Apostila 04
Estudo da Antropologia
Dividida em 07 partes do estudo da Teologia sobre A
LIBERDADE HUMANA
Parte I
Estudo da Antropologia – divido em 61 paginas.
Quando
estudamos a doutrina do Homem, torna-se inevitável enfrentarmos a questão da
liberdade. Os teólogos reformados, os chamados calvinistas, têm sido criticados
como alguém que não crê que o homem seja livre. Isto não é verdade, e os
membros da IPO que têm acompanhados os últimos estudos, já perceberam isso. Nós
cremos que o homem tem liberdade sim, mas a questão que precisamos definir
muito bem é: O que é ser livre? O que entendemos por liberdade?

Muita confusão já tem sido criada em torno do termo “livre”, e isto
porque ele pode ser visto em vários sentidos.

A maioria dos nossos irmão na fé diz acreditar no “Livre Arbítrio”
Contudo, a maioria não tem a menor idéia do que isto significa.

A vontade, faculdade que todo homem tem, tem sido exaltada como a fantástica
capacidade que a alma tem para discutir sobre coisas, fatos da vida.

Mas as pessoas estão dizendo que o arbítrio (vontade) é livre, precisamos
perguntar: De que a vontade é livre? De que ela é capaz?

Para provar que arbítrio (vontade) não é livre lanço mão de 2 proposições:

O Mito da Liberdade Circunstancial:

A vontade pode ser livre para planejar, mas não para executar. Quando se diz
que a vontade é livre, obviamente não quer dizer que ela determina o curso da
nossa vida.

Não escolhemos doença. pobreza ou dor; Não escolhemos nossa condição social, nossa
cor, ou nossa inteligência.

Ninguém pode negar que o homem tem vontade, e que esta faculdade de escolher o
que dizer, fazer, pensar, etc. … tem nos frustrado bastante. Pensando em
nossa liberdade circunstancial, podemos projetar um curso de ação, mas não
podemos realizar o intento. Em outras palavras, nossa vontade tem a capacidade
de tomar uma decisão, mas não o poder de realizar seu propósito. ( PV 16:9; Jr
10:23; Lc 12:18-21)

Sim. O homem pode escolher e planejar o que tiver vontade. Mas a sua vontade
não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus.

O Mito da Liberdade Ética:

Diz-se que a vontade do homem é livre para decidir entre o bem e o mal. Mas é
livre do que? É livre para escolher o que?

A vontade do homem é a sua capacidade de escolher entre alternativas. A sua
vontade, de fato, decide qual a sua ação entre um certo número de opções.

Nenhum homem é compelido a agir contrário à sua vontade, nem forçado a dizer
aquilo que não quer. Sua decisões não são formadas por uma força externa, mas
por forças internas.

A vontade toma decisões, e estas decisões tomadas não estão livres de
influências. O homem escolhe com base nos sentimentos, gostos, entendimentos,
anseios, etc. Em outras palavras, a vontade não é livre do homem mesmo. Suas
escolhas são feitas pelo seu próprio caráter. Sua vontade não é independente de
sua natureza.

A vontade é inclinada àquilo que você sente, ama, deseja e conhece. Você sempre
escolhe com base em sua disposição; de acordo com a condição do seu coração.

A Bíblia diz que nossa vontade não é livre, ao contrário, ela é escrava do
coração – ( Gn 6:5; Rm 3:12; Jr 13:23 ).

A capacidade de escolha do coração do homem é livre para escolher qualquer
coisa que o coração ditar; assim, não existe qualquer possibilidade de um homem
escolher agradar a Deus sem que haja a prévia operação da Graça Divina. Note o
texto bíblico: “Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro” I Jo 4:19

Se carne fresca e salada de tomate fossem colocadas diante de uma leão faminto,
ele escolheria a carne. É a natureza que dita sua escolha ( Jr. 13:33 )

Por isto não existe livre arbítrio. O arbítrio humano, assim como toda a
natureza humana, é inclinado só e continuamente para o mal. (Jr 13:23).

Não existe livre arbítrio a menos que Deus mude o coração e crie um novo
coração em submissão e verdade, o homem não pode decidir por Jesus para Ter a
vida a vida eterna. ( Jo 3:7; Ez 11:19; 36:26; Atos 16:14 ).

A vontade não é livre. Pelo contrário, ela é escrava, escrava do coração
pervertido; escrava da natureza ( Jr. 17:9; 12:2; Mc 7:6,21 ).

Foi a vontade de escolher o fruto proibido que nos atirou na miséria. Só a
vontade de Deus tem realmente liberdade, e se quiser pode dar vida. (Jo
1:12-13)

A ORIGEM DA VERDADEIRA LIBERDADE
(posse non peccare)

Definição: Liberdade é a capacidade de fazer o que é agradável a Deus.

Quando Adão e Eva foram criados, tinham a capacidade de escolher como a
verdadeira liberdade. Nas palavras de Agostinho, nossos primeiros pais eram
“capazes de não pecar” (posse non peccare). Eles poderiam permanecer
no estado de tentação que a serpente lhes impôs.

Adão tinha o Livre arbítrio, tinha a capacidade de fazer a escolha certa.
Possuía a verdadeira liberdade. Contudo, ainda não era a liberdade perfeita;
era verdadeira, porém não perfeita. Pois havia a possibilidade da queda.

Note as palavras da Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IX, seção 2

“O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de
querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte
que pudesse decair dessa liberdade e poder”

A VERDADEIRA LIBERDADE É PERDIDA
(non posse non peccare)

Quando nossos primeiros pais ( Adão e Eva ) caíram em pecado, perderam aquela
Liberdade que o Criador lhes havia dado. Perdeu não a capacidade de escolher,
mas a verdadeira liberdade, ou seja, perdeu a capacidade de escolher aquilo que
agrada a Deus.

Novamente fazemos menção do pensamento de Agostinho. Diz ele: podemos dizer que
antes da queda, o homem era “capaz de não pecar”. Após a queda é
“não ser capaz de não pecar” (non posse non peccare)

As Escrituras ensinam de maneira muito clara que a humanidade decaída perdeu a
sua verdadeira liberdade. (João 8:34; Romanos 6:6,17-20 )

A VERDADEIRA LIBERDADE É RESTAURADA
(posse non peccare)

No processo de redenção, o homem decaído começa a restaurar sua liberdade
perdida na queda.

Agostinho chamou o estado do homem regenerado de “posse non peccare”
– posso não pecar, porque a redenção significa libertação da “escravidão
vontade”.

Vamos dar um olhada em algumas passagens das Escrituras que mostram que a
liberdade para fazer a vontade de Deus, é restaurada na regeneração, operada
pelo Espírito Santo em nós. (Jo 8:34-36; Gl 5:1,12,13; II Co 3:17-18; Rm 6:4-6;
14-18; 22 )

A verdadeira liberdade não é licença para pecar ; não significa fazer o que bem
quiser. Segundo o apóstolo Pedro (I Pe 2:16), quem tem liberdade, usa-a para
servir a Deus.

O exercício de nossa liberdade envolve nossa responsabilidade neste processo
que chamamos de santificação.

A VERDADEIRA LIBERDADE APERFEIÇOADA
(non posse peccare).

Em nosso processo de santificação, que é a verdadeira liberdade no processo de
redenção, ainda podemos pecar, mas no estado glorificado, na vida por vir,
nossa liberdade será aperfeiçoada. Então, como disse Agostinho; estaremos no
estado “não posso pecar” (non posse peccare).

Quando estivermos com nossos corpos glorificados, já não seremos mais impedidos
em obedecer a Deus com a perfeição que Ele deseja.

Cf. I Co 15:42-43 ; Ap 21:4

Esta glorificação não será apenas na alma, mas também no físico. A Imago Dei, (
Imagem de Deus ) antes ofuscada por causa do pecado de Adão, chegará a sua
perfeição por ocasião da Segunda Vinda de Cristo, quando então, seremos
ressuscitados e habitaremos para sempre com o Senhor (cf. I Tes. 4:13-18).

o estado final dos Santos Glorificados

Na nossa glorificação, seremos restaurados novamente á perfeita imagem de Deus.
Em nosso estado glorificado, vamos poder refletir Deus em sua plenitude.
Reporto-me ao Dr. Van Groningen, que afirmou que Deus ao nos criar á sua imagem
e semelhança nos deu três mandatos que delineiam os deveres pactuais de Deus
com o homem: São eles: os mandatos Espiritual, o Social e o Cultural.

A glorificação ( a imagem aperfeiçoada ) implica em que :

A. O Homem passará a ter um relacionamento perfeito com Deus. ( Mandato
espiritual )

De acordo com as Escrituras, os remidos na glória vão poder desfrutar da
comunhão plena com Deus; vão Ter uma visão de Deus na face de Cristo ( ap. 22:4
); vão desfrutar da completa isenção do pecado; vão adorar plenamente o Deus
verdadeiro ( Ap. 19:6,7 ). Prestarão um genuíno serviço ao Rei das nações ( Ap.
22:3 ). Tudo isso tinha sido perdido na Queda.

B. O homem passará a Ter um relacionamento perfeito com o próximo (Mandato
Social)

No estado glorificado, ou seja, com a Imagem de Deus aperfeiçoada, os santos
não mais vão se relacionar egoísticamente, não haverá ressentimentos, mentiras,
odio ou manipulações. Amor e comunhão é o que marcará definitivamente o
relacionamento entre todos os irmãos. As diferenças desaparecerão. Todos os
membros desta Família estarão agora e para todo o sempre na Casa do Pai.

C. O homem passará a Ter um relacionamento perfeito com o cosmos. ( mandato
Cultural ).

Paulo em Romanos 8:21 nos diz que “a própria criação será redimida do
cativeiro da corrupção…”. Não apenas o ser humano será redimido, mas
também toda a criação. Não apenas o homem espera por um novo começo, mas também
a criação o espera de forma expectante (Ef 8:19). A glória por vir também
receberá uma criação redimida da corrupção do tempo presente. Em Isaías, Deus
já prometeu criar novos céus e uma nova terra (vv. 22 e 23) para o seu povo se
regozijar.

Se com a Queda, o homem perdeu o domínio sobre a criação, agora no estado de
glória, ele vai exercer o domínio, o governo sobre a natureza. Vai herdar a
terra. Não mais vai destruí-la como antes. Pelo contrário, o homem vai cumprir
o mandato e governar sobre toda a terra, ( G, 1:27,28 ) agora redimida do
cativeiro da corrupção.

 

Parte II
AS
CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO

A Queda dos nossos primeiros pais
Introdução:
A queda de nossos primeiros pais, trouxe conseqüências desastrosas não apenas
para eles, mas também para toda a humanidade. Entender o que aconteceu com Adão
e Eva após o primeiro pecado é chave para compreendermos a situação em que o
homem se encontra hoje. Isto porque, Adão não agiu como uma pessoa particular,
mas como representante de toda a humanidade.

I – CONSEQÜÊNCIAS PARA ADÃO E EVA:

Veja o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster :

“Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com
Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas
as suas faculdades e partes do corpo e da alma” Capítulo VI, seção 2

“Por este pecado”, diz a Confissão de Fé de Westminster:

1) Decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus (imagem desfigurada)

2) Tornaram-se mortos em pecado (escravos do pecado)

3) Inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da
alma (depravação total)

Ao estudar o texto de Gênesis 3:7-24, vemos as seguintes conseqüências para
nossos primeiros pais:

GÊNESIS 3:7-24

1-) Após o pecado foram dominados por um sentimento de vergonha. V.7

Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. (Gn 2:25)

“Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e
coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais”. (Gn 3:7)

Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. Veja o texto
abaixo:

“Ora um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se
envergonharam”.

(Gn 2:25)

O resultado de terem comido o fruto proibido, não foi a aquisição da sabedoria
sobrenatural, como satanás havia dito (v. 5), ao contrário, agora eles descobriram
que foram reduzidos a um estado de miséria.

2-) Após o
pecado sentiram o peso de uma consciência culpada (Gn 3:7)

Agora eles reconheciam que haviam pecado contra Deus, e resolveram fazer vestes
de folha de figueira para se cobrirem.

É interessante observar que em Gn 3:7 afirma que os “olhos de ambos foram
abertos”. Obviamente que não se trata de olhos físicos porque estes já
estavam bem abertos antes, mas trata-se de olhos espirituais, os olhos do
entendimento, os olhos da consciência, que agora passam a ver e se acusarem.

Eles agora “percebem” que estão nús. Perderam o estado da inocência.
Percebem não apenas a nudez física, mas a nudez da alma que é muito pior, pois
esta impede o homem de perceber Deus.

A nudez de Adão e Eva é a perda da justiça original da imagem de Deus. Todos os
seres humanos nascem agora ( após a Queda ) nesta condição e as Escrituras
dizem que é necessário que recebamos as “vestes brancas” – Ap 3:18;
“vestes de salvação” – Is 61:10, que é a justiça original que Cristo
nos traz de volta.

Eles agora estavam percebendo que a sua condição física espelhava a sua
condição espiritual.

3-) Após o pecado, tiveram medo e fugiram – v.8

“E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim pela viração do
dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da prsença do Senhor Deus, entre as
árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? E ele
disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e
escondi-me” Gn 3: 8-10

Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Consciência culpada sempre produz
medo e fuga. Mas que tolice! Pensaram eles que poderiam se esconder de Deus?

Pecaram e agora têm medo da sentença condenatória que Deus pode proferir contra
eles. O pecado os separou de Deus, rompeu a comunhão com Deus.

E é sempre assim. A menos que a obra de Cristo seja realizada em nosso favor,
estaremos frente a frente com o juízo de Deus – Hb 2:3.

4-) Após o pecado procuraram uma solução inútil para seu pecado. Gn 3:7.

Eles tentam salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus.

Fabricando aquelas cintas de folha de figueira, eles estavam tão somente
fazendo uma tentativa de acalmar a própria consciência.

Hoje em dia também é assim. Os descendentes de Adão têm medo de serem
descobertos em suas transgressões. Mas seu objetivo principal não é buscar o
perdão, mas sim, aquietar a consciência e fazem isto assumindo o papel de
religiosos, parecendo aos outros que estão bem vestidos.

Mas não obstante nossas roupas religiosas, o Espírito Santo nos faz ver a nossa
nudez espiritual. Não adianta dar desculpas esfarrapadas. Precisamos nos
humilhar diante daquele que tudo vê.

5-) Após o pecado, há uma fuga da responsabilidade – Gn 3:10

“E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e
escondi-me”

Gn 3:10

Adão tenta encobrir sua culpa, colocando a culpa em Eva (v 12), que por sua
vez, culpou a serpente (v 13).

Eles não aceitaram a responsabilidade pelo erro. Ao contrário transferiram a
responsabilidade para o outro. Não é assim também em nossos dias?

6 -) Após o pecado eles tentaram arranjar uma justificativa – Gn 3:12

“… a mulher que me deste”

Adão chega a ser insolente. Ele não disse: “A mulher me deu do fruto e eu
comi …”, mas disse: “A mulher que Tu me deste …”. Em outras
palavras, Adão disse: “Se tu não me tivesses dado essa mulher, eu não
teria caído”.

Hoje em dia, nós podemos estar fazendo o mesmo. Em nossos esforços de se
justificar, acabamos por culpar a Deus dos pecados que cometemos – Pv 19:3.

Exemplos:

A razão tentou eximir-se de culpa, culpando o povo Ex 32:22-24.

Saul fez o mesmo – I Sam 15:17-21.

Pilatos deu ordem para crucificar Jesus e depois atribuiu o crime aos judeus –
Mt 27:24.

7-) Após o pecado, a mulher daria a luz em meio a dores ( Gn 3:16-19)

Nesta sentença que Deus profere contra a mulher, vemos que a maldição foi
mitigada. Isto porque, a gravidez era uma bênção visto que a mulher daria à luz
e se multiplicaria sobre a terra e o descendente nasceria para pisar a cabeça
da serpente. Mas a dor e o desconforto do parto são conseqüências da queda.

😎 Após o pecado, a Terra foi amaldiçoada. (Gn 3:17)

A natureza sofre junto com a humanidade, compartilhando assim as conseqüências
da queda.

As Escrituras descrevem esta maldição em três maneiras:

a) O sustento será obtido com fadiga v 17.

Assim como a mulher terá seus filhos com dor, o homem haverá de comer o fruto
da Terra por meio de trabalho penoso. Antes da queda, o trabalho de Adão no
jardim era prazeroso e agradável, mas de agora em diante, seu trabalho, bem
como o dos seus descendentes será seguido de cansaço e tribulação.

b) A Terra produzirá cardos e abrolhos v 18.

O cultivo da terra seria mais difícil do que antes. Cardos e abrolhos aqui
significam: plantas indesejáveis, desastres naturais, enchentes, insetos, secas
e doenças. A natureza foi subvertida com o pecado do homem. (Rm 8:20-21).

c) No suor do rosto comerás v 19.

O trabalho árduo se tornaria a porção do homem. A vida não seria fácil.

9-) Após o pecado, a morte alcança o homem – v 19:

A palavra “morte” ocorre na Bíblia, com 3 sentidos diferentes, embora
o conceito de separação seja comum aos três:

a) Morte Física: Ecl 12:7

b) Morte Espiritual: Rm 6:23; 5:12

c) Morte Eterna: Mt 25:46

10-) Após o pecado, foram expulsos da presença de Deus – Gn 3:22-24.

Estar fora do jardim era equivalente a estar fora da presença de Deus. Era a
ira de Deus se revelando aos nossos primeiros pais pela desobediência deles.
(Judas 6)

II – AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA:

No tópico anterior vimos que a queda trouxe conseqüências desastrosas para os
nossos primeiros pais. Mas estas conseqüências não ficaram restritas apenas ao
Édem. Toda a raça humana sofre as conseqüências do pecado dos nossos primeiros
pais.

Assim se expressa a nossa Confissão de Fé:

“Sendo eles ( Adão e Eva ) o tronco de toda a humanidade, o delito dos
seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a
sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles
procede por geração ordinária” Capítulo VI, 3 (Sl 51:5; 58:3-5; Rm 5:12,
15:19)

Em vista da queda, o pecado tornou-se universal; com excessão do Senhor Jesus,
nenhuma pessoa que tenha vivido sobre a terra esteve isenta de pecado.

Esta mancha que atinge a todos os homens recebe o nome na Teologia de PECADO
ORIGINAL. Vamos estudá-lo agora.

O PECADO ORIGINAL

O que é o pecado original? Usamos esta expressão por três razões:

1ª) Porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana. Em outras
palavras, é pecado original porque ele, se deriva do tronco original da raça.

2ª) Porque é a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem.

3ª) Porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu
nascimento.

O pecado original pode ser dividido em dois elementos: Culpa original e
Corrupção original.

1-) Culpa original: Culpa real e pena real.

A culpa é o estado no qual se merece a condenação ou de ser passível de punição
pela violação de uma lei ou de uma exigência moral.

Podemos falar de culpa em dois sentidos:

Culpa Potencial ou Culpa de Réu ( Inerente ao ser humano )

Esta culpa é inseparável do pecado, jamais se encontra em quem não é pecador e
é permanente, de modo que, que uma vez estabelecida não é removida nem mesmo
com o perdão. Ela faz parte da essência do pecado.

Os méritos de Jesus Cristo não tiram esta culpa do pecador porque esta lhe é
inerente. O fato de Cristo Ter morrido pelo pecador não o torna inocente, mas
apenas livre da condenação, livre da penalidade da lei, justificado portanto.

Culpa (de fato) Real ou Pena do Réu:

Esta culpa não é inerente ao homem, mas é o estatuto penal do legislador, que
fixa a penalidade da culpa. Pode ser removida pela satisfação pessoal ou
vicária das justas exigências da lei.

É neste sentido que Jesus levou nossa culpa, isto é, pagando a penalidade da
lei. Jesus não levou nossa culpa potencial, mas sim nossa culpa real. Em outras
palavras, Jesus não levou nossa culpa, pagou nossa pena.

2-) Corrupção original: O pecado inclui corrupção.

Por corrupção entende-se a poluição ou contaminação inerente à qual todo
pecador está sujeito. É uma realidade na vida de todos os homens. É o estado
pecaminoso, do qual surgem atos pecaminosos.
Enquanto a culpa tem a ver com a nossa posição perante a lei, a corrupção tem a
ver com a nossa condição perante a lei.

Como uma implicação necessária de nosso comprometimento com a culpa de Adão,
todos os seres humanos nascem em um estado de corrupção.

Esta corrupção que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana recebe
o nome de Depravação Total e que resulta numa incapacidade total.

Vejamos agora em nosso próximo estudo, os dois aspectos da Corrupção original:
Depravação Total ou Generalizada e a Incapacidade Espiritual

Parte 03

“…HOMEM
E MULHER OS CRIOU”
“Disse
mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora
que lhe seja idônea. Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem,
e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu
lugar; e da costela que o Senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao
homem. Então disse o homem: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha
carne; ela será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada. Criou, pois, Deus
o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então
Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e
sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos
os animais que se arrastam sobre a terra”. (Gn 2. 18, 21-23; 1.27,28)

“Homem e mulher os criou” diz a Escritura Sagrada e nessa pequena
expressão está todo o mistério de ser adam, o ser humano como Deus o criou. O
homem e a mulher são iguais em dignidade e destino sobrenatural, mas tão
paradoxais com respeito à natureza humana. E por conta das diferenças, aliás,
significativas diferenças, já houve quem dissesse que eles pertencem a planetas
distintos: o homem é da Terra, mas a mulher veio de algum outro planeta… É
uma alienígena! Pensa e reage de modo tão diferente! Há quem seja muito ferino
com a mulher. Por exemplo, Catão, pensador romano, disse: “Consente que a
mulher, uma só vez, chegue ao pé de igualdade contigo [estava falando a um
homem], e desse momento em diante, ela se tornará superior a ti”. Vejam,
porém, o que uma mulher disse a respeito das outras mulheres. Foi Mme. de Staél
assim se expressou: “Alegro-me por não ser homem, já que o sendo teria que
me casar com uma mulher.” No entanto, Plutarco opinou: “As mulheres,
quando amam, põem no amor algo divino. Esse amor é como o Sol que anima a
Natureza.” Que coisa linda disse ele a respeito do amor feminino!

Nada disso invalida o relevante fato que homem e mulher têm visões diferentes
do mundo, da vida, do amor, mas se completam. E um escritor evangélico dos
nossos dias, o Pr. Jaime Kemp, também deu a sua opinião dizendo que “Eva
foi criada para ser a peça que faltava no quebra-cabeça da vida de Adão” .

COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS

Homem e mulher são iguais, mas são diferentes. Que contradição é essa? São
iguais na mesma vida vegetativa e faculdades sensoriais, são iguais nos mesmos
atributos intelectuais e no mesmo destino natural e sobrenatural, nas mesmas
causas comuns. E, no entanto, são tão diversos, visto que cada sexo tem características
próprias. Se o homem tem maior força física, e é preparado para grandes
esforços nesse campo, a mulher tem muito mais força intrínseca, como que
preparada para não gemer enquanto sofre, nem cansar. A mulher tem graça, tem
ternura, tem feitio delicado. E se o homem se doa ao trabalho, e dele faz o seu
centro de interesse; a mulher se doa integralmente a quem ama (marido, filhos),
e faz do lar o seu centro de atenção. Se ele busca o exercício do poder, da
chefia, da conquista do mundo exterior, da imposição de ideais; ela atua mais
diretamente sobre aqueles a quem ama. É de uma presença impressionante no seu
lar. Se ele tem espírito de decisão, de iniciativa, uma visão segura e clara
dos objetivos (por isso, é “chefe de família”), ela possui
delicadeza, sensibilidade, dedicação, beleza física, e o dom da maternidade
física e espiritual (por isso é chamada “mãe de família”).

As diferenças não devem se tornar obstáculo ao amor. Pelo contrário, ambos
devem conhecê-las, identificá-las, aceitá-las e não considerá-las como
barreira, como pedra-no-meio-do-caminho do amor e do casamento. É verdade que
desentendimentos até podem surgir por conta dessas diferenças. Acontece, e
muito. Não esqueçamos, no entanto, que para o equilíbrio do lar é fundamental
que homem e mulher coexistam, e coabitem (mesmo que ela seja de outro
planeta!), mas vivam com suas características. Aliás, nem devemos olhar para
isso, nem devemos olhar para as divergências, senão para o seu aspecto de
complementação. Não foi assim que o Senhor projetou?: “Não é bom que o
homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea”. (Gn 2.18).
Uma ajudadora, uma auxiliadora, uma complementação naquilo que o homem não sabe
nem pode fazer; ajudadora que esteja à sua altura, “que lhe seja
idônea”, diz o texto. É por essa razão que temos dentro de nós forças
poderosíssimas que agem sem que, sequer, percebamos. E uma delas é a busca do
caráter oposto. É a necessidade da antítese, e esse é o milagre do amor: são
dois necessitados que se completam.

CONTINUANDO AS DIFERENÇAS

Nietzche, filósofo extremamente racional do século passado, e, ao mesmo tempo,
muito cínico, desejando expressar a natureza da mulher deixou o seguinte:
“Tudo na mulher é um enigma, e tudo na mulher tem uma solução: chama-se
gravidez.”

Há estruturas psíquicas bem distintas no homem e na mulher. Já sabemos que o
homem pensa de um jeito, e a mulher pensa de outra maneira. Elas decorrem do
fato que a natureza guiada por Deus não sobrecarrega as criaturas de atributos
de que não necessitam,. Isso quer dizer que em cada ser, em cada criatura, uma
é forte e expressiva nas qualidades de que precisa. Assim, o homem tem certas
qualidades que não se encontram na mulher, e vice-versa. Aí se completam.
Precisam disso para cumprir as suas tarefas, mas são fracos, razão porque um
necessita do outro, completando-o. O homem tem tudo o que falta à mulher, e
vice-versa. Ou seja, virtudes masculinas na mulher são defeitos, como modos
femininos no homem não são convenientes

Este não é um trabalho sobre psicologia científica. A ênfase há de ser não
exatamente nas diferenças, mas em como conhecê-las e administrá-las, ou como
utilizá-las adequadamente, e assim enriquecer a vida do casal. E sabem o quê?
Nem sempre a mesma palavra ou expressão significa a mesma coisa para o homem e
para a mulher. Por exemplo, que significado tem a expressão “lua de
mel” para certos homens? Que significa a mesma expressão para as mulheres?
Quando faço as entrevistas pré-matrimoniais, essa é uma das perguntas. Exatamente
isso: “Que significa para você, minha filha, “lua de mel?” E,
geralmente, vem uma idéia tão romanceada para a moça, e ela pretende ficar em
lua de mel toda a vida. O rapaz, quantas vezes, tem outra idéia, e discutimos
as duas, e chegamos a uma síntese.

O traço basilar da natureza masculina é a dinâmica. E é por esse motivo que
todo menino brinca pensando em um algo que o leve para longe. “Você quer
ser o quê?” E ele fala: “Aviador (marinheiro, astronauta,
caminhoneiro)”. Isso é coisa de menino: ele foi feito para a ação, para a
combatividade, para o trabalho pesado. Mas a mulher é delicada. É delicada mas
não é fraca. É corajosa diante da dor. E um médico pediatra amigo meu dizia
“Mãe não cansa.” Mas não é uma questão de força física. É verdade que
ela sofre variação no seu temperamento; é dada à depressão em certos momentos;
tem alegria no outro momento. Aliás, o marido não deve se alarmar com isso,
não; compreenda sua mulher: há momentos da vida em que ela está altamente
deprimida; talvez na hora seguinte ela esteja diferente e o marido que não
conheça e compreenda essa diferença feminina vai ter muitos problemas em casa,
porque não vai entender a pobre da sua mulher. Conseqüências: ela espera do
marido proteção, segurança, estabilidade, e ele não as dá.

Por outro lado, falando em tese, o pensamento masculino é devagar, abstrato,
mas tem muita lógica. Já perceberam que os sistemas filosóficos, que as grandes
teorias científicas, as fórmulas universais vieram todas de homens com seus
pensamentos puxando à lógica e à abstração? E aí a mulher vai exclamar
amargurada: “Meu marido não me compreende…” É difícil mesmo!…
Nicolas Berdiaeff deixou registrado que “existe uma profunda e trágica
desinteligência, uma estranha e dolorosa incompreensão entre o amor do homem e
da mulher.” E dizem que a Esfinge propunha o seguinte enigma:
“Decifra-me ou devoro-te” (não é de espantar que a Esfinge fosse uma
mulher).

O traço fundamental da natureza feminina é a estática. Daí que o homem, que é
dinâmico, estaria perdido sem a mulher (como Deus fez tudo tão perfeito!) Seu
pensar é intuitivo, e não é incomum, não é fora de comum, ouvirmos da esposa:
“Sinto que é assim.” E aquelas mulheres que dizem para os maridos:
“Tome cuidado com Fulano; ele tem alguma coisa em que eu não confio.”
É muito próprio da mulher ser intuitiva. Desse modo, não foi por acaso que na
Idade Média muitas mulheres foram queimadas como feiticeiras, somente porque
estavam exercitando o seu poder de intuição. Entre os gregos, a Sabedoria era
representada como … uma mulher: Atenas. Em Delfos, havia um oráculo, uma
profetisa, e era… uma mulher. Quem venceu Sansão, aquele homem de força
extraordinária debaixo do poder de Deus? Quem o venceu senão… uma mulher
muito astuciosa. César levou dezessete anos para vencer o Norte da Europa;
Cleópatra o venceu em dezessete dias… Isso é bem coisa de mulher.

Pois é; são essas as filhas de Eva: sentidos mais agudos que os do homem,
ouvido mais apurado que o do homem, e o povo até diz que “coração de mãe
não dorme.” E como dizia o médico nosso irmão em Cristo, “mãe não
cansa”.

O homem tem visão de conjunto, mas a esposa tem visão de detalhes. E ela se
influencia mais facilmente e decide com o coração. Quantas vezes é impulsiva,
tem juízo rápido; ele usa a reflexão, decide com a cabeça. E como conseqüência,
pela visão global das coisas, fixa normalmente os objetivos remotos; enquanto a
esposa, pela dedicação, pelo senso do particular, pela acuidade realiza esses
objetivos. Por isso, é preciso haver essa indissolubilidade, essa solidariedade
entre ele e ela.

AINDA AS DIFERENÇAS
O homem está mais preocupado em conquistar do que ser conquistado, razão porque
o Espírito Santo através de Paulo ordena aos homens: “Maridos, amai a
vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por
ela” (Ef 5.25). É da natureza masculina o conquistar. Está pouco atento
aos detalhes, e até parece, apenas parece, desinteressado na esposa.

A mulher tem afetividade como centro da sua personalidade. A mulher é um grande
coração! É mais receptora ao amor, e o exprime através de certas coisas
pequenas: a maneira como se veste, como coloca flores na casa, como prepara os
pratos na hora do almoço (a sabedoria popular diz que “O coração do homem
se alcança pela boca”), e outros pequenos detalhes. Meu irmão querido,
observe essas coisinhas pequenas na sua casa porque a sua esposa está lhe
dizendo não com palavras, “eu te amo”.

Lição: o marido deve procurar compreender essas pequenas delicadezas, e
manifestar o amor. Ao passo que não deve a esposa armar uma tragédia grega
dizendo que ele não a ama se esquecer alguma data. Marido é muito desligado
disso mesmo, de esquecer datas! Já imaginou a data em que vocês se encontraram
pela primeira vez, e ele se esqueceu desse dia tão importante na vida dos
dois?! Em vez de armar um escândalo porque ele esqueceu, sugira antes, dois
dias antes: “Mas que bom, não é, que daqui a dois dias vamos completar o
aniversário de nosso primeiro encontro…” Faça uma sugestão de leve que
dá muito mais resultado do que reclamar do esquecido do marido.

Nós temos atitudes diferentes quanto ao lar e quanto à sociedade. O homem é
inclinado para o exterior. E mais uma coisa: reclamação não prende o homem em
casa! Não reclame, não: é pior; aí é que ele quer sair mesmo. Reclamação não
vai tirar o homem do baba (como se diz Bahia), da pelada, ou de grupos ou de
sociedades que ele freqüenta.

Para a mulher, o centro vital é o lar, é quase como extensão de sua capacidade
de ser mãe, um psicólogo completou dizendo que para a mulher, o lar é como se
fosse uma extensão do seu útero! E como é doloroso descobrir no começo do
casamento que você não é o mundo do seu marido. Mas sua religião, sua
espiritualidade é muito mais sentimental e afetiva, e a prática religiosa se
torna uma necessidade espontânea dentro de casa. No caso, a espiritualidade
dele é às vezes mais fria, e, às vezes, mais por dever do que por servir.

Para harmonizar essas diferenças, necessário se torna o trabalho contínuo, e o
desejo de adaptação. Procure, portanto, não atribuir aos gestos e palavras do
outro um segundo significado. Há muita gente que quer fazer isso: Porque ele
disse uma coisa, ela lê outra; ela disse uma coisa, ele escuta outra. Talvez
não seja isso o que ele está dizendo, não é o que ele queria dizer. Mas não use
também as características próprias do sexo para encobrir ou justificar defeitos
individuais seus. O marido é professor, está no sofá lendo, meditando ou
estudando. A esposa chega e diz: “Já que você não está fazendo nada, venha
me ajudar com essa pia entupida (ou com essa escada, etc.).” Pronto; matou
o casamento! Ele está fazendo alguma coisa: está se preparando, está estudando,
está se melhorando; Não é que não esteja fazendo nada. Ou no caso daquele outro
que gosta de trabalhar com as mãos, pegar na tinta, no pesado. Quando sai,
deixa a sujeira no chão. A mulher que se identifica tanto com a casa que não
pode ver sujeira, diz assim: “Sujou a casa, limpa depois.” Ele,
porque não compreende, também ridiculariza o quadro que ela começa a pintar, o
tapete que começa a tecer, e diz algo que machuca a alma da esposa.

Os tipos humanos são também, diferentes. Há os extrovertidos que amam sair,
amam o movimento, são “rueiros”e festeiros. Há pessoas que são
introvertidas, são tranqüilas, caseiras, mais apreciadoras de um livro do que
de bater perna no shopping. Por instinto, um homem muito racional vai se casar
com uma mulher muito sentimental. Isso não é problema, não. O problema é querer
fazê-la entender a linguagem da razão, a linguagem objetiva, exata, e dizer que
ela não tem lógica quando explode sentimentalmente. Ela, por sua vez, reclama
que o tom racional do marido esteriliza os sonhos e a própria vida. Na verdade,
uma é a linguagem das ciências exatas, outra é a linguagem das metáforas. Jesus
até a usou. Veja Mateus 13.1-23. A metáfora está nos versos 3 a 9. Ele não
disse “quem tem ouvidos para ouvir ouça”? Mas, nem todos tinham. Por
isso, Ele explicou, e recontou-a nos versos 18 a 23.

Esses aparentemente díspares (os conceitos exatos e as expressões metafóricas)
são perfeitos para a união do casal, para que se completem. Talvez o casal não
saiba administrar essa união, e quando perderem o outro, vão dizer “Eu era
feliz e não sabia”.

É verdade; há diferenças entre o homem e a mulher. Por isso se necessitam
tanto, e, ao mesmo tempo, têm tanta dificuldade de se conhecerem. É o homem que
discute o futuro, é a mulher que reage ao momento presente (“Deixa de
conversar bobagem – diz ela – e vem ajudar o menino a fazer os deveres”).
Creio que é esse gosto pelo presente e por detalhes que faz com que a conversa
nas rodas de mulheres casadas seja principalmente em um desses três temas:
filhos (ou netos), empregadas ou cirurgia que já fizeram, ou precisam fazer.
São assuntos imediatos, é coisa de mulher! Já o marido pega o jornal, pronto,
ela se sente infeliz e abandonada.

O USO DA PALAVRA

E o uso da palavra? Para o homem, a palavra é expressão de idéias e expressões.
Mas para a mulher, é expressão de sentimentos e emoções, razão porque conta oito
vezes a mesma história para o marido. Ela não quer informá-lo, não: quer
descarregar a emoção. Lá fora, usam dizer que mulher fala demais, “Fala
pelos cotovelos”, e um teólogo curioso e criativo disse que no céu haverá
um momento de grande tormento para as mulheres, descrito em Apocalipse 8.1:
“Quando abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no céu, quase por meia
hora.” Uma tortura para as mulheres essa meia hora de silêncio!

A mulher quer a palavra. Foi perfeitamente pertinente, então, que a palavra se
tenha feito carne no ventre de uma mulher. E porque a palavra significa emoção,
ela quer ouvir do marido (não importa se duzentas vezes) a expressão mágica
“Eu te amo”. É o carinho da palavra. E ela quer ouvir, apesar de o
saber. Há uma historinha que diz que a esposa reclamou do marido: “Você já
não diz que me ama…” E ele responde: “Olha, nós estamos casados há
17 anos. No dia do casamento eu disse que a amava e basta; não precisa dizer
mais; não já disse diante das testemunhas? ” Ela quer ouvir, apesar de o
saber, porque a mulher é conquistada e seduzida pelo ouvir. Não foi assim que a
nossa mãe primeira foi seduzida e conquistada pela palavra da serpente? (cf. Gn
3.1-6).

Por outro lado, há maridos que não sabem dizer “Eu te amo”, mas falam
como podem ou sabem: é aquele vestido que dá de presente, é aquele jantar fora
um dia, e assim por diante.

CASE-SE COM ELE E TAMBÉM COM…

Minha irmã querida, case-se com ele e também com a profissão dele. O filósofo
espanhol Ortega Y Gasset disse que o homem é ele e suas situações de vida
(“Eu sou eu e as minhas circunstâncias”). O médico, por exemplo, não
tem hora; o pastor vive em função da igreja 24 horas no ar; o professor, da
sala de aula; o comerciante, do seu comércio. De modo que nunca fale da profissão
dele com desprezo; e nem fale da profissão dela, meu irmão, como coisa
desnecessária.

E mais uma coisa: não reclame se ela vai tanto ao salão de beleza. É para você
que ela está se embelezando; é para você que ela está ressaltando essa beleza.
Ela quer que você a veja e aprecie. Vejam que encontro bonito descrito em
Gênesis 24. 63-65:

“Saíra Isaque ao campo à tarde, para meditar; e levantando os olhos, viu,
e eis que vinham camelos. Rebeca também levantou os olhos e, vendo a Isaque,
saltou do camelo e perguntou ao servo: Quem é aquele homem que vem pelo campo
ao nosso encontro? Respondeu o servo: É meu senhor. Então ela tomou o véu e se
cobriu”.

Modéstia por um lado (a modéstia oriental, as mulheres se cobriam como o fazem
ainda hoje nos países árabes), mas, ao mesmo tempo, ela se embelezou para
Isaque. Por que não dizer para ela, então, no espírito do Cântico dos Cânticos:
“Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha. Quão doce é o teu
amor, minha irmã, noiva minha! Quanto melhor é o teu amor do que o vinho! E o
aroma dos teus ungüentos do que o de toda sorte de especiarias!” (4.7,10).
Aliás, a mulher é por natureza vaidosa. Veja a reação das mulheres quando
passam diante de um espelho. (“Espelho, espelho meu, existe outra mulher
mais bonita do que eu?”).

Porque nós somos iguais e diferentes; porque temos iguais e diferentes
necessidades; porque a irmã necessita ser protegida, acariciada e amada: porque
o irmão precisa de ser igualmente elogiado, apreciado, é que há certas
condições. Sim; a mulher quer isso mesmo: ser amada e protegida (necessidade é
o que cada um deseja para se manter equilibrado), mas quer liberdade para
exercer os seus papéis de mãe, esposa e profissional, e as pequenas expressões
de carinho e interesse significam para a mulher muito mais, muito além do que
nós, os homens, podemos imaginar. Ela deseja que o marido seja amante e
companheiro, mas delicado.

E o seu marido também, amada irmã, precisa saber que é competente, é digno de
confiança, deseja uma esposa que cuide do lar, dos filhos, e que se interesse
pelo seu trabalho, mas não reclame dos seus passatempos. Queixas e reclamações
não resolvem! Pelo contrário, o que eu encontro nos Provérbios é até uma
condenação: “As rixas da mulher são uma goteira contínua” (Pv 19.13b).
Imagine uma goteira pingando durante toda a noite? E também: “Melhor é
morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda.” (Pv
21.19) Está na Escritura… Agora, só para as irmãs um segredinho de um homem
para as mulheres (os companheiros que me perdoem): o homem cede muito mais
(muito, muito mais) a uma suave persuasão e um tratamento sedutor que às
reclamações e exigências.

DIÁLOGO

Muito ajuste de diferenças se resolve com diálogo. Palavrinha boa! Diálogo
significa “através (dia) da palavra (logos)”. É o que alguém chamou
de “O dever de sentar-se”. É preciso sentar para conversar, sentar
para trocar idéias, porque diálogo no casamento é o encontro da psicologia
masculina com a feminina. Diálogo é avaliação. E um pensador disse que
“Ainda não nos conhecemos porque não tivemos ainda a coragem de nos calar
juntos” (Maeterlinck). O dever de sentar-se e avaliar o casamento é a
três: O Senhor nosso Deus e o casal; é diálogo sob o olhar de Deus. E para esse
diálogo há condições:
é preciso respeitar o outro, por isso use linguagem afetuosa.
É preciso saber escutar, razão porque Jesus Cristo mandou que nos amássemos, e
não que nos amassemos uns aos outros.
Buscar compreender as necessidades do outro. Se alguém tem sede, guaraná não
serve. Se a esposa precisa de atenção, não adianta dar uma pulseira. Aliás, dê
a pulseira e atenção! Dialogar não é reclamar, (pode até sê-lo), mas é,
realmente, sorriso, perdão, colocar na mesa problemas, sucessos, alegrias e
preocupações; é troca de idéias, e se insere na linha da comunhão. No casamento
e no diálogo, marido e mulher estão em pé de igualdade; são companheiros
(“companheiro” é aquele que come pão comigo: co+panis ), e são
camaradas (“camarada” é quem habita a mesma câmara, o mesmo quarto). Diálogo
é um encontro das psicologias masculina e feminina, já o dissemos. Outrossim,
além das palavras, a oração é diálogo, o passeio a dois é diálogo, o passeio
com os filhos também é diálogo.
Sim; orem juntos; escolham a melhor hora de conversar; procurem definir o
problema básico. Onde há acordo? Onde está o desacordo? Ouça primeiro, e só
depois responda, porque até para isso a Escritura tem uma recomendação:
“Responder antes de ouvir, é estultícia e vergonha.” (Pv
18.13; cf. Tg 1.19).
Como
você pode contribuir para resolver?

Termino com este poema que diz:

AMOR

És a minha amada,
és minha
e eu sou teu.
Está escrito.

Uniremos
nossas almas e corpos
e ficaremos ligados
em corpo e almas.
Está escrito.

E nem o vento
que sopra do deserto,
nem o tempo
que desgasta,
nem a morte
que amedronta ,
nem os sensatos
que falam de razão,
nada destruirá
o nosso amor,
porque o nosso amor
é um baluarte
e os aguaceiros
da vida
não poderiam extingui-lo
porque ele é
uma chama de Deus,
e o fogo de Deus
arde para além
de todos os dilúvios.

Está escrito:
amar
é penetrar
nas fronteiras de Deus.
Seremos uma porta aberta:
a quem entrar
serviremos a Festa
com colares
engranzados de nuvens,
oferecer-lhe-emos
o nosso riso
como presente para levar,
abrir-lhe-emos
as mãos
para receber em depósito
todos os fardos.
Seremos
uma só taça derramada,
seremos
um só corpo oferecido,
entregar-nos-emos
à festa da vida.

Parte IV
POR QUE, CALABAR?
O MOTIVO DA TRAIÇÃO
A figura de
Calabar insere-se na história pátria colonial durante a época da invasão dos
holandeses no Nordeste (1630-1654). Morador de Porto Calvo, Alagoas, passou
para o lado holandês em 1632. Conseqüentemente, é desprezado pela maioria das
pessoas como traidor; outros, porém, acreditam que Calabar amava a sua terra
natal e fez uma escolha sábia. Mas, afinal, por que ele teria passado para o
outro lado? Qual a razão da traição?

I. Contexto

Para entendermos o drama de Calabar, temos de lembrar do contexto histórico.1
Portugal e suas colônias estavam debaixo do domínio espanhol desde que Filipe
II conquistara a coroa portuguesa em 1580. Com isso, ele pode afirmar com razão
que no seu império o sol nunca se punha. Somente sessenta anos depois, em 1640,
Portugal se livraria de Castela e constituiria de novo um reino independente
sob o governo de D. João IV. Mas a história de Calabar se desenvolveu
inteiramente no contexto do Brasil ibérico, quando, por algum tempo, não havia
previsão de mudanças políticas.

Domingos Fernandes Calabar2 deve ter nascido durante a primeira década do
século XVII, no atual Estado de Alagoas, na região de Porto Calvo, sendo filho
de pai português e de mãe indígena, de nome Ângela Álvares.3 Era, assim, um
mameluco,4 e foi batizado numa igreja da paróquia de Porto Calvo.5 O menino foi
educado numa escola dos padres jesuitas e, homem feito, ainda antes da invasão
batava, possuía três engenhos de açúcar naquela região.6 Então, em 1630, a
segunda onda de invasores holandeses alcançou a costa do Nordeste. Portugal e a
Holanda geralmente gozavam de um bom relacionamento, inclusive por causa do seu
inimigo comum, a Espanha. Na época do reino unido ibérico (1580-1640), a
invasão flamenga fazia parte da guerra dos oitenta anos que a Holanda travava
contra o domínio espanhol sobre os sofridos Países Baixos (1568-1648).7 A
Ibéria continuou tentando recapturar suas províncias perdidas e esmagar a
reforma religiosa naqueles rincões. A Europa sempre se admirava de como os
Filipes conseguiam colocar exércitos bem equipados tão longe das suas terras, e
sabia que o segredo era a riqueza oriunda principalmente das colônias
americanas, inclusive do Brasil. De lá não vinha ouro nessa época, e sim
grandes caixas do apreciado açúcar, branco e mascavo. Eram umas 35.000 caixas
de 300 quilos cada uma por ano.8 O paladar europeu estava se adaptando ao novo
produto e o preço do açúcar estava em alta. A Holanda procurava “estancar
as veias do rei da Espanha,” pelas quais fluía tanta riqueza, e muitos
holandeses apoiaram de coração os esforços da Companhia das Índias Ocidentais
no sentido de causar “prejuízo ao inimigo comum.”9

O domínio holandês do Nordeste durou quase um quarto de um século (1630-1654) e
teve três períodos distintos. A primeira etapa abrange os anos da resistência
ibérica e do crescimento do poderio neerlandês (1630-1636). O segundo período compreende
a resignação lusa e o florescimento da colônia holandesa (1637-1644). Os
últimos anos compõem a insurreição dos moradores portugueses e o fenecimento do
domínio flamengo até a expulsão final (1645-1654). São períodos de
aproximadamente sete, oito e nove anos, respectivamente. O florescimento da
colônia holandesa coincidiu com a presença do Conde João Maurício de
Nassau-Siegen como governador do Brasil holandês, e deveu-se em grande parte à
sua pessoa. Especialmente na época nassoviana, mas de fato durante todo o
período holandês, o Nordeste era como que um enclave renascentista10 no Brasil
colonial, com uma forte influência cristã reformada. A história de Calabar é
parte integrante do primeiro período da ocupação holandesa, a da resistência
ibérica contra os conquistadores recém-chegados.

Olinda, a capital da capitania de Pernambuco, caiu nas mãos dos holandeses em
fevereiro de 1630. Sua conquista fez parte da “primeira guerra mundial…
contra o rei do planeta.”11 A composição das tropas invasoras refletia
esse aspecto global, à semelhança dos atuais Gideões Internacionais,
incorporando holandeses, frísios, valões, franceses, poloneses, alemães,
ingleses e outros. Envolvidos na guerra contra Madri, todos se alegraram quando
os “espanhóis” bateram em retirada.12 Essa luta contra a Espanha
tinha implicações profundamente religiosas. Embora a instrução do almirante
Lonck estipulasse que todos os padres jesuítas e outros religiosos teriam de
abandonar o país, ela reafirmava a “liberdade de consciência, tanto para
os cristãos como para os judeus, desde que prestassem juramento de lealdade…,
assegurando-lhes que (a Holanda) não molestaria ou investigaria as suas
consciências, mas que a religião reformada seria publicamente pregada nos
templos…”13 Foi instituído um governo civil; um dos membros desse Alto
Conselho era o médico Servaes Carpentier.14 O exército ficou sob o comando do
coronel Diederick van Waerdenburch, o governador, presbítero da Igreja
Reformada, homem estimado pelas tropas.

Em 1631, foi conquistada a Ilha de Itamaracá e construído o Forte de Orange sob
a supervisão do capitão protestante Chrestofle Arciszewski, um nobre polonês.15
Todavia, a expansão foi lenta, e outras tentativas de ampliar a conquista
vieram a fracassar por causa da resistência dos luso-brasileiros, que eram
grandes conhecedores da região e haviam adotado a tática de guerrilhas
(“capitanias de emboscada”), o que deixou os holandeses praticamente
encurralados. O próprio almirante Lonck quase caiu numa emboscada no istmo entre
o Recife e Olinda, e o pastor Jacobus Martini foi morto no mesmo trecho.16 O
centro da resistência portuguesa estava localizado a uns seis quilômetros do
litoral, em um terreno alagadiço no lugar denominado Arraial do Bom Jesus.17 A
Ibéria enviou uma armada de mais de 50 navios para recapturar Pernambuco, sendo
que a maior parte da contribuição dada por Lisboa veio de empréstimos
compulsórios de “cristãos novos” (judeus convertidos compulsoriamente
ao catolicismo romano).18

Em setembro de 1631, a batalha naval de Abrolhos, no litoral pernambucano,
ficou sem vencedor. Em seguida, as tropas espanholas, sob o comando do não
muito benquisto conde napolitano Bagnuolo, desembarcaram em Barra Grande, no
sul de Pernambuco, a cerca de cinco léguas do maior povoado da região, Porto
Calvo, às margens do Rio das Pedras. Entre eles estava Duarte de Albuquerque
Coelho, o novo donatário de Pernambuco, autor das famosas Memórias Diárias19
sobre os primeiros oito anos dessa guerra colonial. Por ora a situação era de empate,
os holandeses dominando o mar, os portugueses as praias.

II. História

Essa situação de virtual equilíbrio no Nordeste continuou até 22 de abril de
1632, quando um soldado de nome Calabar, homem muito forte e audaz, deixou o
campo português e passou para o lado dos holandeses. Foi apenas por um breve
período, pouco mais de três anos, mas teve conseqüências para toda a época
flamenga. Calabar não foi o único a passar para o outro lado, mas sem dúvida
foi o mais importante entre eles. Era um homem inteligente e grande conhecedor
da região, que já tinha se distinguido e ficado ferido na defesa do Arraial sob
a liderança do nobre general Matias de Albuquerque.20

Inicialmente, os holandeses não confiaram muito nele.21 No entanto, dez dias
depois Calabar provou pela primeira vez o que podia fazer, levando as tropas do
coronel Van Waerdenburch a saquear Igaraçu, a segunda cidade de Pernambuco,
para onde uma parte das riquezas de Olinda tinha sido transportadas. Durante os
meses seguintes, muitas campanhas foram feitas pelas colunas volantes batavas
sob a orientação de Calabar, que tornou-se amigo do coronel alemão Sigismund
von Schoppe. Por outro lado, o general Matias tentou “por todos os meios
possíveis (reduzir Calabar), assegurando-lhe não só o perdão, mas ainda mercês,
se voltasse ao serviço de el-rei; e esta diligência repetiu por muitas vezes,
no que se gastou algum tempo; mas vendo que nada bastava para convencê-lo,
tratou de outros meios.”22

Em 1633, com a ajuda de Calabar, foi conquistado o litoral norte, desde
Itamaracá até a fortaleza dos Reis Magos, e com isso o Rio Grande do Norte, o
que levou a contatos amigos com os tapuias, indígenas antropófagos daquela
região. Na parte sul, foi tomado o valioso ancoradouro do Cabo Santo Agostinho,
o que privou os portugueses do porto mais próximo do Arraial, dificultando o
recebimento de reforços de Lisboa e o envio de açúcar para Portugal. Nessa
altura, o coronel Sigismund, como o mais velho dos oficiais, assumiu o comando
das tropas terrestres. No mar, o almirante Jan Cornelis Lichthart, que falava
português, tornou-se amigo de Calabar, que lhe ensinava as entradas dos rios.

Do outro lado, os portugueses prosseguiam com suas tentativas de destruir
Calabar. Assim, em março de 1634, o general Matias prometeu a Antônio
Fernandes, um primo irmão com quem Calabar fora criado, “que lhe faria
mercê que o contentasse se pudesse matá-lo em algum ataque.” Antônio
aceitou a comissão mas foi morto na tentativa.23

Enquanto isso, Calabar se adaptava mais e mais à sociedade dos invasores e
tornou-se um indivíduo estimado e respeitado, inclusive na “igreja
católica reformada.”24 Prova disto é que, quando nasceu um filhinho do
casal, foi batizado na Igreja Reformada do Recife. O livro de batismo dessa
igreja registra que no dia 20 de setembro de 1634, Calabar esteve ao lado da
pia batismal com o seu filho nos braços. O menino foi, então, batizado
“Domingo Fernandus, pais Domingo Fernandus Calabara e Barbara
Cardoza.”25 Como testemunhas, ali estavam o alto conselheiro Servatius
Carpentier, o coronel Sigismund von Schoppe, o coronel polonês Chrestofle
Arciszewski, o almirante Jan Cornelisz Lichthart e uma senhora da alta
sociedade.26 O pastor oficiante foi provavelmente o Rev. Daniel Schagen.27

No final de 1634, a Paraíba também havia se rendido aos invasores. Alguns
sacerdotes (exceto os jesuítas) inclusive tiveram a permissão de assistir aos
ofícios religiosos. Houve até um padre, Manuel de Morais, S.J., que passou para
o lado invasor. Dessa forma, os holandeses ocuparam a faixa litorânea desde o
Cabo Santo Agostinho até o Rio Grande do Norte. A Espanha não podia fazer muito
devido aos grandes problemas que enfrentava na Alemanha (com o avanço do
exército sueco para ajudar a Reforma contra as tropas do imperador), a perda de
uma frota carregada de prata do México (devido a um furacão), problemas no
Ceilão, vários anos de seca em Portugal, etc.

Novamente orientados por Calabar, os holandeses continuaram a expansão para o
sul e, em março de 1635, atacaram Porto Calvo, a terra natal do próprio
Calabar. Os defensores, liderados por Bagnuolo, fugiram para o sul, e com a
ajuda de frei Manuel Calado do Salvador28 os moradores da região submeteram-se
aos holandeses. Dessa forma, o Arraial ficou isolado e, depois de três meses,
em junho, Arciszewski conquistou aquela fortificação lusa, os religiosos
recebendo permissão para levarem as suas imagens. Matias de Albuquerque havia
fugido para o sul com aproximadamente 7000 moradores que preferiram
acompanhá-lo a ficar sob o domínio flamengo. A única estrada da região
pantanosa de Alagoas que podia ser usada por carros de boi passava por Porto
Calvo, e nessa altura estava em poder do major Picard e de Calabar,
acompanhados de uns 500 homens. Matias viu-se forçado a atacar a praça, que teve
de pedir condições de entrega. Picard tentou salvar a vida de Calabar e
finalmente foi combinado que ele ficaria “à mercê d’el-rei.”29 Porém,
como disse o historiador De Laet, a proteção concedida foi “à
espanhola” e um tribunal militar o condenou a ser enforcado e esquartejado
como traidor.30 O frei Manuel o assistiu nas últimas horas31 e ao anoitecer do
dia 22 de julho de 1635 a sentença foi executada. Foi também enforcado um
judeu, Manuel de Castro, “homem de nação,” que estava ali a serviço dos
holandeses.32 Poucas horas depois, os portugueses continuavam a sua retirada em
direção à Bahia, levando consigo cerca de 300 prisioneiros holandeses. Nenhum
dos moradores cuidou de enterrar o soldado executado. Dois dias depois,
chegaram a Porto Calvo as forças combinadas dos coronéis Sigismund e
Arciszweski, que ficaram enfurecidos ao achar os restos mortais do seu amigo e
compadre Calabar. Foram colocados num caixão e sepultados com honras militares.
Querendo vingar-se da população lusa, foram dissuadidos por Calado, “o
frei dos óculos,” especialmente pelo fato de que os holandeses precisavam
dos “moradores da terra” para a plantação da cana-de-açúcar e a
criação do gado.

III. Motivos
Por que Calabar teria passado para o lado do invasor? Capistrano de Abreu pergunta:
“Talvez a ambição ou esperança de fazer mais rápida carreira, ou desânimo,
a convicção da vitória certa e fácil do invasor”?33 Reconheçamos que, com
esta inquirição, entramos no campo da especulação histórica, pois não há
indícios concretos nos documentos, somente alusões vagas.34 Deve ter havido
motivos claros e outros ocultos, motivos diurnos e noturnos.35 Além disto devem
ter existido forças que o empurravam para fora do círculo português e outras
que o atraíam para dentro do campo holandês, forças centrífugas e centrípetas.
Lembremos ainda que uma decisão dessas geralmente não se toma de um dia para o
outro. Havia motivos que se cristalizaram com o tempo, até que algo levou o
barril de pólvora a explodir.

A. Fugitivo?

A primeira pergunta deve ser: será que Calabar era um fugitivo? O confessor de
Calabar, antes da sua execução, foi o frei Manuel Calado do Salvador, vigário
da paróquia de Porto Calvo. Treze anos depois, em 1648, no auge da revolta
contra os holandeses, ao escrever O Valeroso Lucideno, seu livro panegírico em
louvor do líder João Fernandes Vieira, Calado afirmou que Calabar era um
contrabandista, que inclusive teria cometido grandes furtos e vários crimes
atrozes na paróquia de Porto Calvo e, temendo a justiça, fugiu com Bárbara para
o campo do inimigo.36 As Memórias de Duarte Coelho, escritas em 1654,
acompanham Calado nessa opinião.37 Vários historiadores, como Varnhagen e
outros, mantêm esse veredito.38 Mas o cônego Pinheiro lembra que “os mais
graves cronistas como Brito Freyre (1675), e frei José da Santa Teresa (1698),
não falam nesses crimes atrozes atribuídos pelo Valeroso Lucideno e seu
Castrioto Lusitano compilador.”39 Quanto às Memórias do donatário Duarte
de Albuquerque Coelho, temos de observar que o autor (cujo irmão Matias,
cognominado o “terríbil,”40 era o general da resistência portuguesa),
escrevendo sobre a traição de 1632, não mencionou motivo algum, somente se
admirou de que um homem tão corajoso, que ficou ferido duas vezes na defesa da
sua terra, não sentisse ódio dos invasores.41 Mas, depois, quando tratou da
morte de Calabar, disse que foi um “castigo reclamado por sua
infidelidade,” acrescentando que tinha “cometido grandes crimes, e
para evitar a punição fugiu passando-se para o inimigo.”42 Será que Coelho
refletia boatos do campo português depois da traição, além de referir-se aos
crimes de guerra ocorridos nas incursões dos holandeses com Calabar entre 1632
e 1635, inclusive em Barra Grande e Camaragibe, ambos distritos no litoral da
paróquia de Porto Calvo?43 Quanto às informações de Calado, temos de reconhecer
que elas nem sempre são muito precisas,44 e são às vezes romanceadas;45 além
disso, conforme C. R. Boxer, elas freqüentemente eram um tanto caluniadoras e
não necessariamente fidedignas.46

Talvez Flávio Guerra seja o autor mais sistemático na rejeição da idéia de fuga
por roubo e outras razões dessa natureza. Ele argumenta: a) Calabar era um
homem de posses que não aceitou dinheiro dos holandeses; b) ele não poderia ter
defraudado bens do estado no Arraial; c) não há documento nenhum que fale em
fraude; d) essa alegação surgiu somente alguns anos depois da morte de
Calabar.47 Reconhecemos, porém, que esse jovem inteligente e proprietário de
engenhos de açúcar talvez não tenha herdado essas propriedades; talvez fosse
mesmo um contrabandista e como tal pudesse ter cometido algum furto ou crime
antes da traição. Entretanto, seja como for, naqueles dias de guerra
dificilmente esse corajoso e astuto defensor do Arraial seria entregue nas mãos
da justiça enquanto o general Matias e o donatário Duarte estavam a seu favor.
Por outro lado, depois da traição, depois de tantas tentativas de reconduzi-lo
gentilmente, depois de tantos prejuízos e mortes causados na conquista de
Igaraçu, Itamaracá, Rio Grande, Paraíba e boa parte do sul de Pernambuco,
depois de tantas tramas abortadas para liquidá-lo, não havia chance nenhuma de
escapar das garras dos seus justiceiros comandados pelo general Matias, com ou
sem crimes cometidos antes da traição.48

B. Teria Segurança?

Mas, sendo fugitivo do lado português, teria realmente segurança se passasse
para o outro lado? Inteligente como era, Calabar deve ter calculado o perigo
que estava correndo. Será que ele teria tido medo de, no fim, ser abandonado
pelos holandeses? Creio que não. Intimamente ele deve ter tido a certeza de que
não seria como Frei Calado sugeriu, que os holandeses “se servem (dos seus
ajudantes) enquanto os hão mister, (mas) no tempo da necessidade e tribulação,
os deixam desamparados e entregues à morte.”49 A proteção dada
posteriormente aos seus aliados judeus e índios e a resistência em render-se
finalmente aos portugueses por causa dos mesmos (atestada pelo próprio
Calado),50 mostra que não é provável que isto tenha acontecido. Mas, pela
última vez em Porto Calvo, com soldados relutantes, restando pouca água e
munições, com lenha amontoada pelos sitiantes debaixo da casa forte para
queimá-los,51 e depois de “mais de meio-dia no ajuste dos artigos de
rendição, porque o inimigo insistia em levar consigo Domingos Fernandes
Calabar,” o próprio soldado Calabar sabia que era impossível escapar e,
querendo poupar as vidas dos seus amigos e subordinados, “disse com grande
ânimo estas palavras ao governador Picard: ‘Não deixeis, senhor, de concordar
no que se vos exige pelo que me diz respeito, pois não quero perder a hora que
Deus quis dar-me para salvar-me, como espero de sua imensa bondade e infinita
misericórdia’.”52 Deve ter pedido, ainda, que cuidassem bem da sua mulher,
com quem fugira para o campo holandês,53 e de seus filhos, pois ia entregar-se
sozinho. De fato, o governo cuidou bem da família do seu nobre capitão, pois a
sua viúva passou a receber para cada um dos seus três filhos menores o salário
de um soldado, num total de 24 florins mensais, equivalente ao salário de um
mestre-escola, o que não acontecia com a família de pastor e capelão do
exército tombado no serviço da Companhia.54 Por outro lado, o próprio major
Alexandre Picard deve ter ficado arrasado com o triste fim do colega, e nós o
encontramos depois na Holanda recuperando-se na casa do seu irmão pastor em
Coevorden.55

C. Exemplos de “Traidores”

Fugindo em busca de refúgio ou não, também temos de lembrar que a época
conhecia muitos exemplos de “traidores,” de ambos os lados. Embora
Calabar fosse considerado em abril de 1632 como o primeiro a desertar do
Arraial,56 os documentos testificam que já havia passagens dos dois lados.
Alguns soldados franceses a serviço da Companhia das Índias Ocidentais passaram
para o campo português devido à religião, e houve judeus que fizeram a viagem
em direção oposta pelo mesmo motivo. Sabemos de escravos que fugiram dos seus
donos para obter mais liberdade entre os holandeses,57 de grupos de índios
tupis que deles se aproximaram,58 e também de soldados napolitanos que
debandaram para o lado invasor. O “vira-casaca” holandês mais
conhecido foi o capitão Dirk van Hooghstraten que, em 1645, entregou a
fortaleza do Cabo Santo Agostinho aos portugueses por um bom dinheiro (que
ainda não havia recebido quatro anos depois).59 Houve pessoas que trocaram de
campo até duas vezes, e entraram para a história com honras, como o padre
jesuíta Manuel de Morais e o próprio João Fernandes Vieira. O primeiro tinha
liderado os índios na resistência contra o invasor, mas passou para o campo do
inimigo depois da queda da Paraíba. Foi enviado à Holanda, onde casou-se com
uma holandesa e, para ressarcir-se das despesas que teve, cobrou à Companhia
das Índias Ocidentais pela ajuda prestada no Brasil. Depois de alguns anos,
Morais deixou mulher e filhos, voltando para o Nordeste como negociante.
Quando, no início da revolta, foi capturado pelos portugueses, salvou sua pele
passando de novo para o campo católico romano. Quando foi preso pela
Inquisição, defendeu-se habilmente diante dos seus inquisidores, insistindo que
nunca tinha quebrado seus votos sacerdotais, mas, não reconhecendo o matrimônio
herético, somente tinha se amancebado com mulheres reformadas.60 Por sua vez,
João Fernandes Vieira ajudou um conselheiro holandês a achar o tesouro
enterrado do seu antigo patrão português e conseguiu créditos e mais créditos
da Companhia até, em 1645, proclamar a “guerra da liberdade divina”
para livrar o Brasil dos “heréticos,” aos quais ficou devendo 300.000
florins, importância altíssima para a época.61 De fato, em tempo de guerra, a
traição está “no ar.”

D. Interpretação Econômica

Revendo esses poucos exemplos, poderíamos então postular que a interpretação
mais simples para o caso de Calabar seria econômica. Talvez Calabar, como
grande conhecedor da região e dos acessos pelos rios, já fosse contrabandista
antes e depois da invasão,62 e teria passado para os invasores em busca de
dinheiro. Embora tudo indique que ele não precisava disto, pois já tinha
adquirido propriedades e gado em Alagoas, um bom dinheiro sempre teria sido
bem-vindo. Mas, se foi contrabandista, de certo havia cúmplices, como deixou
transparecer o seu próprio confessor. É que Calado relatou alguns detalhes da
confissão de Calabar (com permissão do mesmo) ao general Matias; entretanto,
este ordenou ao padre “que não se falasse mais nesta matéria, por não se
levantar alguma poeira, da qual se originassem muitos desgostos e
trabalhos” (sem dúvida para alguns portugueses importantes).63 Mas,
afinal, será que este moço abastado teria passado para o inimigo por dinheiro,
pensando em aumentar a sua fortuna? Southey o acha mais provável.64 Calado não
o diz, nem Coelho, que somente menciona que Calabar passou a receber o soldo de
um sargento-mor.65 Também, através dos anos, não apareceu nenhum indício disto
nos documentos, nem a mais ligeira referência como nos outros casos de peso. Ao
contrário, há indicações de que ele recusou o suborno.66 Por outro lado, não
parece muito provável que Waerdenburch teria oferecido a Calabar o título de
capitão caso mudasse de lado, pois desconfiava dele. Se prometeu algo nesse
sentido, teria sido mais por uma questão de honra do que por uma razão
financeira.67  E. Questão de Honra

Uma interpretação bem mais provável é essa questão de honra; talvez de glória,
mas muito mais de reconhecimento, respeito, bom nome, dignidade. Vivendo no
século XVII, por ser mestiço e não português “de sangue puro,”
Calabar, apesar das suas qualidades, de certa forma era um inferior por causa
da cor da sua pele, ainda que atualmente algumas pessoas tenham dificuldade em
admitir esse fato histórico. Ainda quase um século e meio depois, o vice-rei do
Brasil mandou degradar um cacique indígena que antes tinha recebido honras
reais, pois “havia desprezado as mesmas… se baixando tanto que se casou
com uma negra, manchando seu sangue.”68 Mestiçagem aviltada num Brasil
mestiço. Na época de Calabar a situação não era muito melhor e parece que até
os holandeses sabiam da discriminação racial contra Calabar.69 Talvez baseando-se
na história de Southey, o romancista Leal faz Calabar pensar em “vingança
de tantos desprezos e tantas humilhações com que me têm amargurado os da vossa
raça.”70 E outro romancista, Felício dos Santos, bem pode ter razão quando
faz o napolitano conde Bagnuolo insultar Calabar chamando-o de negro. Seria
mesmo o estopim que o fez sair do acampamento do Arraial do Bom Jesus e passar
para os holandeses.71 Anos depois, o próprio governador de Pernambuco
(1661-1664) escreveu que Calabar buscara entre os inimigos “a esperança
que lhe impedia entre os nossos a vileza do nascimento.” E falando sobre
Henrique Dias, o herói africano da restauração portuguesa, acrescenta: “Um
negro, indigno deste nome, pelo que emendou ao defeito da natureza.”72 Por
outro lado, Calabar, o mameluco, deve ter observado como os holandeses tratavam
melhor os seus escravos,73 e os índios até mesmo com respeito, chamando-os de
“brasilianos” por serem os primeiros moradores do vasto Brasil.74 E
quem sabe Calabar também fosse um tanto ambicioso e pensasse que poderia fazer
carreira do outro lado,75 o que num certo sentido aconteceu, como Coelho lembra
ao afirmar que “logo o fizeram capitão.”76 Não foi tão logo, mas de
fato aconteceu.

F. Motivação Religiosa

Resta ainda uma dupla de motivos que deve ser considerada, a
político-religiosa. Estas são duas alavancas importantes da história e naquele
tempo estavam entrelaçadas quase que inseparavelmente. Será que houve algum
motivo religioso na traição de Calabar? Representantes do pensamento cristão reformado
como o presbítero holandês coronel Waerdenburch, reconhecidamente um homem de
Deus,77 ou o alemão Von Schoppe, ou o polonês Arciszewski, devem ter tido uma
influência nesse sentido. Será que Calabar leu o livro de Carrascon, ou “O
Católico Reformado” de Perkins,78 livros que já estavam circulando no
Nordeste e sobre os quais frei Calado advertia constantemente os seus fiéis em
Porto Calvo, berço de Calabar? Anos depois Calado se lembrava de que se não
tivesse ficado em Porto Calvo, “os pusilânimes haviam de ter titubeado na
fé, e haviam de estar envoltos em muitos erros e heresias. Porquanto os
predicantes dos holandeses haviam derramado por toda a terra uns livrinhos que
se intitulavam O Católico Reformado em língua espanhola, composto por Fulano Carrascon,
cheios de todos os erros de Calvino e Lutero, e persuadiam os ignorantes (e
ainda aos que não eram) de que a verdadeira religião era a que naqueles livros
se ensinava.”79

De fato, houve uma escolha religiosa voluntária por parte de Calabar, o que não
era possível na direção oposta.80 Ele podia ter passado para o lado holandês
sem filiação à “igreja do estado” e Bárbara podia ter procurado um
padre católico romano para o batismo do seu filho. Calabar teria sido
considerado um aliado valioso da mesma forma que os tapuias com o seu pajé, os
judeus com o seu rabino e os soldados franceses e napolitanos com o seu vigário
católico romano. A entrada da família Calabar na igreja reformada foi
voluntária e o batismo do seu filho na igreja reformada do Recife em 1634
aponta para isto.81 Finalmente, dez meses depois, no dia da sua execução,
Calabar reconheceu mais claramente os seus pecados e se mostrou tão arrependido
que os religiosos que o assistiram acharam que “Deus por meio de tal pena
o quis salvar, dando-lha no próprio lugar de seu nascimento e onde tanto o
havia ofendido.”82 Quem sabe Calabar lembrou-se, como posteriormente o
índio Pedro Poti durante o seu suplício, das primeiras frases do Catecismo de
Heidelberg, escrito em tempos de perseguição pela Inquisição e memorizado pelos
fiéis: “Qual o teu único consolo na vida e morte? Que, na vida e na morte,
não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo.”83  G. Patriotismo  Finalmente, quanto ao aspecto político convém
abordar o motivo do amor à terra natal, o patriotismo. José Honório Rodrigues
observa que talvez tenha sido Francisco de Brito Freyre (almirante da armada
que reconquistou o Nordeste e posteriormente governador de Pernambuco),
“dos primeiros a manifestar, ao se referir a Calabar, sentimentos
patrióticos em relação ao Brasil,” quando diz que Calabar foi enforcado em
Porto Calvo, “pátria sua.”84 Recentemente, o historiador Flávio
Guerra defendeu esse sentimento de patriotismo e, ao mesmo tempo, o ódio
luso-brasileiro contra a opressão da Espanha. El-rei teria praticamente
abandonado o Brasil e quando chegou o reforço sob o comando de Bagnuolo, os
estrangeiros receberam, por ordem régia, tratamento melhor do que os
“moradores da terra,” dos quais alguns foram indo para suas casas,
conforme Calado. Por outro lado, os holandeses prometiam menos impostos do que
os espanhóis e tentaram trazer Calabar para si. “A catequização do
mameluco estivera sendo trabalhada por um tal de Joer,” agente dos
invasores, católico romano, que falava muito bem o idioma do Brasil. Finalmente
Calabar teria escrito ao governador Waerdenburch, dizendo: “Passei para
essa causa sem querer recompensa, e vim para melhorar minha terra, que não tem
liberdade de espécie alguma.” Waerdenburch teria confirmado à Holanda que
“Calabar só se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou as
recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado. Diz estar certo de que a
sua pátria irá melhor do que com os espanhóis e os portugueses.” Guerra
conclui que “convicções talvez erradas mas honestas… decorreram do seu
idealismo… (para) melhor servir à pátria.” E quando, depois, o general
Matias acenou com anistia total na tentativa de trazê-lo de volta, Calabar
teria respondido: “Tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o
indicado pela minha consciência de verdadeiro patriota, não como traidor, mas
como patriota.” E no fim, em Porto Calvo, antes de entregar-se, teria
escrito ao governo holandês no Recife: “Serei um brasileiro que morre pela
liberdade da pátria.” Infelizmente, não conseguimos localizar os
documentos em que a informação de Guerra se baseia. Mesmo assim, a base
histórica parece muito sólida.85

Conclusão

Pessoalmente, tenho a impressão de que o motivo que impulsionou Calabar foi um
pouco mais “caleidoscópico.” O fator centrífugo ou negativo mais
forte talvez tenha sido a ira, ira contra o desprezo racial, inclusive, quem
sabe, ódio contra o seu pai português (desconhecido?), uma ira impotente contra
a primeira onda de invasores na terra dos “brasilianos.” Se fosse
fugitivo, a segurança lhe acenaria. Todavia, o fator positivo mais forte
certamente teria sido o seu patriotismo, enfatizado por Flávio Guerra.

A descrição intuitiva de João Felício dos Santos talvez possa estar perto da
resposta que se esconde na névoa da história. Para Felício, esse amor à terra
natal era patente em todas as fases da vida do soldado, quem sabe um desejo de
realmente ver “ordem e progresso” no Brasil (talvez o sonho de
servir, não a si mesmo, mas à comunidade, com justiça e paz). Como menino, o
romancista faz Calabar estudar em um colégio de jesuítas onde se ensinava uma
obediência incondicional à coroa católica romana de Castela, mas faz o menino
responder que somente devia obediência à sua mãe e à terra brasileira. Como
jovem, ele teria percebido que os holandeses amavam o Brasil pela construção e
limpeza do Recife (e podia ter acrescentado: por planos de melhorias como o
ensino primário generalizado, limpeza dos limpos, proibição do corte do
pau-brasil e do cajueiro, etc.). Finalmente, Felício faz Calabar adulto dizer
ao frei Calado, seu confessor, defendendo-se do epíteto de traidor: “São
partidários dos flamengos todos os que querem esta terra farta e acarinhada,
sejam eles de que nação forem.”86 Provavelmente foi isto em essência que
Chico Buarque também quis enfatizar, em 1973, com seu musical “Major
Calabar.”87

Na verdade, à pergunta “Por que Calabar passou para o outro lado?”
temos de responder por enquanto com um “non liquet,” pois, mesmo do
lado holandês, nem o meticuloso cronista De Laet (1644) e nem o panegirista
Barlaeus (1647) mencionam motivo algum. De Laet registra somente que “para
os nossos passou um mulato, de nome Domingo Fernandes Calabar” e Barlaeus
observa que esse “português abandonou o partido do rei (da Espanha) pelo
nosso,” mencionando a sua terrível morte por causa da sua infidelidade.88
Talvez seja pessimista demais a conclusão de Capistrano de Abreu: “nunca
se saberá.”89 Se for localizada uma das cartas mencionadas por Flávio
Guerra, teremos uma resposta clara e autêntica. Mas, de fato, atualmente não
sabemos com certeza. Na velha Roma, os juízes podiam usar seu “NL”
com discrição, porém sem constrangimento. Era uma placa cujas letras queriam
dizer “non liquet,” isto é, o assunto não está claro (líquido). Se,
depois de ouvir as testemunhas, o caso ainda não estava claro, eles erguiam as
suas plaquinhas “NL” na hora da votação. Não era um atestado de
ignorância, nem prova de indecisão, mas de juízo. Era um sinal humilde de que
estavam no limite da interpretação honesta dos dados conhecidos. Precisamos ter
sabedoria e coragem para erguer o “NL,” porque no caso do capitão
Calabar por enquanto não sabemos mesmo. Provavelmente, ele foi movido por um
misto de motivos, tendo o amor à sua terra natal como Leitmotiv. Porém, foi
sempre uma motivação mesclada, pois “o coração tem razões que a própria
razão desconhece” (Blaise Pascal).

Apeldoorn, Holanda, 08-05-2000 A.D.
Dedicado ao meu irmão e
colega Rev. Klaas Kuiper (biógrafo de João Ferreira de Almeida [1628-1691], o
tradutor da Bíblia para o português e pastor da “Santa Igreja Cristã
Católica Apostólica Reformada” em Jakarta, Indonésia).

Post Scriptum
Quanto aos cinco documentos mencionados por Guerra (Aventura, 79-84, 103;
Calabar, 42, 69), os mesmos poderiam encontrar-se em Haia, no Rio ou em Recife.
Os originais deviam estar no Arquivo Real de Haia, na Holanda (Algemeen
RijksArchief), nas respectivas caixas de cartas escritas do Recife para os
Estados Gerais dos Países Baixos (ARA-AStG 5753 e 5754; 1631-34 e 1635) ou para
os Senhores XIX (ARA-OWIC 49 e 50; 1630-32 e 1633-35). As cópias podem estar no
Brasil, pois as transcrições das missivas aos Estados Gerais (1854) constituem
hoje a “Coleção Caetano,” no Rio de Janeiro; as transcrições das
cartas aos Senhores XIX (1886) formam a famosa “Coleção José Higino,”
no Recife. Os documentos procurados (originais, cópias ou traduções; principais
ou anexados) devem ser os seguintes:

(a) Carta de 14-11-1631 de “Aldiembert” a Holanda (Estados Gerais ou
Senhores XIX). Guerra informa que segundo Assis Cintra “[Aldiembert]
‘teria dito’ que Calabar ‘apesar de ter sofrido injustamente dos seus patrícios
por ser mulato, tem recusado aceitar o nosso oferecimento de dinheiro e
honrarias'” (Ver notas 66 e 69. Guerra, Aventura, 83).

(b) Carta entre 22 e 30-04-1632 de Calabar (ao Governador Waerdenburch?).
Guerra diz: “Conta-se que Calabar escreveu: ‘… vim para melhorar minha
terra'” (Nota 85. Guerra, Aventura, 84).

(c) Carta entre 22 e 30-04-1632 de Waerdenburch à Holanda (Estados Gerais ou
Senhores XIX). Guerra, fazendo citação: “(Calabar) só se colocou ao nosso
lado pela convicção, pois recusou-se a recompensas que vossas senhorias lhe
haviam mandado. Diz que está certo que conosco a sua pátria irá melhor do que
com os espanhóis e os portugueses. Envio-lhes uma carta [de certo a carta
“b”] que nos mandou comunicando a sua adesão … Iremos atacar agora
Igaraçu” (Notas 66 e 85. Guerra, Calabar, 42).

(d) Carta (entre 01-05-1632 e 03-1635?) de Calabar a Matias de Albuquerque.
Guerra informa que a carta (descoberta no ARA por W. Wallitz) é uma resposta à
oferta de anistia total para Calabar, dizendo: “Tomo Deus por testemunha
de que meu procedimento é o indicado pela minha consciência de verdadeiro
patriota… não como traidor, mas como patriota” (Nota 85. Guerra, Calabar,
44s).

(e) Relatório do Major Picard (depois de 19-07-1635) sobre a capitulação de
Porto Calvo. Guerra informa que no relato (traduzido do holandês por Wallitz e
divulgado por Assis Cintra), Picard diz que Calabar insistiu que aceitassem as
condições da capitulação e afirmou: “Serei um brasileiro que morre pela
liberdade da pátria.” Ao Governo no Recife Calabar escreveu: “Vós, os
holandeses, oferecestes a liberdade ao Brasil, ao meu amado Pernambuco. Um
homem como eu que recusou honras e proventos, não é traidor; se houve traição
foi uma traição justificada pela nobreza do motivo …” (Nota
85. Guerra, Calabar, 69).

Infelizmente, ainda não
conseguimos localizar nenhum desses documentos em Haia (AStG ou OWIC; somente a
tradução de um breve relato de Picard numa missiva portuguesa que não menciona
Calabar, em OWIC 50), e eles não constam dos índices das coleções do Recife ou
do Rio de Janeiro. As outras cartas de Waerdenburch em 1631 e 1632 foram seis
aos Senhores XIX (07-10 e 09-11-1631; 06-01, 09-05, 16-08 e 12-11-1632) e nove
aos Estados Gerais (12-02, 24-03, 31-05, 03-08, 07-10 e 09-11-1631; ?-01,
09-05, 16-08-1632). Porém, nelas (mormente na de 09-05-1632, ver nota 21) as
informações procuradas não foram encontradas. Temos de reconhecer que isto às
vezes acontece com informações históricas sólidas por perda de documentos
originais, perda essa acidental (como em F.A. Pereira da Costa, Annais
Pernambucanos, III:5) ou intencional (óbvia pela seqüência de documentos referentes
ao Brasil atualmente ausentes do Arquivo dos Estados Gerais; ver Schalkwijk,
Igreja e Estado, p. 201, n. 112; 465:2.1.5; 466:2.4). Documentos extraviados
são a frustração do historiador e apelamos aos que têm alguma pista dos
documentos perdidos do Arquivo dos Estados Gerais que se comuniquem com o
Algemeen RijksArchief, 2595BE, Den Haag, Holanda.

Guerra menciona como sua fonte Assis Cintra. Cintra publicou sua defesa de
Calabar em 1933 (A Reabilitação Histórica de Calabar: Estudo Documentado, Onde
Prova que Calabar não Foi Traidor. Depoimento, Acusação, Defesa e Reabilitação.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933). A sua tese pode ter sido mal
defendida e não muda o fato da traição (Rodrigues, Bibliografia, p. 423, #964),
mas o importante era a sua documentação. Mesmo que, em 1933, certos documentos
dos Estados Gerais já tivessem desaparecido do arquivo de Haia, Cintra ainda
teria à disposição as transcrições da Coleção Caetano, no Rio de Janeiro, a não
ser que esses cinco documentos não tenham sido transcritos. Seria uma
coincidência, mas tem ocorrido com outros documentos, mormente com anexos
interessantes. Infelizmente não há condições no momento de consultar Cintra,
Recife ou Rio de Janeiro.

Notas
1 Do lado português, a principal fonte de informações deste período é Duarte de
Albuquerque Coelho, Memórias Diárias da Guerra do Brasil, 1630-1638 (Madri:
1654; Recife: Secretaria do Interior, 1944), que menciona Calabar em muitas
páginas. Do lado holandês, Joannes de Laet, Iaerlijck Verhael, 4 vols. (Leiden:
1644; ‘s-Gravenhage: Linschoten Vereniging, 1931-1937); tradução portuguesa:
História ou Annaes dos feitos da Companhia Privilegiada das Índias Occidentais
desde o seu começo até o fim do ano de 1636, 2 vols. (Rio de Janeiro:
Biblioteca Nacional, 1916-1925).
2 J. da Silva Mendes Leal, Calabar (Rio de Janeiro: Correio Mercantil, 1863),
p. 140, sugere que o seu nome era Domingos Fernandes, apelidado “o
Calabar.” Com isto parece concordar a informação do general Matias de
Albuquerque, de que o “primo co-irmão” de Calabar era Antônio
Fernandes, sendo ambos nascidos, batizados e criados na paróquia de Porto Calvo
(Coelho, Memórias, 197; 31-03 e 01-04-1634). De igual modo, alguns dos
primeiros documentos holandeses não mencionam o nome Calabar, mas somente
“Domingo Fernando,” como na carta do coronel Waerdenburch aos
Diretores da Companhia das Índias Ocidentais, os chamados “Senhores
XIX,” em 12-11-1632, sobre a incursão contra Barra Grande: “…porque
o mesmo nasceu ali e é grande conhecedor.”
3 Frei Manuel Calado do Salvador, Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade
(Lisboa: 1648; Recife: Cultura Intelectual de Pernambuco, 1942; 2 vols.), I:48;
Ângela Alures Coelho, Memórias, 120: mãe e alguns parentes. F.A. de Varnhagen,
História Geral do Brasil (Rio de Janeiro: 1854-1857; São Paulo: Melhoramentos,
1956, 5ª ed.), I:277: Ângela Álvares.
4 Frei Calado chama Calabar de “mancebo mameluco, mui esforçado e
atrevido” (Lucideno, I:32). Por servir como pároco em Porto Calvo por
alguns anos, Calado conhecia melhor o parentesco de Calabar. Às vezes Calado
chama-o de mulato (com desprezo? Lucideno, I:48). Coelho, Memórias, p. 120 (o
“mulato” Calabar; 20-04-1632); p. 68 (o “pardo” ferido,
14-03-1630). Laet, Verhael, III:95, 96: “mulaet.” Também depois, às vezes, chamado de
mulato, como por R. Southey, História do Brasil (Londres: 1810-1819; São Paulo:
Obelisco, 1965), II:164; mas, nas notas, o cônego J.C. Fernandes Pinheiro
afirma que “todos os nossos cronistas qualificam a Calabar de mameluco e
não de mulato” (p. 205, n. 13). Pedro Calmon, História do Brasil (Rio de
Janeiro: Olympio, 1961), II:597, nota, julga que pelo nome africano, Calabar,
de certo era negro ou mulato. No interior de Pernabuco, por volta de 1600, deve
ter havido muitos mamelucos (mestiços índio-europeus), mulatos (mestiços
africano-europeus) e cafuzos (mestiços índio-africanos; Alagoas: “pelos
cafus,” ao anoitecer), de sorte que um mameluco bem podia ter alguns
traços africanos e ser chamado mulato. João Felício dos Santos, Major Calabar
(São Paulo: Círculo do Livro, s.d. [1ª ed. 1960]; ed. integral): mameluco.
Romances usam liberdades históricas (ex: Felício faz Maurício de Nassau filho
do “stadhouder” da Holanda, etc.), mas podem ajudar na interpretação
dos fatos.
5 Coelho, Memórias, 197: “onde foram batizados” (isto é, Calabar e
seu primo Antônio). Flávio Guerra, Uma Aventura Holandesa no Brasil (Recife:
Companhia Editora de Pernambuco, 1977), 78s: ainda menino, Calabar foi parar,
“não se sabe como, nem conduzido por quem,” em Olinda e batizado no dia
15-03-1610 na ermida do engenho N.S. da Ajuda, de Jerônimo de Albuquerque,
sendo padrinhos Afonso Duro, rico colono de Évora, Portugal, e sua filha D.
Inês Barbosa, nascida em Pernambuco. Flávio Guerra, Calabar: Traidor, Vilão ou
Idealista (Recife: ASA Pernambuco, 1986). Talvez com a fórmula: “Si non
baptizatus es, ego te baptizo…”
6 Guerra, Aventura, 78: em 1628 Calabar tinha três engenhos de açúcar em Porto
Calvo e participava da procura das lendárias minas de prata de Caramuru. Novo
Dicionário de História do Brasil, 2ª ed. (São Paulo: Melhoramentos, 1971), s.v.
“Calabar” (o artigo merece reparos). Os batavos foram os primeiros
moradores históricos da Holanda.
7 Naquela época, os Países Baixos, pertencentes à coroa da Espanha, englobavam
Bélgica e Holanda, com capital em Bruxelas. A palavra “flamengos,”
freqüentemente usada para “holandeses,” refere-se propriamente aos
moradores do norte da atual Bélgica. Ver a história sociológica do Dr. José
Antônio Gonçalves de Mello, Tempo dos Flamengos (Recife: Secretaria de Educação
e Cultura, 1978).
8 C.R. Boxer, Os Holandeses no Brasil, 1624-1654 (São Paulo: Editora Nacional,
1961; tradução de The Dutch in Brazil, 1624-1654 [Londres: Oxford University
Press, 1957]), p. 45. Em 1630, havia 137 engenhos de açúcar, com uma produção
de 700.000 arrobas, ou seja, 10.500.000 quilos por ano. O livro de Boxer dá um
ótimo resumo da história geral da época. Evaldo Cabral de Mello, Olinda
Restaurada: Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630-1654 (Rio de Janeiro/São Paulo:
Forense-Universitária/Universidade de São Paulo, 1975).
9 Panfleto De Portogysen goeden Buyrman (O bom vizinho português; Lisbon:
Drucksael daer uyt-hangt het Verradich Portugael, 1649. Sic: Lisboa? Sala de
impressão com a placa Portugal Traidor? ), p. 13.
10 José Honório Rodrigues, Civilização Holandesa no Brasil (Rio de Janeiro:
Nacional, 1940), p. 169: “capa cultural.”
Ver E.van den
Boogaert, ed., Johan Maurits van Nassau-Siegen, 1604-1679: A Humanist Prince in
Europe and Brazil. Essays on the Occasion of the Tercentenary of his Death
(‘s-Gravenhage: The Johan Maurits van Nassau Stichting, 1979).
11 C.R. Boxer, The Dutch Seaborne Empire (Londres: Hutchinson, 1965), 108.
12 Panfleto Veroveringh van
de Stadt Olinda (Conquista da cidade de Olinda; Amsterdam: J. Luyck, 1630).
Rev. J. Revius, Biechte des Conincx van Spanjen (Confissão do rei da Espanha
mortalmente doente pela perda de Pernambuco; S.l.: s.e., 1630): “mea
gravissima culpa.”
13 Instrução do almirante Lonck de 01-08-1629 sobre “onze rechtvaardige
oorlog,” nossa guerra justa contra a Espanha. Sobre a questão da liberdade
religiosa durante esta época, ver F.L. Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil
Holandês, 1630-1654, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova, 1989), 335-458.
14 F.J. Moonen, Holandeses no Brasil (Recife: Universidade Federal de
Pernambuco, 1968), 53.
15 E. Fischlowitz, Christoforo Arciszewski (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1959).
16 Laet, Verhael, III:143.
17 Ver F.A. Pereira da
Costa, Anais Pernambucanos, 10 vols. (Recife: Arquivo Público Estadual, 1952-1966),
III:12-19.
18 Boxer, Holandeses, 63, nota 27.
19 Ver nota 1. Somente em 1817 Alagoas tornou-se uma capitania independente de
Pernambuco.
20 Coelho, Memórias, 120 (20-04-1632). Matias era irmão do donatário Duarte de
Albuquerque Coelho.
21 Em 01-05-1632, Waerdenburch fez uma incursão a Igaraçu “sob a
fidelidade ou infidelidade de um negro que me serviu de guia” (carta aos
Estados Gerais, 09-05-1632; provavelmente a primeira referência a Calabar nos
documentos holandeses). F.A. de Varnhagen, História das Lutas com os
Hollandezes no Brasil desde 1624 a 1654 (Lisboa: Castro Irmão, 1872), 59. Até
novembro de 1632 provavelmente surgiu certa dúvida por causa da confissão do
colaborador Leendert van Lom, que alertou o governo a não confiar em nenhum
português e que suspeitava de “Domingo Fernando,” que joga (cartas)
com capitães (de barcos) portugueses, dando-lhes dinheiro e chamando-os de
primos (o que não são).” Porém, na hora da execução Lom hesitou em
confirmar os nomes dos portugueses, de sorte que ficou a incerteza (Laet,
Verhael, III:107).
22 Coelho, Memórias, 138 (07-02-1633).
23 Ibid., 197 (31-03 e 01-04-1634).
24 Os protestantes, inclusive o pastor João Ferreira de Almeida, insistiram que
não pertenciam a uma nova seita, mas à igreja cristã “católica
reformada,” não católica romana. Ver Schalkwijk, Igreja e Estado, 234s.
25 No dia 20-09, não em 10-09 como foi sugerido pela edição impressa do
Doopboek por ter omitido “Sept. 20” (Livro de Batismos da Igreja
Reformada do Recife, 1633-1654, publicado por C.J. Wasch, Nederlandsch
Familieblad, 5 e 6, 1888-1889). Frei Calado diz que Calabar travou amizade com
Von Schoppe tomando-o “por compadre de um filho que lhe nasceu de uma
mameluca, chamada Bárbara, a qual levou consigo e andava com ela amancebado.”
Calado não reconheceu o matrimônio protestante (Calado, Lucideno, I:32, seguido
por J.B.F. Gama, Memórias Históricas da Província de Pernambuco, 2ª ed., 2
vols. [Recife: Secretaria da Justiça/Arquivo Público Estadual, 1977], I:239). O
colaborador Leendert van Lom afirmou (hesitando porém na hora da execução) que
“a mulher de Domingo” falou que todos os holandeses deviam ser mortos
à bala (“Domingos vrouw,” Laet, Verhael, III:107). Em 1636, as atas
do governo no Recife falam sobre “a viúva de Calabar” (Dagelijkse
Notulen, 13-04-1636). Mameluca (Calado, Lucideno, I:14). Parece que Bárbara
também era natural de Porto Calvo, porque em março de 1635 o cunhado
(“swagher”) de Calabar traz notícias de que os grandes da povoação
querem discutir (a rendição; Laet, Verhael, IV:151). Leal, no seu romance,
desconhece Bárbara (Leal, Calabar, passim).
26 Magtelt Daays. Engana-se o romancista Felício ao fazer Bárbara e o filho
morrerem em 1631 (Santos, Calabar, 97 e 102). Coelho, Memórias, 116.
27 Pastores no Recife no ano de 1634: Christianus Wachtelo (1630-1635) e Daniel
Schagen (1634-1637), este mais ligado ao exército.
28 Sobre Calado, ver J.A.G. de Mello, “Frei Manuel Calado do
Salvador,” Restauradores de Pernambuco (Recife: Imprensa Universitária,
1967). Era um religioso da ordem de São Paulo.
29 Calado, Lucideno, I:46-48. “E como se havia de entender aquela promessa
dos concêrtos, que ficaria a mercê d’El-Rei.” Calado justifica o não
cumprimento do “à mercê d’el-rei,” considerando o general Matias como
representante do rei. Varnhagen, História geral, I:263, “(Calabar)
esperançado talvez de ter algum meio de escapar-se, se em tempo de guerra
andassem com ele, de uma parte para outra, à espera de ordens da
metrópole.”
30 Enforcado, dizem Calado (Lucideno, I:47) e Coelho (Memórias, p. 264);
garroteado, diz Guerra (Aventura, 103). João Ribeiro, História do Brasil, 19ª
ed., rev. por Joaquim Ribeiro (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1966), 152:
“como é próprio da fraqueza humana, vingaram-se.” Mas parece que alta
traição exigia este tipo de execução (ver Laet, Verhael, III:107, o traidor
Leendert de Lom foi decapitado e esquartejado no Recife). O problema era o não
cumprimento total das cláusulas (escritas ou orais) da rendição, pois teriam
dado quartel a Calabar, “a mercê d’el-rei” (Calado, Lucideno,
I:46-48; Carta do governo no Recife aos Senhores XIX, 23-08-1635, prometido o
quartel.
Laet, Verhael, IV:169).
31 Calado, Lucideno,
I:46-48, com Calabar durante quatro horas pela manhã e mais três horas à tarde;
lágrimas e arrependimento. Leal se engana fazendo padre Manuel de Morais
confessor de Calabar (Leal, Calabar, IV:135).
32 Calado, Lucideno, I:47. Coelho, Memórias, 264 (22-07-1645), aguazil
(funcionário administrativo e judicial) dos holandeses em Porto Calvo. Castro
ou Crasto: Laet, Verhael, IV:162, Manuel de Crasto Fortado.
33 J. Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial, 4ª ed. (Rio de
Janeiro: Briguet, 1954), 155.
34 J. Veríssimo qualifica os motivos, sem mencioná-los: “Foram vis e
infamantes os móveis que o fizeram bandear-se” (“Os Hollandezes no
Brazil,” Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico
Pernambucano [RIAP] 54:127).
35 Ver Ruy dos Santos Pereira, Piso e a Medicina Indígena (Recife: Instituto
Histórico Pernambucano e Universidade Federal de Pernambuco, 1980), 23.
36 Calado, Lucideno, I:14, 46-48. Rodrigues diz sobre esse “saboroso
livro” (no Index, Índice de Livros Proibidos, de 1655 até 1910) que o
desejo de Calado “de ver o Brasil livre dos holandeses … conduziram-no
muita vez ao erro, à parcialidade, à falsidade.” Mas “foi uma
injustiça … quando (Varnhagen julgou a obra) defeituosa e sem dignidade
histórica”; José Honório Rodrigues, Historiografia e Bibliografia do
Domínio Holandês no Brasil (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1949), 11,12.
Boxer, Holandeses, p. 68, n. 34,35. Mello, Calado, 9: “É, não uma
história, mas o depoimento de um contemporâneo … a fim de influir sobre o Rei a
favor dos insurretos …” (1648).
37 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). Guerra: Coelho precisava de um bode
expiatório (Aventura, 79).
38 Varnhagen, História das Lutas, 58; História Geral, I:277. H. Wätjen, O
Domínio Colonial Hollandez no Brasil (São Paulo: Editora Nacional, 1938), 119:
“um trânsfuga,” sem mencionar motivos.
39 Southey, História, II:212, 239, n. 1. Francisco de Brito Freyre, Nova Lusitânia: História da
Guerra Brasílica (Lisboa: 1675; Recife: Secretaria de Educação e Cultura,
1977). Gioseppe di S. Teresa, Istoria delle Guerre del Regno del Brasile (Roma:
Corbelletti,1698), “compilação pouco estimável,” conforme Rodrigues
(Bibliografia, 147). Raphael de Jesus, Castrioto Lusitano (Lisboa: 1679;
Recife: Assembléia Legislativa de Pernambuco, 1979), na sua maior parte cópia
de Calado.
40 Guerra, Aventura, 94, 102.
41 Coelho, Memórias, 68, 120.
42 Ibid., 264 (22-07-1635). Nota 131: “Tradução literal do texto
espanhol.” A tradução (Melo Morais, 1855) rezava: “por sua
infidelidade e crimes.” Rodrigues avalia esta tradução como “indigna
de apreço pelos seus erros e omissões” (Bibliografia, 223, ítem 410). Leal
sugere que Calabar tentou organizar com uns cúmplices um desastre no Arraial
para acabar com a guerra, e teria fugido depois de pôr fogo na barraca do
general Matias (Leal, Calabar, II:104,132).
43 Ver Laet, Verhael, III:95 (Barra Grande, 09-1632); III:112 (Camaragibe,
12-1632); II:190 (descrição do litoral de Porto Calvo). Coelho, Memórias, 197
(Barra Grande, 04-1634).
44 Ver Schalkwijk, Igreja e Estado, 234, n. 81.
45 Como sobre a morte do almirante Pater envolvido na bandeira holandesa.
Varnhagem, História Geral, I:276 (n.V).
46 Boxer, Holandeses, 71, n. 38.
47 Guerra, Aventura, 79ss. Guerra, Calabar, 36.
48 Coelho, Memórias, 263 (19-07-1635: “o general assegurou [ao inimigo]
que arriscaria a sua própria pessoa para não perder das mãos a de
Calabar”); p. 264 (22-07-1635: “tão firme em não entregá-lo.”
Varnhagen, História Geral, I:263, “(Calabar) traidor por todos os séculos
dos séculos.”
49 Calado, Lucideno (1648), I:46. Opinião copiada ao pé da letra por Diogo
Lopes Santiago, História da Guerra de Pernambuco (1660?; Recife: Fundarpe,
1984), 92, e Raphael de Jesus, Castrioto Lusitano (p. 115). Assim também
Varnhagen, História Geral, I:263. Mas o próprio donatário reconheceu que os
holandeses fizeram muitos esforços para salvar a vida de Calabar: (Deus permitiu
que) “o nosso general estivesse tão firme em não entregá-lo, a despeito de
tamanhas instâncias que fazia o inimigo” (Coelho, Memórias, 264,
22-07-1635).
50 Calado, Lucideno, II:241: “se não foram os judeus …” Panfleto
Portugysen, 13.
51 Coelho, Memórias, 262 (17 e 18-07-1635).
Laet, Verhael,
IV:168.
52 Coelho, Memórias, 263
(19-07-1635). Brito Freyre, Nova Lusitânia, 349: “persuadindo-os a se
renderem, capitularam.” Não há provas do engano sugerido por Freyre.
Guerra, Aventura, 102, parafraseando: “O mameluco, ante a recusa de Picard
em atender a intimação do ‘terríbil,’ reagiu, e, com rara altivez e coragem,
retorquiu para o enviado do inimigo: ‘Ide e dizei ao General Matias de
Albuquerque que o Coronel Picard aceita a proposta’.”
53 Calado, Lucideno, I:32.
54 A Companhia reconheceu o valor de Calabar: o diretor De Laet escreveu que
esse homem corajoso e forte “fez mui grandes serviços” (Laet,
Verhael, IV:162,171). Nótulas Diárias do Governo no Recife, 13 de abril de 1636
(ver 24-01-1636). A viúva do pastor Stetten e seus filhos receberam uma ajuda
provisória (Nótulas Diárias, 12-07-1647), suspensa em junho de 1650 (carta da
D. Raquel à Stetten ao pastor P. Wittewrongel, de Amsterdam – Recife,
18-05-1652 (GAA-ACA 88, 4, p. 167-169).
55 G. Groenhuis, De Predikanten (Groningen: Wolters-Noordhoff, 1977),
36.
56 Coelho, Memórias, 120
(20-04-1632).
57 Ver J.A.G. de Mello, “A Situação do Negro sob o Domínio Holandês,”
em Gilberto Freyre e outros, Novos Estudos Afro-Brasileiros (Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1937).
58 Informações geralmente contidas nas “cartas gerais” do governo no
Recife aos Senhores XIX, 1630-1632 (ver o índice da coleção “Brieven en
Papieren” no Instituto Histórico no Recife; RIAP 30:129-144).
59 Pedidos de Hooghstraten ao Conselho Ultramarino em Lisboa para pagar o soldo
prometido (Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino, cod. 14:88 e 278:230v, de
28-09-1647 e 25-02-1649).
60 Boxer, Holandeses, 380-382. Muitas referências nos documentos holandeses.
61 J.A.G. de Mello, João Fernandes Vieira, 2 vols. (Recife: Imprensa
Universitária, 1967), I:105-127.
62 Abreu, Capítulos, 155.
63 Calado, Lucideno, I:48.
64 Southey, História, II:164.
65 Coelho, Memórias, 264
(22-07-1635).
66 Guerra, Aventura, 83: segundo Assis Cintra “[Aldiembert] ‘teria dito’
que Calabar, ‘apesar de ter sofrido injustamente dos seus patrícios por ser
mulato, tem recusado aceitar o nosso oferecimento de dinheiro e
honrarias’.” Guerra, Calabar, 42: Waerdenburch teria escrito à Holanda que
“(Calabar) só se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou-se a
recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado.” Ver o post scriptum
deste artigo.
67 Santos, Major Calabar, 107 (capitão Jouer de Haia, o “língua,”
tradutor), 113-115. Calabar era capitão, não major, ver Laet, Verhael, IV:162s,
em Porto Calvo, julho de 1635, Major Picard, Capiteyn Langley, Capiteyn van
Exel, Capiteyn Domingo Fernandes Calabar, Capiteyn Jan Muller.
68 C.R. Boxer, Race Relations in the Portuguese Colonial Empire,
1415-1825 (Oxford: Clarendon, 1963), 86-130; 1771.
69 Guerra, Aventura, 83:
Calabar “(sofreu) injustamente dos seus patrícios por ser mulato.”
Ver nota 66 e o post scriptum deste artigo.
70 Southey, História, II:164: “se o tratamento recebido dos comandantes o
desgostou.” Leal, Calabar, I:141, em um conclave com conspiradores, faz
Calabar dizer: “A minha raça é outra … Tolerais-me quando vos sou
útil” (II:100), e faz com que o futuro sogro de João Fernandes Vieira bata
com um ferro no rosto de Calabar, marcando-o (I:146; “ansiedade de vingança,
III:29; IV:104). Ambos, Vieira e Calabar, seriam apaixonados por Maria César
(I:141), sugerindo ainda outro motivo. Isso, porém, não é válido, pois Leal
desconheceu Bárbara (nota 25).
71 Santos, Major Calabar, 112s. Leal,
no seu romance histórico, não aproveita o desgosto geral contra Bagnuolo por
fazê-lo chegar depois da deserção de Calabar (Leal, Calabar, IV:54). Calado,
segundo Boxer, é um crítico muito escarninho de Bagnuolo (Boxer, Holandeses,
68, n. 35).
72 Brito Freyre, Nova Lusitânia, 240, 254.
73 Ver nota 57. Observe-se sobre o tratamento dos escravos, as instruções de
João Fernandes Vieira e as de Nono Olferdi para os novos colonos no Sergipe.
Schalkwijk, Igreja e Estado, 74, n. 81.
74 Também o índio Pedro Poti, membro da igreja cristã reformada, assina a sua
carta na língua tupí como “regedor (dos) brasilianos em Paraíba”
(31-10-1645). Talvez fosse bom usar de novo este nome arcaico, porém
honorífico, como coletivo para todas as nossas tribos indígenas em geral.
“Brasilianen,” passim nos documentos holandeses para as tribos tupis
(como tupinambás, potiguaras, sergipes, etc.), distinguindo-os dos tapuias
(nhanduis, cariris). Os (luso) “brasileiros” eram chamados
“portugueses” ou “moradores.” Calado, Lucideno, I:xvi,
“brasilianos” no sentido de “moradores.”
75 Abreu, Capítulos, 155.
76 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635).
77 Carta de Dom. (Rev.) Pistorius aos Senhores XIX, Recife, 04-11-1631.
78 Schalkwijk, Igreja e Estado, 231-235.
79 Calado, Lucideno, I:68s.
80 Schalkwijk, Igreja e Estado, caps. 12-15, sobre a liberdade religiosa nessa
época, mormente pp. 388-458.
81 Ver notas 25 e 26.
82 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). Brito Freyre, Nova Lusitânia, 350:
“com piedosas mostras de verdadeiro arrependimento e lágrimas constantes,
nascidas mais do temor de Deus que do receio do castigo.” Guerra,
Aventura, 103: “firme e seguro, sem denotar arrependimento,” ou seja,
não se sabe se considerou a “traição” como pecado.
83 O Catecismo de Heidelberg (1563) era estudado dominicalmente nas igrejas
reformadas. Havia no Brasil uma edição em espanhol, Catechismo (s.l.: Ioris van
Henghel, 1628, 135 p.), 1ª pergunta e resposta. Sobre Poti, Schalkwijk, Igreja
e Estado, 309.
84 Rodrigues, Bibliografia, 13. Brito Freyre (Armada: 1654; Governador:
1661-1664), Nova Lusitânia, 350.
85 Guerra, Aventura, 79-84, 103. Guerra, Calabar, 42, 69. Ver o post scriptum
no fim deste artigo.
86 Santos, Major Calabar, 99, 101 e 205. Capitão Jouer, ver nota 66.
87 A peça “Calabar” (com subtítulo de “O Elogio da Traição”
e músicas como “Bárbara”), de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra,
foi proibida em 1973 pelo governo militar, mas liberada em 1980. O alvo era
debater a figura do “traidor” por ocasião do sesquicentenário da
independência (Veja, 14-05-1980, pp. 60ss).
88 Laet, Verhael, III:98. Gaspar
Barlaeus, História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no
Brasil (Amsterdam: 1647; Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980),
39.
89 Abreu, Capítulos, 155. Muitos têm opinião semelhante, como Rocha Pombo, História
do Brasil, 7ª ed. (São Paulo: Melhoramentos, 1956), I:171; Southey, História do
Brasil, II:164: “não se sabe”; Hélio Vianna, História do Brasil (São
Paulo: Melhoramentos, 1961), etc.

Parte V
O SEGUNDO
MANDAMENTO
Há um certo
descompasso entre os Dez Mandamentos transcritos na Bíblia Sagrada e os
relacionados no Catecismo da Igreja Católica (C.I.C.), 9a edição, Editora
Vozes, 1998. Tal desencontro poderá gerar dúvidas e estranheza não só entre os
católicos, mas também entre os novos evangélicos provindos daquela denominação.
Para que a verdade prevaleça, elaborei o presente trabalho que poderá ser
enriquecido com as observações dos leitores. O Decálogo no C.I.C. está assim
redigido (páginas 548-650, itens 2083-2550):

Primeiro Mandamento – “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair da
terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim.
Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em
cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra.
Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás (Ex 20.2-5)” (o grifo
é meu).

Segundo Mandamento – “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em
vão (Ex 20.7)”.

Terceiro Mandamento – “Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo.
trabalharás durante seis dias e farás todas as tuas obras. O sétimo dia, porém,
é o sábado do Senhor, teu Deus. Não farás nenhum trabalho (Ex 20.8-10)”.

Quarto Mandamento – “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os
teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá (Ex 20.12)”.

Quinto Mandamento – “Não matarás (Ex 20.13)”.

Sexto Mandamento – “Não cometerás adultério” (Êx 20.14)”.

Sétimo Mandamento – “Não roubarás (Êx 20.15)”.

Oitavo Mandamento – “Não apresentarás falso testemunho contra o teu
próximo (Êx 20.15)”.

Nono Mandamento – “Não cobiçarás a casa de teu próximo, não desejarás
sua mulher, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem
coisa alguma que pertença a teu próximo (Êx 20.17)”.

Décimo Mandamento – “Não cobiçarás… coisa alguma que pertença a teu
próximo (Êx 20.17)”.

Observem que o primeiro e o segundo mandamentos foram arrolados num só, e o
décimo foi dividido em dois. Vejamos como estão na Bíblia de Estudo
Pentecostal, Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, o primeiro, o segundo
e o décimo mandamentos:

Primeiro Mandamento – “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo
20.3; Deuteronômio 5.7).

Segundo Mandamento – “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma
semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas
debaixo da terra. Não te encurvarás A ELAS nem AS servirás”. (as maiúsculas são
nossas). (Êxodo 20.4-5; Deuteronômio 5.8-9).

Décimo Mandamento – “Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás
a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o
seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”(Êxodo 20.17; Deuteronômio 5.21).

Não há razão para dividirmos em dois o mandamento de Êxodo 20.17. Trata-se de
um só enunciado, uma proibição específica de não cobiçar pessoas, animais e
objetos, e está expresso num único e reduzido versículo. O nono e o décimo
mandamentos são iguais no Catecismo por uma razão simples: como o primeiro e o
segundo foram unificados, ficou faltando um, o décimo. A solução foi criar dois
mandamentos iguais. O Vaticano assim explica:

“A divisão e a numeração dos mandamentos têm variado no decorrer da
história. O presente catecismo segue a divisão dos mandamentos estabelecida por
Sto. Agostinho e que se tornou tradicional na Igreja Católica. É também a das
confissões luteranas. Os padres gregos fizeram uma divisão um tanto diferente,
que se encontra nas igrejas ortodoxas e nas comunidades reformadas” (C.I.C. pg.
545, item 2066).

Para que não haja suspeição, vejamos os mandamentos numa Bíblia “católica”,
Edição Ecumênica, tradução do padre Antônio Pereira de Figueiredo, com notas do
Mons. José Alberto L. de Castro Pinto:

Primeiro Mandamento – “Não terás deuses estrangeiros diante de mim”
(Êxodo 20.3).

Segundo Mandamento – “Não farás para ti imagem de escultura, nem figura
alguma de tudo o que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem de
coisa, que haja nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás
culto” (O grifo é nosso). (Êxodo 20.4-5).

Décimo Mandamento – “Não cobiçarás a casa de teu próximo: não desejarás
a sua mulher, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu
jumento, nem coisa alguma que lhe pertencer”(Êxodo 20.17).

A Palavra de Deus não se altera ao longo da história, e não podemos modificá-la
por nenhuma razão. Convém esclarecer que nas Bíblias os mandamentos não estão
numerados, mas pelo enunciado é possível sabermos qual é o primeiro, qual o
segundo, e assim por diante. Mas isto é um detalhe. O cerne da questão está no
segundo mandamento. Incorporado o segundo mandamento ao primeiro, fortalece-se
a idéia de que as imagens proibidas estariam se referindo, somente, aos deuses
antigos. Daí porque o verso 5, no C.I.C., reforça essa idéia: “Não te prostrarás
diante desses deuses e não os servirás”.

É preciso notar que o versículo 4 refere-se especificamente a IMAGENS, e não a
deuses. O versículo 5 (“não te encurvarás/inclinarás a elas nem as servirás”)
encontra-se afastado do versículo 3 (“não terás outros deuses diante de mim”).
Os “deuses”, portanto, não são a essência da proibição do verso 4 e começo do
verso 5. Por isso, entendo que as versões que se reportam às imagens, e não aos
deuses, (“não as adorarás, não as servirás, não lhes darás culto”) são as mais
aceitas. São exemplos: Las Sagradas Escrituras-1569 (“No te inclinarás a ellas,
ni las honrarás”); Almeida Revista e Corrigida, 1995 (“Não te encurvarás a elas
nem as servirás”); Bíblia Linguagem de Hoje (“Não se ajoelhe diante de ídolos,
nem os adore”). A bem da verdade, convém registrar que diversas versões, quanto
ao versículo 5, fazem referência aos deuses, e não às imagens. Deuses e imagens
estão tão associados que a proibição de não prestar culto a um alcança
naturalmente o outro. Imagens e deuses são ídolos.
Aprouve a Deus destinar um mandamento só para referir-se às imagens, ídolos ou
estátuas, objeto de adoração, veneração, culto, honra, homenagens. Assim, Deus
descreveu quais as imagens que não deveriam ser objeto de culto. Deus exemplificou
para não haver dúvida. As imagens dos santos católicos estariam incluídas nessa
proibição?

ANÁLISE DE ÊXODO 20.4

“Não farás para ti” – Entende-se a posse do objeto quando destinado ao culto, à
homenagem, à prece, à veneração. Deus não condena as obras de arte, escultura
ou pintura de valor histórico e cultural.

“Nem alguma semelhança do que há em cima nos céus” – Não encontramos diferenças
relevantes de tradução nas versões consultadas. A proibição não alcança apenas
as imagens dos deuses, mas diz respeito, também, ao que existe nos céus: A
Trindade (Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo), os anjos e os salvos em
Cristo. Logo, estátuas de Jesus, dos santos apóstolos, de Maria, e de quantos,
pelo nosso julgamento, estejam no céu, não devem ser objeto de culto.

“Não te encurvarás a elas” – Deus proíbe qualquer atitude de reverência ou
respeito, tais como inclinar respeitosamente o corpo ou ajoelhar-se diante das
imagens; prostrar-se com o rosto no chão; tocá-las; beijá-las; levantar os
braços em atitude de adoração; tirar o chapéu; ficar em pé diante delas em
estado contemplativo. Enfim, Deus proíbe fazer qualquer gesto com o corpo que
expresse admiração, contemplação, fé, devoção, homenagem, reverência.

“Não as servirás” – Não servi-las com flores, velas, cânticos, coroas, festas,
procissões, lágrimas, alegria, rezas, vigílias, doações, homenagens, devoção,
sacrifícios, incenso. Não lhes devotar fé, confiança, zelo, amor, cuidados. Não
alimentar expectativas de receber delas amparo, curas e proteção. Não
colocá-las em lugar de destaque, em redoma ou em lugares altos.

A Igreja de Roma reconhece a proibição, mas decide por não acatá-la:

“O mandamento divino incluía a proibição de toda representação de Deus por mão
do homem. O Deuteronômio explica: “Uma vez que nenhuma forma vistes no dia em
que o Senhor vos falou no Horebe, do meio do fogo, não vos pervertais, fazendo
para vós uma imagem esculpida em forma de ídolo…”(Dt 4.15-16)… No entanto,
desde o Antigo Testamento, Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens
que conduziriam simbolicamente à salvação por meio do Verbo encarnado, como são
a serpente de bronze, a Arca da Aliança e os querubins. Foi fundamentando-se no
mistério do Verbo encarnado que o sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em
787), justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones : os de Cristo,
mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Ao se encarnar, o
Filho de Deus inaugurou uma nova “economia ”das imagens. O culto cristão das
imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. De fato,
“a honra prestada a uma imagem se dirige ao modelo original, e quem venera uma
imagem venera a pessoa que nela está pintada. A honra prestada às santas
imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma adoração, que só compete a
Deus. O culto às imagens sagradas está fundamentado no mistério da encarnação
do Verbo de Deus. Não contraria o primeiro mandamento” (C.I.C. pg. 560-562,
itens 2129-2132, 2141).

ANALISANDO AS EXPLICAÇÕES

“O mandamento divino INCLUÍA a representação de toda representação de Deus por
mãos do homem”.

O mandamento divino incluía? Não, mandamento inclui, está vigente. A cruz
não aboliu as Dez Palavras. As leis cerimoniais sim, foram abolidas. O Decálogo
é, no varejo, o que Jesus disse no atacado: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo
o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento”, e “Amarás o
teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22.35-40; Deuteronômio 6.5; 10.12; 30.6;
Levítico 19.18). Num coração cheio do amor de Deus e do amor a Deus não há
espaço para a adoração de pessoas ou de coisas. Em Mateus 5.17, Jesus afirma:
“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas
cumprir” (ARC) ou: “Não pensem que eu vim acabar com a Lei de Moisés e os
ensinamentos dos profetas. Não vim acabar com eles, mas para dar o seu sentido
completo.” (BLH). A seguir Jesus exemplifica o novo sentido à lei: se pensar em
matar, já pecou e descumpriu a lei; se pensar em adulterar, já pecou.

“No entanto, Deus ordenou… a serpente de bronze, a Arca da Aliança, os
querubins”…

A Arca da Aliança e os querubins passaram. Faziam parte de cerimônias e
símbolos instituídos por Deus, de acordo com sua infinita sabedoria e soberana
vontade, para melhor conduzir o povo em sua fé. Agora, vindo Cristo, temos “um
maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta
criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue…”
(Hebreus 9.11).
A serpente de bronze – símbolo tão zelosamente defendido pela Igreja de Roma –
foi um remédio específico para um mal específico numa situação especial
(Números 21.7-9). Agora, já não precisamos de figuras para nossos males físicos
e espirituais. Como disse João Ferreira de Almeida, “o poder vivificante da
serpente de metal prefigura a morte sacrificial de Jesus Cristo, levantado que
foi na cruz para dar vida a todos que para Ele olharem com fé”. O próprio Jesus
assim se manifestou: “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim
importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.14-15). Deus não recomendou o
culto, a homenagem ou a veneração à serpente. Por isso, o rei Ezequias, temente
e reto aos olhos do Senhor, destruiu-a ao perceber que o povo lhe prestava
culto (2 Reis 18.4). Ademais, não se vê em Atos dos Apóstolos qualquer indício
de uso de figuras, ícones ou imagens destinados a facilitar a compreensão e
conduzir os fiéis à salvação.

“… o sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou… o culto dos
ícones : os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os
santos. O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que
proíbe os ídolos. De fato, “a honra prestada a uma imagem se dirige ao modelo
original, e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela está pintada. A
honra prestada às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma
adoração, que só Não contraria o primeiro mandamento”.

Ora, se o mandamento proíbe o culto aos ídolos, então o culto aos ídolos é
proibido. Desculpem-me os leitores pelo óbvio. Portanto, o culto às imagens
contraria o mandamento. Se contraria, é pecado cultuá-las. O Concílio de Nicéia
justificou, mas são justificativas de homens. A Palavra é o padrão. A tradição
deverá ajustar-se à Palavra. A honra ao modelo original via imagem parte de uma
premissa falsa, porque as imagens não são em sua grande maioria cópias fiéis
dos originais, exemplos de Jesus, Maria, José e dos santos apóstolos. Seus
traços físicos não foram revelados nem por fotografias nem por pinturas.
Jeremias foi direto: “Suas imagens são mentira” (Jr 10.14).

“A honra prestada às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma
adoração, que só compete a Deus”.

Venerar: “Tributar grande respeito a; render culto a, reverenciar”; Culto:
“Adoração ou homenagem à divindade em qualquer de suas formas, e em qualquer
religião”. Adorar: “Render culto a (divindade); reverenciar, venerar,
idolatrar” (Dicionário Aurélio). Como se vê, é muito tênue a linha entre
honrar, venerar, adorar e prestar culto. Diria que não existe essa linha.
Vejamos o que Deus afirma: “Eu sou o Senhor. Este é o meu nome. A minha glória
a outrem não a darei, nem a minha honra às imagens de escultura” (Isaías 42.8).
Na Bíblia Linguagem de Hoje: Eu sou o Deus Eterno: este é o meu nome, e não
permito que as imagens recebam o louvor que somente eu mereço.” Na Bíblia
ecumênica, católica: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome: eu não darei a outrem
a minha glória, nem consentirei que se tribute aos ídolos o louvor que só a mim
pertence”.

OUTRAS REFERÊNCIAS<

“Não fareis para vós ídolos, nem para vós levantareis imagem de escultura nem
estátua, nem poreis figura de pedra na vossa terra para inclinar-vos diante dela.
Eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 26.1).

Ø “No dia em que o Senhor vosso Deus falou convosco em Horebe, do meio do fogo,
não vistes figura nenhuma. Portanto, guardai com diligência as vossas almas,
para que não vos corrompais, fazendo um ídolo, UMA IMAGEM DE QUALQUER TIPO,
FIGURA DE HOMEM OU DE MULHER…” (Deuteronômio 4.15-16). O destaque é meu.

“As imagens de escultura de seus deuses queimarás no fogo. Não cobiçarás a
prata nem o ouro que haja nelas, nem os tomarás para ti, para que não sejas iludido,
pois É ABOMINAÇÃO AO SENHOR, TEU DEUS” (Deuteronômio 7.25). O destaque é meu.

“As suas imagens de fundição são vento e nada” (Isaías 41.29b)

“Eu sou o SENHOR; este é o meu nome! A minha glória a outrem não a darei, nem o
meu louvor às imagens de escultura” (Isaías 42.8)

“Todo homem se embruteceu e não tem ciência; envergonha-se todo fundidor da sua
imagem de escultura, porque sua imagem fundida é mentira, e não há espírito
nela” (Jeremias 10.14).

“Arrancarei do meio de ti as tuas imagens de escultura e as tuas estátuas; e tu
não te inclinarás mais diante da OBRA DAS TUAS MÃOS” (Miquéias 5.13). O
destaque é meu.

“Também está cheia de ídolos a sua terra; inclinaram-se perante a OBRA DAS SUAS
MÃOS, diante daquilo que fabricaram os seus dedos” (Isaías 2.8). O destaque é
meu.

“Nada sabem os que conduzem em procissão as suas imagens de escultura, feitas
de madeira, e rogam a um deus que não pode salvar” (Isaías 45.20).

“Mas o nosso Deus está nos céus e faz tudo o que lhe apraz. Os ídolos deles são
prata e ouro, OBRA DAS MÃOS DOS HOMENS. Têm boca, mas não falam; têm olhos, mas
não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem; nariz têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas
não apalpam; têm pés, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta.
Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e todos os que neles confiam”
(Salmos 115.3-8). O destaque é meu.

“Eles trocam a verdade de Deus pela mentira e ADORAM E SERVEM O QUE DEUS CRIOU,
em vez de adorarem e servirem o próprio Criador, que deve ser louvado para
sempre. Amém” (Romanos 1.25). O destaque é meu. Anjos e espíritos humanos são
criaturas de Deus.

CONCLUSÃO

A proibição divina abrange:

Qualquer coisa (estátua, imagem, ídolo, presépio) produzida por mãos humanas.
Toda a criação de Deus (anjos, pessoas, espíritos humanos, corpos celestes,
animais).
Imagens de qualquer uma das três Pessoas da Trindade.
Está, portanto, contrário ao Segundo Mandamento qualquer culto de louvor,
adoração, homenagem ou veneração prestado às imagens representativas de pessoas
falecidas, qualquer que tenha sido o grau de santidade por elas alcançado na
vida terrena.

Parte V
Por que eu
Nasci? – Um comentário Antropológico

APONTAMENTOS SOBRE O LÓCUO 6 DO
LIVRO “DOGMÁTICA CRISTÔ DE CARL E. BRAATEN E ROBERT W. JENSON, SÃO PAULO:
SINODAL, 1990 – PP. 324-341
O SER HUMANO
Começaremos este estudo, justificando que foi escolhido o termo “co-criador
criado” para articular o que significa a humanidade sob a vontade de Deus. Este
termo, segundo o livro aqui comentado, fala de dependência, de poder e
autoridade dados por Deus e de liberdade dentro da finitude.

A questão do destino humano aparece-nos como uma compreensão primordial para
este estado humano de “co-criador criado”. Comenta-se que Nathan Scott aponta
corretamente para a intenção da estória cristã da humanidade: contar-nos quem o
ser humano realmente é e lembrarmos que toda a criação e Deus o Criador apóiam
os seres humanos em seus esforços para tornar-se mais plenamente o que são
criados para ser. A antropologia cristã expõe uma compreensão distinta de quem
e do que o ser humano é.

O ser humano é criado com um destino. Assim, o autor do livro, explica que foi
utilizado este termo “destino” para incluir as conotações de “vocação” ou
“chamamento”, bem como para apontar para um caráter intrínseco que constitui
uma dimensão da “natureza” criada do ser humano. Consequentemente, explica-nos
o autor, “destino” tem as nuanças de dom, determinismo, propósito e alvo. A
primeira tarefa da concepção distintamente cristã do ser humano é tornar claro
que o homo sapiens tem um destino, e que se trata de um destino elevado. A
Antropologia cristã não se isola de qualquer outra fonte de conhecimento sobre
o ser humano – das ciências, da experiência de todas as espécies, literatura ou
arte. O que a concepção cristã tem a dizer sobre o ser humano está no contexto
do conhecimento recolhido destas outras fontes.

Não obstante, não se pode permitir que conhecimento algum de outras fontes
oculte ou enfraqueça a seguinte asserção fundamental da fé cristã: como pessoas
criadas por Deus, somos seres cuja origem e destino estão vinculados com este
Deus. Tudo que é dito sobre as implicações da doutrina da criação ex nihilo
certamente aplica-se aqui: que o ser humano é causado, e não gera a si mesmo, e
que é criatura, não criador. E esta verdade comentada no livro Dogmática
Cristã, desemboca no fato de que, a menos que percebamos o destino divinamente
ordenado do ser humano, deixamos, desde o princípio, de compreender quem e o
que o homo sapiens é. Somente o pressuposto do destino elevado confere sentido
ao discernimento do pecado e do mal nos seres humanos.

Desta forma, sem o real conhecimento, ou talvez seja melhor colocar, o real
reconhecimento de seu estado real, o homem ou a mulher da atualidade está como
alguém que é condenado à morte em um julgamento que não compreende porque
cometeu um crime absurdo que não reconhece.

O tema através do qual reunimos as várias afirmações da tradição cristã sobre a
criatura humana e que expressa o sentido delas é o do co-criador criado. Este
tema, como o próprio autor de Dogmática Cristã o descreve, é novo em sua
formulação. Formalmente, o destino humano é levar à consumação a posição dada
ao ser humano na criação – colocado por Deus o Criador na posição preeminente
do ecossistema.

A espécie humana é claramente distinta de todas as outras espécies, mas também
está intimamente relacionada ao resto da criação. Esta relação é em parte
externa; o homo sapiens depende de todos os outros elementos do ecossistema,
assim com a espécie contribui reciprocamente para o mesmo ecossistema. Mas ela
é também interna. Os elementos do mundo, convergindo naquela “sopa primordial”
da qual surgiram todas as criaturas vivas, são os elementos do ser humano; cada
átomo do corpo humano esteve em outro lugar no universo antes que veio a
repousar no homo sapiens. Percebe-se com isto, a afirmação de que o homem faz
parte do todo do universo, das coisas criadas.

Mas, como exposto na obra aqui apreciada, o homo sapiens é distintivo no
tocante a seis características importantes: consciência, autoconsciência, a
capacidade de fazer avaliações, a capacidade de tomar decisões com base nestas
avaliações, a capacidade de agir livremente de acordo com estas decisões e a
capacidade de assumir responsabilidade por tal ação. Tal ação autoconsciente e
livre torna-se uma espécie de atividade criadora, um co-criador com Deus.
Porém, lembrando-nos dos nossos limites, diz-nos o texto o seguinte: os seres
humanos não podem atribuir-se arrogantemente o mérito de serem co-criadores;
foram criados co-criadores.

Ser co-criador significa que o homo sapiens toma parte consciente e
responsavelmente na formação do mundo e seu desdobramento em direção a sua
consumação final sob Deus. O criar de Deus é a norma para o co-criar humano –
não no sentido de que o homo sapiens deva igualar sua atividade à de Deus, mas,
antes, no sentido de que a atividade humana é perversa se não se qualifica
afinal como participação na extensão da vontade primordial de criação de Deus.
Expresso desta maneira, o status criado do ser humano é completamente
escatológico; isto é, é um desencadeamento, não um dado plenamente desenvolvido
que simplesmente tem de ser reiterado e copiado ao longo do tempo. O homem não
é um ser já completo em perfeição criativa e criadora, ele estava em fase de
desenvolvimento pessoal em Adão, que perdeu o rumo da desenvoltura humana
através do pecado, e que em Cristo, o modelo real e já perfeito, encontramos o
rumo para o pleno desenvolvimento, porém, com uma melhor visão, pois o nosso
modelo, Cristo, é o Homem com perfeição criativa e criadora.

Nos é sugerido, desta maneira, que este caráter de co-criador é o que significa
ser “à imagem de Deus”. Ser apto a tomar decisões autoconscientes e
autocríticas, agir com base nestas decisões e assumir responsabilidades por
elas – estas são as características das quais é composta a imagem de Deus em
nós.

Quando os seres humanos ponderam seu status de co-criadores, reconhecem que ele
inclui a liberdade de conceber ações e executá-las. Tornando assim, ao meu ver,
o ser humano mais responsável, aliás, Deus é Deus responsável por Seus próprios
atos, assim, como imitadores de Deus, devemos nos responsabilizar por nossos
próprios atos também! Há então a responsabilidade por viver com as consequências
da ação, ainda que comprovem ser indesejáveis.

Ser co-criador significa que precisamos continuar a viver com a decisão e
exercer nosso caráter de co-criadores responsáveis, que a decisão comprove ser
desejável ou indesejável.

Agora, provém disto uma questão também fundamental, como descrito na obra aqui
comentada, que é o fato de que tal decisão livre e responsável é limitada. Ao
exercer a imago Dei, ao por em prática nosso caráter de co-criadores,
esbarramos no fato de nosso ser-criado. Daqui vem a consciência de que, apesar
de sermos livres no ato co-criador, temos os limites impostos por sermos
criaturas!

Quando ponderamos tais considerações, vimos a saber que nosso pecado é tanto
nossa compreensível relutância em aceitar nosso status de co-criadores quanto
nossa execução falha de nosso caráter de co-criadores. Este pecado é tanto
original quanto atual.

Surge, desta discussão, uma outra problemática, que é a da condição primordial
do ser. Na atualidade é quase universalmente sustentado entre os teólogos que
as narrativas e conceitos que temos a respeito de Adão e Eva no paraíso são
lendas e mitos. A idéia de seres humanos vivendo em um abençoado estágio
primordial antes da queda é encarada como especulação poética, não como
história. Porém, poesia ou não, estes mitos nos contam muita coisa essencial à
antropologia cristã. Só uma criatura de estatura muito grande seria descrita
como “caída”. Como diz Tillich: “Simbolicamente falando, é a imagem de Deus no
homem que oferece a possibilidade da queda.
Somente aquele que é imagem de Deus tem o poder de separar-se de Deus.”
Toda a riqueza da criação, na terra e no mar, estava pronta, e ninguém estava
lá para compartilhar dela. Quando toda esta beleza natural estava formada,
então, e só então, era apropriado que o ser

humano entrasse
em cena. Falando sobre isto, Gregório de Nissa (século IV) diz: “…não era de
se esperar que o governante aparecesse diante dos súditos de seu governo; no
entanto, quando seu domínio estava preparado, o próximo passo era que o rei se
manifestasse. (…) Por esta razão o homem foi trazido ao mundo por último,
depois da criação…”

Não é popular, hoje em dia, falar do ser humano como “coroa da criação”. Mas,
partindo dos princípios expostos no capítulo aqui mencionado do livro Dogmática
Cristã, a conclusão a ser tirada é de que os seres humanos são dotados de um
nobre destino, mas também são investidos de grande responsabilidade, e desta
forma, creio poder referir-me ao homem como “coroa da criação”!

A imagem de Deus (imago dei) apresenta uma imagem fundamental do ser humano
como ser-com-um-destino. Alguns teólogos até sugeriram que o termo fosse
extirpado do vocabulário teológico, tão frustrante é sua interpretação. A
exegese de Gênesis é ela mesma o campo de batalha de variadas interpretações da
imago dei. Clauss Westermann arrola os seguintes grupos de opiniões existentes
na história da interpretação (porém, apoiando a quinta opção):

1) Aqueles que distinguem entre semelhança natural e sobrenatural com Deus;
2) Aqueles que definem a semelhança em capacidades ou aptidões espirituais;
3) Aqueles que interpretam-na como forma externa;
4) Aqueles que discordam incisivamente de 3;
5) Aqueles que interpretam o termo como denotativo de que o ser humano é o
correlativo de Deus, alguém que corresponde a Deus;
6) Aqueles que interpretam a imago como o status do ser humano como
representante de Deus na terra.

Os exegetas do N.T. muito pouco fizeram a respeito do termo, mas a principal
conclusão é de que Cristo é a imagem de Deus (eikon tou theou) e, portanto, a
imagem para dentro da qual são formados os seres humanos.
Podemos inferir na história do conceito, como nos é apresentado em Dogmática
Cristã, duas categorias, ou dois grupos de interpretações. No primeiro grupo,
podemos colocar os apologetas do século II, que identificavam a imago com a
liberdade da vontade, a capacidade para a bondade, a responsabilidade moral e a
razão, e também, o domínio humano sobre a terra.

O segundo grupo de intérpretes considera que a imagem de Deus se refere ao fato
da relação com Deus, de co-responder a Deus, de ser o correlativo de Deus, como
diz Westermann. Agostinho é o representante monumental desta posição, pois ele
aponta para o caráter trinitário da vida psíquica humana como uma grande
analogia (analogia entis) da via triúna de Deus. O ser humano não foi, como os
outros animais, “criado segundo a sua espécie”, mas, antes, criado à imagem e
semelhança de Deus. Por isso, Deus não disse: “Seja feito o homem”, mas antes:
“Façamos o homem”. Também não disse: Segundo sua espécie”, mas segundo “nossa
imagem” e “semelhança”.

Lutero, mencionando sobre este assunto, disse que Adão tinha a imagem de Deus
em seu ser e que não somente conhecia a Deus e cria que ele era bom, mas que
também vivia uma vida que era totalmente piedosa; isto é, não tinha medo da
morte ou de qualquer outro perigo e estava contente com o favor de Deus. Nesta
forma ela se revela no exemplo de Eva, que fala com a serpente sem medo algum.
A serpente é símbolo da morte, e antes do pecado, o ser não teme a morte, mas
teme a Deus, porém, depois da queda de Adão todos os homens propagados segundo
a natureza nascem com pecado, isto é, sem temor de Deus, sem confiança em Deus
e com concupiscência. Temor e confiança em Deus são os critérios da imago dei
por sua presença e do pecado por sua ausência. Desta forma, o homem sem a
imagem de Deus, caracteriza-se pelo pecado, e o homem que tem, por Cristo, a
imagem de Deus, é caracterizado pelo temor e pela confiança em Deus.

Lutero critica Agostinho e outros teólogos antigos porque suas descrições da
imagem de Deus fomentam “obras”. Westermann critica boa parte da tradição
porque ela fala de atributos ou qualidades da natureza humana como a imago em
vez da relação com Deus. E é assim que o dilema sobre a imago dei seguiu-se
história afora.
No desenvolvimento destas discussões sobre o homem, surge também uma questão de
importância fundamental à antropologia, que é a relação entre espírito e
matéria na criatura humana. A constituição do ser humano foi objeto de grande
preocupação para a tradição cristã. Gregório de Nissa expressa o pensamento de
muitos teólogos antigos ao falar do ser humano como fator intermediário entre o
âmbito terreno, animal, e o âmbito espiritual de Deus. Ao que parece, passa-se
a ver o homem como um intermediário, dentre a criação, entre Deus e as demais
coisas criadas.

Podemos resumir um volumoso corpo de material histórico dizendo que “espírito”
(pneuma, ruah) se refere em geral à própria vida, à distinção de “corpo”,
enquanto que “alma” (psyche, nefes) se refere a vida assim como ela ocorre em
um organismo particular, concreto, sendo este organismo o meio da ação da alma.
Todos os corpos humanos possuem espírito, e o espírito manifesta-se dentro da
alma do indivíduo.
Falamos de uma visão “tricotômica” ao falarmos de corpo, alma e espírito,
enquanto que uma visão “dicotômica” somente conhece corpo e alma. A concepção
dicotômica, segundo o livro comentado neste trabalho, tem prevalecido na
teologia cristã.
A “preexistência” sustenta que as almas vêm a este mundo a partir de algum
material de alma preexistente. E, penso eu, que este é até um dos motivos que
me levam a crer mais na “tricotomia” do que na “dicotomia”. Mas, Lutero, por
exemplo, já as contestou porque acreditava que a criatura humana é um ser
unitário perante Deus.

Em acréscimo a esta consideração teológica, a compreensão contemporânea do ser
humano e da estrutura da personalidade humana não permite uma perspectiva
dicotômica ou tricotômica, exceto metaforicamente. Requer-se uma perspectiva
evolutiva moderna. Espírito ou mente e corpo ou matéria são vistos como parte
do mesmo processo, e não como entidades separadas para a modernidade. Em termos
fisiológicos, o espírito é uma função do cérebro que não é nem imaterial nem
não-material, mas que é matéria na forma que pode tornar-se espírito. Robert
Francoeur descreve isto como uma espécie de “monismo evolutivo”.

Para os teólogos na tradição da Reforma, o ser humano é uma criatura una, uma
criatura da natureza, criada com uma relação especial com Deus o Criador e com
a capacidade de perceber esta relação e de viver uma vida de resposta a Deus.
Mas, desencadeou-se, daqui, um outro fator conflitante, mencionado neste livro
Dogmática Cristã, que é a complexidade do homem com a queda e o pecado original
(“status corruptionis” – estado de corrupção).

Conforme o mito da queda, a imago dei está parcialmente intacta mas gravemente
danificada, de forma que uma restauração se faz necessária. Algumas importantes
tradições orientais, tais como as da Igreja siríaca, consideravam o pecado uma
causa da queda, não sua consequência. Seguindo por este ensinamento, chegamos a
uma resposta impressionante, talvez mais do que impressionante, exótica, que é
a conclusão, então, que primeiramente Adão perdeu a imagem de Deus, daí sim,
pecou. Tais concepções são estranhas à tradição ocidental e à teologia da
Reforma em particular.

O pecado e o mal não devem ser identificados com a humanidade, mesmo após a
queda. Para os luteranos, isto é afirmado no primeiro artigo da Fórmula de
Concórdia. Para Johann Gerhard, é quando a imago se refere à justiça e
santidade que a imagem de Deus é perdida na queda.

Surge, daqui, a necessidade de restauração. Deus, em Jesus Cristo, restaurou a
humanidade à reconciliação com seu Criador. A recuperação da dimensão da
escatologia na fé cristã, que teve lugar desde 1900, nos lembrou que a
restauração da humanidade não é um retorno ao Éden. Pois ao que percebe-se, o
qual já foi comentado acima, Adão não era perfeito, estava se desenvolvendo
quando foi barrado pelo pecado, enquanto Cristo venceu o pecado e a morte,
tornando-se em tudo o modelo perfeito e completo à nossa restauração final.
As contestações à antropologia cristã, comentadas na obra aqui apreciada, são
de grande valia para o desenvolvimento deste assunto. A concepção cristã do ser
humano é atacada de todos os lados. E, vejo que quando somos atacados, pensamos
em nos defender, e assim, surgem as certezas diante das dúvidas.

Uma das contestações mais perversas e potencialmente devastadoras, vem da
incapacidade amplamente difundida de aceitar a elevada concepção do destino
humano como o expõe a teologia cristã. Dogmática Cristã menciona aqui duas
fontes desta contestação: o conhecimento científico emergente e a concepção de
que o mal é intrínseco à natureza humana.

Nosso conhecimento emergente de nós próprios desafia nossa capacidade de
aceitar-nos como criaturas à imago dei. Pensamos nas descrições de Gregório de
Nissa: pureza, liberdade, da paixão, amor, intelecto. Podem os seres humanos
olhar hoje para si mesmos e ler a imagem de Deus a partir da lista destes
atributos?
Assim, o autor do livro aqui comentado assevera que, dizer, com os luteranos e
com Westermann, que uma olhadela introspectiva em nós mesmos nunca revelará
atributos da imago, que precisamos, em vez disso olhar para a nossa relação
total com Deus enquanto criaturas correspondentes, que dependem de Deus e ainda
assim se rebelam contra a dependência – também isto não é de muito auxílio em
nosso dilema. Enquanto nos virmos em toda a nossa complexidade servindo a
mecanismos imediatos de sobrevivência, em níveis diversos, não será possível
ver-nos como criados à imago dei.

Muitos críticos acusaram o cristianismo de uma irresponsabilidade ecológica
essencial, quer com respeito ao ecossistema natural e físico, quer com respeito
à rede intrapessoal de relações. A antropologia cristã foi acusada de
antropocentrismo, de uma preocupação por dominar (às vezes em atitudes
destrutivas, irresponsáveis) e de uma compreensão de que nada tem valor além do
ser humano.

Porém, como nos é assegurado no livro que cá comentamos, estão em andamento
esforços para remodelar certos aspectos da concepção cristã na direção da
responsabilidade ecológica em relação ao mundo físico e ao mundo dos seres
humanos à nossa volta. De forma alguma devemos separar-nos dos ecossistemas em
que vivemos, nos movemos e temos nosso ser. Para muitos cristãos, não é coisa
fácil manter a glória de Deus como Criador e, ao mesmo tempo, reconhecer o mérito
dos processos imediatos da criação.

Um dos problemas mais lamentáveis na tradição cristã de pensamento é o da
sexualidade e das relações entre sexos. Há pouca dúvida de que com demasiada
frequência a sexualidade e a relação homem/mulher são descritas de formas que
rebaixam o corpo, o elemento físico da vida humana, e a mulher. Gregório de
Nissa escreveu que, já que Paulo nos escreveu que em Cristo não há homem nem
mulher, a criação original não deve ter incluído diferenciação sexual. Já que o
protótipo do ser humano, Cristo, não permitiu a sexualidade, a diferenciação
sexual deve ser subsequente à queda, juntamente com a multiplicação sexual.
Gregório ainda diz que a sexualidade existia no Éden, mas era governada pela
vontade, não pelo desejo ou pela paixão. O desejo sexual no casamento não era
pecado, mas era o transmissor do pecado. Martin Chemnitz parafraseia Agostinho
na seguinte passagem e aceita as idéias de Agostinho como normativas: “No
matrimônio há duas coisas que são boas e de ordenação e de instituição divinas,
mas há também um desejo no casamento sem o qual não há multiplicação, e por
causa deste desejo as crianças nascem em pecado.” A partir desta idéia, o
pecado original parece ser passado de pessoa a pessoa no ato de desejo sexual.
Aqui eu gostaria de fazer uma pergunta aos “sacerdotes” romanos: “se, apesar de
conseguir-se viver no celibato, não se consegue extinguir o desejo, como dizer
que um padre, ou até mesmo o papa é melhor do que outro homem qualquer?” desta
maneira, os problemas que teve nossa tradição ao interpretar as relações
homens/mulheres são bem conhecidos.

Enfim, este capítulo do livro Dogmática Cristã termina, dizendo seu autor que,
como sugeriu o exame em seu livro, o ser humano foi criado material e este
material desenvolveu o espírito. Denegrir o terreno é enfraquecer os
fundamentos materiais do espírito. E ele ainda reconhece que esta percepção
ainda precisa ser incorporada de uma forma lúcida, que possa capacitar a
doutrina cristã a conceber a unidade espírito-matéria da criação.

“Se o homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável”
(Sêneca, filósofo latino, 4 a.C. – 65 d.C.)

Parte VII
A Igreja é
de Cristo, já a Política… Bem, a Política é nossa!

Breve comentário sobre
antropologia social
APONTAMENTOS
SOBRE O LIVRO “ÉTICA & ESPÍRITO PROFÉTICO: REVISANDO A HISTÓRIA COM PAUL
TILLICH” – DE JORGE PINHEIRO. 1ª ED. SÃO PAULO: COLEÇÃO IGREJA SEM FRONTEIRAS,
2002

INTRODUÇÃO

Jorge Pinheiro acredita que a teologia tem algo a dizer sobre a realidade
brasileira. E assim, justifica esta obra, dizendo que seu objeto é o pensamento
político da Convergência Socialista, conforme expresso no jornal Versus.
Referindo-se à metodologia do seu trabalho, Jorge Pinheiro diz que sua obra tem
por base os escritos socialistas de Paul Tillich, sendo assim, a idéia-chave,
como ele mesmo escreve, é a ética em Paul Tillich.

Paul Tillich definirá o homem do século 20 como autônomo, mas inseguro dentro
de sua autonomia. Partindo deste princípio, o professor Jorge Pinheiro diz que,
metodologicamente, a sua intenção foi compreender a relação que Tillich
construiu entre ética e conceitos como espírito de profecia, autonomia e
teonomia, e o papel das massas na transformação social.

I. TEOLOGIA E SOCIALISMO

O professor Jorge começa explicando que para Paul Tillich, o protestantismo
existe onde quer que se proclame o poder do novo ser. É aí que se encontra o
protestantismo e em nenhum outro lugar. E diz que talvez, a maioria das pessoas
experimente, hoje em dia, a situação-limite mais fora do que dentro das
igrejas.

Diversos
mestres, diferentes poderes cósmicos, reinam em tempos diferentes, e o Senhor
que triunfa sobre anjos e poderes, reina no tempo pleno de destino e de
tensões, que se estende entre a Ressurreição e a Segunda Vinda, esta é a
formulação de Jorge Pinheiro sobre o andamento histórico dos planos de Deus.

Para que fique melhor compreendido, Jorge Pinheiro assevera que o conceito de
situação-limite, que se traduz como ameaça final à existência, é o diferencial
do protestantismo. Desta forma, a justificação pela fé é, então, melhor
entendida a partir da situação-limite. Por isso, toda ética transporta a Deus e
ao mundo, que em última instância são o bem decisivo de nossa existência
concreta.

Jorge lembra-nos também que o cristianismo não pode ser identificado com um
tipo determinado de organização social em detrimento de seu caráter
transcendente e universal. E ainda afirma que é exatamente por isso que
apresenta-se como “capenga” toda forma de cristianismo que se fecha na pura
interioridade. Para ele, a ética do amor faz a crítica da ordem social que está
erigida sobre o egoísmo político/econômico, e proclama a necessidade de uma
nova ordem, na qual o sentido de comunidade seja o fundamento da organização
social.

Vista assim, Jorge Pinheiro diz que a ética do amor prega a submissão dos
povos, sejam ricos ou pobres, à idéia do direito, e à construção de uma
consciência comunitária, soldada sobre a paz, que leve a um internacionalismo
real entre as nacionalidades. Referindo-se à história da Igreja, tanto no
passado como no presente, Jorge diz que esta é passível de muitas críticas,
pois a situação criada pela igreja em alguns pontos da história, facilita e
potencializa a pregação do ateísmo e do materialismo.
Jorge Pinheiro afirma que é do interior do cristianismo que brota o socialismo
e que um socialismo sem estes pressupostos é uma “quimera”, e que aqueles que
defendem o socialismo devem defender também os princípios sobre os quais ele
repousa.
Explicando sobre a autonomia, o professor Jorge diz que, do lado positivo, ela
significa o reinado da razão. E a vida econômica também deve ser formulada
racionalmente. Assim sendo, o professor diz que o que fica claro é que
autonomia e socialismo são processos históricos que se complementam, mas que
não são idênticos. Desta forma, os elementos formadores do movimento socialista
são fundamentais para a compreensão das relações entre cristianismo e
socialismo. Eles abrem a possibilidade para um diálogo construtivo entre cristianismo
e socialismo.

Quanto ao protestantismo, Pinheiro diz que este quebrou o sistema de autoridade
em seu princípio-base e deu voz à autonomia. As fórmulas pela graça somente e
pela fé somente transportam juntas vida e espírito ao domínio do conhecimento e
rejeitam todo legalismo, todo farisaísmo de ter a posse da verdade absoluta e
de querer impor tal verdade aos outros. Assim, o cristianismo traduz uma
vontade de dar forma ao mundo de maneira imanente: o reino de Deus vem ao
mundo.

E, é com a experiência da imanência que surge mais claramente a oposição entre
o socialismo e o cristianismo, já que o cristianismo está comprometido,
enquanto religião, com o lá em cima, e o socialismo voltado para o aqui
embaixo. Porém, lembra-nos Jorge Pinheiro que esta oposição não está correta,
pois o espírito religioso está vivo no movimento socialista: é uma vibração
religiosa que circula através das massas.
Uma pergunta muito importante, feita aqui, é a seguinte: “que relação existe
entre o tempo presente e o espírito profético?” A resposta que é nos dada pelo
seu autor é que o tempo presente seria, então, parte de uma situação mais
geral. O momento presente estaria enquadrado no caminhar do processo histórico.
Partindo daqui, pode-se dizer que existiram homens que interpretaram a situação
espiritual de uma época dada. Eis aqui, para Jorge Pinheiro, o ponto de
interseção entre o tempo presente e o espírito profético. Os profetas nada
fazem sem invocar a tradição, no entanto, sua grande mensagem são os novos
tempos. Os profetas sabiam se servir do passado para as necessidades do
presente. Eles não eram saudosistas com mensagens anacrônicas, mas eram
participantes da história como um processo que se desenvolve, que evolui, e não
regride.

A referência ao Kairos significando tempo concluído, o instante concreto e, no
sentido profético, a plenitude do tempo, a irrupção do eterno no tempo,
leva-nos a considerar este tempo como aquele de uma decisão inevitável, de uma
responsabilidade inelutável, na verdade, é considerá-lo enquanto espírito da
profecia. Tillich mostra, a partir daqui, que reação e progresso estão
entrelaçados na consciência de kairos, e que é esse entrelaçamento que leva ao
caminho da utopia. Sem o espírito utópico não há protesto, nem espírito
profético. A idéia do kairos nasce da discussão com a utopia. Assim, a
realização da visão profética se encontra além do tempo, lá onde a utopia
desaparece, mas não a sua ação. Isto implica em que, segundo Tillich, toda
mudança, toda transformação exige uma compreensão do momento vivido que vá além
do meramente histórico, do aqui e agora.

Agora, falando sobre a massa, Jorge diz que, em termos formais, ela consiste
numa associação de pessoas que, na associação, deixam de ser indivíduos. Sua
individualidade se perde e ele se submete à coletividade. Assim, a massa não
sabe porque faz aquilo que faz. A massa é imediata, vive inteiramente o
presente, sem ligações com o passado ou o futuro, sem lembranças ou reflexões.
Suas motivações são irracionais. E por isto, o professor Jorge Pinheiro nos
alerta que, a amplificação pode levar ao monumental e ao heroísmo, mas também
ao demoníaco e à destruição. Quando objetivamente a massa vive esse processo de
espiritualização, nela, religião e cultura se misturam. A esse primeiro momento
de evolução da massa Tillich chama de massa mística. Uma Segunda etapa é
marcada pela autonomia da cultura. A partir daí surge a perspectiva de uma
etapa final, onde a massa e a individualidade pessoal formarão uma nova união,
uma síntese nova, chamada massa orgânica e daqui cria-se a massa dinâmica, que
é sempre revolucionária. Estes movimentos são sempre considerados como
movimentos de libertação.

II. O VERSUS SOCIALISTA

O jornal Versus era um mensário de inspiração cutural-existencial, com uma
proposta de ação através de uma cultura de resistência, mas foi reelaborado com
uma linguagem mítica. Suas informações não passavam pelo crivo da censura. Este
jornal foi criado pelo jornalista gaúcho Marcos Faerman. O primeiro número saiu
em outubro de 1975 e tinha um imaginário de esquerda. Em janeiro de 1978, o
jornalista Jorge Pinheiro, recém chegado do exílio, entra para o jornal.

A greve no ABC, publicada pelo jornal Versus, é vista, entre as outras, como um
processo de ajuda à transformação social. Era uma forma de não aceitar as
forças demoníacas daquele tempo.

Na luta contra os deserdados, Versus diz que o homem branco pregou, por muito
tempo, a doutrina vazia da fraternidade, que não significa mais do que o negro
aceitar passivamente o seu destino. E era contra esse comodismo que o jornal
queria alertar.
Quanto a busca de novos conteúdos, Jorge Pinheiro menciona que não existe
conceito que não seja ameaçado pela esclerose, porque todo processo de vida tem
tendência a envelhecer. Por isso, são as tensões que desafiam os processos a se
superarem e manterem-se vivos. E, um movimento histórico está morto se ele está
apenas consigo mesmo, quando não pode se separar de si mesmo, nem ir além de si
mesmo. Partindo-se deste princípio, o movimento histórico deve superar-se
mediante a dialética progressiva com as situações imediatas e passadas. Os
velhos crentes, segundo Jorge Pinheiro, essa cúpula sacerdotal, conduzem ao
endurecimento e às idolatrias.
Mas, o novo, o futuro, a mudança não gera riscos? Perguntaríamos! Sim, mas, o
risco, para Jorge, nunca deixa de existir, porque viver é avançar no
indeterminado. Assim, surgem dois pensamentos sobre esta situação:

1) O radicalismo – onde o risco é bem diferente. O radicalismo é uma idolatria
de signo contrário. Nega a tradição e deseja arriscar porque acredita que no
risco está a realização daquilo que espera. É mais, ao que parece, um movimento
irresponsável;
2) A ortodoxia – não arrisca em hipótese alguma. Se prende aos conceitos porque
procura aquele lugar onde a mobilidade é menor.

Em meio a estes dois pensamentos, qual a melhor posição? Percebe-se que,
segundo Jorge Pinheiro e também Paul Tillich, a melhor postura será a de
mediação. Esta postura é a que deve ser tomada no socialismo religioso. E este
movimento é mais que um movimento político. Na realidade, é um movimento mais
profundo do que imaginamos, e quando percebemos a sua profundidade, diz Jorge
Pinheiro, percebemos também sua universalidade.

III. SOCIALISMO E CRISTIANISMO

Jorge diz que o Versus socialista tem uma clara e expressa empatia com o
cristianismo. E ainda menciona que Luther King, conhecia o pensamento de
Tillich, sendo ele muito mencionado com admiração pelo jornal Versus.
Se assim é, o professor Jorge Pinheiro diz que o cristianismo está eticamente
obrigado a fazer uma escolha: ou participa do processo, inspirado e atuando a
favor desse desenvolvimento ou se retrai e entra em processo de caducidade, ao
afastar-se da vida real das comunidades nas quais está inserido. O grande
pecado da sociedade atual, para Versus, chama-se sistema capitalista. E é
contra este pecado social que a igreja deve ajudar a lutar.
Apesar de o socialismo e o proletariado estarem muito unidos, Tillich não
idolatra este último! Na verdade, como mencionado no livro ao qual estou a
comentar, não se pode erigir o proletariado em messias ou ainda fazer
positivamente da situação proletária o lugar de onde sairá a solução para o
problema do sentido. A luta proletária, com isto, torna-se um dos meios de
transformação da sociedade, e não a base.

IV. DIANTE DA SITUAÇÃO-LIMITE

A afirmação feita por Jorge Pinheiro, neste capítulo, é de fundamental
importância, quando ele diz que é impossível buscar o sentido da vida sem fazer
a defesa da vida. E, assim como cita o jornal Versus, em agosto de 1978, a
assistente social Maria Benedita Salgado Arcas, já denunciava: “O problema não
é o menor abandonado, mas as famílias abandonadas. O verdadeiro problema é a
carência das famílias.” Assim, é dito a cada um de nós, no livro Ética &
Espírito Profético que, era necessária uma transformação da estrutura
sócio-brasileira.

O nome de Lula, líder sindical metalúrgico, segundo Jorge Pinheiro, começou a
ser conhecido no país no dia 12 de maio de 1978, a partir da cidade de São
Bernardo do Campo, em São Paulo. Versus de outubro de 1978 afirmava que depois
de muito tempo, 14 anos, os trabalhadores conquistam um direito que sempre foi
seu: greve. A importância dessas greves, segundo Versus, é que elas conseguem
levantar um protesto operário ligado à luta de classes. E a luta de classe,
conforme diz Jorge, é uma realidade demoníaca enquanto tendência destrutiva do
sistema.
A única coisa que o trabalhador tem em mãos, para Jorge Pinheiro, é a sua
união. E, quando o trabalhador se une com outros trabalhadores para protestar
contra a sua situação, ele se sente um combatente do reino de Deus, conforme
Tillich, ele se sente investido de uma condição messiânica, para ele e para a
sociedade de conjunto. Desta maneira, Versus fomenta os trabalhadores a que se
organizem em partido para enfrentar politicamente o regime militar.

O princípio profético e o marxismo, para Jorge Pinheiro, partem de
interpretações capazes de ver sentido na história. Com isto, o professor
diz-nos que há um desafio ético, apaixonado, referindo-se ao pensamento de
Tillich, das formas concretas de injustiça, que levanta um protesto, o punho
ameaçador, contra aqueles que são responsáveis por este estado de coisas.
Concluindo esta linha de pensamento, Jorge Pinheiro afirma que tanto o profetismo
como o marxismo acreditam que a transição do atual estágio da história em
direção a uma época de plena realização se dará através de uma série de eventos
catastróficos, que culminará com o estabelecimento de um reino de paz e
justiça.
Comentando-se sobre o homem, existem duas visões sociais análogas apresentadas
em Ética & Espírito Profético:

1) O marxismo – onde o homem não é o que deveria ser, sua existência real
contradiz seu ser essencial, explica Tillich. A idéia da queda está presente no
marxismo;
2) O cristianismo – o ser humano alienou-se de seu destino divino.

E ambas vêm o homem como ser social, responsável pelo bem e pelo mal.

V. A INTELIGENTSIA E O PT

Até meados de 1978, o Versus propunha a construção de um Partido Socialista.
Mas, a partir das greves do ABC, Versus passa a defender a formação de um
Partido dos Trabalhadores, sem patrões. Eles apostavam, com isto, num tempo
“kairótico”.
O trabalhismo é apresentado neste ponto como uma espécie de irmão gêmeo do
sindicalismo. Diante disto, Jorge Pinheiro vê a necessidade de reintegrar o
contingente marginal da população à vida do País. Afirma-se também, conforme o
exposto no livro aqui comentado, que não se pensa em defender partidos
sectários.
O problema de Versus, como expõe Jorge Pinheiro, é que, por este jornal ser
marxista, não entendia que a corrupção estava também localizada nas profundezas
do coração humano.

VI. ÉTICA E ESPÍRITO PROFÉTICO

Jorge Pinheiro assevera-nos que não se pode fundar uma ética protestante apenas
sobre o terreno da individualidade. Diz ainda que, não podemos esquecer que o
cristianismo tem mais afinidades com o socialismo do que com qualquer outra
forma de organização social. E, na união de cristianismo e socialismo, chega-se
à conclusão de que, a partir do amor cristão, vemos que o ser humano não foi
criado para a produção, mas a produção para suprir necessidades humanas.
O socialismo como um ideal ético que traduz anseios e esperanças dos mais
variados setores da sociedade, conforme Jorge, pode ser aceito e ajudado pelo
cristianismo. Pois o kairos cristão é, em sua essência, aquele que faz a
irrupção no tempo, sem contudo fixar-se nele. Essa é a massa mística, comentada
anteriormente, a qual Tillich descreve.

Diante do protesto, Jorge Pinheiro fala-nos que o protestar e o clamor do
profeta não são vida, mas visam restaurar a vida sob ameaça na situação-limite.
Diante desta situação, o profeta não é aquele que põe um fim em uma posição
social em detrimento a outra, mas sim, é antes de mais nada, aquele que medeia
as posições mostrando um comportamento existencial comprometido com o bem
social.
Um bom lembrete dado em Ética & Espírito Profético é que o Partido dos
Trabalhadores não estava nos planos do governo. E é por este fato de o PT ter
surgido como o elemento surpresa, que ele é considerado, por Jorge Pinheiro,
como algo que surgiu dentro do kairos.

CONCLUSÃO

Assim, o PT é visto pelo professor Jorge Pinheiro, como o fruto de um momento
especial, o tempo qualitativo (kairos). A construção deste partido, dependeu
exclusivamente das atitudes dos próprios trabalhadores. Enfim, em 16 de junho
de 1979, diante desse momento histórico, desaparece o jornal Versus.

    

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