Apostila 26
Curso de Teologia de Missões
Parte I
A
FRAGILIDADE DE MISSÕES
Parece claro à todos nós, que a igreja do chamado terceiro mundo
tem tido e terá uma grande e importante participação no avanço do Evangelho em
termos mundiais nesse novo milenium. Não podemos negar que houve uma vasta
mudança no centro de gravidade em missões e que agora possuímos uma nova
agenda. Cristãos vindos da Asia, África e América Latina para a Europa, ficam
impressionados e até mesmo chocados com o declíno do cristianismo nesse
continente. Em geral eles encontram um cristianismo apologético e ansioso para
assegurar à todos que eles não querem impor a sua fé sobre ninguém.

Isto acontece ao mesmo tempo em que testemunhamos um vibrante crescimento da Igreja
de Cristo, jamais visto em toda história, especialmente no chamado terceiro
mundo. Patrick Johnstone1, quando fala sobre o crescimento dos evangélicos nos
últimos quarenta anos, ressalta que esse crescimento tem acontecido
predominantemente nas partes mais pobres do mundo. Citando a América Latina e o
que tem acontecido em nosso continente, especialmente na década de 70, nos faz
sentir que vivemos num verdadeiro tempo de Deus (kairos). Tempo esse que com
certeza nenhum de nós quer perder. Continuando ele declara que “existem mais
evangélicos no Brasil do que em toda Europa”, o que deveria ser motivo de
alegria, mas quando pensamos no velho continente e o que ele significa para
todos nós hoje, não só como o berço da Reforma Protestante mas também em termos
missionários. Sem dúvida alguma sentimos a grande responsabilidade que pesa
sobre todos nós.

Porém, quando no meio de todo esse processo, começamos a refletir em nossa
participação e em como podemos contribuir com a obra missionária como um todo,
logo vamos nos deparar com algumas realidades desfavoráveis. Elas denunciam
nossas muitas fraquezas, inabilidades e falta de poder político e econômico
para abrir o caminho à nossa frente. Pois essa foi uma das alavancas
impulsionadora do Cristianismo em direção ao chamado terceiro mundo no passado.
David J. Bosch2, menciona o fato de que “era natural para as nações do ocidente
argumentar que aonde quer que o poder delas fossem a sua religião também tinha
que ir”.

Não podemos esquecer que somos um Continente marcado pela instabilidade
política e que também vive sob o signo da instabilidade econômica. Nem tão
pouco devemos esquecer que quanto ao nosso contexto social estamos mais para
recipientes do que para doadores. Além do mais no que diz respeito a missões,
como disse Newbigin, que mesmo vivendo em um mundo globalizado ainda possuímos
uma mentalidade paroquial3.

Indubitavelmente, esse é um quadro que tem profundas implicações em nosso fazer
missionário. Creio que até podemos dizer que essa é realmente uma das fraquezas
de missões a partir do chamado terceiro mundo e também um dos nossos pontos
mais vulneráveis. Segundo a Revista Mission Frontiers, citando estudo feito
pela World Evangelical Fellowship Mission Comission4, falando sobre o Brasil,
diz que entre as causas de atrito indesejável que acontecem anualmente com
missionários no campo fazendo-os voltar ao país de origem, são encontrados
basicamente cinco fatores que alistados por eles são: Treinamento inadequado;
falta de sustento financeiro; falta de compromisso; fatores pessoais tais como
auto-estima, stress e problemas com colegas. Todos estes aspectos refletem um
pouco daquilo que somos enquanto igreja neste momento histórico e do nosso
envolvimento com missões mundiais.

Talvez devéssemos concordar com alguns que pensam que, neste exato momento de
nossa história, não estamos amadurecidos o suficiente para participar em tal
projeto ou mesmo nos questionar: Será que podemos, enquanto igreja do mundo
pobre, fazer Missão?

Penso que deveríamos fazer algumas considerações que talvez venham a nos ajudar
em nossa reflexão. Segundo Antonio Carlos Barro5, devemos lembrar que até mesmo
todos esses fatores que pesam contra nós, acabam se tornando um ponto positivo
em nosso fazer missionário. Dizendo ele que uma das razões pelas quais as
igrejas do chamado terceiro mundo não poderiam imitar as igrejas ricas do
primeiro mundo se dá justamente por causa da sua pobreza. Também citando, no
mesmo artigo, René Padilla quando afirma que as nossas igrejas continuam a ser,
de uma maneira geral, as igrejas dos pobres e as igrejas para os pobres.

Creio que é exatamente para dentro desta dimensão que deveríamos nos mover e
refletir a nossa ação missionária, enquanto igreja do terceiro mundo. Se torna
fundamental para nós neste momento, não só entendermos o papel que temos que
desenvolver em nossa missão, mas como também buscar uma compreensão mais clara
da natureza e origem da missão que nos alcançou. A priori este é um chamado
para entender de onde viemos e para onde estamos indo em nossa caminhada.

Primeiramente, creio que devemos entender que Missões é um ato da Soberania de
Deus. Não é pelo fato de não pertencermos ao chamado primeiro mundo que devemos
nos privar do privilégio de fazer Missões. Não é o quanto possuímos ou o que
temos sobrando que conta. Nem mesmo o poder, quer seja ele econômico ou
político, que deve nos motivar em nosso envolvimento em missões, pois foi em
aparente fraqueza, debilidade e pobreza que a salvação de Deus chegou até nós.

Foi exatamente isso que Isaías expressou quando pintou o quadro da fraqueza e
debilidade do Servo Sofredor. A mensagem parecia tão absurda e sem sentido para
aqueles que a ouviam, que ele diz: “Quem deu crédito à nossa mensagem?”6. Como
podiam crer que o Deus criador de todas as coisas, que havia mostrado os seus
atos salvíficos de modo tão poderoso, podia manifestar uma tão grande salvação
morrendo daquela forma? Quem na verdade queria se associar com essa figura sem
expressão e sem poder algum, que parecia incapaz de salvar-se a si mesmo?.
Quando ele descreve o Salvador diz que “…Não tinha parecer nem formosura; e,
olhando nós para Ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos.”7. O que
fica implícito no texto é que foi através da fraqueza do servo que a salvação de
Deus, não só se tornou possível, mas como também se manifestou.

Paulo mais tarde usa Isaías como background para fundamentar a mensagem das
Boas Novas. Ele afirma que aquilo que aparentemente era frágil se revelou em
uma tremenda demonstração do poder de Deus e consequentemente todo aquele que
põe sua confiança Nele tem salvação. Creio que o ponto aqui é exatamente o fato
de que Deus, para alcançar seus propósitos usa aquilo que aparentemente é
frágil para revelar a sua salvação aos povos. “Deus em sua soberania escolhe as
coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as
que são; para que ninguém se glorie perante ele.”8 Foi assim que em meio ao
aparente fracasso, Deus manifestou salvação à toda humanidade, com poder ao ressuscitar
Jesus de entre os mortos. Em segundo lugar, devemos entender que Missões é um
ato de fé. Era para isto que Isaías queria chamar nossa atenção quando afirma
“…O teu Deus reina9”. Esta foi a mensagem das Boas Novas anunciada por ele,
mesmo antes de falar sobre o Servo Sofredor. Israel, enquanto povo de Deus, não
entendeu que aquele que o chamou de entre os povos estava no controle de todas
as coisas. Ele reina e os seus propósitos serão efetivados e sómente Ele vai
ser glorificado e honrado por isso. O chamado é para Israel confiar em Deus,
crer que para Ele tudo é possível. Em nossa caminhada missionária não devemos
esquecer de crer que ele reina e está no controle, e que qualquer projeto
missionário é viável porque Ele reina. Quem de nós cria que alguns anos atrás,
a cortina de ferro, viria a baixo e que as portas da Rússia se abririam para o
Evangelho? Quem acreditava que o Evangelho sobreviveria na China comunista após
a expulsão de todos os missionários? Independentemente das circumstâncias, Deus
está no controle. A nossa certeza tem que estar naquele que, como disse João
Batista, “…até destas pedras Deus pode suscitar filhos à Abraão.”10  Mesmo em aparente fraqueza e debilidade a
igreja do chamado terceiro mundo deve crer que aquele que reina, tem um chamado
para seu povo independentemente de sua condição econômica, política ou social.
Ele a esta chamando não por causa da força ou poder que ela porventura possua
em si mesma. Ele a está chamando para que ande em obediência de fé, não olhando
o tamanho de nossas congregações ou mesmo estar preocupados com a situação
econômica e política do nosso país, que nos enfraquece. Creio que é exatamente
neste contexto que Deus encontra o ambiente ideal para demonstrar o seu poder.
O que cabe a nós é simplesmente ser fiéis. Entregar à Ele nossos talentos,
recursos e energia como reconhecimento de que Ele reina. Para assim cumprirmos
nosso papel no mundo. O que resta então para nós, a luz do que foi dito acima,
é pensar em como tudo isso pode afetar, de maneira prática a nossa expressão
missionária no mundo, enquanto igreja dos pobres. Pensar em como podemos
caminhar, mesmo em aparente fraqueza, em obediência ao chamado de Deus.
Primeiramente, penso que deveríamos fugir da tentação de ver missões como
resultado de um mandato que pesa sobre nós enquanto Igreja. Abordando esse
assunto Lesslie Newbigin diz que existe uma longa tradição que vê a missão da
Igreja, primariamente como obediência a um mandato.11 Continuando ele diz:
mesmo que esse venha a ser o caso, isso faz com que a tarefa missionária seja
encarada muito mais como um fardo, do que como uma expressão de alegria. Muito
mais como parte da Lei, do que da Graça de Deus. Missões no inicio da Igreja
Cristã acontece primariamente como uma explosão de alegria, daqueles que
tiveram um encontro pessoal com Jesus. Mais tarde, daqueles que descobrem que
Jesus está vivo e que são impulsionados a contar aos outros esse fato
extraordinário que não podia se escondido. Esta é uma das características da
igreja do chamado terceiro mundo, que deveria ser preservada em nossa caminhada
missionária. Muitas igrejas tem crescido ou são plantadas como fruto do esforço
daqueles que, tendo sido alcançados por Deus, se sentem impulsionados pelo
desejo de compartilhar alegremente as Boas Novas com suas famílias, vizinhos,
amigos e parentes. Este é um dos aspectos que temos para contribuir enquanto
igreja obediente. O simples fato de querer alegremente, compartilhar com outros
as Boas Novas sem constrangimentos, nos leva a ser efetivos em missões.  Em segundo lugar, creio que a nossa
fragilidade nos leva, inevitavelmente a uma interdependência, ou seja
dependemos uns dos outros para a realização da nossa tarefa. É de capital
importância para nós, realizar a obra em parceria com o resto do Corpo de
Cristo no mundo.

Aprender com outras igrejas e contribuir com elas (e elas conosco) no esforço
missionário, deve ser a nossa prioridade nessa área de parceria. Dentre as
muitas coisas que temos que aprender com estas igrejas, e que não deveríamos negligenciar
são: suas estruturas e como elas funcionam em todo o processo para melhorarmos
também as nossas próprias estruturas e fazê-las funcionar de maneira correta;
seu cuidado para com aqueles que são enviados por eles; qual o tipo de
treinamento oferecido; visão de ministério e etc.

É preciso que entendamos que essa deve ser uma parceria aonde os obreiros da
igreja do chamado terceiro mundo, sejam reconhecidos como parceiros de verdade,
tratados no mesmo nível, tendo seus dons e ministérios reconhecidos, como uma
contribuição a ser dada para a maturidade do Corpo de Cristo. Já não existem
mais Judeus e nem Gregos, escravos e senhores, pois fomos feitos um em Cristo.
Em último lugar, a vantagem dessa igreja é que ela só pode contar com o poder
de Deus para levar adiante a mensagem do Evangelho. Essa presença pode ser
notada na forma como o Espírito Santo de Deus tem operado através dela e feito
ela expandir.

Queria destacar a idéia tão bem expressada por Newbigin12, quando fala sobre a
presença de poder velada na fraqueza. Num mundo de tantos conflitos étnicos e
animosidade, especialmente contra a dominação dos países do primeiro mundo,
considerados cristãos e opressores. Uma igreja que não possua o poder político,
está livre do peso de tentar usar poderes humanos para dominar e influenciar o
mundo.13  Uma boa maneira de pensar sobre
tudo isso que temos falado até agora, é conforme descrito por David J. Bosch14,
citando D. T. Niles, quando retrata missões como um mendigo contando a outro
mendigo aonde encontrar pão. Creio que poderíamos dizer que nós somos (enquanto
igreja dos pobres) tão dependentes desse pão quanto àqueles para quem nós
estamos indo e que a medida que o compartilhamos podemos experimentar o
verdadeiro sabor e o valor nutritivo dele.

Notas
1 Patrick Johnstone; The Church is Bigger than you Think. Pgs. 113-116.
2 David J. Bosch; The Vulnerability of Mission. Occasional Paper No. 10. Selly
Oak Colleges
3 Lesslie Newbegin; The Gospel in Today’s Society. Occasional Paper, Selly Oak
Colleges
4 Mission Frontiers; Jan-Feb 1999. The U.S. Center for World Mission.
Pgs.
33-37
5 Antonio Carlos Barro; Parceria em Missoes. Internet
6 Isaias 53:1
7 Isaias 53:2
8 1 Corintios 1:28-29
9 Isaias 52:7

10 Lucas
3:8
11 Newbigin, Lesslie; The Gospel in a Pluralistic Society. Pgs.116
12 Newbigin, Lesslie; The Gospel in a Pluralistc Society. Pgs. 120
13 Patrick Johnstone; The Church is Bigger than you Think.
14 David J. Bosch; The Vulnerability of Mission. Occasional Paper no. 10, Selly
Oak College
Parte
II
A
MISSÃO EM FILIPOS

Um estudo em Atos 16
Uma das passagens mais impressionantes sobre a relação do Espírito
Santo com a obra missionária é Atos 16.6,7: “E percorrendo a região
frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na
Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia (1), mas o Espírito de Jesus
não o permitiu”. Como e por que o Espírito Santo impediu que Paulo e seus
companheiros pregassem na Ásia e fossem também para Bitínia?

A maioria dos comentaristas bíblicos admite não saber ao certo como foi que o
Espírito Santo revelou-lhes que possuía outro programa de viagem. Mas todos
eles sugerem uma ou mais possibilidades. Citemos algumas: De acordo com Norman
Champlin, “pode ter sido por impulso interior, ou circunstâncias adversas
que fugiam ao controle de Paulo, ou alguma visão ou sonho noturno, ou mesmo
alguma declaração profética por parte de seus convertidos que possuíssem o dom
da profecia” (2). Simon Kistemaker sugere Silas, pois era um profeta (cf.
At 15.32) (3). Na minha opinião, é provável que eles só passaram a entender o
significado dos impedimentos do Espírito após analisarem os fatos ocorridos.
Aquele duplo impedimento (vv6,7), a visão de Paulo (v9) e a declaração de Lucas
no verso 10 parecem lançar luz sobre esta possibilidade. Quanto ao “por
que?” não há necessidade de se especular. Em Atos a soberania e a
liberdade do Espírito Santo na obra missionária são inquestionáveis. O Espírito
Santo dirige e coordena a obra missionária. É ele que determina quem vai, como
se vai e para quem se vai pregar o evangelho (4).

Acredita-se que havia cerca de meio milhão de pagãos em Antioquia no tempo de
Paulo, mas o Espírito não o quis em Antioquia. Certamente o número de
habitantes que não ouviram o evangelho na Ásia e Bitínia também não era
pequeno, contudo, o Espírito Santo tinha outros planos!

Do início ao fim do livro de Atos não é difícil perceber que o Espírito Santo é
quem prepara o campo para receber a boa semente do evangelho. Somente pela
atuação direta do Espírito é que a Palavra de Deus germina, cresce e frutifica.
E é ele, o Espírito, que além de vocacionar, capacitar e enviar seus obreiros
ao campo missionário, sai na frente e prepara com antecedência o coração
daqueles que haverão de ouvir a pregação da Palavra. Um exemplo disso é o
capítulo 16 de Atos. O campo que o Espírito preparou para aquela ocasião não
seria, por enquanto (5), a província da Ásia e Bitínia que, a princípio, Paulo
e seus companheiros tanto queriam ir. O objetivo do Espírito Santo era a Europa
(At 16.9,10). E naquela ocasião, em especial, “Filipos, cidade da
Macedônia, primeira do distrito, e colônia” (At 16.12). O nome da cidade é
originário de Filipe da Macedônia, que a conquistou dos tásios por volta do ano
300 a.C. Em Filipos Paulo teria uma das experiências mais frutíferas de seu
ministério. Ali nasceria uma igreja abençoada, sua “alegria e coroa”,
como ele mesmo diria mais tarde em sua epístola aos filipenses (Fp 4.1).

A conversão de Lídia
O pouco que sabemos de Lídia está em Atos 16.14. Sua cidade natal era Tiatira.
Uma próspera cidade da província romana da Ásia, a oeste do que atualmente se
conhece como Turquia Asiática. Foi colonizada por Seleuco Nicator, rei da
Síria, em 280 a.C. No ano 133 a.C. passou para o domínio dos romanos. Era um
ponto importante do sistema de estradas dos romanos, pois ficava na estrada que
vinda de Pérgamo, a capital da província, se estendia até às províncias
orientais. Nos tempos do Novo Testamento Tiatira era também um importante
centro manufatureiro; tinturaria, feitura de vestes, cerâmica e trabalhos em
bronze figuravam entre os trabalhos da região. Hoje, uma cidade bastante grande
chamada Akhisar, continua existindo no mesmo local.
Profissionalmente Lídia era uma vendedora bem sucedida. Ela trabalhava no
próspero comércio de tecidos de púrpura (6) e/ou na venda da tinta quando se
mudou para Filipos. Quanto à sua religiosidade, Lídia era “temente a
Deus” (cf. At 10.1,2). A expressão “temente a Deus” de Atos
16.14 significa mais do que dizer simplesmente que Lídia cria em Deus ou algo
parecido, e sim, que ela fazia parte de uma classe de gentios simpatizantes,
por assim dizer, do judaísmo.
Em quase toda sinagoga judaica existiam, além de judeus é claro, dois grupos
distintos de gentios. O primeiro grupo era formado pelos denominados
“prosélitos”, isto é, gentios convertidos ao judaísmo. Os homens eram
circuncidados, concordavam em obedecer a lei e guardar o sábado, faziam
peregrinações a Jerusalém, e daí em diante não eram mais gentios, e sim judeus.

O segundo grupo de gentios que normalmente freqüentava a sinagoga era formado
pelos “tementes a Deus”. Eram apreciadores da lei e do ensinamento
judaicos, mas por uma série de razões pessoais achavam por bem não se
desvincular de suas raízes gentílicas, como os prosélitos, para se tornarem
judeus.

Lucas relata: “Quando foi sábado, saímos da cidade para junto do rio, onde
nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres
que para ali tinham concorrido. Certa mulher chamada Lídia, da cidade de
Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu
o coração para atender às cousas que Paulo dizia” (At 16.13,14). Aqui
temos o que biblicamente denominamos de novo nascimento ou conversão de Lídia.
Uma obra do Espírito de Deus. O verbo grego dih/noicen (abriu) está no aoristo
e significa que ali houve uma ação completa e definitiva do Espírito Santo.
Durante a pregação de Paulo Lídia “escutava” e o seu coração foi
“aberto” para que atendesse. É necessário que a intervenção divina,
que torna o homem natural receptivo para com a Palavra de Deus, anteceda o
ouvir com proveito a pregação do evangelho. “Deus concedeu a Lídia um
coração receptivo para compreender coisas espirituais. Ele deu a ela o dom da
fé e a iluminação do Espírito Santo” (7). E como resultado desta conversão
o Senhor Deus salvou, pela instrumentalidade de Lídia, e principalmente de
Paulo, toda a família dela (At 16.15).

A cura de uma jovem adivinhadorae a salvação dos presos
Quando Paulo e seus amigos seguiam para o lugar de oração, eis que saiu ao
encontro deles “uma jovem possessa de espírito adivinhador” (At
16.16). Era uma escrava de Satanás e de seus senhores. Após perturbar por
muitos dias os missionários do Senhor, Paulo, já indignado, expulsou o espírito
malígno que nela havia. Isto bastou para que os senhores daquela jovem se
juntassem e os lançassem no cárcere, mas não sem antes os levarem diante das
autoridades e insuflarem o povo contra eles para que fossem açoitados.
Entretanto, se Satanás pensou que estivesse frustrando o trabalho de Deus
naquela cidade, ele se enganou profundamente, pois jamais imaginava que a obra
de Deus ali estava por começar. É na prisão de Filipos que encontramos uma das
mais belas cenas do testemunho cristão. “Por volta da meia-noite, Paulo e
Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais companheiros de prisão
escutavam” (At 16.25). Paulo e Silas não somente glorificavam a Deus e se
edificavam e fortaleciam a si mesmos orando e cantando, mas também davam bom
testemunho, além de servirem como fonte de encorajamento para os presos que
ouviam suas orações e hinos. O verbo ephkrow=nto (3ª p. pl. imperf. médio de
a)kou/w = ouvir) indica que enquanto os missionários oravam e cantavam hinos de
louvores a Deus, por um período indefinido de tempo, os outros prisioneiros
ouviam prazerosa e atentamente. A atitude incomum de Paulo e Silas de orarem e
cantarem louvores a Deus na prisão e o terremoto súbito que abriu as portas do
cárcere soltando as cadeias de todos, foram os meios utilizados pelo Espírito
Santo para salvar aqueles prisioneiros. A prova de que eles realmente foram
salvos está no fato de não fugirem (v28) após o terremoto do verso 26.

A conversão do carcereiro
Outro exemplo fabuloso do extraordinário alcance do evangelho em Filipos foi a
conversão do carcereiro. “O carcereiro despertou do sono e, vendo abertas
as portas do cárcere, puxando da espada, ia suicidar-se, supondo que os presos
tivessem fugido” (At 16.27). Aquele terremoto, as portas do cárcere
abertas e a “ausência” dos presos levaram o carcereiro ao desespero.
Ele ia se suicidar. “Mas Paulo bradou em alta voz: Não te faças nenhum
mal, que todos aqui estamos!” (v28). E neste episódio todo, o que
realmente importa é uma pergunta e uma resposta. O carcereiro pergunta a Paulo
e Silas: “Senhores, que devo fazer para que seja salvo?” (v30). swqw=
é o aoristo passivo subjuntivo de s%/zw (salvar). “O aoristo indica a
totalidade da salvação do carcereiro, o passivo implica que Deus é o agente, e
o subjuntivo denota o pedido cortês do carcereiro” (8). O contexto
anterior e posterior da pergunta do carcereiro mostra que seu desejo de ser
salvo era tão somente por salvação eterna. A resposta de Paulo e Silas implica
que eles dois entenderam o tipo de salvação que o carcereiro buscava.
“Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa”
(v31). Se o carcereiro verdadeiramente direcionasse a sua fé para o Senhor
Jesus, conforme sugere a preposição e/pi/, a salvação dele e de sua família
estaria definitivamente garantida, pois a expressão grega swqh/s$ su/ kai/ o/
oi/=ko/j sou é regida por um verbo no futuro (swqh/s$). Na língua grega o
futuro é definido.
A dádiva oferecida ao carcereiro também seria concedida à totalidade da sua
casa (kai/ o/ oi/=ko/j sou). Diz Marshall:

O Novo Testamento leva a sério a união da família, e quando a salvação se
oferece ao chefe de um lar, torna-se logicamente disponível ao restante do
grupo familiar (inclusive dependentes e servos) também (cf. 16.15). A oferta,
porém, segue as mesmas condições: devem ouvir a Palavra também (16.32), crer e
ser batizados; a fé do próprio carcereiro não dá cobertura a todos eles (9).

As conversões relatadas no capítulo 16 de Atos são alguns exemplos de que a
obra missionária só é bem sucedida quando o Espírito Santo vocaciona, capacita
e envia Seus obreiros, além é claro, de preparar o caminho para eles. Assim
acontece dentro do livro de Atos e não pode ser diferente fora dele.

NOTAS:
1. Ásia, Mísia e Bitínia. De acordo com Simon J. Kistemaker (New Testament
Commentary: Exposition of the Acts of the Apostles, pp. 582-84), a Ásia de Atos
16.6 seria a província da Ásia (parte ocidental da Turquia); Mísia e Bitínia
regiões da Ásia Menor.
2. R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo, p.
329.
3. S. J. Kistemaker, Op. Cit.,
p. 584.
4. O Espírito Santo é soberano mas não age por capricho, Ele não faz as coisas
simplesmente por fazer. Ele sabe o que faz e porque faz. E isto, com certeza,
seria uma lição que Paulo e seus companheiros jamais haveriam de esquecer.
“Assim que (Paulo) teve a visão, imediatamente procuramos partir para
aquele destino (a Macedônia), concluindo que Deus nos havia chamado para lhes
anunciar o evangelho” (At 16.10).
5. Que estas regiões (a província da Ásia e Bitínia) não seriam definitivamente
preteridas pelo Espírito Santo, conclui-se de passagens como At 19.10 e I Pe
1.1.
6. Para o significado e emprego da púrpura nos tempos bíblicos, veja R. A.
Cole, Cores em O Novo Dicionário da Bíblia, Vol.
II, pp. 324,5.
7. Cf. S. J. Kistemaker, Op. Cit., p. 591.
8. Kistemaker, Op.
Cit., p. 601.
9. I. H. Marshall, Atos: Introdução e Comentário, p. 258.

Parte
III
A
PERSPECTIVA MISSIONÁRIA DO PENTECOSTES
Qual o propósito fundamental do Pentecostes de Atos 2? Seria o
batismo do Espírito Santo, o dom de línguas, a edificação da igreja? O objetivo
deste artigo é mostrar que apesar de válidas, nenhuma das alternativas acima
mereceria uma resposta afirmativa como um fim em si mesma. Tentaremos mostrar a
partir de agora que o batismo do Espírito Santo, o dom de línguas e a
edificação do povo de Deus foram necessários em Atos 2, mas apenas como meio e
não como fim do propósito fundamental de Deus para a igreja e o mundo.
A natureza e propósito do Pentecostes são eminentemente missionários. E Lucas
prepara o cenário para apresentá-lo desta forma quando diz em Atos 2.5:
“Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de
todas as nações debaixo do céu” (grifo nosso). Para uma melhor compreensão
deste tema, acreditamos que seria interessante traçarmos primeiro um panorama
geral da festa de pentecostes, segundo era comemorada nos tempos do Antigo
Testamento. Vejamos qual a finalidade desta festa e o que ela representava,
para em seguida tratarmos do Pentecostes de Atos 2.

1. A FESTA DE PENTECOSTES NO ANTIGO TESTAMENTO
A festa de pentecostes fazia parte (juntamente com a dos tabernáculos e a
páscoa) da tríade das festas anuais mais importantes da lei mosaica. Três
festas que celebravam aspectos do êxodo, o estabelecimento da aliança e o
recebimento da terra prometida. Nelas exigia-se a presença de todos os homens
de Israel que vivessem dentro de um raio de 32km de Jerusalém, a não ser que
fossem impedidos por motivo de enfermidade (cf. Ex 23.17; Dt 16.16). Jesus,
como era cumpridor da lei, provavelmente comparecia anualmente às três festas
tradicionais dos judeus.
A celebração da páscoa iniciava-se na tarde do décimo quarto dia do primeiro
mês, em conjunto com a festa dos pães asmos, que começava no dia quinze e
durava sete dias (cf. Lv 23.5-8). A páscoa comemorava a libertação de Israel do
cativeiro egípcio. Os pães asmos relembravam as dificuldades da fuga apressada
do Egito.
A festa dos tabernáculos começava no décimo quinto dia do sétimo mês e
continuava durante sete ou oito dias (cf. Lv 23.34-44). Seu propósito era fazer
o povo recordar as peregrinações no deserto e regozijar-se pelo sucesso de
todas as colheitas (cereais, frutas, vindimas, etc.).

Por ocasião da festa de pentecostes, também chamada de festa das semanas, das
colheitas ou das primícias, apresentava-se a Deus as primícias da colheita do
trigo ou da cevada como gratidão a Ele por ter dado ao povo a nova e boa terra.
Era comemorada cinqüenta dias depois da páscoa; daí o nome pentecostes. Seus propósitos
eram baseados em Levítico 23, Números 28 e Deuteronômio 16.
O termo pentecostes deriva-se do grego penth/konta h(me/raj (cinqüenta dias);
uma tradução da Septuaginta (a mais antiga versão grega do Antigo Testamento
[séc. III a. C.]) da expressão hebraica MwIY mYi$iimfx (cf. Lv 23.16).

A festa de pentecostes era proclamada como “santa convocação”,
durante a qual nenhum trabalho servil podia ser feito, e todo homem israelita
era obrigado a estar presente no santuário (Lv 23.21). Nesta ocasião dois pães
assados, feitos com farinha nova, fina e fermentada, eram trazidos dos lares e
movidos pelo sacerdote perante o Senhor, juntamente com as ofertas de
sacrifício animal, como as ofertas pelo pecado e pacíficas (Lv 23.17-20). Por
ser um dia festivo (cf. Dt 16.16), nele os israelitas devotos expressavam 1)
gratidão pelas bênçãos do cereal colhido e 2) um sincero temor a Deus (cf. Jr
5.24).

No Antigo Testamento a festa de pentecostes não se limitava apenas ao
Pentatêuco. Sua observância é indicada nos dias de Salomão (2 Cr 8.13) como o
segundo dos três festivais anuais (cf. Dt 16.16). A festa de pentecostes também
era observada pelos cristãos do Novo Testamento, mas somente como meio de
evangelização. Lucas registra em Atos 20.16 que Paulo estava resolvido a não
perder tempo na Ásia, e se apressava para estar em Jerusalém no dia de
pentecostes. Em 1 Coríntios 16.8, o apóstolo propôs-se a permanecer em Éfeso
até o pentecostes, visto que uma porta estava se abrindo para o seu ministério.

Com o passar do tempo, à festa de pentecostes foi-se acrescentando outros
significados. Durante o período inter-bíblico e posteriormente a ele, a festa
de pentecostes também passou a comemorar o aniversário da transmissão da lei
dada por Deus a Moisés no Sinai. Mas não é só isso. Assim como a celebração das
primícias, pentecostes também apontava para bênçãos maiores que Deus concederia
no futuro, como por exemplo, a inauguração da igreja neotestamentária em Atos
2.2

II. O DUPLO PROPÓSITO DO PENTECOSTES DE ATOS 2
Não é difícil percebemos que o relato do Pentecostes por Lucas teve dois
propósitos fundamentais, sendo que o primeiro é mencionado para balizar e dar
respaldo ao segundo. O primeiro propósito trata do contexto próximo e remoto da
profecia bíblica e seu cumprimento. O segundo tem haver com a inauguração da
igreja cristã e sua missão no mundo.

2.1. A profecia e seu cumprimento em Atos 2

2.1.1. Contexto remoto
Dentre as passagens bíblicas do Antigo Testamento3 que profetizaram o
derramamento do Espírito Santo em Atos, a mais conhecida delas é a de Joel
2.28-32, justamente porque é a ela que Pedro faz menção na primeira parte de
seu discurso em Atos 2.14-21, para explicar o pentecostes do Espírito aos
céticos que não o entenderam ou zombavam dos que falavam em outras línguas,
chamando-os de embriagados.
Mas por que será que Pedro citou justamente Joel e não um profeta maior como
Isaías ou Ezequiel? Além disso, como explicar, de um lado, as omissões e
acréscimos que Pedro faz à passagem de Joel e como entender, por outro lado, os
detalhes da profecia ditos por Pedro que não aconteceram em Atos 2 como, por
exemplo, o fenômeno do sol se convertendo em trevas e a lua em sangue?

Vejamos o texto:
Então se levantou Pedro, com os onze; e, erguendo a voz, advertiu-os nestes termos:
Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e
atentai nas minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vindes
pensando, sendo esta a terceira hora do dia. Mas o que ocorre é o que foi dito
por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor,
que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas
filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até
sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito
naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais em
baixo na terra; sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, e
a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor. E
acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (At
2.14-21).

Seria um equívoco de nossa parte supormos que entre a passagem de Joel 2.28-32
e o Pentecostes de Atos 2 não houvesse similitude alguma. É evidente que
existem semelhanças entre as duas passagens. Por exemplo: nos dois casos o
Senhor derrama o Espírito Santo sobre a comunidade reunida de Israel. No
Pentecostes os judeus da dispersão estavam reunidos em um só lugar. Em seu
discurso, Pedro afirma que após Jesus ressuscitar dos mortos, Ele foi exaltado
à direita de Deus e “tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo,
derramou (e)ce/xeen) isto que vedes e ouvis” (At 2.33). O verbo e)ce/xeen
vem de e/kxe/w (derramar) e é o mesmo usado pela LXX na tradução de “Eu
derramarei” de Joel 2.28-32.4
E quanto ao uso da passagem de Joel por Pedro?
A profecia de Joel sobre o derramamento do Espírito Santo é uma das mais
completas do Antigo Testamento. A citação de Pedro segue a LXX, mas com algumas
pequenas alterações para adaptar a profecia ao seu contexto.5 O Dr. I. Howard
Marshall alista quatro temas importantes da profecia de Joel em Atos 2.
O primeiro tema da profecia, e o principal, segundo Marshall, é que Deus está
para derramar o Seu Espírito sobre todos os povos, isto é, sobre todos os tipos
de pessoas6, e não apenas sobre os profetas, reis e sacerdotes, como acontecia
no Antigo Testamento.

Um segundo elemento da profecia é a ocorrência de sinais cósmicos do tipo que
se associa com os quadros apocalípticos do fim do mundo (cf. Ap 6.12). Aqui,
podemos notar que Pedro alterou a expressão de Joel: “prodígios no céu e
na terra”, para prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra. Os
sinais seriam provavelmente o dom de línguas e os vários milagres de cura que
logo passariam a ser narrados. O que dizer, porém, dos prodígios? Se não
aceitarmos que a referência diz respeito aos sinais cósmicos que acompanharam a
crucificação (Lc 23.44,45), então teremos que entender que Pedro antevê os
sinais que anunciarão o fim do mundo. Estes ainda são futuros e pertencem ao
“fim” dos últimos dias, e não ao “começo” deles, que estava
se realizando.
O terceiro elemento na profecia de Joel é o evento do qual estes sinais são a
prefiguração. Para Joel, é claro, o Senhor era o próprio Javé. Para Pedro e
Lucas surge a pergunta: Senhor, aqui, não significa implicitamente Jesus? Isto
porque em Atos 2.36 Jesus será declarado Senhor.  Em quarto lugar, a profecia de Joel termina
com uma promessa no sentido de que aquele que invocar o nome deste Senhor, isto
é, apelar a Ele, pedindo socorro, será salvo. Para os cristãos, certamente, se
tratava de procurar em Jesus a salvação (cf. Rm 10.13,14; 1 Co 1.2).
Reconhece-se que, se Pedro citou o texto em hebraico, haveria clara referência
a Javé, e, portanto, a aplicação a Jesus ficaria clara somente àqueles que
ouviam ou liam o texto em grego.7

2.1.2. Contexto próximo
O Novo Testamento antecipa de modo vívido o que aconteceria em Atos 2. Lucas
relata em seu Evangelho que João Batista pregava assim: “Eu, na verdade,
vos batizo com água, mas vem o que é mais poderoso do que eu, do qual não sou
digno de desatar-lhe as correias das sandálias; ele vos batizará com o Espírito
Santo e com fogo” (Lc 3.16; cf. Mt 3.11). A palavra fogo nesta passagem
refere-se ao Pentecostes mas também ao juízo final.8
Mais tarde, no final de seu Evangelho, Lucas volta a tratar daquela mesma
promessa, agora dita pelo próprio Senhor Jesus. “Eis que envio sobre vós a
promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos
de poder” (Lc 24.49). E o Cristo exaltado derramou o Espírito Santo
prometido que Ele recebeu de Deus Pai (cf. At 2.33).
Contudo, o contexto mais próximo que se pode ter do Pentecostes está exatamente
no capítulo 1 do segundo livro de Lucas.
E, comendo (Jesus) com eles (seus discípulos), determinou-lhes que não se
ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse
ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis

batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. Então, os que
estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o
reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o
Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer
sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como
em toda a Judéia e Samaria a até aos confins da terra (At 1.4-8).
Jesus ordenou aos Seus discípulos que não se ausentassem de Jerusalém, enquanto
não recebessem o batismo do Espírito.
Só podemos entender adequadamente esta ordem à luz de seu contexto histórico.
Após a sua ressurreição, Jesus instruiu o discípulos a retornarem à Galiléia
(cf. Mt 28.10; Mc 16.7). E eles prontamente o fizeram, por duas razões. Em
primeiro lugar, eles teriam a oportunidade de vê-lO novamente na Galiléia,
conforme prometera. Em segundo lugar, eles não estavam nem um pouco
interessados em permanecer em Jerusalém, o lugar onde os judeus mataram Jesus e
que eles, os discípulos, também estariam correndo perigo de morte. É provável
que depois da ascensão de Jesus os discípulos ficassem tentados a retornar à
Galiléia, conforme já haviam feito antes (Jo 21).
O lugar onde Jesus concluiu seu ministério terreno seria agora o ponto de
partida de uma nova era. Dali, no dia de Pentecostes, Ele enviaria a Sua igreja
como primícias e verdadeira testemunha de tudo o que Ele disse e fez, isto é,
“que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a
todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.47).
Por isso, logo após a Ascensão, os discípulos fizeram imediatamente o que Jesus
mandou. Retornaram do Monte das Oliveiras para Jerusalém, e quando ali entraram
subiram ao cenáculo, local onde o Senhor celebrou a ceia e por diversas vezes
apareceu a eles. Lucas diz que no cenáculo “Todos estes (os onze, cf. At
1.13) perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de
Jesus, e com os irmãos dele” (At 1.14).9
À luz dos textos de Atos 1.14,15 e 2.1 podemos notar que ocorreram três
reuniões distintas em Jerusalém. É até possível que os cento e vinte de Atos
1.15 estivessem, todos eles, na reunião de Atos 2; porém, isso parece pouco
provável porque o texto fala de uma casa (cf. At 2.1,2). Mas esta informação
não é o que verdadeiramente importa. Importante mesmo é saber que a promessa de
Atos 1.4-8 começava a se cumprir em Atos 2.

3.2. A Igreja e sua missão



3.2.1. O nascimento da igreja cristã
O tempo entre a ascensão de Jesus e a espera dos discípulos para o derramamento
do Espírito Santo foi curto, de apenas dez dias. Nas palavras de Jesus, o
Pentecostes ocorreria “não muito depois destes dias” (At 1.5).
O contexto da inauguração da igreja cristã não poderia ser outro. Estavam
presentes em Jerusalém judeus piedosos “vindos de todas as nações debaixo
do céu” (At 2.5).
Como os judeus estavam amplamente dispersos, era impossível para a maioria
comparecer a todos os três festivais a cada ano. No entanto, um número
surpreendente vinha, de fato, a Jerusalém para adoração nas três ocasiões. Como
a viagem pelo Mediterrâneo era mais segura ao final da primavera, quando o
Pentecostes era celebrado, esta festa normalmente trazia as maiores multidões
para a cidade. Sua população, que normalmente era de cinqüenta mil habitantes,
inflava para quase um milhão nesta época do ano.10

Lucas relaciona, em Atos 2.9-11, quinze nações do mundo antigo. Começa com as
nações do leste (Partia, Media, Elam e Mesopotâmia), depois segue da Judéia à
Ásia Menor (Capadócia, Ponto, Ásia, Frígia e Panfília), prossegue em direção à
África (Egito, Líbia e Cirene) e continua até Roma, Creta e Arábia. Porquê a
lista omite nações que obviamente deveriam ser mencionadas por Lucas, como
Grécia, Macedônia e Cípria, não sabemos ao certo. O importante é saber que a intenção
primordial do autor está bem evidente.
“Lucas parece agrupar as nações em categorias lingüísticas, pois seu
objetivo no relato do Pentecostes é enfatizar que as boas novas transcendem as
barreiras lingüísticas”.11 Marshall fala de algo parecido quando diz:

Basta, então, observar que a lista claramente visa ser uma indicação de que
estavam presentes pessoas de todas as partes do mundo conhecido, e talvez que
haveriam de voltar aos seus próprios países como testemunhas daquilo que
acontecia. Todas elas, como adoradores de Javé, podiam perceber que os cristãos
estavam celebrando as obras poderosas de Deus.12

Diferente do que muitas vezes vemos em nossas igrejas brasileiras, em Atos a
igreja possui características bíblicas bem definidas. Consciente ou
inconscientemente, muitas de nossas igrejas estão influenciadas pelo que se
pode denominar de “mito da vida espiritual interior e individual” e
“narcisismo eclesiátisco”.
Ely César, abordando o tema do propósito fundamental da inauguração da igreja
cristã, diz com precisão:
A maneira como os primeiros cristãos compreenderam o Pentecostes atesta um fato
básico: sem o Espírito não há proclamação possível, não há evangelho, não há
vida em Cristo. Antes do Pentecostes os apóstolos são apenas testemunhas da ressurreição
no sentido passivo do termo. A partir do Pentecostes eles comoverão o mundo com
o testemunho fabulosamente dinâmico de que Deus concede, agora, vida ao mundo.
A Igreja é empurrada ao mundo, descobrindo de maneira clara que é Verdade para
o mundo, convencida de que o Espírito não foi concedido para seu deleite
pessoal mas para capacitá-la a proclamar que Deus amou ao mundo de tal maneira
que agora lhe possibilitou a vida em Cristo.13

Qual o motivo da introspecção da igreja de hoje? Seria porventura o resultado
de uma teologia sistemática desassociada de missões? Na opinião do teólogo
Hendrikus Berkhof, é possível. Diz ele: “Lamento, portanto, ter que dizer
que o enriquecimento da teologia sistemática que deveria resultar em tomar a
missão como um elemento essencial dos atos poderosos de Deus ainda está por
vir”.14 E mais:
Uma conseqüência de tudo o que temos dito é que já não podemos conceber a
missão como um mero instrumento da obra salvífica de Cristo, como o meio pelo
qual os poderosos atos da encarnação, a expiação e a ressurreição são
transmitidos às gerações que se seguem e às nações mais remotas. Tudo isto
também é certo. Mas, como transmissão dos atos poderosos, a missão é, em si, um
ato poderoso como são a expiação e a ressurreição. Todos estes outros atos
jamais seriam conhecidos como atos poderosos de Deus se não fosse por este
último: o movimento do Espírito missionário. Este último ato é a porta pela
qual passam todos os precedentes. Este último ato ainda continua. Nós somos
testemunhas de sua continuada realização.15

3.2.2. A perspectiva missionária do Pentecostes

O Pentecostes é o ponto alto do conjunto ou complexo daquela seqüência de
eventos relacionados à morte, ressurreição e ascensão de Jesus. É por isso que
para Lucas o Pentecostes possui um significado prático e dinâmico, traduzido em
termos de nascimento e missão da igreja cristã.
Lucas apresenta o Pentecostes como o início da missão mundial da
Igreja. A implementação do programa de Atos 1.8 dependia do Pentecostes.
Aqueles que testificaram os efeitos do derramamento do Espírito Santo e ouviram
o evangelho pregado por Pedro, representavam “todas as nações debaixo do
céu” (At 2.5). E a lista, como já vimos, incluía um vasto panorama das
nações do Mediterrâneo oriental (At 2.9-11).
O caráter missiológico de Atos 2 é facilmente percebido pela importância que
Lucas dá ao Pentecostes. O Pentecostes está no começo de um novo livro escrito
por ele e não no final de sua primeira obra. Não seria exagero dizer que pela
posição do Pentecostes em Atos, Lucas atribui a ele um valor e importância
semelhantes ao nascimento de Cristo no início de seu Evangelho, ou mesmo a algo
como o relato da criação no início de Gênesis.
Concordamos com Simon Kistemaker quando diz: “Depois da obra da criação de
Deus e a encarnação do Filho de Deus, a descida do Espírito Santo no
Pentecostes é o terceiro maior ato divino”.16
No decorrer deste estudo procuramos salientar que o propósito fundamental do
Pentecostes de Atos 2 é a formação de uma igreja missionária.17 Igreja e missão
significam duas partes inseparáveis na mente do Espírito.
Mas o que dizer das línguas faladas no dia de Pentecostes? Nem é preciso
especular se eram dos homens ou dos anjos. Lucas deixa claro que os
“galileus”18 (no caso os apóstolos e outros que estavam na casa) de
Atos 2.7 falavam as línguas das nações presentes naquela festa (At 2.6-11).
Quanto à natureza e propósito das mesmas em Atos, Marshall comenta:
A história ensina que línguas humanas inteligíveis são significativas, não as línguas
ininteligíveis como as freqüentemente encontradas na glossolália moderna ou
como as que usualmente pensa-se ter sido faladas em Corinto. Acreditamos que
dos diversos oradores cada um falou uma língua particular, embora fosse
possível que cada um deles falasse diversas línguas diferentes em sucessão.19

A missão não é mera realização humana. Os dons do Espírito foram dados para o
propósito da missão, e não para a edificação particular da igreja ou dos seus
membros individuais.20

E qual o significado do vento e do fogo em Atos 2?

O vento simboliza o Espírito Santo. O som do vento denota poder celestial e seu
aparecimento repentino revela a inauguração de algo sobrenatural.

O fogo era o cumprimento da descrição de João Batista do poder de Jesus:
“Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11; Lc
3.16). No Antigo Testamento o fogo é freqüentemente um símbolo da presença de
Deus para indicar santidade, juízo e graça (cf. Ex 3.2-5; 1 Rs 18.38; 2 Rs
2.11). Em Atos 2 o fogo se dividiu em línguas de fogo que pousaram sobre cada
um dos crentes presentes na casa. Em decorrência disto eles falaram em outras
línguas.
É provável que o conteúdo das línguas faladas por aquele grupo de irmãos
consistia na profecia da graça e justiça de Deus.21
Vale ressaltar que Lucas tem o cuidado de observar que não foram simplesmente
vento e fogo que invadiram a casa, mas sim o Espírito Santo como vento e fogo.
Esta foi a maneira que Lucas encontrou para dizer que o que aconteceu naquele
dia não tinha nada haver com fenômenos meramente naturais.

III. PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO PENTECOSTES

Há pelo menos três características do Pentecostes de Atos 2 que pretendemos
destacar aqui.
1) O Pentecostes foi um ato soberano do Espírito
Lucas relata nos quatro primeiros versículos de Atos 2 como o Espírito Santo
atuou soberanamente naquele dia, em fragrante contraste com a passividade dos
que “estavam reunidos no mesmo lugar” (At 2.1). Depois diz que
“de repente, veio do céu um som, e encheu toda casa onde estavam
assentados” (At 2.2, grifo nosso). “E apareceram, distribuídas entre
eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles” (At 2.3,
grifo nosso). “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar
em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4,
grifo nosso).
Neste ato soberano do Espírito ficam evidentes a natureza sobrenatural do
Pentecostes quando o Espírito Santo vem do céu e entra na casa com um som
repentino como vento impetuoso e línguas de fogo que pousavam sobre cada um
deles. Ficando todos cheios do Espírito passaram a falar em outras línguas,
segundo o Espírito lhes concedia que falassem. O dom das línguas em Atos 2 nos
faz relembrar o ensino de Paulo em 1 Coríntios 12.11: “Mas um só e o mesmo
Espírito
realiza todas estas cousas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um,
individualmente”.22

2) O Pentecostes foi um ato único do Espírito
A segunda coisa que aprendemos em Atos 2 é que o Pentecostes foi um ato único
do Espírito Santo. Naturalmente este é um ponto controvertido, visto que as
igrejas históricas o defendem mas as igrejas neo-pentecostais e carismáticas o
rejeitam terminantemente. Buscando uma definição equilibrada a esse respeito
capítulo (1 Co 12) para tecer um comentário importante do significado teológico
do batismo com o Espírito em comparação ao Pentecostes de Atos. Diz ele:
“O significado teológico do batismo com o Espírito não é explicado em
parte alguma de Atos, e há apenas uma declaração, em todo o Novo Testamento,
neste sentido. Embora isto seja encontrado em Paulo, as várias extensões do
Pentecostes, relatadas em Atos, podem ser compreendidas à luz desta afirmação:
‘Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus,
quer gregos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só
Espírito’ (1 Co 12.13). O batismo com o Espírito é o ato do Espírito Santo
reunindo, em uma unidade espiritual, pessoas de diferentes origens raciais e
formação social, a fim de que formem o corpo de Cristo – a ekklêsia”. acreditamos
que o Dr. Pierson foi muito feliz em sua abordagem. Diz ele:
Alguns estudiosos falam de um “Pentecostes samaritano” e de um
“Pentecostes gentílico” que sucedeu o Pentecostes de Jerusalém. Não
podemos
fazer o mesmo de modo nenhum, é claro. O primeiro Pentecostes, quando o
Espírito foi derramado sobre os crentes, foi único. No entanto, existe um
sentido segundo o qual estes termos estão corretos. O Espírito veio sobre a
igreja de Jerusalém para prepará-la e capacitá-la para a sua missão. Mais
tarde, pela vinda sobre os crentes de Samaria e então sobre os gentios, de modo
tão claro e dramático, o Espírito aumentou a compreensão da igreja acerca da
sua missão e preparou-a para os próximos passos. O Espírito do Cristo
ressurreto continuava a liderar a sua igreja para fora dos limites de Jerusalém
e da sua familiar cultura judaica em direção a outros povos, lugares e culturas
– até aos confins da terra.23

3) O Pentecostes de Atos 2 foi universal
Um terceiro ponto que queremos destacar é o caráter universal do Pentecostes.
Percebemos facilmente a intenção de Deus ao enviar o Espírito Santo numa
ocasião em que “estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos,
vindos de todas as nações debaixo do céu” (At 2.5). Entre os judeus
“vindos de todas as nações” haviam também “prosélitos” (At
2.11). Mas isto não é tudo. O caráter universal do Pentecostes fica ainda mais
evidente naquele trecho do discurso de Pedro que diz: “Pois para vós
outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe,
isto é, para
quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.39).
Não sabemos até onde Pedro entendeu que a profecia de Joel prometia este dom ou
batismo do Espírito a todos os crentes. Se tomarmos isoladamente o texto de
Atos 10 poderemos concluir que foi somente após aquela experiência em Jope e na
casa de Cornélio que Pedro e a igreja de Jerusalém entenderam que “também
aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida” (At
11.18).24 Contudo, recordemos que em seu discurso Pedro cita Joel, dizendo:
“E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será
salvo” (At 2.21). Não esqueçamos que os “prosélitos” de Atos
2.11 eram gentios.
A passagem citada há pouco de Atos 2.39 também parece lançar alguma luz sobre a
concepção universal de Pedro.25 Uma referência aos gentios por Pedro é
altamente provável, tendo em vista a maneira rabínica de entender a frase em
Isaías 57.19 (cf. Ef 2.13,17). São promessas mediadas pela chamada divina – e
com
estas palavras (de Atos 2.39), Pedro completa a citação de Joel 2.32 com a qual
começara o seu discurso. “Ressalta-se a primazia da chamada divina e da
graciosidade do Seu convite à toda humanidade”.26

Na minha opinião Pedro estava certo de que o evangelho seria pregado a todos os
povos, conforme a ordem de Jesus, “fazei discípulos de todas as
nações”
(Mt 28.19), mas que não seria através dele ou pelo menos não necessariamente
através dele e dos judeus. “Os primitivos cristãos não compreenderam de
imediato que era a sua missão proclamar o evangelho em todo o mundo. Eles
permaneceram
em Jerusalém, e a missão mundial não começou senão quando a perseguição
expulsou os helenistas para fora da capital”.27 De qualquer forma, Lucas,
que era gentio, tinha em mente o evangelho para todos os povos quando escreveu Atos
2.
Gostaria de finalizar este pequeno estudo dizendo que o Pentecostes foi um ato
único na história, mas com efeitos duradouros e permanentes. Não era o fim mas
o início de uma nova era. A era do Espírito Santo. E aquele começo não poderia
ser mais extraordinário como foi. Quer seja pela maneira como o Espírito se
manifestou, quer seja pelo resultado daquela manifestação. Dos que ouviram a
pregação do evangelho naquele dia, três mil foram salvos.

Na perspectiva missionária do Pentecostes, qual foi o propósito fundamental de
Atos 2? O Pentecostes contempla a criação de um povo missionário formado por
homens e mulheres que amam verdadeiramente a Jesus Cristo. O sacerdócio
universal dos crentes começa no Pentecostes. E a partir daquele dia todos nós
fazemos parte de uma mesma missão. A missão de proclamar as virtudes daquele
que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz, a saber, Jesus, a
esperança da glória.



1. Cf. John D. DAVIS, Festa In Dicionário da Bíblia, p. 225
2. Cf. D. FREEMAN, Festa de Pentecostes In O novo dicionário da
Bíblia, Vol. II, p. 1265.
3. Veja, por exemplo, Isaías 32.15; 44.3; Ezequiel 39.29.
4. Cf. Thomas J. FINLEY, The Wycliffe
Exegetical Commentary: Joel, Amos, Obadiah, p. 77
5. Cf. I. Howard MARSHALL, op. cit., p. 73 (nota 16).
6. “É possível que Lucas tenha visto uma referência a gentios
bem como a judeus” (Idem, nota 17).
7. Cf. MARSHALL, op. cit., p. 73,74.V. t.
KISTEMAKER, op. cit., p. 90.
Para uma interpretação diferente,
consulte Thomas J. FINLEY, op. cit., p. 76-81.
8. Cf. William HENDRIKSEN, New Testament
Commentary: Exposition of the gospel according to Luke, p. 210-211.
9. Para um contraste interessante entre o festival judaico do
pentecostes e a expectativa dos discípulos pelo batismo do Espírito, veja I. H.
MARSHALL, The Significance of Pentecost In Scottish Journal of Theology, p.
352-359.
10. Paul E. PIERSON, Atos que contam, p.
27.
11. Cf. Simon J. KISTEMAKER, op. cit., p. 82.
12. I. Howard MARSHALL, op. cit., p. 71
13.
Ely Eser B. CÉSAR, A ação humanizadora do Espírito, p. 58. V. t. PIERSON, op. cit., p. 19,179,180.
14. Hendrikus BERKHOF, La doctrina del Espíritu Santo, p. 36.
15. Idem, p. 38.
16. KISTEMAKER, op. cit., p. 91.
17. Um estudo excelente sobre a missiologia do Pentecostes pode
ser encontrado em Harry R. Boer, Pentecost and missions, p. 48-254 e também no
livro de Roland Allen, Pentecost and the World.
18. Para um estudo interessante do termo “galileus” de Atos 2.7,
consulte C. S. Mann, Pentecost in Acts In Anchor Bible: The Acts of the
Apostles, p. 271-275.
19. MARSHALL, op. cit., p. 357. V. t.
KISTEMAKER, op. cit., p. 77,78 e J. D. G. DUNN, op. cit., p. 523.
Para
uma comparação das línguas como sinal de bênção e maldição entre o Antigo e
Novo Testamentos, veja o livreto de O. Palmer ROBERTSON, Línguas: Sinal de
bênção e maldição. E para um contraste interessante entre a glossolalia de Atos
2 e Gênesis 11, consulte R. B. KUIPER, Evangelização teocêntrica, p. 60,61.
20. MARSHALL, op. cit., p. 50. V. t.
PIERSON, op. cit., p. 19, 43, 78-83, 179,180.
21. Cf. José João de Paula, O Pentecostes, p. 118-122. 22. G. E. LADD (op.
cit., p. 327) utiliza este mesmo
23.
Paul E. PIERSON, op. cit., p. 111,112. V. t. John R. W. STOTT,
Batismo e plenitude do Espírito Santo, p. 15-55; Frederick D. BRUNER, Teologia
do Espírito Santo, p. 122-166; George E. LADD, Teologia do Novo Testamento, p.
326.
24. É interessante notar que em sua justificativa perante a igreja de Jerusalém
em Atos 11 Pedro menciona o evento do Pentecostes para convencer seus ouvintes.

Veja Atos 11.15-18.
25. Cf. John STOTT, op. cit., p. 20,21; R. B. KUIPER, op. cit., p. 59-61.
26. Cf. MARSHALL, op. cit., p. 82.
27. Cf. G. E. LADD, op. cit., p. 327.
Parte
IV
A
PERSPECTIVA MISSIONÁRIA DE PAULO II

I – MISSÕES EM PAULO
  1. A
    micetologia de Paulo

    Dentre algumas dicotomias que a igreja evangélica brasileira enfrenta
    atualmente, uma delas é a polarização entre teologia e missões. Este
    reducionismo evangélico foi detectado pelo Dr. Augustus Nicodemus Lopes
    (Paulo,Plantador de Igrejas,1997, p. 5), ao dizer que a separação entre
    teologia e missões tem penetrado nas igrejas e organizações missionárias
    no período moderno, e tem produzido efeitos perniciosos até o dia de hoje.
    Isto é verdade. E a causa dessa divergência teológica, com sua
    conseqüência danosa para a igreja, foi acertadamente observado pelo Dr.
    Michael Green (Evangelização na Igreja Primitiva, 1989, p. 7) quando
    disse: A maior parte dos evangelistas não se interessa muito por teologia;
    e a maioria dos teólogos não se interessa muito por evangelização.

    Alguns teólogos, como o renomado Dr. Nicodemus, e missiólogos, como o
    igualmente ilustre Dr. Timóteo carriker, são concordes quanto a
    importância da teologia e missões na vida da igreja. No entanto, será que
    a ênfase que eles dão às motivações missionárias de Paulo está correta? É
    o que procuraremos mostrar a seguir.

    As motivações missionárias de Paulo.
    O conceito do Dr. Augustus Nicodemus Lopes

    O Dr. Nicodemus é pastor presbiteriano, mestre em Novo Testamento pela
    Potschefstroom University for Christian Higher Education, na África do Sul
    e doutor em hermenêutica e estudos bíblicos pelo Westminster Theological
    Seminary, Filadélfia, USA, com cursos especiais na Universidade Teológica
    da Igreja Reformada da Holanda. Atualmente coordena a área de teologia
    exegética do Centro de Pós-Gradução Andrew Jumper, em São Paulo e leciona
    exegese no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, também
    em São Paulo. É autor de vários livros e artigos, dentre os quais
    destacamos Paulo, plantador de igrejas: Repensando fundamentos bíblicos da
    obra missionária (Fides Reformata. São Paulo: JMC, Vol. II, Nº 2, 1997).

    De acordo com o Dr. Nicodemus, a atividade missionária de Paulo era
    resultado direto da sua teologia.

    Ele pergunta:

    O que motivava o apóstolo Paulo a sair plantando igrejas, organizando
    comunidades ao longo da bacia do Mediterrâneo, apesar da rejeição dos seus
    patrícios e das implacáveis perseguições que sofria? (p. 7)
    E responde:
    O que o movia não eram arroubos de piedade, espírito proselitista, amor ao
    lucro, popularidade ou qualquer outra motivação similar. Essas motivações
    não teriam suportado as angústias do campo missionário por muito tempo.
    Paulo estava movido por suas convicções teológicas. (p. 7, grifo do
    autor).
    Segundo ele, a ação missionária de Paulo era resultado dessas convicções
    teológicas. Um ponto que esclarece bem o que o Dr. Nicodemus entende por
    “convicções teológicas” de Paulo é a exemplificação que ele faz
    com a teologia de missões de William Carey, missionário batista que viveu
    no século XIX. Carey era um calvinista ardoroso, que tinha um coração
    inflamado por missões e não podia compreender a obra missionária como
    outra coisa senão a extensão das suas convicções como crente no Senhor
    Jesus (pp. 5,6). E prossegue:  É
    interessante observar que no livrete Enquiry, onde estabelece os motivos
    da sua atividade missionária, Carey segue uma seqüência similar à obra
    Theory of Missions, escrita pelo teólogo e missiólogo alemão Gustav
    Warneck (1834-1910). Isso mostra que Carey, mesmo sem ter tido o
    treinamento teológico de Warneck, esboça a sua missiologia teologicamente.
    Carey nunca usa o argumento das “almas que estão se perdendo”
    nem justifica-se a partir de suas convicções batistas. Sua preocupação é
    com a promoção do Reino de Cristo (p. 6, nota 2). O Dr. Nicodemus
    salienta, ainda, que toda reflexão teológica deveria desembocar em
    subsídios para o esforço expansionista da Igreja de Cristo. Esses
    esforços, segundo ele, nada mais podem ser do que teologia em ação.
    Entende que quando a nossa prática missionária não é fertilizada e
    controlada por uma reflexão teológica correta, ela acaba se tornando em
    ativismo, desempenho estilizado ou simplesmente uma aplicação frenética de
    métodos. E quais eram, segundo o Dr. Nicodemus, as convicções teológicas que
    motivavam a obra missionária de Paulo? Eram basicamente três. A primeira
    dessas convicções é que os últimos dias já começaram. Paulo estava vivendo
    nos últimos dias, dias de cumprimento, em que os fins dos séculos haviam
    chegado para ele. A segunda convicção do apóstolo Paulo era que as antigas
    promessas de Deus encontravam concretização histórica na Igreja de Cristo.
    Era na Igreja que a restauração de Israel se consumava e a plenitude dos
    gentios estava entrando. A terceira convicção de Paulo era que Deus o
    havia chamado para edificar essa Igreja (1).



O conceito do Dr. C. Timóteo
Carriker

O Dr. Carriker é pastor da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (P. C. –
U.S.A.). Trabalha no Brasil desde 1977. Cursou o bacharelado na Universidade da
Carolina do Norte, em Charlote, o mestrado em teologia no Seminário Teológico
Gordon-Conwell, e o mestrado em missiologia e doutorado em estudos
interculturais do Seminário Teológico Fuller. É professor e diretor acadêmico
do Centro Evangélico de Missões, em Viçosa, MG. Dos seus escritos destacamos,
para este propósito, o livro Missão Integral: Uma teologia bíblica (São Paulo:
Editora Sepal, 1992) e o artigo A missiologia apocalíptica da carta aos Romanos
(Fides Reformata. São Paulo: JMC, Vol. III, Nº 1, 1998).

Enquanto o Dr. Nicodemus parte da teologia para a missão, o Dr. Carriker

claramente inverte a ordem.
Segundo ele, as profundas convicções teológicas de Paulo brotaram de intenso
envolvimento missionário e pastoral. Segue-se, de acordo com o Dr. Carriker,
que a teologia consiste primariamente de reflexão acerca da missão, não sendo
esta mera aplicação conseqüente daquela, mas missão está no âmago da teologia.
(Missão Integral, p. 7). E ainda: Como Martin Kahler reconheceu em 1908,
missão, de fato,é a mãe da teologia (Bosch 1980:24) e não uma subdivisão menor
e dispensável da teologia prática. De modo inverso, Pedro Savage observa que
“a teologia é, em essência, missiológica” (1984:56). Isto é, a
missiologia é fundamental à teologia porque é o lugar aonde a fé e a estratégia
se encontram no caminho para o mundo num dado momento específico. Entendendo a
missiologia na sua devida relação teológica, se torna patente a necessidade de
seu enraizamento sólido na Bíblia. (pp. 7,8) Em sua exposição de Romanos, o Dr.
Carriker observa que esta carta se caracteriza por uma extensa elaboração
teológica e é a teologia que melhor indica o contexto ou os contextos da carta,
inclusive o apelo feito pelo apóstolo para que os cristãos romanos apóiem a sua
missão espanhola. Mas, segundo ele, não é uma teologia abstrata e desconectada
da situação missionária de Paulo. É uma teologia de missão. Citando Krister
Stendahl, assevera que este é um dos poucos biblistas que percebeu isso, quando
iniciou um dos seus últimos livros com a seguinte afirmação: Romanos é a última
declaração de Paulo acerca da sua teologia de missão. Não é um tratado
teológico sobre a justificação pela fé… Quando falo de Romanos como a
declaração, feita por Paulo, da sua teologia de missão, estou convencido de que
a teologia paulina tem o seu centro norteador na percepção apostólica de Paulo
sobre a sua missão aos gentios. Conseqüentemente, Romanos é central à nossa
compreensão de Paulo, não por causa da sua doutrina da justificação, mas porque
a doutrina da justificação está aqui no seu contexto original e autêntico: como
um argumento a favor da posição dos gentios baseada no modelo de Abraão
(Romanos 4). (pp. 132,3). (2) Quais eram, portanto, segundo o Dr. Carriker, as
convicções que levaram um “fariseu dos fariseus” a se tornar apóstolo
dos gentios? De acordo com ele, devemos qualificar que Paulo não desenvolveu
seu ministério de fundamentos exclusivamente dogmáticos. Nem podemos afirmar
que Paulo era um “teólogo” no sentido que muitos o fazem hoje em dia,
como se fosse um pensador sistemático. Em vez de considerá-lo como um teólogo
sistemático, devemos encará-lo como um teólogo pastoral, que desenvolveu sua
perspectiva não de reflexão acadêmica divorciada das situações concretas e
problemas eclesiásticos em que se envolvia. Paulo seria uma sorte de teólogo
peregrino (ou missionário!) que, na estrada da experiência da vida e do
ministério, procurava teologar a partir da sua realidade. Assim, Paulo seria
melhor descrito como um teólogo de práxis que, partindo da sua experiência,
refletia nela a base das escrituras hebraicas e do seu encontro com Jesus
crucificado e ressurreto.

Avaliando os dois conceitos
Mesmo numa análise ligeira dos conceitos de nossos teólogos (Nicodemus e
Carriker), é possível observar que ambos enfatizam, de maneira positiva, a
importância do valor conjunto da teologia e missões no ministério de Paulo e da
igreja, e também o prejuízo que a igreja experimenta quando divorcia uma da
outra. Nenhum dos dois desmerece a teologia ou a missão. À despeito de tanto um
quanto o outro procurar rever os conceitos de “teologia” e
“missões” à luz de suas convicções teológicas. Mas isto também é
positivo, pois como o Dr. Nicodemus bem observa, quando a nossa prática
missionária não é conduzida por uma reflexão teológica correta, ela acaba se
tornando em mero ativismo. Por outro lado, o Dr. Carriker salienta, com muita
propriedade, que não podemos afirmar que Paulo era um “teólogo” no
sentido que muitos o fazem hoje em dia, como se fosse um pensador sistemático.
Em vez de considerarmos Paulo como um teólogo sistemático, devemos encará-lo
como um teólogo pastoral, que não desenvolvia sua perspectiva teológica
academicamente, mas no contexto da missão. Entretanto, a questão fundamental é
se a teologia de Paulo era motivada por sua missiologia e vice-versa. A tese
que defendemos é pelo “sim”. Paulo foi um grande missionário porque
era um grande teólogo, e que, por sua vez, era um grande teólogo porque foi um
grande missionário. Infelizmente esta tese não é defendida pelo Dr. Nicodemus e
muito menos pelo Dr. Carriker. Um teólogo geralmente não admite que a teologia
(principalmente a sua própria) é fruto de uma missiologia bem definida e um
missiólogo, por sua vez, não costuma afirmar que a missão por ele defendida é o
resultado de uma teologia bíblica coerente (3). Mas em Paulo a missão é
teológica e a teologia é missiológica. Ele não apenas não separava uma da
outra, mas também subordinava uma a outra. Um bom exemplo disso é sua carta aos
Romanos. Tomemos como exemplo o capítulo 15 dessa carta. Para Samuel Escobar,
fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana, A missiologia de Paulo
muitas vezes é expressa como exposição teológica, entrelaçada com referências
de sua prática missionária. Penso que Romanos 15.11-33 é um texto ilustrativo
da metodologia de Paulo, especialmente relevante para a reflexão missiológica
na América Latina. Esta passagem apresenta uma interação entre a teoria e a
prática, entre os fatos da vida em obediência a Deus e a reflexão sobre esses
fatos (Desafios da Igreja na América Latina, 1997, p. 89).

E resume:
Uma leitura cuidadosa de Romanos 15.11-33 evidencia uma estrutura de quatro
partes da missiologia de Paulo. Em cada seção encontraremos um “fato”
central ligado à  Prática de Paulo,
seguido da reflexão pastoral e missiológica que é estimulada por esse fato e
que gira em torno dele. O primeiro é proclamação: “Proclamarei plenamente
o evangelho de Cristo” (v. 17-22); o segundo é previsão: “Planejo
[vê-los] quando for à Espanha” (v. 23-24); o terceiro é conclusão:
“Agora, porém, estou de partida para Jerusalém” (v. 25-29); e o
quarto é luta: “Recomendo-lhes, irmãos […] que se unam a mim em minha
luta” (v. 30-33). (Idem) (4). Ademais, a motivação missionária de Paulo
não era determinada somente por convicções teológicas e escatológicas, como
sugere o Dr. Nicodemus (1997, pp. 5-21), ou apocalípticas, como pretende o Dr.
Carriker (1998, pp. 124-148), mas que, além disso, o apóstolo possuía o coração
inflamado de paixão e amor pelos perdidos (5). 
Como resultado do amor de e a Cristo, Paulo amava os perdidos (Cf. 2 Co
5.14; Rm 1.5; 9.3; Ef 3.1; Fp 3.7; 1 Ts 1.5; 2 Tm 2.10). O amor tornava Paulo
afetuoso e caloroso em sua evangelização (PACKER, Evangelização e Soberania de
Deus, 1990, p. 38). Escrevendo aos tessalonicenses o apóstolo dizia que
“… nos tornamos dóceis entre vós…”. E ainda, “assim,
querendo-vos muito, estávamos prontos a oferecer-vos não somente o evangelho de
Deus, mas, igualmente, a nossa própria vida, por isso que vos tornastes muito
amados de nós” (1 Ts 2.7,8). O amor também fazia Paulo ter sensibilidade,
sendo capaz de adaptar-se às circunstâncias em sua evangelização; embora se
recusasse terminantemente a alterar sua mensagem para agradar as pessoas (cf. 2
Co 2.17; Gl 1.10; 1 Ts 2.4), ele se esforçava ao máximo, em sua apresentação da
mesma, para evitar escândalo e não dificultar desnecessariamente o caminho para
aceitação e resposta positivas (cf. 1 Co 9.16-27; 10.33). Segundo Packer,

Paulo procurava salvar os homens e, visto que procurava salvá-los, não se
contentava apenas em informá-los sobre a verdade; mas empenhava-se em se pôr ao
lado deles, começando a pensar juntamente com eles, a partir de onde se
encontravam, falando-lhes em termos que podiam compreender e, acima de tudo,
evitando tudo quanto pudesse fazê-los adquirir preconceitos contra o evangelho
ou pôr pedras de tropeço em seu caminho. Em seu zelo por manter a verdade,
nunca perdeu de vista as necessidades e reivindicações das pessoas. Seu alvo e
objetivo, em todas as suas atividades no evangelho, até mesmo no calor da
polêmica evocada por pontos de vista contrários, nunca deixou de ser conquistar
almas, convertendo aqueles que considerava seus próximos à fé no Senhor Jesus
Cristo.

Tal era a evangelização, de acordo com Paulo: sair em amor, como agente de
Cristo no mundo, a fim de ensinar aos pecadores a verdade do evangelho, tendo
em vista a conversão e a salvação dos mesmos (Evangelização, 1990, p. 38).

b. As estratégias missionárias de Paulo

As estratégias missionárias de Paulo eram o resultado direto e natural de suas
motivações. Dentre os vários meios utilizados por Paulo para divulgar o
evangelho (6), destaquemos os mais utilizados pelo apóstolo; a saber, a escolha
de centros estratégicos e as sinagogas.

Paulo percorria as estradas romanas anunciando o evangelho e fazendo discípulos
nas principais cidades das províncias imperiais, verdadeiros centros
estratégicos. Ele concentrava suas atividades nesses locais, tornando o que
outrora eram campos missionários em bases de sua missão. Tessalônica, por
exemplo, tornou-se a base missionária para a província da Macedônia; Corinto a
base para a província da Acaia; Éfeso a sua base para a Ásia proconsular. A
igreja de Roma também seria uma possível base para a evangelização na Espanha
(cf. Rm 15.24). Quando voltamos nossos olhos para o livro de Atos (7),
percebemos que os missionários daquela época, de modo geral, e Paulo, em
especial, concentravam seus esforços geralmente naqueles centros estratégicos
do ponto de vista cultural, econômico, religioso, político e geográfico até.
Embora no caso deste último a estratégia de trabalho de Paulo não era tanto
geográfica quanto humana ou cultural, no sentido de etnias (8).

O Dr. Timóteo Carriker faz uma importante observação acerca dos centros
estratégicos de Paulo. Diz ele:

Paulo procurava atingir primeiro os centros provinciais que não eram
evangelizados na sua missão. Isto era uma estratégia do “quadro
geral” e não dos detalhes, isto é, não de todo e qualquer lugar. Ele não
tentava evangelizar o mundo gentílico totalmente, mas contava com a obra
evangelizadora das comunidades que ele estabeleceu para continuar a missão. Ele
mesmo se apressava para a tarefa urgente de pregar o evangelho para aqueles que
não o ouviam (Romanos 10.14). Sua perspectiva era de “preencher” ou
“completar” os principais lugares que faltavam no mundo gentílico e
prosseguir em frente [veja peplérókenai em Romanos 15.19] (Missão Integral,
1992, pp. 235,6).

As sinagogas judaicas também faziam parte das estratégias missionárias de
Paulo. Roland Allen (9) reconheceu quatro características da pregação de Paulo
nas sinagogas. Em primeiro lugar, é possível ver em Paulo a simpatia e a
conciliação com as sensibilidades dos ouvintes: a apresentação é clara, ele está
disposto a aceitar o que há de bom na posição deles, simpatiza com suas
dificuldades, mostrando que ele os aborda com sabedoria e tato. Em segundo
lugar, ele tem coragem de reconhecer abertamente as dificuldades, de proclamar
verdades não muito fáceis de engolir, e de recusar-se inapelavelmente a fazer
coisas difíceis parecerem fáceis. Em terceiro lugar, vem o respeito por seus
ouvintes, suas capacidades intelectuais e suas necessidades espirituais. Em
quarto lugar, há uma confiança inabalável na verdade e no poder do evangelho.
Não estaremos longe da verdade ao supormos que estas eram características
típicas da pregação na sinagoga, nos primeiros tempos da missão, em que as
oportunidades ainda estavam abertas. Os missionários cristãos aceitavam com
gratidão esta oportunidade de falar a Israel, nas três primeiras décadas
decisivas antes que a porta das sinagogas lhes fossem fechadas (GREEN,
Evangelização, 1989, p. 240).

Mas por que será que o apóstolo Paulo priorizava as sinagogas judaicas como
parte de sua estratégia? Antes de tudo é preciso lembrar que Paulo era
essencialmente um apóstolo enviado por Cristo aos gentios. Na época de sua
conversão no caminho de Damasco, o Senhor Jesus disse que o livraria “dos
gentios, para os quais eu te envio” (At 26.17). Entre os apóstolos ficou
acertado que Tiago, Pedro e João iriam para a circuncisão (judeus) e ele,
Paulo, “para os gentios” (Gl 2.9). Entre Pedro e Paulo, por exemplo,
havia uma consciência marcante da missão deles aos judeus e gentios, respectivamente
(Gl 2.7,8).

Em quase toda sinagoga judaica existiam, além de judeus é claro, dois grupos
distintos de gentios. O primeiro grupo era formado pelos denominados
“prosélitos”, isto é, gentios convertidos ao judaísmo. Os homens eram
circuncidados, concordavam em obedecer a lei e guardar o sábado, faziam
peregrinações a Jerusalém, e daí em diante não eram mais gentios, e sim judeus.
O segundo grupo de gentios que normalmente freqüentava a sinagoga era formado
pelos “tementes a Deus”. Eram apreciadores da lei e do ensinamento
judaicos, mas por uma série de razões pessoais achavam por bem não se
desvincular de suas raízes gentílicas, como os prosélitos, para se tornarem
judeus. Todavia, eles freqüentavam a sinagoga regularmente, ainda que tivessem
que ficar na parte que lhes era reservada, não lhes sendo permitido a
participação completa dos cerimoniais litúrgicos. Em suma, enquanto os
“prosélitos” eram ex-gentios, os “tementes a Deus” ainda
eram gentios. E embora Paulo tivesse o que dizer aos três grupos que freqüentavam
a sinagoga, seu objetivo principal era converter os gentios que lá estavam, os
tementes a Deus (10).

A estratégia de um homem como Paulo era basicamente simples: ele só tinha uma
vida, e estava decidido a usá-la o máximo possível, tirando dela o melhor
proveito no serviço de Jesus Cristo. Sua visão era ao mesmo tempo pessoal,
urbana, provincial e global (GREEN, Evangelização, 1989, p. 318).

1.2. As missões de Paulo
A obra missionária de Paulo é vastíssima, quer seja compreendida no tanto de
trabalho que ele realizou, quer seja no aspecto do próprio conceito de missões
que o apóstolo tinha. Para Paulo missões não era proclamação fria, automática e
desencarnada. Era, antes de tudo, proclamação compromissada, significando a
manutenção daqueles aos quais ele alcançou mediante a pregação e ensino do
evangelho. Missões em Paulo não era mero espiritualismo, mas pura encarnação.
Ele se preocupava com o ser humano em sua totalidade. Um bom exemplo disso está
em ele não se esquecer dos pobres (cf. 2 Co 8; Gl 2.10). Sua missão era fazer
“missão integral”, no sentido em que essa expressão é usada na
missiologia contemporânea.

Neste tópico nos limitaremos às missões pelas quais Paulo é mais conhecido e
através das quais ele deu forma ao seu ministério e de onde produziu suas
epístolas inspiradoras, isto é, suas viagens missionárias, conforme registradas
em Atos (11) e em seu testemunho de Romanos 15.

a. A primeira viagem missionária de Paulo
Obedecendo à direção divina e sob os auspícios da igreja de Antioquia, o apóstolo
iniciou sua primeira viagem missionaria entre 45 e 50 A.D. Com Paulo estavam
Barnabé e João Marcos. Partiram de Antioquia para Selêucia, situada na foz do
Orontes e dali para Chipre, terra de Barnabé. Desembarcando em Salamina, na
costa de Chipre, começaram a trabalhar, como de costume, nas sinagogas.
Percorreram toda a ilha até chegarem a Pafos, na costa sudoeste. Neste lugar
despertaram a atenção de Sérgio Paulo, procônsul romano. Saiu-lhes ao encontro
um feiticeiro chamado Barjesus, também conhecido por Elimas o mago, que
opondo-se a Paulo procurava Desviar a atenção do procônsul (At 13.6, 7). Paulo
resistiu-lhe indignado e repreendeu-o severamente, ferindo-o temporariamente
com cegueira. Resultou disto a conversão de Sérgio Paulo (At 13.12). Partindo
de Chipre navegaram para a Ásia Menor e chegaram a Perge na Panfília. Ali
Marcos, por motivos ignorados, deixou seus companheiros e regressou a
Jerusalém. Os dois, Paulo e Barnabé, saíram de Perge, rumo ao norte, passando
por Frígia e indo até Antioquia da Pisídia. Ali o povo da cidade, incitados
pelos judeus, levantou-se contra Paulo e Barnabé e os expulsaram (At 13.50). De
Antioquia passaram a Icônio, outra cidade da Frígia, onde uma copiosa multidão
de judeus e gregos foram convertidos (At l3.51). Por causa da perseguição dos
judeus, partiram de Icônio para Listra e Derbe, cidades da Licaônica (At
14.1-7). Em Listra Paulo curou um coxo, foi adorado juntamente com Barnabé,
pregou o evangelho, foi apedrejado e lançado fora da cidade como morto (At 14.8-19).
Restabelecido vão a Derbe, de Derbe a Listra, de Listra a Icônio, de Icônio a
Antioquia da Pisídia, fortalecendo os discípulos e elegendo presbíteros.
Atravessando a Pisídia, passam pela Panfília e Perge. Tendo anunciado a Palavra
em Perge, desceram a Átalia e dali navegaram para Antioquia da Síria (At
14.20-26).

b. A segunda viagem missionária de Paulo

Tempos depois, por volta do ano 50, Paulo propôs a Barnabé uma segunda viagem
missionária (At 15.16). Mas o apóstolo não queria que João Marcos fosse com
eles, o que provocou a separação dos dois grandes missionários da Igreja
Primitiva. Silas foi o companheiro de Paulo nessa segunda viagem. Primeiro
visitaram as igrejas da Síria e da Cilícia; depois passaram para os lados do
norte, atravessaram as montanhas do Tauro e passaram às igrejas que Paulo havia
fundado na sua primeira viagem. Foram a Derbe e a Listra. Nesta última cidade
Timóteo se juntou a eles. De Listra foram para Icônio e Antioquia da Pisídia.
Após alguns “impedimentos” do Espírito Santo (At 16.6,7), desceram a
Trôade, onde Paulo teve a visão do varão macedônio. Obedecendo a este chamado,
os missionários vão, juntamente com Lucas, para a Europa. Desembarcando em
Neápolis, seguem logo para a importante cidade de Filipos. Vale lembrar que Atos
16 e a carta de Paulo aos filipenses formam um dos mais belos retratos de sua
missiologia. De Filipos, onde Lucas ficou, Paulo, Silas e Timóteo foram para
Tessalônica, lugar em que alcançaram grandes resultados entre os gentios,
fundando ali uma igreja (At 17.1-9). Por causa da perseguição dos judeus, os
irmãos enviaram Paulo para a Beréia; deste lugar, após valiosos resultados até
mesmo dentro da sinagoga, seguiu para Atenas (At 17.10-15), cidade onde Paulo
proferiu seu famoso discurso, mas com poucos resultados (At 17.16-31). Depois
partiu para Corinto, onde ficou dezoito meses e, ao contrário de Atenas, os
resultados foram admiráveis (At 18.1-11). A missão de Paulo em Corinto foi uma
das mais frutíferas da história da Igreja Primitiva. De Corinto foi para Éfeso,
ficando pouco tempo, seguiu para Cesaréia, indo apressadamente para Jerusalém.
Havendo saudado a igreja desta cidade, voltou a Antioquia, de onde havia
partido (At 18.22).

c. A terceira viagem missionária de Paulo

Depois de algum tempo em Antioquia, o apóstolo Paulo, talvez no ano 54 A.D.,
deu início à sua terceira viagem missionária. Primeiro atravessou a região da
Galácia e da Frígia, afim de fortalecer os discípulos (At 18.23); depois vai a
Éfeso, capital da Ásia e uma das cidades de maior influência no oriente. Paulo
permaneceu três anos em Éfeso (At 20.31). Durante três meses ensinou na
sinagoga e, depois, durante dois anos na escola de Tirano (At l9.8-10). Seu
trabalho nesta cidade notabilizou-se pela riqueza de instrução (At 20.18-31), pela
realização de milagres (At 19.11,12), pelos resultados obtidos, porque todos os
que habitavam na Ásia ouviram o evangelho (At 19.10) e pelas constantes
perseguições (At 19.23-40). De Éfeso partiu para a Macedônia, e depois de
fortalecer os discípulos com muitas exortações, viajou para a Grécia, onde
permaneceu três meses (At 20.12).

Agora iniciaria sua última viagem a Jerusalém, acompanhado de amigos,
representantes das várias igrejas dos gentios (At 20.4). Seu plano inicial era
navegar diretamente para a Síria, mas uma conspiração dos judeus o obrigou a
voltar pela Macedônia (At 20.3). Demorou-se em Filipos enquanto seus
companheiros foram para Trôade. Depois da festa da páscoa Paulo foi com Lucas
para Trôade (At 20.5), onde os companheiros os esperavam e ali ficaram uma
semana (At 20.6). De Trôade Paulo viajou para Assôs (At 20.13). Depois de uma
rápida passagem por Mitilene e Samos, Paulo e mais alguns amigos chegaram a
Mileto (At 20.14, 15). De Mileto mandou chamar os presbíteros de Éfeso, e
naquele local é registrado um dos episódios mais emocionantes da Bíblia (At
20.17-38). Partindo de Mileto o navio seguiu diretamente para a ilha de Cós e
no dia seguinte chegaram a Rodes. De Rodes passaram a Pátara, nas costas da
Lícia (At 21.1). Achando um navio que ia para a Fenícia embarcaram, e seguindo
viagem passaram por Chipre, desembarcando em Tiro (At 21.2, 3) ficando durante

sete dias nesta cidade. De Tiro partiram para Ptolemaida (At 21.5,6) e no dia
seguinte, após afetuosa despedida, chegaram em Cesaréia. A despeito de
alarmantes predições e das lágrimas dos irmãos para que não fosse a Jerusalém
(At 21.4, 10-12), Paulo seguiu em frente e assim, acompanhado dos irmãos,
terminou a terceira viagem missionária (At 21.12-15).

d. As “viagens” à Roma e à Espanha

Escrevendo aos crentes de Roma, Paulo observa que durante anos se esforçou em
pregar o evangelho “desde Jerusalém e circunvizinhanças, até o
Ilírico” (Rm15.19).

Mas agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões, e desejando há muito
visitar-vos, penso em fazê-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que
de passagem estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de
haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia (Rm 15.23,24).

Carlos Del Pino (In Missões e a igreja brasileira, 1993, p. 58) comenta que em
Romanos 15.22-24 todo esforço, a visão e o investimento de vida do apóstolo
durante anos naquelas regiões o levaram a duas atitudes específicas em relação
aos romanos. Segue-se abaixo um esboço de Del Pino dessas atitudes de Paulo:

1. Não visitar os romanos (15.22). E o próprio Paulo nos dá suas razões para
isso:

O evangelho já havia se estabelecido em Roma, já havia igreja lá. E, de acordo
com o que ele mesmo disse no v. 20, não seria conveniente que ele, Paulo,
exercesse seu ministério ali;

Muitos outros povos ainda careciam de receber o evangelho e Paulo via-se
impulsionado por força do ministério recebido de Deus, para trabalhar em
regiões ainda não atingidas.

2. Visitar os romanos (15.23,24). Agora Paulo tinha razões para visitar os
romanos.

São elas:

Término das atividades naquelas regiões; novos lugares precisam ser alcançados
(15.23);

Desejo antigo de conhecer a igreja romana (15.23);

Devido a sua visão de alcançar novos povos, esta visita não seria para lazer,
mas para estabelecer na igreja em Roma uma base missionária para o Ocidente até
a Espanha – “para lá ser por vós encaminhado” (15.24,28).

Mas por que Paulo não tinha mais campo de atividades naquelas regiões? O que
ele fazia lá para que tenha terminado o seu trabalho? Del Pino lembra que

Paulo proclamava o evangelho naquelas regiões. O que ele está dizendo no v. 23
é que houve o cumprimento de um ministério específico por uma pessoa específica
(Paulo). Não significa que ninguém mais teria nada para fazer ali; ao
contrário, muito trabalho ainda havia para ser feito, tanto de evangelismo
quanto de ensino, exortação etc. Outros poderiam e deveriam continuar ali
exercendo seus ministérios, mas aquilo para o que Paulo havia sido chamado por Deus
já havia se completado naquelas regiões. Isso também não significa que o
ministério de Paulo em si houvesse terminado por completo, tanto que ele
buscava uma nova região onde pudesse desenvolvê-lo. O que o apóstolo fez
“desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico”, que foi
“pregar o evangelho” (15.20), era exatamente o que ele pretendia
continuar fazendo, em seguida, na Espanha. Para isso, ele precisava de uma nova
base de missões: a igreja em Roma! (1993, p. 59).

E mais:

Para tratarmos sobre esta nova base de missões, precisamos entrar no v. 24.
Aqui Paulo revela claramente seus propósitos e seus meios. Veja bem, o
propósito final de Paulo, seu objetivo real, não era apenas conhecer a igreja
de Roma. Isso ele poderia ter feito em outras circunstâncias. Seu objetivo
final era chegar à Espanha. Este objetivo reflete o esforço de Paulo (15.20) e
sua vocação (15.21), conforme já temos enfatizado. Ele pretendia chegar à
Espanha para ali continuar desenvolvendo o seu ministério; “de passagem”
por Roma (15.24), ele esperava ir à Espanha, enviado pela igreja de Roma.
Quando Paulo diz no v. 24 “para lá seja por vós encaminhado”, ele não
apenas tinha em mente, mas estava claramente dizendo as coisas necessárias para
a sua viagem e subsistência lá (1993, p. 59).

Paulo chegou em Roma por volta do ano 60 A.D. como prisioneiro (cf. At 27 e
28). Lucas relata que “por dois anos permaneceu Paulo na sua própria casa
que alugara” (At 28.30) com toda liberdade de receber a todos que o
procuravam e de pregar o evangelho (At 28.30,31). Para quem pretendia apenas
passar por Roma, e livre, dois anos, e preso, era tempo de mais. Após esta sua
primeira prisão (domiciliar), o apóstolo, entre outras viagens, provavelmente
tenha chegado à Espanha (DEL PINO, 1993, p. 59).

II – RELEVÂNCIA PARA O NOSSO POVO E IMPLICAÇÕES PARA A MISSÃO DA IGREJA

A sociedade brasileira carece de uma mensagem evangélica confrontadora. Não que
ela queira ser tocada em suas feridas, mas à luz da Bíblia não podemos oferecer
às pessoas um evangelho paliativo e barateado. O cristianismo puro e simples
(para usar o título em português do livro de C. S. Lewis) precisa ser a
mensagem e o estilo de vida de todo homem e de toda mulher salvos em Cristo.

Em se tratando de evangelho para o povo brasileiro, a igreja evangélica, não
raramente, tem ido ou para o extremo da mensagem desencarnada, distante da
realidade cotidiana do povo, mediante a apresentação de um evangelho
transcendente que alcança as estrelas mas esquece da terra; ou tem, por outro
lado, oferecido Jesus Cristo às pessoas como se Ele fosse um produto de consumo
a disposição nas prateleiras do mercado eclesiástico. Apresenta-se Cristo no
melhor dos estilos “fada madrinha”. Em nome de Cristo promete-se ao
povo casa, carro, dinheiro; enfim, toda sorte de prosperidade, sem contar a
confusão que se faz entre as fraquezas e tristezas sentidas por alguém em
relação aos objetivos não alcançados por ele e a verdadeira convicção de
pecados. As pessoas não devem ser confrontadas em termos de “você não conseguiu?
Venha para Jesus que você consegue”, mas sim encaradas como pecadoras que
precisam urgentemente da graça redentora.

Cremos sinceramente que Cristo pode dar tudo e até mais do que é prometido às
pessoas em termos de prosperidade; porém, não podemos perder de vista as
implicações e exigências do evangelho autêntico.

Além disso, a sociedade brasileira carece do evangelho que seja encarnado na
vida dos crentes. Um cristianismo integral que seja a expressão de uma vida
santificada e consagrada ao Senhor. Em outras palavras, a manifestação viva
daquilo que dizemos acreditar.

Hoje em dia parece que virou moda e status ser crente. No meio artístico, por
exemplo, ouve-se falar daquele e daquela como os mais novos irmãos na fé;
entretanto, aqui e ali ficamos sabendo dos escândalos que esses
“irmãos” cometem. Não negamos que haja conversões de verdade entre os
artistas, porém, é preciso que o quanto antes a pureza do evangelho, com todas
as suas implicações para a igreja e a sociedade, seja resgatada em nosso meio.
É necessário que “o sal da terra” e “a luz do mundo”, a
Igreja de Jesus Cristo, seja a verdadeira opção de vida, ou mais que isso,
seja, de certo modo, o sentido da vida para todo aquele que perece em seus
próprios pecados; a verdadeira diferença na vida de tantos que permanecem
indiferentes.

Que Deus nos ajude a começar em nós, nos impulsionando a pregar o evangelho
como o fez com Paulo. O apóstolo Paulo fazia do evangelho a razão de seu viver
e de outras pessoas. Paulo é um exemplo fabuloso de compromisso com a verdade
do evangelho. Ele nunca a comprometia. Podia como poucos ser imitado como
imitador de Cristo (1 Co 11.1). Acredito que não seria exagero de minha parte
dizer que Paulo alcançou mais pessoas para Cristo por sua vida de dedicação e
seriedade ao reino de Deus do que em suas pregações propriamente ditas.
Semelhantemente o povo brasileiro precisa ver na igreja de hoje pessoas que
vivam o que dizem crer. A prática é a expressão do que acreditamos. Se não
praticamos o que falamos, então a nossa pregação não passará de retórica
evangélica desqualificada.

III – CONCLUSÃO

A perspectiva missionária de Paulo era “preencher” ou
“completar” os principais lugares que faltavam no mundo gentílico e
continuar seguindo em frente, motivado por uma teologia pastoral de vida, pela
esperança escatológica do retorno imediato de Cristo e por seu amor aos
perdidos como resultado do seu amor por Jesus, com estratégias missionárias bem
definidas. Valeria a pena seguirmos o apóstolo com essa mesma perspectiva missionária?
Certamente que sim. Pois é nesse contexto de missão que o intrépido sede meus
imitadores como eu sou de Cristo encontraria, aqui, a sua melhor e mais
completa aplicação. Se a igreja hoje imitasse Paulo como ele imitava Cristo,
missões seriam o nosso maior projeto de vida.

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

BALL, C. F. The life and journeys of Paul. Chicago: Moody Press, 1975.

CARRIKER, C. T. A missiologia apocalíptica da carta aos Romanos:
Com ênfase em 15.14-21 e 9-11 In Fides Reformata. Vol. III, Nº 1, São Paulo:
JMC, 1998.

______________ Missões na Bíblia: Princípios gerais. São Paulo: Vida Nova,
1992.

______________ Missão integral: Uma teologia bíblica. São Paulo: Sepal, 1992.

DAVIS, J. D. Paulo In Dicionário da Bíblia. 2. ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1960.

DODD, C. H. The meaning of Paul for Today.
London and Glasgow: Fontana Books, 1958.

GREEN, M. Evangelização na igreja primitiva. 2. ed. São Paulo:
Vida Nova, 1989.

KÄSEMANN, E. Perspectivas paulinas. São Paulo: Paulinas, 1980.

LOPES, A. N. Paulo, plantador de igrejas: Repensando fundamentos bíblicos na
obra missionária In Fides Reformada, Vol. II, Nº 2, São Paulo: JMC, 1997.

MILLER, D. G. Pauline motives for the
christian mission In The theology of the christian mission. New York:
McGraw-Hill, 1961.

NICHOLS, R. H. História da Igreja Cristã. 6 ed. São Paulo: CEP,
1985.

TAYLOR, W. M. Paul the missionary. New
York and London: Harper & Brothers publishers, 1902.

VON EICHEN, E. & LINDER, H. Apóstolo In Dicionário
internacional de teologia do Novo Testamento. Vol. I, São Paulo: Vida Nova,
1984.

NOTAS
(1) Para uma explanação completa destes três pontos veja, no referido artigo do
Dr. Nicodemus, as páginas 7 a 12.

(2) Veja mais sobre o conceito de teologia paulina na conclusão do artigo do
Dr. Carriker, p. 148. E ainda, do mesmo autor, Missões na Bíblia: Princípios
Gerais (1992, pp. 47-54).

(3) Veja GREEN (Evangelização na Igreja Primitiva, 1989, p. 7).

(4) Para a exposição completa dessas partes, veja Escobar (1997, pp. 89-103).
Para um estudo interessante de Romanos 15.20-24, com ênfase na Igreja
brasileira, consulte Carlos Del Pino (In Missões e a igreja brasileira, 1993,
pp. 55-61). E para uma análise exegética de Romanos 15.14-21 veja Carriker
(1998, pp. 124-140).

(5) Uma excelente análise da teologia de missões de Paulo, suas motivações
teológicas e missionárias, incluindo sua paixão e amor pelos perdidos, pode ser
encontrada em James I. Packer (1990, pp. 31-57), D. G. Miller (1961, pp. 72-84)
e Michael Green (1989, pp. 289-312).

(6) Estudos importantes sobre as diversas estratégias missionárias de Paulo
podem ser vistos na literatura missionária e evangelística de T. Carriker
(1992, pp. 233-238), M. Green (1989, pp. 313-330) e C. Fábio (In Plantando
igrejas no Brasil, pp. 103-121), entre outros.

(7) Um estudo das estratégias missionárias de Paulo em Atos dos Apóstolos, com
aplicação para os nossos dias, pode ser encontrado no livro Plantando Igrejas
no Brasil: “Anais da I Conferência Missionária para Plantadores de
Igrejas”. São Paulo: Cultura Cristã,1997, pp. 81-140.

(8) Veja T. Carriker (Missão Integral, 1992, p. 51).

(9) Citado por M. Green (Evangelização, 1989, p. 241).

(10) Veja GREEN (Evangelização, 1989, pp. 239-241).

(11) Mesmo em termos das viagens missionárias de Paulo em Atos dos Apóstolos,
muita coisa os eruditos disseram e têm a dizer. Nosso propósito aqui é dar
apenas um resumo dessas viagens conforme registradas em Atos. Como uma análise
histórica, teológica e exegética das viagens missionárias de Paulo tornaria
este trabalho muito maior do que já se encontra, recomendamos, para este fim,
que se consulte o excelente comentário bíblico de Simon J. Kistemaker (New
Testament commentary: Exposition of the Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, pp.
451-969).

(12) Em português um dos melhores comentários bíblicos é Atos:
Introdução e Comentário de Howard Marshall (Vida Nova/Mundo Cristão, 1985), mas
infelizmente não é tão exegético e profundo como o livro do Dr. Kistemaker.

Parte
V
A
PERSPECTIVA MISSIONÁRIA DE PAULO – I
I
– Introdução
A vida de Paulo é uma riqueza sem fim. Para qualquer aspecto do
ministério dele, que focalizarmos nosso olhar, não faltará material de
pesquisa, seja para estudá-lo como teólogo, escritor, pastor e mestre, ou
missionário. Embora para este último caso não exista, ainda, um bom acervo
sobre a missiologia de Paulo, principalmente em português. É lamentável, porque
Paulo, o missionário é, com certeza, uma das facetas mais importantes do
apóstolo. Não encontrei, em língua portuguesa, um livro sequer com o título de
Paulo, o missionário. Em inglês existe apenas (até onde temos conhecimento) o
livro Paul the missionary, de William M. Taylor, publicado pela Harper &
Brothers Publishers em 1902. É verdade que existem livros e artigos, tanto em
português quanto em inglês (alguns deles são citados neste ensaio
bíblico-teológico), que tratam da obra missionária de Paulo como um todo,
porém, somente o livro de Taylor traz em sua capa um título específico. Neste
meu estudo veremos como a teologia de Paulo subsidiava a sua missão e
vice-versa. Mas qual era a natureza dessa teologia? Como era feita? Como o
apóstolo entendia a dinâmica de sua missão no contexto de seu ministério
apostólico? Além disso, quais eram as verdadeiras motivações missionárias dele?
Eram tão somente teológicas, apocalípticas e escatológicas ou envolviam mais
alguma coisa? E quanto à estratégia de trabalho, o apóstolo possuía alguma?
Qual? Enfim, qual era a perspectiva missionária de Paulo?

A estas e outras perguntas tentaremos responder no decorrer deste estudo.

II – Estudo Gramatical

A palavra “missionário” não aparece na Bíblia. O termo equivalente no
Novo Testamento é “apóstolo”. Entretanto, não existe unanimidade
entre os estudiosos quanto ao uso de apóstolos como sinônimo para
“missionário”. Everett Harrison (In EHTIC, 1988, p. 104), por
exemplo, observa que não há justificativa para fazer de “apóstolo” o
equivalente de missionário. Johannes Blaw (A Natureza Missionária da Igreja,
1966, pp. 77,8), por sua vez, reconhece que originalmente os termos
“apóstolo” e “missionário” não eram sinônimos, mas depois
houve uma mudança. Diz ele:

Antes de mais nada deve ficar entendido que a palavra “apóstolo”, na
sua origem e significação, não é sinônima de “missionário”, no
sentido comumente atribuído a este último termo. (…). Só depois da
ressurreição (de Cristo) o título “apóstolo” toma a conotação
especial de “missionário”, de enviado às partes extremas da terra.

Concordamos com Blaw e, principalmente, com Timóteo Carriker (Missões na
Bíblia, 1992, p. 120), por afirmar: O termo missionário vem do latim, que, por
sua vez, traduz a palavra grega apostolos, a qual significa o enviado (1).

2.1 O significado amplo de apóstolos

a. No grego clássico
No grego clássico, o substantivo apóstolos aparece pela primeira vez na
linguagem marítima, significando um navio de carga ou a frota enviada. Mais
tarde passou a designar o comandante de uma expedição naval e também um grupo
de colonizadores enviados para além-mar. Nos papiros podia designar uma fatura,
ou mesmo um passaporte. Somente em duas passagens em Heródoto é que apóstolos
significa um enviado ou emissário como pessoa individual. Os termos comuns são
aggelos (mensageiro) ou keryx (arauto). O historiador Flávio Josefo usou
apóstolos ao tratar de um grupo de judeus enviados para Roma (Ant. In NDTNT, p. 234).

Todos os empregos de apóstolos no grego clássico têm duas idéias
em comum. 1) Uma comissão expressa e 2) Ser enviado para além-mar. Assim,
conforme lembram Eicken e Lindner, o sentido da raiz, no caso do substantivo, é
estreitado na sua definição (In DITNT, 1984, p. 234).

Acredita-se (2) que foi somente mais tarde, nos círculos gnósticos, que o termo
apóstolos passou a transmitir o conceito oriental de emissários como mediadores
da revelação de Deus. No gnosticismo o termo em questão podia ser empregado no
singular (apóstolos) para se referir a um salvador celestial, ou no plural
(apostoloi), para representar certo número de pessoas “salvadoras” ou
“espirituais” (EICKEN & LINDNER, In DITNT, 1984, pp. 234,5).

b. Na LXX
Na Septuaginta (LXX), a versão grega do Antigo Testamento hebraico, o termo
“apóstolo” não era usado no sentido técnico de designar alguém para
um ofício “missiológico”, mas sim, uma nomeação para se cumprir
qualquer função ou tarefa que normalmente se definia com clareza. Isto explica,
de certa forma, porque o verbo apostélloo e não o substantivo apóstolos é
empregado quase que exclusivamente no AT. O verbo apostélloo não se encontra no
Antigo Testamento no sentido de “ser enviado” para fazer missões,
conforme aparece no Novo Testamento. O judaísmo não conhece missões no sentido
de oficialmente enviar missionários (Eicken e Lindner, In DITNT, 1984, p. 235).
Isto não quer dizer que a Bíblia deixe de reconhecer a idéia de missões no
Antigo Testamento. O que ocorre é que existe entre o AT e o NT, no que concerne
à obra missionária, uma diferença de grau e ênfase, mas não de essência ou
natureza da missão (3).

b. No Novo Testamento

Ao contrário da LXX, no Novo Testamento o substantivo apóstolos recebe uma
ênfase toda especial. Aparece 6 vezes em Lucas, 28 em Atos, 34 em Paulo, uma
vez em Hebreus, 3 vezes em Pedro, uma vez em Judas, 3 vezes em Apocalipse.
Mateus, Marcos e João empregam a palavra uma vez cada em seus respectivos
evangelhos. No NT, um apóstolo (no sentido técnico como o termo era usado, isto
é, um enviado de Deus para anunciar as boas novas de salvação) era alguém que
não só tinha visto o Senhor ressuscitado, mas que devia ser capaz de afirmar,
fundamentando a sua afirmação, que havia sido chamado e designado de modo
especial, diretamente pelo próprio Senhor, para ser apóstolo.

2.2. O significado restrito (4) de apóstolos

a. “apóstolos” em Paulo
Para Paulo, a vocação e comissão para o apostolado não eram através dos homens,
“mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai” (Gl 1.1 cf. Rm 1.5; 1 Co 1.1;
2 Co 1.1). Tal comissão veio através de um encontro com o Senhor ressurreto (1
Co 15.7; Cl 1.16), que pessoalmente entregou a ele a mensagem do evangelho (1 Co
11.23; 2 Co 4.6; Gl 1.12). O apóstolo pregou o evangelho a homens e mulheres
como “embaixador” de Cristo (2 Co 5.20), não por capacidade inata do
seu ser (2 Co 3.5), mas pela livre graça de Deus (1 Co 15.9,10; Ef 3.8).

Não fica claro em Paulo a quem ele considerava apóstolo. É evidente que ele se
incluía no número deles, conforme afirma catorze vezes em suas epístolas.
Pertenciam também ao grupo de apóstolos, na opinião de Paulo, Pedro (Gl
1.18,19), Júnias, Andrônico (Rm 16.7) e Barnabé (Gl 2.1,9,13). Alguns estudiosos,
como D. Muller (In DITNT, 1984, p. 237), questionam se Paulo considerava Tiago,
irmão do Senhor, como sendo apóstolo, argumentando que a expressão ei me
(“senão”) de Gálatas 1.19 é ambígua. Entretanto, Harrison (In EHTIC,
1988, p. 104) esclarece que:

A explicação mais natural de Gl 1.19 é que Paulo está esclarecendo que Tiago, o
irmão do Senhor, é um apóstolo, de conformidade com o reconhecimento que
recebia da igreja de Jerusalém. Em harmonia com isto, em I Co 15.5-8, onde
Tiago é mencionado, todos os demais são apóstolos.

Curiosamente Paulo nunca aplica o título de apóstolo aos Doze como grupo
específico. Segundo D. Muller (In DITNT, 1994, p. 237),

não podemos ter certeza de que as características que Paulo atribuía aos
apóstolos são necessariamente aplicáveis ao apóstolo do NT propriamente dito,
ou se Paulo considerava que os Doze fossem apóstolos, e qual era o número dos
apóstolos nos dias de Paulo.

É evidente que no conceito amplo que Paulo tinha do termo apóstolo, os Doze
certamente estavam incluídos. Pelo menos em duas epístolas suas Paulo lança luz
sobre esta questão. Em 1 Coríntios 15.5,7 ele diz: E apareceu a Cefas, e,
depois, aos doze. Depois foi visto por Tiago, mais tarde por todos os apóstolos
(grifo nosso). E em Gálatas 1.18,19: Decorridos três anos, então subi a
Jerusalém para avistar-me com Cefas, e permaneci com ele quinze dias; e não vi
outro dos apóstolos, senão a Tiago, o irmão do Senhor (grifo nosso).

b. Paulo como apóstolo

Os aspectos distintos do apostolado de Paulo foram a nomeação direta dele por
Cristo (GI 1.1) e a designação feita a ele do mundo gentio como sua esfera de
trabalho (At 26.17,18; Rm 1.5; Gl 1.16; 2.8). Seu apostolado foi reconhecido
pelas autoridades em Jerusalém, de conformidade com sua própria reivindicação
no sentido de ser classificado em pé de igualdade com os primeiros apóstolos.
Apesar disso, nunca afirmou ser membro do grupo dos Doze (1 Co 15. 11), pelo
contrário, mantinha-se independente. Era capacitado para dar testemunho da
ressurreição porque a sua chamada viera do Cristo ressurreto (At 26.16-18; 1 Co
9.1). Paulo considerava seu apostolado uma demonstração da graça divina, bem
como uma chamada à labuta sacrificial, ao invés de uma oportunidade para se
vangloriar (1 Co 15.10). Não dava nenhuma sugestão de que a posição especial de
apóstolo o exaltasse acima da Igreja e que o distinguisse dos demais que tinham
dons espirituais (Rm 1.11, 12; 1 Co 12.25-28; Ef 4.11). Sua autoridade não se
derivava de alguma qualidade especial nele (1 Co 3.5), mas do próprio
evangelho, na sua verdade e no seu poder para convencer (Rm 1.16; 15.18; 2 Co
4.2). Além disso, o chamado e missão de Paulo estavam tão ligados à sua vida, a
ponto do apóstolo designar o evangelho de “meu evangelho” (Rm 2.16;
16.25; 2 Tm 2.8). Mas mesmo assim, procurava deixar claro quando estava dando a
sua própria opinião (Cf. 1 Co 7.10-12).

Se quisermos um quadro completo do que o Novo Testamento entende por missão e
evangelismo, basta observarmos o relato do apóstolo Paulo sobre a natureza de
seu próprio ministério de evangelização (5).

III – Análise Histórica

3.1. A pessoa de Paulo
O divisor de águas na vida de Paulo foi o seu encontro com Jesus no caminho de
Damasco. A vida do apóstolo, portanto, pode ser dividia em antes e depois de
sua conversão.

a. Seu passado
Antes da sua conversão, Paulo era um judeu comprometido e zeloso com suas
tradições. O orgulho de Paulo com a sua herança judaica (Rm 3.1,2; 9.1-5; 2 Co
2.22; Gl 1.13,14 e Fp 3.4-6) o levou a perseguir a comunidade cristã (Gl 1.13;
Fp 3.6; 1 Co 15.8; v.t. At 8.1-3; 9.1-30).

Desde seu nascimento, por volta de 30 A.D., até seu aparecimento em Jerusalém
como perseguidor dos cristãos, há pouca informação sobre a vida de Paulo.
Sabe-se pelo testemunho dele mesmo que era da tribo de Benjamim e zeloso membro
do partido dos fariseus (Rm 11.1; Fp 3.5; At 23.6). Era cidadão romano (At
16.37; 21.39; 22.25-28). Nasceu em Tarso, uma importante cidade localizada na
Cilícia, na costa oriental do Mediterrâneo, a norte de Chipre e um notável
centro de cultura e intelectualidade grega.

Estudiosos, como E. E. Ellis (In NDB, 1986, p. 1217), supõem que Paulo se
tornou familiarizado com diversas filosofias gregas e cultos religiosos durante
sua juventude em Tarso. Entretanto, Atos 22.3 parece indicar que Paulo apenas
nasceu em Tarso e foi educado em Jerusalém. Eu sou judeu, nasci em tarso da
Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel,
segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus,
assim como todos vós o sois no dia de hoje (grifo nosso).

Ainda jovem, Paulo recebeu autoridade oficial para dirigir uma perseguição
contra os cristãos, na qualidade de membro de uma sinagoga ou concílio do
sinédrio, conforme ele mesmo descreve em Atos 26.10 (e assim procedi em
Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei
muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os
matavam) e Atos 26.12 (Com estes intuitos, parti para Damasco, levando
autorização dos principais sacerdotes e por eles comissionado).

À luz da educação e preeminência precoce de Paulo (cf. At 7.58; Gl 1.14),
supomos que sua família desfrutava de alguma posição político-social. O acesso
do sobrinho de Paulo entre os líderes de Jerusalém (At 23.16,20) parece
favorecer essa suposição.

b. Sua conversão
Apesar de não existir evidências bíblicas de que Paulo conheceu Jesus durante
Seu ministério terreno, seus parentes crentes (cf. Rm 16.7) e sua experiência
com o martírio de Estêvão (At 8.1) devem ter produzido algum impacto sobre ele.
A pergunta, e principalmente a afirmação de Cristo ressurreto, conforme
registrada em Atos 26.14, dá a entender isso. E, caindo todos nós por terra,
discursa Paulo perante o rei Agripa, ouvi uma voz que me falava em língua
hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra
os agrilhões.

O Dr. Timóteo Carriker nos faz uma breve mas não menos importante observação
quanto à conversão de Paulo. Diz ele:

A conversão de Paulo não era resultado de grandes sentimentos de culpa pelo
pecado, como tipificado na tradição luterana. Alguns (como K. Stendahl) até
preferem falar dum “chamamento” em vez de conversão, e observam que
Paulo mesmo prefere esse primeiro termo. Dizem que Paulo não “mudou de
religião”, de judeu para cristão, mas que permaneceu judeu, qualificando
sua fé como a de um judeu cristão (Missão Integral, 1992, p. 226).

Apesar desta observação, o próprio Carriker admite que ainda prefere usar o
termo “conversão” para descrever o encontro de Paulo com Jesus, pois
obviamente ele revisou radicalmente sua percepção sobre Jesus. Embora ele não
tenha abandonado todos os elementos do judaísmo, alguns pontos fundamentais
foram completamente reformulados. E ainda:

A sua experiência de conversão provocou uma revisão radical no seu estilo de
vida e na sua visão do mundo. Passou de principal perseguidor a principal
protagonista do movimento cristão primitivo; de “zeloso pelas tradições
dos nossos pais” a “apóstolo dos gentios” (Missão Integral,
1992, p. 226).

Estou de pleno acordo com o autor.
Vale lembrar, ainda, que os três relatos da conversão de Paulo (Atos 9, 22 e
26) são importantes não somente pelo significado da sua conversão propriamente
dita, mas também pela importância de se entender a pessoa de Paulo acerca de
sua união com Cristo e de seu ministério entre os gentios.

c. Seu ministério
A partir do encontro com Jesus no caminho de Damasco, Paulo passaria de
perseguidor a perseguido; de causador de sofrimentos a sofredor.

O Senhor resumiria, ao relutante Ananias, o árduo ministério de Paulo nesses
termos: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu
nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu
lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome [At 9.15, 16] (grifo
nosso).

À parte de um intervalo no deserto da Transjordânia, Paulo passou os três
primeiros anos de seu ministério pregando em Damasco (At 9.19; Gl 1.17).
Pressionado pelos judeus de Damasco, o apóstolo fugiu para Jerusalém, onde
Barnabé o apresentou aos irmãos duvidosos de sua conversão (At 9.26-28). Seu
ministério em Jerusalém dificilmente durou duas semanas, pois novamente os
judeus procuravam matá-lo (At 9.29). Para evitá-los, Paulo retornou à cidade de
seu nascimento (At 9.30), passando ali um “período de silêncio” de
cerca de dez anos. Certamente este período é silencioso apenas para nós, pois
Barnabé, ouvindo falar de sua obra e relembrando seu primeiro encontro com o
apóstolo, solicitou a este que fosse para Antioquia da Síria ajudá-lo numa
florescente missão entre os gentios (At 11.19-26). De Antioquia, Paulo e
Barnabé foram enviados para socorrer os irmãos pobres da Judéia (At 11.29,30).
Os dois permaneceriam juntos até a primeira viagem missionária.

3.2. O mundo no tempo de Paulo
No tempo de Paulo três povos contribuíram significativamente para a expansão do
mundo de então, e em especial para a propagação do evangelho, a saber: os
romanos, os gregos e os judeus.

a. O domínio romano
Uma das grandes contribuições de Roma nos tempos bíblicos foi a Pax Romana. As
guerras entre as nações tornaram-se quase impossíveis sob a égide daquele
poderoso império. Esta paz entre as nações favoreceu extraordinariamente a
proclamação do evangelho entre os povos. Além disso, a administração romana
tornou fácil e segura as viagens e comunicação entre as diferentes partes do
mundo. Os piratas foram varridos dos mares e as esplêndidas estradas romanas
davam acesso a todas as partes do império. Essas estradas notáveis realizaram
naquela civilização o mesmo papel das nossas estradas de rodagem e estradas de
ferro da atualidade. E elas eram tão bem vigiadas que os ladrões desistiam de
seus assaltos. De modo que as viagens e o intercâmbio comercial tiveram um
amplo desenvolvimento. NICHOLS comenta:

É provável que durante os primeiros tempos do Cristianismo o povo se locomovia
de uma cidade para outra ou de um país para outro, muito mais do que em
qualquer outra época, exceto depois da Idade Média. Os que sabem como as atuais
facilidades de transporte têm auxiliado o trabalho missionário, podem
compreender o que significava esse estado de coisas para a implantação do
Cristianismo (História da Igreja Cristã, 1985, p. 7).

Seria praticamente impossível ao apóstolo Paulo, e a outros de seu tempo,
espalhar o evangelho mundo afora como o fizeram sem essa liberdade e facilidade
de trânsito possibilitadas pelo império romano.

b. A influência grega
Era típico do império romano não influenciar na cultura dos povos conquistados,
por isso, no início da era cristã os povos que habitavam as regiões do
Mediterrâneo já haviam sido profundamente influenciados pelo espírito do povo
grego. Colônias gregas, algumas das quais com centenas de anos, foram
amplamente disseminadas ao longo da costa do Mediterrâneo. Com seu comércio os
gregos foram em toda parte. A influência deles espalhou-se e foi mais acentuada
nas cidades e países onde se estabeleciam os mais importantes centros do mundo
de então. A influência dos gregos foi tão poderosa que o período do domínio
romano foi corretamente denominado de greco-romano. Quer dizer, Roma governava
politicamente mas a mentalidade dos povos desse império tinha sido moldada
fundamentalmente pelos gregos.

Contudo, uma das maiores contribuições gregas para o advento do cristianismo
foi a disseminação da língua em que o evangelho seria pregado ao mundo pela
primeira vez. Uma prova da extensão e da influência do grego está no fato de
que a língua mais falada nos países situados às margens do Mediterrâneo era o
dialeto grego conhecido por KOINÊ, o dialeto “comum”. Era esta a
língua universal do mundo greco-romano, usada para todos os fins no intercâmbio
popular. Quem quer que a falasse seria entendido em toda parte, especialmente
nos grandes centros onde o cristianismo foi primeiramente implantado. Os
primeiros missionários, como por exemplo Paulo, fizeram quase todas as suas
pregações nesta língua e nela foram escritos os livros que vieram a constituir
o nosso Novo Testamento.

c. O povo judeu
Os judeus prepararam o “berço” do cristianismo, por assim dizer.
Primeiramente porque anteciparam a vida religiosa em que foram instruídos o
Senhor Jesus, os cristãos primitivos em geral e o apóstolo Paulo em particular
(At 23.6; 26.5). Além disso, a expectativa messiânica e a preservação do Antigo
Testamento pelos judeus foram fundamentais para a confirmação do evangelho.
Vale lembrar que muitos gentios eram prosélitos ou simpatizantes do judaísmo, o
que acabou se tornando um meio para se alcançar estas pessoas. Era o costume de
Paulo ir às sinagogas com o objetivo de evangelizar esses gentios.

Talvez a maior contribuição que o cristianismo recebeu veio por parte dos
judeus da dispersão. Esses judeus, espalhados pelo mundo em virtude dos
cativeiros que sofreram, podiam ser encontrados em quase todas as cidades
daquela época. Em qualquer canto em que estivessem preservavam a religião
judaica e estabeleciam suas sinagogas. Em muitos lugares realizavam trabalho
missionário ativo. Assim, ganhavam entre os gentios numerosos prosélitos,
tornando conhecidos os ensinamentos judaicos. A missão judaica foi uma
precursora importante das missões cristãs porque espalhou, extensivamente entre
os gentios, elementos básicos essenciais tanto ao judaísmo quanto ao
cristianismo, como por exemplo a remissão de pecados na pessoa do Messias.
Muitos gentios, pelo contato com os judeus, foram inspirados por essa
expectação, ficando assim preparados para a aceitação de Cristo como o Salvador
que havia de vir.

NOTAS
(1) Veja também a página 57 da mesma obra.
(2) Veja Eicken e Lindner (DITNT, 1984, p. 234,5).
(3) Para uma exposição abrangente sobre o contraste missionário entre os dois
testamentos veja, por exemplo, Johannes Blauw (A Natureza Missionária da
Igreja, 1966, pp. 81-103).
(4) “Restrito” em relação à Bíblia como um todo.
(5) Para uma boa exposição teológica da natureza da evangelização de Paulo
veja, de J. I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 1990, 85 pp.

Parte
VI
A
RELEVÂNCIA DA MISSIOLOGIA

Para a Educação Teológica
 Ao
olharmos para a Igreja Evangélica Brasileira e o movimento missionário atual,
percebemos como ao longo dos anos teologia e missão tem andado por caminhos
diferentes, completamente divorciados, assim proponho que em primeiro lugar
pensemos sobre a relação existente entre a Missiologia e a Teologia.

Orlando Costas em seu ensaio sobre “Educação Teológica e Missão”1 parte do
principio de que a Missão é a mãe da Teologia, dizendo que isto pode ser
afirmado pelo fato de que a “teologia nasce do movimento da Palavra do Deus
vivente ao cruzar as múltiplas fronteiras da história para criar uma nova
humanidade.” A missão é o meio pelo qual Deus faz nascer a Igreja, ela é
resultado do esforço missionário não somente de Deus ao enviar seu filho ao
mundo como também do esforço de irmãos de outros continentes que plantaram aqui
a igreja.

A teologia nasce da necessidade desta igreja plantada, sob o poder do Espírito
Santo, de ensinar os rudimentos da fé, refletir critica e sistematicamente
sobre si mesma e equipar os seus líderes para a obra do ministério.

Em segundo lugar devemos pensar sobre a prática ministerial que resulta de uma
educação teológica divorciada da missiologia.

Em seu ensaio “Missiologia e Educação Teológica”2 Carlos Del Pino conclui
dizendo que, “em termos gerais, a nossa educação teológica não tem se
preocupado com o aspecto missiológico e missionário na formação dos nossos
alunos”, reforçando nossos temores de que o divorcio existente entre Teologia e
Missiologia tem causado problemas para que a Igreja ganhe uma visão correta do
ministério integral saudável.

Quero alistar aqui algumas implicações práticas, que pôr sua vez são
prejudiciais para a Igreja, deste divorcio entre a Teologia e a Missiologia.

1. Surgem dificuldades para se identificar de maneira global a “obra de Deus”,
que acaba sendo confundida com a manutenção do status quo, considerando-se o
preparo teológico-pastoral mais importante do que o teológico-missionário,
quando ele existe.
Dando a entender que o Reino de Deus está contido em uma estrutura
eclesiástica, que a todo custo deve ser mantida, e não no tempo, no espaço e na
história.

2. As prioridades ministeriais são via de regra, voltadas para dentro, a fim de
satisfazer todas as necessidades que foram criadas em nome de Deus dentro das
estruturas eclesiásticas e para-eclesiásticas numa clara perspectiva
centrípeta, ensimesmada, tratadas num âmbito mais localizado, e em muitos casos
preterindo-se de forma veemente as prioridades estratégicas da missão integral
da Igreja.

3. O treinamento dos obreiros sempre se torna diferenciado, pastores e
missionários não tem a mesma excelência em seu preparo acadêmico. Se for para
pastorear em nossa estrutura, tem que ter curso Teológico-pastoral, se é para
ir ao campo missionário…

Concluindo

Quero dizer que meu objetivo aqui é trazer a luz a importância da Missiologia
para a Educação Teologica. Ressaltando a relação estreita existente entre
missão e teologia, entre a missiologia e nossas casas de profetas (instituições
de ensino teológico).

Seria interessante que ao longo de nossa caminhada estivéssemos avaliando e
refletindo sobre a nossa vocação enquanto Igreja, bem como sobre a nossa
realidade de país do terceiro mundo, das nossas igrejas e do mundo em que
vivemos para formularmos um conceito mais integral da responsabilidade de
Igreja enviada ao mundo com uma missão (Jo.20:21).

Programas de treinamento inter-disciplinares com certeza enriqueceriam a vida
de pastores e missionários formados em nossas escolas.

Projetos de cooperação em áreas variadas também contribuiriam para que os
alunos tivessem uma visão geral da obra de Deus, tanto com editoras, escolas,
campos missionários e etc.

O desafio do ensino teológico hoje não é simplesmente fazer com que as pessoas
reflitam criticamente, mas é também o de preparar obreiros em geral com visão e
habilidades tanto para pastorear numa igreja local dentro de sua própria
cultura, como em qualquer trabalho dentro de uma cultura diversa.

1Nuevas Alternativas de Educacion Teologica; Ensayos editados pôr René Padilla;
Nueva Creacion, Buenos Aires-Grand Rapids 1986

2Capacitando para Missões Transculturais; Revista Missiológica da Associação de
Professores de Missões no Brasil, Vol.1, n.2; 1995

Parte
VII
A
TEOLOGIA DE MISSÕES DOS SALMOS

considerações gerais
 O
presente estudo é uma tentativa de se mostrar que os salmos têm muito mais a
oferecer que o uso litúrgico em nossas igrejas. Existe uma perspectiva
missionária nos salmos que muitas vezes passa despercebida por nós. Convido
você a repensar o livro dos Salmos e resgatar um de seus enfoques originais que
era cantar louvores a Deus com todos os povos.

I – TÍTUL0 E DIVISÕES DO LIVRO DOS SALMOS

1.1. O título do livro dos Salmos

O título original do livro dos Salmos é tehllim (louvores). A palavra
portuguesa “salmos” deriva-se da LXX pela tradução do termo hebraico
mismor, que significa “cântico acompanhado de instrumentos musicais”.
Outra palavra correlata é o verbo zamar_(cantar, cantar louvores, fazer
musica). Ocorre apenas no piel, grau que expressa ação ativa intensiva no
hebraico. Zamar_é cognato de zammeru “cantar”, “tocar um
instrumento”. É usado apenas em poesia, quase exclusivamente nos Salmos.
Termos como maskil_são desconhecidos (1).

1.2. As divisões do livro dos Salmos

O livro dos Salmos compreende 150 cânticos divididos em cinco livros – Salmos
1-41, 42-72, 73-89, 90-106 e 107-150 – cada um terminando numa doxologia
especial, sendo o Salmo 150 uma doxologia do saltério todo. Como livro de
louvores os salmos são caracterizados por seu testemunho devocional, composto à
luz das atividades salvíficas de Deus em Israel. Enquanto nos outros livros da
Bíblia geralmente é Deus quem fala às pessoas, indo ao encontro delas, nos
salmos Deus “não” fala; as pessoas vão ao encontro Dele, com
reverência mas com muita espontaneidade. As experiências sentidas nos salmos
transcendem as divisas do tempo, cultura e nacionalidade. Nos identificamos com
as experiências dos salmistas e com eles compartilhamos nossas alegrias e
tristezas na presença do Senhor.

II – ORIGEM E AUTORIA DOS SALMOS

2.1. A origem dos Salmos
Alguns estudiosos, como Georg Fohrer, afirmam que a maioria dos salmos foram
compostos no período pós-exílico (2). Contudo, tanto a evidência arqueológica
recente quanto a comparação literária indicam, em grande parte, uma datação do
período de Davi e Salomão. Segundo Laird Harris,

Não parece existir prova positiva contra o ponto de vista tradicional de que a
maior parte dos salmos foi escrita em torno do ano 1000 a.C., como a firmam as
inscrições. As novas provas derivadas dos pergaminhos do mar Morto descartam a
idéia de que a escritura de alguns salmos se estendeu até ao segundo século
antes de Cristo, conforme o sustentaram alguns exegetas no passado (Bíblia de
Estudo Vida, 1984, p. 638).

O Dr. Timóteo Carriker (Missão Integral, 1992, p. 111) complementa, dizendo que
alguns salmos (por exemplo, Salmo 48) podem ter tido origem no inicio da
monarquia , e outros, no período do exílio (Salmo 137). Alguns podem ser mais
recentes ainda (Salmos 105, 106 e 136), e outros podem ter origens mais antigas
que o tempo de Israel, provindo de fontes pagãs.

Israel utilizou a mesma forma poética das culturas vizinhas, isto é, o estilo,
a estrutura, a rima e, freqüentemente, até mesmo as mesmas figuras de linguagem
a fim de efetuar uma comunicação familiar e compreensível ao nível popular.
Todavia, rejeitou qualquer material que não coadunava com a fé em Iahweh, e
modificou outros materiais para exprimir as verdades de sua fé (CARRIKER, 1992,
pp. 113, 14).

2.2. A autoria dos Salmos

O livro dos Salmos é provavelmente o livro da Bíblia com o maior número de
autores.

Davi. Setenta e três salmos, quase metade do saltério, contém a expressão
hebraica le Davi – “De Davi”. Embora a preposição le_tenha uma
variedade de significados (“ao” ou “para o” mestre de
canto, ou “De Salomão” nos títulos dos Salmos 72 e 127), pouca dúvida
poderia haver de que neste contexto e em contextos análogos, tenha o sentido do
genitivo e de que este seja um genitivo de autoria. Isto está claro no título
mais amplo do Salmo 18.

O Antigo Testamento conserva outras poesias de Davi (2 Sm 1. 17-27; 23.1-7), o
reconhece como o “mavioso salmista de Israel” (2 Sm 23.1) e como
inventor de instrumentos musicais (Am 6.5). O Novo Testamento também reconhece
o Davi histórico cujo “túmulo permanece entre nós até hoje” (At
2.29), conforme declaração de Pedro no dia de Pentecostes.

Salomão, filho de Davi, rei de Israel é o autor dos Salmos 72 e 127.Os filhos
de Coré. Doze salmos (42-49, 84 e 85, 87 e 88) são atribuídos a esta família
levita, descendentes do líder rebelde com este nome, cujos filhos – para maior
proveito nosso – foram poupados quando ele morreu por sua rebeldia (Nm
26.10,11). Uma parte desta família ficou sendo porteiros e guardas do templo (1
Cr 9.17ss; cf. Sl 84.10); outra parte, cantores e músicos do coro do templo
fundado por Hemã no reinado de Davi. Os levitas companheiros de Hemã, Asafe e
Jedutum (ou Etã), dirigiam os corais tirados de dois outros clãs da tribo de
Levi (I Cr 6.31,33,39,44).

Asafe. Autor de doze salmos (50,73-83). Asafe era descendente de Gérson, filho
de Levi (1 Cr 6.39); nomeado pelos principais levitas como líder de música,
quando a arca foi transportada para Jerusalém (1 Cr 15.17,19). Davi o tornou
líder da adoração cantada em coral (I Cr 16.4,5).

Hemã. Salmo 88. Hemã foi o fundador do coral conhecido como “os filhos de
Coré”. Era famoso pela sua sabedoria (1 Rs 4.3l).

Etã. Salmo 89. Provavelmente é o mesmo Jedutum (Sl 39,62,77), que fundou um dos
três corais de Israel (cf. 1 Cr 15.19; 2 Cr 5.12).

Moisés. Salmo 90.

A LXX ainda atribui a Ageu e Zacarias a autoria de cinco salmos. Contudo, uma
boa parte dos salmos são de autoria desconhecida.

III – A MISSIOLOGIA DOS SALMOS

Timóteo Carriker diz que

quando lembramos que, como poesia, oração e hinos, os salmos possuem uma
qualidade altamente emotiva, então reparamos especialmente os temas
relacionados â esperança humana. Embora estes não esgotem os temas que os
salmos elaboram, são especialmente significantes do ponto de vista missiologico
(Missão Integral, 1992, p. 114).

3.1. Os principais temas dos Salmos

Há três temas principais nos salmos. Em primeiro lugar, um encontro pessoal com
Deus envolvendo o princípio da Sua existência real. Em segundo lugar, a
importância da ordem natural das coisas, envolvendo o princípio do poder
criador, universal e sábio de Deus. Em terceiro lugar, um conhecimento
consciente da história, envolvendo o princípio da escolha de Israel para
desempenhar um papel especial e benevolente entre os povos. Nos salmos (por
exemplo 22.28; 24.1; 33.8; 47.8; 48.10; 66.7; 67; 87; 93-100; 117) está claro
que o trato de Deus com Israel está relacionado diretamente com todos os povos.
Num salmo das nações como o Salmo 67, por exemplo, esta afirmação salta aos
olhos. Israel cantava e orava: “Seja Deus gracioso para conosco e nos
abençoe, e faça resplandecer sobre nós o seu rosto, para que se conheça na
terra o teu caminho; em todas as nações a tua salvação” (Sl 67.1,2). A
conclusão é ainda mais gloriosa: “Abençoe-nos Deus, e todos os confins da
terra o temerão” (v.7). A bênção de Deus para o povo de Israel era com
propósitos missionários. Os mesmos propósitos missionários de Deus para Israel
podem ser claramente vistos no Salmo 117 e nos salmos que mencionamos acima.

As nações foram criadas por Deus (Sl 86.9) e convidadas, mediante Israel, a
louvar o Deus de toda terra. Israel pecou em não cumprir a contento a sua
missão. Entretanto, Davi tinha uma concepção profunda de missões. Ele
compreendeu o propósito missionário de Deus para os povos quando enfrentou
Golias. Disse ele: “Hoje mesmo o Senhor te entregará na minha mão;
ferir-te-ei, tirar-te-ei a cabeça e os cadáveres do arraial dos filisteus darei
hoje mesmo às aves dos céus e as bestas-feras da terra; e toda terra saberá que
há Deus em Israel” (1 Sm 17.46). Esta consciência missionária de Davi
marcou significativamente alguns de seus salmos (Sl 66.1,4,7,8; 72.11,17; 86.9;
96.3; 98.2,4; 117.1), como de outros salmistas também.

3.2. O conteúdo e as implicações missionárias dos Salmos

Como poesia, oração e hinos, os salmos são especialmente significantes do ponto
de vista missiológico. A esperança religiosa é uma categoria escatológica e,
conseqüentemente, os temas que eles (os salmos) contêm exprimem uma esperança
escatológica e por isso são orientados em grande parte para o futuro. Estes
temas são: a glória de Deus, o domínio universal de Deus, a esperança
messiânica, juízo e misericórdia (3).

Carriker, comentando acerca de seu estudo das implicações missiológicas dos
salmos, observa:

É mister lembrar que as implicações missiológicas elaboradas através do nosso
estudo são meramente sugestivas e representativas e de maneira alguma pretendem
ser compreensivas e exaustivas. Uma teologia de missão, inclusive uma teologia
bíblica de missão, jamais é definitiva pois, enquanto o povo de Deus permanece
com uma missão, uma tarefa de testemunho ao mundo, sempre e em todo lugar terá
que repensar, atualizar e contextualizar a sua fé em novas situações e para
novos desafios. Não é que a fé em si mude, mas a expressão adequada e efetiva
dela (Missão Integral, 1992, p. 117) (4).

IV – RELEVÂNCIA PARA O NOSSO POVO

A importância de um estudo missiológico dos salmos para o povo brasileiro
consiste em sua mensagem de salvação e esperança, conforme exemplificamos
acima. As pessoas sem Cristo vivem ou na apatia mórbida da desesperança ou no
desespero insuportável que leva ao caos e até mesmo ao suicídio. A pregação dos
salmos deve ter em vista o contexto social do povo brasileiro, a fim de
oferecer a ele a redenção do Messias salvador.

Estudar o livro dos Salmos missiologicamente é antes de tudo uma questão de
justiça para com a igreja, a sociedade e ao próprio livro dos Salmos. Na
missiologia dos salmos precisamos compartilhar da esperança em Cristo e da
companhia inspiradora do Deus que pode suprir todas as nossas necessidades (Sl
116.8). Cantemos os nossos belos salmos, aprendamos a orar com os salmistas,
mas principalmente façamos de sua mensagem de salvação e esperança a razão de
ser de nossa existência no mundo.

BIBLIOGRAFIA
ANDERSON, B. W. Out of the depths: The psalms speak for us today. Filadelfia:
The Westminster Press, 1970.
ARCHER, Jr., G. L. Merece confiança o Antigo Testamento?. 3. ed.
São Paulo: Vida Nova, 1984.
BARTON, W. E. The Psalms and their story:
A study of the psalms as related to Old Testament history. Vol I. Boston and
Chicago: The Pilgrim Press, 1898.
CARRIKER, C.T. Missão Integral: Uma teologia bíblica. São Paulo:
Editora Sepal, 1992.
GRONINGEN, G.V. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995.
HARRIS, R. L. Salmos In BÍBLIA DE ESTUDO VIDA. São Paulo: Editora Vida, 1984.
KIDNER, D. Salmos: Introdução e Comentário. Vol. I, São Paulo: Mundo
Cristão/Vida Nova, 1980.
ROWLEY, H. H. The missionary message of
the Old Testament. Londres: Carey Press, 1945.
NOTAS
(1) Maskil aparece em 57 salmos, normalmente em conexão com um nome ou título.
(2) Citado por CARRIKER (Missão Integral, 1992, p. 111).
(3) Para uma exposição interessante sobre cada um desses temas veja CARRIKER
(Missão Integral, 1992, pp. 114-117). E para um estudo exegético nos salmos
messiânicos veja VAN GRONINGEN (Revelação Messiânica no Velho Testamento, 1995,
pp. 284-367).
(4) Um estudo sobre os vários princípios missiológicos para a comunicação
efetiva da fé nos Escritos em geral, e nos salmos em particular, pode ser
encontrado em CARRIKER (Missão Integral, 1992, pp. 118-128).

Parte
VIII
ANTIOQUIA:
A IGREJA E SUA MISSÃO

Estudo bíblico de Atos 13.1-3
 “Havia
na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome
Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E
servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora,
Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando,
e impondo sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.1-3)

Uma das primeiras coisas que podemos observar como resultado da ação
missionária do Espírito Santo em Atos é o chamado ou vocação de obreiros para a
missão. Em Atos o cronograma de Cristo para a igreja é cumprido à risca pelo
Espírito. Sua missão é glorificar a pessoa de Jesus Cristo na continuação do
que Ele começou a fazer e ensinar através de homens e mulheres que O amam.
O texto bíblico relata que “havia na igreja de Antioquia profetas e mestres”
(At 13.1).

Breve histórico

Antioquia (da Síria), também conhecida como Antioquia do Orontes por causa do
rio de mesmo nome, era a mais famosa das dezesseis Antioquias fundadas por
Seleuco Nicátor em memória de seu pai Antíoco, por volta do ano 300 a. C. Nos
tempos do Novo Testamento Antioquia era a capital da província da Síria, a
terceira cidade do império romano, célebre por sua riqueza, cultura e
imoralidade.
Com exceção de Jerusalém, nenhuma outra cidade esteve tão ligada aos primórdios
do cristianismo como Antioquia. Lucas registra em At 6.5 que certo Nicolau
abandonara o paganismo grego e se tornara membro de uma sinagoga judaica em
Antioquia.
Durante a perseguição que se seguiu à morte de Estêvão, alguns cristãos subiram
para o norte até Antioquia (At 11.19), cerca de 480Km de Jerusalém, e ali
pregaram aos judeus. Logo chegaram outros que levaram o evangelho aos gregos
também (At 11.20), e como ocorresse ali muitas conversões, a igreja de
Jerusalém enviou Barnabé a Antioquia. Vendo a graça de Deus naquela cidade,
Barnabé foi até Tarso e trouxe Saulo consigo para o auxiliar (At 11.25,26).
Durante um ano eles permaneceram em Antioquia ensinando muita gente.

Principais características da igreja de Antioquia

O caráter extraordinário dos cristãos de Antioquia foi demonstrado
primeiramente naquele envio de esmolas para a igreja mãe de Jerusalém, quando a
fome assolou esta cidade (At 11.27-30). Além disso, a igreja de Antioquia era o
que nós podemos chamar de uma igreja semi-autônoma, isto é, apesar dela
reconhecer o primado espiritual de Jerusalém, não seguia em todos os detalhes o
ponto de vista evangelístico corrente ali. Desde o início de sua formação a
igreja de Antioquia ministrava igualmente a judeus e gentios. E quando alguns
judeus cristãos da Judéia visitaram Antioquia proclamando que os gentios
deveriam ser circuncidados como pré-requisito para se tornarem cristãos, foi a
igreja de Antioquia que, resistindo a essa imposição, enviou a Jerusalém uma
delegação encabeçada por Paulo e Barnabé para resolver este impasse. O chamado
Concílio de Jerusalém (c. 50 A.D.), o primeiro da história da Igreja Cristã, só
aconteceu por causa das reivindicações da igreja de Antioquia. Contudo, o zelo
missionário e evangelístico, notabilizado pelas viagens missionárias de Paulo
foi, com certeza, a característica principal da igreja de Antioquia. “Era
apropriado que a cidade onde foi fundada a primeira igreja cristã gentia, e
onde os cristãos receberam seu nome característico, talvez sarcasticamente,
fosse o berço das missões cristãs ao estrangeiro (At 13.1)” (1). A
primeira viagem missionária aconteceu entre 45 e 50 A.D., quando Paulo e
Barnabé partiram do porto Selêucia Pieria em Antioquia e velejaram para Chipre.
Esta viagem, Ásia Menor a dentro, terminou quando Paulo e Barnabé voltaram para
Antioquia e apresentaram um relatório de seus feitos para a igreja reunida.
Paulo também começou e terminou sua segunda viagem missionária em Antioquia (c.
50 A.D.). Aquela igreja notável também viu o início da terceira viagem
missionária (c. 54 A.D.).

Profetas e mestres

Os profetas e mestres do Novo Testamento em geral, e da igreja de Antioquia em
particular, eram (principalmente os primeiros) o que os teólogos chamam de
“órgãos ocasionais da inspiração”, isto é, profetas no sentido
estrito da palavra, visto que no sentido amplo cada crente é um profeta.
Através deles o Espírito Santo se comunicava com a igreja. Tendo isso em mente
podemos entender sem maiores dificuldades como o Espírito falou em Atos 13.2 e,
deste modo, evitar uma série de especulações desnecessárias. Uma vez que o
versículo 1 diz que “havia na igreja de Antioquia profetas e
mestres”, nada mais natural entender que “enquanto a igreja orava, o
Espírito falou pelos profetas e tornou sua vontade conhecida” (2).

A urgência e soberania do Espírito

“Disse o Espírito Santo: Separai-me agora” (At 13.2). A expressão
‘afori/sate d//h/ moi (Separai-me agora) é totalmente enfática. A partícula
grega d//h/ (agora) pode ser traduzida também como “agora mesmo”,
“já”, “neste momento”, “imediatamente”. O verbo
‘afori/sate (separai) que é um aoristo do imperativo ativo de ‘afora/w, somado
ao pronome pessoal moi favorece uma tradução assim: “Separai para mim
mesmo de uma vez por todas”. A urgência do Espírito Santo para aquela
missão é inquestionável. Além disso, a expressão ‘afori/sate d//h/ moi é uma
das identificações da soberania do Espírito Santo no livro de Atos. A
iniciativa de escolher e enviar missionários para onde quiser é uma
prerrogativa do Espírito (cf. At 16.6-7). O Senhor Jesus já havia dito aos Seus
discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu
vos escolhi a vós outros, e vos designei para que vades e deis frutos, e o
vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome,
ele vo-lo conceda” (Jo 15.16). Em Atos a soberania do Espírito Santo é
levada a sério. Ao contrário do que se vê hoje em dia, especialmente no meio
pentecostal, em que pessoas por atrevimento ou ignorância talvez, dizendo-se
cheias do Espírito Santo, querem fazer dEle o capacho de seus caprichos. Na
Bíblia o Espírito Santo manda e Seus servos obedecem (At 13.2). Entretanto, Ele
não age despoticamente. Em Atos o Espírito e a igreja trabalhavam, por assim
dizer, em parceria (cf. At 15.28).

Os chamados

A ordem do Espírito Santo para a igreja de Antioquia era, então, a seguinte:
“Separai-me agora mesmo a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado” (At 13.2). Duas coisas são evidentes nesta declaração. A primeira
diz respeito aos chamados ou vocacionados pelo Espírito Santo. O Espírito manda
separar Barnabé e Saulo. Quem eram Barnabé e Saulo senão a nata da Igreja
Primitiva? O Espírito Santo é exigente. E Ele sempre vai pedir o melhor para
missões. Isso tudo pede uma reflexão séria por parte da igreja brasileira, pois
não são poucos os erros cometidos nesse particular. Quantas vezes nossos
presbitérios enviam para o campo ou juntas de missões aquele candidato que não
se saiu muito bem no seminário, ou até mesmo aquele pastor que sobrou na
distribuição de campo porque nenhuma igreja local o quer por ser fraco de
púlpito ou algo parecido? O Espírito Santo não precisa de e nem quer sobras. O
Espírito exige sempre o melhor para a Sua obra. Não que a pessoa chamada pelo
Espírito seja a melhor por sua capacidade e habilidade naturais, pelo
contrário, será sempre alguém que o próprio Deus deverá capacitar com a Sua
graça (cf. I Co 15.9,10; 2 Co 3.5; Ef 3.7,8). Uma coisa é certa: Se não é o
melhor que a igreja manda para o campo, então não é o enviado do Espírito.
Missões não é uma alternativa de trabalho para quem fracassou no ministério!

É interessante notarmos que João Marcos não estava entre os vocacionados pelo
Espírito Santo. Pelo menos não naquela ocasião. Lembremos que Marcos já havia
viajado com Paulo e Barnabé anteriormente (At 12.25). Depois, acompanhou Paulo
e Barnabé na primeira viagem missionária (At 13.5), mas logo desistiu (At
13.13-15), tornando-se o pivô da separação entre Paulo e Barnabé na segunda
viagem missionária (At 15.36-41). Tudo indica que Marcos não era o missionário
certo (pelo menos até aquele momento) para a obra missionária. O Espírito Santo
não somente conhece o campo missionário mas também o perfil do missionário
certo.
A segunda coisa que observamos na declaração do Espírito é que Ele sempre
vocaciona para uma missão específica. “Para a obra a que os tenho
chamado”, diz o texto bíblico. Há tempos Paulo e Barnabé estavam sendo
trabalhados pelo Espírito. Os dois missionários trabalharam juntos algumas
vezes (cf. At 12.25). Como conseqüência disso o chamado para a missão passa a
ser na verdade uma confirmação, isto é, o chamado de Paulo e Barnabé não
aconteceu ali (At 13.2), mas apenas confirmou o que todo mundo, inclusive eles,
sabia. Isto está claro no uso que Lucas faz do verbo proske/klhmai, imperfeito
médio de kale/w, que indica uma ação ocorrida no passado mas confirmada no
presente. Quer dizer, o Espírito confirmou perante a igreja de Antioquia o
chamado de Paulo e Barnabé. “Quando o crente é chamado pelo Espírito, o
mesmo Espírito o revela à igreja” (3).

NOTAS
1. R.K.Harrison, Antioquia (da Síria) em O Novo Dicionário da Bíblia, Vol. I, p. 85.
2. Simon J. Kistemaker, Exposition of the Acts of the Apostles, p. 455.
Para
outras interpretações veja Orlando Boyer, Atos: O Evangelho do Espírito Santo,
p. 169.
3. O. Boyer, Op. Cit.,
p. 169.

Parte
IX
ANTIOQUIA:
A IGREJA E SUA MISSÃO (II)

Estudo bíblico de Atos 13.1-3
“Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé,
Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o
tetrarca, e Saulo. E servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito
Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.
Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram”
(At 13.1-3)

Na primeira parte de nosso estudo fizemos uma apresentação geral da igreja de
Antioquia. Agora trataremos de algumas implicações para a igreja evangélica
brasileira.
Biblicamente falando, todo campo missionário deveria se tornar, obrigatoriamente,
numa base missionária. Mas infelizmente nem sempre tem sido esta a realidade em
termos de igreja brasileira. Já a igreja de Antioquia foi, inegavelmente, um
exemplo de igreja missionária. A igreja que outrora foi campo, que o Espírito
Santo preparou para receber a boa semente do evangelho, passaria a ser
oficialmente o portal da missão entre os gentios. Portanto, quando o Espírito
Santo disse em Atos 13.2, “Separai-me agora …”, a partir daquele
momento a igreja de Antioquia não seria mais a mesma em termos de visão
missionária.
Os princípios que nortearam a vida da igreja de Antioquia, e que, certamente,
deveriam inspirar todas as igrejas, foram cuidadosamente observados e
registrados por Lucas em Atos 13.

Igreja missionária é igreja adoradora

Atos 13.2 inicia assim: “E, servindo eles (os profetas e mestres do v1) ao
Senhor…”. O particípio presente leitourgou/ntwn (servindo [ARA],
workshiping [NIV]), do verbo leitourge/w, é empregado por Lucas em Atos 13.2
com o mesmo significado de latre/w, isto é, servir em adoração; prestar culto a
Deus. O particípio presente indica ação contínua.

Uma igreja só pode ser verdadeiramente missionária se for verdadeiramente
adoradora e vice-versa (1). O missiólogo Orlando Costas estava certo quando
disse que “o culto está intrinsicamente relacionado com a ação de Deus na
história e a conversão das nações ao Deus trino e uno” (2). E ainda:
O culto, em sua dimensão humana, surge da missão. É o resultado espontâneo da
experiência da redenção. Do mesmo modo, a missão deve ser vista como um
acontecimento cultual, porquanto celebra o que Deus tem feito por homens e
mulheres em Jesus Cristo e os chama a receber e compartilhar o dom da graça de
Deus (3).
Talvez um dos piores males que têm assolado, dividido e enfraquecido a igreja
brasileira em nossos dias seja os debates em torno da tarefa prioritária da
igreja. E eu não estou me referindo à questão da evangelização e
responsabilidade social, outro assunto que deu e tem dado “pano pra
manga” (Veja Evangelização e Responsabilidade Social, Série Lausanne,
1985) (4). Ao contrário, estou me referindo à dicotomia existente entre culto e
missões. A discussão não é se a igreja deve adorar ou evangelizar (embora às
vezes é o que de fato tem acontecido), mas sim, o que deve ser considerado em
primeiro lugar. As opiniões são as mais variadas e extremistas até. De um lado
temos os que insistem que “missões são a segunda mais importante atividade
no mundo”, ou que “missões existem porque o culto não existe”.
Do outro lado, tem quem afirme ser “um absurdo dizer que muitas são as
responsabilidades da igreja. Igreja é missões”. Para os defensores da
primeira posição, só o fato do culto ser dirigido a Deus e as missões aos
homens já definiria, por si só, a questão da prioridade da igreja. Os
defensores da segunda posição argumentam, por sua vez, que é preciso mais que
adoração. “É preciso ter paixão pelos perdidos e obedecer ao ide de
Jesus”.
Mas será que precisamos mesmo priorizar uma tarefa em detrimento da outra, como
temos visto na prática? Será que podemos afirmar que culto é mais importante
que missões ou vice-versa? Mais uma vez contamos com o argumento equilibrado de
Orlando Costas: Não existe dicotomia alguma entre culto e missão. O culto é a
reunião do povo enviado ao mundo para celebrar o que Deus fez em Cristo e está
fazendo mediante a participação deles na ação testemunhal do Espírito. A missão
é a culminação e antecipação do culto. No culto e na missão a comunidade
redimida dá evidência concreta do fato de que é, ao mesmo tempo, um povo de
oração e testemunho” (5).

Vemos, então, que o culto deve levar a igreja a fazer missões (cf. At 2.42-47),
e missões, por sua vez, devem levar os perdidos a prestarem culto a Deus (cf.
At 13.44-49). Pois uma adoração que não leva a igreja a evangelizar não passa
de mera contemplação, e uma evangelização que não leva os pecadores a adorarem
a Deus está fora dos propósitos do próprio Deus. “A liturgia sem missão é
como um rio sem manancial, a missão sem culto é como um rio sem mar. Ambos são
necessários. Sem um o outro perde sua vitalidade e significado” (6).

Igreja missionária é igreja de oração

José Martins disse corretamente: “A oração é a essência da obra
missionária. Não é só uma atividade necessária ao sucesso da obra – é a obra em
si. É a prática mais missionária possível, quando vivida de maneira
bíblica” (7).
Quando o Espírito Santo ordenou que a igreja de Antioquia separasse Paulo e
Barnabé para a obra que os tinha chamado, a igreja estava em oração. Esta
verdade está implícita e explícita em Atos 13.2 e 3, respectivamente.
Implicitamente porque o versículo dois diz o seguinte: “E, servindo eles
ao Senhor, e jejuando…”. Seria incoerente pensar que uma igreja que
estava adorando a Deus e jejuando não estivesse em oração. Somente o fato da
igreja estar jejuando subentende-se que ela estivesse orando. Nem toda oração é
feita em jejum, mas todo jejum bíblico é feito com oração. Além disso, temos
uma evidência explícita de que a igreja de Antioquia realmente orava naquela
ocasião: “Então, jejuando e orando…” (v3). Não sabemos ao certo se
o jejum do verso 3 é o mesmo do verso 2. Pela urgência do chamado do Espírito,
tudo indica que sim. Mas se é o mesmo ou deixa de ser, não é tão importante
sabermos. Basta saber que a igreja de Antioquia era uma igreja de oração e que
fazia da oração a base de sua missão.
É provável que o exemplo da igreja de Antioquia tenha marcado positivamente o
ministério de Paulo. Paulo foi um homem de muita oração e recomendava às
igrejas que orassem por ele e pela expansão do evangelho de Jesus Cristo.
Agora, mais do que simplesmente orar, a igreja de Antioquia era uma igreja que
exercia a prática do jejum. É impressionante a ênfase que Lucas dá ao jejum na
igreja de Antioquia. Em Atos 13.2 ele diz que a igreja jejuava, e não menciona
a oração, embora sabemos que ela também orava, conforme descrevemos acima. No
verso 3, do mesmo capítulo 13, Lucas coloca a palavra “jejuando” na
frente de “orando”. No texto grego é a mesma coisa: nhsteu/santej
kai/ proseuca/menoi. A ordem das palavras é significativa e não pode ser
menosprezada, como tem feito a maioria dos autores que consultei.
A ênfase de Lucas é importante por duas razões pelo menos: 1) Não devemos
pensar que a igreja de Antioquia jejuava porque trazia resquícios do judaísmo.
Esta não seria uma forma inteligente de pensar, primeiro porque Lucas era
gentio e, por isso mesmo, qual o interesse dele em dar tanta ênfase a uma
prática estritamente judaica? Segundo, a igreja de Antioquia foi uma das
igrejas mais anti-judaicas do passado, naquilo que se refere às práticas
religiosas do judaísmo. Direta ou indiretamente o concílio de Jerusalém
aconteceu em razão desse anti-judaísmo-cerimonialista. 2) Acreditamos que Lucas
fez questão em enfatizar a prática do jejum pela igreja de Antioquia,
primeiramente para mostrar que o jejum e oração não são incompatíveis na vida
de uma igreja e, em segundo lugar, mostrar como esta prática era (e deve ser)
valorizada no meio de uma igreja verdadeiramente missionária.
Se muito de nossas igrejas têm falhado na prática da oração, e falhado mais
ainda em rogar ao Senhor da seara para que mande trabalhadores para a sua
seara, em interceder pelos missionários e orar pela obra missionária de um modo
geral, o que dizer então da prática do jejum em nossas igrejas?

Sou pastor da IPB, amo demais a minha denominação, mas acredito que ela falhou
e tem falhado até agora em subestimar a importância do jejum na vida do povo de
Deus. Quantos são os membros de nossas igrejas presbiterianas que jejuam? Quantos
pastores presbiterianos jejuam? Muitos de nós mal oramos, diga-se de passagem.
Desde cedo aprendi na IPB: “Sem o propósito de santificar de maneira
particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito
excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos,
etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais
calamidades, de ações de graças” (PL, xi). Se o povo de Deus tiver que
jejuar somente em tempos calamitosos, conforme sugerem os princípios de
liturgia da IPB, nunca existirá um dia de jejum neste país! Da forma como foi
redigido o princípio para a prática de jejum na IPB, ao invés de estimular o
crente a praticá-lo, ele faz exatamente o contrário. Não que o princípio fosse
escrito com o objetivo de desestimular quem quer que seja, porém, na prática é
o que tem acontecido. Creio que o capítulo sobre jejum deveria ser revisto pela
IPB, até porque ele não expressa corretamente a realidade brasileira e muito
menos o verdadeiro conceito bíblico de jejum. Que o jejum deve ser praticado em
dias de calamidade não questionamos, pois a Bíblia nos dá vários exemplos
disso. Mas será que só devemos jejuar em dias de calamidade? Apesar da Igreja
Primitiva ter vivido momentos de muitas provações, nada indica que naquela
ocasião especial de Atos 13 a igreja de Antioquia estivesse jejuando e orando
porque passava por momentos difíceis. Pelo contrário, o contexto próximo (cap.
12) indica que a Igreja Primitiva, de modo geral, estava vivendo um dos seus
melhores dias. A igreja de Antioquia buscava a presença de Deus pelo simples
prazer de estar servindo a Deus. E continuou assim quando enviou seus
missionários e os sustentou com fervorosas orações. Que Deus conceda à igreja
brasileira a graça de ser uma igreja que se alegre em estar em Sua presença,
intercedendo dia após dia pela obra missionária do Brasil e do mundo.

Igreja missionária é igreja que ouve a voz do Espírito Santo

Não sabemos ao certo como o Espírito Santo falou aos profetas da igreja de
Antioquia. O importante é saber que Ele falou e a igreja ouviu.
“Ouvir” é empregado em mais de um sentido nas Escrituras. Pode
significar: captar, entender, abraçar e obedecer o que se ouve. Alguém pode
escutar e ouvir, no sentido literal, o som das palavras, entender as palavras,
mas ser totalmente surdo quanto à prática dessas palavras.

A igreja de Antioquia era uma igreja sensível à voz do Espírito, e mais do que
aguçar os ouvidos para ouvir a voz sonora do Espírito (se de fato é isso que
aconteceu em Atos 13.2), ela ouviu, principalmente, obedecendo. E é exatamente
nesse sentido de fazer o que Deus manda que a igreja brasileira hoje deve
ouvir, através da Escritura, o que “o Espírito diz às igrejas” (Ap
2.7) (8).

O Espírito Santo continua falando e ouvimos a Sua voz, mas lamentavelmente este
“ouvir” nem sempre tem sido traduzido em termos de
“obediência”. O Espírito Santo falou à igreja de Antioquia e ela
imediatamente colocou Paulo e Barnabé no mundo. Eis aí a voz do Espírito que
muitas vezes tem sido ignorada pelos crentes. A igreja no mundo e para o mundo,
é nisso que Deus espera ser ouvido e obedecido.
Se ouvir o Espírito Santo significa obedecê-lO, a maior expressão dessa
obediência é estar no mundo para ouvir o mundo. E o que significa ouvir o
mundo? John Stott responde: “O mundo de hoje está repleto de clamores que
refletem ira, frustração e sofrimento. Mas muitas vezes nós nos fazemos de
surdos diante dessas vozes de angústia” (9). Stott nos lembra, ainda, que
existem dois grupos de pessoas no mundo que, além de precisarem ouvir o que a
igreja tem a lhes dizer, precisam, antes, ser ouvidos pela igreja. Primeiro,
temos o sofrimento daqueles que nunca ouviram o nome de Jesus, ou que, embora
tenham ouvido falar nele, ainda não o aceitaram e, portanto, em sua alienação e
perdição, estão sofrendo terrivelmente. Neste caso, o que costumamos fazer é
sair correndo com o evangelho nas mãos, subir no nosso poleiro e vomitar a
nossa mensagem, sem a mínima consideração para com a situação cultural ou as
verdadeiras necessidades dessas pessoas. O resultado é que, com muito mais
freqüência do que gostaríamos de admitir, nós afastamos as pessoas e até mesmo
aumentamos sua alienação, pois a forma como apresentamos a Cristo é insensível,
desajeitada e até irrelevante. De fato, “responder antes de ouvir é
estultícia e vergonha”.
A melhor coisa é ouvir antes de falar, procurar penetrar no mundo das idéias e
pensamentos da outra pessoa, tentar descobrir quais são as suas possíveis
objeções ao evangelho e então compartilhar com ela as boas novas de Jesus
Cristo de uma maneira que fale às suas necessidades. Esta atividade
desafiadora, humilde e perspicaz é chamada, e com razão, de
“contextualização”. Mas é essencial acrescentar que contextualizar o
evangelho não é de maneira alguma manipulá-lo.
Em segundo lugar, temos o sofrimento dos pobres e dos famintos, dos
despossuídos e dos oprimidos. Muitos de nós só agora é que estão despertando
para a obrigação que a Escritura sempre colocou sobre o povo de Deus, de
preocupar-se com a justiça social.
Nós deveríamos ouvir com mais atenção os clamores e os suspiros daqueles que
estão sofrendo. Quero compartilhar aqui um versículo bíblico que nós temos
negligenciado e que, em se tratando deste assunto, quem sabe deveríamos
destacar. Ele contém uma solene palavra de Deus para aqueles que, dentre o seu
povo, carecem de consciência social. Encontra-se em Provérbios 21.13: “O
que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido.”
(10).

Se a igreja brasileira der ouvidos à voz do Espírito, com certeza ouvirá a voz
dos que precisam ser ouvidos. Além disso, igreja missionária é igreja
compromissada com os missionários. E o que determina se uma igreja é ou não
missionária é o seu compromisso com os missionários. Este compromisso mostrará
até onde a igreja está engajada em missões e, principalmente, até onde ela tem
sido obediente à voz do Espírito de Deus.

A igreja de Antioquia era uma igreja de compromissos. Ela estava compromissada
com Deus (servindo a Deus, jejuando e orando, At 13.2,3) e com os missionários
(impondo sobre eles (Barnabé e Saulo) as mãos, os despediram, At 13.3).
É importante destacar, antes de tudo, que o envolvimento missionário da igreja
de Antioquia não estava limitado àqueles cinco nomes de Atos 13.1. E mesmo se a
imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé tivesse sido realizada por apenas três
deles, nem por isso deixaria de ser o trabalho da igreja toda. Comentando o
envio dos missionários pela igreja de Antioquia, Simon J. Kistemaker disse com
razão que “toda a igreja de Antioquia estava envolvida em comissionar
Barnabé e Saulo, pois quando os missionários retornaram, eles relataram à
igreja o que Deus tinha feito (14.27)” (11). E ainda, “o Espírito
Santo movimenta a igreja e não meramente cinco pessoas para se engajarem na
obra missionária” (12).

A imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé não deve ser entendida, conforme
observa W. L. Liefeld, como “uma ordenação para ensinar (Paulo e Barnabé
já tinham estado no ministério cristão, e Paulo considerava que a sua autoridade
vinha diretamente de Deus, e não dos homens, nem sequer por intermédio dos
homens, Gl 1.1)” (13). “O certo é que Paulo e Barnabé foram enviados
para uma obra específica numa atmosfera de adoração, oração e jejuns (At
13.1-3), uma ação que, segundo At 14.26, os ‘recomendou à graça de Deus'”
(13). A interpretação de Liefeld é boa mas poderia ser melhorada. É que, além
do que Liefeld diz, houve naquele ato de imposição das mãos um pacto entre a
igreja de Antioquia e os missionários. Deste modo, a igreja estaria
definitivamente vinculada aos missionários (14) e os missionários à igreja.
Lucas registra que a igreja de Antioquia acompanhou todas as viagens
missionárias de Paulo e este, por sua vez, relatava à ela as coisas que Deus
fazia por seu intermédio (cf. At 14.27).
A igreja de Antioquia tomou para si a responsabilidade da obra missionária. E
por que? Porque ela se propôs a ser co-participante do Espírito no envio e
sustento dos missionários (15). A missão do Espírito seria a missão da igreja.

Em Atos 13.3 não aconteceu o que vemos hoje em dia. Paulo e Barnabé não foram
jogados no campo e deixados ao deus dará. A igreja não se esqueceu daqueles que
enviou e os missionários, por outro lado, não se lembraram da igreja somente
quando o dinheiro da missão encurtou. Não quero generalizar, mas não é,
infelizmente, o que muitas vezes temos visto? Além disso, a igreja de Antioquia
não entregou Paulo e Barnabé aos cuidados da igreja de Jerusalém e muito menos
os deixou por conta de uma junta de missões. De maneira nenhuma! A igreja de
Antioquia tinha responsabilidade missionária.

Atualmente, o que temos visto com freqüência são as agências ou juntas de
missões ocupando o lugar da igreja local. Não que as juntas de missões não
tenham seu devido valor, é claro que têm (16). Ademais, as agências de missões,
em si, não tiram a responsabilidade missionária das igrejas. Contudo, se hoje
elas estão ocupando o lugar das igrejas, indo além de suas atribuições, é
porque as igrejas estão aquém de sua vocação. “Um grande número de igrejas
espalhadas por este nosso Brasil precisa ver-se como vocacionadas por Deus para
exercerem a tarefa missionária como um fator de peso em seu ministério, precisa
ver-se como a força missionária de Deus nesse mundo e em nosso país” (17).

Falando acerca da importância da igreja local em missões, Carlos Del Pino
destaca quatro coisas que, segundo ele, deveriam acontecer em nossas igrejas.
Em resumo, são elas:

1. A igreja local como um todo precisa receber, compreender e assumir a visão
de seu lugar na obra missionária, além de compreender as dimensões bíblica,
espiritual, cultural e financeira desta tarefa.
2. A igreja local, compreendendo sua importância para missões, não pode
transferir esta responsabilidade.
3. A igreja local, ainda, precisa assumir por completo a sua responsabilidade
missionária. O que mais comumente vemos é que a igreja muito se alegra com o
despertar de uma vocação em seu meio, ora por aquele irmão e diz para ele ir.
Mas quando chega o momento de assumir o compromisso financeiro regular e
decente, ela se silencia, como se isso não fosse problema dela.
4. Por fim, a igreja local precisa conscientizar-se e ver-se como a principal
agência missionária da face da Terra. Orar tendo isso em mente, agir tendo isso
em mente, pregar tendo isso em mente, trabalhar tendo isso em mente (18).
Para Deus só existem duas coisas: Ou somos campo, ou somos base missionária. Se
somos campo, precisamos ser evangelizados, mas se somos base, então está na
hora de trabalhar. A omissão não pode ser a missão de uma igreja vocacionada
pelo Espírito Santo de Deus.

NOTAS
1. Segundo Orlando Costas, “a prova de uma vigorosa experiência cultual
será a participação dinâmica na missão: a prova de um fiel compromisso
missionário será uma profunda experiência de culto” (O. E. Costas,
Compromiso y Misión, p. 151).
2. Idem, p. 150.
3. Idem.
4. Por falar em responsabilidade social da igreja, vale a pena ressaltar que o
verdadeiro conceito de missão para a igreja de Antioquia era (como os
missiólogos contemporâneos costumam denominar) o de missão integral (o
indivíduo assistido em sua totalidade (alma e corpo), cf. At 11.27-30).
5. Costas, Op. Cit., p. 150.
6. Costas, Op. Cit., pp. 150,1.
7. J. Martins, A Oração Dominical e Missões em Missões e a Igreja
Brasileira, p. 67.
8. J. Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, p. 123.
9. J. Stott, Op. Cit., p. 124.
10. Kistemaker, Exposition of the Acts of the Apostles, p. 455.
(Grifo
meu).
11. Idem. Cf. Atos 15.40.
12. W. L. Liefeld, Imposição de Mãos em Enciclopédia Histórico -Teológica da
Igreja Cristã, Vol. II, p. 323.
13. Idem, p. 324.
14. A expressão “os despediram” de Atos 13.3 reforça a idéia de que a
igreja de Antioquia estava enviando Paulo e Barnabé, e continuaria vinculada a
eles. O verbo /apolu/w, diferentemente de /apospa/w (At 21.1), não sugere
“despedida definitiva”.
15. E, certamente, este “sustento” significava mais do que orar por
eles.
Não concordo com A. T.
Robertson (Word Pictures in the New Testament, Vol.
III,
pp. 178,9) de que Paulo e Barnabé tiveram que financiar a própria viagem, com
base em Fp 4.15. Nesta passagem, Paulo está apenas fazendo uma distinção entre
igrejas da Macedônia. De fato, Paulo passou por muitas dificuldades em seu
ministério, inclusive financeiro (cf. Fp 4.12), mas isto ocorreu por causa das
circunstâncias político-religiosas da época, e não por falta de compromisso da
igreja de Antioquia.

16. Edison Queiroz destaca muito bem alguns pontos que evidenciam a importância
de uma agência missionária. Diz ele: “Há inúmeras dificuldades para o
envio de um missionário. Precisa haver contatos com outras agências
missionárias, com autoridades governamentais, emissão de vistos de entrada e
permanência, câmbio e envio de dinheiro, orientação quanto aos relacionamentos
no campo com igrejas, governo e outras agências e avaliação in loco do
andamento do trabalho. Todas estas tarefas são difíceis para a igreja. Daí, a
importâncias das juntas e organizações missionárias” (E. Queiroz, A Igreja
Local e Missões, p. 56).
17. Cf. C. Del Pino, A Importância da Igreja Local em Missões em Missões e a
Igreja Brasileira, Vol. III,
p. 60.

18. C. Del Pino, Op. Cit., pp. 60,1. V. t. E. Queiroz, Op. Cit., pp.
43-58; E. Queiroz, A Missão da Igreja e o Despertar Missionário na América
Latina em A Missão da Igreja, pp.117-126 e O. E. Costas, La Misión, el
Ministerio y el Espírito Santo: el caso de la Iglesia de Antioquia em Misión y
Ministerio en America Latina, pp. 1-7

Parte
X
COMO
SUSTENTAR UM MISSIONÁRIO

Sem dinheiro no bolso
 “E
orai em todo o tempo com toda oração e súplica no Espírito. Vigiai nisto com
toda a perseverança e súplica por todos os santos. Orai também por mim, para
que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para com
intrepidez fazer conhecido o mistério do evangelho,” (Efésios 6:18-19)

Paulo neste ponto de sua vida e ministério, como missionário, exorta a Igreja
de Éfeso sobre a necessidade de se revestir completamente com a armadura de
Deus, na batalha contra o mal. Ele nos abre a porta, nesta seção da carta, para
compreendermos sobre a crença na existência do mundo dos espíritos maus, crença
esta que aparece por todo o Novo Testamento.

Nossa luta na verdade, diz Paulo, não é contra a carne ou sangue, não é contra
pessoas, não é contra regimes políticos ou religiosos que governam países,
dificultando a penetração do evangelho em terras distantes ou tão pouco contra
os partidos mais de esquerda que sonham com um país mais justo para aqueles que
sofrem com o trabalho duro sem contudo gozar dos benefícios do seu suor. É claro
para o apóstolo-missionário, a existência de Satanás e suas hostes, principados
e potestades que agem neste mundo poderosamente contra toda a humanidade,
armando ciladas e tornando os homens cegos para não contemplarem a glória de
Deus, sendo privados de experimentarem realmente o fim principal de sua
existência que, conforme a confissão de fé de Westminster é:
“…glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.” Rm.11:36; I Cor.10:31;
Sl. 73:24-26;
João 17:22-24.

Apesar de muitos hoje em dia colocarem de lado esta doutrina, porque acham que
alguns cometem excessos quanto a questão da batalha espiritual, não podemos
negar o fato de que esta luta contra os espíritos maus é tratada freqüentemente
nas Escrituras e que mesmo em nossos dias temos muitas e infalíveis provas, até
mesmo por parte dos vários estudos que se tem feito no campo da parapsicologia,
que revelam a existência de forças estranhas e poderosas, de natureza negativa
e que operam no mundo. Paulo mesmo em outras passagens Neotestamentárias nos
revela como nosso mundo está tomado por manifestações malignas, como por
exemplo quando se refere ao evangelho encoberto, dizendo: “Mas, se o nosso
evangelho ainda está encoberto, para os que se perdem está encoberto, nos quais
o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes
resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de
Deus.” 2 Cor.4:3-4.

Penso que a compreensão adequada desta revelação nos levará diretamente a
percepção de que os 5.8 bilhões de seres humanos, que vivem hoje no planeta
terra, estão a mercê do “Príncipe das potestades do ar, que agora opera
nos filhos da desobediência” Ef. 2:1-3. Satanás como inimigo de nossas
almas, tem armado ciladas ao longo dos séculos a fim de que os homens não venham
a conhecer o evangelho de Cristo. Ele tem se entrincheirado entre as nações
construindo fortalezas, laços, sofismas, teias e é nosso dever interceder ao
“Pai das luzes em quem não há mudança nem sombra de variação”, Tiago
1:17, repetindo as palavras do salmista: “Pede-me, e eu te darei as nações
por herança, e os confins da terra por tua possessão.” Salmo 2:8.

Não é tanto exagero dizer que milhões de pessoas estão morrendo sem Jesus,
neste mundo de Deus, por causa da estratégia de nosso inimigo. Pergunto a você?
Por que os legisladores de nosso país tem dificultado, juntamente com a FUNAI,
a penetração de missionários evangélicos nas tribos indígenas que nunca ouviram
falar de Jesus? Por que milhões de Indianos estão presos nas garras do
Hinduísmo, adorando a criatura em vez do criador? Por que nações inteiras em
todo o mundo estão se tornando Islâmicas, fechando as portas para qualquer
perspectiva de liberdade religiosa? Por que alguns países europeus considerados
cristãos e que no passado mudaram o curso da história com a pregação da Palavra
de Deus estão vivendo hoje na indiferença? Essa grande multidão está vagando
sem contudo achar resposta para a sua necessidade de serem aceitos por Deus e
de se relacionarem pessoalmente com o Criador. Estas são perguntas que nós como
cristãos só podemos responder a luz da Palavra de Deus que nos mostra esta
grande realidade espiritual de que “o mundo inteiro jaz no maligno”.
I João 5:19.

No contexto da exposição de Paulo, neste capítulo que está se encerrando com
estes dois versículos de convocação dos cristãos para a intercessão, não
podemos descrever a oração como parte da armadura, mas ao descrevermos o
equipamento cristão para o conflito não podemos deixar de incluir uma
referência a oração. Não podemos separar estes dois versos da descrição
anterior mas entendê-los conjuntamente como se ele estivesse fazendo um pedido
de vestirmos cada uma das peças desta armadura com oração e a esta altura, como
havia pedido oração por todos os santos, não deixa de pedir aos seus leitores
súplicas e orações sinceras por ele mesmo.

Paulo tinha uma profunda consciência da sua posição na frente do campo de
batalha. Mesmo estando na prisão, ele sabia da sua vulnerabilidade. Creio que a
sua solicitação não era motivada pelo desejo de libertação da cadeia, mas por
duas razões: primeiramente, porque sabia que possuía a grande responsabilidade
de levar aos homens o evangelho da salvação eterna que lhe foi confiado pelo
próprio Deus e por isso necessitava de sabedoria; E em segundo lugar, porque precisava
de intrepidez para anunciar com poder este mesmo evangelho conforme o desígnio
de Deus. Isto da mesma forma que os discípulos faziam (Atos 4:29), oravam não
pelo seu próprio sucesso, nem para ficarem livres das prisões, dos perigos ou
dos sofrimentos, mas oravam para que lhes fosse dada intrepidez na proclamação
do evangelho de Cristo.

Portanto, se para o apóstolo Paulo esta era uma questão vital em seu
ministério, nós não podemos considerá-la menos importante. Existem muitos
homens e mulheres que tem sido enviados com uma missão e que se acham carentes
de cobertura espiritual. Não devemos esquecer de que esta missão pertence a
todos nós como Igreja de Cristo e ao nos unirmos em oração com estas pessoas
estamos garantindo vitória e unidade, na tarefa de guerrear contra as trevas e
saquear o exército inimigo, libertando os que estão cativos e “trazendo
nossos irmãos, dentre todas as nações, como presente à presença do Senhor assim
como os filhos de Israel trazem as suas ofertas de cereais em vasos limpos à
casa do Senhor” Is.66:20.

Quero então estabelecer o nosso propósito dizendo que missionários são soldados
do mesmo exército que nós somos, eles estão na frente de batalha, lutam onde o
conflito está se dando de modo mais acentuado. Estão muitas vezes cercados em
território inimigo e sentem-se sozinhos, algumas vezes desanimados, estão
batalhando diariamente e diretamente no território do inimigo e precisam do
apoio de outros batalhões do seu exército para ajudá-los nos momentos mais
críticos de suas atividades.

A Igreja, o Corpo de Cristo, cada crente, cada membro sem exceção é convocado a
tomar parte nesta obra de intercessão por todos os missionários, nossos
representantes no campo de batalha. Por isso “perseverai na oração,
velando nela com ações de graça. Orai também juntamente por nós, para que Deus
nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual
estou preso. Orai para que o manifeste como devo fazer.” Col.4:2-4.

Parte
XI
ESPIRITUALIDADE
MISSIONÁRIA
INTRODUÇÃO
Desejo com este trabalho mostrar ao leitor, como está a
espiritualidade da igreja dos nossos dias, analisando-a por uma perspectiva
missiológica.

A espiritualidade é a comunhão que se tem com Deus e com o próximo, e se
caracteriza pela prática do amor, e infelizmente esta comunhão está desgastada,
e é superficial em muitas igrejas contemporâneas.

A igreja precisa de um fundamento sólido para uma espiritualidade verdadeira,
aquela que se manifesta na prática, e para isso a igreja precisa conhecer o
período histórico em que vive, a fim de que essa prática seja eficaz.

I – A CRISE DE ESPIRITUALIDADE DA IGREJA CONTEMPORÂNEA

“Portanto, ide e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome
do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas
que vos tenho mandado…”
Mt 28:19-20.

Esta é a Grande Comissão, em que Jesus ordena que sejamos missionários, ordena
que a igreja seja missionária, por que se não for assim a igreja estará fora
dos planos de Deus. Podemos identificar se uma igreja tem uma espiritualidade
verdadeira ao olhar para sua posição em relação as missões.

Hoje, muitas igrejas são frias, vivem sem amor, vivem um evangelho estático,
estão afastadas dos planos de Deus, como diz o Pr. Valdir França: ” Estão
com miopia missionária”(1), ou seja, não enxergam a necessidade do mundo
de receber o evangelho, enxergam somente suas próprias necessidades, seus
problemas, seus sonhos, são egoístas, não amam as almas perdidas, estão em
crise, vivem sem uma espiritualidade integralizadora e missionária.

Esta crise de espiritualidade missionária está intimamente ligada a outras duas
crises que também existem na igreja contemporânea:

A crise teológica: Muitas pessoas não conhecem verdadeiramente o seu Deus,
cantam e adoram um deus criado por suas mentes, desconhecem o caráter
missionário do verdadeiro Deus, não entendem o Calvário como palco da maior
missão da história, a chamada MISSIO DEI. Falta, em muitas pessoas a fome e o
amor à Palavra de Deus. A igreja carece de teologia, em especial, de uma
teologia missionária.

A crise de identidade: Muitos cristãos não sabem por que são cristãos, ou seja,
forram remidos por Cristo, selados pelo Espírito Santo, vivem dentro da igreja,
porém não sabem o que fazer enquanto filhos de Deus. Se perguntarmos aos
cristãos o porque que Deus os salvou, a maioria responderia que foi por causa
de Seu amor, sem dúvida, isto está correto, entretanto existe outra razão, a
vontade de Deus de nos tornar arautos do Rei, Cristo nos salva para que sejamos
Sua testemunha, como está escrito “… a fim de anunciardes as virtudes
daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz”. (I Pe 2:9) A
igreja precisa ter consciência de sua identidade missionária.

Portanto, essa falta de espiritualidade missionária, teologia missionária e
identidade missionária tem transformado em “guetos”, onde as pessoas
se dizem salvas, mas estão perdidas dentro de sua própria salvação pois não
estão no mundo nem dentro dos planos de Deus.

II – FUNDAMENTOS BÍBLICOS PARA UMA ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA

David Livingstone disse: “Deus tinha um único Filho, e fez dele um
missionário”.

Muitos versículos e exemplos bíblicos poderiam ser mostrados para fundamentar
uma espiritualidade missionária, entretanto não há melhor fundamento bíblico
para demonstrar a missão como fruto de uma verdadeira espiritualidade, do que
Jesus Cristo.

O homem mais espiritual que já existiu, revelou para o mundo o que é uma
espiritualidade missionária.

Seu ministério, Sua vida, Sua morte, Sua ressurreição, tudo aconteceu por causa
de missões, tudo para revelar seu amor e perdão aos homens perdidos, portanto
não existe espiritualidade sem ação missionária.

Buscar espiritualidade é buscar Jesus, é seguir Jesus, é ser igual a Jesus, e
isso é impossível se não nos comprometermos com o Seu chamado missionário.

Por toda a Bíblia, Deus revela Seu caráter missionário, desde Gênesis quando
Deus vai atrás e chama o homem caído até Apocalipse quando a missão chega ao
seu fim, mas é em Jesus o ápice da missão de Deus, e o próprio Jesus é quem nos
chama para uma verdadeira espiritualidade e para sermos Suas testemunhas (At
1:8; Mt 28:18-20; Jo 20:21, 17:18; I Pe 2:9) e enfrentar todos os obstáculos
que possam aparecer e principalmente o maior deles: o “Calvário”.

Se quisermos ter uma espiritualidade verdadeira temos que passar pelo Calvário,
devemos seguir Jesus em Seu esvaziamento (Fp 2:6-8), devemos cumprir Sua ordem
de “negar a si mesmo” e deixar pregado e morto na cruz o nosso
“eu”, para que gozemos da vida e da espiritualidade de Cristo em nós,
então o amor de Deus revelado na cruz encherá nossos corações e seremos
impulsionados pelo Espírito Santo para proclamar o evangelho, pois é ele o
agente principal da missão.

Portanto, muitos cristãos precisam voltar para a Bíblia para conhecer a Deus,
Sua obra, Seu caráter, precisam voltar a Jesus para saber o que é a
espiritualidade, precisam saber que suas funções enquanto igreja, é anunciar o
evangelho, muitos precisam passar pelo Calvário para saber o que é uma espiritualidade
missionária.

Valdir Steuernagel define muito bem a espiritualidade:

“Uma espiritualidade sadia vive na presença de Deus, alimenta-se da
Palavra, se expressa em comunidade e se caracteriza por um espírito
missionário”(2).

III – ESPIRITUALIDADE PRÁTICA NA PERSPECTIVA MISSIOLÓGICA

Como já foi dito, Jesus é o pilar principal para uma espiritualidade genuína,
portanto para vivermos em nosso tempo essa espiritualidade, devemos imitar Sua
maneira de viver.

Jesus viveu uma espiritualidade integralizadora, de ações concretas. A
espiritualidade de Cristo não era apenas celestial, mas também terrena, não
apenas de oração, mas também de ação, não apenas de se encher do Espírito, mas
também de compartilhar dessa plenitude, não era uma espiritualidade isolada, no
monte, mas comunitária, com pessoas pecadoras. A espiritualidade de Jesus tinha
um aspecto vertical, cujo alvo era Deus, e tinha um aspecto horizontal, cujo
alvo era o ser humano.

É muito fácil falar sobre o evangelho, falar sobre missões, falar que somos
espirituais por que conhecemos um pouco da Bíblia, vivemos na igreja, porém é
difícil viver “nas nuvens”, mas agindo constantemente, pois,
espiritualidade é trabalho árduo para a expansão do reino de Deus.

O Rev. Júlio Paulo Tavares Zabatiero explica bem em um artigo como isso se
sucede:

“Ser espiritual é algo que acontece no dia-a-dia, à medida em que
entregamos toda nossa vida, nossos talentos e bens à missão do Reino de
Deus” (3).

Espiritualidade prática não é experiências como cair no chão, dar ‘gargalhadas
no Espírito’ ou momentos de choro, também não é sinais sobrenaturais como falar
em línguas, profetizar ou ter visões, mas como diz o Rev. Júlio Zabatiero no
mesmo artigo citado anteriormente, é o “compromisso diário e constante com
a proclamação e a manifestação prática do reino de Deus” (4).

Devemos vencer todos os preconceitos se quisermos proclamar a manifestar este
Reino, devemos vencer preconceitos culturais, geográficos, religiosos,
políticos e econômicos para a realização da obra que Cristo confiou a nós a Sua
igreja.

A prática da verdadeira espiritualidade missionária se faz presente em todas as
classes da sociedade, em todos os tipos de sociedade, ou seja, atua no mundo
todo. John Wesley entendeu isso quando disse: “Minha paróquia é o
mundo” e também “Não creio em cristianismo sem conversão. E eu não
creio em conversão sem compromisso social”.

Atuar na sociedade como cidadão, também é tarefa dos filhos de Deus, ou seja,
fazer missões não é somente ir falar da salvação mas também fazer obras sociais
e procurar fazer diferença no mundo em que vivemos.

Ademais, para que a prática de espiritualidade seja efetiva é preciso uma
espiritualidade coletiva, ou seja, expressa em comunidade, em que toda a igreja
esteja orando pelos países, missionários e organizações missionárias, e também
contribuindo para o sustento dessas missões., pois hoje um dos maiores, se não
o maior, problema para a propagação do evangelho é a falta de recursos
financeiros. E é evidente que cada cristão deve testemunhar todos os dias o
evangelho de Cristo, pois isso é fruto da verdadeira espiritualidade.

IV – ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA E PÓS-MODERNIDADE

Embora Jesus seja a grande razão da nossa vida e o grande fundamento para uma
espiritualidade missionária, vivemos em um tempo em que a Bíblia, a fé, a
igreja e o próprio Jesus perderam seus significados, um tempo em que não
existem mais paradigmas a serem seguidos, o hedonismo é exaltado e tudo o que é
objetivo, absoluto, irrefutável, tradicional se tornou relativo, esse é o
período denominado pós-Modernidade.

Como está , neste período a espiritualidade das pessoas?

Ricardo Gondim fala sobre isso: “A pós-modernidade esvaziou a religião
formal, mas não conseguiu matar a sede de espiritualidade das pessoas”(5)
as pessoas continuam sedentas, pois como para elas a existência de Deus é
relativa, não há um alvo de busca, e portanto a sede espiritual permanece, por
isso esse período é marcado fortemente pela crise existencial e espiritual da
maioria das pessoas.

Como a missão e a espiritualidade da igreja tem sido afetada com a
pós-modernidade?

Ricardo Gondim também descreve de forma clara e objetiva como está a
espiritualidade da igreja de hoje. Ele diz:

“A espiritualidade dos dias de hoje é narcisista. As pessoas querem o
melhor para si e buscam a Deus para crescer e progredir, não para glorificá-Lo.
É uma espiritualidade que não desemboca em MISSÃO, mas se contenta com a
experiência em si”(6)

É exatamente isso que está acontecendo, o evangelho que é pregado hoje é antropocêntrico,
o que é valorizado são as experiências e não a vivência, enquanto a visão da
necessidade do mundo em conhecer a Cristo fica encoberta pelo egoísmo dos
próprios crentes, muitas pessoas, espalhadas por todo o mundo continuavam
morrendo sem conhecer Jesus por que a “seara é grande mas os trabalhadores
são poucos” (Mt 9:37)

Na pós-modernidade o evangelho passou a ser um produto e não o “poder de
Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16), a graça já não é
mais graça, ela é barganhada, a missão perdeu seu caráter de serviço, os
crentes, as igrejas não são apaixonadas por missões, existe uma concorrência
das denominações para conquistar adeptos de sua doutrina, os templos, a
liturgia dos cultos, o louvor e a pregação estão deixando de ter a finalidade
de agradar a Deus, para agradar a homens. Hoje, muitas igrejas não vêem o mundo
como um campo missionário, mas como um campo de mercado. A missão deixou de ser
missão, para ser “business”.

Os cristãos não podem deixar que as influências pós-modernas tornem a missão
uma busca por adeptos de um produto chamado evangelho cristão.

Portanto, a Igreja precisa voltar para a sã doutrina, precisa voltar para o
verdadeiro Jesus, Ricardo Gondim disse: “Para resgatar a espiritualidade
da igreja na pós-modernidade, urge que se restabeleça o espírito do Kerygma
cristão”(7). A Igreja de Cristo precisa voltar a conhecer e proclamar o
verdadeiro evangelho para um mundo tão confuso e sem Deus.

CONCLUSÃO

É um desafio viver uma espiritualidade verdadeira, aquela que é o combustível
que impulsiona, mediante o Espírito Santo, todo cristão para a obra
missionária.

Somente possuindo Jesus como referencial e fundamento é que as influências
pós-modernas não irão destruir ou deturpar nossa espiritualidade, cuja finalidade
deve ser glorificar a Deus através da prática das boas obras e da proclamação
do Reino de Deus.

Que Deus ajude Seu povo a viver de fato, uma espiritualidade missionária!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
FIORES, Stefano & GOFFI, Tullo (Orgs); DICIONÁRIO DE ESPIRITUALIDADE, São
Paulo: Paulus, 1.993
GALILEA, Segundo; O CAMINHO DA ESPIRITUALIDADE, São Paulo: Paulinas, 1.985
GONDIM, Ricardo; FIM DO MILÊNIO: Perigos e desafios da pós-modernidade na
igreja, São Paulo: Abba Press, 1.997
LIMA, Éber Ferreira Silveira (Org.); PAIXÃO MISSIONÁRIA, Londrina: SMI – IPIB,
1a ed. 1.994
STEUERNAGEL, Valdir; OBEDIÊNCIA MISSIONÁRIA E PRÁTICA HISTÓRICA, São Paulo:
ABU, 1.997
NOTAS
(1) França, Valdir. Missões: Uma Tarefa para Todos. Londrina, Ed. Monorah, 1996
(2) STEUERNAGEL, Valdir; OBEDIÊNCIA MISSIONÁRIA E PRÁTICA, São Paulo: ABU,
1.997 p. 88
(3) ZABATIERO, Júlio P. T.; ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA, Artigo da Secretaria
de Missões da IPIB – Londrina, 1.991, no 2
(4) Idem
(5) GONDIM, Ricardo; FIM DO MILÊNIO: Perigos e desafios da pós-modernidade na
igreja, São Paulo: Abba Press, 1.997 p. 30
(6) Idem, p. 81
(7) Ibidem, p. 90

Parte
XII
GIGANTES
DA FÉ

ASHBEL GREEN SIMONTON: O PIONEIRO
 Ashbel
Green Simonton (1833-1867) viveu exatamente na metade do século XIX. Nasceu 17
anos antes de 1850 e morreu 17 anos depois de 1850. Foi o missionário
norte-americano usado por Deus para evangelizar nosso povo e implantar o
presbiterianismo em nossa terra. Ele chegou no Rio de Janeiro em 12 de agosto
de 1859, depois de uma longa viagem de navio, solteiro, com apenas 26 anos de
idade mas com um chamado imperativo do Senhor e um ardor intenso em seu coração
pela conversão do povo brasileiro. Em 1860 organiza a primeira escola dominical
presbiteriana do Brasil com cinco crianças. Em janeiro de 1862 fundou a
primeira igreja presbiteriana, na cidade do Rio de Janeiro, com a realização
das duas primeiras públicas profissões de fé: Henry Milford, norte-americano e
Camilo Cardoso de Jesus, português. Em março de 1862 viaja para os Estados
Unidos a fim de 1) visitar sua mãe que estava enferma (porém ela já havia
falecido antes dele chegar), 2) prestar relatório à junta de missões que o
enviara ao Brasil e 3) se casar. Retorna ao Brasil em julho de 1863, casado com
Hellen Murdoch. Em junho de 1864 nasce sua filha Mary Cole (a pequena Hellen)
e, uma semana depois, sua esposa vem a falecer. Ainda em 1864 cria o jornal
Imprensa Evangélica. Em 1865 organiza com as igrejas de São Paulo (capital) e
Brotas (interior) o Presbitério do Rio de Janeiro. Na data de organização
(17/12/1865) é ordenado o primeiro pastor presbiteriano brasileiro, o ex-padre
Rev. José Manoel da Conceição. São eleitos também dois presbíteros e dois
diáconos para a igreja do Rio. Em 1867 organiza um seminário para a formação de
pastores brasileiros. Resumindo, Simonton fundou e organizou no Brasil: a
primeira escola dominical presbiteriana (1860), a primeira igreja presbiteriana
(1862), o primeiro jornal evangélico (1864); o primeiro presbitério (1865) e um
seminário (1867).

Deus levou Simonton ainda jovem. Teve um ministério curto mas muito frutífero.
Morreu acometido de febre amarela aos 34 anos, no dia 09 de dezembro de 1867,
na cidade de São Paulo. Seu túmulo está no Cemitério dos Protestantes, ao lado
do Cemitério da Consolação.  JOSÉ MANOEL
DA CONCEIÇÃO: O Nº 1 DO BRASIL No dia 17 de dezembro de 1865 era ordenado, pelo
recém-instalado Presbitério do Rio de Janeiro, o primeiro pastor presbiteriano
brasileiro, o paulista filho de portugueses Rev. José Manoel da Conceição
(1822-1873). Conhecido como o padre protestante, ele não foi apenas o primeiro
pastor presbiteriano brasileiro, mas o primeiro pastor brasileiro. Lamentamos
que as igrejas evangélicas brasileiras não façam desta data o dia nacional do
pastor brasileiro. A maioria das igrejas do Brasil prefere comemorar o dia do
primeiro pastor brasileiro de suas denominações. Conceição era sacerdote
católico romano quando se converteu ao evangelho. Mas não foi por isso que ele
era chamado pelos seus contemporâneos e entrou para a história como o Padre
Protestante. É que, mesmo antes de deixar a batina, ele já aborrecia os bispos
católicos ao estimular seus párocos a lerem a Bíblia. Quando o Rev. Alexander
Blackford (cunhado de Simonton) trabalhava em Brotas, no interior de São Paulo,
ouviu falar de certo padre católico romano que lia a Bíblia e manifestava
interesse por seus ensinamentos. Blackford fez uma visita de cordialidade ao
jovem sacerdote. Essa visita veio a ser o ponto marcante de mudança na vida de
Conceição. Convencido de que a igreja romana não era a verdadeira igreja de
Jesus Cristo, partiu para o Rio de Janeiro, a fim de se instruir com Simonton,
Blackford e Chamberlain. No dia 23 de outubro de 1864, o ex-padre José Manoel
da Conceição professava sua fé em Jesus Cristo como seu Redentor e Senhor,
tornando-se membro da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Essas notícias
espalharam-se rapidamente e atingiram lugares distantes. Figura fundamental na
expansão do evangelho no território nacional, o Rev. José Manoel da Conceição,
além de realizar freqüentes cruzadas no Rio e em São Paulo, fazia questão de
visitar a população do interior, não passando por nenhuma fazenda ou casa pobre
sem orar e ler a Bíblia com os moradores. Através da influência do ex-padre, as
antigas paróquias católicas interioranas acabaram se transformando em igrejas
evangélicas. Conceição era homem de grande erudição, emotivo e dotado de
influência considerável. Pregava com muito zelo e grandes multidões vinham ver
e escutar o ex-padre. Faleceu no dia 25 de dezembro de 1873, aos 51 anos de
idade, no Rio de Janeiro. Seu túmulo também se encontra no Cemitério dos
Protestantes em São Paulo, ao lado do de Simonton. O padre protestante foi
fruto do trabalho dos primeiros missionários presbiterianos norte-americanos que
aqui chegaram, a saber, Simonton e seus colaboradores. A conversão de José
Manoel da Conceição incentivou o pequeno grupo de missionários a sair por toda
parte pregando o evangelho. Por causa da data de ordenação do Rev. José Manoel
da Conceição, no dia 17 de dezembro comemora-se o dia do pastor presbiteriano.

Parte
XIII
LEVANDO
A SÉRIO A TAREFA MISSIONÁRIA

Números 13.1, 2, 17-29
 Este
texto fala dos setenta espias enviados por Josué a Canaã para buscar um
relatório daquela região de modo que os planos de conquista fossem elaborados.
Havia necessidade de toda uma estratégia, de toda uma logística para que os
planejamento de ocupação desse certo. E assim aconteceu. Trouxeram o relatório.
68 dos 70 espias trouxeram notícias boas e notícias ruins. Está em Números
13.27, 28: “Fomos à terra a que nos enviaste. Ela verdadeiramente mana
leite e mel! Este é o seu fruto. Mas o povo que habita nessa terra é poderoso,
e as cidades fortificadas e muitos grandes. Também vimos ali os filhos de
Enaque”. Os “filhos de Enaque” eram os gigantes, e os israelitas
ficaram assustados, e se amedrontaram, e ficaram pasmos diante da grandeza dos
habitantes da terra que pretendiam conquistar. Verso 31: “Não poderemos
atacar aquele povo; é mais forte do que nós.”Já estavam derrotados! Quem
se defronta com uma dificuldade e diz ,”não vou poder enfrentá-la”,
com um obstáculo e diz, “não vou poder ultrapassá-lo”, já está
derrotado. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema
intitulado “No meio do caminho” que diz:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Pode haver dez pedras: a gente passa por cima; empurra no despenhadeiro; escava
um túnel e passa por baixo. Há tantas opções… Mas eles tiveram medo! 68
derrotados que fizeram o povo de Israel acreditar no desanimador relato e
querer voltar ao suposto conforto do Egito. Aqui está (14.3), “Por que nos
traz o Senhor a esta terra, para cairmos à espada, e para que nossas mulheres e
crianças sejam por presa?” Não nos seria melhor voltarmos ao Egito?”

Rebelião!!! Queriam fazer uma revolta contra Josué, líder designado por Deus.
Continua o verso 4, “Levantemos um capitão e voltemos para o Egito”.
Nesse ponto, Josué e Calebe falaram à congregação e pronunciaram uma declaração
que é o objeto do nosso comentário. Aliás, é preciso recordar que o nome Josué
é o mesmo Jesus Isaías e Oséas, significando sugestivamente
“salvação”. Não é à toa que o grande estrategista da campanha de
conquista da Terra Prometida tinha esse nome: “Salvação que vem de Deus”.
E aqui está a sua extraordinária declaração: “A terra pelo meio da qual
passamos a espiar é terra muito boa. Se o Senhor se agradar de nós, então nos
fará entrar nessa terra, e no-la dará” (14.7, 8). Deixemos os israelitas e
vamos olhar para a família universal de Deus. Mais ainda: vamos afunilando e
olhemos para o povo evangélico do Brasil. Quais as condições gerais pelas quais
esperamos que Deus esteja conosco?.

O FAVOR IMERECIDO DE DEUS
“Se o Senhor se agradar de nós…” Amados, olho para mim mesmo e para
a sociedade na qual estou inserido, e nada vejo porque Deus possa me amar, nem
a essa sociedade, nem a esse mundo. É um mundo perdido. Cantamos um hineto que
destaca o amor de Deus e diz no meio de sua letra, “que levou Seu Filho à
cruz pra morrer em meu lugar”. Foi esse amor que nasceu no Seu coração que
fez com que Ele olhasse para nós e Se agradasse de nós. Esse amor tem nome:
graça Há razões para Ele Se agradar de nós? Não! Nossa conclusão só pode ser,
“Não!”. Quando refletimos na nossa pequenez, “Não!” Quando
refletimos na nossa nulidade, “Não!” Quando refletimos na nossa
maldade, nada pode nos levar a pensar que Deus possa ter um intenso amor por
nós. Quando refletimos na nossa culpa, também não; quando refletimos na nossa
rebelião, também não. E Paulo chega a asseverar que “todos pecaram, e
destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). Temos que ter bem na nossa
mente o fato de que somos pecadores e nada temos em nós que nos faça
merecedores da misericórdia divina.

Quando refletimos na nossa falta, falta de conformidade com a semelhança de
Deus, mais ainda, quando refletimos em Sua grandeza e em Sua majestade, nada,
absolutamente nada nos leva a imaginar que Deus pudesse um dia olhar com
bondade para nós.



Mas a Bíblia diz em Efésios 1. 3 a 6:
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos
abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo.
Pois nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e
irrepreensíveis diante dele. Em amor nos predestinou para sermos filhos de
adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito da sua vontade,
para louvor e glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado”

Em 2Timóteo 1.8, 9, diz ainda o apóstolo que “o poder de Deus, que nos
salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas
segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus
antes dos tempos eternos”.

A OBEDIÊNCIA
Outra indicação que temos é a questão da obediência. Primeiramente lemos
“Se o Senhor se agradar de nós, então nos fará entrar nessa terra, e no-la
dará” (14.8). A obediência: “tão somente não sejais rebeldes contra o
Senhor” (v. 9). Por conta disso, o povo de Israel prometeu que ao entrar
na Terra da Promissão não se afastaria mais e que não adoraria outros deuses,
senão o Senhor.

Um pouco mais: a confiança em Deus é outra razão para que Ele olhe para nós.
Vejam bem, o restante do verso 9: “não temais o povo dessa terra, porque
como pão os devoraremos”.

A imagem é forte: “vamos devorar o povo dessa terra como se fosse pão. A
proteção deles se foi, mas o Senhor está conosco, não os temais!”
Confiança!!! Porque temer é desconfiar de Deus. Agora de uma coisa podemos ter
absoluta certeza porque a Bíblia o atesta do começo ao fim: é que Deus Se
agrada de nós. Ele chama os comprados pelo sangue de Cristo de “meu
povo”, de “geração eleita”, de “nação santa”, de
“sacerdócio real” (cf. 1Pe 9). Viram que epítetos espetaculares são
utilizados em relação aos fiéis? A irmã faz parte da geração escolhida de Deus!
o irmão é parte deste sacerdócio real!

Que fez Deus por nós, então? Ele nos favoreceu, Ele nos remiu pelo sangue de
Jesus Cristo, Ele nos tem sustentado, Ele nos tem dado Seu Espírito, e tem
realizado promessas em nossa vida. Que vai acontecer? Diz a parte final de
14.8: “Então nos fará entrar nessa terra, e no-la dará”.

O Brasil é uma linda e boa terra para se viver. É o quarto país do mundo em
extensão, vindo logo após o Canadá, China e Estados Unidos. É o mais extenso país
da América Latina. Sua superfície é de 8.511.965 km². Na época da sua
Independência, o país contava com 4.500.000 habitantes. Hoje estamos acima de
170 milhões, num acelerado ritmo de crescimento. No entanto, existe uma série
de crescimentos regionais contrastantes, criando diversos Brasis que se tornam
desafios para os governos e para os crentes em Jesus Cristo. A TV mostrou as
gritantes diferenças regionais: os Brasis do Norte e o Nordeste, e os do Sul,
Sudeste e Centro-Oeste, escancarando o tremendo contraste entre região e
região, e entre empregos iguais nessas regiões. Apresentou, até, a questão de
salários. Exemplificou com um gerente de uma rede de supermercados em Curitiba,
Paraná, e seu colega de São Luís do Maranhão. Enquanto o do Paraná recebia
determinado bom salário pelo seu emprego, o nordestino recebia um pouco mais da
metade do colega sulista. Essa é a injusta diferença do nosso país.

Temos um Brasil que é moderno, industrializado, o Sudeste, que participa com
2/3 do PIB, e, do outro lado, um Brasil arcaico, agrícola refletindo um forte
passado colonial. José Lins do Rego descreve muito bem esse clima de vida rural
nordestina numa pintura primitiva e exata desse mundo nos seus livros, Menino
de Engenho, Fogo Morto e tantos outros. A população rural do Brasil, portanto,
é um desafio para nossa tarefa missionária.

A população indígena vem baixando incrivelmente devido a uma série de fatores.
São os conflitos com chamados “civilizados”. São as epidemias de
gripe, de sarampo, de coqueluche. O indígena, portanto, é um desafio para nossa
tarefa missionária.

Temos os imigrantes de procedências variadas: alemães, italianos, russos,
poloneses, sírio-libaneses, japoneses, portugueses, letos, espanhóis, coreanos,
húngaros, e segue uma enorme lista. O imigrante é um desafio para nossa tarefa
evangelizadora.

A população deste grande país é na sua maioria romanista, mas o número de
adeptos do candomblé é imenso. Os sem-religião sem em grande número, e
tornam-se todos um desafio dos mais sérios para nossa tarefa, o que vale dizer,
um desafio para nosso testemunho.

Por esse motivo, a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo é chamada a irradiar a
verdade e para fazê-lo em todos os lugares, em todos os tempos, em todas as
circunstâncias. Somos convocados a apontar à nossa geração o caminho verdadeiro
e vivo especialmente agora, quando a doutrina de Jesus Cristo tem sido torcida,
rejeitada e violentada! Somos convocados a levar avante o glorioso cometimento
que nos foi dado e que se chama ministério da reconciliação: dizer aos homens
que Deus perdoa e que todos são chamados a viver debaixo do governo divino.

Esse é o nosso trabalho, a nossa missão. Só quando os crentes em Jesus Cristo
se tornarem missionários em suas vocações, na administração pública, na indústria,
na caserna, no comércio, no lar, na escola, no sítio, na loja, na clínica, em
todos os lugares, os homens perceberão Jesus como o Único Caminho, a Verdade
Absoluta e a Vida Eterna.

Essa terra brasileira é um dom de Deus. Temos dificuldades, temos inimigos,
perigos, no entanto, com Deus somos a maioria, pois, como diz o texto,
“Não temais o povo desta terra… A proteção deles se foi, mas o Senhor
está conosco. Não temais”.

Parte
XIV
MATEUS
24.14 E A MISSIO DEI

“E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo,
para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mt 24.14)
  1. Missio
    Dei: o termo e seu significado

    Em um trabalho lido na Conferência Missionária de Brandemburgo, na
    Alemanha, em 1932, Karl Barth tornou-se um dos primeiros teólogos a articular
    a missão como atividade de Deus mesmo. Do início ao fim da conferência a
    influência de Barth foi crucial. O influxo de Barth no pensamento
    missionário atingiria seu auge na Conferência de Willingen em 1952. Em
    Willingen reviveu um antigo termo (que veio dos tempos da patrística
    [séculos II-V] com as famosas discussões trinitárias): Missio Dei. Foi lá
    que a idéia da missio Dei emergiu,pela primeira vez, de maneira clara.
    Compreendeu-se a missão como derivada da própria natureza de Deus. Ela foi
    colocada, pois, no contexto da doutrina da Trindade, não da eclesiologia
    ou da soteriologia. Outro nome que se destacou na Conferência de Willingen
    foi o de George Vicedom, autor da famosa obra Missio Dei: An Introduction
    to the Science of Mission. A ênfase de Vicedom foi: “Deus é o sujeito
    ativo da missão. Deus o Pai enviou o Seu Filho, e ambos enviaram o
    Espírito Santo. A Trindade envia a igreja e os crentes em particular, para
    cumprir a tarefa da Grande Comissão”.

    Um seja, Pai, Filho e o Espírito Santo enviando a igreja para dentro do
    mundo.

    Na Conferência de Willingen reconheceu-se que a igreja não poderia ser nem
    o ponto de partida nem o alvo da missão. A obra salvífica de Deus precede
    tanto a igreja quanto a missão. Não se deveria subordinar a missão à
    igreja e, tampouco, a igreja à missão; pelo contrário, ambas deveriam ser
    inseridas na missio Dei que se tornou então o conceito abrangente. A
    missio Dei (missão de Deus) institui as missiones ecclesiae (missões da
    igreja). A igreja deixa de ser a remetente para ser a remetida.

    Em tempos mais recentes temos o sul-africano David Bosch como um dos
    principais expositores da missio Dei. Bosch morreu em 1992 num acidente de
    carro na África do Sul aos 62 anos de idade. Sua magnum opus
    “Transforming Mission: Pradigm Shifts in Theology of Mission”
    apresenta a missio Dei como tema dominante.



A missão não é
primordialmente uma atividade da igreja, mas um atributo de Deus. Deus é um
Deus missionário. Compreende-se a missão, desse modo, como um movimento de Deus
em direção ao mundo; a igreja é vista como um instrumento para essa missão.
“Participar da missão é participar do movimento de amor de Deus para com
as pessoas, visto que Deus é uma fonte de amor que envia” (Bosch).

Nossa missão não tem vida própria: só nas mãos do Deus que envia pode-se
denominá-la verdadeiramente de missão. Nossas atividades missionárias só são
autênticas na medida em que refletirem a participação na missão de Deus. A
missio Dei é atividade de Deus, a qual abarca tanto a igreja quanto o mundo e
na qual a igreja tem o privilégio de poder participar.

2. Mateus 24.14 e a missio Dei

O que temos em Mateus 24.14 é uma promessa? Na verdade há nessa passagem
bíblica muito mais que promessa. As promessas normalmente vêm acompanhadas da
condicional “se”. Por exemplo: As promessas das bênçãos decorrentes
da obediência e dos castigos da desobediência de Israel em Levítico 26 estão
todas condicionadas. Disse Deus: “Se andares nos meus estatutos,
guardardes os meus mandamentos e os cumprirdes, então, eu vos darei as vossas
chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua messe, e árvore do campo, o seu
fruto” (vv3,4). “Mas, se não ouvirdes e não cumprirdes todos estes
mandamentos”, etc. (v14). “Mas, se confessarem a sua iniqüidade e a iniqüidade
de seus pais, na infidelidade que cometeram contra mim, como também confessarem
que andaram contrariamente para comigo”, etc. (v40). Bem mais adiante Deus
diria a Salomão: “Se andares nos meus caminhos e guardares os meus
estatutos e os meus mandamentos, como andou Davi, teu pai, prolongarei os teus
dias” (1Rs 3.14).

O que temos em Mateus 24.14 é uma profecia preditiva. Jesus profetizou que o
Seu evangelho será pregado por todo o mundo. E Ele disse isso quando tinha
apenas doze frágeis discípulos. Ele sabia que um deles iria traí-lo, que outro
iria negá-lo e que no Getsêmani todos fugiriam de medo. Como era possível Jesus
fazer uma predição dessa natureza diante de tais circunstâncias? É porque Ele é
o Deus da verdade e tem poder para cumprir todas as coisas (cf. Jo 14.6; Mt
28.18).

A profecia de Mateus 24.14 não está condicionada à vontade humana. Sendo assim,
não tem sentido a pergunta que às vezes se faz: “Então, se não pregarmos o
evangelho Cristo não voltará?”. A vinda de Cristo não está condicionada a
nossa boa ou má vontade em se pregar o evangelho. Cristo virá depois que o
evangelho for pregado a todas as nações porque Ele disse que assim será. Ele
não virá independente do evangelho ser pregado primeiro (cf. Mc 13.10). O
evangelho será pregado no mundo todo para testemunho a todas as nações, e então
virá o fim.

Com freqüência pregadores bem intencionados usam Mateus 24.14 para apelos do
tipo “você pode estar retardando a vinda de Cristo por não pregar o
evangelho ao seu vizinho, aos seus amigos, a uma tribo não-alcançada”,
etc. Desse modo, acabam descambando para a chantagem emocional, além de
semearem mais confusão teológica do que motivações evangelística e missionária.
É verdade que em 2Pe 3.11,12 está escrito: “Visto que todas essas cousas
hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo
procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus…”;
mas qual o significado da expressão “apressando a vinda do Dia de
Deus” nessa passagem? Naturalmente que por “Dia de Deus” Pedro
se refere ao Dia do Senhor; a parousia de Cristo (cf. 2Pe 3.10). Quanto ao
termo “apressando”, o comentário que Russell Champlin faz desse texto
parece ser bastante esclarecedor. Diz ele que 1) Alguns eruditos assumem a
idéia de que podemos “literalmente apressar” a vinda do citado dia,
mediante o evangelismo. Dificilmente esse é o sentido dessa palavra, embora,
isoladamente, ela pudesse ter tal significado. 2) Outros pensam que a idéia
aqui é a de “desejar anelantemente”. Esse é um significado legítimo do
vocábulo grego, mui provavelmente o sentido tencionado pelo autor sagrado. A
tradução do texto grego de Champlin de 2Pe 3.12 é: “desejando ardentemente
a vinda do dia de Deus”.

3. A responsabilidade missionária da igreja

Depois da Conferência Mundial de Willingen (e mesmo em Willingen, no relatório
americano), o conceito de missio Dei sofreu uma modificação gradual. No estágio
dos relatórios preparatórios sempre se referia à divisa “God’s Mission,
Not Ours” (A Missão de Deus, Não a Nossa). As pessoas que apoiavam uma
compreensão mais ampla do conceito tenderam a radicalizar o ponto de vista de
que a missio Dei era maior que a missão da igreja, mesmo a ponto de sugerir que
ela excluía o envolvimento da igreja. Aparentemente, a igreja se tornou desnecessária
para a missio Dei: “Nós não podemos ‘articular’ a Deus. Em última análise,
‘missio Dei’ significa que Deus articula a si mesmo,
“É preciso que se note que esta profecia não proclama a aceitação
universal da mensagem de Cristo, mas tão-somente que a mensagem será largamente
divulgada” (Champlin). A ARC (Almeida Revista e Corrigida) tenta resolver
o problema com a seguinte tradução: “apressando-vos para a vinda do dia de
Deus”, contudo, ela parece ir além do que o original grego realmente
pretende dizer. Em grego o verbo spéudo pode ser traduzido como
“apressar” ou “desejar ardentemente”, dependendo do
contexto.
sem necessidade alguma de que o auxiliemos nesse sentido através de nossos
esforços missionários”; e “Deus não tem qualquer necessidade da contribuição
missionária dos cristãos”.

É claro que nem a igreja; nem qualquer outro agente humano pode, alguma vez,
ser considerado o autor ou a origem da missão. A missio Dei é uma obra
exclusiva do Deus Triúno, Criador, Redentor e Santificador por amor ao mundo;
porém, é através da igreja que Deus operacionaliza Sua missão de amor ao mundo.
A missio Dei não anula a responsabilidade da igreja na evangelização do mundo.
Muito pelo contrário. A missio Dei exige as missiones ecclesiae. A profecia de
Mateus 24.14 não exclui a igreja. Jesus conta com homens e mulheres que o amam
para serem testemunhas dEle a todos os povos através dos tempos. Esse é um
ministério do qual a igreja tem o privilégio de poder participar.

Muitas vezes dizemos que “amamos ao Senhor” e que “Ele é tudo de
bom que nós temos”. “Nós o amamos e por Ele entregamos a nossa
vida”, é o que dizemos também. Entretanto, existe algo no coração de Deus
que nem sempre está no coração dos filhos de Deus: a paixão pelos perdidos. Às
vezes nós, pastores e líderes, temos dificuldade para inculcar em alguns a
coisa mais natural da vida cristã: Missões.

O coração de Deus é um coração missionário. A obra missionária está no coração
de Deus. Está no seu? “Deus tinha um único Filho e fez dele um
missionário”, disse David Livingstone. Jesus teve seus seguidores e fez
deles missionários. A igreja do Senhor foi edificada com o propósito de
proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa
luz (cf. 1Pe 2.9). Por que somos tão egoístas? Por que pensamos tanto em nós
mesmos? Não basta dizer (como algumas vezes temos ouvido): “Eu não tenho
nada contra missões”. É preciso envolvimento e compromisso com a obra do
Senhor. Precisamos amar o trabalho missionário. Existem missões porque Deus ama
as pessoas. Temos que gostar do que Deus gosta e amar o que Deus ama. Missões
não é um dom, é uma responsabilidade em amor da qual você e eu não podemos
ficar fora dela.
A questão principal “Não é se eu impeço ou não a volta de Cristo, mas se
Ele vai me achar envolvido com a tarefa missionária quando Ele voltar para
recolher os Seus. Não é o orgulho de ser indispensável para o plano de Deus,
mas a percepção humilhante de que Deus tem outros instrumentos disponíveis mas
escolheu me dar a oportunidade de ser útil em Sua seara” (C. Osvaldo
Pinto).
Soli Dei Gloria.

Parte
XV
MISSÃO
SE FAZ COM ORAÇÃO (E JEJUM TAMBÉM!)
 “E,
servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora,
Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando,
e impondo sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.2,3). José Martins
disse corretamente: “A oração é a essência da obra missionária. Não é só
uma atividade necessária ao sucesso da obra – é a obra em si. É a prática mais missionária
possível, quando vivida de maneira bíblica”. É evidente que Martins não
quer dizer que oração e missões são a mesma coisa, e sim, que essas duas
atividades devem vir interligadas uma na outra. Nunca é demais enfatizar a
importância da prática da oração na obra missionária.

Quando o Espírito Santo ordenou que a igreja de Antioquia separasse Paulo e
Barnabé para a obra que os tinha chamado, a igreja estava em oração. Esta
verdade está implícita e explícita em Atos 13.2 e 3, respectivamente.

Implicitamente porque o versículo dois diz o seguinte: “E, servindo eles
ao Senhor, e jejuando…”. O fato da igreja estar jejuando subentende-se
que ela estava também orando. Seria incoerente pensar que uma igreja que estava
adorando a Deus e jejuando não estivesse em oração. Nem toda oração é feita em
jejum, mas todo jejum bíblico é feito com oração. Além disso, temos uma
evidência explícita de que a igreja de Antioquia realmente orava naquela
ocasião: “Então, jejuando e orando…” (v3). Não sabemos ao certo se
o jejum do verso 3 é o mesmo do verso 2. Pela urgência do chamado do Espírito,
tudo indica que sim. Mas se é o mesmo ou deixa de ser, não é tão importante
sabermos. Basta saber que a igreja de Antioquia era uma igreja de oração e que
fazia da oração a base de sua missão.

É provável que o exemplo da igreja de Antioquia tenha marcado positivamente o
ministério de Paulo. Paulo foi um homem de oração e recomendava às igrejas que
orassem por ele e pela expansão do evangelho de Jesus Cristo.

Agora, mais do que simplesmente orar, a igreja de Antioquia era uma igreja que
exercia a prática do jejum. É impressionante a ênfase que Lucas dá ao jejum na
igreja de Antioquia. Em Atos 13.2 ele diz que a igreja jejuava, e não menciona
a oração, embora sabemos que ela também orava, conforme dissemos acima. No
verso 3, do mesmo capítulo 13, Lucas coloca a palavra “jejuando” na
frente de “orando”. No texto grego é a mesma coisa: nestéusantes kai
proseuxamenoi. A ordem das palavras é significativa e não pode ser menosprezada,
como parece fazer a maioria dos autores que consultamos.

A ênfase de Lucas é importante por duas razões pelo menos: 1) Não devemos
pensar que a igreja de Antioquia jejuava porque trazia resquícios do judaísmo.
Esta não seria uma forma interessante de se pensar, primeiro porque Lucas era
gentio (provavelmente da cidade de Antioquia da Síria) e, por isso mesmo, qual
o interesse dele em dar tanta ênfase a uma prática estritamente judaica?
Segundo, a igreja de Antioquia foi uma das igrejas mais anti-judaicas do passado,
naquilo que se refere às práticas religiosas do judaísmo. Direta ou
indiretamente o Concílio de Jerusalém de Atos 15 aconteceu em razão desse
anti-judaísmo-cerimonialista. 2) Acreditamos que Lucas fez questão em enfatizar
a prática do jejum pela igreja de Antioquia, primeiramente para mostrar que
jejum e oração não são incompatíveis na vida de uma igreja e, em segundo lugar,
mostrar como esta prática era (e deve ser) valorizada no meio de uma igreja
verdadeiramente missionária. Se muitas de nossas igrejas têm falhado na prática
da oração, e falhado mais ainda em rogar ao Senhor da seara que mande
trabalhadores para a Sua seara, em interceder pelos missionários e orar pela
obra missionária de um modo geral, o que dizer então da prática do jejum em
nossas igrejas? Acredito que as igrejas históricas têm falhado até agora em
subestimar a importância do jejum na vida do povo de Deus. Quantos são os
membros destas igrejas que jejuam? Quantos de seus pastores jejuam? Muitos de
nós mal oramos, diga-se de passagem. Na minha própria denominação, Igreja
Presbiteriana do Brasil (IPB), aprendi: “Sem o propósito de santificar de
maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos
muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos,
etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais
calamidades, de ações de graças” (Princípios de Liturgia, XI). Se o povo
de Deus tiver que jejuar “em casos muito excepcionais de calamidades
públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc.”, conforme prescrevem
os princípios de liturgia da IPB, dificilmente existirá um dia de jejum neste
país! Que o jejum deve ser praticado em dias de calamidades públicas não
questionamos, pois a Bíblia nos dá vários exemplos disso. Mas será que devemos
jejuar somente em casos muito excepcionais de calamidades públicas? Da forma
como foi redigido o princípio para a prática de jejum na IPB, ao invés de
estimular o crente a praticá-lo, ele faz exatamente o contrário. Não que o
princípio fora escrito com o objetivo de desestimular quem quer que seja,
porém, na prática é o que tem acontecido. Creio que o capítulo sobre jejum
deveria ser revisto pela IPB, primeiro porque ele não expressa corretamente a
realidade brasileira e também por não apresentar uma definição mais completa do
verdadeiro conceito bíblico de jejum. Apesar da Igreja Primitiva ter vivido
momentos de muitas provações, nada indica que naquela ocasião especial de Atos
13 a igreja de Antioquia estivesse jejuando e orando porque passava por
momentos difíceis. Pelo contrário, o contexto próximo (cap. 12) indica que a
Igreja Primitiva, de modo geral, estava vivendo um dos seus melhores dias.
Pedro havia sido libertado milagrosamente da prisão e um dos maiores inimigos
da igreja, o rei Herodes Agripa I, foi morto mediante a intervenção de um anjo
do Senhor. Enquanto isso, “a palavra do Senhor crescia e se
multiplicava” (At 12.24). A igreja de Antioquia buscava a presença de Deus
pelo simples prazer de estar servindo a Deus. E continuou assim quando enviou
seus missionários e os sustentou com fervorosas orações. Que Deus conceda à
igreja brasileira a graça de ser uma igreja que se alegre em estar em Sua
presença, intercedendo dia após dia pela obra missionária do Brasil e do mundo.

Parte
XVI
MISSÕES
OU ADORAÇÃO?

UM PERSPECTIVA REFORMADA DE MISSÕES
 Qual
é a principal tarefa da igreja? Em resposta a esta pergunta, temos ouvido:
“Missões é a principal tarefa da Igreja” ou “Se a Igreja não é missionária,
então não é Igreja”. Não há dúvida, de que missões é uma prioridade da Igreja,
mas não é a prioridade última. Na verdade, a Adoração a Deus o é. E isto porque
Deus é o nosso alvo, e não o ser humano. John Piper diz que quando esta era
terminar e representantes de toda raça, tribo e nação estiverem dobrados diante
do Cordeiro de Deus, a obra missionária não mais terá razão de existir na
igreja. Mas o Culto, continuará a existir. Quando chegarmos ao fim dos tempos e
todos os redimidos estiverem diante do trono de Deus, missões não serão mais
necessárias. Missões representa apenas uma necessidade temporária da Igreja,
mas o Culto a Deus permanecerá para todo o sempre.

Relação entre Adoração e Missões
Notem como o escritor do Salmo 67 faz a relação entre a adoração e missões, mas
colocando a adoração como prioridade última. No verso 1 ele declara:”Seja
Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o
rosto; (Adoração); no verso 2 ele mostra a prioridade penúltima da igreja “para
que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações a tua salvação”
(Missões) e no verso 3 ele menciona o objetivo das missões que é a glória de
Deus e não o bem estar dos homens “Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os
povos todos”.
(Glorificar a Deus). É imprescindível destacar que primariamente, não é por
compaixão pela humanidade que compartilhamos nossa fé; é, acima de tudo, por
amor a Deus. Portanto, se eu não amar a Deus, não estarei apto a fazer missões.

Isaías também registra a sua experiência de adoração e missões no capítulo 6 de
seu livro. Nos versos 1 a 7 vemos o profeta no templo em adoração e tendo a
visão da graça perdoadora do Senhor e no versos seguintes, no auge de sua
contemplação do Senhor o vemos respondendo ao desafio missionário: “Eis-me
aqui, envia-me a mim”. Primeiro, eu tenho meu coração aquecido na adoração
e depois dedico-o ao serviço missionário.

A adoração é a mais nobre atividade da qual o ser humano, e tão somente pela
graça de Deus, é capaz de realizar; enquanto missões é o maior desafio que ele
recebe como resposta e estímulo da sua atividade como adorador.

O zelo pela glória de Deus no culto motiva a obra missionária
Talvez alguém possa questionar: Por que esta ordem de prioridade é tão
importante que seja estabelecida? Respondemos que, quando as pessoas não estão
maravilhadas pela grandiosidade de Deus, não poderão ser enviadas para
proclamar a mensagem: “grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível
mais que todos os deuses” (Sl 96.4).

“A paixão por Deus no culto precede a oferta de Deus na pregação”. Ninguém pode
divulgar com convicção aquilo que não estima com paixão. Não poderá clamar,
“Alegrem-se e exultem as gentes” (Salmo 67.4a) aquele que não pode afirmar no
seu coração, “eu me alegrarei no SENHOR” (Salmo 104.34b; 9.2). Quando a paixão
por Deus está fraca, o zelo por missões certamente será fraco também.

As igrejas que não exaltam a majestade e a beleza de Deus dificilmente poderão
acender um desejo efervescente para “anunciar entre as nações a sua glória”
(Salmo 96.3).

Andrew Murray fez um pronunciamento há mais que cem anos onde relacionou a
Adoração e Missões com as seguintes palavras:

Quando buscamos saber por que, com tantos milhões de cristãos, o verdadeiro
exército de Deus que está enfrentando os exércitos da escuridão é tão pequeno,
a única resposta é: falta de coração e entusiasmo. O entusiasmo pelo reino de
Deus está faltando, porque há tão pouco entusiasmo pelo Rei.

Ninguém poderá se dispor à magnitude da causa missionária se não experimentar a
magnificiência de Cristo (Apocalipse 15.3-4; cf. Salmos 9.11; 18.49; 45.17;
57.9; 96.10; 105.1; 108.3; e Isaías: 12.4; 49.6; 55.5)

Concluímos fazendo menção da primeira pergunta do Catecismo de Westminster que
diz: “Qual é o fim principal do ser humano?” E a resposta correta é: “O fim
principal do homem é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre.” É dentro desta
perspectiva, que afirmamos que a prioridade última da Igreja do Senhor é
Glorificar a Deus e como resultado desta adoração, a obra missionária será
realizada.

Parte
XVIII
CARÁTER
MISSIOLÓGICO DA ESPERANÇA CRISTÃ
INTRODUÇÃO
Esta monografia tem como objetivo mostrar que a esperança cristã é o fator
motivador para a prática missiológica da igreja. Assim sendo, o nosso estudo
estará baseado no termo “esperança ” que expressa a expectativa ou o
ato de esperar, dando-nos a idéia de um objeto ou algo esperado. Embora sabemos
que o objeto ou o produto desta expectativa é Cristo, esse estudo descreverá os
momentos de profunda experiência de Deus com o seu povo, de tal forma que levou
pessoas à formulação de uma compreensão eficaz ao cumprimento da missão da
igreja a partir de Cristo.
Esta compreensão toma forma no Antigo Testamento, onde a esperança era vista
como o ato de esperar, ansiar, aguardar. Todos esses verbos dão a conotação de que
a esperança do povo de Israel estava baseada em Javé e estava intimamente
ligada com o ato de confiar. Assim, no AT, o povo mantinha a expectativa a
partir da relação de espera e confiança. Javé era, portanto, o motivo da
esperança para o povo que nele confiava. Já no Novo Testamento, a situação que
no AT se descreve como esperança, agora é caracterizada como sendo o já de Deus
para o povo com a presença do Deus encarnado. Aquilo que antes era futuro,
agora se torna presente com a revelação de Cristo, mudando o caráter da
esperança em si. Por causa da presença de Cristo, a esperança no NT é
reformulada em relação ao seu conteúdo. A esperança adquire um sentido duplo
diante do Deus presente: ao agora é preciso acrescentar o ainda não,
acrescentando também a esperança no Cristo e o esperar por ele.

Assim, estaremos trabalhando a fundamentação bíblico-teológica da esperança
cristã, a metodologia missiológica da esperança cristã e a esperança cristã
como articuladora de uma missão contextualizada, entendendo sempre que o
caráter missiológico da esperança deve ser visto e analisado a partir do Cristo
crucificado, e vai em direção às promessas da ação de Deus no “já” e
no “ainda não”, não importando a nossa situação, mas tendo
consciência de que a nossa fé está baseada em Cristo, na sua obra e exemplo,
bem como no seu esperado retorno.

I – FUNDAMENTAÇÃO BIBLICO-TEOLÓGICA DA ESPERANÇA CRISTÃ

Neste primeiro capítulo, estaremos aprofundando o estudo da Esperança Cristã a
partir da fundamentação bíblico-teológica. Focalizaremos algumas passagens
bíblicas pertinentes ao tema, acreditando que as narrativas bíblicas
exemplificam a análise da tradição bíblica e a prática reflexiva como teologia.

1.1 Em o Antigo Testamento:



1.1.1 A missão dos patriarcas é baseada na esperança da promessa e
das bênçãos As passagens vétero-testamentárias da esperança judaica
tornar-se-ão modelo cristão a partir dos temas bênção e promessa.

Em Gênesis 1: 28, Deus abençoa a Adão e Eva com a missão de que eles
frutificassem e multiplicassem sobre a terra. Além desta missão, havia a
promessa da bênção de domínio sobre a criação. Assim, o que impulsionava Adão a
cumprir a sua missão era o fato de que a dádiva e a bênção por parte de Deus
são fatores motivadores para o cumprimento de sua missão. Em Adão, Deus mostra
que a sua bênção é determinada pelo cumprimento da missão que ele outorga aos
homens, entendendo que a missão de Adão era clara e definida e que ele esperava
a manifestação da bênção e da promessa. Em Gênesis 9: 8-17, vemos a ação de
Deus chamando Noé para a missão de preservar a raça humana a partir da promessa
de que Ele não mais a destruiria. O cumprimento desta missão teve como fator
básico a bênção para toda a raça humana.

A partir de Gênesis 12, temos o chamado de Deus para Abraão e a confirmação de
que nele seriam benditas todas as famílias da terra. Abraão responde ao chamado
com fé nas promessas e nas bênçãos. A fé lhe foi exigida, porque em sua missão
encontrou, por várias vezes as dificuldades que foram vencidas pela fé em Deus,
que deu origem à sua missão. Essa fé iniciou-se com Abraão que na história da
sua vida viu a missão que Deus tinha para ele cumprir, mas que apontava para um
fim maior que haveria de realizar-se. Moltmann nos dá um perfil interessante no
que diz respeito ao espaço do crer na realização do prometido:

Se uma palavra é palavra de promessa, isto significa que ela ainda não
encontrou sua correspondência na realidade, mas está em contradição com a
realidade presente e experimentável… a palavra da promessa sempre cria um
tempo intermediário, carregado de tensão que se estende entre o evento e a realização
da promessa.

Assim, Deus chama Abraão com o objetivo de alcançar todas as outras nações
da terra. O propósito de Deus em Abraão era mostrar ao mundo o caminho da
salvação e fazer com que todos pudessem gozar das promessas e das bênçãos
feitas a ele. Assim sendo, Deus usa Abraão para um propósito maior – alcançar
as nações. Com o nascimento de Isaque (Gênesis 21), Deus mostra a Abraão a sua
fidelidade e responde de forma concreta a todas as promessas feitas a ele, pois
é em Isaque que Deus vai dar continuidade para às suas promessas de abençoar a
todos os povos.

Essa bênção se torna presente em Jacó (Gênesis 32: 22-32), pois Deus começa a
lançar os fundamentos para o povo que seriam instrumentos para refletir a sua
glória entre as nações, o povo de Israel. Em José, nós podemos ver como a
fidelidade de Deus atua, mesmo que de modo estranho ao levar José para o Egito
como escravo e abençoando-o, a ponto de promovê-lo aos mais altos escalões da
corte, para preservar seu povo e também para abençoar os egípcios e os povos
vizinhos naquele tempo de calamidades.

A partir de Êxodo 12, encontramos Moisés que se destaca como uma figura
bastante significante para o contexto de missão no Antigo Testamento. Ele é
enviado para a missão de resgatar o povo de Israel e fazer dele um canal de
bênção para as nações. Isso acontece a partir da libertação do povo que estava
cativo, oprimido e sob o domínio de faraó. Vale ressaltar também que Deus usa
Moisés, não apenas para libertar o povo, mas para ser o condutor do povo na
formação da nação, na elaboração do seu culto e das suas leis, enfim, na
expressão da sua fé.

Assim no êxodo, Deus cumpre sua promessa, libertando seu povo da escravidão
e do cativeiro. Em Moisés, Deus mostra que o êxodo é a base para a tipologia
cristã que antecipa a obra redentora de Cristo. Assim, a ação salvífica de Deus
no passado se tornou a base da esperança e da confiança que a salvação poderia
ser conhecida como uma experiência na história humana, e não somente um evento
além da história atual.  Considerando a
promessa e a bênção como elementos de uma esperança judaica primitiva, a
cristandade tomou-as como precursoras de uma teologia bíblica desenvolvida na
cultura helênica, romana e gentílica do século I. É certo que a Igreja
Primitiva levou em consideração o aspecto da esperança cristã inaugurada em
Cristo como também o cumprimento da promessa e da bênção.

1.1.2 A missão dos profetas é baseada na esperança do reino messiânico
Considerando o movimento profético como um fenômeno da urgência crítica do
período monárquico da nação de Israel, entendo que há elementos suficientes
para uma análise quanto ao aspecto da esperança que alcançou momentos históricos
decisivos para o povo. Quero referir-me a alguns profetas que, inspirados pelo
Espírito de Deus (Isaías 61:1-2; Miquéias 3:8), refletiam a crise
social, econômica e política com fortes argumentos teológicos. Essas
explanações, todavia, começaram a ser imitadas por um número muito
significativo de profetas tanto palacianos (Deutero-Isaías) como campesinos
(Amós), pois o perfil profético desses anunciadores traziam em suas mensagens a
voz de lahweh, inaugurando um novo período: o reino messiânico.

Falar sobre o reino messiânico no período dos profetas é detectar
cuidadosamente as estruturas escatológicas que o tema da esperança judaica
proporcionou ao povo Por exemplo, a crise econômica do reinado de Judá
prejudicou sensivelmente os camponeses por causa dos altos impostos que
indicaram para os profetas menores, o anúncio de uma conversão da injustiça
social para uma vida digna e respeitada. Os profetas desse período
caracterizavam a esperança a partir de uma reconversão do reinado monárquico,
ou seja, o rei, os súditos, os profetas, os sacerdotes, o exército e até mesmo
o povo seriam alcançados pelo reino do Messias, pois a injustiça social seria
aniquilada.

O que significaria então essa esperança no reino messiânico? Certamente, os
profetas traziam um anúncio voltado para uma figura política, sacerdotal,
profética e humana, pois o Messias seria o representante justo de Deus entre o
povo. É nesse contexto simbólico-figurativo que o Messias deixa de ser imagem e
memória, ideal e ficção e, fenomenologicamente falando, torna-se a esperança de
realização num homem que satisfaria os ideais divinos de justiça. Afinal, era
ao rei que cabia a função de administrar o mishphat e o tsadíq (justiça e
direito). Sendo assim, os profetas anunciam um reino messiânico como uma
repulsa ao reinado dos reis que não exerciam cabalmente a função digna e justa.
Embora o ritual da unção do rei fosse uma indicação de que o mesmo fôra
escolhido por Deus, os profetas anunciam um rei que é o próprio Deus: o
Renovo Inaugura-se um novo momento na história de Israel: a esperança de que o
reino messiânico seja efetivamente inaugurado.

A esperança judaica do reino messiânico é descrita por vários pesquisadores
como manifestações históricas: quando Davi começa a construção do templo, Natã
o adverte do seu pecado de adultério como sendo a decadência do seu reinado. A
história dos cronistas narra episódios de uma estrutura familiar real
totalmente desvinculada do contexto da justiça divina. Certamente, o reinado
davídico não é o messiânico, pois a injustiça dentro do próprio palácio é
praticada por aquele que era tido como o escolhido de Iahweh. Já, no reinado de
Salomão, a injustiça é mais acentuada: o sistema tributário para manutenção do
templo, palácio e oligarquias tribais (sistema de prefeituras), denominado
corvéia, opunha-se totalmente ao projeto já outrora declarado por lahweh (comp.
1 Reis 2:1-4). A partir de Salomão, a monarquia sofre divisões, más
estruturações, principalmente no aparato litúrgico, religioso e cerimonial.
Doravante, a nação de Israel e Judá vão ser dominadas e o povo vai sentir-se
desesperançado. A resposta histórica da esperança messiânica somente é descrita
pelos profetas que presenciaram o retorno do cativeiro babilônico comandado
pelo rei persa Ciro. Este momento histórico é considerado messiânico
porque a nação passa por uma renovação étnica, os valores da tradição javista,
eloista, sacerdotal e deuteronomista voltam a ser lembrados e os novos líderes
são escolhidos a partir do contexto da justiça e do direito margeados pela
experiência e vivência do cativeiro.

Concluindo, o período profético dentro da história de Israel é caracterizado
como um anúncio da esperança judaica de um reino messiânico. Esse reino,
todavia seria comandado por lahweh, visto que administraria o direito e a
justiça ao povo.

1.2 Em o Novo Testamento
1.2.1 A missão de Jesus é cumprir a esperança da salvação
Dentro da teologia bíblica desde Gênesis, Deus já incluíra em seu projeto de
criação do universo o resgate do homem dominado pelo pecado (Gn 3:1-15). Essa
missão em resgatar a humanidade, por iniciativa divina, concluiu-se em Jesus.
Sua missão foi a de cumprir o resgate da humanidade, doando-se gratuitamente e
cumprindo satisfatoriamente a vontade de Deus-Pai. Esse cumprimento da missão deve
ser entendido escatologicamente dentro do contexto da soteriologia, pois Jesus
é quem inicia e Cristo é quem concretiza a esperança soteriológica. Não são
duas pessoas, mas sim duas características essenciais da função divina que
representa a esperança e a salvação. Cristo é a consumação de uma missão
permeada pela esperança que a criatura tinha de ser resgatada pelo seu Criador.

Dentro do plano bíblico de salvação, Cristo é o enviado de Deus para cumprir a
esperança soteriológica da vontade divina. Sendo assim, Ele se torna a
Missio-Dei de uma esperança divina compartilhada com a humanidade. Jesus cumpre
essa missão porque é Deus que salva.

1.2.2 A missão de Jesus é inaugurar a esperança do Reino de Deus
O aspecto escatológico da missão de Jesus é o de inaugurar a temática do reino
de Deus como uma nova esperança: a da prática da justiça. O Reino de Deus é
inaugurado por Cristo porque concentra em si a esperança da humanidade. Ele
cumpre os aspectos do reino messiânico já anunciado pelos profetas vétero-testamentários.
A missão de Jesus ao inaugurar o Reino de Deus, coloca-se em duas situações de
concretização: a primeira é o de fundamentar o conteúdo do Reino de Deus, e a
segunda é o de identificar os efetivadores desse reino: o novo homem em Cristo.
Portanto, a missão de Jesus traz juntamente consigo elementos visíveis da
esperança no anúncio do Reino de Deus, ou seja, os sinais visíveis do Reino de
Deus. O primeiro sinal do reino é a presença de Jesus no meio do seu povo. Essa
presença traz como resultado final a alegria, paz e celebração (Lc 17:21; Mt
18:20). O segundo sinal do reino de Deus é a pregação do evangelho, ou seja, o
Kerigma. Pois não havia até então evangelho para ser pregado. Assim, a vinda de
Cristo inaugura o tempo da proclamação. Um tempo de anúncio das boas novas a
todos, especialmente aos pobres (Lc 4:18 – 19; 7:22). O terceiro sinal do reino
foi o exorcismo. A idéia aqui apresentada é a de que a possessão demoníaca é
real e terrível, sendo que a libertação só é possível através de um encontro de
poderes no qual o nome de Jesus prevalece. O quarto sinal do reino foram as
curas e os milagres realizados por Jesus, dando visão aos cegos, curando
enfermos, dando audição aos surdos, fazendo coxos andar, ressurgindo mortos,
acalmando tempestades, multiplicando pão e peixes, tudo isso não só apontando
para a realidade da chegada do reino, mas eram prenúncios do reino final, em
que os problemas vividos pelos homens seriam banidos para sempre. O quinto
sinal do reino é o milagre da conversão e do novo nascimento. O encontro com
Deus e com o poder salvador do evangelho, faz do homem nova criatura (II Cor
5:17). Um sexto sinal é o povo do reino1 em quem se manifesta o que o apóstolo
Paulo denomina de “fruto do Espínto” (GI 5:22-23). Assim sendo1 fica
claro que o reino de Deus é governado por paz, amor, alegria, bondade,
longanimidade, benignidade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. O sétimo
sinal do reino é o sofrimento. No exemplo de Cristo nós temos o paradigma para
a nossa atuação como efetivadores deste reino. Foi necessário que ele sofresse
a fim de entrar na sua glória. Cristo sofreu por nós, deixando o exemplo maior
para que pudéssemos mostrar um sinal concreto para todos de que recebemos a
salvação de Deus, ou seja, do seu reino. Concluindo, fica bastante claro que
todos esses sinais apontam para uma esperança inaugurada em Cristo.

1.2.3 A missão de Jesus é criar expectativas de vida
Após vermos que a missão de Jesus era inaugurar a esperança do reino de Deus,
vamos agora ver a conotação que essa missão vai assumir em relação à criação de
expectativas de vida. Vale ressaltar, que o significado da esperança dos
contemporâneos de Jesus está intimamente ligada na pluralidade do conceito
vétero-testamentário visto anteriormente. O que caracterizava essa época era a
expectativa messiânica. A idéia aqui apresentada é de um libertador da
nação. Já na pluralidade da época de Jesus, encontramos quatro tipos de
expectativas: a primeira, chamada de apocalíptica, entendia que o presente
estava entregue a poderes malignos e fadado a desaparecer. Haveria todo tipo de
desgraça como terremotos, fome, fogo, guerras e depois surgiria um novo tempo,
repleto de paz e justiça num mundo eterno onde a morte e todas as configurações
malignas estariam vencidas. A Segunda, chamada de rabínico-farisáica, adotou
elementos da apocalíptica e desenvolveu um tipo de escatologia semelhante, que
unia as diversas esperanças a respeito dos tempos finais. Há, evidência do
caráter político-nacionalista de esperada manifestação do reino de Deus. O
povo, privado de força política, vivia esta expectativa no legalismo. Desta
forma, constatamos

O Reino de Deus será erigido quando ele libertar Israel da escravidão, sob os
povos do mundo, por meio de poderosos sinais, históricos o cósmicos, e obrigar
os povos a reconhecê-lo como Senhor. Já o terceiro grupo tinha também
sentimentos apocalípticos e era formado pelos essênios. Consideravam-se o único
Israel verdadeiro. Para esse grupo a espera do Messias davídico foi relacionada
a pessoa do Messias de Israel, visão essa extraída do Antigo Testamento.
O quarto e último grupo é o mais radical. São os Zelotas, que não se
contentavam em esperar calmamente a vinda do Messias, mas desejava sua vinda
através da luta armada. Eram profundamente nacionalista e traduziam sua
expectativa em uma prática guerreira de libertação, com o objetivo de forçar a
realização do reino por meio da força. É nesse contexto de espera que aparece a
pessoa de Jesus, o Messias. A expectativa do Antigo Testamento de lahweh iria
intervir na história. O Verbo se faz carne (Jo 1:14); Deus tornou-se homem, o
Todo-Poderoso apareceu na terra e veio ao encontro do homem. Em Jesus, o dia
mundial da salvação chegou como o grande dia de Deus. Aquilo que era futuro,
tornou-se presente nele uma realidade já presente entre os homens (Lc 10:23;
11:20; 17:20)

Portanto, em Jesus, a expectativa de vida se faz presente. Jesus assume a
missão de gerar vida, colocando a esperança sob uma nova perspectiva. Em Jesus,
a esperança se torna uma realidade concreta, gerando uma expectativa nova para
as pessoas. Essa nova expectativa gera também um novo tempo: um tempo de paz,
de amor, de justiça e saúde. Gera um tempo de celebração, um tempo de
festa, algo que só a missão de Jesus faz tornar realidade. Essa missão,
portanto, traz uma nova expectativa, pois ele cumpre aqui e agora e aponta suas
ações e palavras como sendo um acontecimento salvífico do fim dos tempos.

1.3 Na Teologia Paulina
1.3.1 A ressurreição escato-cosmológica de Jesus enquanto paradigma
missiológico O apóstolo Paulo coloca na base angular de nossa esperança o
evento pascal e pós pascal e a união com ele (1 Tess. 4:14). A ressurreição de
Jesus, e em conseqüência, a dos fiéis são ações salvíficas de Deus (1 Cor 15:
22 5) A pregação da ressurreição era uma esperança viva. Ela elimina todas as
dúvidas acerca da autenticidade da reivindicação de Jesus, além disso, se a
ressurreição de Cristo não fosse um fato, a experiência na estrada de Damasco
não teria passado de um sonho apenas e nada convenceria Paulo disso. Ele sabia
que Cristo havia ressuscitado. Esse era portanto o fator determinante para a
ação missiológica de Paulo: O Cristo ressurreto! Para o apóstolo tudo o que se
refere a Jesus Cristo é portanto, objeto de esperança e de ação missiológica,
especialmente a sua ressurreição. Desta forma, o pensamento escatológico de
Paulo une sempre o evento da ressurreição de Jesus no contexto da expectativa
escatológica, em relação aquilo que há vir e a espera do futuro é sempre
baseada no evento Cristo.

1.3.2 A missão de Paulo na confecção escatológica da esperança cristã
O apóstolo Paulo teve um papel muito salutar na confecção do conceito
escatológico da esperança cristã. Afinal, não fôra fácil para ele conscientizar
os cristãos acerca dessa realidade, pois a influência judaica (acerca do
messianismo) e a grega (a respeito da utopia filosófica) são religiões ou
sistemas já muito bem estruturados e de difícil acesso. Dessa forma, pode-se
afirmar que a missão de Paulo foi a de compor a metodologia teológica
necessária para se conceber a esperança cristã. Para o apóstolo, a fé é o
critério para se compreender a esperança (Romanos 1:16-17). Ela é o sujeito,
pois o objeto da esperança é, normalmente, escatológico: a glória de Deus, a
esperança reservada nos céus (CI 1:5), a graça que será concedida na revelação
(escatológica) de Jesus Cristo. Era preciso que o apóstolo desse aos cristãos a
segurança necessária aos obstáculos enfrentados: o sofrimento, a desesperança,
a injustiça, a opressão, às doenças etc. O amor também ocupa uma saliência na
tríade paulina (1 Coríntios 13:13, pois fé, esperança e amor são dons a serem
exercitados), veiculado pela expectativa da comunhão em Cristo pelo
Espírito. Sendo assim, essa construção do amor entre fé e esperança ajuda a
concepção paulina para estabelecer conceitos, diretrizes e medidas pastorais a
favor das comunidades primitivas.

A variedade das experiências, pelas quais Paulo orientou as comunidades a
suportarem, resultou como elementos didáticos da preocupação apostólica em
redescobrir novos horizontes para a fé cristã. Esses horizontes foram vistos
nos personagens bíblicos (Rm 4:18), naquilo que não vimos ou sentimos (Rm 8:24;
Hb 3:6), na glória de Deus (Rm 5:2); na libertação do pecado (Rm ~:20), na
salvação do justo (Rm 8:24), na alegria dos justificados (Rm 12:12), na
libertação do perigo (2 Cor 2:10) etc. Enfim, várias passagens que estruturam o
pensamento de Paulo, além, é claro, de conciliar a missão, a glorificação de
Deus e a unidade do Corpo.

1.3.3 Temas e Figuras paulinas para a missão da esperança
A esperança tem uma missão: tornar eficiente a fé cristã e proporcionar
expectativas àqueles que são alcançados por ela. Para isso, o apóstolo Paulo
desenvolveu temas e figuras que exemplificam a sua eficácia. Queremos, então,
esboçar os temas e as figuras.

FIGURAS: Tempo (kairós)
TEMAS: Juízo e misericórdia pela ação
de Deus na História

FIGURAS: Épocas (kronos)
TEMAS: Rememorações dos feitos de Deus

FIGURAS: Reino (basiléia)
TEMAS: Paradigma de restauração e manifestação da graça de Deus

FIGURAS: Israel
TEMAS: Referencial da tipologia Povo de Deus
com um ministério definido

FIGURAS: Alturas/Nuvens
TEMAS: Dimensão escatológica da soberania de
Deus/referencial para a glorificação divina

FIGURAS: Espírito Santo/poder/autoridade
TEMAS: Poder de Deus/essência à qualidade
dos cristãos na evangelização

FIGURAS: Testemunhas
TEMAS: Proclamação/Serviço/referencial para o sofrimento cristão

FIGURAS: Confins da Terra
TEMAS: Dimensão Extra territorial da pregação

FIGURAS: Visão/discernimento
TEMAS: Testemunho da experiência cristã,
p. exemplo a ressurreição de Cristo

FIGURAS: Palavra
TEMAS: Conforto/Consolo

FIGURAS: Glória
TEMAS: riação de uma expectativa extra- temporal;
dimensão escatológica da promessa e
bênção inauguradas pela esperança cristã

FIGURAS: Parousia de Cristo
TEMAS: Expectativa da redenção final da criação/
consumação do projeto de Deus

FIGURAS: Céu
TEMAS: Referencial de oposição ao
baixos domínios territoriais

Percebe-se que os temas encontrados nas figuras paulinas não são uma limitação
do significado que ela encerra, mas uma tentativa de explicar e exemplificar o
propósito da experiência cristã. Sendo assim podemos afirmar que essas figuras
tinham uma missão: concretizar na mente dos cristãos que a realidade da
esperança era a catalisadora dos sofrimentos, das desesperanças, das
injustiças, das estruturas opressoras e desumanas. Em cada uma delas, o
contexto neo-testamentário é provedor de um ação realizadora da missão da
esperança.

II- METODOLOGIA MISSIOLÓGICA DA ESPERANÇA CRISTÃ

A seguir, apresentaremos os métodos missiológicos que podem ser encontrados na
Esperança Cristã. Para o estudo dessas correntes escatológicas de interpretação
da esperança cristã, iremos considerar a ênfase missiológica que cada uma tem
se proposto a oferecer. 2.1 A Esperança se realiza na fé em Cristo
(C.H. Dodd)

Cristo veio cumprir a vontade do Pai, morrendo e ressuscitando.
Ele possibilitou essa realização, pois cumpriu cabalmente os desígnios divinos,
determinando o cumprimento dos eventos escatológicos a partir da sua
encarnação, morte, ressurreição e exaltação. E é, ademais, na parousia que se
encontra um novo aspecto dessa escatologia cristológica: nEle tudo se cumprirá
(Romanos 11:33-36). Os temas com respeito ao julgamento e juízo divinos não se
referem aos aspecto escatológico, mas sim apocalíptico (consumação). Assim
sendo, o reino já está consumado e realizado em Cristo. No entanto, há várias
concepções de interpretação com metodologias que necessitam ser
aprofundadas.

No caso de Dodd, encontramos a fé como concretizadora dessa esperança. A fé se
torna o instrumento de medida para a realização dessa esperança. Os intérpretes
julgam-na necessária para que a esperança cristã se junte às estratégias de
evangelização e que cada ato missionário revele a missão cristã enquanto fé
escatológica.

É mister, portanto, o ministério pastoral voltar-se a essa prática de fé
enquanto promotora da missão. A prática pastoral é um ato de fé em Cristo.
Mesmo com respeito aos futuros desafios que a Ekklesia terá que realizar, a fé
será ainda um elemento escatológico de realização cristã. Enfim, a comunidade
que crê é a que espera a realização do futuro.

2.2 A Esperança está em realização pela pregação do Evangelho (Cullmann)

Cristo é considerado como o escatós, como agente da realização escatológica
divina em processos diferenciados pela vontade do Pai, ou seja, no Antigo
Testamento o sentido escatológico da esperança era ilustrado pelas alianças de
Deus com seu povo; em o Novo Testamento a escatologia divina é manifestada no
Filho e executada pelo Espírito, mas no futuro, ela será consumada na parousia.
Assim sendo, somos ensinados pelo Espírito nas questões que hão de vir.

É salutar que a posição de Cullmann seja pautada na pregação do Evangelho, uma
vez que o aspecto kerigmático do cristianismo é essencialmente escatológico.
Tudo indica que esta interpretação é uma dialética do já e ainda não O primeiro
seria entendido como uma condição, ou seja, pregar o Evangelho. Já o segundo
como resultado-conseqüência, isto é, a realização da esperança pela
pregação. A comunidade condicionada à pregação, anuncia a realidade da
esperança na vida cristã e, em conseqüência disto, a mesma comunidade goza dos
resultados dessa pregação. Resta-nos, apenas entender como fica a missão, uma
vez que a compreensão da Grande Comissão (Mateus 18:18-20; Marcos 16:15-17;
Lucas 24:47-49; João 20:19-23; Atos 1:6-11) é de caráter imperativo e não
condicional. Daí, entende-se que a esperança está em realização (o ainda não).
2.3 A Esperança está condicionada à práxis eclesiológica (Weiss e Schweitzer)

O paradigma escatológico é Cristo, logo, todos os elementos de sua
escatologia são conseqüentes a nós. Essa corrente vê o reino como essencialmente
escatológico e supra terreno. Esta é a posição que defende o reino futuro. Ela
estabelece parâmetros de medida e ação eclesiológica, não permitindo uma outra
maneira de reconhecer a manifestação da esperança senão pela prática cristã. É
claro que não está se referindo à presença cristã, mas sim à prática
missiológica pela Igreja.

Por vezes, pode ser confundida com a corrente anterior, mas ela está querendo
abranger a estrutura que a Ekklesia possui para concretizar a esperança
enquanto catalisadora da missão. É relevante, pois permite à atual missiologia
refletir sobre os esquemas de prática cristã dentro das próprias estruturas que
igrejas e agências missionárias possuem.

2.4 A Esperança é inaugurada em Cristo (Fuller)

Tem como objetivo, enfatizar a missiologia a partir da escatologia. Cristo
também é o paradigma escatológico. Ele é o inaugurador da nova concepção da
parousia no Novo Testamento. Essa compreensão dá-nos uma visão apocalíptica da
volta de Cristo, ou seja, a pregação se torna emergente, o tema da volta de
Cristo é o conteúdo prioritário da evangelização. Desta forma, Jesus inaugura
uma nova visão de messianismo. E a exigência é a fé.

Esse paradigma escatológico é o cumpridor da missão inaugurada em Cristo.
Favorece os meios de atuação missionária a partir da esperança. Como isso se
dá? Pela inauguração em Cristo. É escatológico pelo aspecto apocalíptico, na
manifestação de Cristo, a esperança se realiza enquanto fator consumador. A
missão se cumpre e oferece duplo aspecto: o da libertação em Cristo se inaugura
a esperança salvífica patrocinada pela misericórdia do Pai; e o outro o da
condenação, que explicita a justiça no julgamento do Pai.

2.5 Reação às Metodologias: A Esperança Cristã via paradigmas escatológicos
de plantão prejudica a missão da Igreja

Quando olhamos a esperança cristã a partir dessas metodologias, via escatólogos
de plantão, perdemos a verdadeira noção do reino de Deus e da missão da igreja,
porque o que importa na realidade é lembrar que não é presente, nem futuro, ou
seja, não está totalmente no presente, nem somente a realizar-se no futuro. Há
uma relação dialética entre presente e futuro, pois:

O reino de Deus não é apenas futuro e utopia, é presente e encontra
concretizações históricas. Por isso deve ser pensado como um processo que
começa no mundo e culmina na escatologia final. Em Jesus encontramos a tensão
dialética sustentada adequadamente; por um lado a proposição de um projeto de
total libertação, que podemos entender como reino de Deus, e, por outro,
mediação (gestos, atos, atitudes) que o traduzem processualmente na história.
Por um lado o reino é futuro, por outro lado é presente e está perto.

Desta maneira, em Cristo, a realidade do reino vai além do que um estado
comandado por Deus. Significa também o cumprimento da vontade do Pai. Assim
sendo, a missão da igreja deve ter como fator motivador a esperança cristã,
baseada na promessa da parousia em um futuro desconhecido.

III- A ESPERANÇA CRISTÃ COMO ARTICULADORA DE UMA MISSÃO CONTEXTUALIZADA

Nesse capítulo, a Esperança Cristã será tratada enquanto elemento de
articulação para a efetivação da missão no contexto latino americano. E salutar
que essa articulação decorre das experiências históricas vividas nesses 500
anos de colonização e evangelização. O tema da justiça é algo que ainda
percorre na América Latina como carro-chefe da esperança cristã. É a missão
profética da Igreja que articulará essa esperança.

3.1.1 A Igreja é cumpridora de uma missão encarnada na Esperança Cristã

A eclesiologia latino-americana volta á prática de uma teologia encarnacional,
pois o cumprir missiológico se dá quando a presença cristã efetiva a esperança
na transformação da realidade atual. A vida na América Latina precisa sofrer
uma conscientização a partir do papel missiológico da Igreja. Essa função só se
cumprirá se ela inaugurar um novo imperativo da escatologia cristã. Não é pois
desconsiderar o papel de Cristo na redenção universal da criação, mas
extrapolar o sentido que a esperança tem para a missão da Igreja. Em poucas
palavras, a Igreja é a responsável pela conscientização da sociedade no cumprir
da missão que gera novidade de vida.

Se a igreja é a cumpridora da missão, qual o melhor conteúdo para expressar
essa verdade. Dizemos, pois que se encontra na esperança cristã. Em Tito
2:11-13, há a promessa da manifestação da esperança e da glória em Cristo.
A igreja experimenta a vida de Cristo porque espera na manifestação de sua
glória. Diríamos que a esperança cristã incentiva-nos a um caráter
revolucionário: esperamos porque acreditamos na transformação da América
Latina. Sendo assim, a Ekklesia tem a missão de encarnar essa esperança e
cumpri-la cabalmente, pois todos aguardam a bendita esperança da manifestação
da glória de Cristo (cfe verso 11).

Esse sentido escatológico de que a missão da igreja se encontra na encarnação
da esperança cristã é vivido pela fé que a comunidade cristã tem na
concretização do reino anunciado por Jesus para o tempo presente. O encarnar-se
é colocar em funcionamento a missão da Igreja. Não é um aspecto ético-moral
apenas, mas profético, pois anuncia a graça salvadora a todos os homens. Para
nós, portanto, latino-americanos, somos desafiados a cumprir a esperança
cristã. É preciso que o ministério pastoral volte-se à encarnação da esperança
como cumpridor da missão integral da Igreja. Somente através de uma prática
encarnacional da esperança é que a Ekklesia motivará e cumprirá a missão na
América Latina.

3.2 O conteúdo da Esperança em Cristo é a missão educativa da Igreja com alcance
à liberdade O ministério educativo da Igreja possui também um aspecto
escatológico. Entende-se esse ministério aliado à missão integral da Igreja com
a perspectiva de liberdade. O cristão, conhecendo a Cristo, alcança a liberdade
como paradigma de uma missão educativa. Essa apologia pode ser esquematizada
pelos seguintes elementos:

a) A Palavra: é, pois, na proclamação que os cristãos compreendem o poder da
esperança enquanto agente catalisador da esperança. O ministério da Palavra é
essencial no entendimento da esperança que liberta;

b) A comunhão: gera uma esperança viva, eficaz e solidária na comunidade a
ponto de extrapolar o sentido da liberdade, haja vista as comunidades cristãs
primitivas surgirem de um contexto de libertação da opressão e dos opressores;

c) O Espírito: também é agente catalisador da esperança que liberta. Ele
renova a alma (mente) humana dando novas estruturas de pensamento, linguagem e
intenções. É o Espírito que possui a função de ensinador (João 14:26) e
direcionador da verdade;

Uma comunidade que tem como conteúdo o ministério educativo da esperança
enquanto libertadora, se preocupa em traçar estratégias de atuação no
cumprimento da missão, pois educa para o reino de Deus, para a justiça e para o
futuro (esperança cristã). Esta última é a responsável pela realidade da
liberdade humana. A Igreja é a promotora da esperança que liberta. Para isso,
ela deve contextualizar o ministério educativo, trazendo em seus currículos o
conteúdo da esperança cristã com vistas à libertação.

3.3 A Esperança Cristã se cumpre na prática da justiça

A justiça é tema constante na teologia bíblica e sistemática. Ela precipua a
esperança cristã, pois exige praticidade de uma fé que realiza milagres na
história humana. Pode-se dizer que a prática da justiça é a afirmação da
esperança que salva, justifica e liberta. É salutar, em nosso contexto
latino-americano, o cumprimento da justiça, pois, efetiva e concomitantemente,
ela executa a esperança cristã.

Que diremos pois da esperança que não cumpre a justiça de Deus? É inócua,
ineficaz e irrelevante. A comunidade que anseia pela honestidade, pelos valores
morais direcionados ao próximo, pela filantropia e pela fraternidade é aquela
que volta seus olhos ao anúncio da justiça e coloca em prática esses elementos
de transformação. A comunidade uma vez justificada cumpre a justiça de Deus na
expectativa de viver pela fé a esperança da realização do reino na vida
presente.

Eis, pois, o desafio lançado à eclesiologia latino-americana: converter-se
à justiça, praticá-la e viver na esperança do reino de Deus. Atualmente,
vive-se uma expectativa de realização do anúncio profético contra a injustiça,
mas é preciso, agora, cumprir esse anúncio: da teoria, do palanfratório, da ineficácia
para a práxis cristã, ou seja, ser mais prático, dinâmico, contextual e
profético. A Igreja latino-americana vive a expectativa do anúncio do reino,
mas anseia pelo cumprimento dele em nosso meio.

3.4 A Esperança Cristã se realiza na América Latina: propostas de uma missão
evangelizadora

A partir do Clade III, ficou decidido na confissão de Evangelização pelos
documentos finais do Congresso, que o ide é para todos e, parafraseando Atos
1:8… e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, Galiléia, Sarnaria e até
os confins da terra… a começar pela América Latina. Entendemos que o conteúdo
da esperança na evangelização ocupa um espaço relevante na missão da Igreja.
Dessa maneira, os congressos, consultas, conferências e eventos evangelísticos
tiveram um papel de amadurecimento quanto à questão de expressar o sentido
escatológico da evangelização. Para tanto, a caminhada é rumo às propostas de
uma missão evangelizadora.

As teologias contemporâneas de missão vêm de encontro à tradição bíblica para
expressar a ação evangelizadora da Igreja, observando o contexto da cultura, da
raça e do ambiente de atuação. Missiólogos têm se preocupado nessa área,
favorecendo-nos com ideais diferentes de missão, mas que são essencialmente
contextuais. Vamos estudar três modelos básicos de uma proposta de missão
evangelizadora com vistas à esperança cristã.

3.4.1 René Padilha: servindo os pobres
na América Latina

A proposta de Padilha é a de apresentar o ministério integral numa
perspectiva bíblica. É, pois, através dessa abordagem que ele propõe uma
avaliação teológica dos tipos de ministérios já desenvolvidos até então. Sua
conclusão é de que todos foram frutos de uma missão conquistadora de
territórios, ideologias eclesiásticas e, sobretudo, de estratégias
evangelísticas.

Ao avaliar a situação da América Latina, propõe uma teologia de missão
evangelizadora contextual e de transformação social, ou seja, servindo os
pobres. Não é uma rememoração à Teologia da Libertação, mas sim uma resposta
evangélica à Teologia Contemporânea de Missão. No que diz respeito às
estratégias, comprova-se:

Até muito recentemente, a evangelização feita pelas igrejas evangélicas era, em
boa parte , “desencarnada”. Estava dirigida para a salvação da alma,
mas passava ao largo das necessidades do corpo. Ela oferecia a reconciliação
com Deus por meio de Jesus Cristo, mas deixava de lado a reconciliação do ser
humano com seu próximo, que se baseia no mesmo sacrifício de Jesus Cristo. Ela
proclamava a justificação pela fé, mas omitia toda e qualquer referência à
justificação social enraizada no amor de Deus pelos pobres.

Compreendo tais dimensões da evangelização no ministério integral, podemos
dizer que o caráter missiológico da esperança cristã é o do serviço aos
necessitados da América Latina. É uma missão voltada à prática diaconal semeada
pela esperança de Cristo. É mister, portanto, que o ministério pastoral
(integral e contextual) seja o da esperança cristã que viabiliza a
evangelização da América Latina.

3.4.2 Orlando Costas e a Evangelização contextual

O segundo modelo é mais teológico. Orlando Costas propõe também uma
Evangelização contextual tanto nos fundamentos bíblico-teológicos quanto nos
pastorais. Fiquemos com o primeiro, pois relata a Trindade como paradigma de
uma missão evangelizadora contextual. Esse modelo1 todavia, requer uma
conscientização global da Ekklesia, pois busca encarnar em seus membros a ação
transformadora do evangelho.

Se atentarmos para a temática da esperança cristã, compreenderemos que a
responsabilidade missionária da Igreja para a América Latina resulta nas quatro
teses defendidas por Costas:

A evangelização contextual envolve o testemunho da igreja em todas as partes e
em todo momento na presença da ação do Deus trino.

A evangelização contextual requer a imersão da igreja na origem da história
humana e da história trina de Deus.

A evangelização contextual oferece à Igreja a oportunidade de fazer uma
contribuição significativa à reconciliação do mundo com Deus e consigo.

A evangelização contextual não deve ser entendida na igreja como uma atividade
que se faz em tempo parcial por um grupo de especialistas, mas sim como um
ministério que pertence a todo o povo de Deus.
Entende-se, portanto que a esperança cristã se cumpre na América Latina quando
a Igreja encarna e vive a trindade. É claro que esse ponto teológico deve ser
melhor definido: o ministério pastoral deve elaborar meios de articulação da
práxis evangelizadora com vistas ao envolvimento dos santos no serviço do
Reino.

3.4.3 Leonardo Boff: 500 anos de evangelização

A análise feita por Boff é histónco-teológica. Sua apreciação sobre o
pano-de-fundo da colonização e evangelização latino-americana é pertinente à
nossa pesquisa, pois não há realização da esperança cristã senão a feita na
história humana e divina. É, portanto, uma ajuda à reflexão histórica da
própria realização da esperança cristã. Pode-se afirmar que as conseqüências de
realização do reino de Deus a partir da esperança cristã no contexto latino
americano é o de uma volta à história e, paulatinamente, uma recomposição
desta observando os critérios de injustiça opostos aos de justiça ou seja,
recontar a história a partir dos vencidos ou oprimidos.

Sendo assim, Boff diz que a missão da América Latina se realiza na antecipação
da esperança cristã que, comunica os aspectos do profetismo na evangelização,
tão peculiares à atual pastoral latino-americana: o sentido da justiça na
sociedade hodierna. Basta-nos, então, encontrar as raízes da interpretação
escatológica da esperança cristã dominante para, também, ser aludida à voz
profética da Igreja missionária que liberta, emancipa e transcende o conceito
da volta de Cristo.

A América Latina comunica aos seus habitantes o sentido original da esperança
cristã a partir de uma missão evangelizadora Daí, entende-se, primariamente, a
reconquista histórica do povo de Deus: Havendo Deus, outrora falado, muitas
vezes e de muitas maneira aos nossos país pelos profetas. Hoje, de certa forma,
tem nos falado através da história de evangelização da América Latina (Hebreus
1:1). É o momento de enxergar as conquistas à realidade da esperança
cristã no continente latino americano.

IV – CONCLUSÕES

4.1 A Esperança Cristã é missiológica porque apresenta única e exclusivamente
Cristo

Entendemos que a esperança cristã é missiológica porque tem como base e
fundamento a pessoa de Cristo. É em Cristo que a nossa esperança está firmada,
assim sendo, a esperança cristã passa a ter um novo caráter, entendendo que a
vitória de Cristo já foi ganha na ressurreição e na cruz, onde Cristo triunfou
sobre a morte. Desta forma, a esperança cristã assume uma nova concepção, pois
somos motivados a proclamar o reino de Deus, a partir da vitória de Cristo. O
reino de Deus portanto, já não é algo futuro, mas bem presente entre nós. E é
neste presente que podemos afirmar “venha o teu reino”. Quando
fazemos esta afirmação, estamos vivenclando o caráter missiológico da esperança
que está em nós. Apresentamos a Cristo como a nossa motivação e esperança
maior. Cristo é portanto, a razão da nossa esperança.

4.2 Não existe missão se baseada numa metodologia de escatólogos plantonistas

Ao vislumbrarmos o reino de Deus dentro das concepções do já e do ainda não,
fica claro que a nossa atuação, do ponto de vista da proclamação do evangelho
está totalmente prejudicada por causa da definição dos escatólogos de pIantão.
Se somos movidos a proclamar e ter esperança a partir dessas metodologias, com
certeza a nossa motivação não estará firmada na verdadeira esperança, que
transforma-nos a partir da vitória de Cristo sobre a morte, mas sim
determinada pela visão de uma metodologia que nos aponta para uma verdadeira
apatia profética.

Com esta visão, os escatólogos de plantão mostram que a sua teologia não é uma
teologia engajada e comprometida com as transformações sociais que a América
Latina tanto clama. Assim sendo, não podemos enquanto igreja aceitar de forma
passiva a idéia daqueles que pensam missão a partir dessas metodologias.
Devemos pensar em missão, a partir da visão de que a igreja não espera edificar
o reino de Deus sobre a terra, nem cristianizar a sociedade. A nossa esperança
é escatológica, mas seu serviço e seu testemunho são o sinal bem presente dessa
esperança e do domínio de Cristo em nossas vidas.

4.3 A missão da Igreja é motivar a humanidade à fé em Cristo e esperar na
realização do Seu Reino

Quando a igreja através do anúncio profético fala à humanidade sobre o reino de
Deus, ela motiva as pessoas à fé em Cristo. Assim sendo, falar do reino
de Deus é falar do propósito redentor de Deus para toda a criação e da vocação
histórica que a igreja tem em relação a este objetivo no aqui e agora. É também
falar de uma realidade escatológica que constitui simultaneamente o ponto de
partida e a meta da igreja. A missão da igreja, consequentemente, só pode ser
entendida á luz do reino de Deus. E já que este reino foi inaugurado em Jesus
Cristo, não é possível entender corretamente a missão da igreja sem entendermos
a própria missão de Jesus. É a manifestação, ainda que incompleta do reino de
Deus, tanto por meio da proclamação, como por meio do ensino, comunhão e ação
social. Desta forma, a igreja como comunidade do reino produz sinais visíveis e
estes devem ser direcionados aos cativos e perdidos. O viver da comunidade
então, é o antecipar da presença do reino de Deus no meio do povo.

BIBLIOGRAFIA
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Parte
XIX
O
QUE É MISSÃO?
 Existe
hoje uma confusão generalizada no meio dos cristãos, a respeito do que é
missão. Assim como antigamente, hoje tudo se convencionou chamar de missão. Ora
se tudo é missão, nada é missão, diz Stephen Neill.

Tentar definir missão não é tarefa fácil. É claro que houve uma evolução
natural do termo ao ponto de “missão” incluir tudo, porém sem se
identificar com esse todo. Pôr exemplo missão não é sinônimo de evangelismo,
pois se tudo que a Igreja fizer for chamado de evangelismo, então nada é
realmente evangelismo.
No dizer de John Stott, “missão” significa atividade divina que
emerge da própria natureza de Deus”. Foi o Deus vivo quem enviou a seu
filho Jesus Cristo ao mundo, que enviou pôr sua vez os apóstolos e a Igreja.
Enviou também o seu Espírito Santo à Igreja e hoje envia aos nossos corações.

Daí surge a missão da Igreja como resultado da própria missão de Deus, devendo
aquela ser modelada pôr esta. Para que todos nós entendamos a natureza da
missão da Igreja, precisamos entender a natureza da missão do Filho. Não
podemos pensar em missão como um dos aspectos do ser Igreja, um departamento,
mas como afirma o Dr. J. Andrew Kirk, “a Igreja é missionária pôr natureza
ao ponto de que, se ela deixa de ser missionária, ela não tem simplesmente
falhado em uma de suas tarefas, ela deixa de ser Igreja.”

Para nós entretanto, não nos resta outra opção a não ser entender a missão a
luz do ministério de Jesus. O que implica em dizer que missão é ser enviado;
“Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio a vós” (João 20:21).
Primeiramente ao mundo. Johannes Blauw, em a Natureza Missionária da Igreja,
diz que “Não há outra Igreja, que não a Igreja enviada ao mundo”.
Fomos enviados para que nos identifiquemos com outras pessoas, pois de fato o
que Jesus fez foi se identificar conosco assumindo nossos pecados,
experimentando nossa fraqueza, sendo tentado e morrendo a nossa morte. Somos
enviados pôr Cristo para encarnar as necessidades das pessoas, necessidades
espirituais e materiais num mundo cada vez mais hostil. Em segundo lugar, se
compreendermos a missão de Jesus corretamente, vamos descobrir que ele veio ao
mundo também com a missão de servir. Charles Van Engen ao citar Dietrich
Bonhoeffer diz, “a Igreja existe para a humanidade no sentido de ser o
corpo espiritual de Cristo e – a semelhança de Jesus – é enviada como
serva”. Marcos 10:45 diz que “o próprio Filho do homem não veio para
ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. A
nossa missão como a dele deve ser uma missão de serviço. Quero concluir com um
outro texto de John Stott dizendo que: “Missão, antes de tudo, significa
tudo aquilo que a Igreja é enviada ao mundo para fazer.” Sendo que na sua
caminhada ela deve mostrar a vocação da sua missão que é ser enviada ao mundo
para ser Sal da terra e enviada ao mundo para que lhe sirva de Luz do mundo.

Bibliografia
A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, São Paulo, ABU Editora e Visão
Mundial,1982. BLAUW, Johannes, A Natureza Missionária da Igreja, São Paulo,
ASTE, 1962. KIRK,
Andrew J., What is Mission? Theological Explorations, London, Darton, Longman
and Todd Ltd., 1999. STOTT, John., Christian Mission in the Modern World, USA,
InterVasty, 1975.
ENGEN,
Charles Van,.
Povo Missionário, Povo de Deus, Por uma redefinição do papel da
igreja local., São Paulo, Vida Nova, 1996.

Parte
XX
O
QUE É MISSÃO TRANSCULTURAL
 Não
podemos falar sobre missão transcultural sem pelo menos tentar entender o que é
cultura. Muitas vezes dizemos que fulano tem muita cultura porque ele ouve
música clássica, gosta de teatro ou sabe usar todos os garfos e colheres que
estão na mesa durante um jantar sofisticado. E dizemos que uma pessoa não tem
cultura quando não se comporta de modo “civilizado”. Cultura, no
entanto envolve toda a criação humana. Ela é constituída do estilo de vida de
toda uma sociedade, ou de um grupo especifico dentro da mesma.

Portanto, quando falamos de missão transcultural, estamos falando do esforço da
Igreja em cruzar qualquer fronteira que separe o missionário de seu público
alvo. Para se engajar na missão transcultural, você não tem que,
prioritariamente cruzar barreiras político-geográficas. Porém, em nosso caso
teremos que necessariamente cruzar barreiras mais conhecidas como a da
lingüística, dos costumes, das etnias, das religiões, além das sociais, morais
e etc.

É difícil para muitos falar sobre a tarefa da missão transcultural, quando
muitas outras tarefas ainda continuam, diante da Igreja de Deus, por serem
realizadas em nosso próprio contexto e local. Aquilo que é necessário ser feito
localmente, tanto dentro como fora da igreja, demanda muito tempo e esforço das
comunidades, acabando por ofuscar a visão das mesmas para a tarefa mais
importante da Igreja, nesta virada de século e milênio, que é a evangelização
transcultural.

Conseqüentemente, nós poderíamos dizer que o resultado desse tipo de atitude é
que 25% da população mundial, ou seja 1,5 bilhões de pessoas, nunca ouviram do
evangelho sequer uma vez. Porém, se falarmos em número de povos, vamos
descobrir que da tabela dos 11.874 povos, 3.915 deles nunca ouviram do
evangelho. E o que dizer das 240 tribos indígenas brasileiras, das quais 126
não possui presença missionária evangélica, enquanto que 06 tem situação
indefinida. Será que estas pessoas não o direito de ouvir pelo menos uma vez na
vida a mensagem de salvação?

É nesse sentido que a missão transcultural e/ou a evangelização transcultural
deve ser a mais alta prioridade no evangelismo, hoje. Precisamos alcançar estes
1,5 bilhões de pessoas que estão distantes culturalmente de nós e que nunca
ouviram as boas novas de salvação em Cristo Jesus. Tornar a igreja acessível
para cada um desses povos e permitir que eles entendam claramente a mensagem e
tenham condição de responde-la positivamente é nossa missão.

O Deus da Bíblia é o Deus da História. Ele tem um propósito para ela. A Bíblia
toda é clara quanto a isso e descreve este propósito do inicio ao fim. Se
cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus devemos crer necessariamente que
missões transculturais é o programa de Deus, visto que de Gênesis ao Apocalipse
ela nos revela o amor de Deus pelas nações da terra. (Gn.12:3b; Is.49:6;
Apoc.5:9)

Bibliografia Introdução a Missões

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