, e não sentirá a alegria de ser obediente.

É preciso converter-se aos planos de Jesus Cristo. O conceito fundamental da
vida cristã e mudança de mentalidade que os tradutores da Escritura Sagrada
preferiram traduzir como arrependimento. A palavra na língua grega é metanóia,
que quer dizer “mudança de mente, modificação da mentalidade”.
Receber a Cristo como Salvador significa colocar-se ao lado da pessoa de Cristo
de modo único na experiência humana, e de maneira exclusiva porque Jesus Cristo
não aceita ser dividido com ninguém, ou com coisa alguma.

Significa ser como Ele, Jesus, é. Em 1João 4, final do verso 17 está dito,
“porque, qual ele é, somos também nós neste mundo”. Quer dizer que os
Seus amigos são os nossos amigos, Seus inimigos são os nossos inimigos, e os
seus caminhos são os nossos caminhos, e a Sua vida é a nossa vida, e a Sua
cruz, a nossa cruz.

O crente em Jesus Cristo é uma pessoa marcada. Marcada por essa cruz, marcada
pelas dores, marcada pelas bênçãos, e pelo céu, e pela alegria, porque ninguém
se rende ao senhorio de Cristo e ao Seu plano e permanece indiferente.

É preciso que o irmão se converta à operação do Espírito Santo. Lemos em
Provérbios 1.23: “Convertei-vos pela minha repreensão; eis que derramarei
sobre vós o meu Espírito e vos farei saber as minhas palavras”. É uma
palavra decisiva e incisiva. A tarefa primeira do Espírito Santo de Deus é
restaurar a íntima comunhão da pessoa perdida com Deus, levando-a a Jesus
Cristo, o Salvador. “E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da
justiça e do juízo” ( Jo 16.8). E, deste modo, realizando uma obra de
energização do crente, ou seja, o Espírito Santo nos dá a energia espiritual
para o quebrantamento, e para a submissão, e para a conversão à vontade de
Deus, e aos planos e senhorio de Jesus Cristo.

O problema é o crente continuar a viver como era antes, e ele se diz crente,
mas continua o mesmo do passado. Após se dizer convertido, precisa se
reaquecer, reavivar-se, reanimar-se, novamente converter-se para fortalecer os
seus irmãos, lembrando-se que a lei bíblica é que um pecador não pode entrar no
reino de Deus (cf. Jo 3.3,5; 1Co 6.9, 10; Gl 5. 19-21; Ef 5.5;
1Pe 1.22,23; Ap 21.27; 22.15).
E
permitir que o Espírito Santo opere na vida é seguir uma lei espiritual também,
a que diz “Enchei-vos do Espírito” (Ef 5. 18b).

Evangelho sem o Espírito Santo é a intenção de Satanás, e já basta de tanto
evangelho sem o Espírito, porque Satanás deseja uma Igreja sem vida, sem os
rios de água viva (Jo 7.38; Is 44.3), e fria sem o calor, o aquecimento do
Espírito de Deus (Mt 3.11; At2.3,4). E sem direção, sem a coluna de fogo nas
horas escuras como o povo de Israel no deserto experimentou. Assim, sem o
Espírito Santo, estaremos no deserto sem orientação, sem objetivo, sem alvo e
sem ponto de chegada.

Mas a igreja, qualquer igreja, terá esses rios de água viva, esse fogo, essa
luz quando estiver cheia, plena do Espírito, sob o controle do Espírito na vida
dos crentes individuais. E, permitindo que o Espírito opere, estaremos
preparados para resistir à tentação, para obedecer à Palavra de Deus, para
compreender a verdade, e, sobretudo, para viver de vitória em vitória!

O CRENTE SE CONVERTE E SE FORTALECE

Para que o crente se converte e se fortalece? É um fato sistêmico: a conversão
leva o crente ao fortalecimento, e o seu fortalecimento leva a fortalecer os
outros irmãos. É o que Jesus ensina (Lc 22.32), e é o que aprendemos em toda a
Bíblia. Porque está na palavra profética de Isaías 35, “Fortalecei as mãos
fracas, e firmai os joelhos trementes. Dizei aos turbados de coração: Sede
fortes, não temais; eis o vosso Deus! com vingança virá, sim com a recompensa
de Deus; ele virá, e vos salvará” (vv. 3,4). Ou no Novo Testamento:
“Portanto, levantai as mãos cansadas, e os joelhos vacilantes, e fazei
veredas direitas para os vossos pés, para que o que é manco não se desvie,
antes seja curado” (Hb 12. 12, 13).

E acontece também essa conversão e fortalecimento para que haja esperança (Os
12.6). Para que seja demonstrada a vontade de Deus em nossa vida (1Co 4.20). E
o crente se fortalece para pregar, para proclamar, para anunciar o amor de
Deus, Sua graça, Sua misericórdia nos termos da Segunda Carta a Timóteo 4.17:
“Mas o Senhor esteve ao meu lado e me fortaleceu, para que por mim fosse
cumprida a pregação, e a ouvissem todos os gentios; e fiquei livre da boca do
leão”.

Sim, somos salvos para Cristo; fomos salvos para ter autoridade espiritual e
moral (Gl 6.1), e não esqueçamos que somos salvos de uma posição, isto é, do
sistema deste mundo, da lama, do mal, do pecado, da ira vindoura, somos salvos
de para alguma coisa, para uma finalidade. Voltemos a Escritura que nos
fundamenta: “Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos
entre vós, e como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus
vivo e verdadeiro, e esperardes dos céus a seu Filho, a quem ele ressuscitou
dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira vindoura” (1Ts 1.
9.10).

Sim; salvos para Cristo, e para ter comunhão, e para servir a Deus. Somos
salvos para ter essa autoridade espiritual de que fala a Escritura:
“Exortamos-vos também, irmãos, a que admoesteis os insubordinados,
consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos”
(1Ts 5.14).

Não é fácil nem simples corrigir o errado. Por isso é preciso estar preparado:
“Irmãos, se um homem chegar a ser surpreendido em algum delito, vós que
sois espirituais corrigi o tal com espírito de mansidão; e olha por ti mesmo,
para que também tu não sejas tentado” (Gl 6.1). Repitamos: não é fácil
corrigir quem erra. Para consolar o aflito, é preciso repassar a consolação que
se recebeu de Deus, como Paulo mesmo afirma: “Grande é a minha franqueza
para convosco, e muito me glorio a respeito de vós; estou cheio de consolação,
transbordo de gozo em todas as nossas tribulações” (2Co 7.4). E é muito
triste, muito pesado, extremamente pesado quando alguém precisa de consolação e
os consoladores não aparecem, como o Salmo 69. 20 diz: “Afrontas quebrantaram-me
o coração, e estou debilitado. Esperei por alguém que tivesse compaixão, mas
não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei”. Temos que sofrer
com paciência as fraquezas do irmão e ajudar o que duvida, pois a fé
recolocada, o crente novamente convertido reconduz o irmão desviado à fé.

O crente em Jesus Cristo há de ser um exemplo de energia, e estímulo para isso
é o que não falta na Escritura Sagrada. Está no livro do profeta Joel:
“diga o fraco: Eu sou forte” (3.10b). E, voltando ao Novo Testamento,
em Romanos 15.1, Paulo nos passa: “Ora nós, que somos fortes, devemos
suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos”.

Poder. Um sentido de poder é como alguém definiu muito claramente: “é a
capacidade para fazer”. É o que Deus nos dá, e é o que Ele quer fazer na
Igreja, e é o que Ele coloca nos corações dos crentes. É exatamente o que Deus
deseja fazer: energizar! Mas não esse poder que nem se sabe o que é.

Há quem o peça sem saber para quê, e nem mesmo o que é, pois é algo meio
enfumaçado na cabeça, sem que se compreenda direito o que significa. E
verificamos na Escritura que quem fortalece é Deus; o poder não vem de mim
mesmo como vem pregando a Nova Era que a pessoa tem todo esse poder dentro de
si e é só extraí-lo. Diz a Bíblia que quem fortalece é o Senhor: “E o Deus
de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de
haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e
fortalecer” (1Pe 5.10). A Bíblia diz também que é o próprio evangelho de
Jesus Cristo que fortalece nos termos de Romanos 1: “Porque não me
envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele
que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque no evangelho é revelada,
de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da
fé” (vv. 16, 17).

Pois é; estamos cercados por todo um reino espiritual. Não se assustem não: há
muita pregação que só enfatiza o maligno. Mas quero lembrar aos irmãos que
estamos cercados também por um abençoado e divino reino espiritual, é Deus
mesmo que está ao nosso lado. A Bíblia não diz: “O anjo do Senhor se
acampa ao redor daqueles que amam a Deus”? O Senhor está ao nosso lado.
Estamos cercados por esse reino espiritual, os anjos do Senhor que nos ajudam
porque são espíritos ministradores (Hb 1.14) . Sim, Paulo quando prega em
Atenas, e está registrado em Atos 17.28, também afirma: “Porque nele
vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vosso poetas
disseram: Pois dele também somos geração”. Portanto, estamos rodeados por
um reino espiritual, mas tudo é uma questão de freqüência, de estar ligado no
canal certo.

O jornal há alguns anos noticiou um escândalo tomou conta do país. Uma
autoridade pública emitiu uma opinião particular em off, mas as antenas
parabólicas estavam ligadas naquela freqüência. E todo o Brasil ouviu o que
disse o ministro porque as antenas estavam ligadas naquela freqüência. E se
perde de ouvir a Deus por não se estar antenado espiritualmente nEle! Deixamos de
estar ligados na freqüência do Senhor, e ficamos recebendo tantas outras
transmissões. mas não sintonizamos o Pai, nem o Filho, e não entramos em
sintonia com o Espírito Santo. Pois o Seu poder não é algo que Ele tem, mas o
que Deus é. E perdemos a energia porque nem sempre queremos caminhar com o
Senhor.

“Tu quando te converteres, fortalece a teus irmãos”. Essa foi a
exortação que o Senhor fez a Pedro. E que faz a nós também. Que o Senhor nos
ajude a que vivamos o evangelho pleno, total, sem reservas, sem paredes, mas
que o evangelho tome conta de nossa vida toda, e de toda nossa vida moral, e
emocional, e física. Que tudo seja entregue de modo absoluto ao Senhor que nos
redimiu! Amém.

Parte XXVII
QUEM JESUS
FOI REALMENTE?
O Jesus
liberal

Com a queda do racionalismo e o surgimento do existencialismo, alguns
estudiosos procuraram entender Jesus à luz da experiência religiosa. Jesus
passou a ser visto como um homem cujo sentido de dependência de Deus havia
alcançado a plenitude. Esse conceito serviu de base para o desenvolvimento do
seu retrato pintado pelos liberais, em que Ele era simplesmente um homem
divinamente inspirado.

No século passado, os estudiosos, em busca do Jesus histórico, começaram a
aceitar a idéia do “mito”, ou seja, a idéia de que os Evangelhos são
relatos mitológicos sobre Cristo, lendas piedosas criadas cm torno da figura
histórica de Jesus pelos seus discípulos. Assim, firmou-se a idéia de que Jesus
não ressuscitou fisicamente. A ressurreição, na verdade, era a crença dos
discípulos na presença espiritual de Jesus.

A essa altura, os próprios estudiosos perceberam que a “busca” não os
estava levando a lugar algum. Era fácil destruir o Cristo dos Evangelhos, mas
eles não conseguiam reconstruir um Jesus histórico que os satisfizesse. As
vidas de Jesus reconstruídas pelos pesquisadores diziam mais acerca dos autores
do que da pessoa que eles tentavam descrever. Os autores olharam no poço
profundo da história em busca de Jesus, e o que viram foi seu próprio reflexo
no fundo do poço. Também perceberam que haviam esquecido ou minimizado um
importante aspecto da vida e do ensino de Jesus, que foi o
escatológico-apocalíptico, proclamando o aspecto ainda futuro do reino de Deus.
Essa conscientização desfechou um golpe fatal na concepção liberal de um reino
de Deus que se confundia com uma sociedade ética no mundo presente, ou numa
experiência espiritual interior, que dominava na época.

Além disso, o estudo crítico dos Evangelhos começou a afirmar que eles (os
Evangelhos) não eram biografias no sentido moderno, mas apresentações de Jesus
altamente elaboradas e adaptadas por diferentes alas da comunidade cristã
nascente. Portanto, era impossível, achar o verdadeiro Jesus, pois ficara
soterrado debaixo da maquiagem imposta pela Igreja primitiva. Como
conseqüência, alguns começaram a insistir que o centro da fé para a Igreja não
era o Jesus da história, mas o Cristo da fé, criado pela igreja nascente.
Portanto, a busca estava baseada num erro (que o Jesus histórico era
importante) e era teologicamente sem valor. O único Jesus em que os estudiosos
deveriam se interessar era o Cristo da fé da igreja, pois foi o único que
influenciou a história. Alguns, assim, se tornaram absolutamente cépticos
quanto à possibilidade de se recuperar o Jesus histórico.

Tentando “salvar” a busca, esses estudiosos acabaram por piorar a
situação. Quando separamos a fé dos fatos históricos, o Cristianismo, despido
do seu caráter histórico, e dos fatos que lhe servem de fundamento, torna-se
uma filosofia de vida. Uma fé que se apoia num Cristo que não tem nenhum
ancoramento histórico toma-se gnosticismo ou docetismo.

Assim, os Evangelhos e o retrato de Jesus que eles nos trazem, passaram a ser
vistos como uma elaboração mitológica produzida pela fé da Igreja. Segunso seus
defensores, foi a imaginação da comunidade que criou as histórias dos milagres
e muitos dos ditos de Jesus.

Apesar das diversas tentativas de reconstrução, ao fim chegava-se a um Jesus
cuja existência era não apenas implausível, como impossível de ser provada. O
Jesus liberal, desprovido do sobrenatural e da divindade, foi uma criação da
obstinação liberal, que se recusava a receber como autêntico o relato dos
Evangelhos sobre Jesus. A falta de comprovação histórica e documentária quanto
ao Jesus liberal acabou por dar fim à “busca”. O Jesus do liberalismo
pouco se parecia com o Jesus da concepção histórica da Igreja de Jesus Cristo,
como sendo tanto humano quanto divino, as duas naturezas unidas organicamente
numa mesma pessoa. O racionalismo eliminou a natureza divina de Cristo e a
considerou como produto da Igreja, dissociada do Jesus da história. Jesus era
apenas o grande exemplo, e a religião que Ele ensinou era simplesmente um
moralismo ético e social.

O Jesus liberal fracassou cm todos os sentidos! Ele acabou fundando uma nova
religião, mesmo sem querer. Acabou sendo “endeusado” pelos seus
discípulos, contra a sua vontade. O seu ensino social e ético de um reino de
Deus meramente humano acabou sendo sobrepujado pelo ensino de um reino de Deus sobrenatural,
presente e ainda por vir. E sua verdadeira identidade se perdeu logo nos
primeiros séculos, para ser “redescoberta” apenas depois de 2.000
anos de ilusões. Que ironia!

O Jesus libertador

Mas a tentativa dos estudiosos que não criam nos relatos miraculosos dos
Evangelhos não parou com o fracasso. Em meados da década de 50, outros
estudiosos, igualmente céticos, acharam que poderiam acertar onde os antigos
liberais falharam, desde que não fossem tão radicais em seu ceticismo quanto
aos relatos dos Evangelhos. Alguns discípulos dos teólogos liberais afirmaram
que, apesar dos muitos erros nos Evangelhos, havia neles elementos históricos
suficientes para se tentar chegar ao Jesus que realmente existiu. Um deles
chegou mesmo a questionar: “se a Igreja primitiva era tão desinteressada
na história de Jesus, por que os quatro Evangelhos foram escritos?” Os que
escreveram os Evangelhos acreditavam seguramente que o Cristo que eles pregavam
não era diferente do Jesus terreno, histórico.

Mas, ao fim, esses pesquisadores da “nova busca” pensavam de forma
muito semelhante à dos seus antecessores: o Jesus que temos nos Evangelhos não
corresponde ao Jesus que viveu em Nazaré há 2.000 anos, o qual pode ser
recuperado pelo uso da crítica histórica. Uma coisa todos estes pesquisadores,
antigos e novos, tinham cm comum: não criam na divindade plena de Jesus, na sua
ressurreição nem nos milagres narrados nos Evangelhos. Para eles, tudo isso
havia sido criado pela Igreja. Além disso, eram todos comprometidos com a
filosofia existencialista em sua interpretação dos Evangelhos. Os resultados da
pesquisa feita individualmente por eles, porém, eram tão divergentes, que a
“nova busca” acabou desacreditada em meados da década de 70.

Mas o ceticismo destes estudiosos não deixou a coisa parar por aí. Faz poucos
anos, um grupo de 75 estudiosos de diversas orientações religiosas reuniu-se
nos Estados Unidos para fundar o “Simpósio de Jesus” (The Jesus
Seminar), que os reúne regularmente duas vezes ao ano para levar adiante a “busca
pelo verdadeiro Jesus”. Suas idéias básicas são fundamentalmente as mesmas
dos que empreenderam a “busca” antes deles, ou seja, que o retrato de
Jesus que temos nos Evangelhos é uma caricatura altamente produzida, resultado
da imaginação criativa da Igreja primitiva. A novidade é que agora incluíram
material extrabíblico em suas pesquisas, como o evangelho apócrifo de Tomé, o
suposto documento “Q” contendo ditos antigos de Jesus e os
Manuscritos do Mar Morto.

A conclusão do simpósio é que somente 18% dos ditos dos Evangelhos atribuídos a
Jesus foram realmente pronunciados por Ele. O simpósio, trouxe a público esse
resultado de suas pesquisas bastante cépticas quanto á confiabilidade dos
Evangelhos, causando grande sensação e furor nos Estados Unidos e na Europa, e
reacendendo, em certa medida, o interesse pelo Jesus histórico. E mais uma vez
a polêmica acerca de Jesus foi reacendida, desta feita ganhando até a capa de
revistas internacionais como Time, Newsweek e U.S. News & World Report, e
do Brasil, como Veja e Isto É. Ao final, o Jesus do simpósio é uma mistura de
sábio tímido, modesto demais para falar de si mesmo ou de sua missão neste
mundo. A pergunta é: como uma pessoa assim conseguiu ganhar o ódio dos judeus e
acabar sendo crucificada, um fato que até os antigos liberais radicais
reconhecem como histórico?

Várias outras tentativas têm sido feitas cm tempos recentes para se descobrir o
Jesus que realmente existiu por detrás daquele que é representado nos textos
dos Evangelhos. Ele tem sido retratado diferentemente como profeta e libertador
social, simpatizante dos Zelotes e de suas idéias libertárias, reformador
social por meio pacíficos e espirituais, pregador itinerante carismático e
radical, instigador de um movimento, de reforma, libertador dos pobres, “homem,
do Espírito”, que tinha visões e revelações e uma profunda intimidade com
Deus, de quem recebia poder para curar, fazer milagres e expelir demônios. Um
hasid, homem santo da Galiléia, um judeu piedoso, uma figura carismática, um
operador de milagres, movendo-se fora do ambiente oficial e tradicional do
judaísmo, um exorcista poderoso e bem sucedido – o catálogo é interminável. Mas
todas essas tentativas têm uma coisa em comum: para seus autores, o Jesus
pintado pelos Evangelhos é o produto da imaginação criativa e piedosa, da fé
dos discípulos de Jesus. Os defensores destas idéias partem do conceito de que
a Bíblia nos oferece um quadro distorcido do verdadeiro Jesus.

De volta ao Jesus sobrenatural

Entretanto, é preciso mais do que teorias, como estas que acabei de expor, para
tornar convincente a tese de que a comunidade cristã inventou tanto material
sobre Cristo, e que ela mesma acabou crendo em sua mentira. É quase
inconcebível que uma comunidade tenha criado material histórico para dar sustentação
histórica à sua fé. Uma comunidade que dá tal importância aos fatos históricos,
não os criaria! Além do mais, essas teorias não levam em conta o fato de que os
eventos e ditos de Jesus foram testemunhados por pessoas que estiveram com Ele,
e que essas testemunhas oculares certamente teriam exercido uma influência
conservadora na imaginação criativa da Igreja. Também ignoram o fato de que os
líderes iniciais da comunidade os apóstolos, estiveram com Jesus e muito perto
dos fatos históricos para dar asas à livre imaginação. Também deixa sem
explicação o alto grau de unanimidade que existe entre os Evangelhos. Se cada
Evangelho é o produto da imaginação criativa da igreja, como explicar
diferenças entre eles? E se é o produto de comunidades isoladas, como explicar
as semelhanças? Essas teorias são especulações e nada podem nos dar de
evidência concreta. Portanto, continuamos a crer nas evidências internas e
externas de que os Evangelho dão testemunho confiável do Jesus histórico, que é
o mesmo Cristo da fé. Entretanto, o ceticismo crítico desses estudiosos
influenciou de tal maneira os seminários que introduziu na Igreja de Cristo uma
semente que produziu seu fruto amargo: um Evangelho e um Cristo, fruto da
imaginação da Igreja, e que, portanto não tinham. poder, vitalidade nem
respostas para as questões humanas. Resultado: igrejas esvaziadas por toda a
Europa, em uma geração.

Queira Deus guardar as igrejas brasileiras dessas pessoas, e firmá-las cada vez
mais no Senhor Jesus Cristo, fielmente retratado nas páginas dos Evangelho.

Fonte: Revista Fides Reformata

Parte XXIII
REVELAÇÃO
PROGRESSIVA DO MESSIAS
São muitas as
passagens messiânicas no Antigo Testamento cumpridas totalmente em JESUS, nome
que, de forma direta ou indireta, permeia toda a Bíblia. É formidável vermos o
perfil do Messias sendo paulatinamente traçado de livro em livro, de versículo
em versículo. Com pinceladas seguras, e sem pressa, o Pai se revela aos poucos
na Pessoa do Filho.

Deus falou de forma inequívoca pelos profetas sobre o Seu enviado. Somente Ele
poderia fazer tais previsões: “Quem há, como eu? Que o declare e o exponha
na minha presença! Quem anunciou desde os tempos antigos as coisas vindouras?
Que nos anuncie as que ainda há de vir” (Is 44.7). Em outras palavras, Deus
está dizendo: Se existir alguém que faça como eu, que anuncio o que há de vir,
então se apresente.

Como num quadro gigantesco, a figura do Salvador vai despontando a cada
pincelada. No começo, é apenas um descendente de Eva; depois, é um descendente
de Abraão, de Isaque, de Jacó; e, por fim, será “um rebento do tronco de
Jessé”. Mais adiante, Ele é o crucificado, humilhado, traído por trinta
moedas de prata, e “por suas feridas somos sarados”. A época e a
cidade do seu nascimento, sua condição de Filho de Deus, sua missão, tudo
predito centenas de anos antes.

Assim, passo a passo toma corpo, ao longo da Bíblia, a exata dimensão do
ministério terreno do Verbo, que era Deus, que estava no princípio com Deus, e
que se fez carne e habitou entre nós.

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança” (Gn 1.26).

O Deus trino, composto, porém único, está manifesto no plural
“façamos”. O Verbo que se fez carne (Jo 1.1,14), esteve presente na
Criação. Em verdade, o versículo nada revela sobre o Messias, mas é uma
introdução ao grande mistério da Trindade.

O apóstolo Paulo disse que “homens santos falaram da parte de Deus movidos
pelo Espírito Santo” (2 Pe 1. 20-21). E São Lucas, no Livro de Atos,
confirma: “Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os
profetas havia anunciado que o Cristo havia de padecer…Dele todos os profetas
dão testemunho de que todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados
pelo seu nome” (At 3.18; 10.43). Vejamos as profecias:

Nascido de mulher

Profecia: Deus falando à serpente: “E porei inimizade entre ti e a mulher,
e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe
ferirás o calcanhar” (Gn 3.15 – Ed. Revista e Corrigida).

Sem dúvida, o perfil do Messias começa a ser esboçado a partir desse versículo.
Jesus é revelado como a semente da mulher, um descendente de Eva. Ele ferirá
mortalmente a serpente, que é o diabo (Ap 12.9 e 20.2). Deus está falando a uma
pessoa, Satanás, já que não pode haver inimizade entre um animal e um ser
humano. Os anjos decaídos, seguidores do diabo (“tua semente”) também
seriam inimigos de Deus.

Cumprimento: Jesus foi o único em toda a História da humanidade a declarar que
destruiria as obras do diabo. Vejam: “Agora é o tempo do juízo deste mundo;
agora será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12.31); “…porque o
príncipe deste mundo está julgado” (Jo 16.11); “Para isto o Filho de
Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo” (1 Jo 3.8). A vitória
na cruz: “Tendo despojado os principados e as potestades, os expôs
publicamente ao desprezo, e deles triunfou na cruz” (Cl 2.15). Jesus veio
para nos resgatar das mãos do diabo (Is 61.1; Mt 20.28; Lc 4.18; Jo 8.32,36).

Descendente de Abraão

Profecia: Deus falando a Abraão: “E em tua semente serão benditas todas as
nações da terra, porque obedeceste à minha voz” (Gn 22.18; v.Gn 12.3).

Cumprimento: Em Gálatas 3.16, o apóstolo Paulo explica: “Ora, as promessas
foram feitas a Abraão e à sua posteridade. A Escritura não diz: E às
posteridades [descendentes] como se fossem muitas, mas como de uma só: E à tua
posteridade, que é Cristo”. Um pouco antes, em Gálatas 3.8-9, lê-se:
“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os
gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Em ti serão benditas
todas as nações. De sorte que os que são da fé são benditos com o crente
Abraão”.  No Evangelho de São
Mateus, Jesus é mencionado como “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1),
confirmando a genealogia do Messias. A promessa é renovada em Isaque e em Jacó,
conforme Gênesis 26.2-4 e 28.13-14.

O Profeta de Deus

Profecia: Deus falando a Moisés: “Eis que suscitarei um profeta do meio de
seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará
tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.18). Moisés ao povo: “O Senhor, teu
Deus, levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a
ele ouvireis” (Dt 18.15).

Cumprimento: Note-se que Deus não fala de vários profetas, mas de um profeta a
ser levantado no futuro. Os judeus aguardavam esse profeta especial. Quando
surgiu João Batista, perguntaram-no: “Es tu o profeta?” (Jo 1.21).
Jesus é o único que cumpre essa profecia: “Vendo, pois, aqueles homens o
milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é, verdadeiramente, o profeta que
devia vir ao mundo” (Jo 6.14). “Verdadeiramente este é o
profeta” (Jo 7.40); “Filipe encontrou Natanael e disse: “Achamos
aquele de quem Moisés escreveu na lei e de quem escreveram os Profetas: Jesus
de Nazaré, filho de José” (Jo 1.45); [Samaritana] “Eu sei que o
Messias virá. Quando ele vier, nos explicará tudo. Disse-lhe Jesus: Eu o sou,
eu que falo contigo” (Jo 4.25-26). Vemos que o próprio Jesus declarou ser
o profeta de há muito aguardado.

Como vimos, Deus disse a Moisés: “Porei as minhas palavras na sua
boca”. Jesus deu autenticidade a essa profecia, dizendo: “Esta
palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14.24);
“As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo. Antes, é o Pai
que está em mim quem faz as obras” (Jo 14.10).

Da linhagem de Jessé

Profecia: “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes
um renovo frutificará” (Is 11.1).

Davi, filho de Jessé, foi ungido pelo profeta Samuel e substituiu Saul no
reinado de Israel (1 Sm 16.10-13). Os demais filhos de Jessé ficaram excluídos
da linhagem da qual Jesus seria descendente, assim como ficou excluído Esaú,
irmão gêmeo de Jacó, filho de Isaque.

Cumprimento: O Messias seria da linhagem de Davi, tal como registrado na
genealogia de Lucas 3.31-32. “E toda a multidão se admirava e dizia: Não é
este o filho de Davi?” (Mt 12.23). José, marido de Maria, era da
“casa de Davi”, e o anjo Gabriel revelou que Jesus receberia o
“trono de Davi, seu pai” (Lc 1.27,32). Por eliminação, estamos chegando
ao Messias. Aos poucos, Ele vai surgindo nas Escrituras, numa revelação
gradual. Sua filiação, o lugar do seu nascimento, seu caráter, sua santidade,
seu sofrimento e muitos outros detalhes de sua vida.

O Filho de Deus

Profecia:
“Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”; “beijai o
Filho…Bem-aventurados todos aqueles que nele se refugiam” (Sl 2.7, 12).

Cumprimento: No Seu batismo, junto ao Jordão, ouviu-se uma voz dos céus:
“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Declaração
semelhante fez Simão Pedro, quando disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus
Vivo”, revelação plenamente aceita por Jesus (Mt 16.16-17), e também
confirmada pelo anjo Gabriel (Lc 1.32). Outras referências: João 6.40; 8.36;
11.4; 14.13; 17.1. Na Transfiguração, o Pai confirma a filiação divina de Jesus
e a sua condição de “o profeta”: “Este é o meu amado Filho; a
ele ouvi” (Lc 9.35).

Sua ressurreição

Profecia: “Porque não deixarás a minha alma no inferno [sepultura], nem
permitirás que o teu Santo veja corrupção (Sl 16.10). “Desde então,
começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e
padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e
ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mt 16.21; 17.9; 20.17-19; Lc
18.33).

Cumprimento: “De repente Jesus lhes sai ao encontro, dizendo: Eu vos
saúdo. E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram” (Mt 28.9;
cf. Lc 24.36-48). Pedro disse no seu discurso, no dia de Pentecostes:
“Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas”
(At 2.32).

O Crucificado

O Salmo 22 descreve detalhes da crucificação do Messias. Vejamos:

“Deus, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22.1). Cumprimento –
As mesmas palavras foram usadas por Jesus na cruz, conforme Mateus 27.46.

“Os que me vêem zombam de mim e balançam a cabeça” (v.7). Cumprimento
– “Os que passavam, blasfemavam dele, meneando a cabeça” (Mt 27.39).

“Confiou no Senhor, que o livre” (v.8). Cumprimento- “Confiou em
Deus. Livre-o agora, se de fato o ama, pois [Jesus} disse “Sou Filho de
Deus” (Mt 27.43).

“Traspassaram-me as mãos e os pés” (v.16). Cumprimento – “Se eu
não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser ali o dedo, e não puser a
mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” (Jo 20.24-29).

“Repartem entre si as minhas vestes e lançam sorte sobre a minha
túnica” (v.18).Cumprimento – “Depois de o crucificarem, repartiram
entre si as vestes dele, lançando sortes para que se cumprisse o que foi dito
pelo profeta…” (Mc 15.24).

Seus ossos não seriam quebrados

Profecia: “Ele lhe guarda todos os seus ossos; nem sequer um deles se
quebra” (Sl 34.20).

Cumprimento: “Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos
na cruz…rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados.
Foram, pois, os soldados e, na verdade quebraram as pernas ao primeiro e ao
outro que com ele fora crucificado. Mas, vindo a Jesus e vendo-o já morto, não
lhe quebraram as pernas” (Jo 19.32-33). Os corpos deveriam ser retirados
da cruz antes das 18 horas daquela sexta-feira, quando se iniciava a contagem
do dia seguinte, o sábado sagrado.

Fel e vinagre para beber

Profecia: “Deram-me fel por alimento, e na minha sede me deram a beber
vinagre” (Sl 69.21).

Cumprimento: “E, chegando ao lugar chamado Gólgota, que significa Lugar da
Caveira, deram-lhe a beber vinho misturado com fel; mas ele, provando-o, não o
quis beber” (Mt 27.33-34; Mc 22-23).

“Nasceria de uma virgem”

Profecia: “Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: A virgem conceberá,
e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” (Is 7.14).

Cumprimento: “No sexto mês foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma
cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada…entrando disse:
…conceberás e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus” (Lc
1.26-35; cf.Mt 1.18-25). “Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que
foi dito da parte do Senhor, pelo profeta [Isaías]: A virgem conceberá e dará à
luz um filho, e o chamarão pelo nome de Emanuel, que quer dizer Deus conosco”.
O Verbo se fez carne e habitou conosco.

Pai da Eternidade

Profecia: “Porque um menino nos nasceu; um filho se nos deu; o principado
está sobre os seus ombros, e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus
Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6).

A divindade de Jesus está expressa de forma muito clara nesse versículo. O
próprio Jesus se declarou eterno como veremos a seguir.

Cumprimento: “Antes que Abraão nascesse, eu sou. Então pegaram em pedras
para lhe atirarem, mas Jesus se ocultou e saiu do templo (Jo 8.58,59). “Se
não crerdes que EU SOU, morrereis em vossos pecados” (Jo 8.24).

Deus falando a Moisés – “Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me
enviou a vós” (Êx 3.14).

Jesus usou o mesmo nome pronunciado por Deus quando falou a Moisés. Com relação
a Êxodo 3.14, a Bíblia de Estudo Pentecostal faz o seguinte comentário: “O
Senhor deu a si mesmo o nome pessoal: “Eu sou o que sou” (de onde
deriva o hb. Iavé), uma expressão que expressa ação. Deus estava efetivamente
dizendo a Moisés: “Quero ser conhecido como o Deus que está presente e
ativo”. Inerente no nome Iavé está a promessa da presença viva do próprio
Deus, dia após dia com o seu povo… O Senhor declara que esse será o seu nome
para sempre. É digno de nota que quando Jesus nasceu, foi chamado Emanuel, que
significa “Deus conosco” (Mt 1.23); Jesus também se chamava a si
mesmo pelo nome “Eu sou” (Jo 8.58)”.

Os títulos de “Conselheiro” e de “Príncipe da Paz” somente
podem ser aplicados a Jesus Cristo, que realmente enche de paz os corações e
nos transmite palavras de vida eterna (Jo 12.47; 14.27; 16.33; 18.37). A
Eternidade de Jesus, e, em conseqüência, Sua divindade, está formulada, também,
de forma irrecusável, nos versículos 1 e 14 do capítulo primeiro, do Evangelho
de São João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o
Verbo era Deus. O Verbo se fez carne e habitou entre nós. Vimos a sua glória, a
glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. Dezenas de
outras passagens da Bíblia falam da divindade de Jesus.

Cheio de sabedoria e graça

Profecia: “Do tronco de Jessé brotará um rebento, e das suas raízes um
renovo frutificará. Repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o Espírito de
sabedoria e de inteligência, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito
de conhecimento e de temor do Senhor” (Is 11.1-2).

Cumprimento: “Tendo ele [Jesus] doze anos, subiram a Jerusalém… Passados
três dias, acharam-no no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e
interrogando-os. Todos os que o ouviam admiraram-se da sua inteligência e
respostas. E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça para com Deus e
os homens” (Lc 2.42-52).

O Servo sofredor

Profecia: “Vede, o meu servo procederá com prudência [cumprirá a vontade
do Pai]; será engrandecido, e elevado, e muito sublime” (Is 52.13).

Cumprimento: “Jesus disse: A minha comida é fazer a vontade daquele que me
enviou, e realizar a sua obra” (Jo 4.34); “De sorte que, exaltado
pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou
isto que vós agora vedes e ouvis”(At 2.33); “Pelo que Deus o exaltou
soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2.9; cf. At
4.12; Cl 3.1; Hb 1.3; 8.1).

“O seu parecer [seu semblante, seu rosto] estava tão desfigurado, mais do
que o de outro qualquer, e a sua aparência mais do que a dos outros filhos dos
homens” (Is 52.14).

Cumprimento: Jesus foi muito torturado antes da crucificação: “Mas, tendo
mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado” (Mt 27.26; Mc
15.15; Jo 19.1-3); “Então uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e
outros o esbofeteavam” (Mt 26.67): “E, tecendo uma coroa de espinhos,
puseram-na na sua cabeça. E, cuspindo nele, tiraram-lhe o caniço, e batiam-lhe
com ele na cabeça” (Mt 27.29-31). John Davis relata no seu Dicionário da
Bíblia: “Eram muito comuns as crueldades que precediam o ato da
crucifixão. Açoitavam o paciente, e depois de lacerado o corpo, obrigavam-no a
carregar a cruz”. Assim, podemos entender o que diz o salmista sobre a “aparência
tão desfigurada” de Jesus.

Traspassado por nossas transgressões

No capítulo 53 do livro de Isaías, lemos o relato de profecias escritas há
cerca de 700 anos. O “mais ilustre dos profetas”, como é conhecido,
descreve não só o sofrimento de Jesus na cruz; ele, numa linguagem forte que é
quase um lamento, diz da finalidade maior da morte de cruz do Cordeiro de Deus.
Examinemos a profecia e seu cumprimento:

Profecia: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões” (Is
53.5).

Cumprimento: “Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o
crucificaram” (Lc 23.33).

Profecia: “Ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas
iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas
pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).

Cumprimento: “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o
madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça;
pelas suas feridas fostes sarados” (1 Pe 2.24).

Profecia: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava
pelo seu caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós”
(Is 53.7).

Cumprimento: “Deus estava com Cristo reconciliando consigo o mundo, não
imputando aos homens os seus pecados, e nos confiou a palavra da
reconciliação” (2 Co 5.19). Pedro disse: “Pois estáveis desgarrados
como ovelhas, mas agora voltastes ao Pastor e Bispo das vossas almas” (1
Pe 2.25).  Profecia: “Pois foi
cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo foi ele
atingido” (Is 53.8). Cumprimento: “Disse-lhes Jesus: Saístes com
espadas e cacetes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias eu estava
convosco ensinando no templo, e não me prendestes. Contudo, é para que se
cumpram as Escrituras…Os principais sacerdotes e todo o Sinédrio buscavam algum
testemunho contra Jesus para o matar, mas não achavam. Muitos testificavam
falsamente contra ele, mas os testemunhos não eram coerentes. Todos o
consideraram réu de morte” (Mc 14.48,49,55,56,64).

Como ovelha muda

Profecia: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como
cordeiro foi levado ao matadouro, e como ovelha muda perante os seus
tosquiadores, ele não abriu a sua boca” (Is 53.7).

Cumprimento: “E, sendo acusado pelos principais sacerdotes e pelos
anciãos, nada respondeu. Perguntou-lhe então Pilatos: Não ouves quantas
acusações te fazem? Jesus nem uma palavra lhe respondeu, de sorte que o
governador estava muito admirado” (Mt 27.12-14).

Com assaltantes na crucificação

Profecia: “Deram-lhe sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte,
embora nunca tivesse cometido injustiça, nem houvesse engano na sua boca”
(Is 53.9).

Cumprimento: “E foram crucificados com ele dois assaltantes, um à direita
e outro à esquerda”; chegada a tarde, veio um homem rico de Arimatéia,
chamado José, que também era discípulo de Jesus. Este foi ter com Pilatos e lhe
pediu o corpo de Jesus… E José, tomando o corpo, envolveu-o num pano limpo de
linho, e o depositou no seu sepulcro novo, que havia aberto na rocha; rolou uma
grande pedra para a entrada do sepulcro, e se retirou” (Mt
27.38,57,58,59,60).

Padecimentos sem conta

Profecia: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar, quando a
sua alma se puser por expiação do pecado…” (Is 53.10).

Cumprimento: “Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os
seus profetas havia anunciado, que o Cristo havia de padecer” (At 3.18).

Profecia: “Ele verá o trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu
conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos, e as iniqüidades deles
levará sobre si” (Is 53.11).

Cumprimento: “Pois primeiramente vos entreguei o que também recebi: que
Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e
que ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas,
e depois pelos Doze. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos,
e por último de todos apareceu também a mim, como a um abortivo” (1
Co15.3-8); “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, e
são justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo
Jesus” (Rm 3.23-24); “Pois se pela ofensa de um só, a morte reinou
sobre todos os homens, para condenação, assim também por um só ato de justiça
veio a graça sobre todos os homens, para justificação e vida” (Rm 5.18).

Intercessão

Profecia: “Pois ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos
transgressores intercedeu” (Is 53.12c).

Cumprimento: “Jesus disse: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que
fazem” (Mt 27.38; Lc 23.34); “Ele foi entregue por nossos pecados”
(Rm 4.25).

O libertador

Profecia: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me
ungiu para pregar as boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos
de coração, a proclamar liberdade aos cativos e a abertura de prisão aos
presos” (Is 61.1).

Cumprimento: “E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de
sábado, segundo o seu costume, na sinagoga e levantou-se para ler. E foi-lhe
dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que
estava escrito…” Jesus leu Isaías 61.1, como acima, e revelou que aquela
profecia estava se cumprindo naquele momento (Lc 4.18-21). Mais tarde, Ele
afirmaria que “se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis
livres” (Jo 8.32,36). O apóstolo Paulo disse que “Cristo nos libertou
para que sejamos de fato livres” (Gl 5.1a).

Belém, cidade natal

Profecia: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá,
de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas origens são desde os dias
da eternidade” (Mq 5.2).

Efrata é o antigo nome da cidade de Belém, conforme Gênesis 35.16.19; 48.7;
Rute 1.2; 4.11. A profecia de Miquéias define qual seria a cidade natal do
Messias, distinguindo-a de outras cidades com o mesmo nome, para que não
pairasse dúvida. Por exemplo, havia uma cidade chamada Belém, dentro do
território da tribo de Zabulom (Js 19.15).

Cumprimento: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, no tempo do rei
Herodes…”(Mt 2.1; Lc 2.4-7). O nome atual da cidade onde nasceu Jesus é
Beit-Lahm, situada à distância de 10 quilômetros ao sul de Jerusalém. Belém
Efrata era também conhecida como a “cidade de Davi” (Lc 2.11).

Entrada triunfal em Jerusalém, num jumentinho

Profecia: “Alegra-te muito, ó filha de Sião! Exulta, ó filha de Jerusalém!
Vê! O teu rei virá a ti, justo e Salvador, humilde, montado em jumento, num
jumentinho, cria de jumenta” (Zc 9.9).

Cumprimento: “E Jesus, tendo conseguido um jumentinho, montou-o, segundo
está escrito…” “No dia seguinte a grande multidão que viera à festa
ouviu que Jesus estava a caminho de Jerusalém. Tomaram ramos de palmeiras, e
saíram ao seu encontro, gritando: Hosana! Bendito é aquele que vem em nome do
Senhor! Bendito é o rei de Israel!” (Jo 12.12-16; cf. Mt 21.1-11; Lc
19.28-38).

O arrependimento dos rebeldes

Profecia: “Sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém
derramarei o Espírito de graça e de súplicas. Olharão para mim, a quem
traspassaram, e o prantearão como quem pranteia por seu filho único, e chorarão
amargamente por ele, como se chora pelo primogênito” (Zc 12.10).

Cumprimento: “Contudo, um dos soldados traspassou-lhe o lado com uma
lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19.34). Eis que os
israelitas reconhecerão o grave erro, chorarão arrependidos por haverem
rejeitado o verdadeiro Messias, e serão atendidos em suas orações. Estas
palavras serão cumpridas na volta de Jesus.

Pastor ferido e ovelhas dispersas

Profecia: “Ó espada, ergue-te contra o meu Pastor e contra o varão que é o
meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos; fere o Pastor, e espalhar-se-ão as
ovelhas, mas volverei a minha mão para os pequenos” (Zc 13.7). A profecia
fala de um semelhante a Deus (“meu companheiro”), um Messias divino,
um Pastor-Messias, que seria crucificado e abandonado pelos discípulos.

Cumprimento: Dando autenticidade às palavras de Zacarias, Jesus disse:
“Todos vós esta noite vos escandalizareis por minha causa, pois está
escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão” (Mt
26.31; Mc 14.27). Realmente, quando Jesus foi preso, todos fugiram de sua
presença (Mt 26.56; Mc 14.49-50; Jo 18.8).

Traído por um amigo e vendido por 30 moedas de prata

Profecia: “Até o meu próprio amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia
do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar” (Sl 41.9). “Pesaram,
pois, o meu salário, trinta moedas de prata. E o Senhor me disse: Arroja isso
ao oleiro, esse belo preço em que fui avaliado por eles. Tomei as trinta moedas
de prata, e as arrojei ao oleiro na casa do Senhor” (Zc 11.12-13).

Cumprimento: “Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os
principais sacerdotes, e disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei. E
pagaram-lhe trinta moedas de prata” (Mt 26.14-15). A Bíblia diz que Judas
trouxe as trinta moedas e as atirou aos pés dos sacerdotes, que resolveram
comprar com esse dinheiro “o campo do oleiro, para sepultura dos
estrangeiros” (Mt 27.1-7).

ELE VOLTARÁ

Esse mesmo Jesus que predisse sua própria morte, e ressurreição ao terceiro
dia, prometeu retornar para buscar a Sua igreja. Por tudo o que lemos, há
alguma dúvida de que a profecia sobre o Seu retorno se cumprirá? Vejamos o que
Ele prometeu:

“Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todos os povos da
terra se lamentarão e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com
poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de
trombetas, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma
à outra extremidade dos céus” (Mt 24.30-31).

“E quando eu me for, e vos tiver preparado um lugar, virei novamente, e
vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também”
(Jo 14.3 – A Bíblia de Jerusalém). 
“Venho logo! Segura com firmeza o que tens para que ninguém tome a
sua coroa” (Ap 3.11 – ABJ). 
“Eis que cedo venho! Bem-aventurado aquele que guarda as palavras
da profecia deste livro” (Ap 22.7). “Eis que eu venho em breve, e
trago comigo o salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho”
(Ap 22.12- ABJ).  “Aquele que dá
testemunho destas coisas diz: Certamente cedo venho” (Ap 22.20).  Vem, Senhor Jesus

Parte XXIX
JESUS,
PADROEIRO DO BRASIL
 A
Comissão de Educação e Cultura do Congresso analisa o projeto número 290/99,
apresentado pelo deputado federal Marcos Antônio de Barros (PST/PE), propondo
destronar “Nossa Senhora” Aparecida do cargo de padroeira do Brasil, e, em
substituição, declarar o Senhor Jesus como o novo Padroeiro. A proposta vem ao
encontro dos anseios da Igreja de Jesus. Chegou a hora de reparar o lamentável
erro de nossos legisladores, com o consentimento da Igreja Católica, ao
oficiliazar a humilde mãe de Jesus na missão de protetora da nação brasileira.
Colocar Maria em tão elevado cargo foi um equívoco. Vejamos:

A nomeação de Maria nunca foi aceita pela totalidade dos brasileiros. Se
excluirmos os católicos nominais – assim considerados aqueles que, embora se
declarem católicos, não são fiéis ao catolicismo -, e aceitarmos como autêntica
a estatística que revela a existência, no mínimo, de 20 milhões de evangélicos
no Brasil, mais alguns milhões de espíritas, verificaremos que a supremacia do
Vaticano neste país é algo de que se pode duvidar. Pelo menos, de forma
racional, não podem e não devem os católicos – em casos tais – decidirem em
nome de todos os cristãos. Doutra parte, estatísticas demonstram que a
tendência dos brasileiros é de rejeição aos dogmas do Vaticano, e de obediência
à Palavra de Deus. Há quase duas décadas, o ritmo de crescimento dos
evangélicos no Brasil vem superando o do crescimento da população. Enquanto a
população cresce a uma taxa de 1,36% ao ano, os evangélicos crescem a 5,18%,
conforme pesquisa do Serviço para a Evangelização da América Latina (Sepal). Um
estudo insuspeito, realizado em 1994 por assessores da Arquidiocese de São
Paulo, revelou que em fins de 1980 a comunidade evangélica no país cresceu a
uma taxa de 14%. Estes dois argumentos são de razões práticas. Logo, em
questões de fé a Igreja Católica não responde em nome do povo brasileiro. Seus
dogmas, decretos, bulas e decisões são dirigidos aos seus seguidores. Que Maria
seja a mãe e padroeira dos católicos, nada impede que assim pensem e creiam.
Não se pode admitir que, por decreto, se estenda a deidade de Maria sobre
crentes e não crentes.

Do ponto de vista teológico, não se pode deixar de admitir que o Senhor Jesus é
o nosso único Protetor. Vejamos: “BEM-AVENTURADA [FELIZ] É A NAÇÃO CUJO DEUS É
O SENHOR, E O POVO QUE ELE ESCOLHEU PARA A SUA HERANÇA” (Salmos 33.12); “Deus é
o Rei de toda a terra; Deus reina sobre as nações”(Salmos 47.7-8);
“Bem-aventurado o homem que põe no SENHOR a sua confiança…” (Salmos 40.4);
“Os que confiam no SENHOR serão como o monte Sião, que não se abala, mas
permanece para sempre. Como estão os montes à roda de Jerusalém, assim o SENHOR
está em volta do seu povo, desde agora e para sempre” (Salmos 125.1-2); “Deus é
o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia”(Salmos 46.1).
“Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do
SENHOR, que fez o céu e a terra; o SENHOR é quem te guarda” (Salmos 121.1,2,5).
“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar
misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno”
(Hebreus 4.16). Como se vê, a proteção vem do Senhor. Não vem de santos
falecidos.

O Primeiro Mandamento é categórico: “NÃO TERÁS OUTROS DEUSES DIANTE DE MIM”
(Êxodo 20.3). Já que, como vimos, Maria não é nossa protetora, poderia ela agir
como mediadora, encaminhando nossas petições ao Filho, e este ao Pai? Não, não
pode. A Palavra responde: “Porque há um só Deus e UM SÓ MEDIADOR entre Deus e
os homens, Jesus Cristo, homem” (1 Timóteo 2.5). Se Maria nem ao menos pode ser
mediadora, advogada ou intercessora, como poderia ser nossa protetora, ou seja,
nossa padroeira? Jesus disse: “É-me dado todo o poder no céu e na terra”
(Mateus 28.18). O poder foi dado a Jesus.

Ademais, a Bíblia nos ensina a orar a Deus. Em nenhuma parte, de Gênesis a
Apocalipse, encontramos qualquer mandamento, ensino ou sugestão no sentido de
dirigirmos nossos pedidos a pessoas falecidas. Jesus, indagado pelos apóstolos,
ensinou: “Portanto, vós orareis assim: PAI NOSSO, que estás nos céus…”
(Mateus 6.9). Em outra parte Ele diz: “Mas tu, quando orares, entra no teu
aposento e, fechando a tua porta, ORA A TEU PAI, que vê o que está oculto”
(Mateus 6.6). Logo, seria um contra-senso, e contra a Palavra de Deus, manter
na posição de padroeira de uma nação um ídolo que não pode ser medianeira, não
pode ser depositária de nossas preces, e, por não possuir o atributo da
onipresença, não pode ouvir o clamor dos seus “protegidos”. Não se trata aqui
de desmerecer a mãe de Jesus ou faltar-lhe com o devido respeito. Todavia, não
lhe podemos prestar honras acima do seu merecimento. Ela foi honrada por Deus
porque escolhida entre as mulheres para que acolhesse no seu ventre Aquele que
veio trazer as Boas Novas. Devemos nos espelhar no seu exemplo de fidelidade,
amor, humildade e fé. Honremos, pois, a Maria, mas Adoremos ao Filho, Aquele
que morreu na cruz por nossos pecados.

Para nós evangélicos, a aprovação ou não do projeto de mudança do Padroeiro não
mudará a situação de nossa fé em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ele
continuará sendo, como sempre, o nosso Protetor, nosso Socorro, nosso Auxílio,
nosso Advogado, nosso Mediador, nosso Intercessor, Maravilhoso, Conselheiro,
Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz, Caminho, Verdade e Vida,
Libertador, Videira Verdadeira, Alfa e Ômega, Autor e Consumador da Fé, Cabeça
da Igreja, Cordeiro de Deus, Desejado de Todas as Nações, Deus Unigênito,
Grande Sumo Sacerdote, Justiça Nossa, Legislador, Mensageiro da Aliança, Pastor
e Bispo das Almas, Pedra Angular, Rei, Renovo, Resplandecente Estrela da Manhã,
Senhor da Glória, Senhor de Todos, Senhor dos senhores, Fundamento da Igreja e
Salvador. Jesus, o Santo dos santos.

Parte XXX
Cristo e o
Brasil Urbano

Parte I
De
início este tema pode soar um tanto quanto estranho, mas, se pararmos para
refletir veremos que, este deve ser o objetivo do nosso estudo da Cristologia
bíblica, isto é, apresentar Cristo de forma clara para o nosso Brasil
urbanizado.
Muito da forma pela qual nos vestimos, pensamos e agimos, foi importada de
outros países; não é diferente de nossa forma de lermos as Escrituras.
Infelizmente muitos de nós não consegue relacionar o texto bíblico com o
contexto no qual estamos inseridos – O Brasil Urbano; possivelmente por
herdarmos do Iluminismo uma visão simplesmente racionalista das Escrituras em
detrimento dos aspectos: afetivo, relacional e sobrenatural, não conseguimos ir
além daquele “olhar” superficial do texto bíblico.
Diante mão é importante dizer que, a teologia é uma ciência que se comunica, ou
seja, ela trabalha através do “diálogo” entre a cultura e a Palavra; ela não
conseguirá cumprir o seu papel se não inter agir com o mundo a sua volta
tentando entender os traços: culturais; econômicos; políticos e religiosos do
nosso contexto de vida, e ainda buscando ser absolutamente fiel ao texto
Bíblico lido, fazendo uso de uma Hermenêutica que respeite a Inerrância das
Escrituras e que, procure ao máximo compreender a mente do autor de um dado
livro Bíblico.

Ao lermos a Bíblia temos que ter em mente três elementos: A Bíblia, o Contexto
no qual estamos inseridos e a Missão da Igreja (Barro: 2002). Tendo esta
perspectiva em vista será muito mais fácil para nós aplicarmos as verdades da
Palavra ao nosso “habitat natural”. Assim, vamos olhar para o Quarto Evangelho
e tentar contextualizar em nosso País a sua Cristologia; ou seja, vamos
analisar, mesmo que de forma panorâmica, o paradigma Cristo-Missiológico do
Evangelho de João. Pois bem, depois desta pequena introdução vamos nos deter um
pouco mais no tema proposto. Comecemos tentando abordar um pouco acerca do
nosso Pais; quais as razões que o levaram a ser como é? Por que presenciamos
cenas de miséria e injustiça social em nossa cidades etc.?

Bem, provavelmente no ano de 1980 o Brasil começava a passar pelo que é chamado
de Urbanização; então, o País que era basicamente Rural se encontra agora se
deslocando para as cidades, no afã de conseguir uma vida melhor tendo em vista
a pobreza que, já campeava no ambiente rural por razão do coronelismo do
interior.
Um dos fatores que mais impulsionaram o processo de Urbanização em praticamente
todo o mundo foi a Industrialização e o Desenvolvimento Tecnológico de uma
forma geral. Assim, toda a cultura interiorana dá espaço para a cultura das
grandes Metrópoles.
Hoje, segundo dados do IBGE, temos cerca de 80% da população brasileira morando
nas cidades; e este número tende a aumentar cada vez mais.

Podemos, então, elencar as principais características da vida Rural e da vida
Urbana respectivamente afim de que visualizemos melhor as diferenças culturais
e sociais entre os dois. Conforme observamos, a urbanização trouxe profundas
conseqüências para a vida do Brasileiro. 
Existe ainda um outro desdobramento em conseqüência da Urbanização que,
é a pobreza. Quem morava nos interiores nutria um forte desejo de conseguir uma
vida melhor, então, muitos se deslocavam para as cidades com a azáfama de “vencer”
na vida; no entanto, chegando lá e se deparando com uma triste realidade, tudo
começava a mudar. Por falta de moradia muitos tiveram que, escolher os
barracos; por falta de oportunidades de emprego os pais incentivavam os seus
filhos logo cedo a trabalhar; por falta de “perspectiva” muitos escolheram o
crime.

Assim, o Brasil de hoje é um misto de Pobreza e Riqueza ao mesmo tempo; ele
vive uma espécie de ambivalência, pois em um mesmo bairro podemos encontrar
grandes mansões com vários carros na garagem e, do outro lado da rua miséria
total e gente sem ter nem o que comer. 
Por fim, é possível, portanto, afirmarmos que, presenciamos um certo
traço de Secularização em nosso país, pois o homem do campo respeitava os
valores “cristãos”, no entanto, hoje, o que sobrou foi um completo
distanciamento da moral cristã em razão do Pluralismo e Relativismo típico das
cidades. Tendo já descrito o cenário no qual estamos inseridos vamos, portanto,
no próximo texto adentrar um pouco no Quarto Evangelho para tentarmos aplicar a
sua Cristologia ao nosso País.

Parte XXXI
Apontamento
sobre o livro: “Cristo: Uma crise na vida de Deus”

De Jack Miles – São Paulo:
Companhia das Letras, 2002
NOTA BIOGRÁFICA
DE MILES E COMENTÁRIO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA LEITURA DESTA SUA OBRA Jack Miles
nasceu em Chicago, em 1942. Ex-jesuíta, é doutor em línguas do Oriente e Médico
pela Universidade de Harvard. Foi professor da Universidade da Califórnia e
presidente do Círculo Nacional de Críticos Literários. Dele, a Companhia das
Letras publicou Deus – Uma biografia, vencedor do Prêmio Pulitzer. Para Miles,
Deus tinha um propósito muito mais pessoal do que universal ao enviar Jesus.
Deus, como Jack Miles descreve, estava com sérios problemas diante de suas
criaturas, pois Ele mesmo, o Deus Todo-Poderoso, tinha, ao que parece, perdido
o controle sobre estas. É claro que, mesmo sendo o autor destes apontamentos
feitos sobre o livro de Jack Miles, não concordo com ele, mas, vejo a
importância do estudo sobre a sua obra pelo fato de, através dela, respondermos
uma pergunta muito pertinente que nos acompanha, como leitores da Bíblia
Sagrada: “DEUS MUDOU NA PESSOA DE CRISTO?”

PRÓLOGO
CRUCIFICAÇÃO E A CONSCIÊNCIA DO OCIDENTE
Jack Miles diz que a crucificação, a cena fundamental da religião e da arte
ocidentais, perdeu muito do seu poder de chocar. Atualmente, talvez somente os
não ocidentais possam perceber a crucificação na sua forma real, ou seja, dar o
devido valor a este ato.
A questão que nos sobrevem, segundo o autor deste livro, é a de que, se Deus
teve de sofrer e morrer, então Deus teve de infligir sofrimento e morte sobre
si próprio. Mas, porque Deus faria isso? Uma resposta seria um dito francês:
“compreender tudo é perdoar tudo. Todo criminoso foi antes uma vítima”. Assim,
Albert Camus já tinha escrito, se referindo a Deus, que “ele próprio sabia que
não era completamente inocente”. Se o Cristo crucificado é divino, então os
sofredores são como deuses. Como Deus, o Senhor não pode deixar de existir,
mas, como Cristo, pode experimentar a morte, isto é, sua própria maldição
imposta sobre a humanidade, e assim, compreender tudo, para a tudo perdoar!
O Pai sofre com o Filho, pois o Pai e o Filho são um só com o Espírito. Então,
quando Cristo sofre na cruz, para Miles, o crucificado é ao mesmo tempo
inocente e divino, ele é ao mesmo tempo divino e culpado por ser ele
Deus-homem. Seu lado humano, é o que herda a inocência, e Seu lado divino, ao
contrário do pensamento contido na Hamartiologia comum, é o que herda a culpa.
Deus, com isto, se desculpa tornando-se humano, pois o mundo é um grande crime,
para Jack Miles, e alguém deve ser obrigado a pagar por isso.

1. O MESSIAS, IRONICAMENTE

Neste capítulo, a questão apresentada é a de “o que Deus estava pensando na
eternidade”. A resposta a nós apresentada é que Deus era o todo abrangente
pensamento de si próprio. Em certo ponto no tempo, essa mesma autoconsciência
divina e muda se expressou. Porque Deus fez isto? Porque a raça humana, a quem
Deus concedera domínio sobre o mundo, tinha se distanciado dele. Deus torna-se
um deles. Dessa vez, foi igualmente rejeitado, ainda que por meio dessa
rejeição tenha realizado algo glorioso. Pois, através da rejeição, Ele
compreende o que sentiu a humanidade quando rejeitada por Ele mesmo no
princípio, diante do pecado de Adão. João, o Batista, quando no batismo de
Jesus, a encarnação de Deus, saúda-o como o Cordeiro de Deus. O Cordeiro de
Deus? Jack Miles argumenta que um leão viria mais a calhar! Pois, qual é o
significado dessa estranha frase? Ao referir-se a ele como um animal, o que
João Batista está querendo dizer? Miles assevera que algo impronunciável de
repente fora meio dito. Uma resposta seria a de que, no ritual israelita e
judeu, o que o sacrifício do cordeiro de fato levava embora era mais maldição do
que pecado. Ela representava o reconhecimento da antiga Israel de que o Senhor
ainda não revertera a maldição que havia proferido contra todas as criaturas
humanas logo depois de as ter criado. O animal era inocente, assim como Deus
deveria tomar a forma humana (inocente) diante da culpa divina, e sofrer
humanamente a pena da maldição, que é a morte. A questão, para os judeus da
época de Cristo, foi que o esperado filho de Davi devesse fazer o papel de
animal de sacrifício! Parecia-se mais, para eles, uma blasfêmia. Esperava-se
mais Deus como sacrificador e não como sacrificado, pois o sacrificado levava a
culpa. Porém, era isto que, segundo Miles, Deus estava fazendo, levando sua
culpa. A oferta simbolizava o arrependimento do sacrificante, assim, Deus como
oferta, simboliza Seu próprio arrependimento. Deus arrependeu-se! Mas do quê? O
que ele fez de errado? É aqui onde o demônio passa a ter um papel avaliativo na
capacidade de Jesus como Deus.
Quando o Demônio mostra possuir um certo poder físico sobre Jesus, leva-se, com
isto, à pergunta que ele quer ver respondida. Especificamente: quanto poder
Jesus tem de fato à sua disposição? Quando o Demônio sugere que Jesus
transforme a pedra em pão, está se referindo a muito mais do que à mera fome.
Por trás da sugestão, está a memória de um momento anterior no deserto quando o
Senhor alimentou toda Israel com comida miraculosa. O que o Demônio está
realmente dizendo a Jesus é: “Você é Deus, o deus que, naquela época, realizou
o milagre do alimento no deserto? Se isso é verdade, prove-o realizando outro.”
O demônio diz: “Dar-te-ei toda esta autoridade (…) porque ela me foi
entregue”. Foi entregue por quem? Por quem, se não pelo próprio Senhor? uma
pergunta interessante, que Miles faz é que, será que o demônio que desafia
Jesus não o estará fazendo em nome do Deus que lhe “havia entregado” esse
poder? Pois, Deus entregara o mundo ao Demônio quando Adão e Eva pecaram. Jesus
não reivindica o poder ao seu oponente, mas, mostra que poderia fazê-lo, pois o
poder definitivo está com o Senhor. o que Jesus deixa em suspenso, é a questão
de “se” e “quando” irá reivindicar o poder que, no fim das contas, é seu.
A pergunta diante de tudo isto nos é apresentada no livro de Miles, como: “Por
que ele se contém tanto?” Esta pergunta, poderia até ser respondida com outra
pergunta: “Que confiança Jesus tem em si próprio?” Estará Jesus mantendo-se com
grandeza acima da briga? Ou será sua preocupação a preocupação do seqüestrado?
A questão do “Cordeiro de Deus” continua em aberto. Como pode um imperador ser
um cordeiro, ou um cordeiro ser um imperador? Mussolini disse: “Vale mais um
dia como leão do que mil anos como cordeiro”.
Jesus realiza seu primeiro milagre, como diz Jack Miles, relutante. Este
primeiro milagre, não foi uma mensagem aos convidados da festa em si, mas aos
seus discípulos. A primeira ação pública da carreira de Jesus, foi na verdade
um ataque ao Templo. A destruição do primeiro Templo, Deus deixou claro na
época, não foi obra da Babilônia, mas sua. Assim, Jesus demonstra que ele é o
mesmo Deus que usou a Babilônia. Porém, na sua ameaça contra o Templo, tentava
ele mostrar uma tipologia entre o Templo literal, com o Templo figurativo, que
era seu corpo. O cordeiro expiatório é familiar; um cordeiro humano é estranho.
O Templo é igualmente familiar; um templo humano é estranho novamente. Então,
na verdade, quando disse para destruírem o Templo, estava desafiando-os a
matarem-no.

A capacidade do Deus encarnado de “saber o que era a natureza humana” foi sendo
adquirida gradualmente. Jesus, invariavelmente, parece compreender os desejos
de seus interlocutores melhor do que eles próprios. Isto, provavelmente, porque
ele, agora que era humano, tinha a totalidade do conhecimento do que é ser
humano.

Jesus fala a Nicodemos sobre uma nova criação, mas privadamente. E mostra ao
sábio fariseu que, apesar de seus conhecimentos terrenos, ele não podia ainda
falar se Jesus vem de Deus ou não, pois esta capacidade é dada aos
“regenerados” apenas.
Jack Miles diz que no A.T., Deus é desatento consigo mesmo. Já no N.T. Ele
torna-se obcecado por si próprio. Prova disto, mostra-nos o autor, é quando
Deus diz a Moisés que Ele é o “Eu Sou” – Miles diz que este é Seu nome nu e
cru. É como se Deus desse um nome a si mesmo, naquele instante, ao descobrir a
necessidade de um nome. Ele não vive entre outros deuses, por isto não precisa
de um nome, mas passa a lidar com seres humanos, e também com a idéia de outros
deuses, então, agora necessita de um nome.

No caso da serpente de bronze do deserto, Deus mostra aos israelitas que Ele é
a doença e também o remédio. Assim, as serpentes não eram a causa de suas
mortes, mas sim Deus. Jesus, se referindo a este fato, diz que Ele será
levantado da mesma forma que a serpente de bronze no deserto. Olhando para
Jesus, como para a serpente no deserto, estariam olhando para a causa e também
para a cura de seu sofrimento. O mundo precisa ser salvo, mas para tal,
necessita-se de uma nova criação, pois este mundo está perdido. Porém, conforme
Miles, a nova criação requer a morte do criador.
Um ponto muito complicado tratado neste livro, foi a questão da assexualidade
do Pai e a sexualidade do Filho. Segundo Miles, os “filhos de Deus” (Gn. 6),
parecem descobrir o sexo somente quando encontram as filhas dos homens. Deus é
celibatário porque é o único de sua espécie. Então, surge a questão que Jack
Miles nos mostra, que, o que João quer sugerir quando chama o Deus encarnado de
noivo? Surge então uma pergunta muito interessante, se Deus agora está
encarnado, vivendo como um homem, não poderia ele consumar um casamento comum a
si mesmo? E se isto tivesse ocorrido? Quando os evangelhos foram escritos, o
celibato era considerado condição apropriada para qualquer filósofo. Deus, em
toda a história, não recrimina o sexo, mas sim a libidinagem. Sendo assim, até
mesmo em suas conversas figurativas dirigidas ao Israel rebelde, Ele mostra-se
como um marido enfurecido pela incontinência sexual de sua esposa, e não pelos
desejos em si. Miles escreve que quando Deus fez Eva para Adão, não a fez para
gerar filhos, mas para que o homem não estivesse só. Desta forma, a procriação
teria começado apenas depois da “queda”, quando a imortalidade foi perdida. A
reprodução passa a ser, conforme esta visão, uma evidência da maldição. Com
isto, o autor chega à conclusão que se não tivesse morrido cedo, Jesus teria se
casado.  No desenrolar de suas
manifestações no N.T., Jesus admite que é o Messias, mas a uma mulher
samaritana, considerada na época, pelos judeus, como herege. Jesus fez isto,
segundo Miles, para dar a entender aos judeus que eles eram como aquela mulher,
adúltera e, assim como os judeus consideravam os samaritanos, herege. A mulher
interpreta a atenção de Jesus a ela, como um flerte, mas Jesus corrige seu
pensamento sobre ele. Assim como a mulher teve cinco esposos (senhores), sem
nenhum ser seu marido, os samaritanos tiveram vários deuses, sem nenhum deles
ser o verdadeiro Deus. Jesus se apresenta a ela como o “Eu Sou”, e ela
acredita-lhe, pelo mesmo motivo que levou Natanael a acreditar-lhe, Jesus leu
sua mente e seu passado. Jesus mostrou à mulher samaritana que a salvação vem
dos judeus, mas não acaba neles. Seus discípulos vêm esta sua atitude como
promiscuidade, uma simbologia à promiscuidade de Deus, isto é, simbolicamente,
seu interesse por outros povos.
Para findar este capítulo, Miles expõe a questão de “quem seus discípulos
pensam ser ele”. Foram-lhe conferidos alguns papéis, na seguinte ordem de
aparição: 1. Juiz; 2. Cordeiro de Deus; 3. Messias (Filho de Davi e Filho Adotivo
de Deus); 4. Filho do Homem; 5. Templo; 6. Noivo; 7. Profeta e Legislador (Um
Segundo Moisés).

2. UM PROFETA CONTRA A PROMESSA

Sua primeira cura, já foi, diante do pensamento judeu, contrária, pois curou
uma criança romana (Jo. 4:49-53). Parece que Jesus tenta esconder algo, talvez
todo seu poder? Um demônio, num breve encontro com Jesus, parece tentar rasgar
seu disfarce (Lc. 4:33-37), dizendo: “Eu sei quem você é.” Também nos é
sugerido aqui, que como Deus encarnado, Deus parece haver perdido seu apetite
por punições.

Em Lucas 4:16-22, Jesus disse que a profecia de Isaías 61:1-2 que diz: “hoje se
cumpriu”, estava em seu pleno cumprimento nEle. Isto fez com que os homens de
Nazaré, insultados, tentassem matá-lo. Jesus diz, em Lucas 4:25-27, que Elias
deu atenção aos estrangeiros, ao invés de usar todo o seu tempo aos israelitas.
E é aqui onde Miles pergunta se será que Jesus está sugerindo, de forma
escandalosa, que a profecia que “hoje se cumpriu” será cumprida não em
benefício de Israel, mas sim de seus vizinhos e inimigos? Sugerir que Elias, em
seu retorno, empregaria seus poderes em benefício de outras nações, em vez de
Israel, é um misto de blasfêmia e traição. Se “liberdade para os cativos”
refere-se a alguma outra coisa que não a liberdade de Israel do jugo
estrangeiro, o que seria? A grande pergunta que pairava no ar, enquanto esta
mensagem de Jesus estava sendo proferida em Nazaré, era: “Não é este o filho de
José?” a resposta é sim, e deve ser sim. Na verdade, não foi a maneira do
nascimento de Jesus que daria-lhe autoridade divina, pois Deus poderia
facilmente ter introduzido a concepção em uma virgem sem que, no momento em que
ela desse à luz, ele próprio fosse o bebê. É a identidade do bebê, não a
maneira do nascimento, que é inédita. Maria fica sabendo, por Gabriel, que seu
filho será o Messias, o descendente do rei Davi e que restaurará a grandeza de
Israel. Ainda tratando do nascimento de Jesus, Miles nos suspende com a
seguinte afirmação: “Deus poderia ter se tornado humano sem começar sua
existência humana no útero de uma mulher. Mas, Deus não quis privar-se do
momento tão conhecido e diferenciado, que é o nascimento. Apesar de todos os
bebês serem parecidos, todas as cenas de nascimento são diferentes entre si.
Outra coisa bem frisada nesta parte do livro, é que Jesus nasceu em um momento
humilhante da vida dos judeus, propositadamente, é claro – pois estavam
passando por um censo conduzido por um poder estrangeiro. Algo chocante é o
fato de Deus se submeter a este tipo de humilhação, ao invés de acabar com esta
dominação gentílica sobre seu povo, para mostrar o poder de sua encarnação.

Fato é que, Jack Miles chega à conclusão que Deus repudia, com suas atitudes
por intermédio de Jesus, seu passado guerreiro. Deus não havia mudado seu modo
de pensar, pois punição ainda era punição para ele, e recompensa ainda é
recompensa; só que a entrega de uma e outra acontecerá no céu e não na terra. O
marco distintivo do ensinamento de Cristo, é a frase “oferece a outra face”.
Mas, será que Deus faz mesmo assim? Jack Miles, afirma que Deus, na verdade
está em mudança. Porém, qual é a razão de sua mudança? Não há resposta para
tal, segundo o autor! Simplesmente Deus quis mudar. Quando Jesus diz “eu porém
vos digo”, para Miles é uma revisão do que Deus havia dito no passado, ou seja,
é a prova da mudança de opinião da parte de Deus.

Porque Deus, ao invés de agir como no passado, diferenciando uma nação especial
das demais, agora nivela a todos? A resposta de Jack Miles é que na maior crise
de sua vida, Deus faz da terrível necessidade uma virtude heróica.

O autor do livro em apreço, diz que Deus, na verdade, não pode ser respeitado
pelo seu poder apresentado aos judeus da época de Jesus. Ele pode, no máximo,
ser honrado por serviços prestados no passado, pois, a Segunda parte da
promessa de punição-e-reabilitação de Deus nunca foi cumprida. Assim, em vez de
declarar sem disfarces ser incapaz de derrotar seus inimigos, Deus pode
declarar que não tem inimigos, que ele agora se recusa a reconhecer qualquer
distinção entre amigo e adversário. Miles, diz que isto não custou nada a Deus,
e que além disto, Ele impôs sua própria carga sobre nós, ensinando-nos a
amarmos nossos inimigos.

Deus, na verdade, estava se desarmando, segundo Miles. O autor ainda cita que
em Daniel 7, tem a visão dos reinos: babilônico, medo, persa e grego (segundo a
simbologia de cada animal apresentado na visão). Assim, o quinto reinado seria
o de Deus, e isto não aconteceu no N.T. Schweitzer também afirmou que Jesus
acreditava, que por sua própria morte, Roma cairia, que a história terminaria e
o Reino de Deus seria estabelecido até o final dos tempos. Para Jack Miles, os
judeus tinham que reconhecer o óbvio, Deus não estava atrasado em suas ações
guerreiras, na realidade, Ele não era mais o Deus guerreiro. Assim como Deus se
priva de dar o direito de alguém exigir-lhe que volte a ser o que era no
passado, Deus também não exige mais de sua nação antes escolhida, que ajam
dentro de sua lei passada! Deus isenta-os da lei, pois Ele mesmo se isentou de
ser aquele tipo de legislador.

Como foi que o guerreiro divino acabou pregando o pacifismo? Miles sugere a
seguinte resposta, que Deus criou uma nova virtude humana a partir de sua
necessidade divina. Encontrou um modo de transformar sua derrota em vitória,
mas a derrota veio primeiro. O preço do pacifismo de Deus, segundo o autor, foi
o assassinato de João Batista. O representante de Israel, o judeu devoto por
excelência, é João, que ouve a triste notícia de Deus, que as promessas da aliança
não serão mantidas, ou que serão mantidas de uma forma totalmente diferente, a
ponto de tornar-se em nova aliança.

Subitamente, Jack Miles dá uma freada em sua tese do processo de mudança de
Deus, a afirma que alguns de seus traços antigos ainda subsistem. Sua ruptura
com a violência não implica renúncia a todas as formas de resistência. A
prostituta que beija-lhe os pés, na realidade, ensina-lhe o poder da vítima
sobre o agressor. Herodes mata João Batista, mas fica atormentado das idéias,
com medo de João retornar à vida.
Roma tentou empregar a morte como meio de entretenimento, e isto chocou os
judeus, porém, os judeus cristãos chocaram de igual modo os romanos, tornando o
martírio em forma de protesto e até mesmo de honra (segundo o professor Jorge
Pinheiro). A tortura passa a não demonstrar apenas coragem, mas também passa a
funcionar como meio de mudar a mente do torturador. Apesar de não ser essa a
promessa de Deus aos judeus, Ele agora os ensina a vencer seus opressores sendo
cordeiros.
Quando Jesus acalma a tempestade, está demonstrando a marca distintiva de Deus,
que é o poder sobre o mar. Isto trás as pessoas mais para perto de si, pela
curiosidade do “quem é este”. Porém, quando ele fala em beber sangue, muitos o
abandonam. Parecia-lhes que Jesus estava ensinando o canibalismo. O sangue
sempre era proibido como alimento aos judeus. O cordeiro, para ser sacrificado,
precisava ter sido esgotado de seu sangue, principalmente se este fosse ser
servido como alimento. A vida está no sangue. Porém, aqui está um simbolismo,
pois o cordeiro literal não tinha o poder de dar a vida ao ofertante, enquanto
o Cordeiro de Deus – Jesus – tinha tal poder, por isto, seu sangue poderia ser
bebido – simbolicamente – na Ceia do Senhor.

3. O SENHOR DA BLASFÊMIA

Em primeiro lugar, para confirmar isto, Jack Miles cita que Ele,
flagrantemente, viola a lei do descanso no Sábado.
A resposta mais conflitante deste capítulo, parece, foi a que seguiu-se à
seguinte pergunta: “Mas é porque Jerusalém está rejeitando Deus encarnado que
ele os abandonará aos romanos?” Respondendo a tal inquirição, Miles diz que
também é possível, do mesmo modo, que seja o contrário. Como Deus sabe que
abandonará Jerusalém aos romanos, deve arranjar para que Jerusalém o abandone
aos romanos primeiro.

Quando Ele recusa condenar uma adúltera, pela lei que Ele mesmo estabelecera,
para Miles é uma amostra de que Ele se tornou mais misericordioso. Na verdade,
o autor diz que com este ato de não condenar aquela mulher pela Lei, também
deixará de condenar Israel pela Lei. O Senhor Deus é, de fato, réu, e sabe do
que pode ser acusado, mas sua maneira de pedir misericórdia é difundir a
misericórdia. Em poucas palavras, Miles diz que diante de seu povo pecador
porém sofrido, Deus pode não só ser misericordioso, como também penitente. Se
Jesus parece condenado, só pode ser porque Deus condenou a si próprio.

Em João 10:11-21, Jesus mostra que, na realidade, sua morte era um suicídio em
benefício de todos. Este tipo de suicídio, Dietrich Bonhoeffer assevera como
desculpável diante de Deus, em seu livro “Ética”, dizendo: “O ser humano pode
sacrificar sua vida física em favor de outrém, pois é livre para morrer. (…)
Esta liberdade de morte está condicionada no sentido de que o alvo não seja a
destruição da vida, mas, o bem visado no sacrifício.” (Dietrich
Bonhoeffer. Ética).
Na sua
morte, Deus na verdade não está derrotando Roma, mas sim, o poder afligidor de
seu verdadeiro opressor, o Diabo, e na sua ressurreição, está vencendo o
império da morte e não o império romano. Prova de que sua morte, na realidade
estava dentro de seus planos, é que, primeiro ele inclina sua cabeça, e depois
morre. Normalmente o processo é o contrário quando a morre-se, pois o inclinar
de cabeça é a consequência da morte. Assim, a teologia da expiação
conservadora, entra em atrito com esta afirmação, pois não é mais Deus
sacrificando Jesus, mas sim, Deus sacrificando-se em Jesus.
Com isto, Deus resolve a grande crise em sua vida, pois derrotando César, Ele
poderia recuperar a terra de Canaã, mas essa não é a guerra que ele escolhe
lutar. Ele escolheu, em vez disso, derrotar Satã e, assim, derrotar a morte em
si mesma e levar seu povo para a nova terra prometida da vida eterna.

Miles diz que Jesus é como um político astuto, que responde à pergunta que
preferiria tivesse sido feita, ao invés da pergunta exposta pelos que lhe
rodeiam. Assim, Jesus leva seus ouvintes a três assuntos direcionados, os quais
são: o adultério, o suicídio e a escravidão. Por causa desta habilidade de
Deus, de mudar de assunto sem ninguém se tocar, o autor do livro comentado
aqui, diz que o monumental assunto central de toda a história israelita foi
mudado com sucesso. A pergunta irrespondível foi abandonada deliberadamente.
Embora o preço completo ainda esteja por ser pago, a crise na vida de Deus foi
resolvida.

O novo mandamento de Deus, passa a ser a bondade com os estranhos. É como se o
calendário tivesse voltado para o sexto dia da criação. E Deus, não o homem,
tivesse o direito de recomeçar sem os erros iniciais dantes cometidos. Aqui Ele
tem o direito de reconstruir a própria identidade, pois na passada, Ele não
conseguiu se firmar. Sob o novo regime, ainda há distinções de povos, porém,
estas distinções deixam de ser étnicas e passam a ser éticas. A destruição de
seus inimigos, assim, deixa de ser no desenvolvimento da história, e passa para
o fim da mesma. O crescimento do joio junto ao trigo, passa a ser a resolução
da crise na vida de Deus. Neste novo regime, a adoração à Deus torna-se
dependente da bondade aos estranhos. Como sinal de sua nova maneira de agir, de
sua nova vitória, não contra Roma, mas contra a morte, ele ressuscita a Lázaro.

4. O CORDEIRO
DE DEUS
Esta é a mudança na mente de Deus. Ele não é mais o sacrificador, mas o
sacrificado. Deus era responsável pelas ações nacionais e internacionais,
diferentemente dos deuses pagãos, que se dividiam nestas funções. Agora, na
nova aliança, Ele passa a ser Deus internacional, indiferente ao que sofre uma
nação, seja ela quem for. O Deus da guerra torna-se o Deus da sabedoria. Deixa
suas ações concretas para empenhar-se muito mais em ações abstratas. Para
Miles, esta inatividade militar de Deus é uma saída para que não o consideremos
como fracassado.
Miles escreve que o poder de Satanás é a explicação do porque Deus não manteve
suas antigas promessas aos judeus. É Satã quem deve finalmente ser dominado; é
ele quem deve finalmente ser forçado a reconhecer a manifesta superioridade do
Senhor. na instituição da Páscoa, no Egito, Deus queria ser reconhecido como o
Senhor dos Exércitos, na última Páscoa de Jesus, ele escolhe desempenhar o
papel de cordeiro pascal.

O que na realidade complicou a vida humana, não foi a implicabilidade do pecado
de Adão e Eva, mas sim, a implicabilidade da maldição que Deus lançou sobre
eles. Para tal, antes Deus mandava que oferecessem-lhe sacrifícios, em Jesus,
Ele é o sacrifício. Deus vence, com isto, o sistema mundial entregue a Satanás,
e não o mundo em si, com seus reinos e reis.

Jesus, assim como os patriarcas do A.T. faz seu discurso antes de sua morte. Os
discursos dos antepassados judeus, eram proféticos e didáticos, assim com o de
Jesus. Porém, o de Cristo é bem diferente em conteúdo. Ele recorre, para o
ensino profético e didático, ao gesto teatral de uma ação ritual: 1. Ele lava
os pés de seus discípulos; 2. Ele prevê traição, mas prega amor; 3. A Ceia do
Senhor (aqui é o porque o sangue pode ser bebido simbolicamente, pela vitória
contra a morte); 4. Tende bom ânimo, eu venci o mundo (resistindo a afronta).

Jesus, então, é preso, julgado, açoitado e condenado. Com isto, ele cria um
perfil não militar, para Miles, de sucesso político, que é o de ser
bem-sucedido na paz. Desta forma, não poderão mais os povos rirem do povo de
Deus quando este passar pelo ridículo, pois foi pelo ridículo que seu Deus
também passou e suportou! Por mais blasfemo que possa parecer a um judeu, Ele é
crucificado como o Rei dos Judeus.
Ele volta à vida, se corporifica, ascende aos céus e se casa. É assim que Jack
Miles define os próximos passos de Jesus. Quando Jesus volta à vida, ele faz o
mesmo papel que Gabriel fez a Daniel, o de exegeta. Assim, Miles chama a
entronização do Cordeiro de Deus de uma comédia, de ridícula, pois mais parece
uma exegese forçada para ele. Ainda mais no ponto onde há uma referência ao
casamento de Cristo com a Noiva, que como tantas comédias, termina em
casamento.
A mudança da mente de Deus é o grande assunto da Bíblia Cristã, segundo o autor
em deste livro comentado. Deus quebrou a sua promessa, para Miles, porque na
hora certa não conseguiu ir adiante, como se tudo tivesse fugido de seu
controle. Desta forma, Deus teve de aprender a como vencer na derrota.

EPÍLOGO

O Jesus ao qual Jack Miles tratou neste livro, como ele explica em seu epílogo,
é o Jesus literário e não o histórico. O Jesus literário não passa pela
problemática do histórico, pois o literário é tanto divino quanto humano. A
crítica histórica lê a Bíblia como a autocaracterização de um autor. Já a
crítica literária está livre para beber o vinho.
Para o autor, Deus Filho não é absolutamente o tipo de homem que alguém
esperaria que Deus Pai se tornasse. A questão é que Deus tinha algo tão
chocante a dizer, que só poderia dizê-lo humilhando-se a si mesmo. Ele apenas
substituiu uma esperança vã, firmada erroneamente por ele mesmo, por uma que
ainda pode ser realizada. Para tal, como Deus ele não pode parar de existir,
então tomou a forma humana para dramatizar a substituição de sua mensagem,
morrendo, daí ressurgindo com novas promessas!
Os exegetas cristãos receberam um tipo de convite para ouvir o A.T. no N.T. de
modo harmônico. Portanto, a apreciação literária cultiva referências internas,
de preferência a referências externas. Fazendo assim, têm-se feito o que os
autores do próprio N.T. fizeram. A Bíblia, para a crítica literária é como uma
janela de vitral (rosácea), porém, não devemos ver através dela, mas sim, ela.
Rudolph Bultmann afastou-se da tese reformada do sola scriptura e definhou-se
pelo pensamento crítico do sola fide. Porém, Schweitzer já havia seguido este
caminho anteriormente.
Os pré-modernos ensinaram a não vermos através da Bíblia. Pois esta, deveria
passar pelo crivo do se é verdadeira ou não. A partir do momento que é tida
como verdade, a mente está livre para explorar a Bíblia. Como disse o próprio
Jack Miles: “Não há nada a ser feito no Davi de Michelangelo; o cinzel já o
tocou pela última vez. (…) O que atrai os espectadores, crendo ou descrendo,
para a rosácea da Bíblia, não é o que pode ser visto através dela, nem como os
vidros foram coloridos e juntados, mas o que o vitral mostra em si mesmo e por
si mesmo, e o que todos estes fragmentos recortados de luz e cor, operando
juntos, fazem acontecer atrás dos olhos do observador”.

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